domingo, 7 de agosto de 2011

O pornógrafo

Há umas semanas atrás irritei-me comigo - que é uma forma de os outros acharem que me irritei com eles - por ter concluído que uma estopada que o Henry Miller escreveu chamada "Os Telhados de Paris", a qual o "Expresso" vende a um euro com o jornal, sendo rasquice ordinária e vulgar nas suas sucessivas narrativas abruptas de fornicação e deboche, reiteradas e sem imaginação estilística, era uma fraude. E um insulto às mulheres tratadas ali abaixo de gente, pior que animais, como se pior que objectos fossem. Mas admito que de facto o livro surgiu para ser uma «novela pornográfica» e nisso não engana ninguém. E é uma «novela pornográfica», excepto ser uma novela. É que pela milésima vez o leitor já sabe onde é que um dos fulanos que se bamboleia pela história vai meter o membro sexual assim como já nem espanta que a miséria da escrita abra com uma criancinha de treze anos em pleno sexo oral.
Claro que o "Expresso" imagina que sendo Verão os leitores precisam de ser aquecidos por aquela forma e claro o nome do autor promete uma sessão de sexo em casa respeitável. O que não muda a natureza do mesmo.
Para quem não tiver medo de dizer que não é a provocação, sexual que seja, que define a boa Literatura, nem a existência de sexo que a torna má, fica tudo dito o que há para dizer.
Vejo agora aqui a menção a uma obra que em breve estará nas bancas. São, segundo leio na recensão crítica, pequenas histórias, numa delas os compositores russos Borodin and Rimsky-Korsakov a usarem os seus sexos para fazer massagem aos pés...nem cheguei a perceber de quem!
Imagina-se. Mais: o autor é o criador de um livro que a menina Levinsky ofereceu ao Presidente Bill Clinton. Um livro sobre sexo telefónico explica o crítico, que cita, em ilustração de um dos seus momentos - porventura o mais vocal - este trecho em que a heroína geme ao bocal: «Oh! Nnnnnnnn! Nnn! Nnn! Nnn! Nnn! Nnn! Nnn!». Que delirante imaginação!
Falta só revelar o título da novel magnificência: chamar-se-à "House of Holes", literalmente "Casa dos Buracos". Compreende-se, numa literatura em que não há lugar para subentendidos, que o título seja este. Tal como nos filmes de cow-boys, antes de ler, o leitor já sabe o que há para saber.
Vista a aparência do autor, e por isso eis ao cimo foto do dito, ele poderia ser místico e eremita. Sucede que em vez de escrever sobre o êxtase optou por escrever sobre o orgasmo. Com redobrada vantagem.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A cegueira da razão

Há na escrita de Jorge Luís Borges uma tal figuração do real livresco que o leitor hesita em saber se é existente o que passa por verdadeiro na sua escrita. São os livros que podem não ter sido escritos, os povos puramente imaginados, as filosofias imputadas a nomes que nunca filosofaram sequer em torno do próprio nome, gramáticas ficcionais e línguas sem vogais que nenhuma língua dobrou. Entre o divertimento e a trama, o magnífico argentino fez método construindo enredos que sendo literários são filosóficos nunca sendo filosofia feita literatura.
Cego a partir da idade em que as ideias frutificariam maduras, passou a pensar em profundidade por ter perdido a capacidade de observar em extensão. Radica aí a sua concepção topológica do tempo, a volumetria do ser como sua essência natural à ausência de dimensão própria que não seja a dos limites ao infinito para que tende em movimento perpétuo.
Lembro-me disto ao mesmo tempo que a preguiça me impede de ir apenas à sala ao lado buscar o pequeno volume, compêndio de artigos, onde possa confirmar a justeza da ideia, valorizar o rigor da citação. Talvez esteja nisso borgeano já, rendido à verdade da aproximação ao sentimento mais do que vergado à força injuntiva da razão.
Na tabela das equivalências universais o incompreensível dói tanto como o entendido. Dói sobretudo por mais tempo porque há a extensa caminhada em busca da compreensão.

sábado, 30 de julho de 2011

O sabor da tinta

Há uma literatura infantil para crianças e uma literatura imbecil de adultos que se julgam crianças. Esta última parte do pressupostos que os miúdos são tão idiotas como muitos dos que escrevem julgando que o fazem para eles lerem. Foi ao romper contra este universo que uma obra como Harry Potter, extensa e densa, ganhou de súbito foros de grande empreendimento e sobretudo surpreendeu os editores.
É que as crianças são outra coisa em que a desatenção dos crescidos não repara. Tal como a personagem de "O Bebedor de Tinta", escondido sob uma mesa na livraria do seu pai, aprendendo, através de um libertador pesadelo e os pesadelos libertam, a amar os livros. 
O livro é lindo de texto e de imagens. É um livro para quem conhece o sabor dos livros e sente, táctil, a sensação aliciante do seu papel. Livro draculiano sem ser de vampirismo intelectual ensina os pais a gostarem dos filhos gostando de livros de que eles gostem.

domingo, 24 de julho de 2011

A conversão

Vim para encontrar o meu Eça de Queiroz, controverso, o das Cartas de Inglaterra, certeiro no que observa, o coração dorido ante a miséria e o egoísmo, ante a fome na Irlanda, a depredação no Afeganistão. Não o levei para férias porque a edição é antiga e haveria o risco de o papel de 1945 não aguentar a contemporaneidade da praia, o conteúdo do escrito, esse, resistiu à usura do tempo. «O esforço humano consegue, quando muito, converter um proletariado faminto numa burguesia farta; mas surge logo das entranhas da sociedade um proletariado pior. Jesus tinha razão: haverá sempre pobres entre nós. Donde é a prova que esta humanidade é o maior erro que jamais Deus cometeu».

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O ratoneiro

Vi anunciada uma Feira do Livro. Claro que a não perderia. Abriu hoje. Passei, passeando, pelos seus pavilhões, afinal para me entristecer com a penúria. Eu bem sei que não estamos numa grande capital, mas apesar de tudo estamos em Tavira. Eu bem sei que as pessoas lêem pouco, mas não tão pouco. E depois estamos no Algarve e há escritores algarvios e seguramente uma Câmara Municipal com um pelouro de cultura. Mas era o deserto. No meio desta pobreza, sorrateiro, escapulia-se um ratoneiro de livros. Duvido que fosse para ler o que furtava por não ter meios. Talvez haja quem lhos compre. Sempre dá uma réstia de esperança. Mesmo no mercado dos receptadores, que ao menos a cultura triunfe.

sábado, 2 de julho de 2011

Prosas Bárbaras

Encontrar o conhecido quando era desconhecido, eis o encanto da vida. Saber que o que é teve o momento em que estava a ser, eis o mistério do ser e do seu tempo. Encontrei-o ontem no Chaminé da Mota, o alfarrabista do Porto, o livro que veio a chamar-se "Prosas Bárbaras" e que Jaime Batalha Reis convenceu José Maria Eça de Eça de Queiroz, seu autor, a publicar, assim reunisse o que vinha publicando de modo avulso na Gazeta de Portugal, de António Augusto Teixeira de Vasconcelos. E na introdução este momento:
«Repentinamente (em Março de 1866), começaram a aparecer uns folhetins assinados "Eça de Queiroz": ninguém conhecia a pessoa designada por estes apelidos que, por algum tempo, se supôs serem um pseudónimo».
Trouxe-o comigo e esta manhã, retirado para um recanto de paz, estou a lê-lo, tendo ao lado uma ediçãodas "Últimas Páginas", biografias de santos, o livro fantástico que seria póstumo. Daqui a pouco almoça-se e regresso à leitura, enquanto a Natureza se espraia, indolente, em calor.

sábado, 25 de junho de 2011

Averbamento

A poesia é o território da possível invulgaridade, embora a invulgaridade seja invulgar na poesia. Paulo da Costa Domingos destaca-se com o seu "Averbamento", publicado pela & etc em Maio deste ano.
É um livro que ele próprio compôs, amorosamente, porque é preciso amar os livros, e ele ama-os, para que o próprio escritor dê forma gráfica às suas palavras. Fê-lo através do que poderia ser um velho caderno encadernado, pautado, em papel azul em que até um certo momento da poética, carrila, em paralelo, um ensaio que é poesia filosófica sobre a condição humana. Aquém de um manifesto, pois falta-lhe a proclamação, o poeta encontra-se, como nós os encontramos, sem o saber porém dizer assim, com «uns tipos simpáticos que se põem assim como que de lado, hieroglificamente a assistir aos espectáculo do espectáculo dos sacrifícios, e bolsam com a bolsa cheia de conjecturas e transversalidades para a benemerência do raquítico pensamento nacional». E o filósofo constata quanto «ressonamos, assim, no sono de uma outra antiga razão. À janela da falta de reconhecimento miramos a parada da aniquilação do livre arbítrio e do eu na clausura concentracionária, numa sobreposse alienante afogada em mentiras».
É um formidável livro, denso enquanto pequeno, sobre «o váculo do zapping de carácter».
Encontrei-o hoje, a ele autor na Rua da Anchieta. Tímido encontrou-me de uma sacola, escondido o seu próprio livro, como se houvesse pudor em vendê-lo. Trouxe-o para escrever sobre ele. Li-o demoradamente para isso. Terei de o ler de novo. Uma vez mais e tantas outras. Cada frase, por vezes cada palavra um mundo: «o jornalixo» por exemplo, o de «as mortes ali penduradas todo o dia, presas ao quiosque por molas de orelha com espantos escarrados no rodapé».

