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domingo, 24 de julho de 2022

Amélia

Escrita breve. Mónica recorda sua Mãe. Interpreta-a, exercício tão difícil, fá-la ressurgir no que ilustrou para este livro. 
É narradora e avisa quando surge, em tímido apontamento. 
Mas é indissociável a sua presença face ao que relata, assim,  como inseparável Amélia, tia de Agustina, não só do livro de que é a personagem e no qual lhe antecipa a morte, mais do que como pressentimento, como antevisão, mas inextricável do que viria a ser a própria Agustina "condenada a administrar o espírito de Amélia".
Tive a honra de editar o "Colar de Flores Bravias", aí a simbiose pictórica de Mónica e o texto memorialístico da autora da "Sibila". 
"Sibilas", aqui no plural, compreensivelmente.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Agustina - Régio: dois seres correspondentes

 


É o epistolário entre dois seres bisonhos, excepcionais na sensibilidade, Agustina a levar a palma em sarcasmo e em profundidade do pensamento, Régio, pretenso tímido, na defensiva, a defender o seu último fortim de sociabilidade, o Diana Bar, lugar que se tornou de desencontro.

E, como em toda a correspondência, ei-las as coisas miúdas, desde os reparos às pessoas, aos pequenos mandados, com a arca a comprar e a restaurar, que se tornaram duas sem que, ao final do livro, o leitor, tenha podido concluir se a segunda se chegou a concretizar.

O «luxo verbal» de Agustina está presente em toda esta escrita, adivinha a cerrada letra miúda, a ocupar toda a mancha do papel passível de ser escrita, e nela também os seus ódios e o seu orgulho, afinal a solidão, em paralelo com o misantropismo de Régio, confuso, proclamando humildade mas ardendo, afinal, no desejo de que os amigos gostassem dele e o lessem, ambíguo na sua contrição.

Claro que, como sublinha Isabel Ponce de Leão, na sua introdução ao pequeno livro, que em 2014 a extinta Babel editou, ainda com a marca Guimarães e a meias com a Câmara Municipal de Vila do Conde, a correspondência entre escritores presta-se ao voyeurismo, apelando ao consumo e assim ao aumento de vendas. Podendo ser esse o caso da primeira particularidade, e a ser ela pecado e não virtude de fruição privada, duvido que tenha ocorrido quanto à segunda. 

Através do bem cuidado índice, o leitor reencontra lugares e pessoas. É útil, mas traz, como seu resultado preterintencional, o ir-se directo ao momento em que algumas das figuras literárias que se supunham amadas, aparecerem desfeiteadas com apreciações sinceras mas nada lisonjeiras. O voyeur rancoroso terá  aí espaço para o seu deleite, breve, porém. Bem feita! Há que dar aos grandes o benefício de terem sobre o resto um outro olhar, cruel seja, até injusto.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Um gesto inacabado de Deus

 


Biografando a Mãe, Mónica Baldaque biografa-se também, tornando indissociável a sua pessoa daquela que lhe deu o ser; em simbiose natural, Alberto Luís surge-nos, como elo inextricável dessa vida em comum, vida sua pautada pela dedicação à escrita de Agustina, consumida pela profissão de advogado, enriquecida pela arte de desenhar, desenhos de que o livro nos oferece exuberantes exemplos, pena a dimensão das imagens, nisso incluindo as fotografias, não transmitir, quanto devia, o que se sente quando se vê.

Escrita densa de sentimentos, perpassam por ela personagens que julgaríamos inesperados, momentos em que o suposto conservadorismo da autora de Sibila se nos revela em surpreendente inconformismo e mais surpreendente ainda rebeldia de espírito, em humor contido, em cáustico reparo.

Livro de memórias, de lugares, de habitações, polvilhado com pessoas também, nesta parte pode ser lido pelas que lá não estão, até as da vida da própria autora; relato de sociabilidade, é igualmente espaço em que a reclusão se expressa, nota-se pudor no que em outra mão surgiria ostensivo.

Há, eu sei, uma biografia de Agustina, que se tornou controversa. escrita por Isabel Rio Novo, sob o título O Poço e a Estrada. Mas o breve livro que Mónica Baldaque acaba de nos deixar, editado pela Relógio de Água, há um outro mundo em que aos pormenores do quotidiano se sobrepõem os sentimentos familiares e as sensações íntimas, os breves instantes que são um mundo a saber.

