terça-feira, 20 de setembro de 2011

A má fortuna



Perdoem a imodéstia de falar de mim aqui. É que foi um envolvimento emocional grande com a obra deste homem, com a sua pessoa, com a incompreensão a que foi sujeito. A Presença pediu-me que escrevesse um texto de apresentação para uma nova edição, agora traduzida a partir do italiano, do seu "Príncipe", a obra que nunca viu editada em vida. Envolvi-me com o estudo da sua biografia, a partir da má fama em que caiu. Convivi com o seu teatro, a poesia, as cartas. Acompanhei-o na tragédia existencial que foi a sua vida, nos seus amores, na rotina do "Secretário" florentino.
O estudo que entreguei à editora e esta editou há quatro anos e serve de introdução ao livro foi, porém, praticamente ignorado. Devo à Casa Veva de Lima ter podido falar sobre ele ante um pequeno mas muito amigo auditório. Tempos depois a Faculdade de Direito organizava um colóquio sobre o assunto e eu fui convidado para "assistir". Não fui. Não por vaidade de me sentir com direito a púlpito, sim porque quis poupá-los a terem-me como "público" para a hora das palmas.
E, no entanto, tenho consciência de ter escrito um ensaio inovador, apresentando um outro Maquiavel que nunca fora apresentado em Portugal. Para isso estudei horas a fio, apliquei-me no que tantos ignoraram, li-o no original! Recusei-me a entrar na diabolização fácil da personagem. Talvez por isso. Estive contra a corrente. Vi o Homem onde outros inventaram a Besta.
Se não fossem as obrigações legais que me ligam à editora que me pediu o estudo, publicava-o aqui. Ao menos para que fosse lido e não desprezado. Se não fosse o pudor, pedia autorização para isso.
Escrevo estas linhas com um sentimento de raiva e de vergonha. Tudo isto porque estive a ver aqui reflexos do seu pensamento. Vieram memórias, veio a luta contra a adversidade que tem sido tanto da minha vida.
Não sou melhor que os outros. Gostaria de ter tido a oportunidade de ser insultado pelos erros, pela estupidez, pelas insanidades que pudessem estar naquele meu escrito, mas ao menos tido em conta. Não por mim mas pelo que fiz, pela reabilitação póstuma de um homem, que é tratado como se de um primário fosse. Porque como aí escrevi: «Maquiavel ainda hoje causa paixões. São os que o reduzem ao que escreveu neste livro, contra os que exigem que se leia tudo o que há dele. Junto-me a estes, pois urge ler o Maquiavel republicano para que se entenda este tratadetto, rir com o Maquiavel obsceno de La Mandragola para compreender o poético autor dos sonetos de delicado enamoramento, descobrir o todo para entender a parte. São os que vêem nesta obra um manual de instruções para tiranos, contra os que nela vêm um manual de sobrevivência para que os tiranizados sobrevivam à tirania. Não me juntei a nenhum deles, pois acho que O Príncipe foi apenas uma tentativa de mostrar aos que eram aquilo que tinham de ser, para continuarem a sê-lo. São os que encontram aqui doutrina e ciência no campo da política contra os que só acham pragmatismo e oportunismo no mundo do governo. Percebi que Maquiavel escreveu este texto misturando um interesse a muita observação e rematou com uma proclamação; uma obra destas corre o risco de ir do zero ao infinito das categorias dos que vivem a dissecar pensadores à falta de pensarem sobre o que eles pensaram. Niccolò Machiavelli é, sobretudo, mais diverso do que aqueles que, com estupidez militante, o reduzem ao homem unidimensional».
Enfim, nada disso sucedeu. O desprezo, por isso, dói. O desinteresse. O fazer-se de conta que não existe. Por isso aqui fica um excerto do que foi esse meu escrito. Completei-o tinha 58 anos, a idade com que morreu Maquiavel. Tenho 62 de idade, 20 de esperanças. A felicidade dá-me forças contra a má fortuna.

«Esta apresentação é a narrativa de uma tragédia existencial, O Príncipe visto como um produto de amargura, de grandeza agónica, de desespero mas, também, nas sucessivas interpretações que concitou, um espelho das doridas contradições sociais, políticas e religiosas dos vários séculos de História durante os quais a obra sobreviveu até chegar, como um clássico, aos nossos dias. Tudo convergiu para que o acaso não pudesse gerar diferente destino. A verdade do escrito é a do efeito que produziu.
Descobri que para ler este pequeno livro e entender a complexidade que se esconde por detrás da sua vulgar linguagem importaria conhecer o seu autor, retirá-lo do imaginário colectivo, que ora o transformou numa espécie de cortesão alcoviteiro de tiranos, com eles partilhando os arminhos do poder, ora em republicano desprezado pela República, amigo do povo e dele seu discreto defensor, e ir buscá-lo ao momento de exílio, «res perdita», sofrido o desemprego, sujeito à prisão e à tortura, o dia gasto em convívio com gente boçal, a noite esgotada em fantasias delirantes em companhia dos Antigos, a dura modéstia do quotidiano e a ânsia de obter «qualche cose» dos de ‘Medici ou do Papa, um de ‘Medici também[1], algo que lhe devolvesse o sentido de utilidade e algum rendimento, como nos tempos idos em que era o Secretário da Segunda Chancelaria da cidade de Florença.
Filho de advogado literato e por isso pobre, Nicolau Maquiavel, cultor das letras, pobre morreu também. Legou-nos, inédita, uma obra que é um sonho fantasioso de grandeza, tal como o estranho sonho que terá tido, segundo consta, antes de morrer[2].
Mas não basta conhecer o homem e a sua circunstância, importa também ter a percepção dos variados contextos pelos quais a obra passou ao longo do tempo e as mais antagónicas leituras que proporcionou, sempre sem esquecer em que estado se encontrava a península itálica onde foi escrita e encontrada a crueza do poder e a malícia interesseira generalizada, afinal o cenário desta encenação, «O Grande Teatro do Mundo».
Estamos no reino da complexidade. Sente-se isso vendo, por exemplo, o modo como a Cúria romana recebeu a obra, com a naturalidade, primeiro, de quem observa coisa sua, para depois a condenar ao catálogo dos livros proibidos.
O livro foi aceite primeiro com indiferente contemporização por um Papado corrompido e em promíscua relação com o poder temporal, destinatário natural de muitos destes pensamentos; no capítulo XI, dedicado aos principados eclesiásticos[3], o Papa Leão X vê o seu pontificado retratado como «potentíssimo» e Maquiavel a augurar que, erigido «com armas» pelos seus «santíssimos» antecessores, seja agora «grandíssimo e venerando» através da sua «bondade e infinitas outras virtudes». Não poderia haver maior lisonja.
Pouco mais de quarenta anos volvidos, em 1559, por decreto do Papa Paulo IV [nascido Gian Pietro Caraffa][4], O Príncipe entrava, porém, na lista dos livros amaldiçoados pela doutrina católica e, a partir daí, ler Maquiavel passou a significar estar em pecado de heresia, o autor queimado em efígie, os teólogos a clamarem pela fogueira como argumento final contra o seu pensar.
Mas foi no campo da política que a obra sofreu as mais diversas interpretações e serviu para legitimar as mais distintas ideologias: caucionou tiranias e foi tida como expoente de democracia, apontada como exemplo de realismo político e como manifesto de resistência amarga de uma vítima do poder. O marxista Antonio Gramsci [1891-1937][5] leu apreciativamente o livro na frieza do cárcere, o fascista Benito Amilcare Andrea Mussolini [1883-1945] citou-o[6], como exemplo, nos seus histriónicos discursos. O Príncipe é, pois, uma excelente demonstração de que cada coisa contém em si própria o seu contrário.
Livro herético, ele moveu, logo desde o século dezasseis, uma cruzada anti-maquiavelista, que levantou pendão nos campos de batalha do pensamento filosófico, histórico, político e ético, mobilizando forças para o enfrentar, como se contra o próprio Demónio se travasse esse combate.
Curiosamente, parte substancial dessa peleja passou por Portugal como uma decorrência do mandato ingente da propagação do Império através da Fé.
«Espanha e Portugal colocam-se desde a primeira hora em oposição política a O Príncipe», escreveu, em 1939, Vergílio Taborda, professor da Faculdade de Letras de Coimbra[7], quatro anos depois de ter surgido, pela mesma editora, a primeira versão do livro em língua portuguesa. E porquê? Porque, escreve Taborda, «defendendo a cidadela da fé em todos os campos, a Península não deixaria de fazê-lo também no da política. O maquiavelismo era a expressão máxima da política nova, realista e pagã: combatendo-a, as nações peninsulares não se afastavam do caminho que se haviam proposto percorrer».
Eis, encontrada no espírito do seu tempo, a bandeira intemporal de um exército que ainda hoje se não desbaratou e cuja linha da frente é encabeçada pela defesa da moral religiosa enquanto conceito ético do poder justo, contra a «visão pessimista da realidade humana», contra a «política de força», a «política de dissimulação e de perfídia».

