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sábado, 6 de junho de 2026
Vergílio Ferreira: memórias sem pose, quotidianas
Eis a crónica que publiquei no penúltimo número da quinzenário As Artes entre as Letras. O repto suscitado pela Directora, Nassalete Miranda foi que se escrevesse sobre a memória. Lembrei-me da Conta Corrente do Vergílio Ferreira.
Tenho consciência de que, como alguém disse, as memórias podem ser obras de ficção, o que depende da probidade intelectual de quem as escreve. Com esta ressalva, sou um leitor compulsivo das mesmas, nisso incluindo os diários, os quais são uma memorialística talvez mais sincera porque espontânea, descontando que o seu autor possa rever o impulso emotivo inicial que levou a confiá-las a texto escrito.
E, convidado pela nossa gentil Directora, a orientar esta minha crónica ao tema da memória, eis-me em torno de um dos escritores que tenho como referência, Vergílio Ferreira.
O autor de Aparição deixou-nos duas séries de diários, intitulados Conta Corrente, iniciados já depois dos 50 anos, onde nos revela que o seu amigo e conterrâneo Eduardo Lourenço o aconselhava a deixar-se desses apontamentos que só o empobreciam aos olhos dos leitores, mas nos quais porfiava com regularidade.
Está ali a pessoa do seu autor, mesmo nas minudências quotidianas que amplificava em tragédias existenciais, os ressentimentos ante quem tentava dele obter uma entrevista, um prefácio, um comentário, a participação num colóquio, o recalcitrar mesmo quando eram ex-colegas do Liceu Camões a tentar retirá-lo da sua tebaida para um almoço na Baixa.
Não ignorando que escrevia para a posteridade, não se poupou ao deixar comentários biliosos contra os neo-realistas, afinal a sua origem – que abjuraria a partir do romance Mudança – a quem apodava de “neo-realeiros”, para com o recém-falecido escritor Lobo Antunes, de quem diria ter tido, na Literatura, «entradas de Lobo e saídas de Antunes», ou ainda para com o Baptista-Bastos, que alcunhou de “Bau Bau”, para não excluir o José Saramago e tutti quanti.
Sou o primeiro a admitir que há, nesse reviver, excertos em que o nível se rebaixa, como quando, a propósito de António Nobre, escreve com brutalidade: «Há neste poeta o que me encanta e o que visceralmente me repugna. E o que me repugna tem que ver com a sua feminilidade que no caso da amizade com o Alberto de Oliveira roça a panasquice».
O próprio Vergílio Ferreira tinha disso consciência pois num apontamento no primeiro volume dessa obra considera esse tipo de escrita «o rés-do-chão de mim como “escritor”, a minha rasa banalidade com uma caneta e uma folha na mão».
Apesar disso descontado, não hesitei em ler a totalidade dessa Conta Corrente, os cinco da primeira série [1969-1985] e quatro da segunda [1989-1992] e não me arrependo de o ter feito. Cheguei a pensar e ainda imagino, irrealista como sou, em compor um índice onomástico que facilite a estudiosos e a voyeurs o estudo da obra e digo aqui porquê dessa não contrição.
Logo em primeiro lugar, porque há, nessa tumultuosa recordatória, o humano, demasiado humano, que ali se surpreende e espanta, amiúde o violento, brejeiro mesmo, frequentemente a injustiça, a desforra e a inveja, mas tudo isso que proporciona um agitar a mente, o acirrar o espírito crítico, concitando o leitor a encontrar, depois do riso, o siso de uma avaliação proporcionada. É assim, como é assim, citando os contemporâneos, ante Luiz Pacheco, ou João Pedro George, cujos virulentos exercícios de estilo têm de ser tidos em conta com uma boa dose de desconto.
Além disso, porquanto entre aluvião do cascalho do dia-a-dia e a brita dos corpo-a-corpo ideológico, há pepitas auríferas de pensamento original e motivador e referências culturais do maior interesse.
Retirado entre as aulas a alunos do Liceu e a solidão do seu sofá, tábua nos joelhos e caneta de tinta permanente na mão, escreveu em letrinha miúda, uma obra que, hoje a caminho do esquecimento, é ponto de referência essencial, na Literatura, na revelação existencial e no combate pelas ideias.
Escapa a este registo o diário correspondente a 1944-1949, que, com prefácio de Helder Godinho e notas de edição de Fernanda Irene Ferreira, a Bertrand Editora publicou em 2008.
Revela-se aí a obsessão pela diarística. Escrevendo em Melo, a 8 de Setembro de 1945, anota: «Pela centésima vez começo um diário. Diabo! Não serei capaz de me obrigar a reflectir cinco minutos por dia? Certo o diário escrito com fins de publicação é idiota e pedante. Mas eu não vou escrever para publicar».
Escreveu e publicou. E permito-me dizer: felizmente. Há neste diário de primícias a expressão do enamoramento pela que, a partir de 1944, seria sua mulher, Regina, Regina da Costa Kasprzykowski, que amorosamente cuidou do seu espólio, hoje confiado à Biblioteca Nacional: «A R. diz-me que o mundo é “estreito”. Que, por isso, eu tenho para o mundo dos outros, olhos deslumbrados e invejosos. Que, se eu chegasse a ser os outros, ficaria desiludido».
Só por uma frase assim vale a pena ser o papa-léguas da longa estrada destas memórias quotidianas de um homem sem pose, solitário num mundo de poseurs.
domingo, 20 de outubro de 2019
Tomaz de Figueiredo: lido na minha toca
Luto por ler, a horas desencontradas, surgidas pela noite, forçando-me a tornar em descanso uma pausa nos deveres que, almas penadas, não param.