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Ladainha de futuro

Sente-se de Almada Negreiros a toada heróica, o ritmo do rufar do tambor; de Pessoa aquele volante marítimo dentro de mim que é destino e viagem, de Botto quase a confidência exilada.
É poesia militante, e o nome do poema o diz: "Manifesto".
É clamor. Necessário. Actual. Absolutamente nosso. Vindo do sul.
Fernando Cabrita surpreende, mesmo quando assume a persona alheia para a gramática do seu poema.
«Fim aos irritos a dar-se ares de imprescindíveis», grita!. «Um grito é sempre um grito».
Parabéns ao poeta, os punhos cerrados, a alma irada, enfrentando o prosaico Portugal com a melhor Poesia portuguesa.

domingo, 12 de junho de 2011

O Profeta de Portugal

Toda a Literatura está aberta à hermenêutica. Muitas das entrevistas a escritores são na base da reconstituição do sentido, do significado, do propósito das alusões, até do nome das personagens. Na Literatura profética isto amplifica-se, por ser essa a sua natureza e a intenção de quem a produz. É o caso das trovas do "sapateiro de correia" Gonçalo Annes, o Bandarra. Encontrei precisamente em Trancoso uma edição de 2001 - e tantas outras lhe preexistiram - com notas e texto de apresentação de Fernando Santos Costa. Citando Fernando Pessoa quando afirma que é ele o verdadeiro patrono do nosso País, o compilador lembra que foi o seu retrato o que foi afixado quando da aclamação de Dom João IV. Julgado em 1541 pelos torcionários do Santo Ofício da Inquisição, em 1665 ainda era proclamado édito a excomungar quantos lessem a sua obra. Acusado de ser judeu pelos do Palácio de Estaus, livrou-se por pouco da fogueira, mas não do humilhante desfilo de sambenito vestido e vela na mão. Com este livro percebi que a história do anti-judaísmo está ainda por escrever. Com Dom Afonso IV os judeus em Portugal - que se conheceriam como a "gente de nação" - estavam ainda obrigados a usar uma estrela amarela no chapéu. Adolfo Hitler apenas lhe mudou o lugar de afixação.

domingo, 29 de maio de 2011

A mítica marrafa

Creio que foi no outro fim de semana que acabei "As Três Mulheres de Sansão" de Aquilino Ribeiro.É lugar comum dizer-se que rico é o seu vocabulário, provindo das arcas velhas da língua, que o leitor só desvenda em sua densidade de elucidário na mão.
É lugar comum reconhecer-se que poucos conhecem como ele a alma humana, situado o homem nas suas raízes telúricas, pó, húmus, seiva e cheiros, vida repartida com a animalidade de que proveio.
É lugar comum encontrar-se nele a razão social literária e sem militância, o anseio por um mundo outro de que os livros são o reverso pelo retrato vivo de um mundo insuportável que anametiza mesmo quando apenas o descreve.
O que não é lugar comum é o milagre que renasce em cada leitura da sua obra. Nesta novela são os seus conhecimentos bíblicos, que o seminário lhe afundou nas meninges a contar-nos um inaudito Sansão, «instruído das imundícies da carne, mas não calmado», juiz «terrível martelo de Deus contra os gentios», porque «andava muito relaxada a moral pública, eram bastos como sarna os delinquentes».
E depois foi Dalila a podar-lhe a gaforina, e assim ele «por mais que se encabritasse» já sem tesura nos braços nem arrimo na gana, em molície agora e lassidão minado e por isso indefeso, caído às mãos dos filisteus e à sorte dos seus deuses mansos, que para feroz, vingativo e impiedoso já bastava Jaweh que o deixou cair como a cão tinhoso pela longa estrada do pó do abandono.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A Paixão Chinesa

Quando Leopoldo Danilo Barreiros escreveu "A Paixão Chinesa de Wenceslau de Moraes", anexando-lhe a correspondência que trocou com o filho do insigne escritor, João de Sousa Moraes, quis no fundo reabilitar a sua relação amorosa daquele com a chinesa "Atchan" [abreviatura do nome Vong-Ion-Chan]. Porque havia ficado a lenda de que de repúdio se tratava quando ele partiu para o Japão, onde encontraria dois funestos amores com Ó-Yoné e Ko-Haru, as quais lhe faleceriam em circunstâncias dolorosas que o arrastariam para o desespero, porta para o exílio em Tokushima.
Encontrei-o agora no "Chaminé da Mota", numa reedição de Cecília Jorge e Beltrão Coelho, que li, porque pequena, nos intervalos de duas pesadas obrigações.
A iniciativa é carinhosa. Não difamar um amor mesmo quando falhado. Comovente, sim, ver como o filho daquele a quem os japoneses chamavam de "Portugaru san" [o senhor Portugal] se refere, em perdão póstumo, à perda da intimidade do pai que, mantendo o sustento, se lhe tornou distante, ele um dos «tocados do mal da tristeza», pai que se correspondia com ele, com o irmão e com a mãe através de Feliciano Francisco do Rosário, um macaense que servia de benévolo intermediário epistolar.
Viveria, isolado, uma vida "retroactiva", moendo saudades, cortado o cordão umbilical à Pátria dos portugueses. Para o degradarem muitos apodaram-no "o homem que trocou a alma". Nunca foi, porém, outra coisa se não português, habitáculo remoto da alma portuguesa no seu ocaso fatal.

domingo, 15 de maio de 2011

Biblioteca

Sigo-a por todo o lado na forma de quanto escreve. E por isso só comprei hoje o livro quando descobri que tinha um conto seu, publicada a obra pela FNAC para comemorar o dia mundial do livro.
Ao tentar explicar-me dei conta de que a minha memória falhava pois já não lembrava todos os títulos a que dera vida e não foram muitos. Mas tinha fixado o essencial do enredo, e tinha sobretudo um vinco fundo na sensibilidade derivado de a ter lido. E o espanto do primeiro dia.
Tal como num conto policial, Dulce Maria Cardoso vai deixando, pegada sobre pegada, os sinais sobre o mote «os livros salvaram-me». Não se fala nisso porque há que salvar o prazer de quem ler e que siga o caminho assinalado que leva à descoberta. «Identificar os acasos que nos nos trouxeram ao que somos só nos torna mais frágeis. Fazemo-lo na esperança de percebermos como nos aconteceu tornarmo-nos o que somos», é uma das suas frases que dita a lógica da escrita, o retrato de um mundo inevitável mesmo mas acidental.
«O pensamento dos velhos é circular», diz a personagem quase depois do arranque da breve narrativa, ou di-lo ela por ele pois há um tempo em que tudo se confunde. Só que ao velho sucedeu o azar de uma fatalidade. Surgiu esta história «livremente inspirada em factos reais».

domingo, 8 de maio de 2011

Viajando com Qfwfq

Levei-o comigo. São histórias a que chamou de cosmicómicas. Invulgares porque não é habitual quem situe aí a ficção. Só que não é ficção. É a realidade no seu íntimo atómico, a intersecção do espaço e do tempo, reduzidos como na relatividade restrita ao indiferenciado. Como quando o perseguidor projecta todos os sentimentos no cone de luz emergente dos faróis da viatura, voando à procura da amada e do provável lugar para o qual o errático movimento a transporte e onde o outro amante possivelmente a encontrará, o ciúme e o desejo a sobresimplificarem a complexidade dos seres e tudo o que neles os torna humanos até a expressão facial e a dor do enamoramento infeliz. Ou quando o tiro que atingirá o perseguido só atingirá o seu instante de máxima possibilidade quando as filas de trânsito se entrecruzarem e o perseguidor alcançar o ângulo certo para o disparo só que o inverso surge como real, ainda que improvável, e morre quem queria matar e assim a vida se cumpre.
Engenheiro, Italo Calvino liberta-se do que a presença nossa e dos outros gera como espelho deformante, e escreve com uma beleza extraordinária porque rigorosa, segue a personagem abstracta em cujo nome nem doces vogais existem mas é a aspereza  Qfwfq, esse ser que nem é criatura humana é mas nele se contém a totalidade da existência. O livro chama-se "La memoria del mondo".

