domingo, 23 de abril de 2017

Almada, o africano


Levei-o esta manhã porque está aqui perto, na Gulbenkian do seu Despertar, a exposição sobre o José de Almada Negreiros, a qual eu ainda acabo por perder ao ser um impaciente de personalidade incompatível com filas e multidões e, a somar, com o que surge - ainda que excepcional em qualidade - com o rótulo elitista de evento "imperdível" colado ao facto pelos polícias do bom-gosto.
Não fui mas irei à exposição e até comprei já o catálogo e, como contra-peso, dois lápis alusivos, aliás de má grafite, coisa que me arrasa os nervos, embirrento que sou com essas pequenas coisas que se me tornam enormes em efeito, sobretudo quando a escrita dá em invisível no papel, cinzenta em vez de negra.
Mas, como dizia, levei o livro comigo e estive a lê-lo, aos excertos, os capítulos sem ordem, os mais imediatos sobre o filho José primeiro, porque o livro trata do pai, e do seu outro filho António que se tornou militar e depois entrou no comércio da emigração, e por isso terminou rico porque assim casado.
Não posso dizer que não gostei de uma obra que me levou a uma São Tomé dos finais do século XIX e, assim, às reminiscências da minha origem, pois meu pai por ali deambulou umas dezenas de anos depois. Nomes como a "Roça Saudade", onde «o menino com olhos de gigante» nasceu a 7 de Abril de 1893, antes de ser «transplantado para Lisboa» dois anos depois, ficando órfão de mãe um anos depois disso, fazem eco. 
Ela tenta convencer, citando um verso comovido e beato, que o pai «Almada Negreiros amava o filho»; mas não deixa de ser sintomático que, como o autor reconhece, José de Almada nem uma só vez se lembrou, na sua obra, dos nomes dos seus pais - António Lobo e Elvira Freire Sobral. Todavia não esqueceu o seu irmão António ao qual dedicou, expressamente, o mais significativos dos seus poemas - Histoire du Portugal par Coeur - quando ele, militar, se encontrava no Mosteiro da Batalha, em 1920».
Educado, como durante algum tempo seu irmão, no Colégio de Campolide, da Companhia de Jesus, dali não saía, nem de férias. Dizem que a reclusão o ensinou a desenhar. «Pintar é falar consigo mesmo para que alguém nos entenda: monólogo do pintor», escreveria.
Um ponto final: escrita em 1975, em pleno fulgor revolucionário, a obra hoje lida tem disso pegadas. Assim, a propósito de um longo poema que o pai Almada escreveu - prudentemente sob o pseudónimo de João Alegre - intitulado Senhor, Pão!, em que, a pretexto do centenário da Índia, fazia um diatribe contra a política colonial e sobretudo contra os que das colónias se aproveitavam, o autor intitula o capítulo respectivo como «Do administrador colonialista ao democrata antifascista». Ora "fascismo" em 1897 é obra!
Mas, enfim, já no preâmbulo ao livro consta [página 14] que «Almada [agora o filho] recusou-se sempre a alinhar com o fascismo e o colonialismo».
África, isso é interessante, é, aliás, uma ausência na sua obra. O livro tenta mostrar o contrário. A dialética talvez ajude.

sábado, 10 de dezembro de 2016

A conversão dos pretos...


O folheto intitulava-se Missões de Angola e Congo. O exemplar que encontrei já era o n.º 5 do ano XXI, 1941. Tinha redacção no Porto na Rua Nova do Regado, 250. Era seu Director e Editor o Padre José Maria Figueiredo. Encontrei-o hoje também no meu passeio entre alfarrábios.
Neste número abria com carta de D. Moysés Alves de Pinho. Mas o interessante achei-o já quase a findar o breve e agora amarelecido fólio, uma outra carta do referido cura dirigida aos seus leitores a propósito da Associação de Nossa Senhora de África, para a «conversão dos pretos» e da actividades dos seus «zeladores». Noticiava-se a inscrição do menino Manuel Simões Delfino, de Faro; e mais se relatava a infrene acção da menina Maria Manuela Branco Rezende, que mau grado a sua jovem idade de 12 anos, criara um centro onde congregara 27 associados e levara uma outra companheira, a menina Maria Emília Amorim Mendes da Silva Matos, a abrir centro também, mas em Vila Nova de Gaia. 

Curioso, a propósito, o queixume que, sob o título «Miséria Dourada», o Boletim exarava na página dedicada ao Noticiário das Missões: «(...) o número de sacerdotes em todo o território português de África (Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné) é de 274». Por contraste, segundo a mesma notícia, só a Arquidiocese de Braga contava com...872 (620 párocos) seculares, sem contar com os religiosos que ali trabalham». Elucidativo.

Nada dizendo ou não comparecendo, diz sim!


Encontrei-o esta manhã, entre facturas, bilhetes, cartas íntimas e comerciais, num alfarrabista de rua. Tinha ouvido falar nele, lera, com dezassete anos, caloiro na Faculdade de Direito, livros que a ele se referiam: o boletim pelo qual votou a Constituição de 1933. E agora ali estava, amarrotado, entre minudências.
Sujeita a sufrágio no dia 19 de Março de 1933, um Domingo, a Constituição de 1933, foi, seguindo o Decreto n.º 22229, de 21 de Fevereiro [o texto está aqui], plebiscitada através de uma fórmula curiosa:


O projecto submetido à votação pode ser encontrado aqui
Contados os votos foram apurados os seguintes resultados: O texto constitucional obteve 719 364 votos a favor, 5995 contra e 487 364 abstenções. 
Para se votar contra não era necessário escrever: não. Imagine-se no momento da votação alguém ter de pegar numa caneta e escrever: «não»! A intimidação que este sistema, imposto pelo § único do artigo 22º do Decreto acima citado, conseguia era bastante para adulterar os resultados. 




segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Dr. Fischer e Franz Schubert

Foi neste blog, no dia 13 de Julho de 2005 que comecei a escrever sobre livros, os que lia, os que gostaria de ler. Depois criei um outro espaço que é parte do meu nome, pois chama-se António Rebelo da Silva e está aqui e um outro, intitulado A Fantástica Livraria, que se encontra aqui, dedicado ao que encontro pelos alfarrabistas. Tudo sem regularidade, sem ordem, à mercê das circunstâncias. E tantas foram.
Neste em que hoje volto a escrever, tirando-do do mutismo em que se encontra desde 2011, não havia imagens sem haverá. Apenas letras, aquelas que são as que vejo nos livros que acumulo na ânsia de os concluir ou ao menos iniciar, letras que aprendi a juntar na escola primária, começando antes dela pela Cartilha Maternal de João de Deus. 
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Volto pois, com um livro que comecei a ler numa viagem de avião, precisamente a Genève, onde está inumado, por ali ter vivido os momentos finais da sua vida,  Jorge Luis Borges, leitura que terminei há semanas e guardei porque queria deixar em qualquer lugar uma nota de leitura. 
De tudo quanto escreveu Graham Greene, Dr. Fischer of Geneva or the Bomb Party é talvez das suas obras menos citadas, talvez por ter sido escrito numa lógica de ressentimento ditada por razões pessoais, expressão de desprezo e rancor em que só a generosidade de um dos seus biógrafos e amigo, o Padre Leopoldo Durán encontrou algo de tão insólito quanto semelhança com os Moments Musicaux de Franz Schubert [que se podem ouvir aqui numa interpretação de Alfred Brendel]. E por ser, é o que penso, uma obra com menos valia literária.
Não interessa a história da personagem que nos surge como tradutor de línguas latinas - duas das cartas que traduz são aliás em português - a quem o blitz da Luftwaffe - que o autor tão bem conheceu - amputou, na fatídica noite de Dezembro de 1940, a mão esquerda, ou o seu enamoramento e vida conjugal com a filha do dono da fábrica de chocolates e seu patrão, Dr. Fischer. 
Importa já a medida em que as festas destas, parties pomposos, faustosos, eram pretextos mais do que para a corrupção pelo que a cada convidado calhava a final como obséquio, mas sobretudo para o rebaixamento dos que assim eram obsequiados e de quem Dr. Fischer, o vil anfitrião, poderia, enfim, gozar o sórdido prazer da dominação. 
E talvez importe aquilo em que muitos dos que leram a obra se concentraram - a festa final, roleta russa em que - pobre artifício literário para a grandeza do escritor - as oferendas estavam escondidas em invólucros que supostamente continham uma bomba pelo que, a ganância era, enfim, jogar no precipício do risco a própria vida.
Abundam nesta novela resquícios das obsessões do autor de The End of the Affair, a angústia religiosa, a pulsão sexual, o problema dual do mal e do bem. E a questão da felicidade, que é para si como uma das remotas ilhas do Pacífico, que nenhum cartógrafo anotou e submergem sem que delas fique vestígio e nenhum marinheiro que as haja avistado está seguro de não ter assim acontecido apenas na sua imaginação.

terça-feira, 28 de junho de 2016

António Alçada Baptista: a cor dos dias


Editou e foi editado. Graças a ele tantos escritores puderam sê-lo. Hoje quase o esquecemos. Militou pela sua fé religiosa. Fez da ficção forma de viver a vida. Com a finura do bom-humor, mãe da educação. Nasceu em 1927.


