sábado, 29 de junho de 2019

A contemplação compreensiva do outro

Não era definitivamente possível continuar sem ler. Tinha perdido a apresentação do livro na Biblioteca da Rainha no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mas tinha-me chegado ontem, encomendado à livraria aqui perto. E hoje, recuperado de semanas de exaustão, sonos trocados, trabalho em atraso, a viver sempre em função das vagas de urgências profissionais, decidi-me, dando-me a mim mesmo liberdade. 
E acabo de o ler. Poucas horas bastaram. E aqui estou a partilhar uma primeira impressão.
O autor tinha vinte e cinco anos quando foi colocado, a 6 de Janeiro de 1946, no seu posto em Tóquio junto do Alto Comando Aliado. O País estava ocupado pelas forças norte-americanas, comandadas pelo General MacArthur. O 124º Imperador do Japão Hirohito renunciara nesse dia à sua condição divina, abrindo a porta para uma Constituição que inauguraria um sistema democrático para a governação. A cidade, arrasada pelos bombardeamentos estava em escombros, a vida quotidiana pautava-se por todas as misérias possíveis.
A obra é o diário da estadia do jovem diplomata no local onde permaneceria até 1950 e no qual, ao findar o ano, conheceria a que seria sua mulher, Vera Machado Duarte Wang, recentemente falecida.
Como anotou o prefaciador, Embaixador Freitas Ferraz, nesse diário que cobre todo o ano de 1946, não há qualquer alusão, indiscreta seria, à natureza das funções ou aos episódios oficiais de sua incumbência. Há, sim, logo a abrir, a verdade das condições de extrema pobreza que encontrou para o povo cujo sentimento tão bem conseguiu captar e para si próprio, instalados em precárias condições, e o esboço da reconstrução pelo surgir tumultuoso de um novo mundo, alheio ao que era o secular modo rígido de ser da alma japonesa. Mau grado o cargo, não foi poupado a extrema penúria e sofreu-a sem desanimar, tornando sofrimento em Literatura.
Um livro assim pode ser visto sob diversos ângulos, desde logo o da reconstituição do caos que se vivia então ante um sistema político que era total novidade para a realidade nipónica, a desorientação de uma Nação que fora levada para uma guerra de que saíra destroçada, o comportamento festivo da força ocupante, a si mesmo se dotando de conforto e meios de distância que são prémio ao vencedor. A resumir tudo numa expressão que o autor não refere, o Japão passaria da Idade Média para o capitalismo avançado sem Revolução Industrial, de um sistema político teocrático para uma democracia imposta sem Revolução Social, mas pela mão militar da potência ocupante. Franco Nogueira chegou do momento dessa mutação história fenomenal.
Pessoalmente, mais distante hoje desses temas, cívicos que sejam e de óbvio realce historiográfico, ficaram-me desta edição belíssima tirada pela Tinta da China, duas vertentes,  talvez menos vulgares e, por isso, menos expectáveis; uma tirada ao mundo terreno, outra trazida do mundo dos Céus.
Num país em que, no dizer de uma das personagens do livro, «tudo sucede e nada acontece», a primeira é a da evidência da infinita paciência ante a privação, as dificuldades, a improbabilidade. São, direi, momentos de refinado humor, trazidos por alguns episódios, daqueles em que a História maiúscula se revela pelas minúsculas pequenas histórias, como quando o automóvel, enfim conseguido, já ao findar do ano e pago o aluguer com a ração de combustível que lhe estava destinada, súbito avariou e o motorista, incapaz de se entender com a máquina, se conforma e tenta gerar conformismo, com a ideia de que esperando sem nada fazer, talvez amanhã funcione; ou quando, logo nos primeiros dias, ao pretender uma chamada telefónica, é respondido com a serena amabilidade da recepcionista do hotel, de que esperasse «um minuto por favor» o que veio a ser afinal traduzido pelo encarregado em termos enfim compreensíveis, pois não só o telefone do hotel estava avariado como também o do local em Tóquio para onde pretendia a ligação. Era tudo uma questão de esperar um minuto e todos os uns minutos que se seguissem.
Espírito curioso, Alberto Gorjão Franco Nogueira viaja. E viaja indiferente às condições de total desconforto, em comboios em ruínas, apinhados de gente e mercadorias, de pé, sujeito ao frio glacial e à chuva. E de tudo nos dá, numa escrita de finíssimo recorte literário, um retrato em que o horror se torna belo, a paucidade se transmuta em imensidão. 
É precisamente nessa contemplação compreensiva do outro, que se abeira da espiritualidade japonesa e a descreve em termos magistrais, em Kamakura, ante a estátua gigantesca do Buda, de que se aproxima sem pressa, como se a querer pressentir, interiorizando-o, o ensinamento que o xintoísmo traduz e neste [permitam-me, longo] excerto tão bem sintetiza: 

«A imagem colossal esmaga o ermo e impõe a sua presença. Não nos deixa dúvidas sobre a paz no Céu e estimula a paz na Terra; emana tranquilidade confiante; e propaga, em redor, por montanhas e por oceanos, a sabedoria da suprema humildade derivada do supremo conhecimento. Não exige de nós sofrimento nem preces; não promete a vida eterna; mas também não se oferece como Redentor da humanidade pecadora. Proclama a inutilidade das grandezas; sonhos de glória ou amor, ambições de fortuna, ânsia de poder, são apenas ilusões dos sentidos desencaminhados. A existência terrena é um mal que só a nossa ignorância torna possível. O caminho a seguir é o da ignorância individual, da iluminação íntima; e só por ele se alcança o benefício da graça búdica, fora da qual nada tem merecimento. Para além de Buda não há realidade: ele congrega o absoluto: é inteligência, moral e ciência são abstracções sem sentido. Além de Buda só há transmutações e transubstanciações. Mas o Grande Príncipe não é um Deus, criador de homens e de mundos. É um exemplo: aponta a estrada da grande aventura; e ensina a vereda prática que conduz à negação. Ser Infinito e Ente Único, convida-nos à crença na felicidade pela aniquilação nirvânica».

