domingo, 20 de outubro de 2019

Tomaz de Figueiredo: lido na minha toca

Luto por ler, a horas desencontradas, surgidas pela noite, forçando-me a tornar em descanso uma pausa nos deveres que, almas penadas, não param. 
E li assim, folha a folha, até mesmo às últimas folhas que a teimosia me fez passar para a manhã de hoje e bem poderia ter terminado ainda ontem, mas há aquele resíduo de liberdade que é deixar para amanhã o que bem poderias fazer hoje e assim fiz.
E que livro extraordinário e sobretudo que descoberta surpreendente. Digo isto, bem sabendo que os meus espantos são a admissão pública da minha ignorância, pois Tomaz de Figueiredo tem Obra Completa editada pela Imprensa Nacional, graças à iniciativa daquela outra alma sensível que é António Braz Teixeira. Mas que querem se eu não o conhecia, e só cheguei a ele porque no livro Estátua de Sal de Maria Ondina Braga li uma sua carinhosa apresentação da obra, escrita como a negar-se a apresentar mas tão cheio de júbilo e admiração pela escritora sua conterrânea? E se, estando a trabalhar sobre o Jornal de Crítica Literária para o que depois direi, não desanimei quando Alberto Franco Nogueira (para muitos ainda) seu inesperado autor faz um delicado reparo a uma sua segunda obra, o Nó Cego, vendo nela seriedade mas frieza?
Agarrei-me, assim, a A Toca do Lobo, ademais numa encadernação maravilhosa que alguém com mimo mandou envolver a obra, em macia pelica marron, com letras douradas, incluindo as da menção «prémio Eça de Queiroz (romance)/Concurso de Prémios Literários (1948) do Secretariado Nacional da Informação», menção que por certo condenaria o livro para a fogueira em que os inquisidores contemporâneos, polícias do gosto e serviçais do politicamente correcto, logo o condenariam, visto o ano da edição (1947) e o prémio governamental que recebeu.
Mas eu estou na idade do querer lá saber e já nem luta travo com inutilidades, usando antes o tempo de guerra para ler em paz o que os outros repudiam, e ler até mesmo o que esses tais proprietários do bem e do bom idolatram - sem suporem sequer e nem teriam, insignificante eu - ser tão quisto por seres como o meu ente leitor.
Voltando ao livro e à descoberta. 
Há nele, em todo o seu esplendor, a notável língua portuguesa, a mesma de que cada vez há mais gente a usar menos vocábulos e frases, económicos com os termos porque curtos com as ideias, mas que aqui surge a trazer-me memórias do que ouvia em casa e assim rememoro, palavras que, sem se topar o significado, quase sugerem, logo pela fonética, ao que vêm: o «não pagar a pena estar com pequices», os «codiciosos padrecas», os tecidos «enfeitados de borbetos», a boca «mal desfranzida», o «pontapé [que] foi muito bem assopado», o «como quem arrancasse os pesos e estorcagasse o pêndulo dum relógio», a «cambulhada de filhos» e tanto mais.
E há também aquelas formas de dizer que, de originais, acrescentam ao dito, o feito: «lia-a, lia-a, saltando linhas, atrapalhando páginas», «ia ficando mais vermelho que os corais de um peru, quase lhe saltavam as cordoveias do pescoço», a tia Francisca «aquela alma enérgica e grande demais para corpo tão sequinho, quase só feito de roupa», o «desarreigar da memória», o «jovem levita, fulo, depois de uns palanfrórios casuísticos, dumas alicantinas que deixaram a tia Francisca de gesso. /Pois sim! Levou para tabaco)» e uma torrente de expressões em luxúria que é deleite.
Mas não é apenas prodigalidade vocabular e estilística de que a obra é feita, sim, e muito, aquilo a que alguns detractores de minguado verbo, invejosos, apodaram de "regionalismos", a rebaixar, tentando alçar-se em cima da escória do palavrão soez porquanto inútil, os do que Vergílio Ferreira, bilioso, na sua Conta Corrente chamava [e com vossa licença, eis tal qual, volta Gil Vicente!] «da Literatura de caralhadas». 
Escrito sobre casa em aldeia, surpreendendo dos rurais o verbo, A Toca trá-los no discurso directo e retrata-os com as cores do seu modo de ser e falar.
Há no sedimento desta escrita crítica social aberta, à justiça duvidosa e ao clero prevaricador, de carinho pelos dos baixios da vida, nisso incluindo as senhorias morgadas em miséria envergonhada, mendigos sem ousarem estender a mão, e sobretudo aquela fome de vida e de amor, aquela ânsia de tempo e o desejo de paz no silêncio da criação. 
Livro de linhagem há nele patente desprezo pelo estado vil a que chegaram os que pela origem tinham deveres e se afundaram pelo gozo das liberdades até ao rebaixamento: «Já reparaste na vergonha que é, o geral disso a que ainda se chama fidalguia portuguesa? A pedir vassourada, meu filho, a pedir vassourada! Já quase sem distinguir entre uma espada e um chanfalho de polícia...Não to digo por vaidade, pois não me julgo de melhor sangue do que tantos e tantos, mas, em muitos desse tantos, o bom sangue é o que já secou... Misturado com muita borra...Uns porcos!).»
Livro de desesperada solidão, há, apanhada em instantâneo fulgurante «a multidão dos felizes, os de tão acanhada alma, que se confessavam e eram, felizes!».
Leio, li, pudesse achar tempo, fabricando-o, leria de novo. Descobri outro livro seu, desta feita com prefácio risonho - e como não poderia sê-lo - de Onésimo Teotónio Pereira. E vou comprar todos os que a Imprensa editou, sofrendo-lhe o incompreensível preço usurário, vergonha porque de uma entidade que deveria promover a cultura tornando o ler barato e assim acessível.
Fico por aqui. Voltando aonde comecei direi, citando o excerto final do que escreveu para Maria Ondina: «Apresentar este livro? Um livro destes?! Apresentá-lo só o apresentaria se cada leitor aqui o chamasse e lho lesse». 
Tal e qual. 
Venham, pois, leiam por mim e o que eu não li.

domingo, 13 de outubro de 2019

Robert Walser: a plenitude do Céu

Ler caminhando, ou ler ao caminhar, talvez possa ser assim, que se configure a obra do suíço Robert Walser e o livro das conversas que Carl Seelig com ele manteve quando o encontrou já internado num hospital psiquiátrico, em Herisau.
Patrocinado pela Pro Heltevia, Fundação Suíça para a Cultura,  e editado em Abril, pela BCF, Editores, a obra, que no original alemão se denominou Wanderung mit Robert Walser, vem traduzida por Bernardo Ferro [com revisão de Isabel Castro Silva] e traz na edição portuguesa, assinada em Agosto de 2018, texto de apresentação do curador de Arte, Hans Ulrich Obrist.


A leitura é viciante de tão atraente; de tal modo que dali passei para a busca de toda a obra de Walser.
Um certo instinto levou-me às traduções francesas, se bem que em Portugal haja já parte significativa da escrita publicada: porventura a ideia, mais do que discutível mas que tenho por segura por mero instinto, de que para uma versão a partir do alemão serão o francês e o italiano os idiomas que melhor reproduzirão as subtilezas linguísticas, desde o rigor do vocábulo à cadência do estilo. 
Além disso, trata-se de um modo de escrever poético, luxuriante na adjectivação, embora sem subtilezas estilísticas, mas em que cada palavra vale por si e pelo que onomatopaicamente sugere.
Vindo aqui, que direi do lido sem assassinar a apetência pela leitura?
Falando deste livro de Seelig e das conversas que, entre 1936 e 1956, manteve com aquele que assim acaba por surgir indirectamente biografado, estamos em pleno passeio pela cultura, conhecida como se por uma lenta sedimentação, familiares sendo os autores e artistas, conhecidas as circunstâncias e tudo sempre em simbiose íntima com a Natureza, essa magnífica biblioteca e pinacoteca onde Walser encontra letras e cores, conhecimento e sentimento e o a propósito que ao disperso confere harmonia, mesmo quando surpreendente.
Há, talvez possa dizê-lo, um difuso panteísmo, nessa mansa mística que perpassa pela contemplação extasiada, a alma solitária a corporizar-se pelo que a cerca, em substanciação do que existe pela vida de toda a existência. 
E há, também, direi, nesse vagabundo extravagante e vagueante, uma categoria pessoal senhorial tão rara no mundo de rudeza boçal em que gorgoreja tanta linguagem que se supõe Arte, dignidade na penúria e na renúncia.


Lido o livro em dois fôlegos, li também já Der Spaziergang, traduzido para o francês por Bernard Lortholary e publicado em 1987 pela Gallimard e agora reimpresso em Março. Trata-se agora da escrita do próprio, as suas caminhadas, as suas reflexões: rareiam as alusões literárias, aumentam as menções pessoais, o estilo ganha corpo, longas tiradas em cada marco da jornada, um humor requintado a pontuar sabedoria. Disso se trata, talvez: a obra de um eremita saído do seu presbitério, excerto de vida de um homem de sete ofícios. 
A viagem inicia-se ao sair do seu «gabinete de trabalho ou de fantasmagoria» e precipitar-se na rua. Estou a quase metade de um terceiro livro, outros vêm ao meu encontro, já encomendados. 
Quando gosto, quero saber a extensão máxima do desejo, admitindo mesmo o desapontamento da frustração.
Dir-se-à que esta escrita lembra a que Franz Kafka: não, porque neste, os tectos são rebaixados, os interiores sufocante, em Walser o horizonte é o infinito entardecer e a plenitude do Céu em noite de luar, apaixonado. Chama, sim, numa certa parte, Robert Musil, por um não sei o quê que me surge sem que o saiba dizer; e bem compreendo que se trate de um autor tão prezado por Stefan Zweig, outro viajante pelo território da tragédia, como Friedrich Hölderin, como tantos, errantes e caminhantes.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Num espelho estilhaçado



Em Comala, há mortos que nunca realmente morrem e vivos que nunca realmente vivem.

Há um filho que chega, para pedir satisfações a um pai ausente, por promessa feita à mãe em seu leito de morte.

