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domingo, 7 de fevereiro de 2021

A Funda



Só me apercebi da sua existência quando publicou, recuperando o estilo e as personagens queirosianas, o livro que apelidou de O Regresso do Conde de Abranches, memórias do contemporâneo transpostas para os olhos transactos, narradas pelo fiel Secretário do Conde, e através dele, Zagalo, o chiste e os "leões de riso" em torno de personagens já consagrados na vida pública portuguesa nesse conturbado período em que escreveu, o ano de 1976. Personagens que não terão na altura achado qualquer espécie de piada ao à la minute de que eram instantâneo caricatural, mas que, noblesse oblige, terão disfarçado, com cara de pau, a humilhação ante o que sabiam ser fundamentalmente verdade. Entre eles, Marcial Ribeiro de Souzela.

Li-o então, a Artur Portela (Filho), em pleno PREC, no Jornal Novo, periódico que fundara em 1975 e que, corajosamente, enfrentava a radicalização que tomava conta das mentalidades e das opções políticas. Fazendo-se eco da ideia de que o riso é também uma opinião constitucional, os artigos e os livros suscitavam apreço e rancores na exacta proporção em que o País estava dividido.

Recuperei agora os volumes que faltavam [excepto um, o quarto] da sua série a que chamou A Funda, que teve início em 1972, ainda sob o consulado marcelista, de que me chegou às mãos já só a 2ª edição, editada pela defunta Moraes Editores, onde António Alçada Baptista se foi endividando até ao limite da resistência, custeando, além dos livros, revistas como O Tempo e o Modo, que faleceria às mãos do MRPP e a Concilium, porta voz de uma outra visão do catolicismo, vista do ponto de vista do personalismo cristão.

Ler este livro é surpreender  a jovem geração tecnocrática que, com Marcello Caetano à frente do Governo, entrava então na vida pública, e para eles se formava a SEDES, a sociedade de estudos que haviam gerado para tornear a proibição de partidos, ante a subsistência de partido único que o Presidente do Conselho sucessor de Salazar não conseguiu ultrapassar, limitando-se a uma alteração de etiquetas, substituindo a União Nacional pela Acção Nacional Popular.

Incidindo sobre essa nova vaga o lorgnon da sua acutilante análise, Portela, que nos deixou este ano, tira-lhes as medidas, numa crónica datada de Janeiro de 1971: «Com Salazar, impacientavam-se na antecâmara. Com Marcello Caetano, entraram, de roldão, na vida pública. Vêm de Económicas e Financeiras, de Engenharia, de Sociologia. Têm quarenta anos. São apolíticos. Estão na Assembleia Nacional, na Câmara Corporativa, nos Gabinetes Técnicos. Fazem sauna, são católicos progressistas e falam alto, forte».

Assim pintados, eis o seu pensamento pragmático e utilitarista, numa só frase sumariado: «A política, ela própria, globalista, surge-lhes como um romantismo. Não há política. Há políticas. Não há política. Há soluções.»

E, no entanto, o regime, astuto, Artur Portela anota, soube sacar-lhes o necessário proveito. «Muito mais hábil, Marcello Caetano coloca-os, politicamente, nos cargos menos políticos. Ele tira o rendimento máximo destes operários altissimamente especializados. Importa-lhe pouco o seu snobismo tecnocrático. A cheia que eles são é, afinal, força motriz. Força motriz que, politicamente, rende.»

Eis o tom. Claro que livro não é só política. Há nele um pouco de tudo e muitos de tantos passa por ali, num retrato irónico da nossa sociedade, não diria de então, talvez melhor diria, retrato do português de sempre. 

Claro que um livro destes custa a ler quando desnuda, com sarcasmo, aqueles de quem gostamos. Mas se não soubermos suportar o riso, se nos levarmos excessivamente a sério, e não aceitarmos que possam ser assim, em gargalhada, avaliados os nossos heróis privados, é porque perdemos então da inteligência o fair play e com isso estamos já em estátua, e pior do que isso, estátua erigida ridiculamente em auto-consagração.

sábado, 20 de julho de 2019

Sarah Afonso: eu sou o que sou!