Também ele advogado, envolveu-se de tal modo na escrita que procurou, generosamente, não fosse a sua mas a de outros que tivesse voz. Criou para tanto uma editora, a Moraes, a quem tantos autores devem ter leitores, sobretudo os do “Círculo de Poesia”, deserdados que chegaram ao público através daquela colecção, produzida em “arte povera”, num papel que normalmente se diria afecto, no comércio, ao embrulho de víveres baratos, mas belíssimos no efeito estético e no símbolo que traduziam.
Gastou nisso quanto tinha e, já ultrapassado o limite da prudência, o que não tinha, comprometendo junto da banca, para obter crédito, o seu aval pessoal. Endividado, sem meios já para solver compromissos, teve de encerrar a editora. Numa das suas crónicas relata o pesaroso de uma senhora que quase o admoestava por ter fechado portas àquele seu projecto editorial e a quem teria retorquido, na forma de uma pergunta, sobre se a recalcitrante interlocutora tinha, vez alguma que possa, comprado qualquer livro na agora extinta Moraes. A resposta foi a que se adivinha, um nunca comprei, de facto. E assim se compreendia o porquê de não ter possível aguentar mais.
O seu envolvimento com a edição não se limitou aos livros. Graças ao seu esforço e aos meios que entusiasticamente mobilizou para tal propósito, ganharam luz do dia revistas como “O Tempo e o Modo” e a “Concilium”. Através delas, um pensamento crítico, socialmente empenhado, espiritualmente angustiado, encontrou expressão, numa cruzada de proselitismo religioso através do humanismo cristão. Resumindo o que foi esse caminho entre as pedras, João Bénard da Costa daria título a um pequeno opúsculo a que chamou “Nós, os vencidos do catolicismo”: viveram, de facto, entre uma Igreja oficial, apostólica romana e uma esquerda jacobina, irreligiosa quando não ateia, seguindo no domínio filosófico o personalismo cristão de um Jenn-Marie Domenach e de Emmanuel Mounier, as pegadas, afinal dos que eram o corpo redactorial da revista francesa “Esprit”. O Concílio Vaticano II era o seu guia, o pequeno espaço no Largo do Picadeiro, mesmo ao lado da famigerada PIDE, a sua tertúlia de moderada oposição.
Em 1968 Francisco da Conceição Espadinha, da Editorial Presença, abria-lhe as portas para os primeiros passos no domínio da ficção e da crónica ficcionada.
E é aqui que se situa o livro que escolhi para esta semana.
Curiosamente na vertente deste tipo de escrita Alçada Baptista tem um estilo bem diverso daquele que caracterizou outras obras suas, como as “Conversas com Marcelo Caetano” – que lhe valeu não pouca incompreensão da parte de uma certa esquerda política - ou a “Peregrinação Interior” onde lança as suas reflexões existenciais em torno do problema da transcendência e do sentido da vida. Aluno dos jesuítas, estudante em São Fiel, essa origem haveria de marcar-lhe todo o percurso, mesmo quando temperado com a jovialidade do seu modo social de ser.
No caso deste são crónicas, escorreitas, risonhas, que se lê com gosto e são impossíveis de resumir. Narrativas de memórias, próprias e alheias, coisas de ter ouvido dizer, apontamentos, tudo solto, mas em cada uma com um ponto discreto a deixar caminho para uma, como a “moral da história”, dos antigos contos infantis.
Classificando os escritores como os de memória e os de imaginação, colocava nestes os que não tinham vivido a vida e, por isso, se entroncava o entre os segundos. Viveu-a, e como confessou a Miguel Sousa Tavares, sem ter inimigos, «porque ter inimigos dá muito trabalho”, surpreendido com a “preguiça ostensiva” de uma África para si tão sedutora, terra onde não achou colonizadores sim emigrantes. E escreveu bem sabendo que «a literatura que me interessa está na área do prazer, não do saber e de maneira nenhuma do dever»; e sobretudo, não tendo pudor em partilhar uma conversa que manteve com um seu privilegiado leitor que, gostando muito dos seus livros, lhe introduziu ressalva ao gosto: «gosto, porém, o senhor escreve-os do lado dos ricos e eu leio-os do lado dos pobres».
Só um homem honrado o diz publicamente e é essa honradez que marcou o seu legado. Isso e dedicação aos outros. Num mundo de egoísmo galopante é exemplo e moral, antes de ser literatura.

sábado, 28 de maio de 2016

O Natal do Clandestino


Um pequeno opúsculo. Trouxe-o comigo e sobre ele escrevo nesta viagem em comboio. Hoje sexta-feira fecha-se no jornal a edição. Li-o há muitos anos. História de emigrante pobre, afinal a de tantos portugueses com que Portugal enriqueceu mundo.


O número de advogados que, saturados da profissão, procurou exílio na Literatura é imenso; aqueles que a exerceram com empenho e entusiasmo lançaram nos seus livros muita dessa vivência humana que lhes foi dada experimentar, tal como aqueles que foram médicos e conheceram do ser humano as chagas do corpo, os advogados partilharam as dores da alma.

José Rodrigues Miguéis teve breve experiência como advogado no seu modesto escritório na Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa, mas a suficiente para ter compreendido que aquele não era o seu mundo, ademais enredado em pequenos casos de litígios comerciais, enfadonhos e rotineiros, uma secura do seu espírito vocacionado para outros horizontes. E para outras paragens, pois cedo sentiu o apelo da emigração até porque, republicano e democrata, incompatibilizado com o regime político que nos era dado viver em Portugal nesses tempos de ditadura política e de asfixia da liberdade de expressão.

Exilou-se, pois, nos Estados Unidos da América, onde seguiria uma rica experiência de escritor e de professor. Escrita essa hoje tão esquecida, mas cuja natureza poliédrica e sentida merecia bem melhor sorte.

Trago hoje o que imagino ser uma raridade, pequeno conto de sua autoria, publicado em 1957 pela editora Estúdios Cor, sob cuja chancela tantos dos seus livros saíram, e onde José Saramago iniciaria, dois anos depois, a sua vida literária como funcionário, antes de se lançar ele próprio na escrita que lhe traria, já no final da vida, o Prémio Nobel da Literatura.

O livrinho traduz a experiência americana de Miguéis, que se radicara nos States desde 1935. E evidencia-a na pele de um emigrante pobre cuja viagem para o Novo Mundo é surpreendida por uma das épocas do ano mais nostálgicas para quem está triste e longe de casa, o Natal.

Enriquecido com desenhos de Bernardo Marques, O Natal do Clandestino traz na capa, como se efígie fosse, a imagem do pobre recém-chegado das suas berças, o saco dos poucos haveres enrodilhado na mão e, sobre ele agigantada, a longa mão da autoridade, na forma de um polícia americano, farda imponente e capa sobre os ombros, a simbolizar a chuva, a intempérie, o desconforto.

«Em nós o homem mata o escritor», dissera o autor numa frase que Nataniel Costa lembra num breve prefácio. Nataniel, director literário da editora, que convidaria Saramago para o seu lugar para se dedicar à actividade diplomática. A inversa não é, porém, verdadeira e a escrita de Miguéis mostra-o bem, ao abarcar na paisagem social e dimensão existencial do ser humano, as suas esperanças e desesperos, as ilusões e os fracassos.

E assim surpreende a chegada a Baltimore de um velho navio, gasto e ferrugento, «uma dessas ruínas obscuras que singram vagarosamente os mares do mundo», velho cargueiro «esgalgado», e a bordo dele «um passageiro de que não rezavam os livros de navegação, um só, que não pagara a passagem, entregue aos cuidados cúmplices de um ou dois marinheiros».

Assim fugiam em busca do pão, clandestinos, tantos portugueses, como outros a “salto” pela linha raiana, que não há fronteiras que tolham quando se busca o pão que mata a fome, própria e a dos seus.

Narrativa sobre a marginalidade, sobre os homens que viviam à margem da lei, pobres socorridos por pobres, a própria tripulação do navio andrajosa, escravizada ao porão enegrecido do lugre, território onde «a solidariedade é outra lei sagrada entre os homens que vivem à margem da vida», há nela o contraste, tão típico naquela literatura de intervenção social entre quantos tudo têm e aqueles outros para quem, «homens que rastejam à superfície do globo e da vida, não há outro refúgio se não esse, ou uma cama de aluguer ou uns braços de empréstimo».

História de quem chega ao seu destino escondido na vileza clandestina, mal armado sequer de manhas que lhe permitam enfrentar a autoridade, a lei, privados de tudo, do dinheiro à documentação, incapazes até de falar um rude inglês, defendidos pelo estribilho «não ispique inglishe», eles são, força bruta e animal de carga, um e mais um que chegam, a afeitarem-se, serviçais, a qualquer trabalho que traga sustento e amealhar porque bocas famintas deles esperam que regressem um dia e antes deles as suas remessas de dinheiro e logo que possível umas mal amanhadas linhas que «nós por cá todos bem».

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Texto publicado na coluna Ler em Português no jornal Mundo Português, um semanário dedicado à emigração.

sábado, 23 de abril de 2016

Fernando Namora: retalhos de um povo


Muitos médicos dão em escritores. O drama humano é o seu quotidiano, ou pode sê-lo se à profissão juntarem sensibilidade de alma para os que sofrem e para a vida de onde provêm. No caso de Fernando Namora a isso somou ter iniciado carreira pelo interior do País. A sua escrita traduz crises de existência, as contradições de classe que soube exprimir com sinceridade.