Quando, tempos de aventura, editei em álbum o inédito Colar de Flores Bravias, que Agustina escrevera, memória de sua infância, e Mónica Baldaque amorosamente  ilustrou, pressenti então o que aqui leio. O livro ficou-se pelo tempo do esquecimento, a editora sumiu-se como um intervalo do que já vivi.

Livro singelo, afinal, como se caderno diário, tornando em escrita o que está num carta de sua Mãe: «Não estilizemos demasiado o que sentimos porque acabaríamos afinal por fazer da melancolia uma vaidade mais». É esta a sua beleza sem ênfase. 


sábado, 16 de maio de 2020

Uma fuga ao pensamento

Lentamente, como se tivesse todo o tempo da vida e não tenho, li-o na íntegra. E não poderia ser de outro modo, até porque o pouco tempo deve ser oferecido ao que verdadeiramente importa, ida a irrelevância. 
Se me perguntarem pelo fio da narrativa, não consigo reconstituir; se me pedirem para caracterizar as personagens que vão desfilando ao longo da história, também não consigo dizer. É por isso que não sou um crítico literário, apenas leitor que deixa apontamentos sobre quanto leu e, seduzido, tenta, escrevendo, convocar outros à sedução.
E, no entanto, dizem que em Agustina as figuras que retrata ao longo do que conta vão mudando e alguns perdem-se pelo caminho, e talvez assim seja, mas disso não dei conta, nem me parece que tenha sequer importância e até é benéfico que assim seja por aplacarem os remorsos de, tendo lido o que se conta, no final, não saber contar.
O Susto é um livro magnífico e tenho pena ao pensar que talvez já não o volte a ler.
Tenho o hábito insólito de estar atento ao momento em que surgiu a palavra ou a frase que dá título aos livros, como se em busca da pegada que assinale a ideia que gerou a criação. É um exercício minudente, eu sei, mas a vida não é só grandeza; desatento, como sei ser, é uma forma de disciplinar a concentração. E achei, e quando encontro surge um contentamento redobrado, para além daquele outro que provém de ter lido. E ali está, na página 287, desta edição original, tirada pela defunta Guimarães em 1958 - «[...] mas a vida não são, de resto, os assuntos que se nos oferecem, as experiências que sofremos - e, acima de tudo, o susto.» - e de novo, em modo fugaz  na página 324: «o susto tinha-o pois dominado.»
Sei que há quem deteste Agustina por causa dos seus aforismos e tenho comigo o livro Aforismos que a mesma editora - ó fúria dos irritados - publicou em 1988 e em cujo pórtico surge, em jeito de explicação, a lógica deste modo de escrever enleando o texto em máximas e sentenças: «o meu pensamento estende-se de uma maneira caótica e para o deter recorro ao aforismo. E dou muita importância aos aforismos; são uma fuga ao pensamento.». E seguramente dá importância, porque, para si, como o assinala a contracapa dessa obra: «o aforismo é uma lição, e não o pretexto para uma pirueta».
Leio, já o disse aqui, de lápis na mão a sublinhar e fica como critério, o quanto sublinhei, na horizontal a frase, na vertical todo o período, o parágrafo, por vezes as páginas inteiras onde seria impossível destacar um excerto breve como digno de realce: aqui muitíssimo.
Posto isso, é, porém, impossível trazer aqui a lição que esse modo de escrever traz, pois é experiência íntima, intrespassável, redundaria em ofensa se fosse tentado. E, no entanto, é o que apeteceria fazer, de modo tão estridente quanto está vincado na sensibilidade.
Deixo, num outro registo, o arrebatador, o modo como arranca esta escrita: «Num povo pessimista, não o bastante para ser neurótico, nem exasperado para ser sobre-humano, depara-se-nos às vezes certo fenómeno de combustão interior que é pouco menos que uma nova ética». É uma frase típica, desconcertante pelo remate, porque do encadeado do raciocínio esperava-se uma diversa conclusão. Tantas suas são precisamente assim, a surpreender, trazendo o leitor de novo ao dito e vendo que ilusório era o pensado ante um novo pensar aquele encadeado de ideias, aquele jorro de sentimento.
E, ainda em outro, esta também: «E no seu andar rápido, há uma despedida e a justa fugacidade da juventude.»: lê-se e graficamente como se «rápida, a sombra» [perdoe-se a incursão por outro autor] vemos escapar o tempo restante na simbólica nostálgica de um adeus.
Não escrevo mais, apesar do desejo. É sábado à tarde e hoje está Sol. Seja a contenção desta breve nota convite à leitura, pois o livro é encontrável em edição contemporânea, publicado em 2019 pela Relógio de Água, que, em feliz hora, retomou a edição do cânone.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Alienistas e Tribunais