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[1] Duas notas interessantes. Primeira, para referir que o «de ‘», sempre minúsculo é a abreviatura de «dei», antes da consoante e do «degli», antes da Vogal para fazer referência à família de que se trate; segunda, que por falar em Papas, os de ‘Medici deram origem a três. O próprio Papa Pio IV pretendeu ser membro da família, sem o ser!
[2] Circula, entre a lenda e o possível, a narrativa do sonho blasfemo de Maquiavel que, no leito de morte teria, em onírica fantasia, visto um mundo em que a turba dos pobres e dos simples caminhava para o Céu, os filósofos antigos – Platão, Plutarco, Tácito – e outras «graves figuras» da cidadania condenadas ao Inferno, porque estava escrito: «Sapitentia huius saeculi inimica est Dei». Posta em dúvida a sua autenticidade, o sonho tem servido como instrumento de cristianização do «ímpio» Maquiavel», que ante o momento de prestar contas ante um Deus que, com a sua obra ofendera, blasfemando-o pelas conveniências da política, terminara a vida mandando os políticos, de que fora conselheiro, arder nas fogueiras infernais. Trata-se de um sonho análogo, embora de sinal diverso, ao sonho de Cipião, que Cícero relata no seu Tratado sobre as repúblicas: «para todos os que conservaram, ajudaram e engrandeceram a Pátria, está guardado no Céu um lugar especial».
[3] O modelo monárquico do Papado, com a transformação do chamado «património de São Pedro» num principado, tendo à cabeça um Sumo Pontífice foi levada a cabo a partir da segunda metade do século VX quando o Papa Eugénio IV se estabelece definitivamente em Roma, em 1443, vitorioso sobre quantos pretendiam a supremacia da autoridade dos Concílios sob os concílios. A queda de Constantinopla em 29 de Maio de 1453, às mãos do Turco Maomé II, veio a abrir a porta para a supremacia da Igreja Católica, Apostólica, Romana. Dotado de exército próprio, de cerca de dez mil homens, a que acresciam mercenários, o Estado Pontifício em pouco se distinguia das outras potências temporais.
[4] Paulo IV procedeu à reorganização do Tribunal do Santo Ofício, incumbido da polícia da fé e do combate às heresias, criando a Congregação da Sacra Romana e Universal Inquisição e lançou o Index dos Livros Proibidos, por decreto de 30 de Dezembro de 1558, publicado no ano seguinte. Nele todas as obras de Maquiavel, de Rabelais e de Erasmo de Roterdão eram referidas como de leitura vedada. Com o Concílio de Trento, em 1564, foi elaborado um segundo catálogo de livros proibidos [Index librorum prohibitorum a Summo Pontifice] e mantida a interdição sobre obra de Maquiavel.
[5] Antonio Gramsci, Note sul Machiavelli sulla Politica e sullo Stato Moderno, Torino : Editori Riuniti, 1971. A visão apreciativa de O Princípe havia sido considerada criminosa na União Soviética: Lev Kamenev [1883-1936] traduziu em 1934 o livro para russo, citando-o como um percurso das análises de Marx, Engels, Lénine e Stalin. Tal ousadia e outras afins custar-lhe-iam a vida, acusado em 22 de Agosto de 1936 por Andrei Vyshinsky, o Procurador soviético, quando do seu julgamento no quadro das grandes purgas estalinistas. «Que os cães enraivecidos sejam mortos a tiro!» pediu Vyshinsky, nas suas alegçaões finais! E foi.
[6] Benito Mussolini, Preludio al Machiavelli, revista Gerarchia [órgão oficial do movimento fascista italiano], Abril de 1924.
[7] Falecido com pouco mais de trinta anos, Vergílio Taborda escreveu, ainda como estudante, um estudo intitulado Maquiavel e Antimaquiavel, que a editora Atlântida editaria em 1939 e que mereceria uma nota prévia de Francisco Morais, Manuel Lopes d’Almeida e Paulo Quintela. Citando como seu mestre Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca desde 1929, e que é um dos mais lídimos pensadores da doutrina católica, Taborda regista que desde a segunda parte do século XVI e por todo o século XVII «os contraditores de Maquiavel são aqui legião, da rosa-dos-ventos do saber: teólogos, canonistas, filósofos, políticos, juristas, diplomatas, clérigos, laicos, nobres e plebeus».

domingo, 18 de setembro de 2011

O céu estrelado

Há muito tempo que não lia, salvo por razões obrigatórias. Por isso esta manhã escolhi um desses livros que estão para acabar de ler, e que amontoam em cima da mesa do quarto, pela estante que ladeia a cama, na pequena saleta agora escritório e por lugares incógnitos. E levei-o comigo, apesar de volumoso e sobretudo pesado, devido a ser encadernado, o das memórias do Rómulo de Carvalho, que mais se conhece como António Gedeão, o livro que ele compilou para os seus tetranetos, retrato do seu tempo e foi um tempo extenso, rico mas sobretudo mansamente vivido, com bondade e amor ao próximo.
Não consegui ler muito, porque ser pai e ser filho hoje cruzaram-se e o tempo encurtou. 
Mas li ainda e falava ele, numa folha que lia ao acaso, do hábito alfacinha e já perdido de as pessoas ao entardecer ou depois do jantar abrirem janelas de suas casas e nas sacadas ou nas improvisadas varandas olharem o distante nada, conversarem com os seus vizinhos, a sentirem o sabor e o cheiro das noites mais o céu estrelado. E perguntava-se onde estariam hoje as pessoas porque todas as janelas estavam fechadas e não havia assomo de quem fosse. E respondia que diante da televisão. E em frente do computador digo eu, tal como eu. 
E agora que o dia acaba e estou enfim comigo aqui pergunto-me porque não abro janelas, mesmo não havendo vizinhos, nem estrelas que o céu poluído permita ver, mesmo que seja para olhar o distante tudo. E tenho saudades que doem.

domingo, 11 de setembro de 2011

O Mundo Circular

Este blog era aquele onde escrevia sobre os livros que lia e sobre o que poderia ser escrito em livros. Depois, um dia de zanga feroz, apaguei, vingativo, os blogs - este blog e todos os blogs e um que perdi de vez ou tirei-os do "ar" o que dá no mesmo - mas ressurgiria, feitas as pazes comigo e amnistiado o mundo, com outro, que esse é parte do meu nome e por isso se chama António Rebelo da Silva. E decidi que pediria exílio à Literatura e ali viveria, do mais isolado. E assim fiquei a adoecer a alma com o absinto da poética e a envenenar o corpo com o arsénio da ilusão.
Depois sucedeu que a vida passou a ocupar o seu lugar e eu a dar comigo a vive-la, com a totalidade de mim, incluindo todos os outros e as janelas de par em par, pagão e místico, rendido ao Ser que criou o Ser que tudo criou. 
Os livros, esses, faziam já entretanto parte do meu quotidiano, comigo, teimoso, aplicado, a vencer uma incultura ancestral, esfaimado de saber. Alguns desses livros eram ao bom estilo alfarrábio, e pensando neles criei um espaço, que ainda hoje subsiste e vai ser reanimado, com o nome de A Fantástica Livraria, espécie de biblioteca universal do papel amarelecido e encarquilhado. Outros, dos que enchem estantes e já se espalham pelo chão, e não são propriamente o vient de paraître que faz as delícias dos apodados críticos que só se apodam porque vivem no terror de falhar a última, mas são o que eu desejo e cobiço e namoro e desfolho em luxúria, sublinhado-lhe as rugas dos melhores momentos. É a pensar nesses que ficou o António Rebelo da Silva. O blog do que lê.
Claro que, no tumulto da vida e a minha é uma algazarra contínua com todos os muitos que me habitam, há os inúmeros outros blogs, e são bastantes, por onde me fui dividindo, promíscuo mas nunca infiel. Há o que dedico à Maria Ondina Braga, sobre quem escrevi um livro, porque está jurado, à Clarice Lispector, que é um caso de paixão infrene, à Irene Lisboa, minha vizinha por todas as sacadas desta Lisboa sobre o rio. Há aquele onde está a língua prodigiosa, a Espantosa Língua que é a nossa Pátria. E aqueles onde está o que escrevo, dando realidade à ficção, como As Muralhas do Silêncio. E depois são aqueles outros como onde está o meu ser escondido e onde rareio, como O Culto do Oculto, aquele que é o meu ser que pensa com o coração e tem saudades pátrias do futuro, como a Geometria do Abismo, o blog do que quis fossem e hão ser memórias, a começar pelas da minha infância, as do filho do solicitador que nasceu numa rua ao fundo da qual passavam comboios, a Provisória Translação, o blog que é uma necrologia prematura e uma hossana funerária a tudo quanto renasce, e que toma como nome A Reciclagem do Ser, porque o divino é circular e o mundo corre para o seu princípio como um rio no seu reverso.
Quem ama dedica-se integralmente ao seu amor, como eu a cada um destes locais.
Sou, no fundo, o ser das deambulações singelas pelos jardins domingueiros e matinais, como O Passeio pelo Parque, a essência do que sou é ser O Ser Fictício, imaginando-me e rindo-me reflexamente como se de outro me risse.
O mais, são coisas de estudos e de aventuras, como o Patologia Social, que é sobre as coisa feias onde trabalho, O Mundo das Sombras, sobre os que viviam a duplicidade e o risco permanente, o 24 Land, para inglês ver, e o que vai sendo editado pela Labirinto de Letras, nesta eu de guarda-pó de editor, tentando que haja para ler o que gostaria de ter escrito, a endividar-me como um cão.
Há dias inventei um alter-ego que tem um diário A Velha Mansarda. E ontem um outro por onde fica tudo o que li na viagem marítima que é a minha ânsia de enseada em madrugadas de mar picado e ondas em rebentação. Este aqui. E as cenas dos próximos capítulos que eu ainda não acabei nem o mundo encerrou.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Talvez ao fim dos meus dias

Lembrei-me do "Às Sete no Sa Tortuga" o livro que o Luís Amorim de Sousa escreveu com o «retrato de Alberto de Lacerda». E fui buscá-lo à estante e fiquei hesitante pois não o terei lido, pois, a lê-lo, tê-lo-ia sublinhado, que é uma forma de eu vincar em grafite o que se me vinca na alma. 
E tudo isto porque no penúltimo exemplar do JL vem um excerto de diário daquele que foi «poeta, pintor, professor, coleccionador, raro homem de cultura».
Interessam-me os diários, porque sublimam vidas que não vivemos e nos substituímos na vida alheia No dia 20 de Outubro de 1996, em Londres, ao fazer a arrumação da extensa bagagem que trouxera dos Estados Unidos, Lacerda trazia uma "pochade" da Sonia Delaunay. 
Li isso e lembrei-me de quanto me interessei por ela, essa invulgar pintora ucraniana, quanto me empenhei por conhecer a sua pintura, a sua vida, de, por causa dela ter ido a Vila do Conde ver a "Vila Simultânea", ter procurado na Biblioteca local o que haveria mais sobre a sua pessoa, ter imaginado uma ficção que seria um ensaio onírico em torno da circularidade hipnótica da sua Arte. E estar tudo isso adiado, como malas por arrumar e eu sentado no chão, adivinhando-lhes o conteúdo e fantasiado o dia em que fossem obra. 
O "diário" que o JL edita chama-se "Até ao Fim dos Meus Dias". Talvez assim eu consiga.

