quarta-feira, 24 de maio de 2006
Um farol de felicidade
Encontrei-a dezassete anos depois, bonita, jovial, entusiasmada. Irradiava alegria pelo que fazia e bem estar no que vivia. A dois metros de nós estava um, a fazer esforços para fingir eficazmente que não me conhecia. Outro, inopinado, apertou-me a mão circunstancialmente no «como está» seco e convencional. Respondi um «olávocêcomovaibemobrigado», aquela frase magnífica com a qual fica logo tudo despachado. Por momentos percebi o que é ser feliz. É algo de irradiante, como se uma incandescência nocturna e encandeante.
segunda-feira, 22 de maio de 2006
Melhor vida
Nm quadro impressionante que está exposto no Museu das Janelas Verdes está o retrato de uma velha de lábio mirrado e olhar oblíquo, de refogado ressentimento. Estão lá as datas do nascimento e morte. A propósito de morte diz-se que foi «para melhor vida». Olhando-a antes de sair, só poderia concordar. «Melhor vida» para ela e para os outros seguramente. Basta olhar para a cara.
sábado, 20 de maio de 2006
O reduto último
Esta noite não ouvi os pássaros que cantam por aqui em frente pelas quatro da manhã. Foi uma noite sem pássaros e sem canto, sem gorgeios e sem piares. Esta noite não vi outra coisa mas só a escuridão do dormir, onde nada se ouve e onde nada nos dizem. É o reduto íntimo último da nossa privacidade, dormimos connosco na ilusão da companhia.
domingo, 14 de maio de 2006
Cada criatura humana
Continuo a ler os «papéis avulsos» do Machado de Assis, onde descobri que «cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro». A observação é interessante, a consequência sinistra. No caso, fardado o homem de alferes, o alferes eliminou o homem. Bem podia a patusca tia Marcolina, inconsolada viúva de capitão, embeiçada pela farda, abraçá-lo, achando-o, deleitada, uma bonito rapaz, e jurar, ambígua, que não havia em toda a província outro «que lhe pusesse o pé adiante». Achando-o sozinho, «nenhum fôlego humano em redor», enfim, «entre galos e galinhas tão-somente, um par de mulas que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois», despido enfim de alferes, o homem descobriu, pela alma interior, que a melhor definição do amor «não vale um beijo de moça namorada».
sexta-feira, 12 de maio de 2006
A lousa de uma vida
Talvez porque um meu amigo me tenha dito que a minha escrita lhe tenha lembrado a do Machado de Assis. Talvez por eu não conhecer o Machado de Assis. Talvez mesmo porque ontem, ainda encontrei, depois do jantar, meia-hora para ir a uma livraria e nela estava um edição comprimida de um livro que o Assis escreveu e de que o meu amigo mandara vir de propósito do Brasil, uma versão original e ainda por cima ilustrada com ironia. Talvez por tudo isto. Talvez por ter acordado de madrugada, com meia-noite mal dormida, ainda li um dos contos desse livro, que se chama «Papéis Avulsos». O conto é curto, mas eu não tive tempo para mais. Agora, talvez como quem bate, aos murros, à porta de toda a gente aqui da rua primeiro e da cidade depois, para os acordar, a meio desta noite, como se fosse a última noite, aqui estou. Cito do «Verba testamentária». É o últimos dos contos, mas sucede-me, muita vez, ler livros de contos do fim para o princípio: «Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito». Acordem, pois, todos os que se zangam comigo! Nada é definitivo. A minha vida, breve que seja, é tudo, afinal, «obra de lápis e esponja».
quinta-feira, 11 de maio de 2006
O hipnótico mundo dos quês
Esgotado de sono e sem conseguir dormir, tentei adormecer. Para me tranquilizar comigo tentei ler. Há quem beba leite quente. Voltei ao «Na tua face» do Vergílio Ferreira. Vou mais adiante já do que na página 143. Mas voltei lá, porque tinha sublinhado: «O homem é um animal que chegou ao extremo de se perguntar porquê e para quê. Tendo hoje conseguido ver que que não há nenhum para quê nem porquê, todo o seu esforço deve ser não perguntar mais e ser feliz». Não sei porque leio isto e muito menos para quê. Por causa disse, adormeci, enfim.
quarta-feira, 10 de maio de 2006
E a natureza sou eu
Tinha voz rouca, falava brasileiro e cantava. Bem disposto, inteligente, vivo de expressão, ágil de pensamento. Não sei quem é. Ouvi-o ontem na rádio, por um acaso. Dizia, falando de si e dos seus: «o meu pai que era pobre por natureza». Nunca tinha ouvido tal coisa, pobre por natureza. Como se isso fosse, e há quem, uma certa maneira de ser.
domingo, 7 de maio de 2006
Um livro finalmente na montra!
