quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Vila Josephine
Li tanto do Vergílio Ferreira, da ficção à ensaística. Dei comigo a pensar que o conheço, ao seu pequeno mundo, a casa em Fontanelas, à tábua que colocava em cima dos joelhos para escrever, aos acessos de mau humor e à sua interminável Conta Corrente. Sobretudo na sua infância.
Hoje levaram-me, porém, de passeio ao desconhecido, à Vila Josephine, situada em Melo, concelho de Gouveia, lugar da sua origem.
Li as obras onde a referência à sua existência está presente e, afinal, não a reconheci. Imaginava-a pedregosa, sombria, nocturna. Hoje surgiu-me no esplendor do Sol, esfumava-se o dia.
Voltarei à Aparição assim como ao Para Sempre para me reencontrar com a sua realidade tangível. Hoje surgiu-me na reconstrução da poética.
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
Izas, rabizas...
Talvez seja esta a verdadeira vida, aquela em que a beleza surge, insólita, no pântano da sordidez, a magnificência sobre a generalizada insignificância, a bondade a romper no interstício de um mundo de ferocidade cruel. Feio, dolorosamente muito feio e, no entanto, real.
Peguei no livro porque não estava a entender-me com a sua escrita, porque me magoava as nódoas negras da sensibilidade, porque o Verão quando não atordoa, cegando até ao crime com a sua luminosidade estonteante, supõe, ido o suor, os insectos e a multidão, doçura para o corpo e o fresco de uma sesta depois de um sol ainda temperado pela névoa uma noite que se prolonga pela manhã.
E, entretanto, negando-se-me a leitura pela incompreensão, o fantasma de que era um dos melhores trechos em língua castelhana e prodígio de um Prémio Nobel da Literatura perseguia-me pela culpa de não estar a ser capaz. de progredir pelas folhas do breve La Familia de Pascual Duarte.
E empapado na sua repugnância lodoso surgiu com outro livro o carinho e a ternura e sobretudo a sua profunda humanidade. Vida de rua, Izas, Rabizas y Colipoteras, aquela outra obra de Camilo José Cela, é uma oportunidade para a genialidade ter voz.
Quase como num excerto de teatro grego em que a voz do narrador dá o trecho e o tom, também aqui vem ao proscénio o mundo das mulheres que alugam de si o necessário gerando a ilusão de que se dão todas a quem por vezes não ousa querer mais.
Estão todas, em friso e pelas esquinas, cada uma mais trágica e mais patética do que a anterior, arrumadas como se na taxonomia de um compêndio de botânica, espinhosas, carnívoras, de traiçoeira flor, ensarilhadas por um matagal doentio.
Tudo no livro, desde o léxico ao lançamento da frase é a evidência do sublime em Arte. Dir-se-ia que o tema não, não fosse naquela funda valeta por onde jorra, inútil já, o farto despejo do sémen vital, estar, inutilizada a própria vida que não sucede. A alma aperta-se ao cheiro da retrete em que tudo se torna, já não grita de horror quando um feto despedaçado é encontrado por uns miúdos por entre o lixo. Ali, naquele caudal de amor venal, não há vida para gerar vida.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Uma capa em lata
Poucos conhecem o livro e do autor apenas o burlesco do escândalo. A capa é em folha de flandres, como os brinquedos em lata, de quando muito pouco entretinha muito.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
A doçura do viver
Doçura, Arte, os prazeres da vida e o livro oculto de D. Maria dos Prazeres, o sentido do pecado a amargar a existência, tudo junto, entre o ensaio, a ficção, a técnica. É um livro apetecivel à vista, porque construído sobre as pinturas de Josefa de Óbidos. Coordenado por Francisco Sobral do Rosário, médico endocrinologista, especialista em diabetes e contista como escritor. Juntou um psicólogo de Educação, professor nos EUA, Bob Anderson, uma especialista em História de Arte, professora na Universidade Nova de Lisboa, Raquel Henriques da Silva, um professor de Literatura, crítico e escritor, Miguel Real, e um engenheiro químico e, imagine-se, presidente da Academia Portuguesa de Gastronomia.
Tudo em torno da alimentação racional, do ter fome na cabeça que não com no estômago, na contemplação das naturezas mortas por seres viventes.
Lê-se e revive-se, gustativamente.
domingo, 21 de julho de 2013
O fosso da sem razão
Livro tremendo, o fim da narrativa anunciado desde logo no início: «Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel o pintor que matou Maria Iribarne». E disse, mas um imenso fosso de sem razão abre-se ante o leitor, perplexo e agoniado de dúvida.
É o livro explicação do porquê odioso dessa morte, relato de que em cada momento a ideia da mesma se foi avolumando, tumultuosa, simultaneamente com a descrição, gotejante, de o sentimento do amor a poderia ter evitado? Mais do que isso.
O Túnel é o diário de todos os cambiantes sentimentais do amor, labiríntico, contraditório, absurdo, vivido com «ódio, desprezo e compaixão», como se dois corredores ou dois túneis os separassem sem jamais convergir, e cada átomo de acto fosse sujeito a um «lúcido mas fantasmagórico exame», com conclusões sempre hipotéticas mas indesmentidas mesmo quando não verdadeiras.
História de uma «lúcida ferocidade» é a razão de um louco contada pelo próprio, vida de seres de fealdade e insignificância, mundo de mentiras e de insensatez.
Sofrido em Buenos Aires, impossível não ver referências próximas como Borges e a sua biblioteca, Borges e a sua cegueira, Borges e, afinal, a consciência moral final da razão conformada com todos os excessos do sentimento, a eles renunciado.
Livro estranho, profundamente real na minúcia do quotidiano que lhe dá desenvoltura, críptico quanto àquilo a que afinal se refere e ao que vem.
sábado, 6 de julho de 2013
Ernesto Sabato, o caminho improvável
Escrevi uma vez e aconselharam-me a não escrever que tenho lacunas culturais tremendas. E que há autores que se dizem «clássicos» mas nunca li, e que me passaram ao lado tantos dos que são tidos por «incontornáveis», expressão que esteve tão em voga.
Li agora Ernesto Sabato para ir descobrir que tenho na minha estante, entre outros, alguns dos seus livros - e escreveu relativamente poucos- nisso incluindo O Túnel e O Escritor e os Seus Fantasmas. O primeiro a única novela que quis publicar e que, para a ter visto editada, teve de sofrer amargas humilhações de a ver sistematicamente recusada por todas as editoras argentinas e que sairia pela Gallimard francesa graças à intervenção de Albert Camus, tão funda era a mútua compreensão das suas almas.
Livro triste este que li, biográfico, mas livro de esperança. Livro de quem viveu uma vida e aos oitenta e seis anos reflecte sobre o que foi o caminho errático, incerto, tumultuoso, improvável, «que o destino conduz-nos sempre ao que tínhamos de ser» e «a vida faz-se em rascunho e não nos é dado corrigir as suas páginas».
Livro de alguém a quem doeram as dores alheias e por isso se envolveu na acção política, acreditando e descrendo mas nunca perdendo a esperança.
Livro de quem se fez a negar uma carreira fulgurante no campo das ciências em nome do apelo obscuro daquilo que lhe permitiu, afinal, «expressar horríveis e contraditórias manifestações da [sua] alma, porque nesse obscuro território ambíguo, mas sempre verdadeiro, lutam como inimigos mortais»
Livro de quem viveu em tumulto interior permanente, em fidelidade à sua condição humana.
Antes del Fin esteve para se chamar Memórias de um Desmemoriado, porque são remanescentes do que ficou em que viveu para não lembrar, bem sabendo que «os anos, as desditas, as desilusões, longe de facilitarem o esquecimento, tristemente, reforçam-no».
São os comoventes os livros que me ficam. Faria minha a sua frase «os livros que li, as teorias que frequentei, deveram-se mais aos meus próprios tropeções com a realidade», tal como ele «nesta complexa, contraditória e inexplicável viagem até à morte que é a vida de qualquer um».
Ernesto Sabato foi uma extraordinária promissora figura no campo da Física, tendo sido bolseiro do Laboratório Curie e do lendário MIT norte-americano. Mas era apenas refúgio o que procurava nas matemáticas materializadas e ante a «prepotência racionalista» e refúgio o que, a partir da década de quarenta, procurou na arte e na literatura e, em grande parte, na ficção, desiludido com «a imbecilidade dos que acreditam que o progresso é o avanço da civilização», quando «chegámos à ignorância através da razão».
Sem que o soubesse «antigas forças, em algum obscuro recinto, preparavam a alquimia que me afastaria para sempre do incontaminado reino da ciência. Enquanto que os crentes, na solenidade dos templos, murmuravam as suas orações, ratazanas famintas devoravam ansiosamente a catedral dos teoremas».
Este seu livro é uma ode magnífica ao humanismo, o desprezo e a denúncia do «mundo tecnocrático e cientifista», aquele em que «a angústia metafísica e religiosa foi substituída pela eficácia, pela precisão e o saber técnico», tudo o que gerou a paradoxal «desumanização do homem», à mercê das «forças dinâmicas e amorais do dinheiro e da razão», em que «o capitalismo moderno e a ciência positiva são a mesma cara de uma mesma realidade despojada de atributos concretos, de uma abstracta fantasmagoria».
Manifesto desolado contra o contemporâneo monstro de três cabeças, o racionalismo, o materialismo e o individualismo, expressão de um soldado pelos «excluídos do grande banquete dos economicistas», os que se tornaram numa simples «estatística sociológicas», é a afirmação derradeira daqueles que cantam na hora do suplício!
Manifesto de quem sabe, conhecendo-as, as sinistras criaturas em que nos estamos tornando, as mesma que Goya surpreendeu, pintando-as, a vida como a volúpia de um tango «esse pensamento triste que se dança».
domingo, 23 de junho de 2013
Domingos Monteiro: porque há mais mundos
Domingos Monteiro. Nasceu em 1903, morreu em 1980. Advogado. Escritor. [ver mais aqui] Não procurou exílio na Literatura. Manteve-se na primeira linha do combate pelo Direito. Sacrificou-se a essa luta, arriscou no foro, defendendo aqueles que eram levados à justiça política.