Ao reler Fernando Namora com os olhos de quem sabe, pela aura que em torno de si se criou, espera-se ver literatura crítica para com os poderosos, condoída pelos humildes. E terá alcançado essa posição em algumas das suas obras, não propriamente nesta, que escolhi como tema de crónica.

Lidos com os olhos actualizados, comparados com quanto foi escrito por muitos seus camaradas das letras, estes contos, editados em 1949, são manifestação integral de um homem que ainda não encontrou equilíbrio entre a vida coimbrã de onde proveio, misto de boémia e Arte, e as asperezas do mundo, sovado e iletrado, para o qual se lançou no exercício da sua clínica.

Oriundo de uma família de modestos recursos, natural da aldeia de Monsanto, Fernando Gonçalves Namora soube trazer para a Literatura, porque o reconhecia como seu, tal como Vergílio Ferreira, o vocabulário rural que faz com que, os mais snobes considerem esta escrita como “regionalista” e assim a tentem apoucar, como tentaram com gigantes como Camilo ou Aquilino Ribeiro.

Mas não é isso que importa, nem isso que o ultrapassa mesmo num mundo de hoje em que há cada vez mais que fale com menos palavras do dicionário. O interessante é a crueza, crueldade mesmo da sua verdade.

O médico que ele ali relata, que um leitor segue como sendo o próprio autor que pela ficção escrevesse a sua autobiografia, é um ser que assume amiúde facetas detestáveis. É o domínio do mando, o médico que «se sentia feliz por dispor dos receios ou das lamúrias dos camponeses», o dono da vida e dono da morte.

Autoridade e soberba, diga-se, que sabe quanto isso concita de desprezo, logo o do funcionário de justiça, por exemplo, para quem «nós médicos éramos uns porcalhões, uns tipos endurecidos. Gostávamos de remexer em imundícies», mas desprezo afinal também o dos que a sua prática médica não convencia, antes de não curar. 

Mundo cão, mesmo o seu, profissional, é caldeirão de rancores, vilezas, intrigas, embora o que haja ao longo da narrativa, e dite estes sentimentos negativos, seja o pulsar errante de um jovem médico, inseguro ante a doença, presa fácil do meio hostil e que dá de si a pior face: «O médico – escreve – é, na aldeia, um ornamento público, como a igreja, o padre, o bosque de madeiras afamadas», pois «os camponeses vinham ao consultório para admirar a face imberbe do novo médico ou para concretizar desconfianças».

Reciprocando, a personagem dos Retalhos não se coíbe de dar voz, e uma vez mais supomos ser o autor que fala através dele, a um desprezo pelos naturais onde exerce a sua medicina. É o alentejano para quem «o homem do Norte é (…) o galego» porque «quando arribam os ranchos do Norte, já raros, chegam como inimigos», os alentejanos que «dão nabos às vacas, enjoam a hortaliça. Não têm flores, não têm nada de mimoso»; é o pai, de mulher a esvair-se na agonia de um cancro, enxotar os filhos «com a voz e com os pés, como se enxotasse cães»; as mulheres «glutonas da vida alheia», os camponeses «esses labregos atemorizados» ante os quais ele se sentia «feiticeiro medieval», o homem «bexigoso e amulatado», a «ladroeira dos ciganos», que «eram tão nojentos que causavam ânsias».

Não é fácil assim ler Fernando Namora. Primeiro, porque os seus livros caíram no esquecimento, mesmo este que deu um filme de Jorge Brum do Canto, depois porque, quem puder achar um, duvido que não se sinta com este modo, verdadeiro é certo, de viver a vida com todos os demais.

Trata-se, porém, importa sublinhar, de um grande escritor. Momentos há em que a forma de dizer o mostra em alto nível. Quem, de entre tanto vulgar hoje com livro impresso e fama fácil, escreveria: «O vento gania de saudade de outros lugares, molhava-se de chuva e tristeza, e tudo isso, prisão e desespero, escorria também da minha face».

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Texto publicado na coluna Ler em Português no jornal Mundo Português, um semanário dedicado à emigração.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Fernando Assis Pacheco: Trabalhos e Paixões


Chegaram a Portugal pobres, os galegos. Aceitavam os trabalhos mais modestos, mais duros. Mas o seu espírito empreendedor porfiou. Hoje, muitos lugares na restauração, no comércio, na indústria até, têm a sua marca. Fernando Assis Pacheco, jornalista, soube dar-lhes voz, por ser um de entre eles.

O livro lê-se com um sorriso, embora nem tudo nele seja alegre; sucede que a pena do autor consegue captar no ar a alma daquele povo, resistente, carinhoso nos sentimentos e no vocabulário, em que avultam os diminutivos, gente que em tanto se identifica connosco, os portugueses.
O subtítulo da obra dá o mote àquilo de que nele se trata: Benito Prada é o «galego da Província de Ourense, que veio a Portugal ganhar a vida».
Do que li, há muitos anos, ficou-me na memória a frase com que inicia: «Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa em San Bartolomé». Cortada a cabeça do corpo, o Padeiro «chamuscou-o bem chamuscado», pelas duas da manhã «untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado». 
Este arranque, trágico, violento, cómico na sua rudeza primitiva, marca o tom da escrita. E logo o remate, que estoira com um foguete de lágrimas e risos: «”Caramba”, disse o irmão do meio, que admirava todas as invenções do mais velho, “é à segoviana!”».
Escrita por quem foi jornalista, do extinto semanário “O Jornal”, a obra é um pequenino prodígio quanto ao modo de dizer, de observações acutilantes. É o Grego «que nascera para vender a pele do diabo se lhe dessem percentagem conveniente», é a filha do Manca perante a qual «Benito começou a fazer-se distraído das mãos, a tocar-lhe num ombro, depois num braço, quando a estreitou pela cintura com a desculpa de ver como ficava um saiote de lã (…)», o próprio animal de nome bíblico, «Noé, o mulo (…) um perpétuo sobressalto» e ele, Benito, «em menos de um fósforo estava (…) a tirar a minga dos calções e a mijar bem mijada a palha do almoço de Noé, que se encanitou com o ultraje desenhando um coice», enfim, tantas frases em que o leitor se detém para melhor as saborear.
Dir-se-á que o livro, como todos os romances e novelas tem uma história. Mas que importa ela quando é mais o modo de a contar que interessa? É essa a diferença entre a grande e a mínima Literatura. Hoje, como afinal, sempre, desde que pelo século dezanove a figura do romance ganhou vida, existem livros espessos em que o escritor vai pura e simplesmente contando, cenas, lugares, vidas e lembranças, amiúde com pormenor cinematográfico, fazendo o leitor ver através das letras o que passou a observar melhor quando surgiu o animatógrafo que deu em cinema: são estendais feitos para entreter, em que um sala é inventariada quase que de bibelot em bibelot, os amores infelizes relatados, começando-se pelo tempo em que aos amantes lhes nasceram os avós.
Nada disso aqui. As figuras são reais, mesmo na sua brutalidade, e o picante da sua linguagem picaresca é porque o leitor é transportado para o pequeno mundo onde tudo isso é possível. Que melhor exemplo que o padre Oyarbide que, virando-se para Filemón Prada, pai de Benito, que achava o ritual da igreja uma maçada, o admoesta, primeiro, com um «mas é assim, meu filho, e quem somos nós para mudar uma coisa que vem dos alçapões do tempo?» mas logo a seguir, piedoso e tolerante o absolve: «E também te desculpo a má criação de faltares à missa, porque mais vale não te ver enfastiado e a coçar as partes quando celebro Deus».
Voltarei e este autor assim como voltarei àqueles sobre os quais escrevi as duas crónicas anteriores, Vergílio Ferreira e Fernando Namora: é que decidi-me falar aqui de livros e cada um deles escreveu muitos livros. Dir-me-ão que são livros difíceis de encontrar e sei que é verdade. Mas eis o meu propósito: tornar a leitura procura, como quem sai pela manhã por entre matos e planuras em busca de perdizes, longa sendo a caminhada.

Fernando Santiago Mendes Assis Pacheco, que se definia como «portugalego», morreu em 1995. Neto materno de Santiago Doallo Álvarez, galego da aldeia de Melias, Ourense. Tanta falta faz.