terça-feira, 26 de abril de 2011

A Porta de Marfim

Vasculhei o céu e a terra porque sabia que tinha o livro; encontrei-o, enfim, mal arrumado, na estante onde estão as biografias. Não o é, mas sim uma história de amor, magnífica porque invulgar, o encontro do inesperado e a dedicação estremosa.
Ele estava na fase final de uma vida dedicada à causa pública, exilado, mal tratado, acolhido apenas por poucos dos milhares que o aplaudiram e lhe viravam agora as costas. Entregou o seu esgotado coração nas suas mãos requintadas. A distância não foi óbice.
Do seu encontro nasceu o enamoramento e o lirismo de uma correspondência que é, no dizer do marido dela, a de verdadeiras «cartas de amor». E de amor se trata, pungente, em lírico devaneio.
O livro inicia-o com a morte dele, com a insuportável dor, com a funda saudade. Segue ao longo do ano de 1985, como se num diário que lhe dedicasse, como se não estivesse interrompida a conversa, como se o procurasse, ansiosa, para lhe contar.
Ela chama-se Maria Helena Prieto. O livro toma como título "A Porta de Marfim". Ele chama-se Marcelo Caetano.

domingo, 3 de abril de 2011

O Alfarrabista Mendel

São histórias de amor, pungentes e doridas, entre risos e carícias, as histórias de amor aos livros. Acabei esta manhã de ler uma sublime história desse amor bibliófilo, feito de silêncios e de recolhimento, de devoção e adoração, a história do alfarrabista Jacob Mendel, contada por Stefan Zweig.
Num mundo que vai perdendo classe e em que a categoria pessoal se tornou uma excrecência, em que uns truões sonoros passam por senhores, macaqueando, vocais não se sabendo ridículos, o que julgam ser sinais de estirpe, Stefan Zweig é a grandeza senhorial feita escrita. Mesmo quando fala do humilde, sentindo-se um deles, mesmo quando o coração triste de todos os outros é o seu coração entristecido, ele é, na Literatura, a totalidade da Humanidade em finíssima observação de requintada forma.
Não conto a narrativa porque nunca se defrauda um possível leitor, nem saberia contá-la sem quebrar em estilhaços o cristal mágico que dita a sua imparidade.
Li-a em francês que é talvez, ao lado do italiano, ainda o melhor parente do alemão original em que foi escrita. Não sei se a traduziram para a nossa língua, ao lado de tantos livros que a Alice Ogando dele traduziu.
Dedico este texto à minha querida amiga Teresa Guerreiro, samaritana das letras, que, com devotado carinho, salva do esquecimento tantos livros quantos pode e mais salvaria assim pudesse, como quantos salvaram das garras do cativeiro e da humilhação, antecâmaras da morte pelo esquecimento, homens como o alfarrabista Jacob Mendel, Jainkeff Mendel, nascido na parte russa da Polónia, que, esquecendo-se das burocracias da legalização era apenas um ser humano perdido entre Estados que se esquartejam pelo espaço vital para concentrarem, como num campo de reclusão, súbditos passivos  e apenas seus cidadãos.
Neste domingo, tal como ele que trocou Jeová, seu Deus, pelo politeísmo sedutor dos livros, celebro, em comunhão com a leitura, a liturgia do amanhecer, mãos dadas, enfim, com o carinho de um lar.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A sabedoria bondosa

O livro chama-se "Os Livros que Devoraram o meu Pai". É pequeno mas eu tenho tido pouco tempo. É uma história incrível. Ganhou o Prémio Literário Maria Rosa Colaço, mas é um livro para crescidos lerem. Pelo que contém de sabedoria bondosa e profundidade de alma. Ontem ainda consegui chegar à página 64. «Ele disse-me que eu andava a ler as histórias que se escondem nas paredes brancas das folhas, entre as letras dos livros, nos espaços entre as palavras».
Talvez seja o modo mais magnífico de ler, sabendo «uma gramática construída pela imaginação».
Não percam este livro. Escreveu-o Afonso Cruz. Não o conhecia o que seguramente imperdoável ignorância minha. Está aqui. Acreditem na incultura que digo ter.
Esta madrugada de insónia vou tentar mais umas folhas de "A Estranha História de Vivaldo Bonfim".Para que o Literatura não pareça um mundo cheio de «letras a fingirem de mortas».

domingo, 19 de dezembro de 2010

Um ouriço a dilatar-se

O livro é um diário. Reportado ao ano de 2007. Parei no dia 25 de Março. É dia em que faço anos. Não me lembro onde estava nesse dia ou com quem. Nem se festejei ou festejaram o dia dos meus anos. Fiz contas para ter a certeza de quantos anos eram e estou incerto quanto a ter-me enganado na subtracção. Compreendo-a, por isso, hoje, a essa escrita, implosão de um ser de que escorrem, viscosos como uma dor nojenta, as vísceras pelas paredes do presentes, literárias mas tripas sempre e seus conteúdos sulfídricos, dejectos de memória como uma compota escorrente mais o coração a latejar e um mundo feio quando cerebral vazio de pensamento, e uma ânsia furiosa de beleza e formas boleadas, femininas e reconfortantes quando desinquietam, e sempre o eternizável momento de um fundo olhar vindo do desejo, «aulas tão compridas, dias tão compridos, noites eternas» e a madrugada da desolação solitária.
Leio-o agora em 2010, e 2010 acaba breve, e ele escreveu tudo isso ainda este ano, e editaram-no, rápidos porque há pouco tempo, o tempo foge e ele luta contra o desaparecimento seu e nosso e lêem-no menos, eu próprio leio-o agora por piedade para com os meus remorsos de o ter desprezado, mas não há outra escrita possível porque não há outra vida, fragmentária, «a pele das mulheres tão suave e o consentimento, a avidez».
É domingo. Vou levar tempo a ler-te António Lobo Antunes e a este teu livro e escreverás outro, sempre o último até um dia em que acertarás para fortuna de todos os críticos e o memorialistas e os que purgam os maus instintos e as azias do desprezo para com todos os outros comemorando, olha outra dia foi o Carlos Pinto Coelho e o Herman José a dizer que teve uma morte digna porque foi de repente e ninguém riu.

A Engrenagem

Consegui lê-lo e sobretudo vê-lo. Fiquei assim a saber da vida militante, na qual a Literatura era uma exigência da pessoa que o cidadão dispensaria em nome de valores mais exigentes. Dois momentos desse magnífico álbum sobre Soeiro Pereira Gomes o demonstram. Cito-os de cor, porque arrumei o livro na estante e estou preguiçoso demais para o ir buscar e o que melhor fica do que se leu é o que recordamos sem ser necessário relê-lo. Primeiro, uma frase de Tolstoi: se puderes evitar escrever um livro não o escrevas. Segundo um apontamento seu: se por outras razões mais urgentes tivesse que largar a Literatura, fá-lo-ia, oxalá!
Na primeira, a gravidade da escrita, na segunda a sua complementaridade. A escrita é demaisado séria e que a dispensem aqueles para quem ela não é uma exigência fatal do ser. A escrita não é a totalidade da vida e que vivam os que julgam viver através do que se lê.
No mais, Soeiro Pereira Gomes é o que se imagina no mais nítido neo-realismo: a luta pelos valores do seu partido e pelas causas do seu povo, a pertinácia trabalhadora, o colectivo, a denúncia da opressão e da miséria, a tensão entre o panfletário e o artístico. Ligado directamente a Àlvaro Cunhal, viu livros seus merecerem a honra de capas com desenhos deste.
Não sei se é totalmente idêntico a Alves Redol. Vou relê-lo para saber. Morreu, no ano em que eu nasci, depois de num desastre fatal, ter caído de uma bicicleta.
Nos arquétipos comunistas o símbolo do homem da bicicleta, camarada nocturno, clandestino, pedalando sacrifício pela noite do medo é uma figuração essencial. Pressenti ontem que seria ele essa figura evanescente.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A ironia da minha hora