E li assim, folha a folha, até mesmo às últimas folhas que a teimosia me fez passar para a manhã de hoje e bem poderia ter terminado ainda ontem, mas há aquele resíduo de liberdade que é deixar para amanhã o que bem poderias fazer hoje e assim fiz.
E que livro extraordinário e sobretudo que descoberta surpreendente. Digo isto, bem sabendo que os meus espantos são a admissão pública da minha ignorância, pois Tomaz de Figueiredo tem Obra Completa editada pela Imprensa Nacional, graças à iniciativa daquela outra alma sensível que é António Braz Teixeira. Mas que querem se eu não o conhecia, e só cheguei a ele porque no livro Estátua de Sal de Maria Ondina Braga li uma sua carinhosa apresentação da obra, escrita como a negar-se a apresentar mas tão cheio de júbilo e admiração pela escritora sua conterrânea? E se, estando a trabalhar sobre o Jornal de Crítica Literária para o que depois direi, não desanimei quando Alberto Franco Nogueira (para muitos ainda) seu inesperado autor faz um delicado reparo a uma sua segunda obra, o Nó Cego, vendo nela seriedade mas frieza?
Agarrei-me, assim, a A Toca do Lobo, ademais numa encadernação maravilhosa que alguém com mimo mandou envolver a obra, em macia pelica marron, com letras douradas, incluindo as da menção «prémio Eça de Queiroz (romance)/Concurso de Prémios Literários (1948) do Secretariado Nacional da Informação», menção que por certo condenaria o livro para a fogueira em que os inquisidores contemporâneos, polícias do gosto e serviçais do politicamente correcto, logo o condenariam, visto o ano da edição (1947) e o prémio governamental que recebeu.
Mas eu estou na idade do querer lá saber e já nem luta travo com inutilidades, usando antes o tempo de guerra para ler em paz o que os outros repudiam, e ler até mesmo o que esses tais proprietários do bem e do bom idolatram - sem suporem sequer e nem teriam, insignificante eu - ser tão quisto por seres como o meu ente leitor.
Voltando ao livro e à descoberta.
Há nele, em todo o seu esplendor, a notável língua portuguesa, a mesma de que cada vez há mais gente a usar menos vocábulos e frases, económicos com os termos porque curtos com as ideias, mas que aqui surge a trazer-me memórias do que ouvia em casa e assim rememoro, palavras que, sem se topar o significado, quase sugerem, logo pela fonética, ao que vêm: o «não pagar a pena estar com pequices», os «codiciosos padrecas», os tecidos «enfeitados de borbetos», a boca «mal desfranzida», o «pontapé [que] foi muito bem assopado», o «como quem arrancasse os pesos e estorcagasse o pêndulo dum relógio», a «cambulhada de filhos» e tanto mais.
E há também aquelas formas de dizer que, de originais, acrescentam ao dito, o feito: «lia-a, lia-a, saltando linhas, atrapalhando páginas», «ia ficando mais vermelho que os corais de um peru, quase lhe saltavam as cordoveias do pescoço», a tia Francisca «aquela alma enérgica e grande demais para corpo tão sequinho, quase só feito de roupa», o «desarreigar da memória», o «jovem levita, fulo, depois de uns palanfrórios casuísticos, dumas alicantinas que deixaram a tia Francisca de gesso. /Pois sim! Levou para tabaco)» e uma torrente de expressões em luxúria que é deleite.
Mas não é apenas prodigalidade vocabular e estilística de que a obra é feita, sim, e muito, aquilo a que alguns detractores de minguado verbo, invejosos, apodaram de "regionalismos", a rebaixar, tentando alçar-se em cima da escória do palavrão soez porquanto inútil, os do que Vergílio Ferreira, bilioso, na sua Conta Corrente chamava [e com vossa licença, eis tal qual, volta Gil Vicente!] «da Literatura de caralhadas».
Escrito sobre casa em aldeia, surpreendendo dos rurais o verbo, A Toca trá-los no discurso directo e retrata-os com as cores do seu modo de ser e falar.
Há no sedimento desta escrita crítica social aberta, à justiça duvidosa e ao clero prevaricador, de carinho pelos dos baixios da vida, nisso incluindo as senhorias morgadas em miséria envergonhada, mendigos sem ousarem estender a mão, e sobretudo aquela fome de vida e de amor, aquela ânsia de tempo e o desejo de paz no silêncio da criação.
Livro de linhagem há nele patente desprezo pelo estado vil a que chegaram os que pela origem tinham deveres e se afundaram pelo gozo das liberdades até ao rebaixamento: «Já reparaste na vergonha que é, o geral disso a que ainda se chama fidalguia portuguesa? A pedir vassourada, meu filho, a pedir vassourada! Já quase sem distinguir entre uma espada e um chanfalho de polícia...Não to digo por vaidade, pois não me julgo de melhor sangue do que tantos e tantos, mas, em muitos desse tantos, o bom sangue é o que já secou... Misturado com muita borra...Uns porcos!).»
Livro de desesperada solidão, há, apanhada em instantâneo fulgurante «a multidão dos felizes, os de tão acanhada alma, que se confessavam e eram, felizes!».
Leio, li, pudesse achar tempo, fabricando-o, leria de novo. Descobri outro livro seu, desta feita com prefácio risonho - e como não poderia sê-lo - de Onésimo Teotónio Pereira. E vou comprar todos os que a Imprensa editou, sofrendo-lhe o incompreensível preço usurário, vergonha porque de uma entidade que deveria promover a cultura tornando o ler barato e assim acessível.