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Esta é uma das crónicas que tenho vindo a publicar no semanário "Mundo Português", cujos leitores são essencialmente os portugueses emigrados. Porque ao contrário do que tantos pensam merecem melhor do que serem tidos por incultos e tratados com o desdém de quem, por ter ficado aqui, se julga mais.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

António Macedo: a Academia de ontem e de sempre


A razão pela qual compro tantos livros, mesmo os que sei não irei ler tão cedo e talvez não venha a ler nunca, é porque o tempo de sobrevivência neles nas livrarias é diminuto, como borboletas cuja vida se perde em dias; e dos antigos é raridade achá-los por vezes nem em alfarrabistas, e nem sempre é possível ir lê-los a bibliotecas pública quanto fazem falta ou quando nos apetece.
Veio isto a propósito de edição de autor, da conferência proferida, a 16 de Maio de 1945, no Salão da Faculdade de Letras de Coimbra, a convite da Associação Académica, de que viria a ser o primeiro presidente eleito da mesma  Francisco Salgado Zenha que, em apêndice ao opúsculo, publica «uma carta» de enaltecimento do discurso escutado. De facto, à data a Associação Académica encontrava-se há nove anos sujeita a uma Comissão Administrativa nomeada pelo Governo.
Leu-a António Macedo, um advogado que já havia editado na Biblioteca Fenianos no mesmo ano uma monografia sobre Direitos da Criança, e que viria a ser após 1974 destacado dirigente dos primórdios do Partido Socialista Português, dedicaria o exemplar que me coube encontrar ao «Dr. Constantino Fernandes», outro Colega de profissão, que entre 1957 e 1962 presidiu ao Conselho Distrital da Ordem dos Advogados, traria naquela sua alocução uma palavra de «confiança» ao seu jovem auditório, e de «coragem», culminando a sua intervenção citando António Sérgio: «Abramos as janelas que os nossos avós sistematicamente cerraram».
Zenha, no seu estilo já então ironicamente ácido, deter-se-ia sobre o anacronimso do ensino então ministrado, as injustiças que dele decorriam, não deixando de citar, com acinte, um trecho da Reforma Judiciária de 1944, que, a propósito do ensino do Direito o considerou «bagagem de conhecimentos, simples erudição mais ou menos livresca, sem verdadeira compreensão do que se diz».
Livro diminuto nas suas sessenta e quatro páginas é testemunho de um tempo de luta e de pálida expectativa que o fim da guerra parecia proporcionar.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Vergílio Ferreira: inumado para as efemérides


Coitado do Vergílio Ferreira, agora à mercê de se comemorar o centenário e ser, enfim, retirado do covil do esquecimento dos leitores, exumado para a procissão da efeméride - que é a forma necrófila de o mercado tentar relembrar - ele que nos trazia aquela escrita angustiada que passou de moda, malquista num mundo que só quer heróis trágicos enquanto patéticos e obscenos; mais: ele que, ao romper com o neo-realismo, tornando-os ódio de estimação, como ressalta da sua Conta-Corrente, mais a fuzilaria da polémica com o Pinheiro Torres, ficou isolado porque sem outra barricada outra salvo a dos poucos amigos e ex-alunos. E resistentes leitores.
Vejo-o, hoje Domingo, capa do JL, tocando violino, coisa que poucos sabiam ele fazia, assim Einstein e também Sherlock Holmes, o perfil esfíngico.
E encontrei-o ontem na Rua de Anchieta, em alfarrabista de rua, na edição facsimilada do Vagão J, o romance que a Bertrand ainda reeditou antes de o abandonar, a obra que ainda lhe garante lugar cativo no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, até que com Mudança [como escrevi aqui] moveu-se para a consciência literária de que o Homem não é apenas a luta pelo pão, nem a Literatura manifesto.
Escrevera já sob o livro [aqui]. Hoje publico o que sobre ele pensava um capitão que trabalhava nos Serviços de Censura, em 1947.
Fui ali à estante, onde estão quase todos e quase todos lidos, de lápis na mão, que é a forma de ler linha a linha, palavra a palavra. E leio no seu prefácio à segunda edição: «um livro é o registo do nosso diálogo com o mundo, ele não pode emendar-se como a juventude que errámos».

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

As mãos sumidas


Quando volto aqui e vejo o fosso temporal que se abriu desde o último escrito, humilha-me notar em que selvagem me tornei, interrompidas leituras, livros deixado a meios, mantida a obsessão de os comprar, amarrado à promessa de os ler, moído pela agrura de não ter sido capaz. E tudo isto com a inexorável ampulheta do tempo a escoar-se e a consciência, que nem tudo tranquiliza, de que a vida não são apenas livros. E a nora dos deveres da profissão, à qual burro me amarro, cego a tudo o mais, para que tantos outros tenham o seu pão e eu com eles.
Ontem fui buscá-lo, e aguardava que eu me voltasse a interessar por ele com o mesmo cuidado carinhoso com que o trouxe há meses do Porto, seduzido pela beleza da obra gráfica, atraído pelos esparsos que fui folheando.
São crónicas suas publicadas pelo Jornal da Régua. o lastro humano do sentimento surgido da profissão de médico - essa que traz o grave problema existencial da vida e a inevitável questão da sua precariedade, mais as maleitas do humano e as epidemias da sociedade - que João de Araújo Correia exerceu com devoção.
Trazido à estampa pelo amoroso cuidado de Cruz Santos, pela sua Modo de Ler, que torna cada obra um mimo de beleza e Arte. E resiste e como eu sei o que é resistir como editor, custeando o preço de o ser.
Quando são livros assim, que me parecem despegados como se de folhas soltas fossem, escritos no caso ante a força da "hora de fecho" do periódico que os recebeu - e que dor essa agonia da hora de "entrar na máquina" a prosa ainda a compor-se - dei comigo a ler, em caranguejo, de trás para a frente, em arrecuas discursivos. e a rir baixinho pois era noite, porque é isso que falta a muita da Literatura Contemporânea, a começar pelo que tenho escrito, ausente dela a ironia, confiado o cómico que está aos neopalhaços do circo mediático, boçais até ao rasca, brejeiros para o aplauso e muitos encartados de doutores e que o tornam burlesco e aos jorros de vomitado reles.
E por ali estive, a ler com um lápis na mão, até que me chegou o sono, a terminar o serão com o António Pereira - de alcunha o «sagüi» pelo seu formato simiesco - arisco por fêmea - que «se a menina me desse cúnfia» - mas ela «olhos e ouvidos pasciam-se por longe» - , vindimador «filhote do sítio», calaceiro e manhoso, o capataz a prometer-lhe «quatro ladreiradas nesse costado» e ele, em ânsias de amor a dar-lhe para poeta que «a menina é alta como um castelo onde eu quisera estar preso», mas, triste, daquela tristeza do inconseguido, a morrer solteiro, «solteiro como nascera», ah! mas que «parecia bem no caixão», porque, ungulado de unhas defeituosas como cascos, mãos incapazes de carícia em corpo feminil, «uma senhora teve o cuidado de lhe esconder as unhas nas dobras dum túnica de linho». E assim entrou no mundo dos simples, «ele que nunca se atrevera com vizinha nova ou velha» mas que, suspirante e gemendo, «soltava líricos relinchos ao pé da serraninha».
Adormeci, a tempo de fechar a página e marcar o local, sem dobrar da folha o canto porque seria pecado. E uma sensação de paz confiou-me ao sono.

terça-feira, 21 de abril de 2015

José Bação Leal: um legado de sangue


Tive-o. E ficou por uma dessas casas por onde uma pessoa vive e deixa ficar. Talvez tenha sido o morno pudor de não pedir a restituição ou a certeza fria de que já não o encontraria. Mas procurei-o anos a fio. Há uns meses, o acaso quase me tornou o reencontro em realidade. Mas estava reservado para alguém que se antecipou no mesmo preciso dia.
Desta vez foi uma conversa com o José da Cruz Santos, da Modo de Ler. Foi buscá-lo à estante. O Urbano Tavares Rodrigues falara-lhe nele. E prefaciara a obra.
A guerra matou-o, em África, a José Bação Leal. Sua Mãe guardara, como ao menino em seu regaço, «rascunhos que ele deitava fora», versos. A eles o livro soma cartas, breves garatujas, densos sentimentos tornados pensar.
Tudo começa no Alentejo, em Mourão, desaguando em dor na dorida África colonial.
A 7 de Junho de 1965 foi transferido para Vila Cabral, em Moçambique. Escreveu então: «aqui as acácias ainda não floriram. Sangram (por agora) desordenadamente no olhar humano da negra gente. Gosto das acácias de Dezembro, deste verão póstumo a rolar na montanha».
O livro comove, são lágrimas tornadas escrita, versos, cartas, apontamentos. 
«Os únicos católicos Bons que encontrei seriam igualmente Bons, mesmo sem Deus», confiara ao seu amigo César, no dia antecedente, escrevendo do Alto Molucué, «poeticamente exausto, verticalmente só» se declarara em Mafra no ano de 1963.
«Um legado de sangue», assim chamou ao livro o seu íntimo prefaciador. «Sucedem coisas curiosas», escrevera José Crisóstomo em verso magoado: «ontem imaginei poder beber/um calmo desespero por uma incerteza/um suave adorno das rosas negras/que são o sangue do meu sofrer//Não consegui porém e bebi tristeza/uma tristeza feita de angústia serena/quase reconfortante mas sem paladar».

segunda-feira, 23 de março de 2015

"A Galinha", de Vergílio Ferreira


Terminados os trabalhos forçados, reconciliei-me esta noite com Vergílio Ferreira como contista porque, ao julgá-lo sobretudo romancista, não gostara do que lera no registo breve que é necessariamente o do conto. E surpreendi-me esta noite com o seu bom humor corrosivo e fina ironia, eu que o tinha por sizudo e carrancudo, azedo, tal como me habituara a vê-lo na intimidade da sua Conta Corrente, o diário de que li na íntegra as duas remordentes séries.
Tudo sucedeu porque li A Galinha, essa notável peça de faiança literária, carregada de momentos surpreendentes no modo de escrever. Logo «porque era uma galinha de barro» ser uma frase que surge ao leitor quando, ante o lido, ele se convencera de que a narrativa incidia sobre um bípede emplumado. E sobretudo porque de uma quezília de inimizade recalcada numa família que tudo ofende se espraia em ódio velho para toda uma aldeia, com saldos cada vez mais positivos - ironicamente as baixas aumentam o saldo - de mortos, feridos, moribundos a que se juntam os que, no intervalo, fenecem de morte natural, mais a guarda e a tropa e a amotinação permanente com contas antigas por ajustar.
Foram, pois, risos na noite, a deixar na vizinhança a ideia de que ensandeci. Lá fora o vento soprava, ele também «escabujando de raiva e de ameaça». E eu aqui, entre folhas e um cobertor que o tempo enregelou, rumo ao final do «escacar a cacaria» - eu, sim, que teria escrito «escaqueirar» porque há termos que nos chegam assim das raízes do berço - de tudo sobejando - num mundo que em pó se há-se tornar - pulverizado o galináceo em faiança a camartelo, a estampa da Santa Bárbara a protectora face às trovoadas.
A Galinha. Conhecia a de Clarice Lispector. Hoje veio outra «castanha nas asas, menos castanha para o pescoço e a crista e o bico tinham a cor de um bico e de uma crista».