Agustina Bessa-Luís escreveu-o, na forma de folhetim no já ido jornal O Independente, em 54 episódios, entre Maio de 2001 e Maio de 2002. Surgiu depois editado em livro, com capa de Vasco Rosa.
Má revisão desfeou a paginação da obra sobretudo nas hifenizações. Mas que passe isso adiante, minudência oficinal em território de sublime.
Ser folhetim deu oportunidade ao mais característico estilo de Agustina: a história é contada com  repetições, nem sempre idênticas na menção, meio de lembrar ao leitor semanário o que pode ter esquecido com a passagem do tempo; e da narrativa sobressaem os aforismos. O que poderia passar por má técnica ganha aqui a força arrebatadora de uma reiteração de tema que prende o leitor com um caminho pelo fio da história face ao qual tudo são nuvens de divagação e Arte em suas flores.
São, eu sei, os aforismos o mais controverso dessa forma de contar para aqueles a quem incomoda seguramente a profunda sabedoria que deles dimana, sabedoria de conhecimento pela instrução e pela cultura, sabedoria pela experiência de vida, sabedoria sobretudo pela profundíssima sensibilidade à alma humana. Seguramente tomaram-no tantos cujo erguer do lugar comum é voo breve e, sobretudo, rasteiro.
De tudo isso, a história é quanto menos importa: no caso a de Maria Adelaide Coelho, filha de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias, que o marido, Alfredo da Cunha, então director do periódico da Avenida da Liberdade, fez internar em manicómio, por razão ou ganância fosse, na peugada de uma história de paixão entre ela e seu motorista.
Para esta narrativa Agustina convoca, como em contraponto, o que se escreveu então sobre o caso,  a começar pela personagem, facto que arrastou a opinião, e situa-a no advento e morte do sidonismo, o estretor da República, as primeiras pedras do Estado Novo a serem forjadas; e imiscui-se mesmo em diálogo com as suas fontes, tornando vivo, pois que contemporâneo, o relato que recupera à memória pública.
História de alienistas e tribunais, vêm com ela e suas pulsões o que para ela necessariamente trouxe a psicanálise e seu foco na histeria e, em permanente registo a dúvida sobre a sanidade dos seus principais intervenientes; e, sobretudo, esse desfolhar de intimidades erógenas a que a autora se não furta e a torna, a quem a não conheça, surpreendente. Agustina nestes domínios, engana pela aparência.
Talvez seja hoje impossível encontrar o livro ou, pelo menos, muito difícil: o tempo de sobrevivência da escrita no mundo em que vivemos, não chega a criar lembrança no tempo em que se escreveu, quanto mais dezassete anos depois.
Escrevo este apontamento para que nem tudo se perca, pois nem tudo há neste ano da morte da sua autora, e gostaria de o terminar com uma de tantas frases que ficaram a germinar, sublinhadas que foram para que um dia depois as reencontre, assim releeia, a ter ainda tempo para tal. 
Tiro à sorte, abrindo o livro numa página qualquer, ao acaso. Fala na página par de Sidónio Pais para quem «a morte era-lhe necessária depois de tanta grandeza» e volta na ímpar seguinte a Maria Adelaide, que «acabava sempre com aquele soluço na garganta, um desejo de amor que a fazia pálida, distraída e cansada».
Pudesse, copiava-os todos, magníficos que são, maravilhosos de espanto.

sábado, 20 de julho de 2019

Sarah Afonso: eu sou o que sou!