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Velando o Deus interior


Capa de «Pensamentos para mim próprio», de Marco Aurélio

Levei semanas com ele debaixo do braço, numa perpétua leitura de intervalos.

Após a última página, porém, o livro não regressou à estante. Por aqui tem permanecido, num ou noutro recanto da casa, enquanto me empenho em abri-lo e fechá-lo como a boca de um peixe. Revejo passagens, recordo anarquicamente, numa ânsia desordenada de reler.

Trata-se de um volume pequeno, publicado em 1978 pela Editorial Estampa, o longo título a contrastar com a brevidade da mais vulgarizada fórmula inglesa «Meditations».

Do título original, em grego, não nos chegaram certezas. Não será descabido assumir que nunca o teve, tanto mais que, por quanto se sabe, se tratava de um diário privado, jamais destinado a ser lido por outros olhos que não os do seu autor.

Porém, num desses desvios que tanto se discutem quanto apreciam na história da literatura (à mente logo assoma o dilema de Max Brod entre destruir e divulgar a obra de Kafka), os pensamentos de Marco Aurélio esquivaram-se ao silêncio dos séculos e formam hoje parte do grande diálogo universal.

Sob os meus olhos cansados, as palavras confiadas pelo grande imperador ao recato de um escrito íntimo recortam-se de circunstâncias e lugares de nascimento para me chegarem impolutas. Íntegras apesar de o quotidiano em que são lidas poder bem ser outro planeta face àquele em que foram escritas.

Vivemos numa época em que o tempo se encolhe ao mesmo ritmo frenético a que se desmultiplicam possibilidades e o sentido do relevante e do justo recua inexoravelmente para a sombra.

É para este tempo do muito, e paradoxalmente do escasso, que as palavras de Marco Aurélio se revelam um guião valioso.

Recordam-nos que num mundo em constante devir, onde nem ofensa nem glória serão, por fim, mais que poeira dispersa, a verdadeira tragédia da existência não é o seu fim, mas uma pessoa consentir na desonra da sua alma.

E dizem-nos que essa desonra não pode vir de fora. Que não são a crítica ou má conduta alheia, o infortúnio, ou sequer a morte, a derrotar o espírito humano, e sim o seu próprio empenho em se rebelar contra o que é, ou o desistir de devotar-se, em ideias, palavras e acções, à conduta recta, justa, corajosa, comedida e útil ao bem comum.

Tanto quanto o mundo ao nosso redor insiste em que esbanjemos atenção, Marco Aurélio impele-nos a olhar para dentro. A fundar aí a razão de ser de qualquer movimento.

«Em resumo, tudo o que respeita ao corpo, um rio; e a alma, sonho e fumo; a vida, uma guerra, um exílio no estrangeiro; a fama póstuma, o esquecimento. Que pode então guiar-nos? Única e exclusivamente a filosofia. E ela consiste em velar o Deus interior, para que permaneça isento de ultraje e prejuízo, que triunfe dos prazeres e sofrimentos, que nada faça impensadamente, que se abstenha de mentira e de dissimulação, não tenha necessidade que os outros façam ou deixem de fazer isto ou aquilo; por outro lado, que aceite o que lhe acontece e constitui a sua parte, como vindo dessa origem remota donde ele próprio veio; sobretudo que aguarde a morte de alma serena, não vendo nela mais que a dissolução dos elementos de que é composto cada ser vivo».

O que mais toca em Marco Aurélio não é tanto a autoridade da sua exposição, quanto o exemplo de uma mente consciente das contradições de estar vivo e ainda assim determinada a encontrar constância em si mesma.

A verdadeira dimensão do que escreveu só se revela quando nos damos conta de que o que diz não constitui ensinamento para o futuro, mas advertência para si mesmo. Que, com toda a probabilidade, as suas palavras não brotam de um lugar de superioridade, mas de momentos de falha, de uma consciência que se examina continuamente e exige de si fazer melhor amanhã.

Que um célebre imperador romano do segundo século depois de Cristo possa ainda falar, como mestre e modelo, a uma anónima leitora portuguesa do séc. XXI será marca de um espírito extraordinário.

Será, também, prova da igualdade elementar que nos acolhe a todos sob um mesmo tecto existencial, não obstante a diversidade que nos compele a apartarmos pessoas em função de ocorrências fortuitas, como os pontos do mapa e da linha cronológica em que vivem.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Ele há coisas...

Ele há coisas que não lembram ao Diabo mas é pena. João Pedro George teve a notável ideia de ir aos livros - imensos livros - e deles copiar as contracapas e as badanas - "orelhas" se lhes chama no Brasil - e com base nisso, ficheiro organizado, deu-se ao risonho desfrute de pôr tudo junto com separadores de comentário em estilo sulfúrico, por vezes sulfídrico.  E deu azo a um estilo que vale a pena.
O resultado é gargalhante, arrasador, total gozação.
À força de estereotipar alusões, os criadores desses excertos sincopados de prosa que são as badanas e as contracapas caem no ridículo de se repetirem em menções a virtudes, méritos e excelências do autores de livros que aquela breve prosa anuncia, aliciando o leitor, trompeteando o valor da obra. 
Se cada uma já leva ao riso, ao vê-las todas, em catadupa, é a desbunda total. Sobretudo pelos prodígios de reieteração aduladora.
João Pedro George deve ser uma criatura detestada na «nossa pequena aldeia literária» e dá mostra de ter nisso um secreto gosto, ou talvez, suponho, um público júbilo.
O livro deixa-se ler. Vou a meio da primeira parte. A segunda é dedicado a um tema  que a sua minúcia descobriu ser desabotoadamente transversal aos nossos autores: as mamas. Espreitei-a, apenas, como quem não vê. 
Se a escrita sobre as badanas e contracapas terá sido fácil na construção, pois bastou copiar, fichar e organizar, juntando-lhe o anteparo da ironia, aqui o esforço de sustentação foi tremendo, pois todas elas são tiradas do miolo das obras de onde surgem - qual cena felliniana no Amarcord - imensas, protuberantes, esquálidas, de variada volumetria, a mostrar a obsessão peitoral dos nossos escritores.  Normal, como nos românticos as mãos, ou em Eça os delicados pezinhos. 
De facto, ele há coisas, essas sim, do Diabo, felizmente.