O autor deste blog, por falar em janela, quase que se defenestrou em alguns momentos da escrita de um livro que, finalmente, está pronto e para o qual estão convidados todos os que comigo compartilham estes momentos. Para simplicar, digo aqui do que se trata. Depois, de link em link, o leitor percebe os pormenores.
sexta-feira, 5 de maio de 2006
As três da vidairada
Eram três a uma mesa, numa hora já tardia para se almoçar. Coscuvilhavam a vida alheia, num tric-tric martelante, quais máquinas de costura a pedal. Uma, esgalgada de formas, com ar seráfico de confessionário, intrigava uma colega, ausente, ratando-lhe as intimidades. A gorda do grupo, com voz de falsete, apoucava a chefe que tinha lá no serviço, macaqueando-lhe as maneiras. Para não lhes ficar atrás, a meã da companhia, rude de gestos, contava-lhes as últimas que se tinham sabido daquela uma e o que se suspeitava daquel'outra. Tentando concentrar-me na minha tarte de legumes, apercebi-me de que eram professoras do liceu. Coitadinhos dos nossos filhos! Se não houver melhor do que aquilo, dão em fraldiqueiros pela certa. Podem não conhecer a ciência do seu tempo, mas ficam enciclopédicos no que ao pátio das cantigas respeita. E por outro lado, ai de quem se mata a ensinar os filhos alheios e tem que gramar disto como paisagem!
segunda-feira, 1 de maio de 2006
Além do limite
«O meu pai fugira com a criada para o ininteligível», conta Daniel, o personagem de «Na tua face» do Vergíllio Ferreira, desfiando a sua história de tristeza. Ele sabe que «deve haver no homem um limite até onde se é feliz ou infeliz, depois a lei já não funciona». Estou a ler, treze anos depois, perdido, para além do limite e cercado do ininteligível. O livro foi publicado em 1993.
sábado, 29 de abril de 2006
Um modo de contar
Voltei aqui, desesperado de cansaço, depois de uma semana a trabalhar contra vontade, no que chamam a minha profissão «liberal». O José de Almada Negreiros escreveu ou disse, ou ambas as coisas até, que «quem trabalha que nem uma besta é evidentemente uma besta». Li isso hoje à tarde, um sábado com as ruas refulgentes de sol, um sol cansativo, perseguidor, que endoidece por encandeamento, um sol que me confina, a cabeça a estalar, ao mais sombrio de mim e ao sono reparador. Acordei, depois de ter dormido que nem uma besta. E, contando, as bestas, a que trabalha e a que dorme, já vamos em duas, incluindo o «evidentemente».
terça-feira, 25 de abril de 2006
Valeriana
«Conta-me uma história», uma história qualquer, pode ser mesmo a tua história. Conta-me uma história, de alegria ou de tristeza, uma história pequena, pois é só para adormecer. É com isto que se animam os que escrevem, com isto se encantam os seus leitores. Entre bocejos e sonos refastelados, por vezes um sonho, quantas vezes um pesadelo, vai surgindo, hipnótica, soporífera, a valeriana literatura. Com ela adormecem, entretidas, as dores, acordam, provocadas, as paixões, dormitam, em geral, todos os sentimentos. Eu sou o livro e com uma voz feita de páginas e linhas, palavras e letras, proclamo, a melopeia melíflua de um pedinte: leia-me na cama, acorde comigo, um livro no chão. Se nada mais tiver, tem nessa noite, pelo menos, a ilusão da companhia. Leve-me consigo ao deitar, mesmo que seja só para adormecer. Eu conto-lhe uma história!