Fico por aqui. Voltando aonde comecei direi, citando o excerto final do que escreveu para Maria Ondina: «Apresentar este livro? Um livro destes?! Apresentá-lo só o apresentaria se cada leitor aqui o chamasse e lho lesse».
Tal e qual.
Venham, pois, leiam por mim e o que eu não li.
domingo, 17 de janeiro de 2016
Vergílio Ferreira: inumado para as efemérides
Coitado do Vergílio Ferreira, agora à mercê de se comemorar o centenário e ser, enfim, retirado do covil do esquecimento dos leitores, exumado para a procissão da efeméride - que é a forma necrófila de o mercado tentar relembrar - ele que nos trazia aquela escrita angustiada que passou de moda, malquista num mundo que só quer heróis trágicos enquanto patéticos e obscenos; mais: ele que, ao romper com o neo-realismo, tornando-os ódio de estimação, como ressalta da sua Conta-Corrente, mais a fuzilaria da polémica com o Pinheiro Torres, ficou isolado porque sem outra barricada outra salvo a dos poucos amigos e ex-alunos. E resistentes leitores.
Vejo-o, hoje Domingo, capa do JL, tocando violino, coisa que poucos sabiam ele fazia, assim Einstein e também Sherlock Holmes, o perfil esfíngico.
E encontrei-o ontem na Rua de Anchieta, em alfarrabista de rua, na edição facsimilada do Vagão J, o romance que a Bertrand ainda reeditou antes de o abandonar, a obra que ainda lhe garante lugar cativo no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, até que com Mudança [como escrevi aqui] moveu-se para a consciência literária de que o Homem não é apenas a luta pelo pão, nem a Literatura manifesto.
Escrevera já sob o livro [aqui]. Hoje publico o que sobre ele pensava um capitão que trabalhava nos Serviços de Censura, em 1947.
Fui ali à estante, onde estão quase todos e quase todos lidos, de lápis na mão, que é a forma de ler linha a linha, palavra a palavra. E leio no seu prefácio à segunda edição: «um livro é o registo do nosso diálogo com o mundo, ele não pode emendar-se como a juventude que errámos».
segunda-feira, 23 de março de 2015
"A Galinha", de Vergílio Ferreira
Terminados os trabalhos forçados, reconciliei-me esta noite com Vergílio Ferreira como contista porque, ao julgá-lo sobretudo romancista, não gostara do que lera no registo breve que é necessariamente o do conto. E surpreendi-me esta noite com o seu bom humor corrosivo e fina ironia, eu que o tinha por sizudo e carrancudo, azedo, tal como me habituara a vê-lo na intimidade da sua Conta Corrente, o diário de que li na íntegra as duas remordentes séries.
Tudo sucedeu porque li A Galinha, essa notável peça de faiança literária, carregada de momentos surpreendentes no modo de escrever. Logo «porque era uma galinha de barro» ser uma frase que surge ao leitor quando, ante o lido, ele se convencera de que a narrativa incidia sobre um bípede emplumado. E sobretudo porque de uma quezília de inimizade recalcada numa família que tudo ofende se espraia em ódio velho para toda uma aldeia, com saldos cada vez mais positivos - ironicamente as baixas aumentam o saldo - de mortos, feridos, moribundos a que se juntam os que, no intervalo, fenecem de morte natural, mais a guarda e a tropa e a amotinação permanente com contas antigas por ajustar.
Foram, pois, risos na noite, a deixar na vizinhança a ideia de que ensandeci. Lá fora o vento soprava, ele também «escabujando de raiva e de ameaça». E eu aqui, entre folhas e um cobertor que o tempo enregelou, rumo ao final do «escacar a cacaria» - eu, sim, que teria escrito «escaqueirar» porque há termos que nos chegam assim das raízes do berço - de tudo sobejando - num mundo que em pó se há-se tornar - pulverizado o galináceo em faiança a camartelo, a estampa da Santa Bárbara a protectora face às trovoadas.
A Galinha. Conhecia a de Clarice Lispector. Hoje veio outra «castanha nas asas, menos castanha para o pescoço e a crista e o bico tinham a cor de um bico e de uma crista».
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Mudança: Vergílio Ferreira
Leio "Mudança". E pressinto tudo. O homem na sua máxima extensão como manifestação do atributo Humanidade. E vim aqui, talvez imperfeitamente encontrá-lo na voz dos outros e na sua, excerto da obra e do criador,
domingo, 2 de novembro de 2014
O pau e a pedra
Foi ontem, antes de o dia findar, que, no meio de tantos outros de diversos autores e esparsos assuntos, o encontrei, aqui no bairro, no Artes e Letras, o espaço alfarrabista do Luís Gomes, convivial, amigável, onde livros e conversa se tornam indistintos.
Com este livro Vergílio Ferreira assinalou o corte com o "neo-realismo", trilhando desde então a estrada solitária que o levou a incompatibilizar-se com muitos dos que se haviam arregimentado em torno desse programa literário ideológico da arte como intervenção política, como denúncia e com quem teve polémicas violentas e de quem acabou por guardar rancores de injustiçado, sem que a História o engrandecesse suficientemente pois não há santos sem Igreja que os santifique e ele morreu só. No Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira a sua pessoa é interrompida aqui.