Li esta manhã, em que, enevoado como a rua, fui a grua de mim mesmo para me soerguer e enfrentar as obrigações minhas e os deveres para com os outros, sem tempo para ler ou para pensar salvo no óbvio, que hoje era um qualquer aniversário do Teixeira de Pascoaes. Agora confirmei que era o da morte, que aconteceu a 14 de Dezembro de 1952. Como não dá data certa vai haver escasso fogo de artifício necrófilo. Comemorar uma morte é, aliás, tão ridículo como celebrá-la com champanhe, os vivos contentes pelo passamento daquele.
Advogado de profissão, com banca exígua na Rua das Taipas, no Porto em 1906, dele se disse, como se numa síntese que resumisse assim sua vida, «em conclusão, o poeta venceu o advogado, adoecendo, ou tirando forças da fraqueza».
E assim foi. Fui reunindo dele a obra, assomei aos portões da sua casa em Amarante quando por ali procurava para um livro inacabado o Amadeu Sousa-Cardozo. Está comigo como presença e possibilidade.
Cedo se lhe foi vincando no rosto a caveira simbólica que anuncia aos vivos que a Morte é dona já daquele corpo. A alma, essa, brilhava-lhe, como uma luz reflexa, e por isso escreveu que «a vida é uma queda energia brutal, sorriso que ficou da gargalhada, relefexo de um incêndio longínquo» e por isso também no cemitério de Gatão, irmanado com a Natureza que é Mãe, ele jaz, ou o que dele resta, sob o epitáfio: «apagado de tanta luz que deu, frio que tanto calor que derramou».
Falta a memória. Nesta tarde que finda e em que a noite já começou, olho, juntos na estante, os livros que nos deu. Preparo-me para o dia em que ao lê-los sentir que o acaso me levou a isso, anunciando-se, como num sorriso, a ironia da minha hora.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Vagão J

Consegui, enfim, acabá-lo hoje. Arrastei a leitura, porque vou intrometendo outros. Um deles foi a "Promessa", que foi também desta safra neo-realista e mantido inédito. Falo do "Vagão J".
Não se resume um livro numa crítica, nem eu sou crítico do que seja, apenas um leitor que gostaria que houvesse mais leitores para os livros que leio e gosto.
Depois de o ter escrito, Vergílio Ferreira abandonaria os caminhos dessa arte social e politicamente comprometida que é aqui o sopro criador destas páginas gritadas, na qual não havia outra estética que a da militância pelos «humilhados e ofendidos», outro tema que não fosse o da «luta pelo pão e pela paz».
Claro que se daria mal com todos eles e terminaria bilioso, com a tábua nos joelhos onde, forçado da escrita magnífica que o seu admirável ser gerava, se esgotava em palavras findas as aulas no Liceu Camões, a chamar-lhes «neo-realeiros» e outras imprecações que tais.
Mas não só com os intelectuais de serviço se incompatibilizaria, mas com aqueles que deles se julgavam serventuários e combatentes, porque - como confessa no texto de apresentação que escreveu em 1971 para esta obra, que começaria em Faro em Maio de 1943 e terminaria em Melo no ano seguinte - «aproximando-me eu de um proletário com boas intenções de simpatia e solidariedade, logo ele me rosnou, desconfiado da confraternização, ameaçando-me de navalha, para cortar rente o diálogo».
Uma coisa é certa: "Vagão J" mostra em que medida quem ali está, a gerar aquela escrita, vai à dimensão mais densa do homem aque aquela que ele o forma como animal social, o modela como cidadão, o confina como personagem histórica na luta de classes.
É a história dos Borralhos e do seu termo e do crime que tem de ser cometido antes de eles o cometerem, um crime cujo motivo é o ódio a todos exigir o sangue de um qualquer.
História de inquietação feita vagabundagem, de rancor feito tristeza, de pobreza tornada em raiva, há por ali também o professor, inevitável como surgiria na "Aparição", menos a tragédia existencial, «que se enganou na classe onde foi bater, por haver um pouco de consciência onde se não via que fosse precisa». E o António que se torna seminarista «para eu lhe contar um pouco o que é já da minha história» e eis a "Manhã Submersa" anunciada.
É um livro notável:  «o espírito escapa-se como enguia ao suborno da matéria e daqui nascem problemas complexos». Como toda a sua obra. Assim eu viva para a ler toda, tão devagar como ela merece e exige.

domingo, 21 de novembro de 2010

Jorge de Sena: o sulfúrico verbal

É um grande escritor. Preferiu viver no estrangeiro, exilando-se. Uma entrevista recentemente publicada pela RDP mostrou que esteve em Julho de 1972 na então Lourenço Marques, a falar sobre Camões, de que é especialista. Por permissão do Governo de Marcello Cateano. Entrevista que foi censurada.
Mau grado o mérito literário, manda a verdade que se diga que Sena era "torto" de modo de ser, arrogante, maledicente, com um ego do tamanho do mundo e que, humano, teve horas de fraqueza. Os biógrafos, que adoram escrever hagiografias dos santinhos das suas religiões literárias e políticas tentam disfarçar o mal para cantarem hossanas ao excelente. As gerações que lerem estas falsificações da História, um dia descobrirão a verdade.
Tendo morrido no estrangeiro em 1978, recentemente os seus restos mortais foram transladados. Com a cerimónia fúnebre vieram as homenagens. A Situação precisa sempre de encontrar referências, memórias, valores. Os mortos estão disponíveis, porque há poucos sobreviventes que se lembrem da História toda e os que se recordam receiam desalinhar o passo no desfile da vitória. O Panteão público é uma forma de os vivos se envaidecerem com os que foram, fazendo-nos crer que são a eles semelhantes. Os políticos pelam-se, assim, por homenagens.
Jorge Cândido de Sena exilou-se «voluntariamente» no Brasil em 1959. Deixou com isso uma aura de anti-regime e de mártir pela liberdade. Acontece que nas igrejas de glória há muitos santos com pés de barro. No seu caso a racha no gesso é o interesse, que a maledicência alarga, desfeando a aura.
O exílio trouxe-lhe a cidadania brasileira. Alguns viram nisso um gesto de desesperada revolta contra a Pátria madrasta, ele que, demarcando-se em sobranceria moral escreveria «que adianta dizer-se que é um país de sacanas? Todos o são, mesmo o melhores, às suas horas, e todos estão contentes de se saberem sacanas».
Só que esse fazer-se brasileiro foi afinal um jogo de conveniências. «Sou, sim, cidadão brasileiro», diz ele numa carta escrita a Vergílio Ferreira, em 4 de Julho de 1965, nas vésperas de se mudar para os Estados Unidos «nem poderia deixar de o ser para a estabilidade da minha carreira universitária, e para fazer as provas de livre-docência».
E para que não houvesse dúvida que sua a lepra de troca-Pátrias era menos lepra do que a lepra que chagava outros, intriga, demarcando-se das razões alheias, ridicularizando os demais Sena goza: «as razões do Agostinho da Silva, que já o era [brasileiro], quando eu cheguei em 1959, são outras: relevam do Espírito Santo, do Quinto Império, do facto de Deus ser brasileiro e baihano, e de ele querer apoio oficial para as manigâncias afro-asiáticas que, iluminado por aquelas ideias, empreendeu». Exemplar!
Claro que Sena sentia-se ímpar. O modo arrogante com que denegria tudo o evidencia: «A nossa intelectualidade», dizia sem excepcionar, «é um bando de cretinos pretensiosos e jornalísticos; a nossa universidade um bando de medíocres promovidos», resmungava, em sulfúrico verbal, numa carta de 1 de Maio de 1961 ao autor de Aparição que, numa resposta complacente, se lamentava também deste país «que tem a forma de um caixão». O que, claro, na sua boca ácida já era uma gentileza, mel mesmo para quem escrevia, para o mesmo desafortunado interlocutor: «eu, por mim, considero a humanidade vil, hipócrita, porca e canalha». Sem excepção, claro.
Mas o caso foi quando o autor de Sinais de Fogo se confrontou com um terrível pedido do Jaime Casimiro, para que assinasse «uma petição ao Presidente da República contra a censura». Ora aí é que as questões se complicaram, os princípios a misturarem-se com o interesse. Estávamos em 3 de Novembro de 1953.
«Respondi-lhe que aplaudia que se fizesse tudo, eu próprio nas entrelinhas fazia o que podia – mas não estava em condições de assinar», confessa Sena.
E porquê, perguntará o leitor? Ora! Por causa afinal de uma viagem oficial à Índia para a qual fora proposto pelo engenheiro Carlos Couvreur.
Só que havia nele o propósito de «resistir pela submissão», como se exprimiu no livro que é a sua autobiografia moral "O Físico Prodigioso". Assinar a petição e era correr o risco de não ir.
A 21 de Dezembro era recebido pelo Ministro do Ultramar. A 15 de Janeiro de 1954 anotava no seu diário: «ontem soube que a ida à índia, possivelmente por intrigas do Laboratório, está em águas de bacalhau». Não iria.
«Teria sacrificado a minha independência essencial a uma viagem às Índias, que ainda não é certa?», perguntava-se secretamente no dia em que lhe trouxeram o abaixo-assinado. Foi um assomo de verdade. Não assinou e não foi no cortejo. «Ninguém quer saber de mim», diria mais tarde. Compreende-se.