Ver esta manhã a exposição da arte popular minhota de Sarah Afonso, que agora se encontra na Fundação Calouste Gulbenkian, foi desfiar um álbum de recordações. 
Lembrei-me ao chegar a casa do livro de conversas suas com a neta, Maria José Almada Negreiros, editado em 1982 com prefácio de António Alçada Baptista. 
Procurava explicação para um facto que se me tornou evidente ante a cronologia do exposto que, pouco extensa, vai aos primórdios da juventude, nascida que foi em 1899. 
Casada com José de Almada Negreiros em 1934, terminaria a sua carreira de pintora em 1939. Em aberto ficou-me o porquê dessa pressentida e enigmática negação do que fora uma vida, tão breve interrompida.
Achei-a no livro. Primeiro a razão da pintura: «Eu entrei na pintura por emoção», diz, a abrir a conversa que arranca precisamente com essa origem minhota e com a arte popular * marcante ante a vivência vianense em que se situou o seu aprendizado de «desenho linear e trabalho de mãos», estes os depois chamados «lavores femininos».
Depois a razão da desistência [Conversas, página 112 da edição da Arcádia **] «[...] eu não sei explicar o que é a pintura. Ainda hoje uma senhora que é muito simpática, quis conhecer-me, veio cá a casa, olhou para os meus quadros e disse " a sua pintura é igual à do Almada". Disse isto para ser simpática mas isto fere-me. Ele é o que é. Eu sou o que sou. Mas que me venham dizer que a minha pintura é igual à dele, isso ofende-me, sobretudo porque ele tem um grande nome. E isso foi uma das coisas que me fez parar. Havia sempre alguém a dizer "a sua pintura é igual à do Almada". E não é nada igual».
A emoção que ditara o começo condicionara afinal o fim. Daí em diante Sarah Afonso canalizaria a criatividade para o desenho, porventura com «[...] aquele prazer da obscuridade que muitas vezes é a marca das grandes amorosas», como se diz de Maria Adelaide no folhetim de Agustina Bessa-Luís O Mistério da Légua da Póvoa.
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* Popular sem aspas, ao contrário do catálogo que, como se envergonhasse do termo, a curadora Ana Afonso o grafa em itálico e entra em remissão para obra académica a situá-lo, relativizando-o, afinal
* página 91 na segunda edição, publicada em 1993 pela D. Quixote, mais cuidada na resolução das imagens, se bem que também todas a preto e branco.

terça-feira, 28 de junho de 2016

António Alçada Baptista: a cor dos dias


Editou e foi editado. Graças a ele tantos escritores puderam sê-lo. Hoje quase o esquecemos. Militou pela sua fé religiosa. Fez da ficção forma de viver a vida. Com a finura do bom-humor, mãe da educação. Nasceu em 1927.


