sábado, 10 de dezembro de 2016

A conversão dos pretos...


O folheto intitulava-se Missões de Angola e Congo. O exemplar que encontrei já era o n.º 5 do ano XXI, 1941. Tinha redacção no Porto na Rua Nova do Regado, 250. Era seu Director e Editor o Padre José Maria Figueiredo. Encontrei-o hoje também no meu passeio entre alfarrábios.
Neste número abria com carta de D. Moysés Alves de Pinho. Mas o interessante achei-o já quase a findar o breve e agora amarelecido fólio, uma outra carta do referido cura dirigida aos seus leitores a propósito da Associação de Nossa Senhora de África, para a «conversão dos pretos» e da actividades dos seus «zeladores». Noticiava-se a inscrição do menino Manuel Simões Delfino, de Faro; e mais se relatava a infrene acção da menina Maria Manuela Branco Rezende, que mau grado a sua jovem idade de 12 anos, criara um centro onde congregara 27 associados e levara uma outra companheira, a menina Maria Emília Amorim Mendes da Silva Matos, a abrir centro também, mas em Vila Nova de Gaia. 

Curioso, a propósito, o queixume que, sob o título «Miséria Dourada», o Boletim exarava na página dedicada ao Noticiário das Missões: «(...) o número de sacerdotes em todo o território português de África (Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné) é de 274». Por contraste, segundo a mesma notícia, só a Arquidiocese de Braga contava com...872 (620 párocos) seculares, sem contar com os religiosos que ali trabalham». Elucidativo.

Nada dizendo ou não comparecendo, diz sim!


Encontrei-o esta manhã, entre facturas, bilhetes, cartas íntimas e comerciais, num alfarrabista de rua. Tinha ouvido falar nele, lera, com dezassete anos, caloiro na Faculdade de Direito, livros que a ele se referiam: o boletim pelo qual votou a Constituição de 1933. E agora ali estava, amarrotado, entre minudências.
Sujeita a sufrágio no dia 19 de Março de 1933, um Domingo, a Constituição de 1933, foi, seguindo o Decreto n.º 22229, de 21 de Fevereiro [o texto está aqui], plebiscitada através de uma fórmula curiosa:


O projecto submetido à votação pode ser encontrado aqui
Contados os votos foram apurados os seguintes resultados: O texto constitucional obteve 719 364 votos a favor, 5995 contra e 487 364 abstenções. 
Para se votar contra não era necessário escrever: não. Imagine-se no momento da votação alguém ter de pegar numa caneta e escrever: «não»! A intimidação que este sistema, imposto pelo § único do artigo 22º do Decreto acima citado, conseguia era bastante para adulterar os resultados. 




domingo, 28 de fevereiro de 2016

António Macedo: a Academia de ontem e de sempre


A razão pela qual compro tantos livros, mesmo os que sei não irei ler tão cedo e talvez não venha a ler nunca, é porque o tempo de sobrevivência neles nas livrarias é diminuto, como borboletas cuja vida se perde em dias; e dos antigos é raridade achá-los por vezes nem em alfarrabistas, e nem sempre é possível ir lê-los a bibliotecas pública quanto fazem falta ou quando nos apetece.
Veio isto a propósito de edição de autor, da conferência proferida, a 16 de Maio de 1945, no Salão da Faculdade de Letras de Coimbra, a convite da Associação Académica, de que viria a ser o primeiro presidente eleito da mesma  Francisco Salgado Zenha que, em apêndice ao opúsculo, publica «uma carta» de enaltecimento do discurso escutado. De facto, à data a Associação Académica encontrava-se há nove anos sujeita a uma Comissão Administrativa nomeada pelo Governo.
Leu-a António Macedo, um advogado que já havia editado na Biblioteca Fenianos no mesmo ano uma monografia sobre Direitos da Criança, e que viria a ser após 1974 destacado dirigente dos primórdios do Partido Socialista Português, dedicaria o exemplar que me coube encontrar ao «Dr. Constantino Fernandes», outro Colega de profissão, que entre 1957 e 1962 presidiu ao Conselho Distrital da Ordem dos Advogados, traria naquela sua alocução uma palavra de «confiança» ao seu jovem auditório, e de «coragem», culminando a sua intervenção citando António Sérgio: «Abramos as janelas que os nossos avós sistematicamente cerraram».
Zenha, no seu estilo já então ironicamente ácido, deter-se-ia sobre o anacronimso do ensino então ministrado, as injustiças que dele decorriam, não deixando de citar, com acinte, um trecho da Reforma Judiciária de 1944, que, a propósito do ensino do Direito o considerou «bagagem de conhecimentos, simples erudição mais ou menos livresca, sem verdadeira compreensão do que se diz».
Livro diminuto nas suas sessenta e quatro páginas é testemunho de um tempo de luta e de pálida expectativa que o fim da guerra parecia proporcionar.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Vergílio Ferreira: inumado para as efemérides