Há outros filhos e outras mães, e outras gentes ainda daquela cidade, por vezes pouco mais que vultos num horizonte à meia-luz, desfiando sem pedir licença um infindável rosário de misérias, enxertando sem pudor a sua história na trama principal, reclamando protagonismo.

E há, no centro de tudo, aquele pai ausente e latifundiário tirano. Um homem cuja magra réstia de luz, eivada de trevas, reside na constância de um grande amor de juventude, tão determinado quanto impossível.

Como num espelho estilhaçado, a narrativa em «Pedro Páramo» muda de boca, ponto de vista, casa, cronologia.

O que se mantém constante é o pano de fundo: um lugar e um tempo cruéis, regidos pelas leis da violência, da vingança e da perda, povoados por personagens que, mais do que interagirem, parecem chocar umas contra as outras, para logo se desencontrarem no essencial.

Emerge também, ao longo das páginas, o retrato de um México rural, dominado por donos de terras e agitado pela revolução e pelo conflito armado.

Os locais são descritos como quem caminha por eles adentro com cada sentido desperto, deslocando o leitor do lugar onde porventura se encontre para o interior de um «tempo da canícula, quando o ar de Agosto sopra quente, envenenado pelo odor putrefacto das saponárias»; para o interior do «voo das pombas rompendo o ar quieto, sacudindo as asas como se se desprendessem do dia»; para o interior da «água que goteja das telhas» e soa «plás plás e depois novamente plás, em meia folha de louro que dava voltas e reviravoltas entalada numa fenda dos tijolos»; para o interior, ainda, do «eriçar da tarde com uma chuva de triplas ondulações» e de «uma aldeia que cheira a mel derramado…».

Real e irreal são um só, nesta obra original, misteriosa, simbólica e pujante, escrita pelo mexicano Juan Rulfo, e à qual Jorge Luis Borges chamou «una de las mejores novelas de las literaturas de lengua hispánica, y aun de la literatura».

Li-a na tradução de Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues, publicada pela Leya em 2017.

domingo, 8 de setembro de 2019

Simenon & Maigret

Foi o primeiro livro que escreveu da série Inspector Maigret e assinou com nome próprio. Na altura já tinha mais de vinte "romances populares" publicados pela Fayard. 
Tudo nesta escrita de Georges Simenon é interessante, até o próprio processo de escrita.  Abalançou-se a este género que considerou difícil.
Dactilografado numa improvisada secretária, pregada esta a um barco em que vogava entre o acaso e um porto de acolhimento, a narrativa traduz, em muito, o ambiente circundante, desde a vida portuária à dos personagens que o habitam. Li-o em francês por ser nessa língua que ele pode ser sentido e por isso compreendido.
Permito-me sugerir que aquilo que fez um género na categoria dos romances policiais só seria possível pela conjunção deste ambiente, de uma personalidade conturbada como a do seu autor e um ambiente filosófico parisiense, que mais tarde o existencialismo haveria de assumir como filosofia e literatura.
Por um lado, porque Jules Amedée François Maigret tem vida própria, nisso incluindo biografia. Nasceu em 1877 e morreu no final de 1970; por outro, porque o seu método de trabalho é em tudo distinto daquele a que o leitor se habituou a assistir quanto a todos os outros. O que há aqui não é o exercício da inteligência lógico-dedutiva de um Sherlock Holmes, nem a ambiência upper class das figuras de Agatha Christie, na qual o belga Hercule Poirot é seguramente lídimo expoente e presença refinada.
A vida pessoal e familiar de Maigret, a sua missão, o modo como Simenon o situa, são também, numa certa essência, um panfleto de crítica social: mal pago, a viver uma vida de modéstia e sacrifício, sujeito a todas as contingências, é o proclamado braço da lei em luta contra o mundo do crime, mas socialmente desprezado por tantos que, querendo paz e tranquilidade para as suas vidas, beneficiam da vida de que acaba por se privar, dia e noite perseguindo as suas pistas, sofrendo intempéries e arrostando perigos, vencendo o cansaço e a desilusão. Logo no segundo capítulo: «La présence de Maigret au Majestic avait fatalement quelque chose d'hostile. Il formait en quelque sorte un bloc que l'atmosphère se refusait à assimiler», um polícia ostensivo num lobby de hotel, «le mot crime, cauchemar de tous les hôteliers du monde.»
O que há neste livro de interessante, depois de ter lido, à solta, muitos outros da mesma série, é que está ali tudo, porque no ovo da serpente contém-se a totalidade da serpente: a figura maciça do inspector, como se talhado de um bloco de carvalho, a sua calma fleugmática, a persistência de um cão de caça, mas sobretudo aquele método de envolvimento com o mundo onde descortina o crime, o de se plantar e deixar embeber pelos locais, seus odores e seus ruídos, e isto porque «dans tout malfaiteur, dans tout bandit, il y a un homme». 
Para chegar à essência da realidade é preciso esperar, aguardar por uma fissura que revele o humano e não apenas o jogador que é aquilo que, em regra, a polícia procura. É preciso chegar mesmo à perigosa proximidade com o criminoso, não sendo menor perigo atingir o limiar da compaixão, essa forma amorosa de amizade, ir em busca de Pietr le Letton, dito Fédor Yourovitch, dito Oswald Oppenheim e, enfim, não o encontrar, antes aquele que se apoderou da sua alma por já ter o seu corpo.
E, no entanto, como ressalva Simenon, também ele Maigret usa, como os outros seus colegas, os meios extraordinários do seu tempo, os do francês [Albert] Bertillon, doamericano [Albert John] Reisse e os do também francês [Edmond] Locard, com tudo quanto eles significam de crença racionalista na ciência como método criminalístico.
A história deste livro é, não apenas a de um interessante exercício sobre a duplicidade de dois gémeos, mas igualmente a transposição do tema para o mundo da própria atitude policial, tantas vezes o polícia tem também de se travestir no que não é, mas naquilo que seja, no caso, a aparência e o porte conveniente; é, por outro lado, o da excepcionalidade do homicídio no quadro da criminalidade financeira, no caso, a de uma rede de burla por falsificação, excepção que, tornando invulgar a ocorrência da morte, gera quase a improbabilidade da sua existência e a dificuldade na sua condenação, por tudo se situar num mundo em que os jogos de poder atenuam a diferença entre o permitido e a infracção, tornando sólidas reputações um biombo interessante para a ocultação da sua ligação ao crime, o agente de polícia figura insignificante no território em que se movem embaixadas e políticos, empresários e altos quadros.
No interjogo teatral dos episódios, em que o narrador amiúde se intromete, como espectador comprometido da sua própria escrita, tudo é, além disso, transportado para contextos históricos e sociais, em que a percepção das pessoas só se alcança pela compreensão da sua proveniência. É uma escrita culta, para leitores que se não fatiguem. 
Escrito em 1931, terá de se compreender, é certo, a mundivisão do autor, não diferenciada do que era o Zeitgeist desse momento: os segmentados países bálticos, o entrechoque dos comunistas e dos ultranacionalistas, o ghetto judaico, os russos e os polacos, os intelectuais e os vagabundos. 
Algumas das referências talvez não passassem no crivo delirante do politicamente correcto, essa neo-censura da contemporaneidade.
Trata-se de Literatura, sem arrogância nem piruetas de estilo, expressão, mostra, enfim, da força vital de uma densa humanidade e de compreensão por tudo quanto é humano. Só por isso, vale a pena, até como pedagogia, necessária para os burocratas da repressão, mesmo os que, na repartição pública do pensamento, organizam o modo tecnocrático de tentar ir ao seu encontro, para a debelar, afinal sem a entender. 


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Mulher e Mito


Cover of The Penelopiad, by Margaret Atwood

Terminei há algumas semanas o breve livro «The Penelopiad», de Margaret Atwood. Li-o na versão original, publicada pela editora escocesa Canongate.

Em Portugal, após uma primeira tradução publicada em 2006 pela Teorema, a obra encontra agora guarida no catálogo da Elsinore, chancela da 20|20 Editora, sob o título «A Odisseia de Penélope».

Numa narrativa que vira do avesso o clássico e o mítico – sem, por isso, se abster de uma ou outra vénia a certas convenções do género, como o uso do coro – Margaret Atwood propõe-nos uma releitura da «Odisseia» com olhos femininos e actuais.

É Penélope, falecida há muito séculos, quem nos relata os acontecimentos, ou melhor, a sua versão dos acontecimentos. A narrativa é pontuada por outras intervenções femininas marcantes, como as fugazes aparições de Helena e, mais impressivamente, os monólogos disruptivos das doze servas enforcadas.

A linguagem engendrada por Atwood para este relato sente-se, na essência, como contemporânea. Um pouco, na opinião desta leitora, como aquele exercício em voga de colorir fotografias do passado para demostrar o quanto é aparência o que nos separa dos que viveram noutras épocas.

Assim, no tempo que Penélope recorda, como hoje, os mesmos desejos e ambições, os mesmos jogos de poder, os mesmos enganos e desenganos, as mesmas pequenezes, o mesmo pragmatismo.

Por toda a obra passa, sobretudo, a noção de que a única verdade possível é a dos ângulos sob os quais essa verdade pode ser olhada. E a consciência de que o relato histórico que vinga diz mais sobre o equilíbrio de forças, desde logo sociais, de determinada época do que sobre aquilo que ela foi em absoluto.

Nesse sentido, o relato de Penélope (ou de Atwood, como se preferir) coloca em evidência uma questão sobre a qual tenho reflectido ultimamente e que é a da natureza aberrante do tradicional narrador literário omnisciente e omnipresente. Aberrante porque exclusivo da literatura. Um daqueles momentos em que a arte rompe os seus vínculos com a vida para gerar algo inteiramente seu, porventura porque a complexidade do real, com a sua verdade irremediavelmente fragmentada, nos faça exigir ao imaginado certos refúgios de certeza.

De forma evidente, «A Odisseia de Penélope» reflecte também sobre a condição da mulher e, dentro dela, sobre a de certas mulheres em particular. São questões centrais nas obras de Atwood, a julgar pelo que li nalguns textos de enquadramento, pois que, lamentavelmente, das próprias obras praticamente tudo me falta ler. Mas neste ponto não me alongarei, para não estragar o pleno efeito da história sobre futuros leitores.