Também ele advogado, envolveu-se de tal modo na escrita que procurou, generosamente, não fosse a sua mas a de outros que tivesse voz. Criou para tanto uma editora, a Moraes, a quem tantos autores devem ter leitores, sobretudo os do “Círculo de Poesia”, deserdados que chegaram ao público através daquela colecção, produzida em “arte povera”, num papel que normalmente se diria afecto, no comércio, ao embrulho de víveres baratos, mas belíssimos no efeito estético e no símbolo que traduziam.
Gastou nisso quanto tinha e, já ultrapassado o limite da prudência, o que não tinha, comprometendo junto da banca, para obter crédito, o seu aval pessoal. Endividado, sem meios já para solver compromissos, teve de encerrar a editora. Numa das suas crónicas relata o pesaroso de uma senhora que quase o admoestava por ter fechado portas àquele seu projecto editorial e a quem teria retorquido, na forma de uma pergunta, sobre se a recalcitrante interlocutora tinha, vez alguma que possa, comprado qualquer livro na agora extinta Moraes. A resposta foi a que se adivinha, um nunca comprei, de facto. E assim se compreendia o porquê de não ter possível aguentar mais.
O seu envolvimento com a edição não se limitou aos livros. Graças ao seu esforço e aos meios que entusiasticamente mobilizou para tal propósito, ganharam luz do dia revistas como “O Tempo e o Modo” e a “Concilium”. Através delas, um pensamento crítico, socialmente empenhado, espiritualmente angustiado, encontrou expressão, numa cruzada de proselitismo religioso através do humanismo cristão. Resumindo o que foi esse caminho entre as pedras, João Bénard da Costa daria título a um pequeno opúsculo a que chamou “Nós, os vencidos do catolicismo”: viveram, de facto, entre uma Igreja oficial, apostólica romana e uma esquerda jacobina, irreligiosa quando não ateia, seguindo no domínio filosófico o personalismo cristão de um Jenn-Marie Domenach e de Emmanuel Mounier, as pegadas, afinal dos que eram o corpo redactorial da revista francesa “Esprit”. O Concílio Vaticano II era o seu guia, o pequeno espaço no Largo do Picadeiro, mesmo ao lado da famigerada PIDE, a sua tertúlia de moderada oposição.
Em 1968 Francisco da Conceição Espadinha, da Editorial Presença, abria-lhe as portas para os primeiros passos no domínio da ficção e da crónica ficcionada.
E é aqui que se situa o livro que escolhi para esta semana.
Curiosamente na vertente deste tipo de escrita Alçada Baptista tem um estilo bem diverso daquele que caracterizou outras obras suas, como as “Conversas com Marcelo Caetano” – que lhe valeu não pouca incompreensão da parte de uma certa esquerda política - ou a “Peregrinação Interior” onde lança as suas reflexões existenciais em torno do problema da transcendência e do sentido da vida. Aluno dos jesuítas, estudante em São Fiel, essa origem haveria de marcar-lhe todo o percurso, mesmo quando temperado com a jovialidade do seu modo social de ser.
No caso deste são crónicas, escorreitas, risonhas, que se lê com gosto e são impossíveis de resumir. Narrativas de memórias, próprias e alheias, coisas de ter ouvido dizer, apontamentos, tudo solto, mas em cada uma com um ponto discreto a deixar caminho para uma, como a “moral da história”, dos antigos contos infantis.
Classificando os escritores como os de memória e os de imaginação, colocava nestes os que não tinham vivido a vida e, por isso, se entroncava o entre os segundos. Viveu-a, e como confessou a Miguel Sousa Tavares, sem ter inimigos, «porque ter inimigos dá muito trabalho”, surpreendido com a “preguiça ostensiva” de uma África para si tão sedutora, terra onde não achou colonizadores sim emigrantes. E escreveu bem sabendo que «a literatura que me interessa está na área do prazer, não do saber e de maneira nenhuma do dever»; e sobretudo, não tendo pudor em partilhar uma conversa que manteve com um seu privilegiado leitor que, gostando muito dos seus livros, lhe introduziu ressalva ao gosto: «gosto, porém, o senhor escreve-os do lado dos ricos e eu leio-os do lado dos pobres».
Só um homem honrado o diz publicamente e é essa honradez que marcou o seu legado. Isso e dedicação aos outros. Num mundo de egoísmo galopante é exemplo e moral, antes de ser literatura.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O Tempo e o Modo: pensamento e acção