Li este fim-de-semana os seus Livros Proibidos. Nele compendia dois estudos: A Crise do Idealismos na Arte e na Vida Social e Paisagem Social Portuguesa. Ambos proibidos pela Censura. Impedido de prestar provas de doutoramento na Faculdade de Direito de Lisboa, viu a circulação da sua tese apreendida também.
Quase uma década separam as duas reflexões. A primeira surgiu na forma de uma conferência em 1943, promovida pelo jornal O Século, a segunda como opúsculo sobre a geografia social do povo português.
Domingos Monteiro foi também ficcionista. Por isso estas suas narrativas, a primeira filosófica, a segunda sociológica, evidenciam essa qualidade literária que torna a leitura apetecível.
É interessante verificar hoje em que medida esses textos, datados embora, e oriundos de um pensamento que se move à esquerda do quadrante político, escapam à vulgata do que o marxismo pressuporia.
O autor alça, é certo, a bandeira da busca do «homem novo», mas dominado pela «inquietação sublime», a dos «sonhadores impenitentes», que lutam pelo idealismo como ideal, pela Arte, e nela a Poesia, «quem encontra as identidades ocultas que unem os homens à natureza, quem aproxima as almas e quem lhes revela o segredo misterioso da sua substância espiritual».
Estamos, pois, longe do materialismo, assim como se está longe de todas as ditaduras, incluindo a dos sovietes, a qual «tem a contrariar os seus desígnios um erro fundamental e uma confusão lamentável: parte do princípio de que a ideia democrática faliu, quando o que faliu foi apenas o liberalismo económico, filho espúrio e degenerado das democracias».
Trata-se de um apelo esperançoso à juventude, ante a qual se lança o repto de que «é preciso criar uma nova moral, uma nova economia, uma nova ideologia». Fruto do espírito e do sonho.
Diferente o segundo escrito, está escrito na prosa poética de quem compara metaforicamente toda uma população à corografia dos locais onde ela se encontra, como se falasse de uma paisagem, o povo sendo a sua planície, as burguesias os relevos do acidentado solo. A proletarização da classe média e o seu aburguesamento são fenómenos pendulares que surpreende nessa análise acutilante sobre a psicologia social do português, assim como a demasiada individualização da propriedade «iniciada no tempo de D. Sancho II e elevada ao máximo com o advento do liberalismo económico, reduzindo ou fazendo desaparecer quase totalmente a propriedade comunitária» e com isso o egoísmo e o desejo de posse da terra à custa dos maiores sacrifícios.
Estudo que não perdeu actualidade, nele se observa, entre inesperadas situações, como o pequeno funcionalismo sente o «dever profissional de defender essas princípios [os que modelam o Estado] muitas vezes contra o que sentem ser o seu interesse», e se constata como em quase todos os habitantes da cidade há, por causa dos deveres de representação social o «desprezar as necessidades primordiais da alimentação e habitação, em relação ao vestuário» e tudo, esses acidentes da topografia, a viverem do que, afinal, produz, a desprezada camada mais baixa, essa leva de camponeses e operários, que arcam com o peso do que ainda se produz e ainda há para gastar.
Encontrei-o entre os livros que ficaram da biblioteca de minha Mãe. Também ela me surpreendeu por tê-lo. Como ao lê-lo. Porque há mais mundos.
Estudo que não perdeu actualidade, nele se observa, entre inesperadas situações, como o pequeno funcionalismo sente o «dever profissional de defender essas princípios [os que modelam o Estado] muitas vezes contra o que sentem ser o seu interesse», e se constata como em quase todos os habitantes da cidade há, por causa dos deveres de representação social o «desprezar as necessidades primordiais da alimentação e habitação, em relação ao vestuário» e tudo, esses acidentes da topografia, a viverem do que, afinal, produz, a desprezada camada mais baixa, essa leva de camponeses e operários, que arcam com o peso do que ainda se produz e ainda há para gastar.
Encontrei-o entre os livros que ficaram da biblioteca de minha Mãe. Também ela me surpreendeu por tê-lo. Como ao lê-lo. Porque há mais mundos.
sábado, 22 de junho de 2013
Froilano de Melo sobre Tagore
A vida é feita de acasos significativos a que chamamos coincidências. Visitava-se o Chaminé da Mota. Surge-me a Maria José com um ensaio sobre a poesia de Rabindranath Tagore. Nem queria acreditar ao ver o nome do autor: Froilano de Melo. Abrevia o primeiro nome com um I. Talvez por se chamar Indalécio, nome invulgar. Sucede que ao ter escrito em 2001 o meu livro O Espião Alemão em Goa, reeditado em 2011, e ao nele descrever o incidente trágico que levou em 1943 ao incêndio e afundamento de quatro navios estacionados no porto de Momugão escrevera:
«Os seis feridos são, entretanto, transportados para o Hospital Central no bairro de Campal, em Panjim.
Numa das lanchas dos serviços de saúde, Alfredo de Mello, então um jovem estudante de medicina, com quem me correspondi durante a feitura da primeira edição deste livro, acompanhando seu pai, o médico local Dr. Froilano de Mello [i] , tentaria estancar o sangue a um dos marinheiros do Ehrenfels, mas este esvair-se-ia por uma hemorragia da artéria femoral e morre à vista da Fortaleza dos Reis Magos. Era o marinheiro Paskarbeit.».
E na nota de rodapé acrescentara: «[i] O Dr. Froilano de Mello, era à data, o chefe dos serviços de saúde. Nascido em 1877, faleceria em 1955. Cientista de elevada reputação e homem de letras, deve-se ao seu esforço o levantamento das causas de malária em Goa. Especializado no combate à tuberculose e à lepra, os seus trabalhos práticos no sector granjearam-lhe justa auréola doutoral.»
+
Eis, agora, ali, diante de mim, o livro. Froilano de Melo escrevera-o na Páscoa em 1944. Dedicara-o aos filho. Um deles, Alfredo de Melo, encontrei-o, como disse, no Urugai quando investigava a história que daria azo àquele meu livro. Hoje, sábado, 22 de Junho de 2013, o círculo fechava-se, sob o signo da Poesia.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Vergílio Ferreira: Eros e Thanatos
Prometi que viria aqui falar de Aparição o livro que li há pouco julgando que já o tinha lido na adolescência e que muitos jovens são forçados a ler para, pouco compreendendo, o detestarem, em nome da fantasia pedagógica de que eles são, enquanto massa escolar, pela sensibilidade, aquilo que se pressupõe para um tal livro.
Ante ele ressalta de imediato a natureza auto-biográfica da narrativa, a de um Vergílio Ferreira professor em Évora, tal como Alberto Soares, a personagem principal e narrador da obra, escrevendo-a, goticular, em noite de trevas e luar, granítica, como memória de si e do que foi a sua deambulação, recordação da casa paterna, agora envolta na dimensão trágica do luto.
Com o professorado a narrativa traz-nos a missão inconclusa e repetida, a reclusão interior, forma de exílio em terra estrangeira, à mercê de sentimentos e ressentimentos, da minudência do meio, a impossibilidade de afirmar a própria grandeza e, no fim, a sísifica impossibilidade e o retorno.
Toda a história é uma narrativa humilhada de diminuição, numa cidade onde «qualquer iniciativa cultural é logo abafada de desprezo e banha», mas nenhuma surge.
É a perseguição da aspereza do lugar, «o corpo sovado de insónia», «os olhos ardidos de espertina», a «alucinação de luz», «onde carroças estremecem com um estrépito de ferragens», «Évora mortuária, encruzilhada de raças, ossuários dos séculos e dos sonhos dos homens».
É essa inviabilidade de compatibilizar o ser e o estar que acaba por lhe contaminar a existência, confinando-o ao sedentarismo do seu canto de escritor, alheando-se progressivamente de tudo o que conhece, de modo cada vez mais profundamente e por isso menos extensamente.Começara com Mudança essa incompreendida e solitária caminhada.
E, no entanto, há vida, erotismo como ofensa à contenção, acicate e castigo, Madame «abundante senhora, loura por antiguidade (...), ousada e astuciosa por direito de mamã», a dominar a cena com a mestria da arte do rebaixamento, sadismo feito "salon" e "boudoir" e Sofia, secreta, «vestido branco, colado como borracha, e um corpo intenso e maleável», o «boleado das curvas», «a cinta fechada disparava-lhe os seios, uma luz inquieta iluminava-lhe os olhos», Sofia que o trafica, negando-se-lhe, depois de o levar e ele obcecado, esfaimado «no limite dos seus seios fortes, das suas ancas volumosas e solenes como uma noite germinadora» ao ponto explosivo do desejo, «presença inquietante, oblíqua de avisos», tudo territórios de negação a uma sensualidade que emana da Terra e por ela para os corpos que a habitam, para se lhe oferecer num acto de sublime desespero e paixão como um único beijo fossem todos os beijos da totalidade do corpo.
A isto mal escapa Ana, nela onde «havia a violência de um prosélito recente ou em crise», a «fúria silogística», o «desejo encarniçado de demonstrares», e em tudo isto se abre a magnífica clareira para Cristina e o seu nocturno de Chopin, imagem ímpar de evidência, afinal a única breve inocência a dar corpo à angustiosa questão da morte, essa «inverosimilhança» ante o nada mais haver na vida «do que beber até ao fim o vinho da iluminação e renascer outra vez», essa «fulguração sem princípio» e por isso ceifada à existência em inesperado instante.
Joga-se em toda a narrativa o problema central do Homem aquém, imensamente aquém do destino da Humanidade. E, no entanto, sempre a miséria dos humilhados, surge, em emergência dolorosa, cenário de um martirizado Alentejo, em Quaresma social permanente. Quem tem coração que dói não esquece a dor alheia, mesmo quando não arregimentado com soldados da salvação organizada pela Arte comprometida.