sábado, 20 de agosto de 2011

Tenho-a, praticamente toda, a obra do Albert Camus, a maior parte lida, muitos livros candidatos a serem lidos com maior finura de atenção e pensamento, porque foi através dele que me formei, o existencialismo e não o marxismo foram a minha escola e o meu lar, onde se gerou a minha razão sentimental, feita de repúdio angustiado do racionalismo e da negação do materialismo e seus absurdos.
Encontrei-o, ontem, na feira do livro permanente que existe na Gare do Oriente. Ali estava a saldos. Trouxe-o comigo, um livro sobre ele. Rejeitara-o quando saiu em 2009, talvez pelo preço, porque me divido e esgoto entre tanta literatura que tenho que repudiar o que afinal desejaria, talvez por ter sido escrito pelo Jean Daniel e eu transporto nas entranhas dos meus mal-estares uma vaga náusea pelo Nouvel Observateur nascido pela visceralidade irrazoável de ter visto a vulgaridade emproada em que se tornaram hoje muitos dos que eram então os seus "incontornáveis" leitores, enfim, aquelas vadias ideias e lunares pressentimentos que fazem contraditoriamente um modo de ser de um humano que se não reduza a indivíduo e lute contra a vida para ser pessoa.
Li-o quase todo pois a letra é de corpo largo, amiga dos meus olhos e do editor, que assim transformou em grande um livro pequeno.
Não é o Camus que eu esperava nem creio que a amizade que ligou o autor ao biografado tenha permitido àquele entrar no âmago mais íntimo dele. É sobretudo um livro nascido no território do remorso. Além disso, o livro tem muito do palacianismo político francês e sua corte rococó. 
O essencial ali é o Camus jornalista, empenhado a fundo no jornal Combat e já desenraizado na revista L'Express, menos o escritor, muito menos ainda o pensador. É sobretudo a questão argelina e o grave problema moral da violência e do terrorismo. Só pela questão da moral da imprensa e do utilitarismo a que quanta desta se presta vale a pena ler o que li. 
Tão diferente de Sartre, que desprezava a imprensa - e só por um arroubo já meio senil se armou para a fotografia em ardina por um instante do maoista La Cause du Peuple - é na trincheira contra a imprensa vil em que «o gozo, a pilhéria e o escândalo formam o mundo» do que se imprime - e quantos fizeram disso carreira e lucro! - instrumento de «uma sociedade que permite ser distraída por uma imprensa desonrada e por um milhar de cómicos cínicos, aureolados com o nome de artistas», uma sociedade que «caminha para a servidão, apesar dos protestos daqueles que contribuem para a sua degradação», que encontramos este ímpar filho da tragédia da existência.
Contra a imprensa dos «famosos periódicos erótico-comerciais» - e os que hoje armando-se em respeitáveis vivem dos anúncios das putas, pois que são as que ainda pagam a dinheiro - mais a «imprensa dita "cor de rosa" - a vender ilusões em que o music-hall convive com o futebol, o brazão arruinado com o burguês hipotecado - o jornalismo acampado na «subserviência ao poder do dinheiro, a obsessão de agradar a qualquer preço, a mutilação da verdade sob um pretexto comercial ou ideológico, a lisonja dos piores instintos, o "furo" sensacionalista, a vulgaridade tipográfica» ele travaria, ainda hoje, por maior razão, o seu combate.
Ainda o comprei, em Lisboa, numa loja de indiferenciados ali aos Restauradores, o Combat, o jornal que ostentava, orgulhoso a seguir ao título o mote «de la révolte à la révolution». 
Um homem revoltado ecoava-me então da pele aos ossos e seguiu-me até hoje. Como o primeiro homem, fonte de toda a Humanidade. Depois, foi o mito de Sísifo a amarrar-me ao mundo adulto das obrigações e a ânsia de que haja um Sísifo feliz. Ele encontrou-me a morte num pavoroso desastre automóvel, saindo da estrada onde afinal sempre se sentira estrangeiro.


domingo, 7 de agosto de 2011

O pornógrafo

Há umas semanas atrás irritei-me comigo - que é uma forma de os outros acharem que me irritei com eles - por ter concluído que uma estopada que o Henry Miller escreveu chamada "Os Telhados de Paris", a qual o "Expresso" vende a um euro com o jornal, sendo rasquice ordinária e vulgar nas suas sucessivas narrativas abruptas de fornicação e deboche, reiteradas e sem imaginação estilística, era uma fraude. E um insulto às mulheres tratadas ali abaixo de gente, pior que animais, como se pior que objectos fossem. Mas admito que de facto o livro surgiu para ser uma «novela pornográfica» e nisso não engana ninguém. E é uma «novela pornográfica», excepto ser uma novela. É que pela milésima vez o leitor já sabe onde é que um dos fulanos que se bamboleia pela história vai meter o membro sexual assim como já nem espanta que a miséria da escrita abra com uma criancinha de treze anos em pleno sexo oral.
Claro que o "Expresso" imagina que sendo Verão os leitores precisam de ser aquecidos por aquela forma e claro o nome do autor promete uma sessão de sexo em casa respeitável. O que não muda a natureza do mesmo.
Para quem não tiver medo de dizer que não é a provocação, sexual que seja, que define a boa Literatura, nem a existência de sexo que a torna má, fica tudo dito o que há para dizer.
Vejo agora aqui a menção a uma obra que em breve estará nas bancas. São, segundo leio na recensão crítica, pequenas histórias, numa delas os compositores russos Borodin and Rimsky-Korsakov a usarem os seus sexos para fazer massagem aos pés...nem cheguei a perceber de quem!
Imagina-se. Mais: o autor é o criador de um livro que a menina Levinsky ofereceu ao Presidente Bill Clinton. Um livro sobre sexo telefónico explica o crítico, que cita, em ilustração de um dos seus momentos - porventura o mais vocal - este trecho em que a heroína geme ao bocal: «Oh! Nnnnnnnn! Nnn! Nnn! Nnn! Nnn! Nnn! Nnn!». Que delirante imaginação!
Falta só revelar o título da novel magnificência: chamar-se-à "House of Holes", literalmente "Casa dos Buracos". Compreende-se, numa literatura em que não há lugar para subentendidos, que o título seja este. Tal como nos filmes de cow-boys, antes de ler, o leitor já sabe o que há para saber.
Vista a aparência do autor, e por isso eis ao cimo foto do dito, ele poderia ser místico e eremita. Sucede que em vez de escrever sobre o êxtase optou por escrever sobre o orgasmo. Com redobrada vantagem.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A cegueira da razão

Há na escrita de Jorge Luís Borges uma tal figuração do real livresco que o leitor hesita em saber se é existente o que passa por verdadeiro na sua escrita. São os livros que podem não ter sido escritos, os povos puramente imaginados, as filosofias imputadas a nomes que nunca filosofaram sequer em torno do próprio nome, gramáticas ficcionais e línguas sem vogais que nenhuma língua dobrou. Entre o divertimento e a trama, o magnífico argentino fez método construindo enredos que sendo literários são filosóficos nunca sendo filosofia feita literatura.
Cego a partir da idade em que as ideias frutificariam maduras, passou a pensar em profundidade por ter perdido a capacidade de observar em extensão. Radica aí a sua concepção topológica do tempo, a volumetria do ser como sua essência natural à ausência de dimensão própria que não seja a dos limites ao infinito para que tende em movimento perpétuo.
Lembro-me disto ao mesmo tempo que a preguiça me impede de ir apenas à sala ao lado buscar o pequeno volume, compêndio de artigos, onde possa confirmar a justeza da ideia, valorizar o rigor da citação. Talvez esteja nisso borgeano já, rendido à verdade da aproximação ao sentimento mais do que vergado à força injuntiva da razão.
Na tabela das equivalências universais o incompreensível dói tanto como o entendido. Dói sobretudo por mais tempo porque há a extensa caminhada em busca da compreensão.

sábado, 30 de julho de 2011

O sabor da tinta

Há uma literatura infantil para crianças e uma literatura imbecil de adultos que se julgam crianças. Esta última parte do pressupostos que os miúdos são tão idiotas como muitos dos que escrevem julgando que o fazem para eles lerem. Foi ao romper contra este universo que uma obra como Harry Potter, extensa e densa, ganhou de súbito foros de grande empreendimento e sobretudo surpreendeu os editores.
É que as crianças são outra coisa em que a desatenção dos crescidos não repara. Tal como a personagem de "O Bebedor de Tinta", escondido sob uma mesa na livraria do seu pai, aprendendo, através de um libertador pesadelo e os pesadelos libertam, a amar os livros. 
O livro é lindo de texto e de imagens. É um livro para quem conhece o sabor dos livros e sente, táctil, a sensação aliciante do seu papel. Livro draculiano sem ser de vampirismo intelectual ensina os pais a gostarem dos filhos gostando de livros de que eles gostem.

domingo, 24 de julho de 2011

A conversão

Vim para encontrar o meu Eça de Queiroz, controverso, o das Cartas de Inglaterra, certeiro no que observa, o coração dorido ante a miséria e o egoísmo, ante a fome na Irlanda, a depredação no Afeganistão. Não o levei para férias porque a edição é antiga e haveria o risco de o papel de 1945 não aguentar a contemporaneidade da praia, o conteúdo do escrito, esse, resistiu à usura do tempo. «O esforço humano consegue, quando muito, converter um proletariado faminto numa burguesia farta; mas surge logo das entranhas da sociedade um proletariado pior. Jesus tinha razão: haverá sempre pobres entre nós. Donde é a prova que esta humanidade é o maior erro que jamais Deus cometeu».