sábado, 13 de abril de 2019

Os ratos


Como a memória reconstrói! Li há muitos anos, em 1971, na colecção de livros RTP, o conto A História de Venâncio, Segundo Oficial do escritor Joaquim Paço d'Arcos. 
A leitura ficou de tal modo gravada na minha sensibilidade que a usei um dia, como intróito a um alegação oral em tribunal. 
O caso prestava-se: tal como Venâncio, aquele que eu então defendia - e que, entretanto, já nos deixou - era vítima do desprezo e da perseguição, ele que fora quem, zeloso funcionário, denunciara a situação criminosa, encontrada no serviço, que, amargo destino, agora o fazia sentar-se no banco dos réus, ao lado do subordinado que justamente denunciara e que, na hora da defesa, tentando fugir à responsabilidade, incriminara soezmente o chefe que assim arrastou para a infâmia. Sairia absolvido depois de duas vezes julgado, a sentença da primeira absolvição anulada por recurso que o Ministério Público teimosamente interpusera.
A noite passada, quando a fadiga já nem notícias me permitia ler, vagueei pelas estantes em busca de algo que, sem esforço, pudesse distrair, e eis que encontro o livro Carnaval e outros Contos de que a história de Venâncio é um dos textos de tal colectânea.
Editara-o a Guimarães em 1958. O meu exemplar tê-lo-ei comprado em algum alfarrabista, ostenta a dedicatória manuscrita «para Minda e para o António de Cértima com a admiração e boa amizade do Joaquim Paço d'Arcos, Nov. 58».
Li da obra, primeiro, um dos contos, à sorte, precisamente aquele que se chama - ele há acasos! - A Confissão do Dr. Barreiros, sem saber que, voltando ao índice encontraria a história de Venâncio. O cansaço desandara, ao entorpecimento sonâmbulo sucedeu uma vigília tranquilizante que só pela madrugada daria em insónia.
Imagine-se agora o que é eu ter fixado quando lera uma história e sobretudo um modo de a contar - e tê-la declamado naquele tribunal e repetido tantas outras vezes ante pacientes ouvintes - e, afinal, agora ao relê-la, verificar, com espanto, que não fora nada assim que o escritor a configurara.
O enredo é a bizarra história de um funcionário, cumpridor e obediente, que, constatando a existência de ratos na sua secção, prontamente informa o seu chefe; chefe esse que faz subir na hierarquia da Administração o facto, dali ao Chefe da Repartição, deste ao Director-Geral, enfim o ministro, indo, no final, o caso ao próprio Conselho de Ministros, porque o perigo de um rato num recôndito lugarejo do Estado é ameaça global ao arquivo de todo o Estado.
O resto o leitor supõe. Foi empossada Comissão de 29 membros para estudar o caso e propor medidas, medidas que nunca chegaram a ser propostas, pois o areópago de membros reunira uma só vez: «A doença do Presidente, as inúmeras ocupações dos vogais não haviam permitido que ela se desempenhasse do encargo assumido».
Quanto aos ratos - que na designação da folha oficial [«esse que nunca erra, porque se chama "Diário do Governo", ironiza, cáustico, Paço d'Arcos] haviam sido denominados «mamíferos miomorfos, da família dos murídeos, da tribo dos muríneos», esses, multiplicavam-se livremente, nada impedido a proliferação da família. 
Mais: recusado o sonho de que alguma vez pudesse integrar a douta Comissão, «Venâncio, a quem os chefes não haviam prestado a merecida justiça, não pôde deixar de ser sensível à delicadeza dos modestos roedores» e em especial «duas ratazanas mais peludas, mais idosas, mais lentas nos movimentos, menos vorazes porque tudo haviam já alcançado e digerido neste mundo». Sim, «para elas, as duas complacentes amigas, passou Venâncio a trazer, nas noites de serão, guardados em velha lata de caramelos, pequeninos, delicados mimos: restos de pão, fatias delgadas de queijo, pedaços tenros de chouriço».
Tanto bastou! Ao precisar de um documento oficial para a Senhora sua sogra, Sexa ministro trouxe à mísera secção, onde Venâncio «burocrata espezinhado» servia o Estado e a ideia que dele tinha como seu Senhor, o horror de darem conta que onde estaria o pretendido papel era agora «um amontoado de papéis roídos até ao âmago, indecifráveis para qualquer consulta, inutilizados para qualquer propósito».
Tudo visto e ponderado: «Venâncio, que atentara contra a segurança do Estado, causando a este irreparáveis danos, foi demitido de funcionário público». Assim! «Sua Excelência não transigiu e aplicou aos segundo oficial a demissão pura e simples, pois de roedores está o país cheio!»

Eis a história. E, caramba, no que eu recordava e fui contando, construí, afinal, dentro da história uma outra história. 
Para mim, Venâncio alimentara os roedores com pedacinhos de pão com ovo que sua mulher, amável e compreensiva, lhe preparava para esses serões oficiais! 
Na minha ideia nebulosa da narrativa, a mulher de Venâncio, «com aquela sabedoria inata que as mulheres têm» [contava eu a quem me dava uns momentos de paciência para escutar-me] logo o prevenira que um subalterno como ele jamais aspiraria pertencer à Comissão de ilustres, ele que pensava ser título de admissão ter sido quem, afinal, descobrira o primeiro rato; no que li o momento é outro e outra a cena: «Para que te serve fazeres parte dessa tal Comissão? ainda se te desse algum dinheiro... Agora só pela honra...», comentara, em jeito de consolo a esposa do triste manga de alpaca.
Enfim, para mim, tudo começava com a descoberta de um primeiro rato, depois outro, enfim a multidão, quando, no que reli, o conto arranca logo com o elenco completo: «Os ratos devoravam, no forro e nos soalhos, dos tectos, das paredes, por entre as prateleiras cevadas de livros e de papéis, a carcaça do velho edifício e o seu venerável recheio».

