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domingo, 31 de janeiro de 2010

Navegando em revoltas páginas

É um anúncio de uma livraria em Praga. Chama-se Anagram. Fica aqui. Vê-se, e um súbito arrebatamento de viajar possui-nos, despertando aquela parte de nós onde mora o desejo de ler, abraçando-nos nocturnamente. São noites de insónias fustigadas por ventos adversos, ficcionais, a vela grande da imaginação a todo o pano, os pés fincados no convés da leitura com pavor que ao voltar de uma folha se ouça em prosa marítima o grito de homem ao mar.

O estrondoso momento do «este é para ti!»

Entra-se numa livraria e estão ali todos aqueles livros a olharem para nós e nós a olharmos para eles, num volteio ora tímido ora atrevido, cortejando-nos e tocando-nos, divididos entre os desejos, as necessidades e os poucos meios, aquela dança de vontades e de recalcamentos, o tropel de sentimentos de entusiasmos e pena, a luxúria de ter e a fantasia de ver, e de repente percebemos que nos estão a oferecer um livro, comprado ali expressamente à boca da caixa, fumegante de amizade pura e gorgorejante de satisfação por dar. E não é um qualquer livro é o livro instantes antes visto e no mesmo momento deixado para trás, o livro que abandonáramos e ele a olhar para nós, com mágoa e muita pena a pedir leva-me contigo, não me deixes que me dói a solidão de ficar aqui, livro por ler, no meio de todos os outros. Pudesse eu trazia-os todos. Assim trouxeram-me com este para a luz solar de um dia que ameaçava chover.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Salvo excepções, as "livrarias"


Houve tempos em que as livrarias eram uma certa e específica realidade. Procurava-se pelo Alexandre Herculano e havia ainda O Bobo ou O Monge de Cister. Tentava-ae o Nemésio e lá estaria pelo menos o Mau Tempo no Canal. Encontrava-se o Húmus do Raúl Brandão, o Domingo à Tarde do Fernando Namora. Isto para além das novidades que mesmo quando vendiam pouco iam ficando.
As livrarias eram lugares de convívio entre obras em vai-vém porque os livros encontravam muitos compradores, identificados pela voz do livreiro «não temos de momento mas estamos a receber ainda esta semana», e aqueles que esperavam encontrar esperançadamente um futuro comprador e foi assim, com esses livros expectantes, que fui compondo a minha tantas vezes reiniciada biblioteca.
Hoje não há isso. É tudo um carrossel de livros em rotação. Chegam, mal aquecem o lugar e são devolvidos se não se vendem em pouco tempo. O leitor que perdeu a novidade já não o encontra. É remetido para a editora, algumas vezes com um «nem sei se existe, ah sim está aqui no computador, tenho ideia sim...».
Muitas das actuais "livrarias" são, como no imobiliário e na hotelaria, um negócio de venda de espaço. As assoalhadas com melhor vista são mais caras. Editor que queira livro na montra paga. Para o livro estar não na horizontal repousante do escaparate mas sim na erecção que o torna mais visível, paga-se; de outro modo se o editor entra na lógica do «não pagamos» vai para a estante e aí se a lombada não for visível com letras garrafais e contraste de cor o livro perde-se de vista.
Alguns livreiros que são homens de cultura ainda têm consideração pelos leitores que procuram o passado e pelas edições antigas que procuram o presente. A regra é a rotação de stocks, a gestão do cash-flow. A cultura está dominada por auto-proclamados socialistas que gerem capitalisticamente o seu negócio.
Os livros hoje são iguais aos produtos do supermercado. Chegam em carrinhas e saem em carretas. Funerárias claro. Os contratos de edição prevêm que se não foram vendidos são guilhotinados. Tal e qual.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Livraria Universo

Era um livreiro em dia triste, porque não se pode estar feliz quando há cada vez menos pessoas a ler. E tinha sido já editor. E é amigo de escritores. E teima em querer fazer amizade com leitores.
A sua livraria é dos livros que ele quer, não dos livros que os distribuidores acham que ele deve vender. Quanto ao que não tem, outros que tenham.
Hoje, a força das coisas trouxe-lhe uma inesperada visista. Vinte anos depois. Ela encontraria, surpresa, o próprio pai, numa fotografia amarelecida exposta ali com o carinho de uma memória estimada, ele encontrava, embaraçado, o Espírito que, como uma língua de fogo, o animava a viver.
«Coragem» diria ela, alma boa, desejosa de ajudar, animando-o. Atrapalhado ser, o seu coração descompassou, esperançado.
Talvez aguente mais uns tempos. Da próxima vez que voltar a Setúbal vou visitá-lo. Digo a todos que o visitem e lhe comprem livros. Há surpresas naquele pequeno lugar. Ontem estava lá, a espreitar-me, uma edição das primeiras da Aparição, ainda saída pela Portugália, no tempo em que os editores amavam livros. «O seu pai vinha muito aqui». Eu e a filha passaremos a ir também.