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Memorial de Aires: contente de tudo


Não escrever aqui não quer dizer que não tenha lido, sim que nem sempre escrevo sobre o que leio. Desta vez achei que tinha de interromper o ler só para mim sem rasto deixar e  talvez por ter chegado ao fim, lido às braçadas, o Memorial de Aires, de Machado de Assis.
Que direi eu que não tenha sido dito, pergunto-me, aqui - como em relação a todos os outros livros - e respondo: direi o que senti, talvez o que me ocorreu naquela zona penumbrosa do pensamento que ainda não são os raciocínios mas já não são as sensações.
E digo.
Primeiro, ter sido com íntimo júbilo que tropecei nas menções que ali se fazem aos "clássicos" por constatar que são os nossos, ao findar o próprio Bernardim Ribeiro, o João de Barros, Dom Francisco Manuel (de Melo), por ser aquele Brasil o Brasil que nós construímos, aquela língua a que conservou o nosso modo antigo de falar e com beleza natural e requebro local.
Depois, tratar-se de Literatura construída sobre um diário de um vida banal, feita de coisas miúdas e de amores por viúva Fidélia que acaba casadoira, namorada e enfim casada, mais pequenas perfídias e gestos grandes, como a sopa de mana Rita que «vale para mim todas as noções estéticas e morais deste mundo e do outro», ou Osório «que não é namorado feliz, pelo que me disse Aguiar hoje, nem mau advogado, pelo que li nos jornais», «um homem que sabe casar zelo e tristeza», afinal  uma narrativa gotejante a ser a própria magnífica vida, essa «assim mesmo, uma repetição de actos * e meneios», mesmo quando «uma afectação de mágoa, algo parecido com o prazer que se encobre».
Enfim, ser uma narrativa em que o desencanto é apenas o que decorre do tempo, porque «todos os meus dias vão contados», no resto «contente de tudo, palavras e silêncio», e sempre a delicadeza do verbo e da forma como quando, já enamorada de Tristão, «a viúva punha certa moderação na ventura, necessária à contiguidade dos dois ** estados, mas esquecia-se algumas vezes, e totalmente no fim» ou o final tristonho dos dois velhos, privados da filha, naquela «orfandade às avessas», a expressão a significar quanto «queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos».
O mais, só lendo. É este o propósito do que escrevo: sugerir leitura, dividir encantamento.



* Na edição portuguesa que li, da Cotovia, está, como no original «atos», assim como «umidade» na página 105. A minha relutância ao dito novo Acordo Ortográfico, para não dizer repugnância, hesitou, porque afinal de um escrito brasileiro se trata. Mas triunfou a força da vontade: acrescentei o "c".

** «dous» no original, fórmula antiga e magnífica como noute e que o adelgaçamento em "i" roubou peso e densidade, aflautando a fonética como se para uma outra semântica.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Jardins Suspensos


Num blog dedicado aos assuntos jurídicos escrevi em Janeiro de 2006 o seguinte:

«Eu tinha dezanove anos e escrevia num jornal chamado «Comércio do Funchal». E por ter dezanove anos dei comigo, atrevido, a fazer um artigo para aquele aguerrido jornalinho sobre «A Justiça dos Pobres», a propósito do que se chamava então a «assistência judiciária». E não é que, por sugestão do advogado Ângelo de Almeida Ribeiro, fui para isso entrevistar o então desembargador Hernâni de Lencastre! Eu tinha dezanove anos e já entristecido com o que adivinhava ser o Direito, fiquei comovido pela grandeza sensível daquela alma, que me recebeu na sua casa, afável e disponível. Agora, morreu o advogado, morreu o juiz, eu já não tenho dezanove anos. O artigo lá anda amarelecido entre os caixotes dos meus papéis velhos, os que já nem leio. E não é que hoje, ao vadiar pelo Chiado, eu vi um livro de sonetos chamado «Reassumida Memória»!. Escreveu-o Hernâni de Lencastre. Dentro, alguém, guardou um recorte de jornal, com a notícia sobre a morte do seu autor. Estava ali tudo, numa banca de alfarrábios: o que fui, o que vi, o que já não volta, sonetos frios de uma memória reassumida, na forma de um poeta que era juiz.»


Nove anos depois, proporcionou a vida um reencontro com a memória. Foi em Alte, no Pólo Museológico Cândido Guerreiro [ver aqui], e como elemento integrante do seu espólio. Ali estava e com dedicatória, oferta do autor, juiz de Direito e poeta, ao advogado e poeta. Outro livro, o mesmo sentimento, o mesmo diálogo intrinsecamente humano, os jardins suspensos da amizade fraterna.

domingo, 4 de janeiro de 2015

O sonho, uma forma de vida


Leio [aqui] que está traduzido em castelhano, com o título possível Un Mundo Proprio o livro A World of My Own de Graham Greene. Diário de sonhos, há nele a fantasmagoria autobiográfica como em tantos momentos da sua obra, até nas enigmáticas dedicatória de alguns dos livros.
Pensei nisso quando escrevi sobre o seu The Comedians [aqui] texto que remete para uma outra reflexão sobre The End of the Affair [aqui]. Mas não sou capaz de o pensar  a propósito desta obra, talvez pelo burlesco que a acentua, até pela vulgaridade que a desfeia. O seu sucesso deve-se por ventura ao desconchavo, que é receita fácil como se sabe hoje no mundo editorial, como a mixórdia de, onírico, urinar camarões e eles tornarem-se lagostas na sanita, paródia abjeccionista sem graça nem estilo. E talvez à circunstância de o seu autor ter decidido da sua publicação dias antes de morrer, na Suiça, solicitando-a a Yvonne Cloetta, aquela que foi, ambos casados, sua amante durante mais de trinta anos, entretanto falecida [ver aqui].Ou talvez a um qualquer motivo que a pequenez da minha capacidade de entender não alcança.
Biografia, sim, escreveu, mas fê-la terminar aos vinte e sete anos, «anos de falhanço que se seguiram à aceitação da minha primeira novela». Ronceiro, arrastei-me agora à estante onde dormita a totalidade da sua obra para conferir o facto e o que acabo de citar. Encontrei-o na tradução portuguesa feita para a Bertrand por Maria Ondina Braga, publicada em 1971. O livro, que no original de intitula A Sort of Life surge em português como Uma Forma de Vida. Escreveu-o tinha sessenta e seis anos, como eu terei em breve. E nele deixou, a continuar aquela frase, esta flagrância de lucidez: «O falhanço é também uma espécie de morte: a mobília vendida, as gavetas esvaziadas, o camião das mudanças à espera na rua, como um carro fúnebre, para nos levar rumo a um destino menos dispendioso».

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Na foto Graham Greene em Sintra, na Casa Cadaval, com a sua amiga Maria Newall [referi-a aqui quando escrevi sobre a ligação do escritor aos serviços secretos britânicos, a foto consta do livro que o Padre Leopold Durán lhe dedicou, como se pode ver aqui e no qual relata muitos dos seus passeios, incluindo por Portugal]. 
Sobre Maria Ondina Braga enquanto tradutora de Graham Greene, escrevi aqui.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Mudança: Vergílio Ferreira

Leio "Mudança". E pressinto tudo. O homem na sua máxima extensão como manifestação do atributo Humanidade. E vim aqui, talvez imperfeitamente encontrá-lo na voz dos outros e na sua, excerto da obra e do criador,

domingo, 2 de novembro de 2014

O pau e a pedra


Foi ontem, antes de o dia findar, que, no meio de tantos outros de diversos autores e esparsos assuntos, o encontrei, aqui no bairro, no Artes e Letras, o espaço alfarrabista do Luís Gomes, convivial, amigável, onde livros e conversa se tornam indistintos.
Com este livro Vergílio Ferreira assinalou o corte com o "neo-realismo", trilhando desde então a estrada solitária que o levou a incompatibilizar-se com muitos dos que se haviam arregimentado em torno desse programa literário ideológico da arte como intervenção política, como denúncia e com quem teve polémicas violentas e de quem acabou por guardar rancores de injustiçado, sem que a História o engrandecesse suficientemente pois não há santos sem Igreja que os santifique e ele morreu só. No Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira a sua pessoa é interrompida aqui.
Sei que é uma terceira edição a que tenho aqui comigo, mas que importa se o persegui estes anos todos, à sua procura, para encontrar aquilo que Eduardo Lourenço, seu conterrâneo, amigo e aqui prefaciador avisa ser «caminho que é ruptura ou, em todo o caso, desconfiança em relação à luz excessivamente clara que banhava então o nosso universo romanesco».
O exemplar vem autografado, na escrita miúda que era a sua, económica e concentrada, firmada a dedicatória no 1º de Maio de 1969.
Esta manhã, em que escrevo, ao ver a data fui por um ímpeto à estante conferir no seu diário, a Conta Corrente, no primeiro volume da primeira série o que teria havido nesse dia. Foi uma quinta-feira. Escreveu: «Fui à Baixa. Estive com o Urbano Tavares Rodrigues. Disse-me que a crítica de Le Monde devia ser de um emigrante português emigrado em França e que assina com pseudónimo francês. Bom Urbano, Tenho um dia de falar dele». 
A crítica, saída a 19 de Abril, o mês em que morreu Mário Sacramento, incidira sobre a sua obra Aparição e enfurecera-o. Escrevera sobre ela uns dias antes, irado, militante do seu novo rumo: «O crítico de Le Monde (19-IV) malha-me no "lirismo". O que não malharia num Hermann Broch! Só depois de se professar optimismo, claridade e água do mar, se o reumatismo está de acordo, é que se pode conversar».
Ei-lo preparado para a pancadaria. Para onde não chegar o pau leva a pedra. 