Sinto ainda a necessidade de referir que li este livro antes de ler a original «Odisseia», de Homero. O plano era outro, mas a minha insistência em começar pela «Ilíada» e a minha impaciência em ler o livro de Atwood assim o determinaram.

Penso que não é impossível apreciar a obra deste modo, pressupostas uma breve pesquisa prévia e a noção geral que a cultura popular nos deu já das linhas de força do texto clássico de Homero.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Alienistas e Tribunais

Agustina Bessa-Luís escreveu-o, na forma de folhetim no já ido jornal O Independente, em 54 episódios, entre Maio de 2001 e Maio de 2002. Surgiu depois editado em livro, com capa de Vasco Rosa.
Má revisão desfeou a paginação da obra sobretudo nas hifenizações. Mas que passe isso adiante, minudência oficinal em território de sublime.
Ser folhetim deu oportunidade ao mais característico estilo de Agustina: a história é contada com  repetições, nem sempre idênticas na menção, meio de lembrar ao leitor semanário o que pode ter esquecido com a passagem do tempo; e da narrativa sobressaem os aforismos. O que poderia passar por má técnica ganha aqui a força arrebatadora de uma reiteração de tema que prende o leitor com um caminho pelo fio da história face ao qual tudo são nuvens de divagação e Arte em suas flores.
São, eu sei, os aforismos o mais controverso dessa forma de contar para aqueles a quem incomoda seguramente a profunda sabedoria que deles dimana, sabedoria de conhecimento pela instrução e pela cultura, sabedoria pela experiência de vida, sabedoria sobretudo pela profundíssima sensibilidade à alma humana. Seguramente tomaram-no tantos cujo erguer do lugar comum é voo breve e, sobretudo, rasteiro.
De tudo isso, a história é quanto menos importa: no caso a de Maria Adelaide Coelho, filha de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias, que o marido, Alfredo da Cunha, então director do periódico da Avenida da Liberdade, fez internar em manicómio, por razão ou ganância fosse, na peugada de uma história de paixão entre ela e seu motorista.
Para esta narrativa Agustina convoca, como em contraponto, o que se escreveu então sobre o caso,  a começar pela personagem, facto que arrastou a opinião, e situa-a no advento e morte do sidonismo, o estretor da República, as primeiras pedras do Estado Novo a serem forjadas; e imiscui-se mesmo em diálogo com as suas fontes, tornando vivo, pois que contemporâneo, o relato que recupera à memória pública.
História de alienistas e tribunais, vêm com ela e suas pulsões o que para ela necessariamente trouxe a psicanálise e seu foco na histeria e, em permanente registo a dúvida sobre a sanidade dos seus principais intervenientes; e, sobretudo, esse desfolhar de intimidades erógenas a que a autora se não furta e a torna, a quem a não conheça, surpreendente. Agustina nestes domínios, engana pela aparência.
Talvez seja hoje impossível encontrar o livro ou, pelo menos, muito difícil: o tempo de sobrevivência da escrita no mundo em que vivemos, não chega a criar lembrança no tempo em que se escreveu, quanto mais dezassete anos depois.
Escrevo este apontamento para que nem tudo se perca, pois nem tudo há neste ano da morte da sua autora, e gostaria de o terminar com uma de tantas frases que ficaram a germinar, sublinhadas que foram para que um dia depois as reencontre, assim releeia, a ter ainda tempo para tal. 
Tiro à sorte, abrindo o livro numa página qualquer, ao acaso. Fala na página par de Sidónio Pais para quem «a morte era-lhe necessária depois de tanta grandeza» e volta na ímpar seguinte a Maria Adelaide, que «acabava sempre com aquele soluço na garganta, um desejo de amor que a fazia pálida, distraída e cansada».
Pudesse, copiava-os todos, magníficos que são, maravilhosos de espanto.

sábado, 20 de julho de 2019

Sarah Afonso: eu sou o que sou!

Ver esta manhã a exposição da arte popular minhota de Sarah Afonso, que agora se encontra na Fundação Calouste Gulbenkian, foi desfiar um álbum de recordações. 
Lembrei-me ao chegar a casa do livro de conversas suas com a neta, Maria José Almada Negreiros, editado em 1982 com prefácio de António Alçada Baptista. 
Procurava explicação para um facto que se me tornou evidente ante a cronologia do exposto que, pouco extensa, vai aos primórdios da juventude, nascida que foi em 1899. 
Casada com José de Almada Negreiros em 1934, terminaria a sua carreira de pintora em 1939. Em aberto ficou-me o porquê dessa pressentida e enigmática negação do que fora uma vida, tão breve interrompida.
Achei-a no livro. Primeiro a razão da pintura: «Eu entrei na pintura por emoção», diz, a abrir a conversa que arranca precisamente com essa origem minhota e com a arte popular * marcante ante a vivência vianense em que se situou o seu aprendizado de «desenho linear e trabalho de mãos», estes os depois chamados «lavores femininos».
Depois a razão da desistência [Conversas, página 112 da edição da Arcádia **] «[...] eu não sei explicar o que é a pintura. Ainda hoje uma senhora que é muito simpática, quis conhecer-me, veio cá a casa, olhou para os meus quadros e disse " a sua pintura é igual à do Almada". Disse isto para ser simpática mas isto fere-me. Ele é o que é. Eu sou o que sou. Mas que me venham dizer que a minha pintura é igual à dele, isso ofende-me, sobretudo porque ele tem um grande nome. E isso foi uma das coisas que me fez parar. Havia sempre alguém a dizer "a sua pintura é igual à do Almada". E não é nada igual».
A emoção que ditara o começo condicionara afinal o fim. Daí em diante Sarah Afonso canalizaria a criatividade para o desenho, porventura com «[...] aquele prazer da obscuridade que muitas vezes é a marca das grandes amorosas», como se diz de Maria Adelaide no folhetim de Agustina Bessa-Luís O Mistério da Légua da Póvoa.
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* Popular sem aspas, ao contrário do catálogo que, como se envergonhasse do termo, a curadora Ana Afonso o grafa em itálico e entra em remissão para obra académica a situá-lo, relativizando-o, afinal
* página 91 na segunda edição, publicada em 1993 pela D. Quixote, mais cuidada na resolução das imagens, se bem que também todas a preto e branco.

sábado, 29 de junho de 2019

A contemplação compreensiva do outro

Não era definitivamente possível continuar sem ler. Tinha perdido a apresentação do livro na Biblioteca da Rainha no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mas tinha-me chegado ontem, encomendado à livraria aqui perto. E hoje, recuperado de semanas de exaustão, sonos trocados, trabalho em atraso, a viver sempre em função das vagas de urgências profissionais, decidi-me, dando-me a mim mesmo liberdade. 
E acabo de o ler. Poucas horas bastaram. E aqui estou a partilhar uma primeira impressão.
O autor tinha vinte e cinco anos quando foi colocado, a 6 de Janeiro de 1946, no seu posto em Tóquio junto do Alto Comando Aliado. O País estava ocupado pelas forças norte-americanas, comandadas pelo General MacArthur. O 124º Imperador do Japão Hirohito renunciara nesse dia à sua condição divina, abrindo a porta para uma Constituição que inauguraria um sistema democrático para a governação. A cidade, arrasada pelos bombardeamentos estava em escombros, a vida quotidiana pautava-se por todas as misérias possíveis.
A obra é o diário da estadia do jovem diplomata no local onde permaneceria até 1950 e no qual, ao findar o ano, conheceria a que seria sua mulher, Vera Machado Duarte Wang, recentemente falecida.
Como anotou o prefaciador, Embaixador Freitas Ferraz, nesse diário que cobre todo o ano de 1946, não há qualquer alusão, indiscreta seria, à natureza das funções ou aos episódios oficiais de sua incumbência. Há, sim, logo a abrir, a verdade das condições de extrema pobreza que encontrou para o povo cujo sentimento tão bem conseguiu captar e para si próprio, instalados em precárias condições, e o esboço da reconstrução pelo surgir tumultuoso de um novo mundo, alheio ao que era o secular modo rígido de ser da alma japonesa. Mau grado o cargo, não foi poupado a extrema penúria e sofreu-a sem desanimar, tornando sofrimento em Literatura.
Um livro assim pode ser visto sob diversos ângulos, desde logo o da reconstituição do caos que se vivia então ante um sistema político que era total novidade para a realidade nipónica, a desorientação de uma Nação que fora levada para uma guerra de que saíra destroçada, o comportamento festivo da força ocupante, a si mesmo se dotando de conforto e meios de distância que são prémio ao vencedor. A resumir tudo numa expressão que o autor não refere, o Japão passaria da Idade Média para o capitalismo avançado sem Revolução Industrial, de um sistema político teocrático para uma democracia imposta sem Revolução Social, mas pela mão militar da potência ocupante. Franco Nogueira chegou do momento dessa mutação história fenomenal.
Pessoalmente, mais distante hoje desses temas, cívicos que sejam e de óbvio realce historiográfico, ficaram-me desta edição belíssima tirada pela Tinta da China, duas vertentes,  talvez menos vulgares e, por isso, menos expectáveis; uma tirada ao mundo terreno, outra trazida do mundo dos Céus.
Num país em que, no dizer de uma das personagens do livro, «tudo sucede e nada acontece», a primeira é a da evidência da infinita paciência ante a privação, as dificuldades, a improbabilidade. São, direi, momentos de refinado humor, trazidos por alguns episódios, daqueles em que a História maiúscula se revela pelas minúsculas pequenas histórias, como quando o automóvel, enfim conseguido, já ao findar do ano e pago o aluguer com a ração de combustível que lhe estava destinada, súbito avariou e o motorista, incapaz de se entender com a máquina, se conforma e tenta gerar conformismo, com a ideia de que esperando sem nada fazer, talvez amanhã funcione; ou quando, logo nos primeiros dias, ao pretender uma chamada telefónica, é respondido com a serena amabilidade da recepcionista do hotel, de que esperasse «um minuto por favor» o que veio a ser afinal traduzido pelo encarregado em termos enfim compreensíveis, pois não só o telefone do hotel estava avariado como também o do local em Tóquio para onde pretendia a ligação. Era tudo uma questão de esperar um minuto e todos os uns minutos que se seguissem.
Espírito curioso, Alberto Gorjão Franco Nogueira viaja. E viaja indiferente às condições de total desconforto, em comboios em ruínas, apinhados de gente e mercadorias, de pé, sujeito ao frio glacial e à chuva. E de tudo nos dá, numa escrita de finíssimo recorte literário, um retrato em que o horror se torna belo, a paucidade se transmuta em imensidão. 
É precisamente nessa contemplação compreensiva do outro, que se abeira da espiritualidade japonesa e a descreve em termos magistrais, em Kamakura, ante a estátua gigantesca do Buda, de que se aproxima sem pressa, como se a querer pressentir, interiorizando-o, o ensinamento que o xintoísmo traduz e neste [permitam-me, longo] excerto tão bem sintetiza: 