«Que sabe a fisiologia sobre os sonhos de um homem?», pergunta o narrador ante o Doutor Moura, na viagem fatídica que os conduz ao encontro com o Bailote, semeador bíblico de mão suplicante, inutilizada já para a única função que o agarrava à vida, enforcado pelo desprezo sem memória que dure no remorso dos outros, morte tão morte qual a do pai do próprio narrador, morte esta que persegue todas as memórias como lembrança e com ela a da velha casa, familiar, originária, local de retorno às origens, a ferocidade contida das partilhas que aflora como um perfume de ganância minifundiária.
Livro de um humanismo que não quer «apenas um bocado de pão, quer uma consciência e uma planitude», Aparição é o Homem e a Terra toda, incluindo o Céu e o Inferno que dela brota como esperança e medo.
Tanto poderia escrever sobre esta portentoso livro. Tanto.
Escrevo sobre o que se me vincou, desordenada, lacunarmente, por isso, inevitavelmente, sobre o que há nele de perdão. Perdão para o adolescente Carolino, «a viver uma inquietante separação de si, não sei se para um encontro lúcido consigo, se para uma união de loucura», a triunfar, porém, pela vitória adulta não do que em si era perplexidade atulambada mas potência e sexo e por isso com Ana, viril mesmo quando patético que seja, perdão para Tomás, mulher e sua ranchada de filhos, lavrador e com ele a virgindade sempre desflorada da Terra pela frutificação de si, nobreza de acto que suplanta os dourados da cultura, os engalanados dos livros, anseio de paz, de família, do afago de companhia, perdão para o que é simples mesmo rude, para o "Manuel Pateta", animal de carga alimentado a bebedeira, para todos, para tudo quanto é bronco e brejeiro mas afinal sincero e verdadeiro, lugares «onde a boa disposição tinha a sólida base de um estômago cumpridor».
sábado, 25 de maio de 2013
Ruben A. em provas...
quinta-feira, 2 de maio de 2013
A gramática portuguesa à procura de Ruben A.
Aqui fica o texto do que li ante a Sociedade de Língua no passado dia 30 de Abril. Não sou especialista em Literatura, apenas um leitor.
1.
O tema nasce porque o leitor de português no King’s College, onde obtivera o grau académico de Master of Arts, Ruben Alfredo Andresen Leitão, perdeu, em 1951, o lugar, devido a pressões do Governo de Lisboa, na sequência do segundo volume que no ano transacto fizera editar, o das suas Páginas. Motivo directo: heterodoxia sintáctica.
Por detrás da conformidade do escrito com as regras linguísticas estavam também dois factores: o político, decorrente do conteúdo do relato e a intriga, rodeada esta numa penumbra sentimental que envolveria uma senhora, alegada denunciante, frustrada de amores pelo seu irmão José.
Destas duas últimas razões, a primeira faz sentido no contexto relativo da época: o escrito abunda em menções de substância crítica à Inglaterra, onde o autor desempenhava funções académicas e à própria realidade portuguesa, a primeira apta a criar dificuldades à política externa face à nossa mais velha aliada, a Loira Albion, a segunda, à “política do espírito” que reinava como ideologia securitária culural do Estado Novo. A segunda é a eterna fonte das acções humanas, a simbiose do ódio pelo não amor, o despeito.
A causa primeira, a causa eficiente como lhe chamaria Aristóteles, essa porém, é um insólito que ainda hoje ecoa e me me animou a revivê-la aqui.
O livro havia sido composto nas Oficinas Gráficas da Coimbra Editora, cidade onde o autor fizera estudos universitários, editado, no entanto, a expensas suas, e com venda reduzidíssima, facto que ainda hoje pertence ao domínio da petite histoire editorial. «Os meus livros raro chegam a atingir um grau medíocre de comunicação», diria mais tarde.
Nele compendiavam-se dispersos, apontamentos de viagens, de presença e de ausência, notas pessoais, o ego do escritor em acção, traduzindo o sentir em que muitos se poderiam rever no silêncio da leitura. Nada de extraordinário neste País de emigrantes e Nação de poetas.
O estilo era, porém, incomum, a tocar o revolucionário para a época, mesmo relevando as estonteantes piruetas estilísticas que os anos vinte haviam trazido ao regime político de Lisboa no domínio da Literatura, através dos modernistas que António Ferro convocara e, entre todos eles, como genial ímpar, José de Almada Negreiros, o autor da verrinosa Cena do Ódio e de toda uma escrita contorcionista apta a surpreender.
O autor tinha então 29 anos de idade e, como se exprimiria mais tarde, quase vinte anos volvidos, «ambicionava criar uma linguagem que libertasse a minha sensibilidade» e por isso mesmo «não podia usar a linguagem do Costa, porque o que eu tinha a dizer não era de modo nenhum o que o Costa dizia».
Verdade é que foi por causa do estilo que a matéria subiu à mão do contido e sóbrio Presidente do Conselho de Ministros, o qual redigiu, nas folhas de bloco em que se confiou para a História, notas de leitura que endereçou ao Ministro da Educação na altura, Fernando Pires de Lima.
Eis a primeira vez que o ditador teve o ensejo de exercer crítica literária, e fê-lo num aquém absolutamente humilhante da sua personalidade de estadista, perplexo e ofendido mesmo no seu conservadorismo atávico, ante o que lia.
Dois excertos:
«Lá fora o Juiz falava calmamente da natureza, dos pássaros, das colheitas e na generalidade aceitava o uivar constantes da multidão profundamente sexuada pelas áreas de La Bella. A rivalidade entre o Juiz e o escroque máximo – para a posse da prima-dona – atingiu uma troca de palavras baixas, feias, confidenciais – prostituídas rapidamente assimiladas pela careca bailarínica do Engenheiro C. do M.G. dos C. em particular».
«A mentirosa de Londres – a mulher de boca podre também me aldrabou. Alguns amigos – ao jantar – ouviram condescendentemente um bêbado que pelo facto de cheirar mal era o charme de Londres. A Mentirosa beijou-o num vislumbre sujo de mau hálito. Há poucos dias voltei a encontrá-la e tornou a mentir pela fama baixa que deita – em casa toma atitudes onézimas e, quando bem atestada pelo enfrasque do vinho ou das borras, só sabe falar verdade quando mente, prevenido encaixei algumas cujo sentido prático se desdobrava em sexo.»
Recorda-a, a essa ira salazarista, o irmão José Andresen Leitão, depois de ter feito uma privada investigação junto do Instituto de Alta Cultura, de que o controverso autor era bolseiro, e através de elementos que o Secretário do Ministro, António Miranda, para isso lhe facultou.
Em quatro páginas Salazar procedera a uma crítica «violenta, arrasante, doutrinal». Segundo o Secretário ministerial, o livro «tocou profundamente o seu edifício lógico, ordeiro e convencional».
Do manuscrito ficam estas frases a traduzir a visão do que da biografia e escrita do leitor em Londres ficara no espírito de retraída libido do Chefe do Governo: «pertence a uma boa família do Porto»; «há páginas completamente ininteligíveis e irredutíveis na análise das regras da gramática portuguesa recheadas de termos de invenção do Autor»; «explora-se o reles, o ordinário, o palavreado porco não só da língua literária e do falar corrente»; «as porcarias absurdas, palavrões juncam o livro»; «em certas passagens é chocarreiramente desabrido com os ingleses»; «de certa corrente modernista e isso é um caso para a censura e a polícia»; «o Autor deve pertencer a um tipo de pessoas que a polícia persegue»; «o Autor não pode representar Portugal nem ensinar português».
Enfim, era o atestado de mau comportamento moral e civil, barramento para a função pública, ao limite, perto quase, nas entrelinhas, da fronteira que enxotara do serviço público António Botto, demitido em Novembro de 1942 entre outras coisas por «não manter na repartição a devida compostura e aprumo, dirigindo galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social» e «fazer versos e recitá-los durante as horas regulamentares do funcionamento da repartição, prejudicando assim não só o rendimento dos serviços mas a sua própria disciplina interna.»
Sucede que os ingleses reagiram mal a esta intervenção moralista literária do Chefe do Executivo português e o Reitor da Universidade de Londres fez sentir, por via diplomática mas de modo suficientemente trovejante, que se não deixavam o Governo trabalhista britânico imiscuir-se na Universidade, menos ainda ao iriam tolerar a um Governo estrangeiro.
Ante isto, e o demais que se deve ter seguido no sentido de isolar Salazar, este, a 25 de Julho de 1951 escreve um cartão a Pires de Lima, no qual consigna: «Só hoje me mandaram os seus cartões e papéis relativos ao leitorado em Londres. Devolvo estes. Não há objecção ao que se pretende visto que o maluco do homem tem habilidade e competência para o cargo».
Eis, pois, aquilo que me traz aqui a este jantar: o «maluco do homem», genial escritor e os malefícios da gramática portuguesa.
Se Londres resistiu a cedê-lo à polícia do gosto, Ruben Andresen Leitão, humilhado, abandonou o cargo. Regressou a Lisboa, prostrado, isolado, e sem meios. «Escrever foi lutar», como notaria Jacinto Baptista, em homenagem póstuma. E lutou, escrevendo.
De emprego em emprego, começando pela Lever, seria a Embaixada do Brasil que se lhe garantiria lugar certo entre 1954 a 1972, e Vitorino Nemésio quem lhe alcançaria, em 1962, o posto de responsável pelo Instituto de Cultura Brasileira na Faculdade de Letras de Lisboa. Por um ano, em 1953, ensinaria no Liceu D. João de Castro. Em 1959, devido aos seus estudos sobre D. Pedro V, marco interessante na biografia daquele magnífico monarca, é eleito sócio correspondente da Academia Portuguesa de História. Só mais tarde, porém, em 1972 quando, com a liberalização do regime ensaiada por Marcello Caetano, alcançaria o posto de administrador da Imprensa Nacional.
