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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Agosto Azul

Dia que para tantos é de arroxeada mortificação, expiando do mundo as dores e purgando da alma as chagas, dia de calvário e prostração, dou comigo a ler o Manuel Teixeira Gomes, naquela miscigenação do céu com o mar e dos sentimentos com as sensações. Literatura de carnalidade, de anseios febris e desilusões vingadas na comunhão artística, viandante pelas terras do Belo, nascida da luxúria que o tempo não consome, da degenerescência com que a idade corrompe.
Agosto Azul. Livro estranho, como se sintomaticamente sem género, escandalosamente surpreendente ao virar de escusa esquina no volteio inesperado de uma folha epistolar. 
E dou com ele, contando-se, cevando o ferido orgulho macho, cortejador impenitente, pois que a exibia pelo braço, esplêndida fêmea, «fonte de celestes amavios», «manjar branco», adivinhada maciez ao acto e afinal sáfica, «inapaziguavelmente sáfica», e tendo-o por condutor e conduzido, a orientá-la por bordéis, para que, ali no serralho também ela se servisse do que lhe apaziguava a lascívia, mulheres fáceis, e ele, rasgando-se-lhe no coração a dor da impossibilidade, que a contemplação não sarava, alodado no vício, dele consciente, incapaz de lhe escapar, subrogado ali e assim se substituindo.
Dia de espera, hoje, morto o corpo, a alma sustém a respiração. Ressurgirá, como sinos de catedral, rebates de consciência, no homem integral, no máximo esplendor do pináculo das suas virtudes, nas catacumbas dos seus pecados. Domingo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Criaturas embiocadas

Gente do Algarve, gente que acredita que há quem leia o que vale a pena ser lido, foi buscar a um conto de Manuel Teixeira-Gomes, o nome para uma editora. Chama-se «Gente Singular». Eu e o texto éramos então uma mesma alegria.
Na página 17 já o narrador, saído da casa de Monsenhor Romualdo Simas e suas três irmãs Sebastiana, Prudência e Faustina, «criaturas embiocadas em lenços negros», se acoitara num pensão, ouvindo da «língua horrorosa» do Dr. Ximenes sobre o conservador da comarca de Faro que «tinha palavras de semana santa e obras de Entrudo», do Pedro Carneiro, escriturário da Fazenda que, sedento das «lindas moiras» se embrulhara na ideia hipnótica dos amavios de uma sultana a tal ponto que, aproximando-se da cama do que julgava ser uma noite no serralho, «sem acender a luz para mais apimentar os preâmbulos da aventura», se cruzara no ansioso palpar com o Celestino, sua voz grossa e sabe-se lá o quê de inesperadamente pronto.