domingo, 14 de novembro de 2010

Myra, uma história íngreme

Acabei de o ler há momentos.
Se a plausibilidade de uma narrativa fosse critério, talvez Myra, o romance de Maria Velho da Costa, devesse ser revisto em alguns dos seus momentos. Sobretudo o final, que soa forçado, a introduzir na história ingredientes que lhe tentam trazer, com excesso, o clímax dramático: Gabriel assaltado por meliantes num carro de polícia roubado, morto e abandonado numa valeta de uma auto-estrada, tudo com muitos palavrões de todos, e Myra, a rapariguinha russa de destino viandante, jogada num bordel onde um casalinho de criancinhas são prostituídos à mercê de «poderófilos» e tudo a terminar em suicídio, em salto da janela, ela e o cão, porque os «suicidas são sempre assassinados» e assim também se morre às mãos dos outros. 
Descontando isto, e muito do que tem um hálito a paráfrase de acontecimentos recentes, e uma lógica de caracterização anti-macho na configuração dos personagens, em que o único que na aparência se salvaria é capado e impotente e morre não sem antes aflorar quão sádico seria no sexo e instrumentalizador até ao vómito na fantasia do amor, trata-se de excelente Literatura.
A leitura prende, os quadros sucessivos da exposição daquele destino humano, de esperança em desespero, criam uma galeria de horror de que o leitor é, afinal, o mais exposto, deixando ver as chagas que abre cada linha na sensibilidade de quem lê. Além disso, a manha e a tenacidade, criando aquela única força de sobrevivência que são na tragédia, «rumo à atrocidade», o mínimo que resta, comovem, miúda e animal à mercê da carnificina que é o mundo de todos os outros.
«Nada é mais contagioso do que o mal», diz-se num momento do livro e por isso Myra talvez seja a história da malignidade, feita ficção.
O crime por receio do qual Myra inicia na página 56 a sua viagem, que é a viagem da sua fuga, resolve-se na página 136 com um não ter morto. «Matara e não matara. Não fazia dela menos assassina, o que conta é a intenção».
Livro sobre a alma russa, vivido suburbanamente em Portugal, livro de «criaturas íngremes», tudo visto, vencidas as minhas antipatias, digo: um excelente livro.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Maria Gabriela Llansol: solve et coagula

Fica sempre a dúvida sobre se estes papéis são para ser editados. Se não serão demasiadamente privados ou excessivamente provisórios. É que são notas de leitura, a apontamentos para melhor memória, ou suspiros de circunstâncias. Escritos porque se sentiu a agonia do aperto financeiros, o brotar da esperança em dias melhores, porque amou ou sentiu falta de amor.
Claro que o ser-se escritor sujeita uma pessoa, como se a sua alma pertencesse aos leitores, na parte em que se espalhou, ectoplasma espírita, em papel impresso, ou no que ficou escondido, na aérea respiração de onde emana a ideia e o sentimento.
Senti isto ao ler o volume segundo que compila excertos dos setenta cadernos de escrita de Maria Gabriela Llansol. Editados pela Assírio & Alvim.
Compreende-se, ao lê-los, quanto as ciências ocultas, a alquimia, o mundo esotérico preencheram os interstícios do seu ser sensitivo e pensante. Entende-se como é que foi no húmus da Natureza que ela encontrou a sua natureza. Interpreta-se melhor o tom errático, a incompletude, o solver-se e coagular-se do processo de escrita.
Mas é com pudor e vergonha que se passa por certas páginas. Onde está a carência e o desejo, a ausência e a falta. O livro, franqueando-lhe a intimidade, «levantou-lhe a ponta do vestido que era um vestido de larga contemplação». Como todos os diários, são livros de cabeceira.

sábado, 25 de setembro de 2010

Pressentindo, todavia

Fui buscá-lo, com saudades, porque há tanto tempo que o tinha deixado. Como sublinho quando leio, foi-me fácil retomar, mas percebi que tinha de reatar o fio à meada. Não que na ficção  história interesse assim tanto, mais importa o modo de contá-la, mas eu não encontrava outra forma de saber quem era o Edmundo com quem o Sérgio falava e tinha anotado a lápis que o Flávio era o narrador. Aqui estou de novo com a Promessa o romance inédito do Vergílio Ferreira. Noto que os meus olhos estão piores de tantas horas de computador. Esforço-me por ler e leio e maravilho-me. Terminei o capítulo quinto. Tinha ido à rua apanhar sol e vim iluminado de Literatura: «devemos ir sempre mais longe até onde já não entendamos, pressentindo, todavia, que ainda se pode continuar a explicar».

sábado, 18 de setembro de 2010

Depois do smog

Há quanto tempo não lia. Nem os livros que estão para acabar de ler, nem os que mandei vir para começar a ler, nem sequer aqueles que sei não serei capaz de ler. Nada. Só leitura forçada, funcionária. Trapo!
Hoje voltei ao ritual. Levei comigo para a cafetaria da Gulbenkian o Londres e Companhia do Luís Amorim de Sousa. Já aqui falei dele, autor, a propósito do Alberto Lacerda, que «desencantou» o título. Fantástico verbo «desencantar» querendo dizer descobrir, "desenrascar" essa virtude tipiciamente portuguesa.
Observando-os, aos ingleses, perdidos no meio do fog, à chuva, ao frio e ao vento, comenta o autor: «e estes tarados com a mania do ar livre. Isto é uma tara! Isto é uma aberração».
Lido isto voltei para casa porque o tempo está feio e ameaça chover.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O tradutor

Chegou a casa, vindo de uma interminável rua e de uma infinita tarde. Junto a uma janela, o texto nos joelhos, o pescoço dobrado, as costas doridas, as mãos a enclavinharem-se, a teimosia do dever. A seu lado, num braço de sofá, folhas soltas de um livro desmembrado. Palavra a palavra, revendo frases, articulava um sentido, tentava descobrir uma significação. Por vezes o incompreensível ocupava o seu lugar, desfazendo-lhe a laboriosa construção. Matraqueando teclas, folheando dicionários, hesitando em gramáticas. Por vezes dormitava na ânsia de dormir. Eis o tradutor.
Chegara a casa vindo de um mundo estranho. Uma fímbria de frio surgiu-lhe pelas frinchas da janela que era da vida o modo de a viver. Cada vez mais páginas pareciam amontoar-se por traduzir, cada vez mais o mundo lhe parecia intraduzível.
Houve uma manhã em que se entendeu finalmente com a língua estrangeira. Cegara e o mundo escrito tornou-se por igual incompreensível.
Faltaria depois a revisão das provas. Uma vida em tipografia.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O calor assim em bruto

Encontrei um livro dele um destes dias. Não me lembro onde. Tenho muitos. Estive para comprar mas temi já ter e repetir, como sucede por vezes. Falam de arte, pintura sobretudo, e de música e ao mesmo tempo são literatura pura e tudo isso numa simbiose muito lúcida e densa. «Talvez, pensei, o calor assim em bruto, atenuasse o nosso comum horror ao verão e a temperatura funcionasse como uma vacina», escreveu no conto "No Verão é Melhor um Conto Triste».
Faz sentido hoje porque se sufoca.
João Miguel Fernandes Jorge é difícil, pela inteligência com que diz, pela cultura que o leva a dizer. Caminha-se com ele como por corredores de refinamento e categoria. Refresca o espírito. Estão 38 graus aqui na rua.

domingo, 8 de agosto de 2010

Ce e Amorul?