Com o 25 de Abril João de Freitas Branco fá-lo-ia nomear por Vasco Gonçalves Director-Geral dos Assuntos Culturais, mas Ruben, irrequieto, atordoante, não se coaduna com o cargo, menos ainda com os militares. The right man at the wrong place, at the wrong time.
«A asneira não é privilégio das direitas ou das esquerdas, é uma constante nacional», escreveu um dia. Resumia-se, assim, o seu infortúnio com a política da cultura. Restava a grandeza da Literatura, a língua portuguesa como a sua Pátria.
A ela regressava para aquilo que denominaria, em síntese conclusiva, a «explosão do absurdo», o «encontro do ser normal Ruben Andresen Leitão com o outro personagem», o escritor Ruben A., com quem jogaria a dualidade típica do seu signo astrológico, Gémeos.
Mais tarde, o risível antagonismo irrompe em diálogo com Ruben B., o reprovado escolar que treparia à fortuna, à “barriguinha”, ao Buick à porta e mais seis filhos. Era o vértice do triângulo existência/literatura/sociedade, no qual surgiria o furacão criador de si. [para ler o resto clicar aqui]
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Catulo
quinta-feira, 21 de março de 2013
As Criminosas do Chiado
Chamava-se João Francisco de Barbosa Azevedo de Sande Aires de Campos, mas passou para a História pelo seu nome literário, o de João Ameal.
Não vem ao caso entrar na questão de saber se o alinhamento política da criatura contamina a qualidade do seu trabalho, como muitos gostariam de postular. Legionário, monárquico, integralista, realista e tudo.Assim foi.
Ao caso vem, sim, que encontrar num alfarrabista a preciosidade de um seu autógrafo.
O livro escrito a meias com Luís d' Oliveira Guimarães - também jurista e jornalista - chama-se As Criminosas do Chiado. Vai além do romance do cordel, mas é o estilo folhetinesco que lhe marca o tom. São aparas do que, em estilo humorístico, fora escrito na revista O Chiado, editada um ano antes. É a demonstração de que aquela zona chic da vida lisboeta estava infestada de elegantes amigas do alheio. En bref, a gatunagem no feminino.
A obra traz data de 1925.É precisamente o primeiro exemplar, editado em 1925, por João Romano Torres, filho do decano dos tipógrafos portugueses.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Escreve o editor
Revi-o esta noite naquele instintivo procurar noctívago. É um editor que escreve sobre o que é a edição. Serafim Ferreira fala de si e fala de todos os outros, os que "endividados como uma mula" - na magnífica expressão de Luís Pacheco - fizeram com que do chiar dos prelos viesse à luz do dia o alimento de que o espírito vive, arriscando quanta vezes tudo, tornando livro o que era o garatujar caótico e suas irrequietas emendas, fazendo obra daquilo que lhes era entregue em tímida hesitação inacabada, acumulando sobras, escapando ao cerco dos calotes e das falências, entre as livrarias que já não conseguiam pagar, os autores que nunca conseguiriam vender, os distribuidores para quem a edição é mercado, e sempre, sempre a fazerem livros para que outros lessem o que eles gostavam de ler e quantas vezes contra isso porque havia a factura a vencer-se, a letra comercial em vias de protesto.
Tempos de provas e suas emendas, tempos de caixa alta e caixa baixa, tempos do Linotype e depois do offset, tempos de um Gutenberg eternamente a renovar-se, tempos em que os sentimentos à flor da pele o editor - ó vezes! - se fazia escritor, fazendo o escritor escrever, ensinando o escritor a escrever para que se lesse.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
O Mysterio de Perosinho
Com imprimatur da autoridade eclesiástica, firmado a 1 de Janeiro de 1920, por D. António, Bispo do Porto, o bom do Padre José Ribeiro d'Araújo, já em Ovar e longe do lugar de Perosinho, seu rincão natal, onde pastoreara o rebanho do Senhor, deu-se, como alguns dos seus ilustrados confrades de sotaina, a trabalhos de História e Etnografia.
Aventurou-se pelos tempos primitivos, aventando que talvez pelos tempos dos Celtas ou dos Iberos o lugar fosse primitivamente habitado, louvando-se numa mamoa existente pela Barrosa (em Mathosinhos, como escreveu na grafia da época). Para que confusão não haja direi que mamoa é cabana megalítica do tipo dolmético.
O livro foi-me oferecido pela Biblioteca local, esforço comunitário civil autónomo e porfiado, em generosidade ante uma palestra que ali proferi, gente da alma desses construtores que deram ao País vida, oriundos dos Nortes adversos.
Li-o, com o gozo mouro de quem passeia tentando descobrir sob o alcatrão e por entre os interstícios do betão armada um mundo que foi; o gozo e o riso porque, verdadeiro manancial de antiguidades, há nele que dê para uma alma cândida sorrir por várias horas.
Desde crendices como «quando o cão estiver a uivar, o que é sinal de mau agouro, para ele se calar, deve colocar-se um chinelo com o salto para cima» - o que é já esta noite que porei em prática ante um canídeo circundante que ladra com lua ou sem ela pelas horas do sono, até à história do Mysterio, o bruxo que em 1919 se estabeleceu em Canelas, lugar da zona de Gaya (assim mesmo, aquilo que é hoje Vila Nova de Gaia, aliás cidade) e de quem corria folheto segundo o qual «Vive há tempos em Perosinho/No logar de Brandariz/Um ser bem piramidal/Como há poucos no paiz/Quem elle é vou dizê-lo/P'ra que possaes conhecê-lo/É formado em intrujice/P'la Universidade das Lérias/Onde aprendeu a curar/Das humanidades as misérias!!!/E, se alguma vez não erra/Teria fama em toda a Terra [etc., etc.].
domingo, 30 de dezembro de 2012
A fossa trituradora
O livro é tremendo. Breve mas lento ao ler-se, porque aleija, porque vai encharcando a alma de sentimentos, rememorações, pensamentos. Há nele uma narrativa que lembra o mundo enclausurado de Kafka, também ele checo.
O subterrâneo é o seu lugar alegórico, qual caverna de suplícios, porão de escravidão operária. Mas é um livro sobre a vida.
Hanta trabalha numa prensa que reduz papel a um compacto que, depois de reciclado, dará novo papel. Trinta e cinco anos de trabalho e uma identificação do homem com a sua máquina, da função com o seu destino. Lentamente adivinha-se o final daquele homem tornado carcaça, carcomido pela dor e pelo dever, minado pela contemporaneidade.
O triturado é amálgama do que mais diverso seja papel, sejam sacos poeirentos de cimento, embrulhos sanguinolentos de talhos ou bibliotecas inteiras jogadas para o fosso da inutilização, às quais retira, sem que isso interesse a quem seja, preciosidades que o génio humano encerrou em livro, salvando da morte a ideia como se resgatasse da guilhotina a cabeça que a gerou.
É neste cenário que Bohumil Hrabal constrói esta sua magnífica narrativa, afinal um ensaio sobre a transcendência onde ela menos se espera, feita de asco e de sublimação. Um livro de que se não pode revelar o segredo, pela impossibilidade de o transmitir intacto.
Todos os seus livros são auto-biográficos. Depois deste encomendei outro, agora em edição espanhola e uma sua biografia. O primeiro chegou antes deste fim-de-semana alongado. Lê-lo-ei depois, não sem que deseje voltar a este, a "Uma Solidão Demasiado Ruidosa", publicado já em 1992 pela Afrontamento. A história de uma fossa trituradora, afinal a alquimia essencial do que vive provindo do que morreu.
sábado, 29 de dezembro de 2012
Ruben A. em biografia
Ainda vou a meio e lerei tudo. Estou naquela fase em que raramente deixo um livro por terminar, mesmo quando arrasto a leitura por um longo tempo. É a biografia de Ruben A., escrita por Liberto Cruz e Madalena Carretero Cruz.
É difícil, eu sei, o género biográfico, porque se pode ficar prisioneiro de simpatia ou antipatia pelo biografado, escurecendo os seus maus momentos ou acentuando dele os piores instantes. No caso é mais difícil porque o biografado é um ser incerto, que viveu em desconcerto e em modo errático, porque nele a graça da blague obnubilou muitas vezes o sentimento profundo e as ideias invulgares. Mas sobretudo porque se trata da biografia de quem escreveu a sua própria memória, através dos três volumes do livro O Mundo à minha Procura e os seis das Páginas, tudo narrativas centradas sobre o que viveu e viu viver, entre o luxo fulgurante da abundância de vida e a precariedade dos meios de subsistência com que tantas vezes se viu perseguido, nessas guinadas de altos e baixos dos que verdadeiramente são. De quem escreveu livros que quase ninguém leu e fez disso chiste como consolo.
Talvez falte ao livro aquela chama de alma que Ruben A. colocou em tudo quanto escreveu, aquele modo de ser diferente em que muitos viram o snob outros, não o dandy da Linha, mas sim a manifestação radical, meio anarquista, da estética do absurdo, a provocação, a modernidade. Compreendo que não é fácil captar-lhe do espírito a essência e, nessa faceta, a biografia é por isso mais o relato da viagem do que a dos sobressaltos do viajante. Para se alcançar o pulsar irrequieto daquele cérebro e a síncope daquele coração, que o trairia, é preciso ir-se directo às fontes, à sua ficção, aos diários e reflexões, mesmo ao recentemente editado teatro - para mim o seu género menor, ele que o cultivou como interessado e culto espectador na sua Londres vista a representação de que antes lera o argumento, os estudos académicos sobre o seu D. Pedro V. Os biógrafos foram mas o leitor terá de ir. Visto, assim, a biografia enquanto cronologia cumpriu a sua missão: alicia. Dá vontade de ler do biografado a obra, mesmo àquele que já a leu.
domingo, 23 de dezembro de 2012
E que eu sorri
Precisamente neste dia, 23, no ano de 1992, Vergílio Ferreira encerrava a sua "Conta Corrente", o controverso diário, que saiu em duas séries, pela Bertrand.