É isto. E que importa que o conto daquele magnífico escritor - ele próprio funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, António de Cértima, diplomata - o tenha eu transformado em uma outra coisa, fiel ao essencial, divergente no acessório, que tenha afinal confirmado que o melhor e mais fiel leitor é quem, animado pela leitura, se torna, enfim, escritor do que fora escrito.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Diário Português: Mircea Eliade

Trabalhando e muito na minha profissão, doze, catorze, por vezes dezasseis horas - momentos houve em que fazia directas - dou comigo quase a pedir desculpa ao meu trabalho pelo tempo que gasto a ler, a pensar, em escrever fora do que seja a advocacia; e ao mesmo tempo - mundo contraditório este, sem a esperança dialéctica da síntese que tudo conjugue - a lamentar-me por tão pouco ler, tão pouco pensar, tão pouco escrever. E a jurar mudar tudo e a sofrer por não se alterar nada de significativo.
Foi, por isso, um conforto de alma ter terminado ontem ainda, esfarrapado de cansaço, a leitura do Diário Português de Mircea Eliade, escrito durante os quatro anos e alguns meses que esteve a Portugal, onde chegou em 1941 como adido de imprensa da Embaixada da Roménia do seu país. Conforto, pois nele esse estado permanente de angústia existencial em que tanto me revejo com a diferença de que a profissão era para ela parte diminuta do seu tempo, cada vez menor até à redução a zero, abandonado que foi sendo pelo Governo do seu País, estigmatizado pelas ideias fascistas que nutrira, e vilipendiado por as ter vindo progressivamente a abandonar com a passagem dos anos e o devir da História, o país a tornar-se uma colónia soviética, eles que são, os romenos - título de um opúsculo seu - Os Latinos do Oriente.
Já escrevi neste mesmo lugar três vezes sobre a sua pessoa e obra [aqui, aqui e aqui].
Personagem complexo, avulta neste diário a tensão permanente entre a dimensão espiritualista - que o levou à Índia, às filosofias orientais e à História das Religiões, passando pelo ocultismo - e as exigências eróticas, privado das quais era acometido de crises permanentes de neurastenia, o sexo como profixalia higiénica da biologia, a ascese carnal como ponto ómega da reintegração do humano, e - disso falei nos outros escritos - um inconsolável amor por Nina Mares, sua mulher, cuja agonia se deu na casa em Lisboa, aqui na Elias Garcia, lateral à Igreja de Fátima.
Dotado de uma curiosidade insaciável, ávido leitor, incessante escritor, custa crer que toda essa pujança criadora se deu, espasmodicamente, não tendo ele chegado aos quarenta anos. Compreendi a razão quando comprei, folheei, e haverei de lê-los mastigadamente, os dois volumes da sua autobiografia, e sobretudo quanto ali se prenuncia, desde a infância, um destino de excepção.
Devastado por tempestades anímicas, afunda-se em leituras de Sören Kierkegaard, que ficou como ícone do pessimismo filosófico e do desespero. Mas que distância. Não só pela legibilidade que no dinamarquês é a sua menor virtude, mas porque em Mircea tudo é vazado no papel como se as entranhas se derramassem em todas as escalas sentimentais. Escreve porque vive, profundamente. Lê-se como se a nudez da nossa alma fiasse exposta, reflexamente.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

O riso

Parei de ler o que me foi possível ler do livro do Onésimo Teotónio Almeida sobre as Correntes de Escrita, que saiu agora em Fevereiro de 2019. Tinha acabado de ler grande parte de um livro seu sobre Darwin & Marx, que me entusiasmou, tal como este me está a desapontar. Os textos daquele outro eram antigos já, mas as ideias permaneciam novas. O estilo coloquial convidava à leitura. E foi assim que, entusiasmado, entrei neste.
Dizem-me, e nota-se, que Onésimo cultiva o humor como método e objecto. Só que o humor pressupõe doses calculadas, sob o pena se tornar vulgar  e perder a graça. E por aqui abundam piadas e anedotas a ponto de a sua aparição perder impacto.
A ironia é forma de sabedoria ou de entretenimento, consoante o tempo de maturação ou a oportunidade. A chalaça, que é a sua forma vulgar, maça muito e ensina pouco e a sua repetição faz perder a vontade de ouvir. Há por aqui um pouco de tudo. Percebe-se que o propósito é ilustrar uma ideia; mas há o risco de o leitor se ficar pela superficialidade do riso.
Sei que estou a ser antipático quando, por regra, encontro sempre algo de positivo nos livros que leio e seguramente injusto, pois quando iniciei a leitura estava entusiasmado ou talvez bem disposto e disponível para ser contagiado. E nem o autor nem os editores da Opera Omnia merecem isso. 
Mas hoje está a chover, fiz centenas de quilómetros em trabalho e nem sempre temos boa-disposição.
Tenho o livro aqui ao lado, sublinhado e com textos ainda por ler. Vim aqui escrever isto por ser típico sentimento de leitor. Ao contrário do crítico que, se honesto, deve ler integralmente antes de formular juízo, o leitor pode maçar-se a meio ou, para ganhar vontade que sente escoar-se, recomeçar a leitura do fim para o princípio, contando da última folha ou de cada dos dos capítulos. Como um caranguejo, como o livro que Caranguejo se chama, do Ruben A.
Voltando às Correntes. Suponho que o que aqui aparece escrito tenha causado vivo efeito quando dito em discurso oral. Falta aqui a pausa e a expressão, o semblante e o gestos. Talvez por isso nas redes sociais se escreva (risos) quando queremos dizer, sem um emoji que nos rimos. E eu não estou a rir. E hesito em guardar o livro ou regressar à sua leitura para não desanimar.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Eminescu: um dia de sol