Não há pior do que não termos uma família espiritual a que chamemos nossa e, no entanto, em tantas encontrarmos o morno aconchego da pertença. Ninguém ante todos eles, fica a sensação do vazio, o desenraizamento e, itinerante, a perpétua e esgotante viagem e sobretudo o desejo.
Senti isso hoje ao chegar, findava a manhã, vindo da minha amiga Teresa, namorada de livros e por eles apaixonada, com uma mão cheia de tanta coisa que é uma dor de alma imaginar que por estarem agora aqui deixam de lhes pertencer, ela que os encontrou amorosamente.
E trouxe dois números o 12º e o 23º da revista O Tempo e o Modo. E vieram as recordações. E por isso vim aqui falar.
E como eu sei onde era a Livraria Moraes, seu projecto livreiro e editor e sua ruína, ali ontem estive, o Centro Nacional de Cultura no piso superior, criatura dos mesmos criadores. E como a revista me atraía, como se ali estivesse parte de mim e eu a ela me negava então, por tilintarem no princípio menos tostões no bolso do que o seu preço e depois porque havia ali um grupo unido por uma ideia. E aí, aquele meu eu solitário, retrai-se sem porquê. E porque crentes a um Deus que me abandonara.
Hoje compreendo tudo o que fiz por desconsiderar. 
E olho com carinhosa ironia para o que vivi e agora reencontro e fico raivoso comigo diante do que poderia ter vivido.
«O Tempo e o Modo pretendeu ser essa mesa onde as pessoas se conheceram e à volta da qual alguns se quiseram sentar», escreveu Alçada Baptista, seu director, no número que assinalava um ano de existência para, com finura de trato - essa elegância que se perdeu - acrescentar na edição que inaugurava o terceiro ano de vida: «(...) o Tempo e o Modo é uma mesa redonda para onde se convidam pessoas que soubessem estar à mesa».
Com ele chegou o personalismo cristão, Emanuel Mounier, Jean-Marie Domenach, um catolicismo que a Igreja oficial secundarizava e a esquerda laica desprezava, uma revista para crentes e não crentes, «de pensamento e acção», um espaço de diálogo numa sociedade fechada, monologante. 
Ela foi, como ali assinalou Luís Lindley Cintra, a confirmação de que é possível vencer a tendência quase inevitável para a «inquietação inactiva».
Fechou, esgotada, o título retomado pelo MRPP, como órgão de propaganda ideológica sua.
Dos números esparsos que por aí restam, amarelecidos, tenho comigo estes. Em tempos foi editado um grosso tomo de homenagem à sua existência. Tenho-o comigo, e saudades neste momento de o ler. Assim possa.
Eis, porque, por trazê-la, a revista da minha juventude, jorrou vida, transformada a inquietação inactiva na intranquilidade fazedora.
Amanhã o dia amanhecerá radioso e claro.