Controverso porque intrinsecamente verdadeiro naquela força interior, surgida das entranhas dos sentimentos, mesmo os mesquinhos, que um Homem integral não é só feito de grandeza, a fomentar desencontros e rancores, vindictas mesmo.
Era uma quarta-feira.
«Quando é que acaba com isso», perguntara-lhe, amigo, Eduardo Lourenço, dorido por sabê-lo enclausurado na obsessão e vítima do próprio vício.
Acabaria no final desse mês não sem uma íntima revelação do que seria, depois disso, um seu livro póstumo: «A propósito. Desisti definitivamente das "Cartas a Sandar". Estou fora de jogo».
Terminou o que fora, em vida, uma "Alegria Breve": «Seria, aliás, edificante, que à aproximação do Natal eu acabasse em cânticos à alegria», desejou-se ele, bem sabendo que visava o impossível. E tanta coisa. «E de na execução da minha vida sem sentido poder dizer como Deus que tudo está bem».
De todos os livros que julgo ter lido, e de que me vou esquecendo até dos títulos, de todos quantos se interiorizavam em mim fazendo o que sou, escolhi este. «Alegria, alegria. Vou pensar com muita força que ela existe e me pegou ao colo. E que eu sorri.»
Bom Natal a todos.
terça-feira, 13 de novembro de 2012
O Príncipe Perfeito
Ia cometendo o erro da precipitação. Talvez pelo mau feitio de ter ficado pela folha aberta a esmo, em plena livraria, e extrapolar que o livro seria, vista aquela página, devassa de intimidades ou revelação de trivialidades.
Afinal, ao chegar ao fim da totalidade da leitura retrato-me. É uma obra comovente. Talvez tivesse feito falta uma revisão que desse ao texto maior extensão em alguns momentos e uma outra ordem na sistematização, evitando a natureza esparsa do que surgem como apontamentos de uma vida.
Mas confesso que a biografia de Rómulo de Carvalho escrita pela sua filha surpreende facetas que me eram absolutamente desconhecidas e que mesmo as suas memórias aos vindouros, recentemente editadas pela Fundação Calouste Gulbenkian não conseguem revelar.
Percebe-se que a auto-contenção do biografado o levaria a, numa escrita que lembra a de Irene Lisboa, não trazer a público pela sua pena aquilo que Cristina Carvalho nos revela numa obra pessoalíssima.
Entende-se agora a angústia existencial de quem não temeu a morte receando, sim, a vida, a que nunca se soube adaptar, percebe-se agora como a meticulosidade era, afinal, a sua relação de ordem com o Universo, através da rotina até no mais insignificante pormenor, a figurar o combate tranquilo contra o Caos que ameaçava desintegrar aquele seu frágil e solitário ser, em constante alquimia de sublimação. Alcanço, agora, em que medida este homem não poderia ter privado com heróis e dos grandes da História rezou que lhes faltava um fecho-éclair, como a Filipe II, ou dos vultos dos idos Descobrimentos se ficou pela malta das naus. Sinto, agora, como após a travessia silenciosa de uma vida ressurgiu como António Gedeão, ele que fora o menino prodígio em poesia.
Pulsa pelo livro a grandeza do que é viver a tragédia da incompletude, a ânsia da perfeição, ele a quem alcunharam, pelo porte, pela estatura moral, "O Príncipe Perfeito", a inocência e a dádiva.
Permitam-me de tudo o poema:Mas confesso que a biografia de Rómulo de Carvalho escrita pela sua filha surpreende facetas que me eram absolutamente desconhecidas e que mesmo as suas memórias aos vindouros, recentemente editadas pela Fundação Calouste Gulbenkian não conseguem revelar.
Percebe-se que a auto-contenção do biografado o levaria a, numa escrita que lembra a de Irene Lisboa, não trazer a público pela sua pena aquilo que Cristina Carvalho nos revela numa obra pessoalíssima.
Entende-se agora a angústia existencial de quem não temeu a morte receando, sim, a vida, a que nunca se soube adaptar, percebe-se agora como a meticulosidade era, afinal, a sua relação de ordem com o Universo, através da rotina até no mais insignificante pormenor, a figurar o combate tranquilo contra o Caos que ameaçava desintegrar aquele seu frágil e solitário ser, em constante alquimia de sublimação. Alcanço, agora, em que medida este homem não poderia ter privado com heróis e dos grandes da História rezou que lhes faltava um fecho-éclair, como a Filipe II, ou dos vultos dos idos Descobrimentos se ficou pela malta das naus. Sinto, agora, como após a travessia silenciosa de uma vida ressurgiu como António Gedeão, ele que fora o menino prodígio em poesia.
Pulsa pelo livro a grandeza do que é viver a tragédia da incompletude, a ânsia da perfeição, ele a quem alcunharam, pelo porte, pela estatura moral, "O Príncipe Perfeito", a inocência e a dádiva.
«Uns olhos que me olharam com demora,
não sei se por amor se caridade,
fizeram-me pensar na morte, e na saudade
que eu sentiria se morresse agora.
E pensei que da vida não teria
nem saudade nem pena de a perder,
mas que em meus olhos mortos guardaria
certas imagens do que pude ver.
Gostei muito da luz. Gostei de vê-la
de todas as maneiras,
da luz do pirilampo à fria luz da estrela,
do fogo dos incêndios à chama das fogueiras.
Gostei muito de a ver quando cintila
na face de um cristal,
quando trespassa, em lâmina tranquila,
a poeirenta névoa de um pinhal,
quando salta, nas águas, em contorções de cobra,
desfeita em pedrarias de lapidado ceptro,
quando incide num prisma e se desdobra
nas sete cores do espectro.
Também gostei do mar. Gostei de vê-lo em fúria
quando galga lambendo o dorso dos navios,
quando afaga em blandícias de cândida luxúria
a pele morna da areia toda eriçada de calafrios.
E também gostei muito do Jardim da Estrela
com os velhos sentados nos bancos ao sol
e a mãe da pequenita a aconchegá-la no carrinho
e a adormecê-la
e as meninas a correrem atrás das pombas
e os meninos a jogarem ao futebol.
A porta do Jardim, no inverno, ao entardecer,
à hora em que as árvores começam a tomar formas estranhas,
gostei muito de ver
erguer-se a névoa azul do fumo das castanhas.
Também gostei de ver, na rua, os pares de namorados
que se julgam sozinhos no meio de toda a gente,
e se amam com os dedos aflitos, entre cruzados,
de olhos postos nos olhos, angustiadamente.
E gostei de ver as laranjas em montes, nos mercados,
e as mulheres a depenarem galinhas e a proferirem palavras
grosseiras,
e os homens a aguentarem e a travarem os grandes camiões pesados,
e os gatos a miarem e a roçarem-se nas pernas das peixeiras.
Mas ... saudade, saudade propriamente,
essa tenaz que aperta o coração
e deixa na garganta um travo adstringente, essa, não.
Saudade, se a tivesse, só de Aquela
que nas flores se anunciou,
se uma saudade alguém pudesse tê-la
do que não se passou.
De Aquela que morreu antes de eu ter nascido,
ou estará por nascer - quem sabe? - ou talvez ande
nalgum atalho deste mundo grande
para lá dos confins do horizonte perdido.
Triste de quem não tem,
na hora que se esfuma,
saudades de ninguém
nem de coisa nenhuma.»
domingo, 28 de outubro de 2012
Um jogo de cartas
Dirão que é o fetiche do voyeurismo, ou o desejo de surpreender nos grandes a minha própria vulgaridade, consolando-me e menosprezando-me um pouco menos, tudo sentimentos dos insuficientes. Mas gosto de ler cartas de vultos da cultura de que conhecemos apenas a sombra das biografias ou a luz da sua obra.
Desta feita consegui ler, em dois fôlegos, aquelas que, a partir de Paris, António José Saraiva, trocou com Luísa da Costa entre 1961 e 1965.
Cartas de um apaixonado pela cultura, a viver a revolta controlada do desprezo a que havia sido votado desde que deixara, exigente, as fileiras de onde surgira o neo-realismo, escrevendo a "António Vale" uma carta que nunca teve resposta.
Cartas de um expatriado, dividido o quotidiano entre o estudo da obra dos Jesuítas e a melhor técnica de lavar pratos com água quente e detergente líquido Lux.
Cartas incertas, mas sempre gratas, atenciosas no estilo e cuidadosas na forma, a pedir desculpa se a caneta com que eram escritas não desse boa caligrafia mas estava à experiência.
Cartas em que se entende quanto este homem pagou pelas polémicas em que se envolveu, a propósito do que escreveu sobre a Inquisição e temas que sabia malditos e quanta falta lhe fez o carinho o núcleo de uma família de que se exilou.
Através delas sente-se ser possível o mundo que nos surge hoje compendiado em livros, assiste-se ao nascer da ideia, ao retorcer-se de uma alma por ela, aos anseios do corpo pela vida.
Quanto a História da Literatura que escreveu a meias com Óscar Lopes, me pareceu, enfim, uma obra de intrínseca humanidade.
É um livro pequeno, magnífico, editado pela Gradiva. Li-o, antes de partir para estes dias de recolhimento, reconstruindo-me naquilo que é o fruto da incapacidade e da incerteza.
Levei dele comigo o espírito que é o que fica quando nos esquecemos do que lemos.
De resto, que é a vida, no seu errante jogo, mais do que ter sido vivida e não o modo como se viveu?
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Je te casse la figure, Paul!
As minhas graves lacunas culturais em matéria de Literatura são no que se refere a autores estrangeiros. Isso deve-se a várias circunstâncias, que eu consiga objectivar.