Coitado do Vergílio Ferreira, agora à mercê de se comemorar o centenário e ser, enfim, retirado do covil do esquecimento dos leitores, exumado para a procissão da efeméride - que é a forma necrófila de o mercado tentar relembrar - ele que nos trazia aquela escrita angustiada que passou de moda, malquista num mundo que só quer heróis trágicos enquanto patéticos e obscenos; mais: ele que, ao romper com o neo-realismo, tornando-os ódio de estimação, como ressalta da sua Conta-Corrente, mais a fuzilaria da polémica com o Pinheiro Torres, ficou isolado porque sem outra barricada outra salvo a dos poucos amigos e ex-alunos. E resistentes leitores.
Vejo-o, hoje Domingo, capa do JL, tocando violino, coisa que poucos sabiam ele fazia, assim Einstein e também Sherlock Holmes, o perfil esfíngico.
E encontrei-o ontem na Rua de Anchieta, em alfarrabista de rua, na edição facsimilada do Vagão J, o romance que a Bertrand ainda reeditou antes de o abandonar, a obra que ainda lhe garante lugar cativo no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, até que com Mudança [como escrevi aqui] moveu-se para a consciência literária de que o Homem não é apenas a luta pelo pão, nem a Literatura manifesto.
Escrevera já sob o livro [aqui]. Hoje publico o que sobre ele pensava um capitão que trabalhava nos Serviços de Censura, em 1947.
Fui ali à estante, onde estão quase todos e quase todos lidos, de lápis na mão, que é a forma de ler linha a linha, palavra a palavra. E leio no seu prefácio à segunda edição: «um livro é o registo do nosso diálogo com o mundo, ele não pode emendar-se como a juventude que errámos».

terça-feira, 21 de abril de 2015

José Bação Leal: um legado de sangue


Tive-o. E ficou por uma dessas casas por onde uma pessoa vive e deixa ficar. Talvez tenha sido o morno pudor de não pedir a restituição ou a certeza fria de que já não o encontraria. Mas procurei-o anos a fio. Há uns meses, o acaso quase me tornou o reencontro em realidade. Mas estava reservado para alguém que se antecipou no mesmo preciso dia.
Desta vez foi uma conversa com o José da Cruz Santos, da Modo de Ler. Foi buscá-lo à estante. O Urbano Tavares Rodrigues falara-lhe nele. E prefaciara a obra.
A guerra matou-o, em África, a José Bação Leal. Sua Mãe guardara, como ao menino em seu regaço, «rascunhos que ele deitava fora», versos. A eles o livro soma cartas, breves garatujas, densos sentimentos tornados pensar.
Tudo começa no Alentejo, em Mourão, desaguando em dor na dorida África colonial.
A 7 de Junho de 1965 foi transferido para Vila Cabral, em Moçambique. Escreveu então: «aqui as acácias ainda não floriram. Sangram (por agora) desordenadamente no olhar humano da negra gente. Gosto das acácias de Dezembro, deste verão póstumo a rolar na montanha».
O livro comove, são lágrimas tornadas escrita, versos, cartas, apontamentos. 
«Os únicos católicos Bons que encontrei seriam igualmente Bons, mesmo sem Deus», confiara ao seu amigo César, no dia antecedente, escrevendo do Alto Molucué, «poeticamente exausto, verticalmente só» se declarara em Mafra no ano de 1963.
«Um legado de sangue», assim chamou ao livro o seu íntimo prefaciador. «Sucedem coisas curiosas», escrevera José Crisóstomo em verso magoado: «ontem imaginei poder beber/um calmo desespero por uma incerteza/um suave adorno das rosas negras/que são o sangue do meu sofrer//Não consegui porém e bebi tristeza/uma tristeza feita de angústia serena/quase reconfortante mas sem paladar».

