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domingo, 1 de setembro de 2024

Pas dormir

 


Ao contrário do conceito de noctívago, que tem o aliciante de expressar um espírito errante, em vigília a horas invulgares, solitário tendo por companhia nesse despertar forçado tarefas nobres, de todas a escrita como a mais valiosa, ou o recatado pensamento íntimo, a insónia traz consigo o estigma de uma desgraça, maldição a perseguir o Humano como uma doença.

Foi com essa expectativa que me me encontrei com o livro que hoje refiro, regressando a este meu caderno de leituras. 

Está escrito em francês, língua cada vez mais rara. O tempo da minha geração e o das poucas que lhe seguiram, ficarão para a História como a daqueles que no Liceu tinham como aprendizado a língua gaulesa, durante cinco anos.

A autora, Marie Darrieussecq tem, à data, uma bibliografia activa numerosa, a primeira datada de 1996, editada na Folio, colecção da prestigiada Gallimard, com muitas outras obras publicadas em editoras diversas.

O livro é autobiográfico, fruto da vivência de quem o escreveu ao longo das dolorosas noites brancas, ante a impossibilidade de conseguir dormir e é relato da desesperada procura de tudo quanto se apresente como meio ou ilusão para a restituição do sono, da química à psicologia, e tanto mais que impressiona tanto a variedade como a inutilidade.

Mas a obra é muito mais do que isso.

Antes de mais, nela avulta a profunda cultura que subjaz à escrita, chamando-se à colação inúmeros vultos da vida cultural e social, que da insónia partilharam a vivência, além da referência pormenorizada a obras, não apenas literárias, em que o tema é precisamente o pesadelo do não dormir.

Mas o que há nele e o torna muito interessante são as menções, surpreendentes algumas, breves embora, em que o tema é reconduzido para territórios inesperados. Assim a ideia de que insónia se tornou, socialmente, mais elegante do que o dormir, este tido por actividade tão vulgar como o defecar, em que não se imagina envolvidos os grandes vultos. 

Ou surgir, num voltar de folha, pena que a preto e banco, o quadro de Turner, intitulado Regulus, o qual traduz, na luz ferina que por ele perpassa, a lenda sobre sorte mísera de Marcus Atilius Regulus, cônsul romano, condenado a não dormir, morto pela insónia, as pálpebras cortadas. 

Regulus é, aliás, lembra a autora, o nome de uma das estrelas mais brilhantes dos céus nocturnos, assim designada por Copérnico. 

Ou entre tantas referências ao insones excepcionais, a que é detalhada quanto ao desesperado Marcel Proust e à sua obra maior À la Recherce du Temps Perdu e a propósito dele, a luta contra o ruído, a busca pela paz do silêncio, tanto em que me revejo.

Li o livro e ainda continuo a lê-lo. 

Há nele a lembrança agoniante da privação do sono como forma de tortura, a rememoração do dia seguinte à noite sem descanso, manhãs mortas, «tempo para nada e que, no entanto, devora». 

Nele encontro o desespero de Emil Cioran, cujas obras completas adquiri, de novo em francês, e espero ter tempo de insónia para conseguir ler e trabalhar, essa demoníaca equação que me persegue. 

E com ele me reencontro com o pequeno livro de contos desse excepcional ser humano que foi Stefan Zweig, o austríaco que se suicidaria, com sua mulher, no Brasil, livro que adquiri na edição publicada em 1940 pela Livraria Civilização e que tanto me impressionou ler, logo o título tão vocativo: O Mundo não Pode Dormir e  de seguida a abertura:

«Há hoje no mundo pouca gente que durma; as noites são mais longas, mais longos os dias. Em todos os países, por essa Europa fora, em todas as cidades, em cada rua, cada casa, cada aposento, tornou-se mais curta e febril a tranquila respiração do sono; a época é de fogo, e como se fora uma única noite de Verão, pesada e abafadiça, cai sobre as nossas noites e perturba-nos os sentidos».

Escrevia, o magnífico autor de O Mundo de Ontem, sobre o que se vivia em plena 1ª Guerra, palavras hoje tão tragicamente actuais.

Livro sobre um mundo que nos desperta em permanência, universo de écrans luminosos, de disponibilidade na base do 24/7, vinte e quadro horas em sete dias da semana, do imediato como resposta expectável, da vertigem da velocidade, o micro-segundo como critério de excelência tecnológica e de humanos robotizados, Pas Domir é uma obra invulgar.

Poderia continuar com referências ao que já li. Fico a com menção nele feita ao poema Insónia de Álvaro de Campos, com cuja transcrição findo esta breve anotação:

«Não durmo, nem espero dormir.

Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo».


domingo, 19 de junho de 2022

Fernando Pessoa: o tema do outro

Pavorosos na maledicência, certos críticos. Era de bom tom apoucar a biografia de Fernando Pessoa escrita pelo seu contemporâneo João Gaspar Simões.  
Agora que foi publicada a versão portuguesa do monumental esforço biográfico da autoria de Richard Zenith, à falta de melhor há quem o acuse de nada trazer de original e valia sim tinha o outro.
Lendo, como estou a fazer agora e desde há dias, nota-se  a mentira daquela ressabiada proclamação. Infelizmente quem lê críticos não lê os criticados. Pior: refastela-se no escárnio e fica-se por aí. 
Leio, dizia: comecei a mais de meio do livro o que é a minha forma de ler biografias. Está aí o biografado na idade em que  julguei conhecê-lo, teria eu vinte anos. Quando chegar ao fim, e levarei muito tempo por ter pouco tempo, irei ao início, ao início da criatura.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A temperatura das palavras

Encontrei o livro por acaso. E de súbito nele tudo se tornou familiar. Desde logo a primeira referência a Luís Pedo Moitinho de Almeida, filho do proprietário de uma das casas comerciais onde Pessoa exerceu a sua profissão burocrática e que sobre ele nos deixou um livro e outros apontamentos diversos, recordações de um jovem atemorizado entre a genialidade que pressentia.
Depois, a referência ao local de nascimento do autor, Celorico de Basto. E logo um telefonema, a um meu Amigo, a quem li, o texto que assinalava uma tal origem, abriu a oportunidade de uma próxima visita me permitir ver, passando ao largo que seja, pela Casa de Melhorado, a de sua família.
O livro é uma digressão à tertúlia do Café Montanha, que Fernando Pessoa frequentava, extinto porque selvaticamente demolido e talvez, por isso, na superficial imagem do poeta, tudo se concentre como se, como local de companhia, só existisse o Martinho da Arcada, ao Terreiro do Paço.

Mas há mais: é a convivência próxima tornada narrativa, polvilhada de factos pequenos, é certo, mas igualmente interessantes porque mesmo a grandeza tem os seus recônditos íntimos de minudências e insólitos
Há, seguramente, um público ávido de voyeurismo, para quem as pequenas histórias se transmutam na História. Esses encontrarão aqui migalhas com que festejem o banquete da coscuvilhice. E talvez surpreendam Pessoa a não usar outros lápis do que «bocadinhos de lápis, aparados de um e de outro lado», ou no dichote a Pedro Theotónio Pereira, que amplamente detestava, enaltecendo da criatura o que lhe parecia nele de mais notável, o ter «os pés grandes». Ou ainda que, num passeio à Tapada da Ajuda, em carro eléctrico descoberto, Pessoa, entre cedros e abetos, tenha preferido que lhe mostrassem «tamarindo e um grão de pólen e não tarda um segundo que não pretenda que se agarre antes uma abelha».
Mas o que a obra me trouxe foram facetas interessantes, talvez porque as menos acentuadas por tantos que escreveram sobre o autor da Mensagem, que, já agora um pormenor pícaresco, na primeira prova tipográfica vinha o título escrito como Massagem...
Uma delas o da acção política daquele que, no imaginário colectivo, aparece envolto no nevoeiro do isolamento e da marginalidade. São várias as referências à sua acção no Núcleo de Acção Nacional, a mais conhecida fixação em Sidónio Pais, o Presidente-Rei. [quem quiser um pouco mais, pode ler aqui e aqui]. Grupo «meio fantasma» já se lhe chamou, de reduzida intervenção prática, voltado a uma ideia de uma monarquia «científica», assim ela nos é aqui resumida como ideia, fora dos ideais do Integralismo Lusitano, a cujas hostes o autor declara pertencer. Tudo temperado pelo desprezo a Afonso Costa e, afinal, àquilo em que a República se transformara. 
Outra, a da densidade da profunda amizade a Mário de Sá Carneiro e o tremendo momento, que ali se confidencia, do instante, em que, ante um gato agonizante, cena com que tropeçara numa das suas solitárias deambulações, porque envenenando com estricnina, em volteando em longa agonia,  ante os seus atónitos olhos, visão trágica e premonitória, a cabeça do animal aumenta de volume «e era a cabeça redonda do Sá Carneiro, eram as suas órbitas, as suas bochechas e um olhar triste e amargurado de despedida». Sá Carneiro suicidar-se-ia, em Paris, onde estudaria Direito, na Sorbonne, precisamente pela mesma  horrível forma, morte dolorosa.