Sei que é uma terceira edição a que tenho aqui comigo, mas que importa se o persegui estes anos todos, à sua procura, para encontrar aquilo que Eduardo Lourenço, seu conterrâneo, amigo e aqui prefaciador avisa ser «caminho que é ruptura ou, em todo o caso, desconfiança em relação à luz excessivamente clara que banhava então o nosso universo romanesco».
O exemplar vem autografado, na escrita miúda que era a sua, económica e concentrada, firmada a dedicatória no 1º de Maio de 1969.
Esta manhã, em que escrevo, ao ver a data fui por um ímpeto à estante conferir no seu diário, a Conta Corrente, no primeiro volume da primeira série o que teria havido nesse dia. Foi uma quinta-feira. Escreveu: «Fui à Baixa. Estive com o Urbano Tavares Rodrigues. Disse-me que a crítica de Le Monde devia ser de um emigrante português emigrado em França e que assina com pseudónimo francês. Bom Urbano, Tenho um dia de falar dele».
A crítica, saída a 19 de Abril, o mês em que morreu Mário Sacramento, incidira sobre a sua obra Aparição e enfurecera-o. Escrevera sobre ela uns dias antes, irado, militante do seu novo rumo: «O crítico de Le Monde (19-IV) malha-me no "lirismo". O que não malharia num Hermann Broch! Só depois de se professar optimismo, claridade e água do mar, se o reumatismo está de acordo, é que se pode conversar».
Ei-lo preparado para a pancadaria. Para onde não chegar o pau leva a pedra.
sábado, 1 de novembro de 2014
Um vento amplo de solidão
Custavam quatro escudos, publicados pela Edição de Fomento de Publicações, Lda., sita na Travessa do Sequeiro, n.º 4, rés-do-chão, em Lisboa, sob a direcção literária de Manuel do Nascimento.
Tudo nomes esquecidos, quase como o do autor da capa, Bernardo [Loureiro] Marques [sobre este notável pintor, ilustrador, veja-se aqui].
Era a colecção "Mosaico", que tentava ser, no seu formato em oitavo uma «pequena antologia de obras-primas», trazendo ao leitor o gosto pela leitura.
E conseguiu comigo. Li há pouco O Encontro, a morte do engenheiro, às mãos dos irmãos de Delfina, a moça que o lugar lhe proporcionara «recozidos de ódio, trémulos de delírio, tudo neles trabalhava como um desespero animal. E muda, a toda a roda, a montanha aturdia-os de solidão». E assim «ele sentia que a aldeia lhe impunha a violência da sua verdade», encurralado, «um vento amplo de solidão e montanha embatiam-lhe no peito», «num pavor de precipícios».
Os contos que publicou este pequeno volume de 48 páginas, impresso sem data, mas em 1957 [ver aqui] na Sociedade Industrial Gráfica [hoje Telles da Silva], na Rua de Campolide, n.º 133, estão publicados no volume de contos de Vergílio Ferreira na Obra [quase] Completa que a Bertrand editou e a partir de certa altura deixou esgotar sem reimprimir.
Manuel do Nascimento, mineiro, trabalhou nas minas de Jales, onde conheceu Soeiro Pereira Gomes, Doença pulmonar fê-lo abandonar a profissão e dedicar-se ao jornalismo, à escrita e à edição.
A sua obra, hoje votada ao apagamento, é um dos expoentes do neo-realismo, fruto de experiência vivida tornada literatura. [sobre a sua pessoa leia-se mais, aqui e aqui]
Por esta altura já o autora de Aparição tinha mudado a agulha, abandonando o alinhamento que o levara a escrever Vagão J. Fora tudo com Mudança. «Não de deixou o autor de "Mudança" contagiar pelo fácil e assim os seus primeiros trabalhos não revelam o esquematismo da grande parte das obras dos escritores que caminham nas letras seguindo o mesmo rumo», escreveu, corajosamente, o editor.
sábado, 19 de outubro de 2013
Criptomnésia e chupismo...
Li e lembrei-me do que sucedeu quando o escritor Luiz Pacheco escreveu o seu diatribe sobre a comparação entre o "Domingo à Tarde" do Fernando Namora e a "Aparição" do Vergílio Ferreira.
Sucedeu ao ler este excerto: «Um dos casos mais conhecidos de "roubo" na literatura talvez seja o romance Lolita, de Vladimir Nabokov, publicado em 1955. Diferentemente do que se imagina, a história do homem culto, que recorda seu caso tórrido com uma pré-adolescente, na verdade foi publicada pela primeira vez sob a forma de um conto pelo alemão Heinz von Lichberg, em 1916.
O escritor e ensaísta Jonathan Lethem relata a estranha coincidência entre essas duas narrativas no artigo "O êxtase da influência", publicado em 2007 pela Harper''s. No texto, Lethem se detém sobre a possibilidade de Nabokov ter se apoderado da trama conscientemente enquanto esteve em Berlim, em 1937. Outra hipótese levantada pelo ensaísta é a de que um dos romances mais populares do século 20 tenha sido fruto de um fenômeno conhecido como criptomnésia, espécie de plágio "não deliberado" que ocorre quando uma memória ressurge sem que o sujeito se dê conta de sua origem, tratando-a como se fosse original.
- A criptomnésia é uma memória escondida, que não se sabe ter. O fenômeno pode ser cogitado quando o artista nega ter feito o plágio de forma intencional ou não se lembra de ter "copiado" algo - explica Daniel Martins de Barros, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo e coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica.
Para Barros, a tese da criptomnésia, na prática, é muito difícil de ser provada, mas por ser uma tese acatada pela Justiça, pode servir como atenuante.