sábado, 1 de novembro de 2014

Um vento amplo de solidão


Custavam quatro escudos, publicados pela Edição de Fomento de Publicações, Lda., sita na Travessa do Sequeiro, n.º 4, rés-do-chão, em Lisboa, sob a direcção literária de Manuel do Nascimento.
Tudo nomes esquecidos, quase como o do autor da capa, Bernardo [Loureiro] Marques [sobre este notável pintor, ilustrador, veja-se aqui].
Era a colecção "Mosaico", que tentava ser, no seu formato em oitavo uma «pequena antologia de obras-primas», trazendo ao leitor o gosto pela leitura.
E conseguiu comigo. Li há pouco O Encontro, a morte do engenheiro, às mãos dos irmãos de Delfina, a moça que o lugar lhe proporcionara «recozidos de ódio, trémulos de delírio, tudo neles trabalhava como um desespero animal. E muda, a toda a roda, a montanha aturdia-os de solidão». E assim «ele sentia que a aldeia lhe impunha a violência da sua verdade», encurralado, «um vento amplo de solidão e montanha embatiam-lhe no  peito», «num pavor de precipícios».
Os contos que publicou este pequeno volume de 48 páginas, impresso sem data, mas em 1957 [ver aqui] na Sociedade Industrial Gráfica [hoje Telles da Silva], na Rua de Campolide, n.º 133, estão publicados no volume de contos de Vergílio Ferreira na Obra [quase] Completa que a Bertrand editou e a partir de certa altura deixou esgotar sem reimprimir.
Manuel do Nascimento, mineiro, trabalhou nas minas de Jales, onde conheceu Soeiro Pereira Gomes, Doença pulmonar fê-lo abandonar a profissão e dedicar-se ao jornalismo, à escrita e à edição. 
A sua obra, hoje votada ao apagamento, é um dos expoentes do neo-realismo, fruto de experiência vivida tornada literatura. [sobre a sua pessoa leia-se mais, aqui e aqui]
Por esta altura já o autora de Aparição tinha mudado a agulha, abandonando o alinhamento que o levara a escrever Vagão J. Fora tudo com Mudança. «Não de deixou o autor de "Mudança" contagiar pelo fácil e assim os seus primeiros trabalhos não revelam o esquematismo da grande  parte das obras dos escritores que caminham nas letras seguindo o mesmo rumo», escreveu, corajosamente, o editor.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O Tempo e o Modo: pensamento e acção


Não há pior do que não termos uma família espiritual a que chamemos nossa e, no entanto, em tantas encontrarmos o morno aconchego da pertença. Ninguém ante todos eles, fica a sensação do vazio, o desenraizamento e, itinerante, a perpétua e esgotante viagem e sobretudo o desejo.
Senti isso hoje ao chegar, findava a manhã, vindo da minha amiga Teresa, namorada de livros e por eles apaixonada, com uma mão cheia de tanta coisa que é uma dor de alma imaginar que por estarem agora aqui deixam de lhes pertencer, ela que os encontrou amorosamente.
E trouxe dois números o 12º e o 23º da revista O Tempo e o Modo. E vieram as recordações. E por isso vim aqui falar.
E como eu sei onde era a Livraria Moraes, seu projecto livreiro e editor e sua ruína, ali ontem estive, o Centro Nacional de Cultura no piso superior, criatura dos mesmos criadores. E como a revista me atraía, como se ali estivesse parte de mim e eu a ela me negava então, por tilintarem no princípio menos tostões no bolso do que o seu preço e depois porque havia ali um grupo unido por uma ideia. E aí, aquele meu eu solitário, retrai-se sem porquê. E porque crentes a um Deus que me abandonara.
Hoje compreendo tudo o que fiz por desconsiderar. 
E olho com carinhosa ironia para o que vivi e agora reencontro e fico raivoso comigo diante do que poderia ter vivido.
«O Tempo e o Modo pretendeu ser essa mesa onde as pessoas se conheceram e à volta da qual alguns se quiseram sentar», escreveu Alçada Baptista, seu director, no número que assinalava um ano de existência para, com finura de trato - essa elegância que se perdeu - acrescentar na edição que inaugurava o terceiro ano de vida: «(...) o Tempo e o Modo é uma mesa redonda para onde se convidam pessoas que soubessem estar à mesa».
Com ele chegou o personalismo cristão, Emanuel Mounier, Jean-Marie Domenach, um catolicismo que a Igreja oficial secundarizava e a esquerda laica desprezava, uma revista para crentes e não crentes, «de pensamento e acção», um espaço de diálogo numa sociedade fechada, monologante. 
Ela foi, como ali assinalou Luís Lindley Cintra, a confirmação de que é possível vencer a tendência quase inevitável para a «inquietação inactiva».
Fechou, esgotada, o título retomado pelo MRPP, como órgão de propaganda ideológica sua.
Dos números esparsos que por aí restam, amarelecidos, tenho comigo estes. Em tempos foi editado um grosso tomo de homenagem à sua existência. Tenho-o comigo, e saudades neste momento de o ler. Assim possa.
Eis, porque, por trazê-la, a revista da minha juventude, jorrou vida, transformada a inquietação inactiva na intranquilidade fazedora.
Amanhã o dia amanhecerá radioso e claro.

sábado, 4 de outubro de 2014

A vida quando eu já não for...


Falara no Real Gabinete de Leitura, no Rio de Janeiro, sobre a sua obra, de que a editora Aguilar havia publicado em 1974 os seis volumes do que considerou ser a Crónica da Vida Lisboeta.
Encontrei hoje o livrinho, editado pela Guimarães com respectivo texto e o da Introdução que o Professor Soares Amora escrevera para a prestigiada colectânea brasileira que até ali apenas publicara obras de Luís de Camões, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e Ferreira de Castro.
Cada um dos tomos desse sexteto é, de facto, uma crónica, não no sentido do apontamento instantâneo, mas um romance, com a intrincada narrativa e a soma de personagens - 223 no total, segundo o inventário efectuado por Maria Dulce Quintão - situado naquilo que foi a problemática histórica do tempo, um tempo que se situa entre 1936 e 1956. 
Confessou, na palestra que assim divulgou, que o arranque para a sua escrita surgiu em reacção ao Maria Benigna de Aquilino Ribeiro - a quem não poupa admiração, mau grado quanto os separava no plano da filosofia de vida - por sentir neste uma inautenticidade, o «falso como pintura da sociedade lisboeta», fora do mundo rural em que o autor do Malhadinhas lançara os alicerces do seu universo de escritor.
E, talvez porque irremediavelmente senhor de si, organizou o seu discurso ante o lustre auditório, lembrando, como se únicos antecessores tivessem sido no género romance, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz e Aquilino Ribeiro.
Acabo de o ler, breve que é, escrito naquela linguagem simples que lhe caracteriza o estilo. Com isso a escrita ganhou coerência, situada como projecto de uma vida, como vida de um País.
Trouxe-o esta manhã do Alfarrabista Martinho, onde o encontrei, na montra, como se à minha espera ali estivesse, regressava eu de uma infrutífera escalada à Feira da Ladra. 
Com cuidada caligrafia, o autor dedicara aquela cópia «a Nuno Rocha, com alto apreço, tributo muito afectuoso do seu camarada Joaquim Paço d'Arcos». Resgatei-o ao comprá-lo, talvez. E que lhe sucederá quando eu já for?