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O ratoneiro

Vi anunciada uma Feira do Livro. Claro que a não perderia. Abriu hoje. Passei, passeando, pelos seus pavilhões, afinal para me entristecer com a penúria. Eu bem sei que não estamos numa grande capital, mas apesar de tudo estamos em Tavira. Eu bem sei que as pessoas lêem pouco, mas não tão pouco. E depois estamos no Algarve e há escritores algarvios e seguramente uma Câmara Municipal com um pelouro de cultura. Mas era o deserto. No meio desta pobreza, sorrateiro, escapulia-se um ratoneiro de livros. Duvido que fosse para ler o que furtava por não ter meios. Talvez haja quem lhos compre. Sempre dá uma réstia de esperança. Mesmo no mercado dos receptadores, que ao menos a cultura triunfe.

sábado, 2 de julho de 2011

Prosas Bárbaras

Encontrar o conhecido quando era desconhecido, eis o encanto da vida. Saber que o que é teve o momento em que estava a ser, eis o mistério do ser e do seu tempo. Encontrei-o ontem no Chaminé da Mota, o alfarrabista do Porto, o livro que veio a chamar-se "Prosas Bárbaras" e que Jaime Batalha Reis convenceu José Maria Eça de Eça de Queiroz, seu autor, a publicar, assim reunisse o que vinha publicando de modo avulso na Gazeta de Portugal, de António Augusto Teixeira de Vasconcelos. E na introdução este momento:
«Repentinamente (em Março de 1866), começaram a aparecer uns folhetins assinados "Eça de Queiroz": ninguém conhecia a pessoa designada por estes apelidos que, por algum tempo, se supôs serem um pseudónimo».
Trouxe-o comigo e esta manhã, retirado para um recanto de paz, estou a lê-lo, tendo ao lado uma ediçãodas "Últimas Páginas", biografias de santos, o livro fantástico que seria póstumo. Daqui a pouco almoça-se e regresso à leitura, enquanto a Natureza se espraia, indolente, em calor.

sábado, 25 de junho de 2011

Averbamento

A poesia é o território da possível invulgaridade, embora a invulgaridade seja invulgar na poesia. Paulo da Costa Domingos destaca-se com o seu "Averbamento", publicado pela & etc em Maio deste ano.
É um livro que ele próprio compôs, amorosamente, porque é preciso amar os livros, e ele ama-os, para que o próprio escritor dê forma gráfica às suas palavras. Fê-lo através do que poderia ser um velho caderno encadernado, pautado, em papel azul em que até um certo momento da poética, carrila, em paralelo, um ensaio que é poesia filosófica sobre a condição humana. Aquém de um manifesto, pois falta-lhe a proclamação, o poeta encontra-se, como nós os encontramos, sem o saber porém dizer assim, com «uns tipos simpáticos que se põem assim como que de lado, hieroglificamente a assistir aos espectáculo do espectáculo dos sacrifícios, e bolsam com a bolsa cheia de conjecturas e transversalidades para a benemerência do raquítico pensamento nacional». E o filósofo constata quanto «ressonamos, assim, no sono de uma outra antiga razão. À janela da falta de reconhecimento miramos a parada da aniquilação do livre arbítrio e do eu na clausura concentracionária, numa sobreposse alienante afogada em mentiras».
É um formidável livro, denso enquanto pequeno, sobre «o váculo do zapping de carácter».
Encontrei-o hoje, a ele autor na Rua da Anchieta. Tímido encontrou-me de uma sacola, escondido o seu próprio livro, como se houvesse pudor em vendê-lo. Trouxe-o para escrever sobre ele. Li-o demoradamente para isso. Terei de o ler de novo. Uma vez mais e tantas outras. Cada frase, por vezes cada palavra um mundo: «o jornalixo» por exemplo, o de «as mortes ali penduradas todo o dia, presas ao quiosque por molas de orelha com espantos escarrados no rodapé».

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Ladainha de futuro

Sente-se de Almada Negreiros a toada heróica, o ritmo do rufar do tambor; de Pessoa aquele volante marítimo dentro de mim que é destino e viagem, de Botto quase a confidência exilada.
É poesia militante, e o nome do poema o diz: "Manifesto".
É clamor. Necessário. Actual. Absolutamente nosso. Vindo do sul.
Fernando Cabrita surpreende, mesmo quando assume a persona alheia para a gramática do seu poema.
«Fim aos irritos a dar-se ares de imprescindíveis», grita!. «Um grito é sempre um grito».
Parabéns ao poeta, os punhos cerrados, a alma irada, enfrentando o prosaico Portugal com a melhor Poesia portuguesa.

domingo, 12 de junho de 2011

O Profeta de Portugal

Toda a Literatura está aberta à hermenêutica. Muitas das entrevistas a escritores são na base da reconstituição do sentido, do significado, do propósito das alusões, até do nome das personagens. Na Literatura profética isto amplifica-se, por ser essa a sua natureza e a intenção de quem a produz. É o caso das trovas do "sapateiro de correia" Gonçalo Annes, o Bandarra. Encontrei precisamente em Trancoso uma edição de 2001 - e tantas outras lhe preexistiram - com notas e texto de apresentação de Fernando Santos Costa. Citando Fernando Pessoa quando afirma que é ele o verdadeiro patrono do nosso País, o compilador lembra que foi o seu retrato o que foi afixado quando da aclamação de Dom João IV. Julgado em 1541 pelos torcionários do Santo Ofício da Inquisição, em 1665 ainda era proclamado édito a excomungar quantos lessem a sua obra. Acusado de ser judeu pelos do Palácio de Estaus, livrou-se por pouco da fogueira, mas não do humilhante desfilo de sambenito vestido e vela na mão. Com este livro percebi que a história do anti-judaísmo está ainda por escrever. Com Dom Afonso IV os judeus em Portugal - que se conheceriam como a "gente de nação" - estavam ainda obrigados a usar uma estrela amarela no chapéu. Adolfo Hitler apenas lhe mudou o lugar de afixação.

domingo, 29 de maio de 2011

A mítica marrafa

Creio que foi no outro fim de semana que acabei "As Três Mulheres de Sansão" de Aquilino Ribeiro.É lugar comum dizer-se que rico é o seu vocabulário, provindo das arcas velhas da língua, que o leitor só desvenda em sua densidade de elucidário na mão.
É lugar comum reconhecer-se que poucos conhecem como ele a alma humana, situado o homem nas suas raízes telúricas, pó, húmus, seiva e cheiros, vida repartida com a animalidade de que proveio.
É lugar comum encontrar-se nele a razão social literária e sem militância, o anseio por um mundo outro de que os livros são o reverso pelo retrato vivo de um mundo insuportável que anametiza mesmo quando apenas o descreve.
O que não é lugar comum é o milagre que renasce em cada leitura da sua obra. Nesta novela são os seus conhecimentos bíblicos, que o seminário lhe afundou nas meninges a contar-nos um inaudito Sansão, «instruído das imundícies da carne, mas não calmado», juiz «terrível martelo de Deus contra os gentios», porque «andava muito relaxada a moral pública, eram bastos como sarna os delinquentes».
E depois foi Dalila a podar-lhe a gaforina, e assim ele «por mais que se encabritasse» já sem tesura nos braços nem arrimo na gana, em molície agora e lassidão minado e por isso indefeso, caído às mãos dos filisteus e à sorte dos seus deuses mansos, que para feroz, vingativo e impiedoso já bastava Jaweh que o deixou cair como a cão tinhoso pela longa estrada do pó do abandono.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A Paixão Chinesa

Quando Leopoldo Danilo Barreiros escreveu "A Paixão Chinesa de Wenceslau de Moraes", anexando-lhe a correspondência que trocou com o filho do insigne escritor, João de Sousa Moraes, quis no fundo reabilitar a sua relação amorosa daquele com a chinesa "Atchan" [abreviatura do nome Vong-Ion-Chan]. Porque havia ficado a lenda de que de repúdio se tratava quando ele partiu para o Japão, onde encontraria dois funestos amores com Ó-Yoné e Ko-Haru, as quais lhe faleceriam em circunstâncias dolorosas que o arrastariam para o desespero, porta para o exílio em Tokushima.
Encontrei-o agora no "Chaminé da Mota", numa reedição de Cecília Jorge e Beltrão Coelho, que li, porque pequena, nos intervalos de duas pesadas obrigações.
A iniciativa é carinhosa. Não difamar um amor mesmo quando falhado. Comovente, sim, ver como o filho daquele a quem os japoneses chamavam de "Portugaru san" [o senhor Portugal] se refere, em perdão póstumo, à perda da intimidade do pai que, mantendo o sustento, se lhe tornou distante, ele um dos «tocados do mal da tristeza», pai que se correspondia com ele, com o irmão e com a mãe através de Feliciano Francisco do Rosário, um macaense que servia de benévolo intermediário epistolar.
Viveria, isolado, uma vida "retroactiva", moendo saudades, cortado o cordão umbilical à Pátria dos portugueses. Para o degradarem muitos apodaram-no "o homem que trocou a alma". Nunca foi, porém, outra coisa se não português, habitáculo remoto da alma portuguesa no seu ocaso fatal.