Primeiro, a preconceitos, que eu sei que é realidade horrível em quem se julga um espírito livre. Mas tenho-os, um deles é haver uma rejeição quase instintiva a ler o que toda a gente, de repente, começou a dizer que leu. Foi por isso que nunca li o Paul Auster.
Depois o preconceito de que os melhores escritores americanos são aqueles que são europeus de mentalidade. E foi por esse motivo que nunca li o Paul Auster.
Enfim, por ter o hábito de, quando gosto de um autor querer comprar e ler a obra completa e não apenas os livros que se assume definirem o melhor da sua escrita, tal é o desejo de querer conhecer também o pior e por isso o escritor em si, e há quem tenha escrito uma estante já difícil de ler no tempo que me resta de vida. Eis porque nunca li o Paul Auster.
Um destes dias encontrei o Diário de Inverno, precisamente do Paul Auster.
Acho que o vira citado num jornal literário. E comecei a ler, em deslumbramento, as «memórias» do Paul Auster.
O deslumbramento nascia da simplicidade da linguagem, porque o Paul Auster é tipicamente americano e das referências ao quotidiano reconhecível na vida de toda a gente e por isso imensa gente se revê ali. Além disso falava dos livros que foi escrevendo quase sem os nomear e dava-me a ilusão de que eu assim iludia o facto de nada ter lido do que era a sua extensa obra.
Estava a resolver-me com ele e contente com isso, como se tivéssemos feito as pazes, reconciliando ressentimentos.
Estava a resolver-me com ele e contente com isso, como se tivéssemos feito as pazes, reconciliando ressentimentos.
Houve então o momento em que, leitura que se estava a tornar vertiginosa ele descrevia, página após página, as casas onde viveu e eu, que ao início achei a ideia um achado, comecei a saturar-me, perguntando-me se não se seria já escrita a metro para satisfazer o voyeurismo do leitor.
Depois vieram os pormenores da mãe alcoólica, da avó que matara o avô a tiro e o arrazoado da tia coscuvilheira e maledicente mais as mulheres com quem dormiu e eu já me perguntava se aquilo não era devassa de intimidades próprias e alheias e exposição das lepras familiares como os pedintes medievais à porta das igrejas.
Foi quando ele entrou na explicação do "esquentamento" que apanhou em jovem e do líquido verde que lhe saía , dolorosamente, pela ponta da "pila", o urinar um ardor, que eu disse «basta». A "pila" do Paulo Auster já vai muito para além dos meus interesses literários.
Felizmente estou quase no fim da breve obra e por isso posse decretar que já li este livro do Paulo Auster.
Perguntei entretanto já não sei a quem porque é ele tão lido e tão falado e disseram-me que, para além do mais, porque é um homem muito bonito e as mulheres adoram a figura e são as mulheres quem hoje mais lê. Terrível isso. Porque um dos meus atavismos absolutamente nascidos do facto de ter nascido no mato, é essa repulsa para que os puxam pelo corpinho para terem valor intelectual ou os cujo valor também resulta disso mesmo, de terem nascido prendados na aparência. E lá se foi o Paul Auster.
Convençam-me que é um grande escritor, que merece ser lido, porque eu agora, com sinceridade, estou em dúvida, e até já com pena do homem, porque pode não ter culpa de ser no que se tornou nem daquela masculinidade morena e de olhar profundo e doce, farto cabelo em banda larga que lhe dão o tom e a pose.
Estou a escrever estas linhas numa madrugada de insónias, os sonos trocados pelo cansaço, e fui dar uma olhadela ainda a umas folhas do livro, para ver se o salvava. Azar: calhei naquelas em que ele descreve as mil e uma coisas que fez com a mão direita. São páginas sobre isso. Desisto.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
O Concerto Interior
Disseram-me da livraria que já o tinham e, regressado do Tribunal, fui buscá-lo. Li-o neste fim de tarde, em ordem arbitrária, apesar de ser uma biografia «evocações de um poeta», detendo-me sobre o que foi a sua vida como advogado - e meu Bastonário na Ordem que é a da minha profissão - e, seguindo, em trilho errático, pelas memórias do tempo vivido, o convívio com a literatura, as raízes da sua família.
«O título devia ser "Breve Autobiografia". Só que dezenas de pessoas, de parentes, animais, bichos, árvores, trabalhadores rurais, que estão dentro dele, disseram já muito do que tinham a dizer». É assim, com este mote como se de São Francisco de Assis que o poeta António Osório abre esta narrativa na primeira pessoa, que acaba por ser singular porque resumida, como se um desfolhar da agenda de uma vida, recordando os prazos e as diligências que deram da vida o ser ao advogado António Osório de Castro.
Vim aqui escrever pelo que me comoveu a referência que faz a sua Mãe, ao publicar-lhe, da intimidade, uma das cartas que escreveu ao marido, desde que faleceu, e que regularmente lhe levava ao cemitério no Alto de São João.
Trata-se da primeira, redigida a 19 de Janeiro de 1968, no seu italiano natal, «um poema sem uma palavra a mais»:
«Caro Miguel
Non posso vivere lontano da te. Più il tempo passa e più sento la tua mancanza, anche nelle minime cose. La mia vita al tuo lato è sata una completa felicità, fra due periodi tormentosi. Quando giovanni, ho sofferto tanto per aspettarti: adesso sofro di pi`perchè sei che aspetti me. A riverdeci, Miguel carissimo La tua Giú».
Se um dia perguntarem o que é o amor, físico e para além dele, o amor integral, intangível e indizível, está aqui, no livro O Concerto Interior.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Agustina: a obra incompleta
As Artes Entre as Letras dedicou largo espaço deste seu último número aos 90 anos de idade de Agutina Bessa-Luís. Autora de tanto livro esgotado, ela que aquilo para que nasceu foi para escrever.
A propósito disso mesmo Isabel Ponce de Leão escreve o que me permito citar pois que sintomático e exemplar: «Quando foi anunciada a publicação da Opera Omnia - edição ne varietur das obras completas de Agustina - pela Guimarães Editores, chancela da Babel, já o acesso a certos volumes era praticamente impossível e, faltando-me alguns, dirigi-me alegremente à editora, no Edifício da Biblioteca Nacional e, avisadamente, comprei e paguei antecipadamente a obra completa que ficou de me ser enviada à medida que os diversos volumes fossem publicados. Corria o ano de 2008 e fui informada que a obra completa seria publicada aproximadamente até 2010, De facto, desde 2010 que não recebo qualquer volume nem satisafção, mas o número de volumes recebidos quedou-se em dez...sendo como é, a obra de Agustina composta por cerca de uma centena de títulos».
O trecho citado dispensa comentários pela corajosa clareza. Fica a questão enunciada e a dúvida em aberto: que irá suceder ao resto da obra, cujos direitos foram adquiridos e corre o risco de não ver, nesta edição, a luz do dia?
No mesmo jornal perguntada sobre «em que que ponto se encontra a reedição da obra completa de Agustina Bessa-Luis?» responde sua filha a escritora Mónica Baldaque: «a retomar em breve.»
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Aparição
Comprar livros que já temos e que julgamos já ter em mais do que um exemplar. Mas comprar porque a capa é encadernada e a encadernação atrai, no caso um esboço de colunas romanas, e tentam sê-lo, no caso as do templo de Diana e o livro é a Aparição de Vergílio Ferreira.
Comprar, mau grado o livro ter-se vulgarizado, tão obrigatório como livro escolar, e correr o risco de se tornar odiado e depois esquecido, apesar de ser do autor o que se tornou mais reconhecível e com ele indissociável porque é a narrativa de um professor, como ele foi, e em Évora, onde ele esteve.
Comprar assim, porque é assim que se mostra aos próprios olhos ser definitivo o primeiro momento, em que a «mão de semeador bíblico» de um dos figurantes do romance me marcou definitivamente a sensibilidade e o livro se me impregnou como uma pele, arrastando consigo a imagem e o símbolo e o modo de expressão e com tudo o que é a grande Literatura e um notável escritor e depois disso acumulei, um a um, o que não consegui ser a obra toda.
«Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro», assim abre o livro. Como neste instante. A memória está apagar-se. Talvez por pressenti-lo comprei ontem o mesmo livro. Sabendo que o tinha. Para que perdurasse a ideia de que o tinha. Não nesta edição que aqui publico, Uma outra. Mais uma edição do mesmo texto.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
O Bem e o Mal
Só a ilusão dos citadinos de que o Portugal dos livros de Camilo Castelo Branco desapareceu, ido o mundo rural, avassaladora que se tornou a sociedade de serviços, é que nos impediria de o ler e com o maior agrado e sobretudo recreação.
Não, aquele mundo subsiste porque traduz a alma portuguesa e o modo de ser de pessoas que ainda hoje reconhecemos, mesmo que expatriados nas cidades.
Podem as classes sociais já não conterem o domínio arrogante dos titulares, cujo "Dom" já era só por si uma fortuna, ou o o clero já não conter aquelas figuras de "reverendos vigários", nomeados pelo Governo, para lugares de pingues côngruas que tornavam o púlpito almejado conforto, ou todos os outros da extensa galeria de vidas feitos actores da narrativa.
Mas, descontadas as roupagens, desconsiderados os intérpretes, as personagens subsistem.
Digo isto ao estar a meio da leitura de O Bem e o Mal, «novela» de amores recusados por serem inconveniências os de filho de carpinteiro com donzela brasonada e da mais antiga estirpe, paixão negada pelos interesses da família, mas abençoada, afinal, pela integridade mural de um cura aldeão, caso, afinal, de humildade vencedora.
Não falarei do livro, não por não ter ainda terminado a leitura, mas porque, lendo seguindo mais o modo de contar a historia do que a história tal como é contada, confundo ainda as sombras das figuras deste magnífico teatro e sobretudo em cada capítulo há uma surpresa que aguarda.