Ver esta manhã a exposição da arte popular minhota de Sarah Afonso, que agora se encontra na Fundação Calouste Gulbenkian, foi desfiar um álbum de recordações. 
Lembrei-me ao chegar a casa do livro de conversas suas com a neta, Maria José Almada Negreiros, editado em 1982 com prefácio de António Alçada Baptista. 
Procurava explicação para um facto que se me tornou evidente ante a cronologia do exposto que, pouco extensa, vai aos primórdios da juventude, nascida que foi em 1899. 
Casada com José de Almada Negreiros em 1934, terminaria a sua carreira de pintora em 1939. Em aberto ficou-me o porquê dessa pressentida e enigmática negação do que fora uma vida, tão breve interrompida.
Achei-a no livro. Primeiro a razão da pintura: «Eu entrei na pintura por emoção», diz, a abrir a conversa que arranca precisamente com essa origem minhota e com a arte popular * marcante ante a vivência vianense em que se situou o seu aprendizado de «desenho linear e trabalho de mãos», estes os depois chamados «lavores femininos».
Depois a razão da desistência [Conversas, página 112 da edição da Arcádia **] «[...] eu não sei explicar o que é a pintura. Ainda hoje uma senhora que é muito simpática, quis conhecer-me, veio cá a casa, olhou para os meus quadros e disse " a sua pintura é igual à do Almada". Disse isto para ser simpática mas isto fere-me. Ele é o que é. Eu sou o que sou. Mas que me venham dizer que a minha pintura é igual à dele, isso ofende-me, sobretudo porque ele tem um grande nome. E isso foi uma das coisas que me fez parar. Havia sempre alguém a dizer "a sua pintura é igual à do Almada". E não é nada igual».
A emoção que ditara o começo condicionara afinal o fim. Daí em diante Sarah Afonso canalizaria a criatividade para o desenho, porventura com «[...] aquele prazer da obscuridade que muitas vezes é a marca das grandes amorosas», como se diz de Maria Adelaide no folhetim de Agustina Bessa-Luís O Mistério da Légua da Póvoa.
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* Popular sem aspas, ao contrário do catálogo que, como se envergonhasse do termo, a curadora Ana Afonso o grafa em itálico e entra em remissão para obra académica a situá-lo, relativizando-o, afinal
* página 91 na segunda edição, publicada em 1993 pela D. Quixote, mais cuidada na resolução das imagens, se bem que também todas a preto e branco.

sábado, 6 de outubro de 2018

Agustina: ortografia e nascimento

Que posso dizer quando leio Agustina Bessa-Luís, mesmo pequenos textos de pequenos livros quando em cada um, quase diria em cada linha, encontro uma ideia, uma sensação, um sentimento, que dariam para parar, tempo de reflexão e de enamoramento e a leitura se adensa e caminha devagar?
Trouxe o Caderno de Significados, pela única razão de ser de aparência diminuta e cansa, trazer para regressarem não lidos aqueles livros para os quais, extensos sendo, não se encontra tempo, na escravidão em que se tornaram as nossas vidas para ler, folheando apenas que fosse.
E pela tarde morna de sonolência e durante a noite irrequieta de insónia prossigo pelas suas cem páginas e ainda não terminei, lendo ao acaso tal como ela parece ter escrito, notas e crónicas «em folhas soltas, em cadernos de notas, em espaços brancos de impressos, em margens de livros, dispersos em pastas de congressos, em gavetas de móveis».
Direi que de tanto ficou neste momento a escrita sobre a escrita e desta o modo de escrever: «a importância da ortografia é a importância do nascimento [...]. Eu tenho a mesma letra dos meus cinco ou seis anos, miúda, desenhada como o arco-íris num rio. Aprendi assim a jactância dos efes, a morbidez dos ás, os bês abaciais e o tê que parece um Quixote com a sua bacia de barbeiro na cabeça».
Que melhor e mais magnífico poderia ler? «Quem não ama a ortografia não respeita a cultura, peregrinação nas matas do alfabeto».