«A imagem colossal esmaga o ermo e impõe a sua presença. Não nos deixa dúvidas sobre a paz no Céu e estimula a paz na Terra; emana tranquilidade confiante; e propaga, em redor, por montanhas e por oceanos, a sabedoria da suprema humildade derivada do supremo conhecimento. Não exige de nós sofrimento nem preces; não promete a vida eterna; mas também não se oferece como Redentor da humanidade pecadora. Proclama a inutilidade das grandezas; sonhos de glória ou amor, ambições de fortuna, ânsia de poder, são apenas ilusões dos sentidos desencaminhados. A existência terrena é um mal que só a nossa ignorância torna possível. O caminho a seguir é o da ignorância individual, da iluminação íntima; e só por ele se alcança o benefício da graça búdica, fora da qual nada tem merecimento. Para além de Buda não há realidade: ele congrega o absoluto: é inteligência, moral e ciência são abstracções sem sentido. Além de Buda só há transmutações e transubstanciações. Mas o Grande Príncipe não é um Deus, criador de homens e de mundos. É um exemplo: aponta a estrada da grande aventura; e ensina a vereda prática que conduz à negação. Ser Infinito e Ente Único, convida-nos à crença na felicidade pela aniquilação nirvânica».

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Velando o Deus interior


Capa de «Pensamentos para mim próprio», de Marco Aurélio

Levei semanas com ele debaixo do braço, numa perpétua leitura de intervalos.

Após a última página, porém, o livro não regressou à estante. Por aqui tem permanecido, num ou noutro recanto da casa, enquanto me empenho em abri-lo e fechá-lo como a boca de um peixe. Revejo passagens, recordo anarquicamente, numa ânsia desordenada de reler.

Trata-se de um volume pequeno, publicado em 1978 pela Editorial Estampa, o longo título a contrastar com a brevidade da mais vulgarizada fórmula inglesa «Meditations».

Do título original, em grego, não nos chegaram certezas. Não será descabido assumir que nunca o teve, tanto mais que, por quanto se sabe, se tratava de um diário privado, jamais destinado a ser lido por outros olhos que não os do seu autor.

Porém, num desses desvios que tanto se discutem quanto apreciam na história da literatura (à mente logo assoma o dilema de Max Brod entre destruir e divulgar a obra de Kafka), os pensamentos de Marco Aurélio esquivaram-se ao silêncio dos séculos e formam hoje parte do grande diálogo universal.

Sob os meus olhos cansados, as palavras confiadas pelo grande imperador ao recato de um escrito íntimo recortam-se de circunstâncias e lugares de nascimento para me chegarem impolutas. Íntegras apesar de o quotidiano em que são lidas poder bem ser outro planeta face àquele em que foram escritas.

Vivemos numa época em que o tempo se encolhe ao mesmo ritmo frenético a que se desmultiplicam possibilidades e o sentido do relevante e do justo recua inexoravelmente para a sombra.

É para este tempo do muito, e paradoxalmente do escasso, que as palavras de Marco Aurélio se revelam um guião valioso.

Recordam-nos que num mundo em constante devir, onde nem ofensa nem glória serão, por fim, mais que poeira dispersa, a verdadeira tragédia da existência não é o seu fim, mas uma pessoa consentir na desonra da sua alma.

E dizem-nos que essa desonra não pode vir de fora. Que não são a crítica ou má conduta alheia, o infortúnio, ou sequer a morte, a derrotar o espírito humano, e sim o seu próprio empenho em se rebelar contra o que é, ou o desistir de devotar-se, em ideias, palavras e acções, à conduta recta, justa, corajosa, comedida e útil ao bem comum.

Tanto quanto o mundo ao nosso redor insiste em que esbanjemos atenção, Marco Aurélio impele-nos a olhar para dentro. A fundar aí a razão de ser de qualquer movimento.

«Em resumo, tudo o que respeita ao corpo, um rio; e a alma, sonho e fumo; a vida, uma guerra, um exílio no estrangeiro; a fama póstuma, o esquecimento. Que pode então guiar-nos? Única e exclusivamente a filosofia. E ela consiste em velar o Deus interior, para que permaneça isento de ultraje e prejuízo, que triunfe dos prazeres e sofrimentos, que nada faça impensadamente, que se abstenha de mentira e de dissimulação, não tenha necessidade que os outros façam ou deixem de fazer isto ou aquilo; por outro lado, que aceite o que lhe acontece e constitui a sua parte, como vindo dessa origem remota donde ele próprio veio; sobretudo que aguarde a morte de alma serena, não vendo nela mais que a dissolução dos elementos de que é composto cada ser vivo».

O que mais toca em Marco Aurélio não é tanto a autoridade da sua exposição, quanto o exemplo de uma mente consciente das contradições de estar vivo e ainda assim determinada a encontrar constância em si mesma.

A verdadeira dimensão do que escreveu só se revela quando nos damos conta de que o que diz não constitui ensinamento para o futuro, mas advertência para si mesmo. Que, com toda a probabilidade, as suas palavras não brotam de um lugar de superioridade, mas de momentos de falha, de uma consciência que se examina continuamente e exige de si fazer melhor amanhã.

Que um célebre imperador romano do segundo século depois de Cristo possa ainda falar, como mestre e modelo, a uma anónima leitora portuguesa do séc. XXI será marca de um espírito extraordinário.

Será, também, prova da igualdade elementar que nos acolhe a todos sob um mesmo tecto existencial, não obstante a diversidade que nos compele a apartarmos pessoas em função de ocorrências fortuitas, como os pontos do mapa e da linha cronológica em que vivem.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Ele há coisas...

Ele há coisas que não lembram ao Diabo mas é pena. João Pedro George teve a notável ideia de ir aos livros - imensos livros - e deles copiar as contracapas e as badanas - "orelhas" se lhes chama no Brasil - e com base nisso, ficheiro organizado, deu-se ao risonho desfrute de pôr tudo junto com separadores de comentário em estilo sulfúrico, por vezes sulfídrico.  E deu azo a um estilo que vale a pena.
O resultado é gargalhante, arrasador, total gozação.
À força de estereotipar alusões, os criadores desses excertos sincopados de prosa que são as badanas e as contracapas caem no ridículo de se repetirem em menções a virtudes, méritos e excelências do autores de livros que aquela breve prosa anuncia, aliciando o leitor, trompeteando o valor da obra. 
Se cada uma já leva ao riso, ao vê-las todas, em catadupa, é a desbunda total. Sobretudo pelos prodígios de reieteração aduladora.
João Pedro George deve ser uma criatura detestada na «nossa pequena aldeia literária» e dá mostra de ter nisso um secreto gosto, ou talvez, suponho, um público júbilo.
O livro deixa-se ler. Vou a meio da primeira parte. A segunda é dedicado a um tema  que a sua minúcia descobriu ser desabotoadamente transversal aos nossos autores: as mamas. Espreitei-a, apenas, como quem não vê. 
Se a escrita sobre as badanas e contracapas terá sido fácil na construção, pois bastou copiar, fichar e organizar, juntando-lhe o anteparo da ironia, aqui o esforço de sustentação foi tremendo, pois todas elas são tiradas do miolo das obras de onde surgem - qual cena felliniana no Amarcord - imensas, protuberantes, esquálidas, de variada volumetria, a mostrar a obsessão peitoral dos nossos escritores.  Normal, como nos românticos as mãos, ou em Eça os delicados pezinhos. 
De facto, ele há coisas, essas sim, do Diabo, felizmente.

