sábado, 16 de julho de 2005

Possuído de estranhos apetites

Se a vida se expressasse toda em literatura, eu procuraria hoje num livro um modo de exprimir-me. Vasculhava os poemas em negativo, para encontrar a forma de dizer não; revirava estantes de prosadores, para saber como se conjuga o verbo apetecer. No fim, teria conseguido dizer o não me apetece, porque é isso, dito sem métrica e sem estilo, o que me apeteceria, afinal, dizer. Acho que o descobri! Nem tomar banho ou sair à rua, não me apetece meter-me à estrada ou mexer-me daqui. Não me apetece ir buscar livros, lê-los ou folheá-los. Não me apetece que saibam que não me apetece. À hora, darão pela minha falta e talvez nem queiram saber. Ontem pisaram-me um pé, desiquilibraram-me por dentro, por isso, coxeio por fora, insaciavelmente, hesitante de apetências.