Alarves, incultos, imaginamo-los a todos pedintes de duvidosa razão, espojando-se pelo chão da miséria, mão lancinante, lavando vidros de automóveis que ninguém quer que sejam lavados, elas de crianças dopadas, ao seio, em sonos incompreensíveis, humílimos, corridos pelo nosso desprezo e pela indiferença: romenos.
Acordei esta madrugada com o outro mundo de um país que é um ponto avançado da latinidade em território eslavo.
Não sabia que tinha sido o Carlos Queiroz quem elaborou a primeira revisão da tradução em 1945. Cuidadosa, amorosamente, trabalhando a métrica, a morfologia, a sintaxe, a estética dos poemas. Surgiu assim a edição bilingue de Mihail Eminescu, o grande poeta romeno: "Poezii". Tenho-a aqui comigo como companhia.
Victor Buescu que tantas gerações formou no seu Curso de Língua e Literatura Romena na Faculdade de Letras de Lisboa, dedica-lhe palavras de grato reconhecimento.
Sim, foi José Carlos Queiroz Nunes Ribeiro, funcionário da Emissora Nacional, poeta, ensaista, autor de magnífica Épístola aos Vindouros, tio de Ofélia Queiroz, essa mesma, a de Fernando Pessoa, o que morreu aos 42 anos.
Mircea Eliade, que morou aqui perto de mim, não longe da Igreja de Fátima, deixou em prólogo uma breve anotação à obra e ao homem: «incapaz de ser feliz», «a ventura de todos os dias é-lhe negada». A ele Mircea também. O seu Diário Lusitano faz dó, a mostrar como a vida pode ser cruel.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Vagão J

Porque saiu agora um romance inédito do Vergílio Ferreira, encontrado completo no espólio do autor, chamado A Promessa, escrito em 1947, ou seja antes do Mudança [1949] que como o título o diz marcaria a viragem da escrita do autor para a problemática existencialista, abandonando - rompendo será excessivo dizê-lo reportando-nos a tal momento - com a caminhada na estrada do neo-realismo, achei que para tudo fazer sentido na minha cabeça e não aumentar a desordem que resulta do ler dispersamente como tanta vez sucede, deveria começar pelo princípio. First the first eis-me com o Vagão J entre mãos.
Vagão J, como se sabe é, na nomenclatura ferroviária, o das mercadorias, o da tralha, o do gado, as mercadorias avulsas.
Começou a escrevê-lo em Faro em Maio de 1943, terminou-o em Setembro do ano seguinte. O texto é curto, revoltoso.
Leio nos intervalos. Para já vou ainda na caracterização do «homem da jorna», espécie braçal calcinada a dura vida e talhado à podoa das privações. E sobretudo retinto de ódio. «Toda a gente possuía qualquer coisa para afirmar a sua existência: o homem da jorna tinha apenas o seu ódio». «Porque os homens da jorna sofriam como cães ao verem que trouxera de Lisboa um ar de rufia, um paleio de malandrim. Cavasse como os outros a terra negra, andasse ensebado, fosse como os da sua igualha». Estava perdido o Bogas, à mercê de nas tripas se lhe ferrar a naifa, vingança surda sobre o gingão citadino de mão macia e fala eloquente para quem a fome é apetite e a romaria coito de coitos de fácil sedução.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A coçada batina e o seu lustro

Percebe-se que há hoje ainda um sector na sociedade portuguesa que tem no seu modo reticente de ser, na sua forma indirecta de se exprimir, na reserva dos sentimentos e na dissimulação das opiniões, os tiques do seminário frequentado e do seminário que abandonaram. São almas contidas em corpos fustigados. A masculinidade sobreviveu neles à amputação da libido, a humanidade resistiu à saturação da confissão auricular ouvida genuflexória até à náusea do horror.
São seres de impaciência recalcada. A danação dos pecadores é a sua forma de através das penitências alheias expiarem uma raiva que fingem ser piedade.
Notam-se pela liturgia, pelo esgar feito riso, pelas vestes talares, pelas profissões que permitem condenar.
«Tudo eu podia ser como seminarista, excepto o que não tivesse em conta o facto de o ser». Leio isto no estudo que Maria Almira Soares dedicou a Vergílio Ferreira, a quem a frase pertence. O estudo é sobre «O Excesso da Arte num Professor por Defeito».
«Quando se frequentava o seminário, era-se seminarista, fosse qual fosse o lugar e a circunstância», escreveu o autor da Manhã Submersa. Para a vida toda, Amen!.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A unidade do ser

Sabia que existia mas não o encontrava. Quando passava pelas livrarias, pelos alfarrabistas, pelas vendas ambulantes perguntava-me com os olhos mas ficavam cegos. Trouxe-o este fim de semana. Já é uma terceira edição. Trata de Fernando Pessoa. Mas não dos vários, distintos, diversos, heterónimos, mas sim e por isso se chama Um Fernando Pessoa. Se a aritmética de que Almada Negreiros fez arte, o 1+1=1, dá sentido e vida ao que é disperso e somatório e por isso imprecisão, ei-lo aqui, uno porque plúrimo e certo.
Comecei-o ontem, enquanto esperava o que não sabia ia ser uma última vez. Ao acaso li sobre Ricardo Reis. Ao chegar hoje a casa, vencidas as urgentes obrigações, que se incumpridas me tornam ainda menor, descobri que só tinha a obra em prosa atribuída a esse outro Pessoa pagão e tradutor. «Abomino a mentira porque é uma inexactidão», disse. E acrescentou «aos deuses peço só que me concedam o nada lhes pedir». Agostinho da Silva escreveu em 1959. Genialmente diferente.

domingo, 25 de julho de 2010

Às Sete no Sá Tortuga

Lê-se e uma pessoa sente-se transportada para o lugar. Não só o lugar acanhado dos quartos alugados, o telefone no corredor, os livros a esmo por onde há espaço para os arrumar, os quadros a aguardar uma parede livre para poderem ser pendurados. Sim o lugar sentimental em que se reclama solidão à companhia, o lugar dos biscates que dão para as contas por pagar e outras ficam por solver e sempre livros, e arte e culturae sobretudo humanidade.
Uma pessoa lê e sente a tristeza de quem se entristeceu e as esperanças que são a antecâmara da alegria e a vida a escorrer pelas páginas de um livro
Não é uma biografia é um relato de viagem. Luís Amorim Sousa viajou pela vida do poeta Alberto de Lacerda. A Assírio & Alvim editou.
Alberto «sabia que nem todos os que entravam no seu mundo eram dele residentes». Luís compreendeu-o amorosamente. O livro não é uma confidência, é um murmúrio de rememoração como uma prece.
Levei comigo o pequeno volume e li-o enquanto o autocarro da Mundial Turismo rumava para sul. Era sábado e a tarde prosseguia e com ele a minha leitura.
Regressei hoje na Rede Nacional de Expressos que é o mesmo um pouco menos melhorado. Ao chegar a Lisboa, há pouco, a história tinha terminado. Como sucede com todas as biografias quando já não há mais a dizer e a vida só sendo inventada para se poder contá-la.
Pedi à Liliana que me arranjasse mais para ler. Talvez um dia a fotobiografia, para já o Pajem Formidável dos Indícios, afinal, todos os livros quero eu dizer.

sábado, 17 de julho de 2010

Um segredo ardente

Há muitos ainda nas casas dos nossos pais. A maioria comprados pelas nossas mães. Os livros de Stefan Zweig´fizeram a sua época nos anos quarenta. A Editora Civilização traduziu-o quase todos. Austríaco saíu da Europa a caminho do exílio no Brasil. Morreu de tristeza e de pena pela sua Pátria ocupada pelo nazismo, suicidando-se com sua mulher no Brasil terra de futuro. A simpatia com que saudou esse País de acolhimento moveu contra ele as forças políticas que se opunham à ditadura então reinante. 
O modo como escrevia passou de moda. Escrita simples, fluente, apetecível leitura, a incidir sobre os meandros psicológicos das personagens, com compaixão e elegância mesmo quando sobre a sordidez. Conhecedor da alma humana, o autor de Amok trouxe-nos biografias que são de pessoas na pujança plena dos seus seres. Não mais me esquecerei do que escreveu sobre Nietzsche.
Acabei de ler esta noite Um segredo ardente.
É uma história de uma predação, o predador a seduzir o filho miúdo, corrompendo-o com a amizade, para alcançar a cedência da mãe. No final o amor triunfa sobre a luxúria, sofrido por entre mentiras, duplicidades, fidelidades traídas, carências.
Casada, Matilde - uma burguesa cujo nome uma só vez aflora na narrativa - vai cedendo ao insidioso barão austríaco. Ele «conhecia perfeitamene a sua incompatibilidade com a solidão. Não era pessoa com disposição para ficar só em frente de si próprio, e evitava, quando podia, esses encontros, porque não queria tomar conhecimento íntimo da sua pessoa». Ela «uma passional sem dúvida, mas bastante esperta para dissimular o seu temperamento através de uma melancolia cheia de distinção». Entre «um turbilhão de felicidade e de um infantil desespero» Edgar encontra nele o pai que falta e na mãe a mulher que descobre gostaria de ter.
A «ousadia do assalto» desenvolve-se neste ambiente. A renúncia aos desejos faz-se com lágrimas, magoada escolha «entre ser mãe ou ser mulher».