sábado, 13 de abril de 2019

Os ratos


Como a memória reconstrói! Li há muitos anos, em 1971, na colecção de livros RTP, o conto A História de Venâncio, Segundo Oficial do escritor Joaquim Paço d'Arcos. 
A leitura ficou de tal modo gravada na minha sensibilidade que a usei um dia, como intróito a um alegação oral em tribunal. 
O caso prestava-se: tal como Venâncio, aquele que eu então defendia - e que, entretanto, já nos deixou - era vítima do desprezo e da perseguição, ele que fora quem, zeloso funcionário, denunciara a situação criminosa, encontrada no serviço, que, amargo destino, agora o fazia sentar-se no banco dos réus, ao lado do subordinado que justamente denunciara e que, na hora da defesa, tentando fugir à responsabilidade, incriminara soezmente o chefe que assim arrastou para a infâmia. Sairia absolvido depois de duas vezes julgado, a sentença da primeira absolvição anulada por recurso que o Ministério Público teimosamente interpusera.
A noite passada, quando a fadiga já nem notícias me permitia ler, vagueei pelas estantes em busca de algo que, sem esforço, pudesse distrair, e eis que encontro o livro Carnaval e outros Contos de que a história de Venâncio é um dos textos de tal colectânea.
Editara-o a Guimarães em 1958. O meu exemplar tê-lo-ei comprado em algum alfarrabista, ostenta a dedicatória manuscrita «para Minda e para o António de Cértima com a admiração e boa amizade do Joaquim Paço d'Arcos, Nov. 58».
Li da obra, primeiro, um dos contos, à sorte, precisamente aquele que se chama - ele há acasos! - A Confissão do Dr. Barreiros, sem saber que, voltando ao índice encontraria a história de Venâncio. O cansaço desandara, ao entorpecimento sonâmbulo sucedeu uma vigília tranquilizante que só pela madrugada daria em insónia.
Imagine-se agora o que é eu ter fixado quando lera uma história e sobretudo um modo de a contar - e tê-la declamado naquele tribunal e repetido tantas outras vezes ante pacientes ouvintes - e, afinal, agora ao relê-la, verificar, com espanto, que não fora nada assim que o escritor a configurara.
O enredo é a bizarra história de um funcionário, cumpridor e obediente, que, constatando a existência de ratos na sua secção, prontamente informa o seu chefe; chefe esse que faz subir na hierarquia da Administração o facto, dali ao Chefe da Repartição, deste ao Director-Geral, enfim o ministro, indo, no final, o caso ao próprio Conselho de Ministros, porque o perigo de um rato num recôndito lugarejo do Estado é ameaça global ao arquivo de todo o Estado.
O resto o leitor supõe. Foi empossada Comissão de 29 membros para estudar o caso e propor medidas, medidas que nunca chegaram a ser propostas, pois o areópago de membros reunira uma só vez: «A doença do Presidente, as inúmeras ocupações dos vogais não haviam permitido que ela se desempenhasse do encargo assumido».
Quanto aos ratos - que na designação da folha oficial [«esse que nunca erra, porque se chama "Diário do Governo", ironiza, cáustico, Paço d'Arcos] haviam sido denominados «mamíferos miomorfos, da família dos murídeos, da tribo dos muríneos», esses, multiplicavam-se livremente, nada impedido a proliferação da família. 
Mais: recusado o sonho de que alguma vez pudesse integrar a douta Comissão, «Venâncio, a quem os chefes não haviam prestado a merecida justiça, não pôde deixar de ser sensível à delicadeza dos modestos roedores» e em especial «duas ratazanas mais peludas, mais idosas, mais lentas nos movimentos, menos vorazes porque tudo haviam já alcançado e digerido neste mundo». Sim, «para elas, as duas complacentes amigas, passou Venâncio a trazer, nas noites de serão, guardados em velha lata de caramelos, pequeninos, delicados mimos: restos de pão, fatias delgadas de queijo, pedaços tenros de chouriço».
Tanto bastou! Ao precisar de um documento oficial para a Senhora sua sogra, Sexa ministro trouxe à mísera secção, onde Venâncio «burocrata espezinhado» servia o Estado e a ideia que dele tinha como seu Senhor, o horror de darem conta que onde estaria o pretendido papel era agora «um amontoado de papéis roídos até ao âmago, indecifráveis para qualquer consulta, inutilizados para qualquer propósito».
Tudo visto e ponderado: «Venâncio, que atentara contra a segurança do Estado, causando a este irreparáveis danos, foi demitido de funcionário público». Assim! «Sua Excelência não transigiu e aplicou aos segundo oficial a demissão pura e simples, pois de roedores está o país cheio!»

Eis a história. E, caramba, no que eu recordava e fui contando, construí, afinal, dentro da história uma outra história. 
Para mim, Venâncio alimentara os roedores com pedacinhos de pão com ovo que sua mulher, amável e compreensiva, lhe preparava para esses serões oficiais! 
Na minha ideia nebulosa da narrativa, a mulher de Venâncio, «com aquela sabedoria inata que as mulheres têm» [contava eu a quem me dava uns momentos de paciência para escutar-me] logo o prevenira que um subalterno como ele jamais aspiraria pertencer à Comissão de ilustres, ele que pensava ser título de admissão ter sido quem, afinal, descobrira o primeiro rato; no que li o momento é outro e outra a cena: «Para que te serve fazeres parte dessa tal Comissão? ainda se te desse algum dinheiro... Agora só pela honra...», comentara, em jeito de consolo a esposa do triste manga de alpaca.
Enfim, para mim, tudo começava com a descoberta de um primeiro rato, depois outro, enfim a multidão, quando, no que reli, o conto arranca logo com o elenco completo: «Os ratos devoravam, no forro e nos soalhos, dos tectos, das paredes, por entre as prateleiras cevadas de livros e de papéis, a carcaça do velho edifício e o seu venerável recheio».

É isto. E que importa que o conto daquele magnífico escritor - ele próprio funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, António de Cértima, diplomata - o tenha eu transformado em uma outra coisa, fiel ao essencial, divergente no acessório, que tenha afinal confirmado que o melhor e mais fiel leitor é quem, animado pela leitura, se torna, enfim, escritor do que fora escrito.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Diário Português: Mircea Eliade

Trabalhando e muito na minha profissão, doze, catorze, por vezes dezasseis horas - momentos houve em que fazia directas - dou comigo quase a pedir desculpa ao meu trabalho pelo tempo que gasto a ler, a pensar, em escrever fora do que seja a advocacia; e ao mesmo tempo - mundo contraditório este, sem a esperança dialéctica da síntese que tudo conjugue - a lamentar-me por tão pouco ler, tão pouco pensar, tão pouco escrever. E a jurar mudar tudo e a sofrer por não se alterar nada de significativo.
Foi, por isso, um conforto de alma ter terminado ontem ainda, esfarrapado de cansaço, a leitura do Diário Português de Mircea Eliade, escrito durante os quatro anos e alguns meses que esteve a Portugal, onde chegou em 1941 como adido de imprensa da Embaixada da Roménia do seu país. Conforto, pois nele esse estado permanente de angústia existencial em que tanto me revejo com a diferença de que a profissão era para ela parte diminuta do seu tempo, cada vez menor até à redução a zero, abandonado que foi sendo pelo Governo do seu País, estigmatizado pelas ideias fascistas que nutrira, e vilipendiado por as ter vindo progressivamente a abandonar com a passagem dos anos e o devir da História, o país a tornar-se uma colónia soviética, eles que são, os romenos - título de um opúsculo seu - Os Latinos do Oriente.
Já escrevi neste mesmo lugar três vezes sobre a sua pessoa e obra [aqui, aqui e aqui].
Personagem complexo, avulta neste diário a tensão permanente entre a dimensão espiritualista - que o levou à Índia, às filosofias orientais e à História das Religiões, passando pelo ocultismo - e as exigências eróticas, privado das quais era acometido de crises permanentes de neurastenia, o sexo como profixalia higiénica da biologia, a ascese carnal como ponto ómega da reintegração do humano, e - disso falei nos outros escritos - um inconsolável amor por Nina Mares, sua mulher, cuja agonia se deu na casa em Lisboa, aqui na Elias Garcia, lateral à Igreja de Fátima.
Dotado de uma curiosidade insaciável, ávido leitor, incessante escritor, custa crer que toda essa pujança criadora se deu, espasmodicamente, não tendo ele chegado aos quarenta anos. Compreendi a razão quando comprei, folheei, e haverei de lê-los mastigadamente, os dois volumes da sua autobiografia, e sobretudo quanto ali se prenuncia, desde a infância, um destino de excepção.
Devastado por tempestades anímicas, afunda-se em leituras de Sören Kierkegaard, que ficou como ícone do pessimismo filosófico e do desespero. Mas que distância. Não só pela legibilidade que no dinamarquês é a sua menor virtude, mas porque em Mircea tudo é vazado no papel como se as entranhas se derramassem em todas as escalas sentimentais. Escreve porque vive, profundamente. Lê-se como se a nudez da nossa alma fiasse exposta, reflexamente.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

O riso

Parei de ler o que me foi possível ler do livro do Onésimo Teotónio Almeida sobre as Correntes de Escrita, que saiu agora em Fevereiro de 2019. Tinha acabado de ler grande parte de um livro seu sobre Darwin & Marx, que me entusiasmou, tal como este me está a desapontar. Os textos daquele outro eram antigos já, mas as ideias permaneciam novas. O estilo coloquial convidava à leitura. E foi assim que, entusiasmado, entrei neste.
Dizem-me, e nota-se, que Onésimo cultiva o humor como método e objecto. Só que o humor pressupõe doses calculadas, sob o pena se tornar vulgar  e perder a graça. E por aqui abundam piadas e anedotas a ponto de a sua aparição perder impacto.
A ironia é forma de sabedoria ou de entretenimento, consoante o tempo de maturação ou a oportunidade. A chalaça, que é a sua forma vulgar, maça muito e ensina pouco e a sua repetição faz perder a vontade de ouvir. Há por aqui um pouco de tudo. Percebe-se que o propósito é ilustrar uma ideia; mas há o risco de o leitor se ficar pela superficialidade do riso.
Sei que estou a ser antipático quando, por regra, encontro sempre algo de positivo nos livros que leio e seguramente injusto, pois quando iniciei a leitura estava entusiasmado ou talvez bem disposto e disponível para ser contagiado. E nem o autor nem os editores da Opera Omnia merecem isso. 
Mas hoje está a chover, fiz centenas de quilómetros em trabalho e nem sempre temos boa-disposição.
Tenho o livro aqui ao lado, sublinhado e com textos ainda por ler. Vim aqui escrever isto por ser típico sentimento de leitor. Ao contrário do crítico que, se honesto, deve ler integralmente antes de formular juízo, o leitor pode maçar-se a meio ou, para ganhar vontade que sente escoar-se, recomeçar a leitura do fim para o princípio, contando da última folha ou de cada dos dos capítulos. Como um caranguejo, como o livro que Caranguejo se chama, do Ruben A.
Voltando às Correntes. Suponho que o que aqui aparece escrito tenha causado vivo efeito quando dito em discurso oral. Falta aqui a pausa e a expressão, o semblante e o gestos. Talvez por isso nas redes sociais se escreva (risos) quando queremos dizer, sem um emoji que nos rimos. E eu não estou a rir. E hesito em guardar o livro ou regressar à sua leitura para não desanimar.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Eminescu: um dia de sol