A dolência da volúpia


Compram-se ao desbarato, as editoras a querem livrar-se de stocks, diminuírem rendas com armazéns, melhorarem a tesouraria, despachá-los a preço abaixo de saldo, rebaixando-os que seja. São preciosidades, porém, que foram retiradas do mercado depois de terem efemeramente passado pelas livrarias, do que o leitor não assíduo nem deu conta.
No caso, trata-se de um escritor que teve muito contra si, desde logo a ideologia política a que se manteve fiel, o ter sido galardoado pelo antigo regime e não se ter transmutado num parvenu de Abril - e ele houve tantos, tantos que se tornaram "antifas" e assim subscreveram a apólice do seguro de vida literária - e depois o tom pícaresco da sua escrita, malandra, de língua solta, a tratar das coisas do tímido coração misturadas com as pulsões do baixo ventre, escrita servida por uma extensão vernácula da vertente vicentina do nosso vocabulário ao que muitas sensibilidade pudibundas sentem o ai!  ambíguo arrepio da rejeição que em si contém o frémito do ui!, o desejo reprimido.
E, no entanto, não há nele a decadência regurgigante da devassidão narrativa nem a redundância semeada a esmo do palavrão canalha, porque cada uma dessas obscenas palavras venais vem da boca onde é certa e natural forma de linguajar da personagem. E há sobretudo a grandeza do domínio do verbo, na carnação susbtantiva do mesmo, lânguido, mordente, amplexo entre o escrito e o lido e «o enlace teve repentes de fera e dolências de volúpia», para tomar a expressão de um dos seus contos.
Estou a lê-lo, interpoladamente como sempre porque para além dos livros há a vida.
Talvez Tens Visto o Antão? não seja o mais expressivo conto que esta antologia reúne, escrito a 21 de Outubro de 2009, meses de morrer, mas é que marca o seu modo de ser e assinala-o até até ao fim como uma marca de água que desse ao papel o discreto timbre.
História da "azougada" Elisette Fernandes, magreza de tísica, resíduo entre tempos de teatro barato, corista de palcos poeirentos pelo Parque Mayer, resto do que fora, idas as luzes, devolvida a caracterização, encerrada a cena, «descendo, com poses de diva, as escadarias finais do acto». História sem história, ela "A Doida do Martinho", o Martinho do Rossio que não o pessoano da Arcada, ela, ali plantada, hirta no seu vestido antiquado, «a cloche enfiada num cabelo tinto negro», louca, porque enlouquecida, transformando ânsias em actos, actos em acusações, estas em escândalos, mamas flácidas que já nenhum chegado lúbrico lhe apalpava e houve tempos mas hoje, porém, pretextava terem sido assediadas por imaginários atrevidos, como na verdade assim em tempos de «noitadas de revista e cabaré, o morno voluptuoso da cama do pecado.»
António Manuel Couto Viana é um grande escritor. Façam dos seus livros o que quiserem haverá quem os recolha amigavelmente, pela sua lírica, pela verdade pungente do que escreve,  o mundo colectivo no seu rodapé, o mundo individual nas suas entranhas.
Ricardo de Saavaedra, que lhe compilou a obra, reuniu em extenso tomo uma longa conversa biográfica, acompanhando-o até ao fim, Por ali dei conta que a estupidez da vida nos fez cruzar sem nos termos encontrado, eu envolto em personagens bufas pelos alcouces da vida pública.
Trouxe-o agora comigo no que nos deixou: a obra, esse modo estranho de um Homem querer ficar.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Cartas de um inadaptado


Que destino têm cartas, ainda que íntimas, mesmo que expressando o que, dentro da minudência do que relatam, são instantes captados à História, momentos surpreendidos à solidão?

«Há aproximadamente um ano, foi-me apresentada uma Senhora que possuía vinte e tantas cartas do escritor Wenceslau de Moraes. Pretendia que eu lhas vendesse num dos meus leilões (...)», escreve, em jeito de «explicação», o antiquário Arnaldo Henriques de Oliveira [vejam-se resenhas bibliográficas suas, aqui],

Não acabariam vendidas a um qualquer coleccionador de valores transaccionáveis, encontrariam porto de abrigo num livro, editado pelo próprio em 1961, impresso nas Oficinas Gráficas da Sociedade de Papelaria, Lda., sita na Rua da Boavista, 375, no Porto.

São cartas a Polycarpo de Azevedo. oficial de Marinha como o remetente das missivas, ajudante de Campo de El-Rei D. Carlos e de D. Manuel, falecido na Quinta Solar do Arcipreste a 16  de Julho de 1929.

Li-as com o recato que exige quem se abeira do que foi o espaço privado de um exilado, que a tudo renunciou para se encontrar no Japão mas nunca perdido da Pátria e do seu funesto destino. E que direi do muito que se encontra quando se corta esta rocha vulcânica, xistosa, feita de placas sucessivas, feitas da convulsão telúrica do vulcão humano que é alma de homens excepcionais? Talvez transcrevendo este excerto que nos devolve da escrita o seu escritor.
«É muita verdade que, como diz, eu sou inadaptável ao século XX. Mas olhe que também o era ao século XIX. Eu nasci sem aptidões para a vida, vivi sempre numa meia demência que me afasta de ser feliz; e quando, na metade da existência, comecei a escrever para o público, ainda a má sorte me perseguiu.»

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Mr. da Silva nos States...

Fui juntando a obra toda, nas primitivas edições e naquelas de que a Guimarães interrompeu a reedição e talvez em alguma delas esteja esta conferência, proferida no Círculo Literário Eça de Queiroz no dia 11 de Março de 1942.
Proferiu-a no estilo amável e cortês que era o seu modo público de ser e com ironia.
Viajara até à América a bordo do Clipper, adivinha-se que em missão oficial, ele que encontrara ganha-pão na Secção de Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Do que viu deu conta nessa noite, mais, porém, do que sentiu.
Foi a América polifórmica e policroma que nos trouxe, a protestante e a católica, a dos afluentes e a dos miseráveis, a do emigrantes e a dos naturalizados. A América de todas as vitórias e heroicidades, mesmo as que surgiram de derrotas e deserções. A América a afirmar-se na cultura, a América ante a guerra.
Na América em que era, afinal, «um anónimo estrangeiro», Joaquim Belford Correia da Silva, Paço d'Arcos porque neto do primeiro Conde de Paço d'Arcos, transformou-se no "Mr. da Silva nos Estados-Unidos" porque para os yankees ser português era uma espécie de ser africano.
Encontrei o escrito esta tarde. Trouxe-o comigo. Levara quarenta e cinco minutos a ser proferida, a palestra, menos de meia-hora foi o tempo de a ler, com voracidade e luxo. E o gozo íntimo de poder vir aqui e eriçar-me num "voltei".
Há ali o desenho psíquico de um País que não tem Nação mas que tem Pátria, em que o individualismo, a produção em série, o pragmatismo e a especialização são a força e a sua fraqueza.
Ainda hoje tudo é actual e, no entanto, ninguém editará e pouquíssimos lerão. Tive o ensejo. A tarde termina. Todo esse tempo passou. Ficou o sabor na memória gustativa.

domingo, 10 de agosto de 2014

É preciso imaginar Sísifo feliz


Sábado, regressados, o Pedro sugeriu um passeio a Cascais. A Gelataria Santini estava a abarrotar, uma serpente gigantesca à porta, aguardando, conformada, a vez de cada um. 
Deu-se, então, na ténue esperança de uma oportunidade, uma volta, em errante veraneio que nos levaria à Livraria Galileu [ver aqui]. 
Vagueando ao acaso, ali, numa prateleira inferior, ei-la a primeira edição de um livro que agora se popularizou, porque numa nova edição.
São notas sobre cada um de alguns livros essenciais da escrita de Albert Camus, reflexivas sem erudição, sentidas. O seu autor tinha então 39 anos: Marcello de Zaffiri Duarte Mathias, «diplomado de carreira», escritor. O livro saira no Brasil em 1975, três anos depois com a chancela da Bertrand.Vou lê-lo com a premência do que estive quase a perder por aquele horrível modo de ser que é o de fazer má cara a algumas capas de livros, como se pouco prometedoras e não conseguir ultrapassar esse limite.
Nessa noite de inesperados encontros, ali mesmo, aguardavam-me ainda os dois tomos da obra da obra do autor de O Estrangeiro, na magnífica edição da La Pléiade [ver aqui].
Tenho, ao que julgo, quanto escreveu, em volumes soltos, comprara outro dia aquela edição revista que a Quarto da Gallimard editara [ver aqui]. Mas não resisti: talvez o papel Bíblia e a sensação macia de o sentir na polpa dos dedos, o odor da pele da encadernação, a caixa sóbria e alva com que cada tomo vem protegido. Talvez, sobretudo, por serem obras de Albert Camus.
Saído da livraria, no calor manso da noite o mundo pareceu mais doce. Um halo argelino invadiu-me, salino, de uma angústia feita de todas as alegrias e dores de um Sísifo feliz

domingo, 13 de julho de 2014

A meteorologia da inteligência


Esta ideia de que no Verão, porque tempo de moleza, quais lagartos ao Sol, já que temos o corpo assado ficamos com os miolos fritos, há que ler tudo quanto é ligeiro, superficial, imbecil mesmo, se não fosse teoria geral para idiotas é, de facto, o campo de eleição para o marketing da chamada "indústria livreira" e seu esgotamento de stocks e a tradução literária do conceito da política, o da silly season, em que o Homem e as moscas se confundem, zumbindo em torno da realidade excrementária da monotonia agora tornada descanso esgotante e território de coisa nenhuma.
Esta ideia de que só a friagem gera a inteligência, inaugurada pela "rentrée" literária e suas novidades fulgurantes, é a projecção racial da noção de que os povos do Norte, são por decorrência climatérica, mais inteligentes porque mais frios já que menos emotivos, a expressão livresca da cultura dos pés frios e seu aborrecimento sistematizado, o totalitarismo da Razão.
Esta ideia de que todos temos de ler o "incontornável", as "escolhas de - " e os "livros de Verão", é uma pandemia que contagia do mais insignificante, ainda que insolente, "suplemento" cultural, o que abre espaço para livros à medida da publicidade paga que aufere, até ao mais snob expoente "for the very  few" que não escapa ao contágio.
Depois há os exibicionistas puros, de cultura enciclopédica em tema e opinião, os que de tudo sabem e tudo lêem, antes de todos os outros e diante de todos os demais, a montra da vaidade do saber exposto, os que já leram o que ninguém sequer sabe que existe e ei-los que, perguntados pela submissa imprensa, sequiosa de uma intimidade que deles mostre o pergaminho e o brazão, nos dizem levar para reler todo o Dostoievski, que já tinham lido aos quinze anos, e a Guerra e Paz e suas mais de quinhentas personagens que vão também veranear entre as termas para o flato e quinta solarenga para a sesta carregados, com metros cúbicos de empanturrante livraria.
Enfim, mundo de registos, ciclos e modas amestradas. Mundo de querer também ser ou ao menos parecer. Mundo em que a individualidade se tornou ontem.