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Agostinho da Silva: as memórias do amor

Assina como se fossem as Memórias de Mateus Maria Guadalupe. É Agostinho da Silva. As pessoas conhecem o filósofo, sobretudo o conversador. Pelo estilo vadio das conversas muitos pensam-no como um entertainer, como aquelas estrelas dos talkshows. A profundidade das ideias, a originalidade das observações, essa escapa. Os media nivelam por baixo, a TV nisso é assassina quando clownesca.
Herta, Teresinha, Joan é uma sua obra de ficção. Viu-a publicada em 1953, Surge agora pela mão amiga da Biblioteca Editores Independentes, numa edição em oitavo, cuidada, bem impressa.
São três histórias de amor, as únicas histórias que merecem, afinal, ser contadas e perpetuadas.
São três histórias de fidelidade, aquela que há quando na diversidade se persegue o mesmo amar sob variadas formas de amor. Amor arquetípico, o que Agostinho da Silva nos conta, paradigma universal do sentimento ansioso, reiterado, persistente, nunca desconsolado mesmo na impossibilidade, pois há o arrebatamento e a espera.
«Cumprido amor» mas não consumado amor, com Herta Bikensrheim, estranha viajante naquele iate «fino e forte, audacioso e calculado, pronto para todas as surpresas e audaz para todas as aventuras», sentimento guardado pelo barbudo marujo, «português do Algarve», que é uma outra forma de ser-se português, «diabo de português que em todo o mundo vais e vês», afogado em «um Martini seco e em razoável miséria de conversa», luxuoso, nas docas de Montevideu, em Recife e em Dacar, afinal a vida indiferente à geografia feita só espaço para além do tempo. Herta de olhos verdes, como ele não vira outros se não em Ferragudo no instante agónico do poente quando o sol sangra, casada com um pintor cego não por lhe faltar a visão mas porque «nunca pinta o que vê», por achar que «imaginar e pintar é o mesmo, fora a técnica». Narrativa de alicerces no acaso porque «temos errado muito e do muito que temos acertado, da metade que temos feito por nós e da metade que Nosso Senhor tem feito apesar de nós».
Amor bárbaro, do beduíno puro à azulácea celta, amor de espectador «um bom espectador, o que significa uma estrita obrigação, uma quase ética obrigação, pelas próprias essências do teatro, de colaborar no espectáculo» e o espectáculo é assistir, terceiro, ao enamoramento sem história de Joan e Andrew, condenado a morrer e a guerra mata-o, matando-o a ele, amor feito de espera e tempo, um dos possíveis amores porque «eu, afinal, namoro todas as meninas do mundo», irrisório quando «o que ela estava talhando não era o meu casamento, era o casamento dela», e em tudo isso a «somenos importância». História de quem sabe que o tempo o come e não se pode comer o tempo que nos aborrece.
Enfim, Teresinha, magnífica, conto de meiguice e de minúcia, acaso para um amor de quem sabe que «namorar é um fim em si mesmo» e que «casarem-se as pessoas não tem nada que ver com as pessoas que se casam», para aquela menina e «aquela menina não havia de poder dizer a São Pedro, num longínquo dia, que só vivera no nundo para reparar nos outros, e que nela ninguém reparara, nos seus discretos encantos, e talvez nas audácias, mais escondidas e internas. E que ninguém a servira».
Enternece ler tudo isto.
E no remate, a fronteira do gostar, esse aquém do amor e dele evasiva: «Estaria eu gostando de Teresinha? Pareceu-me que não e me parece ainda hoje. Do que eu gostava era disso mesmo, que Teresinha estivesse comigo».

domingo, 23 de maio de 2010

A Curva de uma Vida

Os fins melo-dramáticos estragam as narrativas romanescas. Talvez A Curva de uma Vida mercesse ter outro fecho, mas o autor era jovem e nunca reviu a obra para publicação em vida.
O original faz parte do espólio que a viúva de Vergílio Ferreira entregou na Biblioteca Nacional. A Quetzal editou-o, numa edição que contém um aturado estudo filológico de comparação do primtivo texto com as suas revisitações. Vim a lê-lo extasiado. Pressente-se ali uma poderosa capacidade de escrever. O criado João «tinha sorrisos largos mas o coração era manso como o dum boi» e «corava quando me presenteava com bons pêssegos moles e sumarentos, que ele tratava com um amor silvestre. Tudo nele era inculto: as unhas, o cabelo e a bondade».
Veja-se a força arrebatadora e expressiva das frases «amor silvestre», «coração manso como o dum boi». Mas note-se o contraponto entre conceitos oriundos de conjuntos tão diversos como «sorrisos largos» e «coração manso». E sobretudo atente-se num instante de suspensão da leitura em favor do pensamento para mastigar e saborear a ideia tão rica de ressonâncias significativas como a incultura das unhas, a do cabelo e a da bondade...
O que há no livro e não mais deixaria de haver em toda a obra do autor da tão banalizada Aparição é aquela irrupção ventral e jorrante da vida e do homem, as necessidades e contigências insensíveis daquela os desejos e medos sensíveis deste.
Surpreendendo a mãe na cama com o seu próprio cunhado, Amadeu, «o olho furioso, na ânsia de se fartar de verdade» conta: «não via minha mãe, via uma mulher e admirei-lhe os contornos mal cobertos. Pelos meus nervos andaram gozo infernais». O leitor arrepia-se incestuosamente ali, impúdico e inconveniente.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O actor, de Gastão Cruz



Esplendor e resplendor Aureolado
pelo silêncio ideal o actor o rosto lança
na direcção do escuro
flanqueado
pelas sombras da balança

A solidão refaz de cada lado
o enigma do corpo
que balança
sobre o fundo parado do quadrado
o espectro da esperança

quarta-feira, 19 de maio de 2010

28 de Maio, aniversário de Ian Fleming


Em 2008 foi aqui, por causa de um livro que escrevi nesse mesmo ano. Volto ao Estoril, desta vez a convite do Arte da Linha.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Ser diverso

Comprei-o na Feira do Livro. É o fac-simile do livro Batalha de Flores, de António Ferro, publicado no Rio de Janeiro em 1923. Obra prefaciada por seu filho António Quadros.
São crónicas e são histórias. Uma escrita refinada, irónica, por vezes desconcertante. «Detesto os livros obsesos, ventrudos, impenetráveis, cerrados, não se abrindo para ninguém, sempre metidos consigo. Adoro os livros delgados, elegantes, esguios que convivem comnosco que uma hora depois de apresentados, já nos têm contado o seu passado, o seu presente, o seu futuro». Começa assim o escrito O Meu Poeta.
O homem que proclamou que a Arte moderna é uma «Arte de relâmpago», uma Arte que «estabelece telegrafia com as almas», foi no seu tempo um avançado. De si disse: «eu só tenho a coerência da incoerência. Ser incoerente é ser diverso».

sábado, 8 de maio de 2010

O que ainda não foi feito



É sempre tudo problemático e polémico e muito discutido. Mas eu gosto. E por menor que seja, é bom porque gosto, haja ou não melhores critérios de validação estética. Engalfinhem-se filósofos, esmurrem-se críticos, rebolando a soco nas suas coutadas literárias, nada que uma noite apaixonada não dite como urgência e razão. Amanhã é tarde demais...

domingo, 18 de abril de 2010

Dono de si mesmo

Ainda tentei ler seguido para tentar acabá-lo, ao volume V das Páginas do Ruben A. de que li a parte final e mais dois terços desde o princípio. Falta o meio. Sei que são trechos soltos mmas mesmo assim. «Gostava de passar o Natal fora» numa daquelas «quintas antigas, com um brasão maior que a fachada, onde fosse dono de mim mesmo». Ah! «Entre a Póvoa de Lanhoso e Cabeceiras de Basto»! É na página 225.
Ele gostava mas, coitado, lá se foi para a terra onde não há Natal. Viajava. Apaixonado. O coração traíu-o, esgotado de tanto. Dono de si mesmo hoje está quase esquecido. Tem viúva e essa coisas todas. E A Asírio que lhe editou os livros. E esta foto, de chapéu na cabeça, o cabelo a faltar-lhe.