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Agustina: a obra incompleta

As Artes Entre as Letras dedicou largo espaço deste seu último número aos 90 anos de idade de Agutina Bessa-Luís. Autora de tanto livro esgotado, ela que aquilo para que nasceu foi para escrever.
A propósito disso mesmo Isabel Ponce de Leão escreve o que me permito citar pois que sintomático e exemplar: «Quando foi anunciada a publicação da Opera Omnia - edição ne varietur  das obras completas de Agustina - pela Guimarães Editores, chancela da Babel, já o acesso a certos volumes era praticamente impossível e, faltando-me alguns, dirigi-me alegremente à editora, no Edifício da Biblioteca Nacional e, avisadamente, comprei e paguei antecipadamente a obra completa que ficou de me ser enviada à medida que os diversos volumes fossem publicados. Corria o ano de 2008 e fui informada que a obra completa seria publicada aproximadamente até 2010, De facto, desde 2010 que não recebo qualquer volume nem satisafção, mas o número de volumes recebidos quedou-se em dez...sendo como é, a obra de Agustina composta por cerca de uma centena de títulos».
O trecho citado dispensa comentários pela corajosa clareza. Fica a questão enunciada e a dúvida em aberto: que irá suceder ao resto da obra, cujos direitos foram adquiridos e corre o risco de não ver, nesta edição, a luz do dia?
No mesmo jornal perguntada sobre «em que que ponto se encontra a reedição da obra completa de Agustina Bessa-Luis?» responde sua filha a escritora Mónica Baldaque: «a retomar em breve.»

quarta-feira, 24 de março de 2010

Abastardamento e canja de galinha

Somem-se os defeitos, multipliquem-se pelas críticas, leve-se em conta a arrogância. Agustina Bessa-Luís é um génio. Primeiro, pela inteligência, enfim pela inteligência. Há na sua escrita um estilo, mas há quem o considere denso e rebuscado. Há trama, mas há os que pensam que ela se enrola em detalhes e contradições e o leitor perde-se. Mas há, isso sim, em cada página e tantas vezes muitas vezes em cada página observações e modos de dizer que são eles próprios um tratado sobre a questão. «A nobreza portuguesa abastardara-se pela pequeno virtude, e melancolia dos vícios de família e neflibatice de sala de jantar». E como se não bastasse para ter demonstrado o seu ponto acrescenta: «os Braganças gostavam de canja que é uma dieta sem imaginação».
Onde vem isto? Na biografia de Floberla Espanca. São os a-despropósitos o que marca a diferença. Não visam
reforçar um discurso, surgem assim, desagregadores, geniais.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Os bichos em 16 mm



Estranha e incómoda situação, embaraço em confessá-la. Mas a imagem era muito má, o que é um crime para um filme sobre uma pintora, e o som era péssimo, o que é uma ofensa quando Sophia de Mello Breyner lê um poema seu, e uma agressão para os espectadores que querem entender quando as falas são em francês, e há muitas e longas e extensas e sem planos de corte.
E depois, tenho de admitir, há num qualquer labirinto de mim uma rejeição funda para com a pessoa do Arpad, na mesma medida em que há um denso apreço estético pela Vieira da Silva. Não sei. Talvez o olhar, a pose, o conjunto. Talvez o vê-lo velho numa altura em que se tem medo do que aí vem com a velhice.
E depois não encontro o livro que a Agustina escreveu sobre eles e temo tê-lo perdido, mas eu nunca perco livros, resta-me tê-lo emprestado.
Foi o documentário de José Álvaro Morais. Rodado num tempo em que as calças eram à boca de sino, como se nota no final quando a ficha técnica está ilustrada com fotogramas dos próprios. E os cabelos compridos. E as barbas em desalinho. Em 1977, com um apoio da Gulbenkian que meteu «intrigalhada e desavenças pelo meio».
João Bénard da Costa gostou muito do filme e ele era critério. Eu detestei-o muito e sou apenas espectador, aquele para quem os filmes são feitos.
Ficaram as cores, sobretudo o azul. E ficou-me a cena íntima em que, sentados lado a lado, na proximidade de um sofá, Maria e Helena e Arpad, o plano recortado de modo a que se pressente mais do que se vê, e se nota a sua mão acariciando o que se julga ser a mão do seu companheiro, cujo olhar extasiado raia o lúbrico objecto do prazer, e, afinal, é um gato, o bicho, que ela acaricia, meiga, doce, dedicada.
Ma femme chamada bicho, assim se chama o filme. Oitenta minutos de nervos. Agora que acabou, onde está o meu livro, em capa azul petróleo, editado pela Guimarães, onde a Agustina conta o que viu, sentiu e pressentiu  e o filme não chega sequer a surpreender?