- Embora não se trate de uma doença, não há deliberação racional ou produção intencional - pondera. »
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A totalidade do texto citado está aqui
Fonte da foto: aqui
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Vila Josephine
Li tanto do Vergílio Ferreira, da ficção à ensaística. Dei comigo a pensar que o conheço, ao seu pequeno mundo, a casa em Fontanelas, à tábua que colocava em cima dos joelhos para escrever, aos acessos de mau humor e à sua interminável Conta Corrente. Sobretudo na sua infância.
Hoje levaram-me, porém, de passeio ao desconhecido, à Vila Josephine, situada em Melo, concelho de Gouveia, lugar da sua origem.
Li as obras onde a referência à sua existência está presente e, afinal, não a reconheci. Imaginava-a pedregosa, sombria, nocturna. Hoje surgiu-me no esplendor do Sol, esfumava-se o dia.
Voltarei à Aparição assim como ao Para Sempre para me reencontrar com a sua realidade tangível. Hoje surgiu-me na reconstrução da poética.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Vergílio Ferreira: Eros e Thanatos
Prometi que viria aqui falar de Aparição o livro que li há pouco julgando que já o tinha lido na adolescência e que muitos jovens são forçados a ler para, pouco compreendendo, o detestarem, em nome da fantasia pedagógica de que eles são, enquanto massa escolar, pela sensibilidade, aquilo que se pressupõe para um tal livro.
Ante ele ressalta de imediato a natureza auto-biográfica da narrativa, a de um Vergílio Ferreira professor em Évora, tal como Alberto Soares, a personagem principal e narrador da obra, escrevendo-a, goticular, em noite de trevas e luar, granítica, como memória de si e do que foi a sua deambulação, recordação da casa paterna, agora envolta na dimensão trágica do luto.
Com o professorado a narrativa traz-nos a missão inconclusa e repetida, a reclusão interior, forma de exílio em terra estrangeira, à mercê de sentimentos e ressentimentos, da minudência do meio, a impossibilidade de afirmar a própria grandeza e, no fim, a sísifica impossibilidade e o retorno.
Toda a história é uma narrativa humilhada de diminuição, numa cidade onde «qualquer iniciativa cultural é logo abafada de desprezo e banha», mas nenhuma surge.
É a perseguição da aspereza do lugar, «o corpo sovado de insónia», «os olhos ardidos de espertina», a «alucinação de luz», «onde carroças estremecem com um estrépito de ferragens», «Évora mortuária, encruzilhada de raças, ossuários dos séculos e dos sonhos dos homens».
É essa inviabilidade de compatibilizar o ser e o estar que acaba por lhe contaminar a existência, confinando-o ao sedentarismo do seu canto de escritor, alheando-se progressivamente de tudo o que conhece, de modo cada vez mais profundamente e por isso menos extensamente.Começara com Mudança essa incompreendida e solitária caminhada.
E, no entanto, há vida, erotismo como ofensa à contenção, acicate e castigo, Madame «abundante senhora, loura por antiguidade (...), ousada e astuciosa por direito de mamã», a dominar a cena com a mestria da arte do rebaixamento, sadismo feito "salon" e "boudoir" e Sofia, secreta, «vestido branco, colado como borracha, e um corpo intenso e maleável», o «boleado das curvas», «a cinta fechada disparava-lhe os seios, uma luz inquieta iluminava-lhe os olhos», Sofia que o trafica, negando-se-lhe, depois de o levar e ele obcecado, esfaimado «no limite dos seus seios fortes, das suas ancas volumosas e solenes como uma noite germinadora» ao ponto explosivo do desejo, «presença inquietante, oblíqua de avisos», tudo territórios de negação a uma sensualidade que emana da Terra e por ela para os corpos que a habitam, para se lhe oferecer num acto de sublime desespero e paixão como um único beijo fossem todos os beijos da totalidade do corpo.
A isto mal escapa Ana, nela onde «havia a violência de um prosélito recente ou em crise», a «fúria silogística», o «desejo encarniçado de demonstrares», e em tudo isto se abre a magnífica clareira para Cristina e o seu nocturno de Chopin, imagem ímpar de evidência, afinal a única breve inocência a dar corpo à angustiosa questão da morte, essa «inverosimilhança» ante o nada mais haver na vida «do que beber até ao fim o vinho da iluminação e renascer outra vez», essa «fulguração sem princípio» e por isso ceifada à existência em inesperado instante.
Joga-se em toda a narrativa o problema central do Homem aquém, imensamente aquém do destino da Humanidade. E, no entanto, sempre a miséria dos humilhados, surge, em emergência dolorosa, cenário de um martirizado Alentejo, em Quaresma social permanente. Quem tem coração que dói não esquece a dor alheia, mesmo quando não arregimentado com soldados da salvação organizada pela Arte comprometida.
«Que sabe a fisiologia sobre os sonhos de um homem?», pergunta o narrador ante o Doutor Moura, na viagem fatídica que os conduz ao encontro com o Bailote, semeador bíblico de mão suplicante, inutilizada já para a única função que o agarrava à vida, enforcado pelo desprezo sem memória que dure no remorso dos outros, morte tão morte qual a do pai do próprio narrador, morte esta que persegue todas as memórias como lembrança e com ela a da velha casa, familiar, originária, local de retorno às origens, a ferocidade contida das partilhas que aflora como um perfume de ganância minifundiária.