domingo, 3 de janeiro de 2010

O Mercado das Letras



Às vezes é nos lugares mais improváveis que se encontram as referências mais insólitas.
Comprei ontem o livro Autores, Editores e Leitores, escrito pelo Francisco Vale, fundador da Relógio de Água.
Tenho uma especial predilecção por livros escritos por quem está no mundo dos livros. Anda por aí por casa uma pequena biografia do Serafim Ferreira, li com gosto a história penosa do Alçada Baptista e suas desventuras no mundo editorial. Não consigo deixar de gostar da Conta Corrente do Vergílio Ferreira esse diário do cárcere que era a sua vida de escritor.
Só desprezo os arrogantes, os grandiloquentes no verbo e ostensivos na pose, os que escrevem livros para mostrar a imensidão da sua erudição, escrita de desamor e de ressabiamento. Como gosto de ler o Eugénio Lisboa a trazer-nos com desvelo a vida de quem escreveu através do que foi escrito!
Voltando ao Francisco Vale. Não é uma biografia são apontamentos daquilo de que fez vida. Dispersos porque a vida não é sistemática.
E que me ficou nesta manhã que acordou a chover desapiedadamente?  Ver o Alçada Baptisa, falido financeiramente o seu projecto editorial «que teve de pagar quase até ao fim da vida os prejuízos, através de descontos no seu ordenado», o Wittgenstein «que ofereceu a fortuna aos amigos ricos para que não houvesse mais pobres corrompidos», que «a nossa lei de direito de autor estipula que, na ausência de especificação, a vigência de contrato é de 25 anos e os direitos autorais de 25 por cento».
Não sei se ria se chore. Claro que o livro ensina: falando da muliplicidade de edições diz: «há mesmo grupos editoriais qu praticam esses excesso de produção para asfixiar concorrentes»; referindo-se aos livreiros acrescenta: «por sua vez os livreiros tentam impor condições que dificultam a vida às editoras mais exigentes, aumentando as "margens", exigindo pagamento de espaço e montras, cobrando a publicidade nas suas brochuras duas vezes mais que a New Yorker e procedendo às devoluções num prazo que não permite que a crítica possa ter efeito nas vendas»; reportando-se aos críticos revela: «claro que não são raros os críticos que recorrem a estratégias que implicam perda de rigor, sobretudo em "início de carreira", como a de escolherem um autor consagrado para se distinguirem, reduzindo a pó ou declarando baudelairianamente paixão por certos escritores»; tratando, enfim, do mercado dos livros traduzidos ilustra: «por cada exemplar vendido, as principais livrarias recebem pelo menos 38 por cento, o distribuidor 22 por cento, o autor 8 por cento, o tradutor 16 por cento e o editor 16 por cento. Se a tiragem se esgotar a percentagem do tradutor desce para 12 por cento».
P. S. nº 1: ao menos na página 46 encontro bálsamo para estas chagas de mendigos literários, pedintes à porta do mercado das letras: «A História Universal da Infâmia de Jorge Luís Borges poderia acrescentar à sua longa lista também a infâmia que lhe sucedeu, pois vendeu dezoito exemplares quando surgiu na Argentina».
P. S. n.º 2: a fotografia «piquei-a» do blog magnífico que se chama O Silêncio dos Livros e está aqui.

domingo, 1 de novembro de 2009

António Alçada Baptista



Acho que o jornal acabou. Publicava-se em Cascais. Era gratuito e eu tinha lá uma crónica sobre o que me apetecesse, que é a melhor expressão que há para a liberdade de imprensa. Chamei-lhe O Jardim dos Passarinhos em homenagem a um lugar próximo. Aqui fica a última que ali se editou. Será que agora estou sem lugar onde escrever, porque nas paredes é proibido?

«O António Alçada Baptista era advogado. Fartou-se, pois isto é profissão que dá para uma pessoa se fartar vivendo diariamente os problemas dos outros e a fazer disso modo de vida. Segundo confessou num dos seus apontamentos de memórias foi um maldito processo de inventário, em que sentiu que um dos contendores queria fazer dele um porrete tentando assim, através do tribunal, agredir um cunhado, que o trouxe para a Literatura. Bom homem, tornou-se militante das letras, fazendo-se editor através da Moraes. Militante católico, inspirado pelo personalismo cristão, um dos que João Bénard da Costa chamou «os vencidos do catolicismo», criou a revista O Tempo e o Modo e a Concilium. Derreteu em tudo isso o dinheiro que havia. Sofreu a preocupação das dívidas. Escritor, acabou por ser adoptado pela Presença. O seu amigo Francisco Espadinha compôs-lhe um livro de homenagem há dois anos. São coisas que se fazem quando se torna evidente que uma pessoa não é imortal. Publicara-lhe o primeiro livro em 1985. Falando do seu delicado ser Leonor Xavier sublinhou dele o «entendimento não contábil com o mundo em que vivemos, a descrença no trabalho como valor absoluto». Invulgar observação, esta, notável espírito. António Alçada Baptista tinha uma escrita amável, mesmo quando angustiada, até quando falava com Deus. Um neto escreveu um dia numa redacção a propósito da família, tomando dele a parte de escritor e do pai o trabalhar numa editora: «A Família. O meu avô é escritor e o meu pai emenda os enros». Tal qual assim, com enros. Lembrei-me disso esta manhã. Não são os que se dizem escritores que afinal o são. São aqueles que têm uma história para contar, mesmo quando na fase da «preguiça ostensiva». Os leitores esperam, pacientes. São pequenos enros da vida estes gloriosos momentos. Sem eles estava tudo completamente errado».