domingo, 23 de abril de 2006
Catando gralhas
Escrever e emendar, rectificar e corrigir. Apagar. Reler e rever. Tornar-se o escrito em maldito. No momento em que se odeia, o livro está pronto. Nesse dia há leitores capazes de o apreciarem, alguns mesmo com afagos amigos à escrita do seu autor. Pior que isto, é haver autores sem emenda. Semanas depois, ei-los, uma vez mais, de provas na mão.
sábado, 22 de abril de 2006
A vida ao sábado
Eu não tenho escrito, porque eu não tenho vivido. Não tenho dormido e se pudesse, neste sábado de chuva, não tinha sequer acordado. Eu vim escrever, porque, acordado, descobri, encharcado de sábado, que é aqui a minha forma de viver.
quarta-feira, 19 de abril de 2006
O dever primordial de nós todos
Quando o empresário Manuel Vinhas se ausentou para o fraternal Brasil, por causa da perseguição política que aqui lhe moveram, publicou um livro a que chamou «Profissão: Exilado». Um homem teve a ombridade de, em preito de gratidão, inscrever corajosamente o seu nome nesse livro de memórias amargas: Agostinho da Silva que, num notável texto de apresentação, exprimia, com ironia, o seu contentamento pelo seu amigo ter, à força, sido obrigado a largar os negócios, podendo, enfim, dedicar-se à escrita. Escrito no Natal de 1975, dizia o filósofo da portugalidade, a propósito do empresário das cervejas: «os negócios o afastavam de si próprio, relegando quase para tempo nenhum o seu gosto de escrever, de estudar e de marchar, e decerto obrigando-o a frequentar muito lugar e muita gente que lhe não respondiam ao mais profundo; foi empresário, proprietário, administrador, negociador de acordos, e não sei que mais; faltava-lhe cumprir o dever primordial de nós todos: sermos o que somos».
segunda-feira, 17 de abril de 2006
O dia mundial do livro
Vem aí o dia mundial do livro. Não direi tudo, pois é exagero, mas muitas são as trezentas e sessenta e poucas coisas da vida que têm um dia só para si, a começar pelo pai e pela mãe de cada um. Pois a 23 de Abril, antes que eu me esqueça, será o dia mundial do livro. Autores anónimos e do ignorado, que ninguém lê e que raro escrevem, tradutores saltimbancos de palavras, troca-tintas insignifcantes de significados, editores inescrupulosos, dos que publicam desinteresses e arrecadam o que lhes interessa, distribuidores que melhor negócio fariam em empresas de mudanças ou trasladações funerárias, leitores da fotocópia pirata e do resumo apresssado, todos, todos, terão lugar sentado na cerimónia desse dia, a mesa de torcidinhos, o copo de água, o pigarrear antes do discurso. Claro que há o esforçado escritor, o empenhado editor, o fiel tradutor, o aplicado leitor. Para esses, se houvesse vaga no calendário, eu propunha, não havendo objecção, um outro dia, em Abril ou em Maio, em dia útil ou num domingo. Talvez a 28 de Fevereiro, porque assim, comemorava-se só de vez em quando a sua apagada existência. Para lembrar misérias, já basta uma vez ao ano. No mais, festejamos todos os dias, folha a folha celebrando, até que nos quebre a lombada, as folhas se nos descolem, os olhos se nos apaguem.
domingo, 16 de abril de 2006
Curiosidade
Foi neste livro que eu li sobre as raparigas «que lhe subiam ao quarto por curiosidade de amor, que não era amor». Lê-se isto e não mais se esquece de ter lido. Talvez tenha acontecido assim com o José de Almada-Negreiros. Isso pouco importa, ter sido com ele.
Um futuro insensato
«Os homens sensatos adaptam-se ao mundo, os insensatos tentam que o mundo se adapate a eles. Por isso o progresso depende sempre de homens insensatos». A frase pertence a Bernard Shaw. Dá vontade de acrescentar, «por muito insensato que isso pareça».Mas dá ainda mais vontade ainda de acordar num domingo, manhã cedo, e acreditar tanto nisso que se passa a viver assim.
sexta-feira, 14 de abril de 2006
O homem do Livro das Maravilhas
Descobri-as, as outras línguas, compreensíveis numa parte, adivinháveis no resto. Não mais sairei daqui, deste mundo análogo dos dicionários, invariante das gramáticas, expansível da fonética, dúctil da morfologia. Começo com Ramon Lull, que terá nascido em 1232 e falecido em 1315 e que tem estátua em Palma de Maiorca. Vem no seu Cant de Ramon:
«(...) Vull morir en pèlag d'amor.