domingo, 15 de maio de 2011

Biblioteca

Sigo-a por todo o lado na forma de quanto escreve. E por isso só comprei hoje o livro quando descobri que tinha um conto seu, publicada a obra pela FNAC para comemorar o dia mundial do livro.
Ao tentar explicar-me dei conta de que a minha memória falhava pois já não lembrava todos os títulos a que dera vida e não foram muitos. Mas tinha fixado o essencial do enredo, e tinha sobretudo um vinco fundo na sensibilidade derivado de a ter lido. E o espanto do primeiro dia.
Tal como num conto policial, Dulce Maria Cardoso vai deixando, pegada sobre pegada, os sinais sobre o mote «os livros salvaram-me». Não se fala nisso porque há que salvar o prazer de quem ler e que siga o caminho assinalado que leva à descoberta. «Identificar os acasos que nos nos trouxeram ao que somos só nos torna mais frágeis. Fazemo-lo na esperança de percebermos como nos aconteceu tornarmo-nos o que somos», é uma das suas frases que dita a lógica da escrita, o retrato de um mundo inevitável mesmo mas acidental.
«O pensamento dos velhos é circular», diz a personagem quase depois do arranque da breve narrativa, ou di-lo ela por ele pois há um tempo em que tudo se confunde. Só que ao velho sucedeu o azar de uma fatalidade. Surgiu esta história «livremente inspirada em factos reais».

domingo, 8 de maio de 2011

Viajando com Qfwfq

Levei-o comigo. São histórias a que chamou de cosmicómicas. Invulgares porque não é habitual quem situe aí a ficção. Só que não é ficção. É a realidade no seu íntimo atómico, a intersecção do espaço e do tempo, reduzidos como na relatividade restrita ao indiferenciado. Como quando o perseguidor projecta todos os sentimentos no cone de luz emergente dos faróis da viatura, voando à procura da amada e do provável lugar para o qual o errático movimento a transporte e onde o outro amante possivelmente a encontrará, o ciúme e o desejo a sobresimplificarem a complexidade dos seres e tudo o que neles os torna humanos até a expressão facial e a dor do enamoramento infeliz. Ou quando o tiro que atingirá o perseguido só atingirá o seu instante de máxima possibilidade quando as filas de trânsito se entrecruzarem e o perseguidor alcançar o ângulo certo para o disparo só que o inverso surge como real, ainda que improvável, e morre quem queria matar e assim a vida se cumpre.
Engenheiro, Italo Calvino liberta-se do que a presença nossa e dos outros gera como espelho deformante, e escreve com uma beleza extraordinária porque rigorosa, segue a personagem abstracta em cujo nome nem doces vogais existem mas é a aspereza  Qfwfq, esse ser que nem é criatura humana é mas nele se contém a totalidade da existência. O livro chama-se "La memoria del mondo".

terça-feira, 26 de abril de 2011

A Porta de Marfim

Vasculhei o céu e a terra porque sabia que tinha o livro; encontrei-o, enfim, mal arrumado, na estante onde estão as biografias. Não o é, mas sim uma história de amor, magnífica porque invulgar, o encontro do inesperado e a dedicação estremosa.
Ele estava na fase final de uma vida dedicada à causa pública, exilado, mal tratado, acolhido apenas por poucos dos milhares que o aplaudiram e lhe viravam agora as costas. Entregou o seu esgotado coração nas suas mãos requintadas. A distância não foi óbice.
Do seu encontro nasceu o enamoramento e o lirismo de uma correspondência que é, no dizer do marido dela, a de verdadeiras «cartas de amor». E de amor se trata, pungente, em lírico devaneio.
O livro inicia-o com a morte dele, com a insuportável dor, com a funda saudade. Segue ao longo do ano de 1985, como se num diário que lhe dedicasse, como se não estivesse interrompida a conversa, como se o procurasse, ansiosa, para lhe contar.
Ela chama-se Maria Helena Prieto. O livro toma como título "A Porta de Marfim". Ele chama-se Marcelo Caetano.

domingo, 3 de abril de 2011

O Alfarrabista Mendel

São histórias de amor, pungentes e doridas, entre risos e carícias, as histórias de amor aos livros. Acabei esta manhã de ler uma sublime história desse amor bibliófilo, feito de silêncios e de recolhimento, de devoção e adoração, a história do alfarrabista Jacob Mendel, contada por Stefan Zweig.
Num mundo que vai perdendo classe e em que a categoria pessoal se tornou uma excrecência, em que uns truões sonoros passam por senhores, macaqueando, vocais não se sabendo ridículos, o que julgam ser sinais de estirpe, Stefan Zweig é a grandeza senhorial feita escrita. Mesmo quando fala do humilde, sentindo-se um deles, mesmo quando o coração triste de todos os outros é o seu coração entristecido, ele é, na Literatura, a totalidade da Humanidade em finíssima observação de requintada forma.
Não conto a narrativa porque nunca se defrauda um possível leitor, nem saberia contá-la sem quebrar em estilhaços o cristal mágico que dita a sua imparidade.
Li-a em francês que é talvez, ao lado do italiano, ainda o melhor parente do alemão original em que foi escrita. Não sei se a traduziram para a nossa língua, ao lado de tantos livros que a Alice Ogando dele traduziu.
Dedico este texto à minha querida amiga Teresa Guerreiro, samaritana das letras, que, com devotado carinho, salva do esquecimento tantos livros quantos pode e mais salvaria assim pudesse, como quantos salvaram das garras do cativeiro e da humilhação, antecâmaras da morte pelo esquecimento, homens como o alfarrabista Jacob Mendel, Jainkeff Mendel, nascido na parte russa da Polónia, que, esquecendo-se das burocracias da legalização era apenas um ser humano perdido entre Estados que se esquartejam pelo espaço vital para concentrarem, como num campo de reclusão, súbditos passivos  e apenas seus cidadãos.
Neste domingo, tal como ele que trocou Jeová, seu Deus, pelo politeísmo sedutor dos livros, celebro, em comunhão com a leitura, a liturgia do amanhecer, mãos dadas, enfim, com o carinho de um lar.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A sabedoria bondosa

O livro chama-se "Os Livros que Devoraram o meu Pai". É pequeno mas eu tenho tido pouco tempo. É uma história incrível. Ganhou o Prémio Literário Maria Rosa Colaço, mas é um livro para crescidos lerem. Pelo que contém de sabedoria bondosa e profundidade de alma. Ontem ainda consegui chegar à página 64. «Ele disse-me que eu andava a ler as histórias que se escondem nas paredes brancas das folhas, entre as letras dos livros, nos espaços entre as palavras».
Talvez seja o modo mais magnífico de ler, sabendo «uma gramática construída pela imaginação».
Não percam este livro. Escreveu-o Afonso Cruz. Não o conhecia o que seguramente imperdoável ignorância minha. Está aqui. Acreditem na incultura que digo ter.
Esta madrugada de insónia vou tentar mais umas folhas de "A Estranha História de Vivaldo Bonfim".Para que o Literatura não pareça um mundo cheio de «letras a fingirem de mortas».

domingo, 19 de dezembro de 2010

Um ouriço a dilatar-se

O livro é um diário. Reportado ao ano de 2007. Parei no dia 25 de Março. É dia em que faço anos. Não me lembro onde estava nesse dia ou com quem. Nem se festejei ou festejaram o dia dos meus anos. Fiz contas para ter a certeza de quantos anos eram e estou incerto quanto a ter-me enganado na subtracção. Compreendo-a, por isso, hoje, a essa escrita, implosão de um ser de que escorrem, viscosos como uma dor nojenta, as vísceras pelas paredes do presentes, literárias mas tripas sempre e seus conteúdos sulfídricos, dejectos de memória como uma compota escorrente mais o coração a latejar e um mundo feio quando cerebral vazio de pensamento, e uma ânsia furiosa de beleza e formas boleadas, femininas e reconfortantes quando desinquietam, e sempre o eternizável momento de um fundo olhar vindo do desejo, «aulas tão compridas, dias tão compridos, noites eternas» e a madrugada da desolação solitária.
Leio-o agora em 2010, e 2010 acaba breve, e ele escreveu tudo isso ainda este ano, e editaram-no, rápidos porque há pouco tempo, o tempo foge e ele luta contra o desaparecimento seu e nosso e lêem-no menos, eu próprio leio-o agora por piedade para com os meus remorsos de o ter desprezado, mas não há outra escrita possível porque não há outra vida, fragmentária, «a pele das mulheres tão suave e o consentimento, a avidez».
É domingo. Vou levar tempo a ler-te António Lobo Antunes e a este teu livro e escreverás outro, sempre o último até um dia em que acertarás para fortuna de todos os críticos e o memorialistas e os que purgam os maus instintos e as azias do desprezo para com todos os outros comemorando, olha outra dia foi o Carlos Pinto Coelho e o Herman José a dizer que teve uma morte digna porque foi de repente e ninguém riu.

A Engrenagem

Consegui lê-lo e sobretudo vê-lo. Fiquei assim a saber da vida militante, na qual a Literatura era uma exigência da pessoa que o cidadão dispensaria em nome de valores mais exigentes. Dois momentos desse magnífico álbum sobre Soeiro Pereira Gomes o demonstram. Cito-os de cor, porque arrumei o livro na estante e estou preguiçoso demais para o ir buscar e o que melhor fica do que se leu é o que recordamos sem ser necessário relê-lo. Primeiro, uma frase de Tolstoi: se puderes evitar escrever um livro não o escrevas. Segundo um apontamento seu: se por outras razões mais urgentes tivesse que largar a Literatura, fá-lo-ia, oxalá!
Na primeira, a gravidade da escrita, na segunda a sua complementaridade. A escrita é demaisado séria e que a dispensem aqueles para quem ela não é uma exigência fatal do ser. A escrita não é a totalidade da vida e que vivam os que julgam viver através do que se lê.
No mais, Soeiro Pereira Gomes é o que se imagina no mais nítido neo-realismo: a luta pelos valores do seu partido e pelas causas do seu povo, a pertinácia trabalhadora, o colectivo, a denúncia da opressão e da miséria, a tensão entre o panfletário e o artístico. Ligado directamente a Àlvaro Cunhal, viu livros seus merecerem a honra de capas com desenhos deste.
Não sei se é totalmente idêntico a Alves Redol. Vou relê-lo para saber. Morreu, no ano em que eu nasci, depois de num desastre fatal, ter caído de uma bicicleta.
Nos arquétipos comunistas o símbolo do homem da bicicleta, camarada nocturno, clandestino, pedalando sacrifício pela noite do medo é uma figuração essencial. Pressenti ontem que seria ele essa figura evanescente.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A ironia da minha hora