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fonte da omagem: aqui

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Naufrágios e lonjuras nas ilhas encantantadas


Eu tenho este horrendo defeito de não gostar, sem ter razão, de certos livros, filmes ou o que seja, desde que sejam gostados por certas e determinadas pessoas que eu detesto. Assim sucedeu com o Jorge Luís Borges até que hoje consegui reunir a obra integral em castelhano e creio que terei já lido a maior parte, transido de admiração. E com tantos outros que até sinto vergonha por ser assim.
Sucedeu o mesmo com o Antonio Tabuchhi.
Mais sucede que todos nós temos uma atávica má-vontade em relação à chamada "Literatura de Aeroporto", até descobrirmos, como eu descobri, ali na Portela, ao começo da manhã, numa viagem de ir e vir no mesmo dia, o chamado voar estafando-se, aquele sobre o que vou hoje escrever e tê-lo lido fascinado, pelo tema, pelo modo de escrever, pelas ondas marítimas de sentimentos que me possuíram nas horas em que lentamente o segui, linha a linha.
É breve na aparência a obra, mas a densidade que provoca na alma, tem um tal peso que o leitor sente atrás de si, como uma embarcação, o rastro da sua navegação.
Tudo se passa em torno dos Açores e das baleias, e da faina que o Mar traz e suas dores.
Se há livros escritos amorosamente este é um deles. Narrativa redigida como se fosse reportagem, com uma pequena estante final, despretensiosa, com o que se pode ler para continuar naquelas águas, tudo nela é desvelo e mimo. A rudeza circundante torna-se beleza dorida.
Que direi eu do que é o livro? Nada, porque peço que o leiam. Ainda por cima a editora está a saldá-los a sete euros e meio o que é uma forma de fomentar a cultura esvaziando armazéns, alegria e tristeza num só gesto.

P. S. Vou comprar o Tabucchi todo! É o costume. Não se é impunemente do signo Carneiro...

quinta-feira, 5 de junho de 2014

José da Cruz Santos, de facto "um inventor de livros"


Visitei-o ontem, agora que está no Porto, no seu pequeno espaço na Praça Guilherme Gomes Fernandes, ali junto ao meu sucinto recolhimento, a livraria onde acumula preciosidades.
Lembrámos, após os segundos de hesitação quanto a sermos afinal nós, o nosso encontro em 1999 em torno de uma aventura que daria uma narrativa fantástica de ousadia burlesca de que fomos vítimas. Agora com riso porque o tempo apaga as dores da alma.
Perguntei-lhe por um livro do Giovanni Papini, "Un Uomo Finito", pelo qual ando obcecado. Sabia, como amante de livros que é e seu leitor, que havia tradução portuguesa e qual o título. E ficou de mo encontrar, depois de empoleirado num curto escadote, baixar do alto, todos os Papini's imagináveis. Não lhe disse que vou tentar lê-lo em italiano, porque quero os dois, insaciável nas paixões.
De súbito dei comigo naquele oásis da vida que é conversar. Sem tempo. No espaço da intimidade.
Trouxe comigo em livro um feroz diatribe do Professor Ricardo Jorge contra Teófilo Braga, aqueles rancores que nem a filosofia aplaca e um outro Papini, o do "Juízo Universal"; e, enfim, um onírico Fidelino Figueiredo, de quem estou a reunir, eu tal como ele, um coleccionador de angústias, a obra integral.
Caramba e senti que a vida tinha tido um momento de respiração no sufoco dos deveres.
Bem haja o que me permitiu ir ao seu encontro, António Cruz Santos, de facto um inventor de livros, como se lê aqui.
Com ele volto a esta página que andava ao abandono.

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Fonte da imagem: aqui

domingo, 30 de março de 2014

Dulce Maria Cardoso: o reencontro

Tive-o nas mãos na livraria e julguei que eu já teria todos os contos que compendiava. Afinal não,  soube ao ler, atrasado, esta tarde de preguiça, a entrevista que o JL publica.
Pela fotografia, que o jornal levava a capa, surgiu-me outra que não o rosto que conhecia de 'Os Meus Sentimentos'.  E de a ter procurado.
Terei, afinal, de tentar encontrá-la, primeiro através do livro. Soube agora que tinha sido Advogada.
Porque nada se sabe.

terça-feira, 4 de março de 2014

O amor e os livros


Há aquelas gentilezas dos que amam livros e o pressentem nos outros. 
Ontem um amigo, o Emílio, a quem devolvi uma preciosidade sob a forma de livro que, confiante, me emprestara, à ideia de que me proporcionasse uma visita guiada à sua imensa biblioteca, acrescentou «e se eu não estiver ficas lá a trabalhar no que precisas para o teu livro, porque os folhetos estão em caixas». 
Ontem ainda, outro amigo, daqueles que o são quando tão pouco os conhecemos para além de meia-dúzia de palavras, fez-me chegar  pelo correio uma mão-cheia dos livros que edita sob a chancela da "Opera Omnia". 
Venho falar no "Casas de Escritores no Alentejo", um dos que dedicou aos locais da escrita, as moradas do espírito e que veio entre tantos com que me presenteou.
Folheei-o ainda só com aquela devoção com que se tem nas mãos uma obra de arte. 
E revi-me no desejo de que me acolham essas bibliotecas perdidas ao longo da vida, semeadas pelo acaso como sementes jogadas ao vento. E entre eles eu encontre um canto onde repouse, uma mesa onde escreva e faça as próprias refeições, indistinto aquilo de que um ser se alimenta. E depois, mansamente, alguém dê um destino digno a tudo isso, ou alfarrabista pobre, daqueles cuja banca é uma lona espalhada pelo chão, ou uma simples estante numa parede sozinha, leve tudo, mesmo o que teve dedicatória, até o desprezível e possamos, enfim, fazer alguém feliz.
Um dia cheguei a dizer que, estenderia a mão, pedindo por esmola os livros que não quisessem. Em cada livro , em cada um desses livros já inúteis me pressinto no nervoso folheá-los, a mão incerta.
Por mais que sejam perecíveis, papel em pó se transformem, eles são a pele de um corpo, asperamente sensível como a própria alma.

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Origem da foto: aqui

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

João Medina: a cissiparidade sem Amor


Retornado do intervalo, voltei a ler. Desta feita um pequeno livro, agora editado pelas Edições Colibri, junção de dois textos separados por mais de quarenta anos de distância, escritos por João Medina, ser de plural cultura, autor da autobiografia ficcionada Memórias do Gato que Ri.
Impressionou-me talvez mais o segundo à medida que nele progredia. Toma como tema um diálogo que fere, ao abrir-se, por ser ingénuo e esperar-se, ante o tema, a grandeza tonitruante e não o a singeleza quase doméstica e pueril com que o escrito surge. 
Trata-se de um insólito diálogo entre van Gogh e a orelha esquerda que amputou num gesto de desespero, cena dramática a que se segue uma reflexão que é toda ela uma convocatória para o que pela teologia une o humano ao sagrado, a angústia existencial que povoa ambos.
Impressionou-me pelo que é a dimensão máxima do humano «coisa tão espantosa e irregular», «mísero ser que veio ao mundo por uma fenda carnal que fica entre o orifício das urinas e o das fezes», mas, afinal aquele que «pode crer em juízos sintéticos a priori ou no dogma da Imaculada Conceição, fabricar pontes, inventar divindades, escrever tratados de finanças e compor sonetos».
Impressionou-me pelo que é o prenúncio do êxtase, na verdade o de quem escreve, o êxtase procurado em toda a parte, naquela vilória provençal, local do seu exílio, «a dormir um sonho imortal à sombra das oliveiras, árvores imortais», procurado «na devoção religiosa», «na entrega total ao serviço dos outros, no Puro Amor dadivoso, no sacrifício de mim», «na Arte, oficiando com pincéis, tela e óleo«, «na visão ardente», mas sempre só, irredutivelmente só «sempre dentro de mim, prisioneiro de duas datas, o do meu nascimento e a da minha morte futura, caminhando isolado entre duas fendas, a da vulva que me expulsou e o túmulo que me há-de engolir de novo».
Chegado ao fim da leitura sente-se que é tempo de parar e reflectir. Não se presenciou a crueldade de uma amputação, algo ficou ali, definitivamente estripado, nas entranhas do leitor, incapaz de se reintegrar na mágica divisão/unidade, essa  cissiparidade dos seres que se multiplicam sem amor, sem união, na pura mecânica do eu.
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Fonte da foto aqui