Per ésser gran no n'hai paor
de mal príncep ne mal pastor.
Tots jorns consir la deshonor
que fan a Dé li gran senyor
qui meten lo món en error (...)».
É uma hossana magnífica, linda de se dizer, e que termina em glória, assim e por esta forma:
«(...) Man Déus als cels e als elements,
plantes e totes res vivents
que no em facen mal ni turments.
Dó'm Déus companyons coneixen'
devots, lleials, humils, tements,
a procurar sos honraments».
Um tempo cruel
Os que desde ontem vinham, porta fora, à busca de sol levam com chuva. Encalorados, devem estar hoje em casa, à janela, a fumegar. Domingo regressam para as suas vidas quotidianas, em banho-maria.
quarta-feira, 12 de abril de 2006
Farsi
Segundo noticia o jornal o site iraniano «Iranmania», o povo português está cada vez mais interessado em aprender «farsi»e conhecer as literaturas orientais. Sepideh Radfar, uma linguista residente em Portugal anunciou assim a publicação em português do poema «Masnaviy-e Manavi ». A notícia já havia sido divulgada há um ano num blog que, entretanto, desapareceu. A língua farsi é das mais faladas línguas persas. Quem conhecer este nosso país pensaria que seria a língua dos farsantes, daí o seu progressivo interesse. Passe a brincadeira, o assunto é sério e vale a pena: Um universo desconhecido, num mundo carregado de trivialidades.
segunda-feira, 10 de abril de 2006
As penas de quem vive da pena
Um autor acaba um livro quando sente, raivoso, que o odeia, quando não acredita, desconfiado, que aquilo seja legível, quando morde, danado, em que lho queira emendar. Eu acho que um autor acaba um livro quando o entrega aos críticos para que o desfaçam, aos leitores para que o venalizem, trocando-o por reles dinheiro. Eu acho que acabei um livro. Ainda estou sem críticos e sem dinheiro, mas já tenho quem me odeie a mim, leia o livro e nos emende a ambos, às gralhas dele e aos meus ódios, raivas e danações. Eu acho que acabei o livro, antes que o livro acabasse comigo. Foi em legítima defesa da literatura, juro! Agora rendo-me aos tipógrafos, aos gráficos e aos distribuidores, os meus carcereiros para a longa pena de reclusão editorial a que me condeno.Quando sair a segunda edição, talvez venha a casa, de precária, um fim de semana.
domingo, 9 de abril de 2006
Girando cuidadosamente
Quando eu era garoto a rádio tinha um botão, que se girava, cuidadosamente, cada milímetro fazia diferença, no receio de se perder o sinal. Esta manhã de domingo ouço rádio através da Net, um som puro, cristalino, de uma rádio clássica, em língua inglesa, sabe-se lá se situada no Reino Unido. É uma rádio que tem anúncios e que ao domingo passa discos pedidos . Entre o Porgy and Bess e os concertos brandenburgueses, ouvi-o. Era um anúncio sobre uma empresa que compra apólices de seguros de vida. O negócio é simples: quando não tiver nada mais para vender, venda o seu seguro de vida. Pagamos bem. O anúncio não o diz, mas nós compreendemos: quando morrer, nós recebemos o seu seguro, esse é o nosso lucro. Telefone para a rádio e peça a marcha fúnebre de Chopin, ou a Dança Macabra de Saint-Säens. é gratuito, fazem-lhe companhia e são lindas de morrer.