Li esta manhã, em que, enevoado como a rua, fui a grua de mim mesmo para me soerguer e enfrentar as obrigações minhas e os deveres para com os outros, sem tempo para ler ou para pensar salvo no óbvio, que hoje era um qualquer aniversário do Teixeira de Pascoaes. Agora confirmei que era o da morte, que aconteceu a 14 de Dezembro de 1952. Como não dá data certa vai haver escasso fogo de artifício necrófilo. Comemorar uma morte é, aliás, tão ridículo como celebrá-la com champanhe, os vivos contentes pelo passamento daquele.
Advogado de profissão, com banca exígua na Rua das Taipas, no Porto em 1906, dele se disse, como se numa síntese que resumisse assim sua vida, «em conclusão, o poeta venceu o advogado, adoecendo, ou tirando forças da fraqueza».
E assim foi. Fui reunindo dele a obra, assomei aos portões da sua casa em Amarante quando por ali procurava para um livro inacabado o Amadeu Sousa-Cardozo. Está comigo como presença e possibilidade.
Cedo se lhe foi vincando no rosto a caveira simbólica que anuncia aos vivos que a Morte é dona já daquele corpo. A alma, essa, brilhava-lhe, como uma luz reflexa, e por isso escreveu que «a vida é uma queda energia brutal, sorriso que ficou da gargalhada, relefexo de um incêndio longínquo» e por isso também no cemitério de Gatão, irmanado com a Natureza que é Mãe, ele jaz, ou o que dele resta, sob o epitáfio: «apagado de tanta luz que deu, frio que tanto calor que derramou».
Falta a memória. Nesta tarde que finda e em que a noite já começou, olho, juntos na estante, os livros que nos deu. Preparo-me para o dia em que ao lê-los sentir que o acaso me levou a isso, anunciando-se, como num sorriso, a ironia da minha hora.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Vagão J

Consegui, enfim, acabá-lo hoje. Arrastei a leitura, porque vou intrometendo outros. Um deles foi a "Promessa", que foi também desta safra neo-realista e mantido inédito. Falo do "Vagão J".
Não se resume um livro numa crítica, nem eu sou crítico do que seja, apenas um leitor que gostaria que houvesse mais leitores para os livros que leio e gosto.
Depois de o ter escrito, Vergílio Ferreira abandonaria os caminhos dessa arte social e politicamente comprometida que é aqui o sopro criador destas páginas gritadas, na qual não havia outra estética que a da militância pelos «humilhados e ofendidos», outro tema que não fosse o da «luta pelo pão e pela paz».
Claro que se daria mal com todos eles e terminaria bilioso, com a tábua nos joelhos onde, forçado da escrita magnífica que o seu admirável ser gerava, se esgotava em palavras findas as aulas no Liceu Camões, a chamar-lhes «neo-realeiros» e outras imprecações que tais.
Mas não só com os intelectuais de serviço se incompatibilizaria, mas com aqueles que deles se julgavam serventuários e combatentes, porque - como confessa no texto de apresentação que escreveu em 1971 para esta obra, que começaria em Faro em Maio de 1943 e terminaria em Melo no ano seguinte - «aproximando-me eu de um proletário com boas intenções de simpatia e solidariedade, logo ele me rosnou, desconfiado da confraternização, ameaçando-me de navalha, para cortar rente o diálogo».
Uma coisa é certa: "Vagão J" mostra em que medida quem ali está, a gerar aquela escrita, vai à dimensão mais densa do homem aque aquela que ele o forma como animal social, o modela como cidadão, o confina como personagem histórica na luta de classes.
É a história dos Borralhos e do seu termo e do crime que tem de ser cometido antes de eles o cometerem, um crime cujo motivo é o ódio a todos exigir o sangue de um qualquer.
História de inquietação feita vagabundagem, de rancor feito tristeza, de pobreza tornada em raiva, há por ali também o professor, inevitável como surgiria na "Aparição", menos a tragédia existencial, «que se enganou na classe onde foi bater, por haver um pouco de consciência onde se não via que fosse precisa». E o António que se torna seminarista «para eu lhe contar um pouco o que é já da minha história» e eis a "Manhã Submersa" anunciada.
É um livro notável:  «o espírito escapa-se como enguia ao suborno da matéria e daqui nascem problemas complexos». Como toda a sua obra. Assim eu viva para a ler toda, tão devagar como ela merece e exige.

domingo, 21 de novembro de 2010

Jorge de Sena: o sulfúrico verbal

É um grande escritor. Preferiu viver no estrangeiro, exilando-se. Uma entrevista recentemente publicada pela RDP mostrou que esteve em Julho de 1972 na então Lourenço Marques, a falar sobre Camões, de que é especialista. Por permissão do Governo de Marcello Cateano. Entrevista que foi censurada.
Mau grado o mérito literário, manda a verdade que se diga que Sena era "torto" de modo de ser, arrogante, maledicente, com um ego do tamanho do mundo e que, humano, teve horas de fraqueza. Os biógrafos, que adoram escrever hagiografias dos santinhos das suas religiões literárias e políticas tentam disfarçar o mal para cantarem hossanas ao excelente. As gerações que lerem estas falsificações da História, um dia descobrirão a verdade.
Tendo morrido no estrangeiro em 1978, recentemente os seus restos mortais foram transladados. Com a cerimónia fúnebre vieram as homenagens. A Situação precisa sempre de encontrar referências, memórias, valores. Os mortos estão disponíveis, porque há poucos sobreviventes que se lembrem da História toda e os que se recordam receiam desalinhar o passo no desfile da vitória. O Panteão público é uma forma de os vivos se envaidecerem com os que foram, fazendo-nos crer que são a eles semelhantes. Os políticos pelam-se, assim, por homenagens.
Jorge Cândido de Sena exilou-se «voluntariamente» no Brasil em 1959. Deixou com isso uma aura de anti-regime e de mártir pela liberdade. Acontece que nas igrejas de glória há muitos santos com pés de barro. No seu caso a racha no gesso é o interesse, que a maledicência alarga, desfeando a aura.
O exílio trouxe-lhe a cidadania brasileira. Alguns viram nisso um gesto de desesperada revolta contra a Pátria madrasta, ele que, demarcando-se em sobranceria moral escreveria «que adianta dizer-se que é um país de sacanas? Todos o são, mesmo o melhores, às suas horas, e todos estão contentes de se saberem sacanas».
Só que esse fazer-se brasileiro foi afinal um jogo de conveniências. «Sou, sim, cidadão brasileiro», diz ele numa carta escrita a Vergílio Ferreira, em 4 de Julho de 1965, nas vésperas de se mudar para os Estados Unidos «nem poderia deixar de o ser para a estabilidade da minha carreira universitária, e para fazer as provas de livre-docência».
E para que não houvesse dúvida que sua a lepra de troca-Pátrias era menos lepra do que a lepra que chagava outros, intriga, demarcando-se das razões alheias, ridicularizando os demais Sena goza: «as razões do Agostinho da Silva, que já o era [brasileiro], quando eu cheguei em 1959, são outras: relevam do Espírito Santo, do Quinto Império, do facto de Deus ser brasileiro e baihano, e de ele querer apoio oficial para as manigâncias afro-asiáticas que, iluminado por aquelas ideias, empreendeu». Exemplar!
Claro que Sena sentia-se ímpar. O modo arrogante com que denegria tudo o evidencia: «A nossa intelectualidade», dizia sem excepcionar, «é um bando de cretinos pretensiosos e jornalísticos; a nossa universidade um bando de medíocres promovidos», resmungava, em sulfúrico verbal, numa carta de 1 de Maio de 1961 ao autor de Aparição que, numa resposta complacente, se lamentava também deste país «que tem a forma de um caixão». O que, claro, na sua boca ácida já era uma gentileza, mel mesmo para quem escrevia, para o mesmo desafortunado interlocutor: «eu, por mim, considero a humanidade vil, hipócrita, porca e canalha». Sem excepção, claro.
Mas o caso foi quando o autor de Sinais de Fogo se confrontou com um terrível pedido do Jaime Casimiro, para que assinasse «uma petição ao Presidente da República contra a censura». Ora aí é que as questões se complicaram, os princípios a misturarem-se com o interesse. Estávamos em 3 de Novembro de 1953.
«Respondi-lhe que aplaudia que se fizesse tudo, eu próprio nas entrelinhas fazia o que podia – mas não estava em condições de assinar», confessa Sena.
E porquê, perguntará o leitor? Ora! Por causa afinal de uma viagem oficial à Índia para a qual fora proposto pelo engenheiro Carlos Couvreur.
Só que havia nele o propósito de «resistir pela submissão», como se exprimiu no livro que é a sua autobiografia moral "O Físico Prodigioso". Assinar a petição e era correr o risco de não ir.
A 21 de Dezembro era recebido pelo Ministro do Ultramar. A 15 de Janeiro de 1954 anotava no seu diário: «ontem soube que a ida à índia, possivelmente por intrigas do Laboratório, está em águas de bacalhau». Não iria.
«Teria sacrificado a minha independência essencial a uma viagem às Índias, que ainda não é certa?», perguntava-se secretamente no dia em que lhe trouxeram o abaixo-assinado. Foi um assomo de verdade. Não assinou e não foi no cortejo. «Ninguém quer saber de mim», diria mais tarde. Compreende-se.