Voltei hoje, dia de magnífico Sol, enfim Sol!, de uma passeio, e há tanto tempo o não fazia naquela regular ida de Sábado à Rua Anchieta e ali aos livros.
E trouxe livros. Raramente sucedeu não trazer livros. Entre eles, hoje, as Poesias de Mihail Eminescu. Com ele agora as memórias fluem, chamativas, ao trazê-lo os acontecimentos irrompem, invulgares. Tenho-o pela segunda vez, um outro exemplar, em melhor estado emprestei-o a quem o apreciaria no original. E escrevera aqui sobre ele.
Publicada em 1950, esta edição bilingue comemoraria o centenário do poeta nacional romeno. Os trabalhos haviam começando, porém, muito antes: à tradução inicial de Rogério Claro iniciada em 1944, sucedeu a revisão aturada e paciente de Victor Buescu e Carlos Queiroz, trabalho de companheirismo, dedicação, minúcia. A edição, a cargo da Editora Fernandes, sita no Largo do Rato, em Lisboa, sairia com um texto de introdução à vida e obra do poeta a cargo de Mircea Eliade; iniciado, como este o confiou e fui verificar agora, ao seu Diário Lusitano, a 6 Setembro de 1942, escrito nesta sua casa na Avenida Elias Garcia, onde viveu a agrura existencial que foi a sua passagem por Lisboa durante a Segunda Guerra.
Há entre o poesia de Eminescu e o pensamento de Eliade pontos de convergência, talvez por isso ele os acentue no que escreveu: tentação da morte, esperança da reintegração na Natureza-Mãe, carácter indómito das paixões, a ânsia da serenidade e o amor patriótico à Roménia natal. 
Mundo pequeno este, porém. Ao terminar a manhã, correu o almoço por um modestíssimo restaurante na Travessa do Duque, ali ao Carmo, um dos que ainda não foi devorado pelo turismo. Local acanhado, a mesa larga partilhada com operários: amáveis, um deles romeno, outro declarou-se moldavo. Curioso destino da História, afinal a mesma língua, dois Estados que já foram um mesmo País talvez por serem uma só Nação. 

domingo, 10 de fevereiro de 2019

A cura pela leitura

Comprei-o em Itália, creio que em 2007, o ano em que foi editado. Li-o então e reli-o agora. Mais do que um incentivo à leitura é o que uma frase sua resume: «Piuttosto che diventare schiava del Librium mi prendo un libro». A recusa da obsessiva química farmacológica, trocada pela física das páginas de um livro. 
A Biblioteca é uma farmácia da alma, porque cura, a seu modo, todas as neuroses. «A infelicidade dos personagens famosos é um lenitivo para a nossa infeliz sensação de inferioridade», escreve o autor num dos seus momentos de encontro com a panaceia que a leitura traz. «E così, leggendo prima di dormire uma favola o un breve, poetico racconto, siamo in grado di neutralizare de piccole infelicità di un'intera giornata».
Porque cito em italiano? Porque lida a bula de tão suave medicina, macia enquanto homeopática, na língua de Italo Calvino, nasce, acariciante, o desejo de nos rendermos à terapia. «Chi non legge há un'anima anoressica».
Miro Silvera nasceu em Aleppo-Síria a 22 de Maio de 1942. Vive em Milão desde os cinco anos.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Celebrar a vida com estrondo

Parece que a personagem principal, e que no livro conta a história, é de ficção, pois se chama Miguel. Mas percebe-se adiante que esse é parte do nome do próprio autor, Luís Miguel. Ganha-se, então, a percepção de que aquilo ali contado pode ter sido a sua vida, mas estou em crer, tudo lido, que foi, afinal, sem máscaras, exactamente a sua vida. Mais: a vida de todos os outros, os da família de sangue e os amigos, as mulheres que com ele viveram e com ele estiveram.
No final de um enredo, de monólogo escorrente, repetidos por vezes, como se obsessivamente, os mesmos episódios, fica, coração apertado, uma dúvida: teria sido legítimo contar tudo aquilo? Não direi pelo modo de contar, perpassado de dor e de contrição, sim, pelo que ali se revela de todos os demais, as suas misérias, o que os diminui, intimidades e sordidez não excluídas, descontada a grandeza com que pela narrativa se elevam, trazido à tona por um  esbracejar aflitivo em que o escritor se debate para exorcizar os seus fantasmas e os seus pesadelos.
Mãe, promete-me que lês é um livro sobre o qual, lido em dois fôlegos, não tenho opinião e talvez não tenha de a ter.
Num mundo de voyeurismo disseminado - de outro modo inexistiram redes sociais - está ali pasto para os esfomeados por vidas alheias, essa sorte de canibalismo mental dos que por essa forma saciam a pança das suas vazias existências; num mundo em que os vultos mais divulgados da escrita, já sem tema, tudo dito, se destralham, esfrangalhando na praça pública, em livros e crónicas, as tripas suas e as dos seus, a obra já tem antecedentes.
Ficam-me apenas duas perguntas. 
A primeira, o "porquê", não naquela variante do "porque escreveste isto, Luís Miguel", pois em algum momento desta sua iniciativa o autor terá tentado explicar-se, como se terá já explicado sobre obra antecedente - que não li - centrada na pessoa de seu pai, sim naquele perspectiva do "para quê", a variante utilitária da mesma pergunta. A essa tento responder: para que ficássemos menos sozinhos nas nossas angústias, mais confortados com o que de feio e mau tenhamos a ensombrar as nossas vidas. Se é isso, seguramente, haverá tantos que ali se reconhecem e se absolvem, corrido o purgatório.
Resta a segunda pergunta e, afinal, a que creio ser a fundamental pergunta: "mas não haveria como?". Esta questão tem como resposta o tanto que em Literatura já se escreveu com subtileza, sobre vidas horrendas e momentos sublimes, do espectro do amor à morte, do construir à depredação. tornando o escritor em Arte o que é afinal a sua própria pessoa, deixando ao leitor a possibilidade de supor onde estava na ficção a realidade, na história alheia a sua autobiografia. Poderia ter sido assim, mas não o foi. Como cada vez mais já não é. 
Leio, quase sempre, a sublinhar. Aqui sublinhei pouco, pois na imensidão dos factos são isoladas as frases que contêm uma reflexão. Retenho uma: «Celebrar a vida com estrondo, celebrar o estranho caso que com ela temos». É isso, suponho, o que me fica desta leitura. Talvez já seja, sem que a queira ter tido, uma opinião.

domingo, 4 de novembro de 2018

Les mémoires de Maigret

Consegui - contentamento! - com um pouco de preguiça de cama - mas é Domingo! - terminar a hoje leitura. Livro breve, formato, lido no original, francês. 
Pertenço, talvez, a uma das últimas gerações que em Portugal saberá ler em francês. Cada vez menos se ensina essa língua, menor em cada dia a influência da cultura gaulesa. No tempo do Eça de Queiroz a novidade levava, para chegar a Portugal, o tempo do Sud Express. Agora já poucos sabem o que foi o Sud Express, Santa Apolónia/Mangualdade/Gare de Austerlitz.
Livro paradoxal este, as memórias de Maigret, como se escritas pela mão do próprio. Assina, Georges Simenon. Se pudesse sem blasfémia convocar-se a teologia, seria a revolta mansa da criatura contra o seu Criador.
O inspector da Police Judiciaire tem, nesta pequena obra que a Presses de la Cité agora reimprimiu, publicada originalmente em 1951, compaixão pelos erros daquele que tanto escreveu sobre as suas investigações, retratando-o como o polícia gordo e fleugmático, tornando-o em Literatura aquilo que ele não é, fazendo-se viver quem não sente ser e aqui tenta emendar.
Sendo permitida a ironia, Maigret escreve tão prodigiosamente como Simenon. A mesma imersão nos ambientes, a mesma compreensão pela dimensão humana de todos os outros. 
Exagerado, como sempre - palavras de Mme Louise Maigret - Jules Amedée François Maigret esforça-se, nesta ânsia de rectificação por nos devolver o inspector de polícia como «simples funcionário», por atenuar a diferença existencial, - que não moral - entre os que estão do lado da lei face a todos os que são o seu objecto de perseguição, do bas fond à alta roda.
Há na escrita a presença permanente da mediania, o conformismo com a modéstia, a quase ausência de rancor. Noites de vigília, o desconforto permanente da chuva em tempo frio, rotas tantas vezes a sola dos sapatos, uma carreira feita a partir da modéstia de um polícia de rua, distribuidor de correio em bicicleta, enfim, a findar as páginas, ébrio de alegria ante a promoção à Brigade Spéciale
Por causa de uma das narrativas sobre um caso seu, perdi há tantos anos que já nem lembro quando, um comboio na gare de Poitiers. 
Companheiro de viagem, num saco com pouca roupa e muitas fichas para a bibliografia de um livro que teimava em escrever - e já nem sei se o completei, era jurídico, o mundo não ficou pior sem ele! - enclavinhado na mão, aquele pequeno mas hipnótico livro e nele Janvier, Lucas, Torrence, a Brasserie Dauphine, a Rue Richard-Lenoir. Esqueci o título, foi-se a história, ficou o sentimento.
Seguia-lhe de tal modo os passos, bebia assim com ele imaginariamente os Calvado's, o Armagnac que, embriagado também pela fantasia e pela ilusão tornada real, nem dei pela aproximação, nem pela paragem, nem pelo arranque do comboio que asseguraria a ligação final, rumo a Lisboa. 
Naquele instante de surpresa e pavor - tinham-se esgotado os francos e nem sabia como fazer para corrigir o sucedido - eu fui O homem que via passar os comboios.