sábado, 8 de abril de 2006
A extensão, a profundidade, as medidas do sentir
Eu tenho um amigo que é sábio. Não é só a cultura invulgar, a extensão e profundidade daquilo sobre o que se sabe. Procurou-me hoje, como o fazem os amigos quando não lhes aparecemos. Compreendi-o quando irradiou um sorriso acerca de terem nascido patinhos nos jardins da Fundação Gulbenkian; compreendeu-me quando lhe falei da capoeira da minha infância e da aflicção da galinha, que chocou o final dos ovos de uma pata entretanto morta, ao ver, o galináceo coraçãozito aos saltos, o que julgava serem os seus pintos, a atirarem-se para a água, logo ao saírem da casca. Eu tenho um amigo que é sábio e um sábio que é meu amigo, porque hoje, ao ter-me procurado, compreendeu nesse instante o tempo em que se era feliz.
sexta-feira, 7 de abril de 2006
Memórias de uma criada de quarto
Chamavam-se criadas no tempo da exploração serviçal, empregadas domésticas, nestes tempos de proletarização neo-vocabular. A do escritor Jorge Luís Borges chama-se Epifanía Uveda de Robledo, vulgo «Fanny». Alejandro Vaccaro, que diz andar a estudar a vida do escritor argentino há vinte anos, publicou um livro com as memórias dela, por ele coscuvilhadas. «Ninguém é herói para o seu criado de quarto»: a frase já a vi atribuída Hegel, a Platão e a Napoleão. Surpreendido em roupão e chinelos, Borges sai ridicularizado pela proeza. Magoa e ofende ler este livro. Nele conta-se que o biografado tinha uma estranha forma de se ver livre dos livros de que não gostava: abandonava-os, à vezes fazendo pacotes de que fingia esquecido aqui ou ali. Ou me engano muito ou este é o destino que leva! Abandono-o, mas em sítio onde ninguém o encontre. Este ano perfazem-se vinte anos que Borges morreu. Não tinham de o matar outra vez!
quinta-feira, 6 de abril de 2006
O verbo ter
Hoje a Natureza choveu invernosamente em dia de Primavera. Sol, só para a semana! Até lá, esperem e logo verão...
quarta-feira, 5 de abril de 2006
Rebentar de vontade
Eu tinha um blog chamado «A Revolta das Palavras». Num dia de maré vaza do meu interior, apaguei-o. Quando, arrependido por dentro e a disfarçar desenvoltura por fora, quiz repô-lo, o sistema já não o aceitou. Por isso eu hoje tenho um blog que se chama «Revolta das Palavras». Ter ficado sem o «A» foi o preço que a blogoesfera me cobrou pela minha leviandade supressora. Ora quando eu tinha um blog que tinha um «A» escrevia lá coisas que hoje escrevo aqui. Graças à amizade de quem estima o que eu escrevo mais do que eu que as escrevo, salvou-se quase todo o apagado. Isto por exemplo teria vindo para este blog, caso eu na altura o tivesse. Aconteceu no dia 27 de Fevereiro de 2005: «Sexta-feira a noite e estava frio, a porta da livraria, semi-cerrada. Lá dentro, о velho livreiro fechava a caixa do dia. Hesitante, entreabri. «Já fechamos, mas enquanto eu estiver por aqui, esteja a vontade», Fiquei, menos à vontade do que seria possível. O livreiro enganara-se nas contas, revia agora, meticulosamente, verba a verba, na ofídia fita da caixa registadora. Sortilégio invulgar num negócio sem futuro, aparecera-lhe dinheiro a mais: numa vida destas, só podia ser engano. Havia que desfazê-lo e ir enfim para casa, dormir um sono aritmeticamente tranquilo.
Privilegiado por um favor, tentei apressar-me, no fundo eu fazia apenas horas para um jantar. Trouxe um livro.
Com о fim-de-semana a esgotar-se agora, abri-o há pouco, antes de vir aqui. É de Yvette Kace Centeno, um livro já antigo. Nele, uma linha que eu desejava ter vivido assim, em vez de como me sucedeu:
«Deixo-me ficar fechada em casa até não poder mais. Até rebentar de vontade de fugir».
Privilegiado por um favor, tentei apressar-me, no fundo eu fazia apenas horas para um jantar. Trouxe um livro.