Voltei hoje, dia de magnífico Sol, enfim Sol!, de uma passeio, e há tanto tempo o não fazia naquela regular ida de Sábado à Rua Anchieta e ali aos livros.
E trouxe livros. Raramente sucedeu não trazer livros. Entre eles, hoje, as Poesias de Mihail Eminescu. Com ele agora as memórias fluem, chamativas, ao trazê-lo os acontecimentos irrompem, invulgares. Tenho-o pela segunda vez, um outro exemplar, em melhor estado emprestei-o a quem o apreciaria no original. E escrevera aqui sobre ele.
Publicada em 1950, esta edição bilingue comemoraria o centenário do poeta nacional romeno. Os trabalhos haviam começando, porém, muito antes: à tradução inicial de Rogério Claro iniciada em 1944, sucedeu a revisão aturada e paciente de Victor Buescu e Carlos Queiroz, trabalho de companheirismo, dedicação, minúcia. A edição, a cargo da Editora Fernandes, sita no Largo do Rato, em Lisboa, sairia com um texto de introdução à vida e obra do poeta a cargo de Mircea Eliade; iniciado, como este o confiou e fui verificar agora, ao seu Diário Lusitano, a 6 Setembro de 1942, escrito nesta sua casa na Avenida Elias Garcia, onde viveu a agrura existencial que foi a sua passagem por Lisboa durante a Segunda Guerra.
Há entre o poesia de Eminescu e o pensamento de Eliade pontos de convergência, talvez por isso ele os acentue no que escreveu: tentação da morte, esperança da reintegração na Natureza-Mãe, carácter indómito das paixões, a ânsia da serenidade e o amor patriótico à Roménia natal. 
Mundo pequeno este, porém. Ao terminar a manhã, correu o almoço por um modestíssimo restaurante na Travessa do Duque, ali ao Carmo, um dos que ainda não foi devorado pelo turismo. Local acanhado, a mesa larga partilhada com operários: amáveis, um deles romeno, outro declarou-se moldavo. Curioso destino da História, afinal a mesma língua, dois Estados que já foram um mesmo País talvez por serem uma só Nação. 

domingo, 10 de fevereiro de 2019

A cura pela leitura

Comprei-o em Itália, creio que em 2007, o ano em que foi editado. Li-o então e reli-o agora. Mais do que um incentivo à leitura é o que uma frase sua resume: «Piuttosto che diventare schiava del Librium mi prendo un libro». A recusa da obsessiva química farmacológica, trocada pela física das páginas de um livro. 
A Biblioteca é uma farmácia da alma, porque cura, a seu modo, todas as neuroses. «A infelicidade dos personagens famosos é um lenitivo para a nossa infeliz sensação de inferioridade», escreve o autor num dos seus momentos de encontro com a panaceia que a leitura traz. «E così, leggendo prima di dormire uma favola o un breve, poetico racconto, siamo in grado di neutralizare de piccole infelicità di un'intera giornata».
Porque cito em italiano? Porque lida a bula de tão suave medicina, macia enquanto homeopática, na língua de Italo Calvino, nasce, acariciante, o desejo de nos rendermos à terapia. «Chi non legge há un'anima anoressica».
Miro Silvera nasceu em Aleppo-Síria a 22 de Maio de 1942. Vive em Milão desde os cinco anos.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Celebrar a vida com estrondo

Parece que a personagem principal, e que no livro conta a história, é de ficção, pois se chama Miguel. Mas percebe-se adiante que esse é parte do nome do próprio autor, Luís Miguel. Ganha-se, então, a percepção de que aquilo ali contado pode ter sido a sua vida, mas estou em crer, tudo lido, que foi, afinal, sem máscaras, exactamente a sua vida. Mais: a vida de todos os outros, os da família de sangue e os amigos, as mulheres que com ele viveram e com ele estiveram.
No final de um enredo, de monólogo escorrente, repetidos por vezes, como se obsessivamente, os mesmos episódios, fica, coração apertado, uma dúvida: teria sido legítimo contar tudo aquilo? Não direi pelo modo de contar, perpassado de dor e de contrição, sim, pelo que ali se revela de todos os demais, as suas misérias, o que os diminui, intimidades e sordidez não excluídas, descontada a grandeza com que pela narrativa se elevam, trazido à tona por um  esbracejar aflitivo em que o escritor se debate para exorcizar os seus fantasmas e os seus pesadelos.
Mãe, promete-me que lês é um livro sobre o qual, lido em dois fôlegos, não tenho opinião e talvez não tenha de a ter.
Num mundo de voyeurismo disseminado - de outro modo inexistiram redes sociais - está ali pasto para os esfomeados por vidas alheias, essa sorte de canibalismo mental dos que por essa forma saciam a pança das suas vazias existências; num mundo em que os vultos mais divulgados da escrita, já sem tema, tudo dito, se destralham, esfrangalhando na praça pública, em livros e crónicas, as tripas suas e as dos seus, a obra já tem antecedentes.
Ficam-me apenas duas perguntas. 
A primeira, o "porquê", não naquela variante do "porque escreveste isto, Luís Miguel", pois em algum momento desta sua iniciativa o autor terá tentado explicar-se, como se terá já explicado sobre obra antecedente - que não li - centrada na pessoa de seu pai, sim naquele perspectiva do "para quê", a variante utilitária da mesma pergunta. A essa tento responder: para que ficássemos menos sozinhos nas nossas angústias, mais confortados com o que de feio e mau tenhamos a ensombrar as nossas vidas. Se é isso, seguramente, haverá tantos que ali se reconhecem e se absolvem, corrido o purgatório.
Resta a segunda pergunta e, afinal, a que creio ser a fundamental pergunta: "mas não haveria como?". Esta questão tem como resposta o tanto que em Literatura já se escreveu com subtileza, sobre vidas horrendas e momentos sublimes, do espectro do amor à morte, do construir à depredação. tornando o escritor em Arte o que é afinal a sua própria pessoa, deixando ao leitor a possibilidade de supor onde estava na ficção a realidade, na história alheia a sua autobiografia. Poderia ter sido assim, mas não o foi. Como cada vez mais já não é. 
Leio, quase sempre, a sublinhar. Aqui sublinhei pouco, pois na imensidão dos factos são isoladas as frases que contêm uma reflexão. Retenho uma: «Celebrar a vida com estrondo, celebrar o estranho caso que com ela temos». É isso, suponho, o que me fica desta leitura. Talvez já seja, sem que a queira ter tido, uma opinião.