domingo, 14 de novembro de 2010

Myra, uma história íngreme

Acabei de o ler há momentos.
Se a plausibilidade de uma narrativa fosse critério, talvez Myra, o romance de Maria Velho da Costa, devesse ser revisto em alguns dos seus momentos. Sobretudo o final, que soa forçado, a introduzir na história ingredientes que lhe tentam trazer, com excesso, o clímax dramático: Gabriel assaltado por meliantes num carro de polícia roubado, morto e abandonado numa valeta de uma auto-estrada, tudo com muitos palavrões de todos, e Myra, a rapariguinha russa de destino viandante, jogada num bordel onde um casalinho de criancinhas são prostituídos à mercê de «poderófilos» e tudo a terminar em suicídio, em salto da janela, ela e o cão, porque os «suicidas são sempre assassinados» e assim também se morre às mãos dos outros. 
Descontando isto, e muito do que tem um hálito a paráfrase de acontecimentos recentes, e uma lógica de caracterização anti-macho na configuração dos personagens, em que o único que na aparência se salvaria é capado e impotente e morre não sem antes aflorar quão sádico seria no sexo e instrumentalizador até ao vómito na fantasia do amor, trata-se de excelente Literatura.
A leitura prende, os quadros sucessivos da exposição daquele destino humano, de esperança em desespero, criam uma galeria de horror de que o leitor é, afinal, o mais exposto, deixando ver as chagas que abre cada linha na sensibilidade de quem lê. Além disso, a manha e a tenacidade, criando aquela única força de sobrevivência que são na tragédia, «rumo à atrocidade», o mínimo que resta, comovem, miúda e animal à mercê da carnificina que é o mundo de todos os outros.
«Nada é mais contagioso do que o mal», diz-se num momento do livro e por isso Myra talvez seja a história da malignidade, feita ficção.
O crime por receio do qual Myra inicia na página 56 a sua viagem, que é a viagem da sua fuga, resolve-se na página 136 com um não ter morto. «Matara e não matara. Não fazia dela menos assassina, o que conta é a intenção».
Livro sobre a alma russa, vivido suburbanamente em Portugal, livro de «criaturas íngremes», tudo visto, vencidas as minhas antipatias, digo: um excelente livro.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Maria Gabriela Llansol: solve et coagula

Fica sempre a dúvida sobre se estes papéis são para ser editados. Se não serão demasiadamente privados ou excessivamente provisórios. É que são notas de leitura, a apontamentos para melhor memória, ou suspiros de circunstâncias. Escritos porque se sentiu a agonia do aperto financeiros, o brotar da esperança em dias melhores, porque amou ou sentiu falta de amor.
Claro que o ser-se escritor sujeita uma pessoa, como se a sua alma pertencesse aos leitores, na parte em que se espalhou, ectoplasma espírita, em papel impresso, ou no que ficou escondido, na aérea respiração de onde emana a ideia e o sentimento.
Senti isto ao ler o volume segundo que compila excertos dos setenta cadernos de escrita de Maria Gabriela Llansol. Editados pela Assírio & Alvim.
Compreende-se, ao lê-los, quanto as ciências ocultas, a alquimia, o mundo esotérico preencheram os interstícios do seu ser sensitivo e pensante. Entende-se como é que foi no húmus da Natureza que ela encontrou a sua natureza. Interpreta-se melhor o tom errático, a incompletude, o solver-se e coagular-se do processo de escrita.
Mas é com pudor e vergonha que se passa por certas páginas. Onde está a carência e o desejo, a ausência e a falta. O livro, franqueando-lhe a intimidade, «levantou-lhe a ponta do vestido que era um vestido de larga contemplação». Como todos os diários, são livros de cabeceira.

sábado, 25 de setembro de 2010

Pressentindo, todavia

Fui buscá-lo, com saudades, porque há tanto tempo que o tinha deixado. Como sublinho quando leio, foi-me fácil retomar, mas percebi que tinha de reatar o fio à meada. Não que na ficção  história interesse assim tanto, mais importa o modo de contá-la, mas eu não encontrava outra forma de saber quem era o Edmundo com quem o Sérgio falava e tinha anotado a lápis que o Flávio era o narrador. Aqui estou de novo com a Promessa o romance inédito do Vergílio Ferreira. Noto que os meus olhos estão piores de tantas horas de computador. Esforço-me por ler e leio e maravilho-me. Terminei o capítulo quinto. Tinha ido à rua apanhar sol e vim iluminado de Literatura: «devemos ir sempre mais longe até onde já não entendamos, pressentindo, todavia, que ainda se pode continuar a explicar».

sábado, 18 de setembro de 2010

Depois do smog

Há quanto tempo não lia. Nem os livros que estão para acabar de ler, nem os que mandei vir para começar a ler, nem sequer aqueles que sei não serei capaz de ler. Nada. Só leitura forçada, funcionária. Trapo!
Hoje voltei ao ritual. Levei comigo para a cafetaria da Gulbenkian o Londres e Companhia do Luís Amorim de Sousa. Já aqui falei dele, autor, a propósito do Alberto Lacerda, que «desencantou» o título. Fantástico verbo «desencantar» querendo dizer descobrir, "desenrascar" essa virtude tipiciamente portuguesa.
Observando-os, aos ingleses, perdidos no meio do fog, à chuva, ao frio e ao vento, comenta o autor: «e estes tarados com a mania do ar livre. Isto é uma tara! Isto é uma aberração».
Lido isto voltei para casa porque o tempo está feio e ameaça chover.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O tradutor

Chegou a casa, vindo de uma interminável rua e de uma infinita tarde. Junto a uma janela, o texto nos joelhos, o pescoço dobrado, as costas doridas, as mãos a enclavinharem-se, a teimosia do dever. A seu lado, num braço de sofá, folhas soltas de um livro desmembrado. Palavra a palavra, revendo frases, articulava um sentido, tentava descobrir uma significação. Por vezes o incompreensível ocupava o seu lugar, desfazendo-lhe a laboriosa construção. Matraqueando teclas, folheando dicionários, hesitando em gramáticas. Por vezes dormitava na ânsia de dormir. Eis o tradutor.
Chegara a casa vindo de um mundo estranho. Uma fímbria de frio surgiu-lhe pelas frinchas da janela que era da vida o modo de a viver. Cada vez mais páginas pareciam amontoar-se por traduzir, cada vez mais o mundo lhe parecia intraduzível.
Houve uma manhã em que se entendeu finalmente com a língua estrangeira. Cegara e o mundo escrito tornou-se por igual incompreensível.
Faltaria depois a revisão das provas. Uma vida em tipografia.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O calor assim em bruto

Encontrei um livro dele um destes dias. Não me lembro onde. Tenho muitos. Estive para comprar mas temi já ter e repetir, como sucede por vezes. Falam de arte, pintura sobretudo, e de música e ao mesmo tempo são literatura pura e tudo isso numa simbiose muito lúcida e densa. «Talvez, pensei, o calor assim em bruto, atenuasse o nosso comum horror ao verão e a temperatura funcionasse como uma vacina», escreveu no conto "No Verão é Melhor um Conto Triste».
Faz sentido hoje porque se sufoca.
João Miguel Fernandes Jorge é difícil, pela inteligência com que diz, pela cultura que o leva a dizer. Caminha-se com ele como por corredores de refinamento e categoria. Refresca o espírito. Estão 38 graus aqui na rua.

domingo, 8 de agosto de 2010

Ce e Amorul?

Alarves, incultos, imaginamo-los a todos pedintes de duvidosa razão, espojando-se pelo chão da miséria, mão lancinante, lavando vidros de automóveis que ninguém quer que sejam lavados, elas de crianças dopadas, ao seio, em sonos incompreensíveis, humílimos, corridos pelo nosso desprezo e pela indiferença: romenos.
Acordei esta madrugada com o outro mundo de um país que é um ponto avançado da latinidade em território eslavo.
Não sabia que tinha sido o Carlos Queiroz quem elaborou a primeira revisão da tradução em 1945. Cuidadosa, amorosamente, trabalhando a métrica, a morfologia, a sintaxe, a estética dos poemas. Surgiu assim a edição bilingue de Mihail Eminescu, o grande poeta romeno: "Poezii". Tenho-a aqui comigo como companhia.
Victor Buescu que tantas gerações formou no seu Curso de Língua e Literatura Romena na Faculdade de Letras de Lisboa, dedica-lhe palavras de grato reconhecimento.
Sim, foi José Carlos Queiroz Nunes Ribeiro, funcionário da Emissora Nacional, poeta, ensaista, autor de magnífica Épístola aos Vindouros, tio de Ofélia Queiroz, essa mesma, a de Fernando Pessoa, o que morreu aos 42 anos.
Mircea Eliade, que morou aqui perto de mim, não longe da Igreja de Fátima, deixou em prólogo uma breve anotação à obra e ao homem: «incapaz de ser feliz», «a ventura de todos os dias é-lhe negada». A ele Mircea também. O seu Diário Lusitano faz dó, a mostrar como a vida pode ser cruel.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Vagão J

Porque saiu agora um romance inédito do Vergílio Ferreira, encontrado completo no espólio do autor, chamado A Promessa, escrito em 1947, ou seja antes do Mudança [1949] que como o título o diz marcaria a viragem da escrita do autor para a problemática existencialista, abandonando - rompendo será excessivo dizê-lo reportando-nos a tal momento - com a caminhada na estrada do neo-realismo, achei que para tudo fazer sentido na minha cabeça e não aumentar a desordem que resulta do ler dispersamente como tanta vez sucede, deveria começar pelo princípio. First the first eis-me com o Vagão J entre mãos.
Vagão J, como se sabe é, na nomenclatura ferroviária, o das mercadorias, o da tralha, o do gado, as mercadorias avulsas.
Começou a escrevê-lo em Faro em Maio de 1943, terminou-o em Setembro do ano seguinte. O texto é curto, revoltoso.
Leio nos intervalos. Para já vou ainda na caracterização do «homem da jorna», espécie braçal calcinada a dura vida e talhado à podoa das privações. E sobretudo retinto de ódio. «Toda a gente possuía qualquer coisa para afirmar a sua existência: o homem da jorna tinha apenas o seu ódio». «Porque os homens da jorna sofriam como cães ao verem que trouxera de Lisboa um ar de rufia, um paleio de malandrim. Cavasse como os outros a terra negra, andasse ensebado, fosse como os da sua igualha». Estava perdido o Bogas, à mercê de nas tripas se lhe ferrar a naifa, vingança surda sobre o gingão citadino de mão macia e fala eloquente para quem a fome é apetite e a romaria coito de coitos de fácil sedução.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A coçada batina e o seu lustro