Com о fim-de-semana a esgotar-se agora, abri-o há pouco, antes de vir aqui. É de Yvette Kace Centeno, um livro já antigo. Nele, uma linha que eu desejava ter vivido assim, em vez de como me sucedeu:
«Deixo-me ficar fechada em casa até não poder mais. Até rebentar de vontade de fugir».
terça-feira, 4 de abril de 2006
O acaso a um euro
Num país em que a maioria dos que lêem são leitoras, eu tenho uma especial propensão por escritoras. Uma delas, como já percebeu quem me lê, é a Maria Ondina Braga, já falecida em Braga precisamente. Só que o destino tem momentos fantásticos de inesperado. Regressado de mais um dia de esgotamento profissional, achei que merecia dar umas voltas sem nexo pelas ruas do meu bairro. Àquela hora saíam dos escritórios, exauridos, os empregados por conta alheia, a vertigem do recolher, a angústia do atraso estampada no rosto, os nervos a expressarem-se em buzinadelas, os rancores na impaciência de cada gesto. Foi então que eu os encontrei, o pequeno ajuntamento de vendedores de velharias, já a empacotarem o que amanhã, uma vez mais, desembrulharão, para tornarem a expor, na mira de os vender, aquele um pouco de tudo já passado, onde há a novidade das surpresas. No meu caso foram duas. Falo aqui de uma delas. Como já dei a entender tenho uma predilecção especial pelo Graham Greene, sobre quem já escrevi em outro local. Então não é que ele ali estava, a «um euro», o seu livro «O Cônsul Honorário», naquela edição encadernada publicada em Junho de 1974 pelo Círculo de Leitores e que a Ondina Braga traduziu? Tenho-o aqui comigo nesta hora já tardia. Sei que não tenho tempo para o ler, nem à edição inglesa que comprara já nem sei onde nem quando, na altura em que comecei a reunir a sua obra.Mas fico-me por uma recordação, a de ter lido numa entrevista da Maria Ondina, em que ela se queixava de ter partido as costas a matraquear à máquina, traduzindo e traduzindo, para ganhar o seu magro sustento. Ao olhar para estas folhas amarelecidas, ao rever cada uma das suas letras que lhe enchem as páginas, eu sinto o alquebrar de um dia esgotante, o corpo carregado de dores, os dedos entumescidos, a alma entristecida, a miséria de tudo terminar a um euro, num jardim, sem nexo e por acaso.
domingo, 2 de abril de 2006
A árvore frondosa
Já vivi numa aldeola que tinha como único ornamento uma igreja sem estilo, uma árvore frondosa que a ladeava, daquelas centenárias, cujas raízes parecem querer arrancar as entranhas da terra e que me lembre nada mais. Junto a essa árvore havia um banco, daqueles vulgares bancos de jardim, a armação em ferro, o assento e o encosto em madeira. Caberiam nele uns três, bem anichados. Ao domingo, lembro-me de o ver ali sentado. Vestia-se a rigor, o fato completo, camisa branca, uma gravata de cuidado nó. Ficava por ali um tempo, o tempo necessário para estar sozinho. Cismava nunca soube em quê. Mais tarde disseram-me que era um militar reformado. A sua guerra, a última batalha que travava, agora era consigo próprio. Eu vivia ao lado do cemitério, ele hoje deve viver por lá, graças ao armísticio com que os deuses da guerra se apiedam daqueles que, na batalha da vida, não sabem vencer e já não têem que perder.
sábado, 1 de abril de 2006
O acaso do sol
Escrevo aqui há tanto tempo e nunca dei comigo a pensar o que pode querer dizer «a janela do ocaso». Um candidato a leitor, amigo, disse-me que não conseguia encontrar o meu blog sobre a janela do «acaso». Pois não, nem eu que já o tentei. Um dia destes, tentando defini-lo numa frase, escrevi que ele era o «blog de um ser neurótico, que escreve sobre a tragédia do existir». É em parte assim. Há em tudo isto um halo marítimo, e uma coloração poente. Mas há sobretudo uma dimensão de infinito e uma ideia de arrependimento pelas origens e remorso pelo passado. Culpando-me pelo que virá e desejando não ter vindo, os cotovelos fincados na balaustrada da vida, abandono-me em pensamentos. Se fumasse exalava-me pelas narinas do desejo, instantes de ardência, desejos de sol.
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