domingo, 4 de novembro de 2018

Les mémoires de Maigret

Consegui - contentamento! - com um pouco de preguiça de cama - mas é Domingo! - terminar a hoje leitura. Livro breve, formato, lido no original, francês. 
Pertenço, talvez, a uma das últimas gerações que em Portugal saberá ler em francês. Cada vez menos se ensina essa língua, menor em cada dia a influência da cultura gaulesa. No tempo do Eça de Queiroz a novidade levava, para chegar a Portugal, o tempo do Sud Express. Agora já poucos sabem o que foi o Sud Express, Santa Apolónia/Mangualdade/Gare de Austerlitz.
Livro paradoxal este, as memórias de Maigret, como se escritas pela mão do próprio. Assina, Georges Simenon. Se pudesse sem blasfémia convocar-se a teologia, seria a revolta mansa da criatura contra o seu Criador.
O inspector da Police Judiciaire tem, nesta pequena obra que a Presses de la Cité agora reimprimiu, publicada originalmente em 1951, compaixão pelos erros daquele que tanto escreveu sobre as suas investigações, retratando-o como o polícia gordo e fleugmático, tornando-o em Literatura aquilo que ele não é, fazendo-se viver quem não sente ser e aqui tenta emendar.
Sendo permitida a ironia, Maigret escreve tão prodigiosamente como Simenon. A mesma imersão nos ambientes, a mesma compreensão pela dimensão humana de todos os outros. 
Exagerado, como sempre - palavras de Mme Louise Maigret - Jules Amedée François Maigret esforça-se, nesta ânsia de rectificação por nos devolver o inspector de polícia como «simples funcionário», por atenuar a diferença existencial, - que não moral - entre os que estão do lado da lei face a todos os que são o seu objecto de perseguição, do bas fond à alta roda.
Há na escrita a presença permanente da mediania, o conformismo com a modéstia, a quase ausência de rancor. Noites de vigília, o desconforto permanente da chuva em tempo frio, rotas tantas vezes a sola dos sapatos, uma carreira feita a partir da modéstia de um polícia de rua, distribuidor de correio em bicicleta, enfim, a findar as páginas, ébrio de alegria ante a promoção à Brigade Spéciale
Por causa de uma das narrativas sobre um caso seu, perdi há tantos anos que já nem lembro quando, um comboio na gare de Poitiers. 
Companheiro de viagem, num saco com pouca roupa e muitas fichas para a bibliografia de um livro que teimava em escrever - e já nem sei se o completei, era jurídico, o mundo não ficou pior sem ele! - enclavinhado na mão, aquele pequeno mas hipnótico livro e nele Janvier, Lucas, Torrence, a Brasserie Dauphine, a Rue Richard-Lenoir. Esqueci o título, foi-se a história, ficou o sentimento.
Seguia-lhe de tal modo os passos, bebia assim com ele imaginariamente os Calvado's, o Armagnac que, embriagado também pela fantasia e pela ilusão tornada real, nem dei pela aproximação, nem pela paragem, nem pelo arranque do comboio que asseguraria a ligação final, rumo a Lisboa. 
Naquele instante de surpresa e pavor - tinham-se esgotado os francos e nem sabia como fazer para corrigir o sucedido - eu fui O homem que via passar os comboios.

sábado, 6 de outubro de 2018

Agustina: ortografia e nascimento

Que posso dizer quando leio Agustina Bessa-Luís, mesmo pequenos textos de pequenos livros quando em cada um, quase diria em cada linha, encontro uma ideia, uma sensação, um sentimento, que dariam para parar, tempo de reflexão e de enamoramento e a leitura se adensa e caminha devagar?
Trouxe o Caderno de Significados, pela única razão de ser de aparência diminuta e cansa, trazer para regressarem não lidos aqueles livros para os quais, extensos sendo, não se encontra tempo, na escravidão em que se tornaram as nossas vidas para ler, folheando apenas que fosse.
E pela tarde morna de sonolência e durante a noite irrequieta de insónia prossigo pelas suas cem páginas e ainda não terminei, lendo ao acaso tal como ela parece ter escrito, notas e crónicas «em folhas soltas, em cadernos de notas, em espaços brancos de impressos, em margens de livros, dispersos em pastas de congressos, em gavetas de móveis».
Direi que de tanto ficou neste momento a escrita sobre a escrita e desta o modo de escrever: «a importância da ortografia é a importância do nascimento [...]. Eu tenho a mesma letra dos meus cinco ou seis anos, miúda, desenhada como o arco-íris num rio. Aprendi assim a jactância dos efes, a morbidez dos ás, os bês abaciais e o tê que parece um Quixote com a sua bacia de barbeiro na cabeça».
Que melhor e mais magnífico poderia ler? «Quem não ama a ortografia não respeita a cultura, peregrinação nas matas do alfabeto».