Cito, sim, do prefácio a esta segunda edição, que surgiu na época erroneamente como sendo a terceira: «Foi vagarosa a saída da primeira edição deste livro. É óbvia, e ao mesmo passo, desconsoladora a explicação. A novela não perdeu por mal escrita; mas por mal pensada. Quanto a linguagem, tanto montava o quilate desta como o das suas irmãs. A incorrecção é o castigo de quem escreve muito à pressa para ir acabando mais devagar. Em Portugal é preciso isto».
sábado, 18 de agosto de 2012
A magnificência e a imundície
Estou quase a acabar de ler Os Últimos Dias de Pequim de Pierre Loti. Leio-o na edição da Lello, não a de 1990 sim numa publicada sem data, num exemplar que a alguém pertenceu em 1942.
Livro que relata uma expedição militar do autor à China, enquanto comandante de Marinha, no quadro de uma força militar internacional que invadiu aquele País em nome do combate à guerra dos "boxers", este é uma travessia pelos territórios do sublime e do sórdido, acumula-se por páginas que doem ao ler pelo relato descarnado da violência indescritível e bestial e páginas que são devaneio para a sensibilidade ao descreverem, com minúcia e sensibilidade, a milenária China e os seus imutáveis habitantes.
Traduzido pelo seareiro Raúl Proença, é um excelente exemplo daquela Literatura de viagens em que nos sentimentos passageiros, ademais pelos confins viciantes do Oriente.
Tudo começa, sob um céu cheio de estrelas, no mar, a 24 de Setembro de 1900, o navio a ter feito cinco mil léguas, «quase sem respirar, dando constantemente, por minuto, quarenta e oito voltas da sua hélice». Invisíveis as montanhas da Mongólia aguardam-no como limite.
Prepare-se quem ler. Irá cruzar-se com cenas que lhe marcarão a alma, uma narrativa circular, a terminar quando aqueles por causa de cuja ferocidade contra os estrangeiros cristãos foi levada a cabo aquela expedição militar, agora, submissos, numa aparente docilidade, os servem, sobretudo aos franceses.
«Sob a nuvem de carvão de pedra, começam a delinear-se coisas extra-longínquas, só perceptíveis a olhos de marinheiros», diz Loti a anunciar o horizonte. Na amurada, quem lê, afina a vista, preparando-se para saber surpreender sem que a surpresa o atinja primeiro.
O cenário é o de uma guerra de ocupação já sem tiros. A barbárie tinha passado já, carnívora, estorpiando, violando, profanando.
A 3 de Outubro fundeia-se na praia de Ning-Hai: «cossacos, austríacos, alemães, midships ingleses ao lado dos nossos marujos amados; soldadinhos do Japão, espantosos de correcção no seu porte militar, com os seus novos fardamentos à europeia; damas louras, da Cruz Vermelha da Rússia, azafamadas, a desenfardar material de ambulâncias». A mesma Alemanha que em 1870 estivera em conflito aberto com a França une-se-lhe. A política é sem porquê.
Cumprida a missão, Loti regressará em Maio do ano seguinte. Na dedicatória ao Almirante lembra quanto viu mas não esquece os seus homens que, acantonados nos navios, viveram entre a fornalha e a clausura. Convivera com a eternidade, com a magnificência, com a mais rasca imundície. É esta a grandeza da vida para quem a vive na totalidade.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Um desencantado da República
Chegou hoje pelo correio, um livro em formato fascículo, escrito por Machado Santos.
Herói da República, aguentou-se com um grupo de bravos na Rotunda, contribuindo para a inversão das forças que levariam à queda da Monarquia. Filiado na Carbonária, morreria assassinado em 1921. Leia-se sobre ele mais aqui. A sua vida é bem a imagem do gérmen que levaria cinco anos após a sua morte ao Estado Novo.
Desencantado, este seu escrito de 1916 é bem o retrato da desilusão. Editado pela Papelaria e Tipografia Liberty, de Lamas e Franlkin, com loja na Rua do Sacramento, 88-90, nele se relata: «Fizemos o possível para que a República não viesse a transformar-se n'uma roça que fosse propriedade dos seus três grandes caudilhos que a têm administrado em comandita. Infelizmente a morte de Miguel Bombarda e a de Cândido dos Reis, que se lhe seguiu, tudo nos transtornou. A morte e a traição; pois que rendo de se preencher, apenas, as vagas desses homens ilustres, houve quem aquiescesse, sem o nosso consentimento, a alteração profunda que se fez na constituição do primeiro governo da República, que deveria ter sido esta:
Presidência e Interior: Bazílio Teles
Justiça: José de Castro
Fazenda: Inocêncio Camacho
Guerra: Ramos da Costa
Marinha e Colónias: Carlos Cândido dos Reis
Negócios Estrangeiros: Miguel Bombarda
Obras Públicas: António José de Almeida».
Como se sabe o primeiro governo provisório da República ficaria assim formado:
Presidência: Teófilo Braga
Interior: António José de Almeida
Justiça e Cultos: Afonso Costa
Finanças: Basílio Teles, uns dias depois substituído por José Relvas
Estrangeiros: Bernardino Machado
Fomento: António Luís Gomes
Guerra: António Xavier Correia Barreto
Marinha: Amaro de Azevedo Gomes
«Com um governo assim constituído n'uma situação tão anormal fatalmente havia de passar para a rua a anarquia que lavrava nos espíritos», conclui o autor.
sábado, 11 de agosto de 2012
Memórias do Cárcere
Encontrei-o! Na Livraria Esperança no Funchal. Depois de ter tentado em vão em outros lugares. Depois de o meu amigo Abel ter procurado encontrá-lo para me obsequiar com ele: o livro As Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos, livro inconcluso, originariamente editado por José Olympo, em 1953. Ficaram-me os olhos no exemplares da edição da Caminho, encadernados, em bom papel, letra mais legível, mas a diferença do custo para os que a Europa América editou era significativa.
Doeu-me ter hesitado por causa do preço e ter-me conformado com o mais barato, como quem dá consigo a uma esquina, mão estendida, a pedir livros. Mas há um momento em que tem de ser o bom senso a imperar, ou o conformismo revoltante.
Regressado, deixei-os em Lisboa, aos dois volumes, mais dois outros do mesmo magnífico autor. Esgotara já o que estava também na estante, o Vidas Secas, alcançados estes trepado num escadote. Na viagem li apenas o prefácio, de uma coragem e sensibilidade invulgares. De uma honradez que é exemplo.
domingo, 29 de julho de 2012
Ímpia piedade
Não o conhecia. Há quem tenha pudor em admitir realidades destas. Não é o meu caso. Só tardiamente ganhei cultura literária. Tenho lacunas imperdoáveis. Mesmo falando-se de Henry de Monteherlant, da Academia Francesa, sobre o qual há imenso escrito [veja-se aqui e aqui] e uma latente polémica em torno dos seus amores sobretudo quando homossexuais e do que exprimiu sobre o feminino. E, no entanto, sem grosseria. A elegância pode ser escandalosa quando doce.
Li a passada semana, Piedade para as Mulheres, volume da tetralogia Les jeunes filles. Chegou-me oferecido inesperadamente, dado por quem o tinha que é a forma mais generosa de dar.
O romance é prodigioso na técnica literária, somando a narrativa em que a personagem e o autor se intrometem, o primeiro como figura central da descrição, a que dá voz, o segundo com ele contracenando e por vezes desmentindo-o ou rectificando-o, e tudo em justaposição com cartas, excertos de diário e apontamentos breves que surgem, como se não vindo ao caso, a dar ao conjunto a força apelativa da surpresa permanente.
Filosofia misógina, dir-se-ia naquela forma redutora como estas questões são normalmente tratadas quando não canónicas, com decaídas de vulgaridade é certo, mas a fazer, no entanto, esperas constantes ao leitor, tornando-o presa do que é a notável argúcia na observação e a fina complexidade na avaliação da extraordinária riqueza da vida. Ainda que discutível, mesmo a não resistir à revisão do que se sublinhou.
Livro sobre o amor e seus demónios, sobe vertiginosamente da dorida luxúria à alegria sádica, vítima e algoz a confundirem-se, bem e mal a tornarem-se indistintos, mundo do «em quem confiaríamos se não confiássemos nos que não conhecemos?», paradoxo moral cuja periculosidade é, afinal, uma das chaves da compreensão desta obra, em que, parafraseando se «torna o amador na coisa amada».
Biográfico, numa desconfortável medida porque oculta, história em que o desamor pelas mulheres irrompe travestido em mal-entendido ressentido, em que o ser-se contra a natureza por ser-se contra os costumes se torna apenas como uma das muitas máscaras de reserva de um autor que se esconde e demonstra com igual convicção e falta de sinceridade.
Final vulgar, reles mesmo, como que a assinalar, em despejos, o pantagruélico festim, exauridas as possibilidades até ao momento em que, como nos Evangelhos, o homem: «mulher, o que há entre mim e ti?». Vazio, nada, o zero apto à esperança do recomeço. «Um escritor digno desse nome é sempre um monstro». Montherlant, sátiro, dixit.
O passageiro do navio do nunca
Li-o e sempre a compará-lo com Wenceslau de Moraes. Não conseguiu, como este, florescer no jardim da sua alma a cultura oriental, talvez porque aquele teve o privilégio de rumar da China ao Japão e colher do perfume floral do sentir a verdadeira essência. Também não alcançou aquele vértice de despojamento errante, temível de grandeza mesmo quando a roçar a miséria.
Camilo Pessanha esgotou-se numa obra sem ter querido escrevê-la enquanto livro, a Clepsidra. Tudo o mais não lhe sobejou, dizimado por um filho desprezado, pelo seu esvaimento em vida, pela displicência com que sobrevivia ante o materialismo necessário dos cargos públicos de que pouco fruia.