Livro de um humanismo que não quer «apenas um bocado de pão, quer uma consciência e uma planitude», Aparição é o Homem e a Terra toda, incluindo o Céu e o Inferno que dela brota como esperança e medo.
Tanto poderia escrever sobre esta portentoso livro. Tanto.
Escrevo sobre o que se me vincou, desordenada, lacunarmente, por isso, inevitavelmente, sobre o que há nele de perdão. Perdão para o adolescente Carolino, «a viver uma inquietante separação de si, não sei se para um encontro lúcido consigo, se para uma união de loucura», a triunfar, porém, pela vitória adulta não do que em si era perplexidade atulambada mas potência e sexo e por isso com Ana, viril mesmo quando patético que seja, perdão para Tomás, mulher e sua ranchada de filhos, lavrador e com ele a virgindade sempre desflorada da Terra pela frutificação de si, nobreza de acto que suplanta os dourados da cultura, os engalanados dos livros, anseio de paz, de família, do afago de companhia, perdão para o que é simples mesmo rude, para o "Manuel Pateta", animal de carga alimentado a bebedeira, para todos, para tudo quanto é bronco e brejeiro mas afinal sincero e verdadeiro, lugares «onde a boa disposição tinha a sólida base de um estômago cumpridor».
domingo, 23 de dezembro de 2012
E que eu sorri
Precisamente neste dia, 23, no ano de 1992, Vergílio Ferreira encerrava a sua "Conta Corrente", o controverso diário, que saiu em duas séries, pela Bertrand.
Controverso porque intrinsecamente verdadeiro naquela força interior, surgida das entranhas dos sentimentos, mesmo os mesquinhos, que um Homem integral não é só feito de grandeza, a fomentar desencontros e rancores, vindictas mesmo.
Era uma quarta-feira.
«Quando é que acaba com isso», perguntara-lhe, amigo, Eduardo Lourenço, dorido por sabê-lo enclausurado na obsessão e vítima do próprio vício.
Acabaria no final desse mês não sem uma íntima revelação do que seria, depois disso, um seu livro póstumo: «A propósito. Desisti definitivamente das "Cartas a Sandar". Estou fora de jogo».
Terminou o que fora, em vida, uma "Alegria Breve": «Seria, aliás, edificante, que à aproximação do Natal eu acabasse em cânticos à alegria», desejou-se ele, bem sabendo que visava o impossível. E tanta coisa. «E de na execução da minha vida sem sentido poder dizer como Deus que tudo está bem».
De todos os livros que julgo ter lido, e de que me vou esquecendo até dos títulos, de todos quantos se interiorizavam em mim fazendo o que sou, escolhi este. «Alegria, alegria. Vou pensar com muita força que ela existe e me pegou ao colo. E que eu sorri.»
Bom Natal a todos.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Aparição
Comprar livros que já temos e que julgamos já ter em mais do que um exemplar. Mas comprar porque a capa é encadernada e a encadernação atrai, no caso um esboço de colunas romanas, e tentam sê-lo, no caso as do templo de Diana e o livro é a Aparição de Vergílio Ferreira.
Comprar, mau grado o livro ter-se vulgarizado, tão obrigatório como livro escolar, e correr o risco de se tornar odiado e depois esquecido, apesar de ser do autor o que se tornou mais reconhecível e com ele indissociável porque é a narrativa de um professor, como ele foi, e em Évora, onde ele esteve.
Comprar assim, porque é assim que se mostra aos próprios olhos ser definitivo o primeiro momento, em que a «mão de semeador bíblico» de um dos figurantes do romance me marcou definitivamente a sensibilidade e o livro se me impregnou como uma pele, arrastando consigo a imagem e o símbolo e o modo de expressão e com tudo o que é a grande Literatura e um notável escritor e depois disso acumulei, um a um, o que não consegui ser a obra toda.
«Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro», assim abre o livro. Como neste instante. A memória está apagar-se. Talvez por pressenti-lo comprei ontem o mesmo livro. Sabendo que o tinha. Para que perdurasse a ideia de que o tinha. Não nesta edição que aqui publico, Uma outra. Mais uma edição do mesmo texto.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Carta ao Futuro
Começara a lê-lo na Biblioteca Pública Municipal do Porto, mas não conseguia concentrar-me. Não pela complexidade da escrita, mas pela densidade do sentimento que induz, a profundidade de pensamentos a que nos conduzem as palavras. Dispersei-me, voltei atrás. Requisitei-o, enfim. Trouxe-o comigo em busca do tempo e do lugar. No dia 19 terei de o devolver. Lá estarei.
Comprei-o, entretanto, já não na edição primitiva da Bertrand, sim, na reedição da Quetzal, agora publicada. Não pela posse mas para o não perder, porque os livros hoje circulam entre os expositores das livrarias e as guilhotinas dos editores, reciclando o que tenha pouca venda, para poder sublinhar a frase, o trecho, toda a página, anotando, numa osmose entre o leitor e o lido o escritor e o que deixou escrito.
Comecei a lê-lo ontem à noite ainda, talvez na melhor hora, em que o silêncio amigo nos protege na esfera íntima do recolhimento, o corpo fatigado, os sentidos, enfim, tranquilizados. Madrugada, já.
É uma carta, escrita a partir de Évora, lugar simbólico do seu professorado, a cidade que «ignora a exactidão do presente, conhece apenas o alarme da memória», cosmos de onde surgiu o marco miliário da sua escrita, o percurso iniciado com a Aparição.