sábado, 9 de junho de 2018

José Régio: fotobiografia reeditada

Tinha conseguido já a edição de 2002, publicada conjuntamente pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda e pela Câmara Municipal de Vila do Conde, escrita por Isabel Cadete Novais. Hoje a Feira do Livro trouxe-me a segunda edição, de 2017, editada pelo Centro de Estudos Regianos, sob o patrocínio da Câmara Municipal da sua terra natal, vindo à luz a 17 de Setembro de 1901.
Melhoria substancial. Capa bem mais apelativa, tal como na anterior com destaque para uma fotografia do biografado, mas desta vez naquele facies em que o reconhecemos, enriquecida com encartes a cor, compensando a ausência de cor no miolo que valorizava a primitiva edição, abre com prefácio de Miguel Real que nos apresenta José Régio, tal como Pessoa e Teixeira de Pascoaes como «um dos grandes solitários da cultura portuguesa do século XX». Solitário, prossegue Real, pois que «criador dos fundamentos teóricos e dos métodos expressivos da sua obra», solitário porque «imune aos modismos estéticos nacionais e internacionais». E mantém o texto introdutório de Eugénio Lisboa, a quem a divulgação do seu nome e obra tanto devem.
José Maria dos Reis Pereira, que em Literatura ficou como José Régio, corre a maldição de ser para cada vez menos.  Pressente-o no verso que no livro se copia: «Morro conformado/Mas só eu sei quanto/Me não tem custado//Há tanto lhes canto/Para ser ouvido/E E ao fim desse tanto/Sou desconhecido». E viveu devorado por essa angústia, fome de ser amado.
Trata-se de uma escrita muito íntima mas em que a fronteira do privado só é trespassada por sugestão diáfana. Mesmo o seu Diário, um dos volumes da Obra Completa que, em excelente hora a Imprensa Nacional editou, não revela mais do que o necessário, ficando no exacto ponto em que a sensibilidade do leitor havia intuído. E, no entanto, escrita de um cidadão interventivo, que firmara as listas do MUD oposicionista ao regime político então vigente e pagara com cortes da Censura a ousadia. Mas cuja delicadeza de carácter lhe permitiu sempre o equilíbrio e uma significativa segurança, não fosse a insegurança interior, em angústia permanente, a neurastenia do isolamento, professor liceal exilado em Portalegre, tendo como companhia o escasso meio de camaradas das letras e companheiros de ideais.
Eis o livro.
Comparando em breve folhear ambas as edições nota-se que nesta se amputou o capítulo «O Escritor Não Morre». E assim não encontro nesta algumas das imagens da anterior, como a da visita de Marcello Caetano quando visitou a Casa Museu em 1971, mantendo-se embora, em assimetria de critério a do Presidente da República, Américo Thomaz, quando visitou a casa em 1966.
Do mesmo modo uma fotografia em que a ele se juntavam Vergílio Ferreira e Eugénio de Andrade não a encontro agora.
Trata-se, pois, em sentido próprio, de uma segunda edição, revista seguramente.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Monumento à memória


Procurei por ele para escrever este texto.

É um livrito pequeno, dos que facilmente se somem na selva das estantes, onde capas brotam como lianas e letras impressas formam a algazarra da manhã. 

Oitenta e sete páginas em formato de bolso e papel robusto, na edição que tenho da Assírio & Alvim, incluindo apresentação, cronologia biográfica e páginas técnicas da praxe. 

Coisa que sem esforço se desvia do lugar. Assim foi. Encontrei-o, insondável ironia, numa pilha à beira do esquecimento no quarto de arrumos.

«Mendel dos Livros», de Stefan Zweig, breve novela publicada em 1929, em folhetim, no jornal diário vienense Neue Freie Presse.

Li-a há poucos meses, num galope febril, afundada em mantas e paracetamol, em certa tarde de doença de que já pouco ou nada recordo além da névoa de folhas sucedendo-se em íntima peregrinação. 

Com o anónimo narrador penetrei, impelida pela chuva, na atmosfera cálida de um café vienense, e por meio dele no túnel de uma súbita recordação de um tempo e lugar em que conheceu Jakob Mendel. 

O absorto e alheado Mendel. O «pequeno, comprimido e completamente envolvido nas suas barbas» judeu ortodoxo vindo do Leste e feito alfarrabista em Viena, para quem só o amor aos livros existia e por trás de cuja «fonte calcária, suja e coberta por um musgo cinzento» se encontravam, «fazendo parte do mundo invisível de fantasmagoria, como que cunhados por meio de fundição de aço, cada um dos nomes e cada um dos títulos alguma vez impressos num frontispício dum livro». 

A sua era uma vida filtrada pela lente de uma única paixão, servida por uma prodigiosa memória, num impoluto mundo de ideias que o império dos factos não saberia entender. 

Obra enorme de sensibilidade, simultâneo lamento por uma era perdida e homenagem ao espírito, reclama ser lida de coração nas mãos, naquele sítio interior onde habita o que já só em nós existe. 

Stefan Zweig, querendo erguer um monumento ao livro, ergueu-o também à memória, essa ínfima centelha redentora que faz de nós guardiões do tempo em que vivemos e de quem nele existiu. Delgada corda com que nos alçamos uns aos outros do alçapão escuro da aniquilação. 