António Dias Miguel encontrou-lhe o rasto, buscando-o aos primórdios por Lamego, menino, ele que não se lembrava de ter tido infância, e seguiu-lhe até ao rastejar moribundo, trazido à luz pela ilusão do ópio, vivendo entre o ambiente confuso e mal arrumado de uma quarto onde se confinava, qual junco «do incessante naufrágio que tem sido a minha pobre vida», passageiro de bordo de um navio que gostaria fosse sem destino «a não chegar ao meu sítio nunca».
Europeu por natureza, expatriado por necessidade, sabia que «os ossos, mesquinhos, ai de mim! esses pertencem, por um destino invencível e absurdo, ao chão antipático do exílio».
O seu espólio encontra-se na Biblioteca Nacional [ver, por exemplo, aqui]. O possível.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
A simplicidade de Deus
Abre grandiloquente e depois, um pouco a seguir ao meio do primeiro volume, dilui-se na intriga da pequena política e seus actores. Por momentos a escrita tenta aí erguer-se, em voo largo, mas falta-lhe asa e logo baixa ao rasteiro do comentário por vezes brejeiro. Surpreender-se-à aí El-Rei Dom Carlos, na vertente que o perdeu, fulminado como o «caçador Simão» pela pena então iconoclasta de Guerra Junqueiro, com ele a Monaquia agonizante, entre a Parada e a alcova alcovitada, o espectro do regicídio no horizonte, os partidos fracturando-se e com eles a Nação.
São as Memórias de Raul Brandão. Leio-as, e no seu pórtico a retumbância: «Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho poído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra».
Que dizer dessa portentosa escrita, vivida naquela «época horrível», de um horror «porque já não cremos e não cremos ainda», de uma História que «tanto se faz com a verdade como com a mentira»? São crónicas do Passeio Público e da Feira das Vaidades, e retratos burlescos, de gente que hoje são vultos informes, como «o Schwalbach, sempre aflito e sempre despreocupado», ainda do Eça, que «usou toda a vida bentinhos ao pescoço», o Ramalho melhor definido como «um pinheiro com uma melancia em cima».
Sim, isso tudo mas também geniais momentos, arrancados ao peito onde se esconde a piedade amorosa, sobre o Gomes Leal e o Fialho, sobre a penúria e a compulsão, este «um doente com inveja das doenças dos outros», «dilacerando dilacerando-se», aquele «encolhido e friorento», carcomido pela necessidade e, no entanto, voraz ante a vida, e Fernandes Tomaz, «outro homem adorável que morre, mas felizmente não sabe que morre».
Escrevo esta noite. E esta última frase solta-se como uma tristeza que vogasse, errática, pela sala vazia onde me surge. E penso com ele: «Deus é muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me - não o sei explicar».
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Viajando com a Justiça na mala
Há muitos Advogados escritores. Quanto à maioria a escrita acabou por devorar a advocacia, tida por indigesta. É o caso de Alçada Baptista, ou mais recente Graça Moura, ou mais antigo Rodrigues Miguéis.
A vida forense dá material humano, cenário, contexto e pretexto para a escrita. Depois, quando se é Advogado, escreve-se como se defende uma causa. É assim o livro de Francisco Teixeira da Mota sobre Henrique Galvão [ou permita-se a referência pessoal] a minha biografia de Rogério de Menezes.
Numa viagem de comboio li o que já trazia há semanas para ler, o pequeno livro de crónicas de Rui Patrício.
O autor tem rasgo para a observação, o olhar atento, mesmo quando oblíquo, sobretudo quando sobre a invulgaridade, como ao escrever sobre a linha serpentina da beleza. E tem estilo literário para contar, criando no leitor a ilusão do local e tornando a leitura um desfolhar.
"Mapa-Múndi" da Justiça [e o acento deve-se ao facto de a expressão estar aportuguesada porque no latim mapa dobrava o p e inexistem acentos] tem talvez de desnecessário a super-abundância de lugares exóticos, a gerar a pergunta, que o próprio assumiu como sendo a óbvia, sobre se ele teria de facto estado em tantos lugares quantos aqueles. E poderia ter evitado a menção pessoal à presença em tantos hotéis de cinco estrelas. É que, se bem que em época de crise as pessoas gostem de fantasiar o luxo que não têm, e assim era lido Graham Greene nos tempos duros do Guerra, descrevendo iguarias e locais se não sumptuosos ao menos aprazíveis, na época que todos sofremos duvido que isso gere aproximação, fomentando talvez distância.
Li o livro do fim para o princípio e do princípio para o fim. Quando se aproximava a terra de ninguém do meio da obra reconhecia que no panorama tão generalizado de incultura, em que há quem faça gáudio em proclamar que, por causa da profissão, há anos que não lê um livro que não seja jurídico, ainda há oásis de diferença.
Um livro não faz um escritor. A crónica é um exercício. Escrever breve é uma arte. Nisso o autor tem de trabalhar a escrita. Os livros de viagens são uma espécie difícil porque há o lado feio que o Guia Michelin evita.
domingo, 3 de junho de 2012
Ode em viagem
Métrica irregular, exaltação sentimental, está na ode a odisseia e o clamor, a turba coral, o ser e tudo quanto é. Não é um declamar mas um gritar, não o grito mas o coro da revolta. É sobretudo o homem soerguer-se em nome de toda a sua humanidade.
Lemo-lo e torna-se impossível não encontrar ecos nossos de um Pessoa, a irmandade com um Almada, ou nele não surpreender a desordem clamorosa de um Ezra Pound.
Falo hoje da Ode em Viagem, a sua edição de Março deste ano, editada pela Livros do Mundo.
Falo, porque decorreu o tempo em que a li, lendo em alta voz, para ser ouvido e fazendo respirar no meu ser a insuflada declamação, porque exausto, enfim, o esgotamento do grande final, o pico extático em que «terra à vista!» se toca o chão, «suave e frágil, como não haver destino» e onde «tudo está certo».
Deixem-me dizer que Fernando Cabrita é tanto mais excelente quanto mais se afasta da óbvia referência ao reconhecível pelo conhecimento e voa, poeta alado, pelo mundo simbólico das menções significativas intuíveis pela sensação.
E excelente quanto mais se sente no seu coração de leão não o homem transitório do que é precário, ainda que português, mas o pulsar das dores, aflições e risos em clímax de todos quantos ecoamos na sua voz, no mais, emudecidos ante o eco.
Poema de argonauta, herdeiro dos tempos corajosos do que foi a procela marítima que nos levou às Índias da maravilha, ou a eternamente ficar no cais da saudade, um volante a rodar, alucinado, dentro de nós, a mala eternamente por fazer, é ele hoje, neste poema, sonho fantástico e loucura de imaginação, comandante e equipagem, passageiros e viagem, rota e destino nessa magnífica ave mecânica que se auto-sustenta sobre os céus «vogando etéreo como um cometa sem idade», ah «ó aviões que partem para toda a parte e para parte nenhuma!», nave que «desliza no meu sonho, entre sonhos que se vão».
Sobre tudo quanto existe e sobre tudo quanto poderia existir «tudo morre de novo, instante a instante, e de novo renasce, em ressureição vivaz, e zumbem conversas, e entrechocam-se passagens, e ouvem-se línguas diversas e diversas vaidade».
Magnífico! Magnífico! Viva!
Fernando Cabrita, advogado por acidente momentâneo, poeta por definitividade, viva! Entre a «fuzilaria de sons inúteis e de invisíveis silêncios» a tua voz troveja, agigantando-se em poema!
quinta-feira, 31 de maio de 2012
O território do Amor
Eterna como o acto de escrever ou o acto de contar para os que não sabem escrever, a narrativa do Amor, é a expressão mais lídima da Literatura. Porque nela se joga a totalidade do Homem, o carnal ser e a inexplicável alma. Porque nela se cruzam as miríades de acasos de cujo fruto surge a existência. Porque ela é, afinal, a História da Humanidade.
Há seguramente romances de ideias, poemas sobre sensações, relatos de epopeias. Mas o que são os primeiros se não a exteriorização fria de um sentir cristalizado? O que são os segundos do que condensações miríficas de um extenso e intenso viver? O que são estas últimas do que a toada da paixão, heróica, guerreira, contos de sedução, conquista e despojamento?
Lembrei tudo isto ao ter encerrado esta manhã a Noite Bengali, o romance de Mircea Eliade, que pressinto auto-biográfico. Escrito em 1933.
O livro enleia-se com o leitor, num amplexo que lentamente o envolve, docemente ingénuo no princípio, o que se conta como se saído, balbuciante, dos lábios da inocência. Depois são todas as idades pelas quais o homem se faz homem, o surgir do desejo no território da contemplação.
Através do cerimonial do encantamento, Maitreyi incensa, como um perfume essencial, o espírito imaturo de um europeu, prático mesmo que sensível, incerto nas suas convicções de cristão e de homem branco, povoa-lhe, como uma hipnose os murmúrios do seu sentir até ali esvaziado em trivialidades, fere-o até que a dor não doa, a capacidade de a carne desejar a sua carne, um corpo atrair-se por outro corpo.
Romance de amor em meio hostil, está nele presente o território racial da Índia e sua brutalidade, o horizonte da sua ancestralidade, ainda que incompreensível. Mas é sobretudo um romance sobre a ilusão enovelante da paixão, os rasgões do ciúme no coração, a busca dos Himalaias do Absoluto a tornar-se uma caricatura grotesca pelo desastre quotidiano no Ganges do relativo.
Só talvez em alfarrabistas se encontre a obra. Nem sei se aí. Lia-a. Aos poucos tenho reunido muito do que o seu autor escreveu, no âmbito da História das Religiões, das Filosofias Orientais, do Esoterismo. Sinto-o como um vizinho por ter vivido aqui perto de mim. Está morto e nós ainda não. Ao lê-lo trazemo-lo à vida. Entre os que tudo avaliam pela política uns odiá-lo-ão como a Ezra Pound, rendidos, porém, à secreta confissão darendição ante a genialidade. É este o local próprio para aferir do génio quando se perde pela floresta do Amor, noctívago, sonhador, e nos conta como foi. Mansamente.
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