Francisco de Paula Peixoto da Silva Bourbon [1908-1992] divulgou as crónicas que o livro agora compila no jornal Ecos de Estremoz, entre 1972 e 1973. Outras, sob o mesmo tema, publicaria nos jornais Cidade de Tomar, Consciência Nacional, Notícias de Guimarães, O Comércio de Gaia.
Sobre o livro, com cujo autor privou, Pedro Teixeira da Motta escreveria no seu blog [ver aqui]: «Francisco Peixoto Bourbon cultivava muito as amizades, era sinceramente um ser bom e generoso e foi ele mesmo que me introduziu a outros amigos de Fernando Pessoa, tais como Moutinho de Almeida e o Manuel Menezes de Vasconcelos, e transmite muito bem nas suas evocações o calor humano que circulava entre eles, realçando bastante a falta do meio condigno do génio de Fernando Pessoa, embora a tertúlia do Montanha fosse quase um refúgio de consagração e onde se podia dialogar com franca troca de ideias, como o jovem estudante de agronomia logo experimentou, tornando-se como que o benjamim acalentado da tertúlia, da qual nomeia como participantes o eng. Rogério Caldeira Santos (seria o maior admirador de Pessoa e posteriormente tentou infrutuosamente transformar o café Montanha num museu Fernando Pessoa), o dr. Manuel de Menezes Vasconcelos (um dos mais íntimos), o Marquês de Penafiel, Da Cunha Dias, o Joaquim Palhares, Victoriano Braga, o dr. Pedro Moreira, o Mário Saa, o Dr. Carlos Lobo de Oliveira, o eng. Pulido Garcia, o Victoriano Braga, o Gualdino Gomes, o capitão Gastão de Melo de Matos, e umas poucas vezes o António Botto e o Almada Negreiros.»
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Eis o apontamento singelo. As palavras têm temperatura. Estas, fruto de um Domingo que finda, teimosamente ainda frio, terminada a leitura, feita às prestações, são mornas. 

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A unidade do ser

Sabia que existia mas não o encontrava. Quando passava pelas livrarias, pelos alfarrabistas, pelas vendas ambulantes perguntava-me com os olhos mas ficavam cegos. Trouxe-o este fim de semana. Já é uma terceira edição. Trata de Fernando Pessoa. Mas não dos vários, distintos, diversos, heterónimos, mas sim e por isso se chama Um Fernando Pessoa. Se a aritmética de que Almada Negreiros fez arte, o 1+1=1, dá sentido e vida ao que é disperso e somatório e por isso imprecisão, ei-lo aqui, uno porque plúrimo e certo.
Comecei-o ontem, enquanto esperava o que não sabia ia ser uma última vez. Ao acaso li sobre Ricardo Reis. Ao chegar hoje a casa, vencidas as urgentes obrigações, que se incumpridas me tornam ainda menor, descobri que só tinha a obra em prosa atribuída a esse outro Pessoa pagão e tradutor. «Abomino a mentira porque é uma inexactidão», disse. E acrescentou «aos deuses peço só que me concedam o nada lhes pedir». Agostinho da Silva escreveu em 1959. Genialmente diferente.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Alma ressuscitada

Um pouco mais contido na adjectivação, é o mesmo Luiz Pacheco, o de sempre, a lembrar-nos os seus Textos de Guerrilha, editados em 1979, livro onde conta a lista dos ilustres artistas convidados pelo então Presidente da República para um jantar no Palácio de Belém. Só que com um pormenor provocatório: o Venerando anfitrião era o almirante Américo Tomás, que o 25 de Abril apeou de Presidente; o convidado o cineasta Manuel de Oliveira [mais tarde crismado como Manoel de Oliveira] o mesmo que, provocatoriamente também, em Non ou a vã glória de mandar, ligaria o 25 de Abril a Alcácer Quibir. Aparte fantástico: no filme Conversa Acabada o realizador João Botelho mascara o Pacheco como Fernando Pessoa «moribundo e logo esticado, com o Manoel de Oliveira, padreca, a rezar-me o responso, num latim esgosmado». É caso para dizer, «alma encomendada, alma ressuscitada».

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O editor impenitente


Anos a fio Fernando Pessoa pensou na criação de uma editora, que foi idealmente a Íbis e depois disso a Olissipo. Concebia tais delirantes projectos como uma via de «rectificação pessoal». Sistematizava o sentimento criador, embalsamando a que se adivinhava um nado-morto. Entretanto escrevia muitíssimo mas publicava quase nada dessa escrita, vadiando a sua genial hesitação.
A editora, concebida grandiloquentemente, seria, no mundo das coisas práticas, sempre ele só, multímodo e omnipresente, desdobrando-se-lhe as personalidades.
Falhou tudo excepto as poucas e geniais edições: A Invenção do Dia Claro, de José de Almada Negreiros e as Canções de António Botto.
Depois fica para a História o que António Mega Ferreira compilou para um livro que a Assírio & Alvim publicou em 2005, sob o tíítulo Fazer pela Vida: um retrato de Fernando Pessoa o empreendedor, no fundo o relato de um mundo que poderia ter sido.

sábado, 19 de setembro de 2009

Tenho uma grande constipação, de Fernando Pessoa


«Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.

Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!

Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.»