sábado, 6 de outubro de 2018

Agustina: ortografia e nascimento

Que posso dizer quando leio Agustina Bessa-Luís, mesmo pequenos textos de pequenos livros quando em cada um, quase diria em cada linha, encontro uma ideia, uma sensação, um sentimento, que dariam para parar, tempo de reflexão e de enamoramento e a leitura se adensa e caminha devagar?
Trouxe o Caderno de Significados, pela única razão de ser de aparência diminuta e cansa, trazer para regressarem não lidos aqueles livros para os quais, extensos sendo, não se encontra tempo, na escravidão em que se tornaram as nossas vidas para ler, folheando apenas que fosse.
E pela tarde morna de sonolência e durante a noite irrequieta de insónia prossigo pelas suas cem páginas e ainda não terminei, lendo ao acaso tal como ela parece ter escrito, notas e crónicas «em folhas soltas, em cadernos de notas, em espaços brancos de impressos, em margens de livros, dispersos em pastas de congressos, em gavetas de móveis».
Direi que de tanto ficou neste momento a escrita sobre a escrita e desta o modo de escrever: «a importância da ortografia é a importância do nascimento [...]. Eu tenho a mesma letra dos meus cinco ou seis anos, miúda, desenhada como o arco-íris num rio. Aprendi assim a jactância dos efes, a morbidez dos ás, os bês abaciais e o tê que parece um Quixote com a sua bacia de barbeiro na cabeça».
Que melhor e mais magnífico poderia ler? «Quem não ama a ortografia não respeita a cultura, peregrinação nas matas do alfabeto».

sábado, 9 de junho de 2018

José Régio: fotobiografia reeditada

Tinha conseguido já a edição de 2002, publicada conjuntamente pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda e pela Câmara Municipal de Vila do Conde, escrita por Isabel Cadete Novais. Hoje a Feira do Livro trouxe-me a segunda edição, de 2017, editada pelo Centro de Estudos Regianos, sob o patrocínio da Câmara Municipal da sua terra natal, vindo à luz a 17 de Setembro de 1901.
Melhoria substancial. Capa bem mais apelativa, tal como na anterior com destaque para uma fotografia do biografado, mas desta vez naquele facies em que o reconhecemos, enriquecida com encartes a cor, compensando a ausência de cor no miolo que valorizava a primitiva edição, abre com prefácio de Miguel Real que nos apresenta José Régio, tal como Pessoa e Teixeira de Pascoaes como «um dos grandes solitários da cultura portuguesa do século XX». Solitário, prossegue Real, pois que «criador dos fundamentos teóricos e dos métodos expressivos da sua obra», solitário porque «imune aos modismos estéticos nacionais e internacionais». E mantém o texto introdutório de Eugénio Lisboa, a quem a divulgação do seu nome e obra tanto devem.
José Maria dos Reis Pereira, que em Literatura ficou como José Régio, corre a maldição de ser para cada vez menos.  Pressente-o no verso que no livro se copia: «Morro conformado/Mas só eu sei quanto/Me não tem custado//Há tanto lhes canto/Para ser ouvido/E E ao fim desse tanto/Sou desconhecido». E viveu devorado por essa angústia, fome de ser amado.
Trata-se de uma escrita muito íntima mas em que a fronteira do privado só é trespassada por sugestão diáfana. Mesmo o seu Diário, um dos volumes da Obra Completa que, em excelente hora a Imprensa Nacional editou, não revela mais do que o necessário, ficando no exacto ponto em que a sensibilidade do leitor havia intuído. E, no entanto, escrita de um cidadão interventivo, que firmara as listas do MUD oposicionista ao regime político então vigente e pagara com cortes da Censura a ousadia. Mas cuja delicadeza de carácter lhe permitiu sempre o equilíbrio e uma significativa segurança, não fosse a insegurança interior, em angústia permanente, a neurastenia do isolamento, professor liceal exilado em Portalegre, tendo como companhia o escasso meio de camaradas das letras e companheiros de ideais.
Eis o livro.
Comparando em breve folhear ambas as edições nota-se que nesta se amputou o capítulo «O Escritor Não Morre». E assim não encontro nesta algumas das imagens da anterior, como a da visita de Marcello Caetano quando visitou a Casa Museu em 1971, mantendo-se embora, em assimetria de critério a do Presidente da República, Américo Thomaz, quando visitou a casa em 1966.
Do mesmo modo uma fotografia em que a ele se juntavam Vergílio Ferreira e Eugénio de Andrade não a encontro agora.
Trata-se, pois, em sentido próprio, de uma segunda edição, revista seguramente.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Monumento à memória


Procurei por ele para escrever este texto.

É um livrito pequeno, dos que facilmente se somem na selva das estantes, onde capas brotam como lianas e letras impressas formam a algazarra da manhã. 

Oitenta e sete páginas em formato de bolso e papel robusto, na edição que tenho da Assírio & Alvim, incluindo apresentação, cronologia biográfica e páginas técnicas da praxe. 

Coisa que sem esforço se desvia do lugar. Assim foi. Encontrei-o, insondável ironia, numa pilha à beira do esquecimento no quarto de arrumos.

«Mendel dos Livros», de Stefan Zweig, breve novela publicada em 1929, em folhetim, no jornal diário vienense Neue Freie Presse.

Li-a há poucos meses, num galope febril, afundada em mantas e paracetamol, em certa tarde de doença de que já pouco ou nada recordo além da névoa de folhas sucedendo-se em íntima peregrinação. 

Com o anónimo narrador penetrei, impelida pela chuva, na atmosfera cálida de um café vienense, e por meio dele no túnel de uma súbita recordação de um tempo e lugar em que conheceu Jakob Mendel. 

O absorto e alheado Mendel. O «pequeno, comprimido e completamente envolvido nas suas barbas» judeu ortodoxo vindo do Leste e feito alfarrabista em Viena, para quem só o amor aos livros existia e por trás de cuja «fonte calcária, suja e coberta por um musgo cinzento» se encontravam, «fazendo parte do mundo invisível de fantasmagoria, como que cunhados por meio de fundição de aço, cada um dos nomes e cada um dos títulos alguma vez impressos num frontispício dum livro». 

A sua era uma vida filtrada pela lente de uma única paixão, servida por uma prodigiosa memória, num impoluto mundo de ideias que o império dos factos não saberia entender. 

Obra enorme de sensibilidade, simultâneo lamento por uma era perdida e homenagem ao espírito, reclama ser lida de coração nas mãos, naquele sítio interior onde habita o que já só em nós existe. 

Stefan Zweig, querendo erguer um monumento ao livro, ergueu-o também à memória, essa ínfima centelha redentora que faz de nós guardiões do tempo em que vivemos e de quem nele existiu. Delgada corda com que nos alçamos uns aos outros do alçapão escuro da aniquilação. 

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Dia Mundial do Livro

Hoje é o Dia Mundial do Livro. E como não me são indiferentes os livros. 
Vicissitudes da vida fizeram com que extensas bibliotecas ficassem por lugares por onde se repartiu a minha existência, desde Malanje onde nasci, imensos mais em livrarias onde os vi sem ter por vezes meios para os comprar, outras por ter deixado para depois ir comprá-los, ou não me ter apercebido de que teria sido importante aproveitar a ocasião que se perfilava diante dos olhos, ao alcance do desejo e das possibilidades.
Estendo estantes por onde posso, por esta casa, pelo escritório e por um outro escritório que teimosamente mantenho na cidade do Porto. E andam pelo chão, em montículos que juro serem provisórios. Quando posso, arrumo-os por ordem, os de ficção eslava para que se não confundam com os que juntei sobre estudos literários ou de angeologia, incluindo os anjos caídos, o Vergílio Ferreira agora todo ordenado por datas, o Alesteir Crowley incompleto e a esmo, ainda ao lado, nem sei porquê do Amadeu Souza-Cardoso. 
Sobre tantos temas tenho livros, alguns temas descobri-os ao ter descoberto um livro sobre isso. E depois há a incógnita, não por ter comprado um dicionário de esperanto mas sim um outro sobre tibetano, língua que não me imagino sequer a balbuciar. Um dia dei comigo a hesitar sobre não deveria adquirir, na ida Bucholz quando ainda era o que foi, a Summa Theologica do São Tomás de Aquino, mas comprei, um a um, todos da Enciclopédia Larousse, e os quarenta e cinco volumes da Obra Completa do Lénine, estes que ainda guardo, aqueles que alguém guardou para si. E tenho-a, porque confiada, a obra jurídica completa do Lobão, incluindo os Comentários a Pascoal e o próprio Pascoal Mello Freire, ainda em Latim.
Fui leitor e sou leitor e nunca o fazer contas à vida e aos anos que posso ainda viver me impediu de querer mais livros, sempre mais livros, mesmo que razoavelmente fiquem muitos por abrir ou sequer folhear: há nisto uma raivosa esperança em querer ter mais alma do que a fatalidade do precário corpo. São amigos, companheiros, a sua presença aquece o espírito, há sempre um que faz sentido na alegria e na dor.
Fui editor, duas vezes, a primeira dos meus próprios livros, a segunda de livros alheios. Na primeira  veste, dei-me voz sem prejudicar quem seja, na segunda arruinei um capital meu que não quis poupar e que se esgotou quando os prejuízos somados e a insolvência da distribuidora me devolveram razão ao sonho que se tornava pesadelo. De qualquer modo, por estúpido que seja, não me arrependo: isto é a teimosia dos que acreditam no sucesso que se encontra no desastre. Mesmo com o mercado adverso, mesmo com diminutos leitores, mesmo oferecendo livros, carregando com eles às costas e somando sobras, valeu a pena. Aprendi tudo do ofício, desde o primeiro momento em que o livro é uma ideia até à final em que é um pacote a levar para a sessão de apresentação e regressar, tristonho, porque ninguém o quis.
Não diabolizo o mundo digital , porque sou dos que também lêem num écran, em todos eles. Ler não importa onde, não importa que tipo de escrita, manuscrita ou tipográfica, ler, que seja jornal já requentado, ou versículos da Bíblia num noite insone, encontrada numa gaveta de hotel.
Hoje é o Dia do Livro, como aliás cada dia passou a ser o dia de não importa o quê.
Fui ontem buscar ali à Livraria do Centro de Arte Moderna mais um livro do Hermann Hesse, chegou hoje, vindo da Amazon um outro sobre César Ritz e o chef August Escoffier. Há pouco arrumei na estante, por estar nesta num lugar errado, o Vidas Secas do Graciliano Ramos.
A imagem deste post é de um livro emprestado. Terei de o devolver com mágoa. Irene Lisboa, a quem dediquei um blog, e da qual creio ter conseguido reunir a obra completa, escreveu em 1944 o Inquérito ao Livro em Portugal. Publicou-o a Seara Nova, de que foi dilecta colaborada. Lê-lo é concluir que os problemas de hoje são os de sempre: poucos leitores, curta passagem dos livros pelas livrarias, excesso de produção, problemas comerciais de distribuição. 
Comove ir ao índice e ver o que sucedeu aos livreiros que ela ouviu para o que escreveu, tudo falido, tudo ido: Parceria A. M. Pereira, Livraria Sá da Costa, Editorial Gleba, Livraria Luso-Espanhola,  Livraria Latina,  Arménio Amado, Coimbra Editora, Livraria Cunha, Casa Livros de Portugal.
Neste mundo de mortos, uma coisa vive: o livro e o amor dos leitores pelo que eles são.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Fulgurantes, incansáveis palavras


Uma confissão.