Uma carta que faz nascer vontade de escrever cartas, todas as cartas que digam tudo quanto há para dizer a pessoas a quem nunca o dissemos, a quem nunca escrevemos, àqueles que há tanto tempo nos escreveram. Uma Carta ao Futuro.
Regressei agora ao mesmo lugar, este sofá junto à janela de onde contemplo a frondosa árvore que a iluminação pública incendeia, lugar de vigília, zumbindo, autómatos, os automóveis e seus destinos de monotonia mecânica. Aqui estou, Vergílio Ferreira. Retomo a leitura. «Tenho apenas esta vida para viver, e seria uma traição que eu faltasse à sua entrevista - essa entrevista combinada desde toda a eternidade», dizes, e como eu te compreendo na transitoriedade das coisas, na eternidade da existência.
sábado, 24 de março de 2012
Um livro de silêncio
São cartas, de uma viuvez em que ficou o corpo tendo-se ido o ser, cartas de uma saudade agora irrealizável, a geologia empedernida da fome, carnal, o anseio e tantas formas «de tu dizeres não», cartas de um lugar ainda guardado na cama, tacteado no sono para ser mais vazio com a consciência ao despertar. Cartas incluindo a décima e última incompleta, fantasiadas como se guardadas por uma filha e não houve filha e procuradas por um amigo, o juiz aposentado, Rodrigo Xavier, para que possível fosse então entender o Para Sempre, talvez o seu mais doloroso romance, de que ele é personagem, carta de quem foi professor e ele foi professor.
Cartas a Sandra. Vi ontem que foram reeditadas mas ainda as tenha na edição da Bertrand e nem sei como foi possível terem chegado à sétima edição e talvez mais, cartas de um amor tão potente quanto dorido e afinal monótono, nascido na súplica e hesitante preparação, e a dádiva enfim como recompensa de uma tal dedicação.
Livro sobre a rejeição e a presença, obra de quem «amava estupidamente o que me doía», escrita sobre o ciúme da felicidade com o outro, a alegria breve, Paulo, perdido, regressado ao seu sombrio «até regressar à posse de mim», e Xana, a filha «a oculta face do seu real». Não sei que adjectivo exista para este livro de silêncio.
domingo, 12 de dezembro de 2010
Vagão J
Consegui, enfim, acabá-lo hoje. Arrastei a leitura, porque vou intrometendo outros. Um deles foi a "Promessa", que foi também desta safra neo-realista e mantido inédito. Falo do "Vagão J".
Não se resume um livro numa crítica, nem eu sou crítico do que seja, apenas um leitor que gostaria que houvesse mais leitores para os livros que leio e gosto.
Depois de o ter escrito, Vergílio Ferreira abandonaria os caminhos dessa arte social e politicamente comprometida que é aqui o sopro criador destas páginas gritadas, na qual não havia outra estética que a da militância pelos «humilhados e ofendidos», outro tema que não fosse o da «luta pelo pão e pela paz».
Claro que se daria mal com todos eles e terminaria bilioso, com a tábua nos joelhos onde, forçado da escrita magnífica que o seu admirável ser gerava, se esgotava em palavras findas as aulas no Liceu Camões, a chamar-lhes «neo-realeiros» e outras imprecações que tais.
Mas não só com os intelectuais de serviço se incompatibilizaria, mas com aqueles que deles se julgavam serventuários e combatentes, porque - como confessa no texto de apresentação que escreveu em 1971 para esta obra, que começaria em Faro em Maio de 1943 e terminaria em Melo no ano seguinte - «aproximando-me eu de um proletário com boas intenções de simpatia e solidariedade, logo ele me rosnou, desconfiado da confraternização, ameaçando-me de navalha, para cortar rente o diálogo».
Uma coisa é certa: "Vagão J" mostra em que medida quem ali está, a gerar aquela escrita, vai à dimensão mais densa do homem aque aquela que ele o forma como animal social, o modela como cidadão, o confina como personagem histórica na luta de classes.
É a história dos Borralhos e do seu termo e do crime que tem de ser cometido antes de eles o cometerem, um crime cujo motivo é o ódio a todos exigir o sangue de um qualquer.
História de inquietação feita vagabundagem, de rancor feito tristeza, de pobreza tornada em raiva, há por ali também o professor, inevitável como surgiria na "Aparição", menos a tragédia existencial, «que se enganou na classe onde foi bater, por haver um pouco de consciência onde se não via que fosse precisa». E o António que se torna seminarista «para eu lhe contar um pouco o que é já da minha história» e eis a "Manhã Submersa" anunciada.
É um livro notável: «o espírito escapa-se como enguia ao suborno da matéria e daqui nascem problemas complexos». Como toda a sua obra. Assim eu viva para a ler toda, tão devagar como ela merece e exige.
sábado, 25 de setembro de 2010
Pressentindo, todavia
Fui buscá-lo, com saudades, porque há tanto tempo que o tinha deixado. Como sublinho quando leio, foi-me fácil retomar, mas percebi que tinha de reatar o fio à meada. Não que na ficção história interesse assim tanto, mais importa o modo de contá-la, mas eu não encontrava outra forma de saber quem era o Edmundo com quem o Sérgio falava e tinha anotado a lápis que o Flávio era o narrador. Aqui estou de novo com a Promessa o romance inédito do Vergílio Ferreira. Noto que os meus olhos estão piores de tantas horas de computador. Esforço-me por ler e leio e maravilho-me. Terminei o capítulo quinto. Tinha ido à rua apanhar sol e vim iluminado de Literatura: «devemos ir sempre mais longe até onde já não entendamos, pressentindo, todavia, que ainda se pode continuar a explicar».