A efémera traição da sobrevivência

Muitos conhecem Ferreira de Castro, embora Ferreira de Castro comece a deixar de ser facilmente legível. Fala de um tempo que já não há. De um Portugal em que os Emigrantes éramos nós.
Hoje, à literatura do efémero só resiste a literatura da intemporalidade. Ora para a descobrir nele, com a Eternidade e nela a insone condição humana, e preciso lê-lo. E estão a deixar de o ler.
O que muitos não sabem, porém, é quem foi a mulher de Ferreira de Castro. Escreveu como «Diana de Liz», chamava-se Maria Eugénia Haaz da Costa Ramos. Multiplicou-se em escritos na imprensa, esvaiu-se em dispersos.
Nasceu em Évora, como Florbela Espanca, morreu em 1930, o ano em que Florbela morreu. Viviam juntos há cinco anos. Nesse ano o escritor publicara A Selva.
Ela foi, disse-o Jaime Brasil, sua «companheira, mãe e irmã».
Estive em tempo com o livro póstumo que, desesperado por tê-la perdido, seu marido fez editar, em 1933, pela Guimarães: Memórias duma mulher da época. Talvez o não consiga ler, a «psicologia da época» a diminuí-lo, eivada de moralismos, mesmo quando tolerante para com a audácia amorosa. Um mundo em que a frivolidade esconde a generosidade de um coração insensato, ansioso de dar.
O que me tocou no livro é ele não ter grandeza de estilo, nem densidade de análise e, no entanto, ver Ferreira de Castro, laureado, prestigiado, senhor já de si e da sua obra, com o coração dilacerado, a dedicar-se, desveladamente, para que aquela que começara a «contemplar a vida no milagre e no pavor de toda a sua extensão» pudesse ver a luz.
Ele foi o homem que, estando a morrer, considerara traição ter-lhe sobrevivido. Em 1938 casaria com a pintora Elena Muriel.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Irreparavelmente casual

Às vezes uma pessoa estende a mão e lê qualquer coisa que esteja exactamente à distância do braço. Isso quando se tem a certeza que se encontra à mão o que se gosta e o objecto do desejo errático é o querido certo. Foi precisamente assim e apareceu-me La Invención de Morel de Adolfo Bioy Casares que diz na capa ser «una extraña historia de amor protagonizada por un hombre y una mujer que viven existencias incompatibles en espacios y tempos rivales». A narrativa centra-se neste momento final que é o princípio e aliás toda a história: «acostumbrado a ver una vida que se repite encontro la mía irreparablemente casual». 

terça-feira, 13 de abril de 2010

Molitva Russkikh



É o hino do Império Russo que baniu a Polónia do mapa. País irmão do nosso, mais o heroísmo e a resistência, Apóstolo das Nações. E, no entanto, a beleza engana, como um exibicionismo de falsa ingenuidade. E Deus entristece-se, tornando-se invísivel e inacreditável.

domingo, 11 de abril de 2010

A pedra de toque

«A eternidade repetitiva pode parecer atroz ao espectador; é satisfatória para os seus indívíduos». Disse-o Adolfo Bioy Casares no seu incomum livro La invención de Morel. É uma legitimação inteligente da angústia de Sísifo. Redigida meticulosamente a frase resiste a uma aprimorada hermenêutica. Note-se que não há nela sequer um «porém» adversarial que torne o seu segundo segmento uma contradição ou uma excepção ao primeiro. Aqui a satisfação é como uma realidade tão regra geral como atrocidade. Repare-se que o que é atroz está relativizado por um «parece» que degrada a asserção pela desvalorização do observar que a afirma, enquanto que a satisfção «é». Constata-se, enfim, que a rude e dolorosa atrocidade corresponde a medíocre e quase insensível satisfação: a eternidade repetitiva «é satisfatória».
Eis a grande literatura, cinzelada em pedra polida até que o remate final e o polimento total tornam cada frase a pedra de toque de uma magnífica construção.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O momento da verdade



Picasso negava que o quadro fosse seu. O outro dizia-lhe «mas Pablo eu vi-te pintá-lo». Picasso rematou: mas eu posso pintar um falso Picasso como outra pessoa qualquer. É em «F for fake», um momento genial em Orson Welles, esta noite na Cinemateca.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A invenção das palavras

Há um comboio que esconde outro. Fernando Pessoa escondeu, com a sua extensão, José de Almada Negreiros. Fui buscá-lo à estante esta noite para ficar numa só frase que tanto basta: «nós não somos do século de inventar palavras. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas».

terça-feira, 6 de abril de 2010

Anarchy


Mesmo que a minha aparência o desminta, acreditem que se escrevesse música era esta; se a representasse era assim, se tivesse alguma coisa a dizer ao mundo era isto. Talqualmente assim, ainda que:

Is this the M.P.L.A or
Is this the U.D.A or
Is this the I.R.A
I thought it was the UK
Or just another country
Another council tenancy
I wanna be Anarchy
And I wanna be Anarchy
(Oh what a name)
And I wanna be anarchist
I get pissed, destroy!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Kaos

O livro saíu postumamente. Não foi revisto pelo autor. Talvez por isso a edição esteja cheia de gralhas e de erros e mesmo de palavras incompreensíveis. Se a ideia foi publicá-lo tal qual o manuscrito, isso merecia aviso. Mas aviso não há. Nem no-lo diz o prefácio de José Palla e Carmo, prefácio que por sinal vem no fim, onde se alerta para o facto de o autor considerar que esta é a sua melhor obra, mesmo depois de ter escrito a Torre de Barbela.
O livro é soberbo, pela ironia, pelo paradoxo, pelo magistral modo de dizer: «o cheiro bafiava, a respiração ofegava, o suor pivetava».
Ruben A.inventava palavras, mas não inventava realidades. Com ele a realidade é a Literatura. O Kaos é «uma procura no dentro de um de nós que é eu».

sábado, 3 de abril de 2010

O genial amanuense

Para quê viver na ânsia de ler livros novos se ainda para ler os livros que não se acabaram? A verdade, além disso, é que a leitura não pode ser uma voragem nem uma vertigem, mas um refastelar da sensibilidade, um sossego da alma, mesmo quando é um vulcão de sensações. Hoje fui buscar a longa viagem que o João Céu e Silva fez com o António Lobo Antunes, para redimir a minha má consciência de ter estado tantos dias sem ler e para exorcizar fantasmas em relação não à sua escrita, mas sim quanto à sua pessoa.
Claro que há aquelas coisas que me exasperam. «O seu dia de escrita habitual começa pelas dez da manhã. Escreve até à uma da tarde. Regressa ao trabalho pelas duas da tarde e embala de novo até às oito da noite. Interrompe e continua uma hora depois até por volta dasonze da noite. Não há diferença entre os dias de semana e dos do fim-de-semana, todos são dias úteis, mesmo os sábados e domingos», revela o entrevistador. Uma pessoa lê isto e imagina aqui um amanuense da sua própria escrita, submisso ao livro de ponto, de manguitos e pala sobre os olhos, a esgravatar laudas, fólios, fiel ofocial da repartição literária, copista, afogado em serões num mundo de cegos, em breve o arquivo e a fama precária, a glória escusa e a esperança de sobreviver. Genial, porém.


sexta-feira, 2 de abril de 2010

Graças pela sobrevivência

Lembrei-me esta tarde que quando escrevi o texto de apresentação de uma nova edição de O Príncipe, de Maquiavel, que a Presença fez traduzir a partir directamente do italiano, deixei ali este excerto: «Descobri que para ler este pequeno livro e entender a complexidade que se esconde por detrás da sua vulgar linguagem importaria conhecer o seu autor, retirá-lo do imaginário colectivo, que ora o transformou numa espécie de cortesão alcoviteiro de tiranos, com eles partilhando os arminhos do poder, ora em republicano desprezado pela República, amigo do povo e dele seu discreto defensor, e ir buscá-lo ao momento de exílio, «res perdita», sofrido o desemprego, sujeito à prisão e à tortura, o dia gasto em convívio com gente boçal, a noite esgotada em fantasias delirantes em companhia dos Antigos, a dura modéstia do quotidiano e a ânsia de obter «qualche cose» dos de ‘Medici ou do Papa, um de ‘Medici também , algo que lhe devolvesse o sentido de utilidade e algum rendimento, como nos tempos idos em que era o Secretário da Segunda Chancelaria da cidade de Florença. Filho de advogado literato e por isso pobre, Nicolau Maquiavel, cultor das letras, pobre morreu também. Legou-nos, inédita, uma obra que é um sonho fantasioso de grandeza, tal como o estranho sonho que terá tido, segundo consta, antes de morrer».
Tinha então cinquenta e oito anos, a idade com que ele morreu. Neste dia simbólico da morte e da ressureição, dou graças a Deus por ter sobrevivido.