Evito muitas vezes a leitura da moda sem argumento melhor que o da simples vontade de não ir por aí, de caminhar fora de trilho e clareira e esgueirar-me, por entre árvores, até onde se supõe aguardar-me o inesperado tesouro. Sei bem que é uma indesculpável (mas espero que benigna) forma de soberba. Primeiro, porque nem todas as florestas abrigam tesouros; segundo, porque nem todos os trilhos levam a lugares comuns.

É, em todo o caso, a razão pela qual O Meu Irmão, obra vencedora do Prémio Leya 2014 e amplamente badalada, me veio cair nos braços só muito recentemente, um pouco aos trambolhões. A visita à livraria destinava-se a comprar um outro livro de um outro autor; lida, porém, a primeira página deste, já não sei se por acaso ou por curiosidade, não me foi possível deixá-lo para trás.

Começo por dizer que o menos interessante da obra será essa arqueologia literária que quase sempre se cai na tentação de fazer em torno dos autores de livros célebres ou celebrados. Que Afonso Reis Cabral venceu o Prémio Leya com apenas 24 anos. Que é trineto de Eça de Queirós. Que o livro, embora ficcional, é influenciado pela experiência directa do autor, por motivos familiares, com a síndrome de Down.

Nada disso deve relevar em excesso ante uma escrita que merece ser lida sem mitologia nem qualificativos. Isto é: que merece ser aplaudida pelo surpreendente sopro de vida com que insufla as personagens e a sua história, e não por um qualquer apesar ou por causa.

A premissa, em linhas sumárias, é esta: numa aldeia portuguesa, abandonada ao desgaste do tempo e da ausência como tantas, dois irmãos passam uns dias na casa de família. Miguel, o mais novo, nasceu com síndrome de Down. O narrador, pouco mais velho, chamou a si a responsabilidade de cuidar dele após a morte dos pais, reatando a proximidade de infância interrompida por muitos anos de afastamento do seio familiar. Contra este pano de fundo vão desfilando as memórias da sua vida em comum, que a par e passo nos revelam, por vezes de modo insólito, quem são estes irmãos e quais as razões e efeitos do seu distanciamento e ulterior reaproximação.

Há também, no passado e no presente, pessoas cuja presença adensa a trama do livro e os seus argumentos. E há ainda, perpassando toda a história na qualidade dupla de cenário e de personagem central, o Portugal interior – desertificado, viúvo, à espera – composto com o rigor e o critério de quem sabe muito bem o que fazer com as palavras.

Fiquem avisados de que este livro agita até aos ossos. De que ousa ser cru e desapaixonado e colocar no centro da narrativa uma personagem imensamente imperfeita e ferida em algum sítio fundamental. Menos ainda hesita fazer-nos olhar de frente para questões difíceis, como a da crueldade que vem vestida com as roupagens do amor, ou a da solidão de corpo presente, ou ainda a do amor em si mesmo perfeito mas excludente de tudo ao seu redor.

Depois, é claro, há a questão da deficiência, que Afonso Reis Cabral retrata nas suas pequenas e grandes manifestações, e cujo impacto na vida de cada personagem se esforça por investigar sem derivas fáceis.

Convém dizer que o livro, sendo duro, não é desprovido de humor, de momentos mais ligeiros, até de uma certa redenção, sob a forma da capacidade para o amor total e também para aquele amor que aprende a ser na adversidade, que aceita, que protege e que no limite tudo perdoa.

Sim, o livro assenta como um murro no estômago, mas esse murro desperta e faz pensar, não se sente nunca como gratuito.

E depois há as palavras, as fulgurantes, incansáveis palavras, e uma voz sóbria, madura e muito própria, e ainda uma narrativa ancorada não só em vida interior mas numa história bem desenhada e de passo mensurável, num clímax que surpreende e desnorteia, como nem sempre se vê entre autores portugueses.

Há um livro que merece ser livro e um autor que se apresenta de forma extraordinária.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A temperatura das palavras

Encontrei o livro por acaso. E de súbito nele tudo se tornou familiar. Desde logo a primeira referência a Luís Pedo Moitinho de Almeida, filho do proprietário de uma das casas comerciais onde Pessoa exerceu a sua profissão burocrática e que sobre ele nos deixou um livro e outros apontamentos diversos, recordações de um jovem atemorizado entre a genialidade que pressentia.
Depois, a referência ao local de nascimento do autor, Celorico de Basto. E logo um telefonema, a um meu Amigo, a quem li, o texto que assinalava uma tal origem, abriu a oportunidade de uma próxima visita me permitir ver, passando ao largo que seja, pela Casa de Melhorado, a de sua família.
O livro é uma digressão à tertúlia do Café Montanha, que Fernando Pessoa frequentava, extinto porque selvaticamente demolido e talvez, por isso, na superficial imagem do poeta, tudo se concentre como se, como local de companhia, só existisse o Martinho da Arcada, ao Terreiro do Paço.

Mas há mais: é a convivência próxima tornada narrativa, polvilhada de factos pequenos, é certo, mas igualmente interessantes porque mesmo a grandeza tem os seus recônditos íntimos de minudências e insólitos
Há, seguramente, um público ávido de voyeurismo, para quem as pequenas histórias se transmutam na História. Esses encontrarão aqui migalhas com que festejem o banquete da coscuvilhice. E talvez surpreendam Pessoa a não usar outros lápis do que «bocadinhos de lápis, aparados de um e de outro lado», ou no dichote a Pedro Theotónio Pereira, que amplamente detestava, enaltecendo da criatura o que lhe parecia nele de mais notável, o ter «os pés grandes». Ou ainda que, num passeio à Tapada da Ajuda, em carro eléctrico descoberto, Pessoa, entre cedros e abetos, tenha preferido que lhe mostrassem «tamarindo e um grão de pólen e não tarda um segundo que não pretenda que se agarre antes uma abelha».
Mas o que a obra me trouxe foram facetas interessantes, talvez porque as menos acentuadas por tantos que escreveram sobre o autor da Mensagem, que, já agora um pormenor pícaresco, na primeira prova tipográfica vinha o título escrito como Massagem...
Uma delas o da acção política daquele que, no imaginário colectivo, aparece envolto no nevoeiro do isolamento e da marginalidade. São várias as referências à sua acção no Núcleo de Acção Nacional, a mais conhecida fixação em Sidónio Pais, o Presidente-Rei. [quem quiser um pouco mais, pode ler aqui e aqui]. Grupo «meio fantasma» já se lhe chamou, de reduzida intervenção prática, voltado a uma ideia de uma monarquia «científica», assim ela nos é aqui resumida como ideia, fora dos ideais do Integralismo Lusitano, a cujas hostes o autor declara pertencer. Tudo temperado pelo desprezo a Afonso Costa e, afinal, àquilo em que a República se transformara. 
Outra, a da densidade da profunda amizade a Mário de Sá Carneiro e o tremendo momento, que ali se confidencia, do instante, em que, ante um gato agonizante, cena com que tropeçara numa das suas solitárias deambulações, porque envenenando com estricnina, em volteando em longa agonia,  ante os seus atónitos olhos, visão trágica e premonitória, a cabeça do animal aumenta de volume «e era a cabeça redonda do Sá Carneiro, eram as suas órbitas, as suas bochechas e um olhar triste e amargurado de despedida». Sá Carneiro suicidar-se-ia, em Paris, onde estudaria Direito, na Sorbonne, precisamente pela mesma  horrível forma, morte dolorosa.


Francisco de Paula Peixoto da Silva Bourbon [1908-1992] divulgou as crónicas que o livro agora compila no jornal Ecos de Estremoz, entre 1972 e 1973. Outras, sob o mesmo tema, publicaria nos jornais Cidade de Tomar, Consciência Nacional, Notícias de Guimarães, O Comércio de Gaia.
Sobre o livro, com cujo autor privou, Pedro Teixeira da Motta escreveria no seu blog [ver aqui]: «Francisco Peixoto Bourbon cultivava muito as amizades, era sinceramente um ser bom e generoso e foi ele mesmo que me introduziu a outros amigos de Fernando Pessoa, tais como Moutinho de Almeida e o Manuel Menezes de Vasconcelos, e transmite muito bem nas suas evocações o calor humano que circulava entre eles, realçando bastante a falta do meio condigno do génio de Fernando Pessoa, embora a tertúlia do Montanha fosse quase um refúgio de consagração e onde se podia dialogar com franca troca de ideias, como o jovem estudante de agronomia logo experimentou, tornando-se como que o benjamim acalentado da tertúlia, da qual nomeia como participantes o eng. Rogério Caldeira Santos (seria o maior admirador de Pessoa e posteriormente tentou infrutuosamente transformar o café Montanha num museu Fernando Pessoa), o dr. Manuel de Menezes Vasconcelos (um dos mais íntimos), o Marquês de Penafiel, Da Cunha Dias, o Joaquim Palhares, Victoriano Braga, o dr. Pedro Moreira, o Mário Saa, o Dr. Carlos Lobo de Oliveira, o eng. Pulido Garcia, o Victoriano Braga, o Gualdino Gomes, o capitão Gastão de Melo de Matos, e umas poucas vezes o António Botto e o Almada Negreiros.»
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Eis o apontamento singelo. As palavras têm temperatura. Estas, fruto de um Domingo que finda, teimosamente ainda frio, terminada a leitura, feita às prestações, são mornas.