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Vagão J
Porque saiu agora um romance inédito do Vergílio Ferreira, encontrado completo no espólio do autor, chamado A Promessa, escrito em 1947, ou seja antes do Mudança [1949] que como o título o diz marcaria a viragem da escrita do autor para a problemática existencialista, abandonando - rompendo será excessivo dizê-lo reportando-nos a tal momento - com a caminhada na estrada do neo-realismo, achei que para tudo fazer sentido na minha cabeça e não aumentar a desordem que resulta do ler dispersamente como tanta vez sucede, deveria começar pelo princípio. First the first eis-me com o Vagão J entre mãos.
Vagão J, como se sabe é, na nomenclatura ferroviária, o das mercadorias, o da tralha, o do gado, as mercadorias avulsas.
Começou a escrevê-lo em Faro em Maio de 1943, terminou-o em Setembro do ano seguinte. O texto é curto, revoltoso.
Leio nos intervalos. Para já vou ainda na caracterização do «homem da jorna», espécie braçal calcinada a dura vida e talhado à podoa das privações. E sobretudo retinto de ódio. «Toda a gente possuía qualquer coisa para afirmar a sua existência: o homem da jorna tinha apenas o seu ódio». «Porque os homens da jorna sofriam como cães ao verem que trouxera de Lisboa um ar de rufia, um paleio de malandrim. Cavasse como os outros a terra negra, andasse ensebado, fosse como os da sua igualha». Estava perdido o Bogas, à mercê de nas tripas se lhe ferrar a naifa, vingança surda sobre o gingão citadino de mão macia e fala eloquente para quem a fome é apetite e a romaria coito de coitos de fácil sedução.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
A coçada batina e o seu lustro
Percebe-se que há hoje ainda um sector na sociedade portuguesa que tem no seu modo reticente de ser, na sua forma indirecta de se exprimir, na reserva dos sentimentos e na dissimulação das opiniões, os tiques do seminário frequentado e do seminário que abandonaram. São almas contidas em corpos fustigados. A masculinidade sobreviveu neles à amputação da libido, a humanidade resistiu à saturação da confissão auricular ouvida genuflexória até à náusea do horror.
São seres de impaciência recalcada. A danação dos pecadores é a sua forma de através das penitências alheias expiarem uma raiva que fingem ser piedade.
Notam-se pela liturgia, pelo esgar feito riso, pelas vestes talares, pelas profissões que permitem condenar.
«Tudo eu podia ser como seminarista, excepto o que não tivesse em conta o facto de o ser». Leio isto no estudo que Maria Almira Soares dedicou a Vergílio Ferreira, a quem a frase pertence. O estudo é sobre «O Excesso da Arte num Professor por Defeito».
«Quando se frequentava o seminário, era-se seminarista, fosse qual fosse o lugar e a circunstância», escreveu o autor da Manhã Submersa. Para a vida toda, Amen!.
domingo, 23 de maio de 2010
A Curva de uma Vida
Os fins melo-dramáticos estragam as narrativas romanescas. Talvez A Curva de uma Vida mercesse ter outro fecho, mas o autor era jovem e nunca reviu a obra para publicação em vida.
O original faz parte do espólio que a viúva de Vergílio Ferreira entregou na Biblioteca Nacional. A Quetzal editou-o, numa edição que contém um aturado estudo filológico de comparação do primtivo texto com as suas revisitações. Vim a lê-lo extasiado. Pressente-se ali uma poderosa capacidade de escrever. O criado João «tinha sorrisos largos mas o coração era manso como o dum boi» e «corava quando me presenteava com bons pêssegos moles e sumarentos, que ele tratava com um amor silvestre. Tudo nele era inculto: as unhas, o cabelo e a bondade».
Veja-se a força arrebatadora e expressiva das frases «amor silvestre», «coração manso como o dum boi». Mas note-se o contraponto entre conceitos oriundos de conjuntos tão diversos como «sorrisos largos» e «coração manso». E sobretudo atente-se num instante de suspensão da leitura em favor do pensamento para mastigar e saborear a ideia tão rica de ressonâncias significativas como a incultura das unhas, a do cabelo e a da bondade...
O que há no livro e não mais deixaria de haver em toda a obra do autor da tão banalizada Aparição é aquela irrupção ventral e jorrante da vida e do homem, as necessidades e contigências insensíveis daquela os desejos e medos sensíveis deste.
Surpreendendo a mãe na cama com o seu próprio cunhado, Amadeu, «o olho furioso, na ânsia de se fartar de verdade» conta: «não via minha mãe, via uma mulher e admirei-lhe os contornos mal cobertos. Pelos meus nervos andaram gozo infernais». O leitor arrepia-se incestuosamente ali, impúdico e inconveniente.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Raivoso de incerteza
Veio do neo-realismo e por isso tem lugar cativo no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira mas, atenção, apenas em relação às suas primeiras obras. Com o romance Mudança mudou de rumo. Nessa altura, como conta no seu Diário Íntimo, estava em luta intestina com a personagem que nesta terra teve como nome Sartre e por isso num certo dia de Agosto, em Melo, sua terra natal, escreveu, furibundo: «Amigo Sartre mete uma enxada nas unhas aos teus pederastas, aos teus vadios de café, põe-me essa Ivitch a lavar roupa, a roçar o soalho da casa, dá-lhes a todos para roerem, um corno de realidade. E conta-me depois». É Vergílio Ferreira, claro. Irado de dúvida, raivoso de incerteza.
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