domingo, 2 de novembro de 2014

O pau e a pedra


Foi ontem, antes de o dia findar, que, no meio de tantos outros de diversos autores e esparsos assuntos, o encontrei, aqui no bairro, no Artes e Letras, o espaço alfarrabista do Luís Gomes, convivial, amigável, onde livros e conversa se tornam indistintos.
Com este livro Vergílio Ferreira assinalou o corte com o "neo-realismo", trilhando desde então a estrada solitária que o levou a incompatibilizar-se com muitos dos que se haviam arregimentado em torno desse programa literário ideológico da arte como intervenção política, como denúncia e com quem teve polémicas violentas e de quem acabou por guardar rancores de injustiçado, sem que a História o engrandecesse suficientemente pois não há santos sem Igreja que os santifique e ele morreu só. No Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira a sua pessoa é interrompida aqui.
Sei que é uma terceira edição a que tenho aqui comigo, mas que importa se o persegui estes anos todos, à sua procura, para encontrar aquilo que Eduardo Lourenço, seu conterrâneo, amigo e aqui prefaciador avisa ser «caminho que é ruptura ou, em todo o caso, desconfiança em relação à luz excessivamente clara que banhava então o nosso universo romanesco».
O exemplar vem autografado, na escrita miúda que era a sua, económica e concentrada, firmada a dedicatória no 1º de Maio de 1969.
Esta manhã, em que escrevo, ao ver a data fui por um ímpeto à estante conferir no seu diário, a Conta Corrente, no primeiro volume da primeira série o que teria havido nesse dia. Foi uma quinta-feira. Escreveu: «Fui à Baixa. Estive com o Urbano Tavares Rodrigues. Disse-me que a crítica de Le Monde devia ser de um emigrante português emigrado em França e que assina com pseudónimo francês. Bom Urbano, Tenho um dia de falar dele». 
A crítica, saída a 19 de Abril, o mês em que morreu Mário Sacramento, incidira sobre a sua obra Aparição e enfurecera-o. Escrevera sobre ela uns dias antes, irado, militante do seu novo rumo: «O crítico de Le Monde (19-IV) malha-me no "lirismo". O que não malharia num Hermann Broch! Só depois de se professar optimismo, claridade e água do mar, se o reumatismo está de acordo, é que se pode conversar».
Ei-lo preparado para a pancadaria. Para onde não chegar o pau leva a pedra. 

sábado, 1 de novembro de 2014

Um vento amplo de solidão


Custavam quatro escudos, publicados pela Edição de Fomento de Publicações, Lda., sita na Travessa do Sequeiro, n.º 4, rés-do-chão, em Lisboa, sob a direcção literária de Manuel do Nascimento.
Tudo nomes esquecidos, quase como o do autor da capa, Bernardo [Loureiro] Marques [sobre este notável pintor, ilustrador, veja-se aqui].
Era a colecção "Mosaico", que tentava ser, no seu formato em oitavo uma «pequena antologia de obras-primas», trazendo ao leitor o gosto pela leitura.
E conseguiu comigo. Li há pouco O Encontro, a morte do engenheiro, às mãos dos irmãos de Delfina, a moça que o lugar lhe proporcionara «recozidos de ódio, trémulos de delírio, tudo neles trabalhava como um desespero animal. E muda, a toda a roda, a montanha aturdia-os de solidão». E assim «ele sentia que a aldeia lhe impunha a violência da sua verdade», encurralado, «um vento amplo de solidão e montanha embatiam-lhe no  peito», «num pavor de precipícios».
Os contos que publicou este pequeno volume de 48 páginas, impresso sem data, mas em 1957 [ver aqui] na Sociedade Industrial Gráfica [hoje Telles da Silva], na Rua de Campolide, n.º 133, estão publicados no volume de contos de Vergílio Ferreira na Obra [quase] Completa que a Bertrand editou e a partir de certa altura deixou esgotar sem reimprimir.
Manuel do Nascimento, mineiro, trabalhou nas minas de Jales, onde conheceu Soeiro Pereira Gomes, Doença pulmonar fê-lo abandonar a profissão e dedicar-se ao jornalismo, à escrita e à edição. 
A sua obra, hoje votada ao apagamento, é um dos expoentes do neo-realismo, fruto de experiência vivida tornada literatura. [sobre a sua pessoa leia-se mais, aqui e aqui]
Por esta altura já o autora de Aparição tinha mudado a agulha, abandonando o alinhamento que o levara a escrever Vagão J. Fora tudo com Mudança. «Não de deixou o autor de "Mudança" contagiar pelo fácil e assim os seus primeiros trabalhos não revelam o esquematismo da grande  parte das obras dos escritores que caminham nas letras seguindo o mesmo rumo», escreveu, corajosamente, o editor.