Percebe-se que há hoje ainda um sector na sociedade portuguesa que tem no seu modo reticente de ser, na sua forma indirecta de se exprimir, na reserva dos sentimentos e na dissimulação das opiniões, os tiques do seminário frequentado e do seminário que abandonaram. São almas contidas em corpos fustigados. A masculinidade sobreviveu neles à amputação da libido, a humanidade resistiu à saturação da confissão auricular ouvida genuflexória até à náusea do horror.
São seres de impaciência recalcada. A danação dos pecadores é a sua forma de através das penitências alheias expiarem uma raiva que fingem ser piedade.
Notam-se pela liturgia, pelo esgar feito riso, pelas vestes talares, pelas profissões que permitem condenar.
«Tudo eu podia ser como seminarista, excepto o que não tivesse em conta o facto de o ser». Leio isto no estudo que Maria Almira Soares dedicou a Vergílio Ferreira, a quem a frase pertence. O estudo é sobre «O Excesso da Arte num Professor por Defeito».
«Quando se frequentava o seminário, era-se seminarista, fosse qual fosse o lugar e a circunstância», escreveu o autor da Manhã Submersa. Para a vida toda, Amen!.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A unidade do ser

Sabia que existia mas não o encontrava. Quando passava pelas livrarias, pelos alfarrabistas, pelas vendas ambulantes perguntava-me com os olhos mas ficavam cegos. Trouxe-o este fim de semana. Já é uma terceira edição. Trata de Fernando Pessoa. Mas não dos vários, distintos, diversos, heterónimos, mas sim e por isso se chama Um Fernando Pessoa. Se a aritmética de que Almada Negreiros fez arte, o 1+1=1, dá sentido e vida ao que é disperso e somatório e por isso imprecisão, ei-lo aqui, uno porque plúrimo e certo.
Comecei-o ontem, enquanto esperava o que não sabia ia ser uma última vez. Ao acaso li sobre Ricardo Reis. Ao chegar hoje a casa, vencidas as urgentes obrigações, que se incumpridas me tornam ainda menor, descobri que só tinha a obra em prosa atribuída a esse outro Pessoa pagão e tradutor. «Abomino a mentira porque é uma inexactidão», disse. E acrescentou «aos deuses peço só que me concedam o nada lhes pedir». Agostinho da Silva escreveu em 1959. Genialmente diferente.

domingo, 25 de julho de 2010

Às Sete no Sá Tortuga

Lê-se e uma pessoa sente-se transportada para o lugar. Não só o lugar acanhado dos quartos alugados, o telefone no corredor, os livros a esmo por onde há espaço para os arrumar, os quadros a aguardar uma parede livre para poderem ser pendurados. Sim o lugar sentimental em que se reclama solidão à companhia, o lugar dos biscates que dão para as contas por pagar e outras ficam por solver e sempre livros, e arte e culturae sobretudo humanidade.
Uma pessoa lê e sente a tristeza de quem se entristeceu e as esperanças que são a antecâmara da alegria e a vida a escorrer pelas páginas de um livro
Não é uma biografia é um relato de viagem. Luís Amorim Sousa viajou pela vida do poeta Alberto de Lacerda. A Assírio & Alvim editou.
Alberto «sabia que nem todos os que entravam no seu mundo eram dele residentes». Luís compreendeu-o amorosamente. O livro não é uma confidência, é um murmúrio de rememoração como uma prece.
Levei comigo o pequeno volume e li-o enquanto o autocarro da Mundial Turismo rumava para sul. Era sábado e a tarde prosseguia e com ele a minha leitura.
Regressei hoje na Rede Nacional de Expressos que é o mesmo um pouco menos melhorado. Ao chegar a Lisboa, há pouco, a história tinha terminado. Como sucede com todas as biografias quando já não há mais a dizer e a vida só sendo inventada para se poder contá-la.
Pedi à Liliana que me arranjasse mais para ler. Talvez um dia a fotobiografia, para já o Pajem Formidável dos Indícios, afinal, todos os livros quero eu dizer.

sábado, 17 de julho de 2010

Um segredo ardente

Há muitos ainda nas casas dos nossos pais. A maioria comprados pelas nossas mães. Os livros de Stefan Zweig´fizeram a sua época nos anos quarenta. A Editora Civilização traduziu-o quase todos. Austríaco saíu da Europa a caminho do exílio no Brasil. Morreu de tristeza e de pena pela sua Pátria ocupada pelo nazismo, suicidando-se com sua mulher no Brasil terra de futuro. A simpatia com que saudou esse País de acolhimento moveu contra ele as forças políticas que se opunham à ditadura então reinante. 
O modo como escrevia passou de moda. Escrita simples, fluente, apetecível leitura, a incidir sobre os meandros psicológicos das personagens, com compaixão e elegância mesmo quando sobre a sordidez. Conhecedor da alma humana, o autor de Amok trouxe-nos biografias que são de pessoas na pujança plena dos seus seres. Não mais me esquecerei do que escreveu sobre Nietzsche.
Acabei de ler esta noite Um segredo ardente.
É uma história de uma predação, o predador a seduzir o filho miúdo, corrompendo-o com a amizade, para alcançar a cedência da mãe. No final o amor triunfa sobre a luxúria, sofrido por entre mentiras, duplicidades, fidelidades traídas, carências.
Casada, Matilde - uma burguesa cujo nome uma só vez aflora na narrativa - vai cedendo ao insidioso barão austríaco. Ele «conhecia perfeitamene a sua incompatibilidade com a solidão. Não era pessoa com disposição para ficar só em frente de si próprio, e evitava, quando podia, esses encontros, porque não queria tomar conhecimento íntimo da sua pessoa». Ela «uma passional sem dúvida, mas bastante esperta para dissimular o seu temperamento através de uma melancolia cheia de distinção». Entre «um turbilhão de felicidade e de um infantil desespero» Edgar encontra nele o pai que falta e na mãe a mulher que descobre gostaria de ter.
A «ousadia do assalto» desenvolve-se neste ambiente. A renúncia aos desejos faz-se com lágrimas, magoada escolha «entre ser mãe ou ser mulher».

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Agostinho da Silva: as memórias do amor

Assina como se fossem as Memórias de Mateus Maria Guadalupe. É Agostinho da Silva. As pessoas conhecem o filósofo, sobretudo o conversador. Pelo estilo vadio das conversas muitos pensam-no como um entertainer, como aquelas estrelas dos talkshows. A profundidade das ideias, a originalidade das observações, essa escapa. Os media nivelam por baixo, a TV nisso é assassina quando clownesca.
Herta, Teresinha, Joan é uma sua obra de ficção. Viu-a publicada em 1953, Surge agora pela mão amiga da Biblioteca Editores Independentes, numa edição em oitavo, cuidada, bem impressa.
São três histórias de amor, as únicas histórias que merecem, afinal, ser contadas e perpetuadas.
São três histórias de fidelidade, aquela que há quando na diversidade se persegue o mesmo amar sob variadas formas de amor. Amor arquetípico, o que Agostinho da Silva nos conta, paradigma universal do sentimento ansioso, reiterado, persistente, nunca desconsolado mesmo na impossibilidade, pois há o arrebatamento e a espera.
«Cumprido amor» mas não consumado amor, com Herta Bikensrheim, estranha viajante naquele iate «fino e forte, audacioso e calculado, pronto para todas as surpresas e audaz para todas as aventuras», sentimento guardado pelo barbudo marujo, «português do Algarve», que é uma outra forma de ser-se português, «diabo de português que em todo o mundo vais e vês», afogado em «um Martini seco e em razoável miséria de conversa», luxuoso, nas docas de Montevideu, em Recife e em Dacar, afinal a vida indiferente à geografia feita só espaço para além do tempo. Herta de olhos verdes, como ele não vira outros se não em Ferragudo no instante agónico do poente quando o sol sangra, casada com um pintor cego não por lhe faltar a visão mas porque «nunca pinta o que vê», por achar que «imaginar e pintar é o mesmo, fora a técnica». Narrativa de alicerces no acaso porque «temos errado muito e do muito que temos acertado, da metade que temos feito por nós e da metade que Nosso Senhor tem feito apesar de nós».
Amor bárbaro, do beduíno puro à azulácea celta, amor de espectador «um bom espectador, o que significa uma estrita obrigação, uma quase ética obrigação, pelas próprias essências do teatro, de colaborar no espectáculo» e o espectáculo é assistir, terceiro, ao enamoramento sem história de Joan e Andrew, condenado a morrer e a guerra mata-o, matando-o a ele, amor feito de espera e tempo, um dos possíveis amores porque «eu, afinal, namoro todas as meninas do mundo», irrisório quando «o que ela estava talhando não era o meu casamento, era o casamento dela», e em tudo isso a «somenos importância». História de quem sabe que o tempo o come e não se pode comer o tempo que nos aborrece.
Enfim, Teresinha, magnífica, conto de meiguice e de minúcia, acaso para um amor de quem sabe que «namorar é um fim em si mesmo» e que «casarem-se as pessoas não tem nada que ver com as pessoas que se casam», para aquela menina e «aquela menina não havia de poder dizer a São Pedro, num longínquo dia, que só vivera no nundo para reparar nos outros, e que nela ninguém reparara, nos seus discretos encantos, e talvez nas audácias, mais escondidas e internas. E que ninguém a servira».
Enternece ler tudo isto.
E no remate, a fronteira do gostar, esse aquém do amor e dele evasiva: «Estaria eu gostando de Teresinha? Pareceu-me que não e me parece ainda hoje. Do que eu gostava era disso mesmo, que Teresinha estivesse comigo».