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Dia Mundial do Livro

Hoje é o Dia Mundial do Livro. E como não me são indiferentes os livros. 
Vicissitudes da vida fizeram com que extensas bibliotecas ficassem por lugares por onde se repartiu a minha existência, desde Malanje onde nasci, imensos mais em livrarias onde os vi sem ter por vezes meios para os comprar, outras por ter deixado para depois ir comprá-los, ou não me ter apercebido de que teria sido importante aproveitar a ocasião que se perfilava diante dos olhos, ao alcance do desejo e das possibilidades.
Estendo estantes por onde posso, por esta casa, pelo escritório e por um outro escritório que teimosamente mantenho na cidade do Porto. E andam pelo chão, em montículos que juro serem provisórios. Quando posso, arrumo-os por ordem, os de ficção eslava para que se não confundam com os que juntei sobre estudos literários ou de angeologia, incluindo os anjos caídos, o Vergílio Ferreira agora todo ordenado por datas, o Alesteir Crowley incompleto e a esmo, ainda ao lado, nem sei porquê do Amadeu Souza-Cardoso. 
Sobre tantos temas tenho livros, alguns temas descobri-os ao ter descoberto um livro sobre isso. E depois há a incógnita, não por ter comprado um dicionário de esperanto mas sim um outro sobre tibetano, língua que não me imagino sequer a balbuciar. Um dia dei comigo a hesitar sobre não deveria adquirir, na ida Bucholz quando ainda era o que foi, a Summa Theologica do São Tomás de Aquino, mas comprei, um a um, todos da Enciclopédia Larousse, e os quarenta e cinco volumes da Obra Completa do Lénine, estes que ainda guardo, aqueles que alguém guardou para si. E tenho-a, porque confiada, a obra jurídica completa do Lobão, incluindo os Comentários a Pascoal e o próprio Pascoal Mello Freire, ainda em Latim.
Fui leitor e sou leitor e nunca o fazer contas à vida e aos anos que posso ainda viver me impediu de querer mais livros, sempre mais livros, mesmo que razoavelmente fiquem muitos por abrir ou sequer folhear: há nisto uma raivosa esperança em querer ter mais alma do que a fatalidade do precário corpo. São amigos, companheiros, a sua presença aquece o espírito, há sempre um que faz sentido na alegria e na dor.
Fui editor, duas vezes, a primeira dos meus próprios livros, a segunda de livros alheios. Na primeira  veste, dei-me voz sem prejudicar quem seja, na segunda arruinei um capital meu que não quis poupar e que se esgotou quando os prejuízos somados e a insolvência da distribuidora me devolveram razão ao sonho que se tornava pesadelo. De qualquer modo, por estúpido que seja, não me arrependo: isto é a teimosia dos que acreditam no sucesso que se encontra no desastre. Mesmo com o mercado adverso, mesmo com diminutos leitores, mesmo oferecendo livros, carregando com eles às costas e somando sobras, valeu a pena. Aprendi tudo do ofício, desde o primeiro momento em que o livro é uma ideia até à final em que é um pacote a levar para a sessão de apresentação e regressar, tristonho, porque ninguém o quis.
Não diabolizo o mundo digital , porque sou dos que também lêem num écran, em todos eles. Ler não importa onde, não importa que tipo de escrita, manuscrita ou tipográfica, ler, que seja jornal já requentado, ou versículos da Bíblia num noite insone, encontrada numa gaveta de hotel.
Hoje é o Dia do Livro, como aliás cada dia passou a ser o dia de não importa o quê.
Fui ontem buscar ali à Livraria do Centro de Arte Moderna mais um livro do Hermann Hesse, chegou hoje, vindo da Amazon um outro sobre César Ritz e o chef August Escoffier. Há pouco arrumei na estante, por estar nesta num lugar errado, o Vidas Secas do Graciliano Ramos.
A imagem deste post é de um livro emprestado. Terei de o devolver com mágoa. Irene Lisboa, a quem dediquei um blog, e da qual creio ter conseguido reunir a obra completa, escreveu em 1944 o Inquérito ao Livro em Portugal. Publicou-o a Seara Nova, de que foi dilecta colaborada. Lê-lo é concluir que os problemas de hoje são os de sempre: poucos leitores, curta passagem dos livros pelas livrarias, excesso de produção, problemas comerciais de distribuição. 
Comove ir ao índice e ver o que sucedeu aos livreiros que ela ouviu para o que escreveu, tudo falido, tudo ido: Parceria A. M. Pereira, Livraria Sá da Costa, Editorial Gleba, Livraria Luso-Espanhola,  Livraria Latina,  Arménio Amado, Coimbra Editora, Livraria Cunha, Casa Livros de Portugal.
Neste mundo de mortos, uma coisa vive: o livro e o amor dos leitores pelo que eles são.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Fulgurantes, incansáveis palavras


Uma confissão.

Evito muitas vezes a leitura da moda sem argumento melhor que o da simples vontade de não ir por aí, de caminhar fora de trilho e clareira e esgueirar-me, por entre árvores, até onde se supõe aguardar-me o inesperado tesouro. Sei bem que é uma indesculpável (mas espero que benigna) forma de soberba. Primeiro, porque nem todas as florestas abrigam tesouros; segundo, porque nem todos os trilhos levam a lugares comuns.

É, em todo o caso, a razão pela qual O Meu Irmão, obra vencedora do Prémio Leya 2014 e amplamente badalada, me veio cair nos braços só muito recentemente, um pouco aos trambolhões. A visita à livraria destinava-se a comprar um outro livro de um outro autor; lida, porém, a primeira página deste, já não sei se por acaso ou por curiosidade, não me foi possível deixá-lo para trás.

Começo por dizer que o menos interessante da obra será essa arqueologia literária que quase sempre se cai na tentação de fazer em torno dos autores de livros célebres ou celebrados. Que Afonso Reis Cabral venceu o Prémio Leya com apenas 24 anos. Que é trineto de Eça de Queirós. Que o livro, embora ficcional, é influenciado pela experiência directa do autor, por motivos familiares, com a síndrome de Down.

Nada disso deve relevar em excesso ante uma escrita que merece ser lida sem mitologia nem qualificativos. Isto é: que merece ser aplaudida pelo surpreendente sopro de vida com que insufla as personagens e a sua história, e não por um qualquer apesar ou por causa.

A premissa, em linhas sumárias, é esta: numa aldeia portuguesa, abandonada ao desgaste do tempo e da ausência como tantas, dois irmãos passam uns dias na casa de família. Miguel, o mais novo, nasceu com síndrome de Down. O narrador, pouco mais velho, chamou a si a responsabilidade de cuidar dele após a morte dos pais, reatando a proximidade de infância interrompida por muitos anos de afastamento do seio familiar. Contra este pano de fundo vão desfilando as memórias da sua vida em comum, que a par e passo nos revelam, por vezes de modo insólito, quem são estes irmãos e quais as razões e efeitos do seu distanciamento e ulterior reaproximação.

Há também, no passado e no presente, pessoas cuja presença adensa a trama do livro e os seus argumentos. E há ainda, perpassando toda a história na qualidade dupla de cenário e de personagem central, o Portugal interior – desertificado, viúvo, à espera – composto com o rigor e o critério de quem sabe muito bem o que fazer com as palavras.

Fiquem avisados de que este livro agita até aos ossos. De que ousa ser cru e desapaixonado e colocar no centro da narrativa uma personagem imensamente imperfeita e ferida em algum sítio fundamental. Menos ainda hesita fazer-nos olhar de frente para questões difíceis, como a da crueldade que vem vestida com as roupagens do amor, ou a da solidão de corpo presente, ou ainda a do amor em si mesmo perfeito mas excludente de tudo ao seu redor.

Depois, é claro, há a questão da deficiência, que Afonso Reis Cabral retrata nas suas pequenas e grandes manifestações, e cujo impacto na vida de cada personagem se esforça por investigar sem derivas fáceis.

Convém dizer que o livro, sendo duro, não é desprovido de humor, de momentos mais ligeiros, até de uma certa redenção, sob a forma da capacidade para o amor total e também para aquele amor que aprende a ser na adversidade, que aceita, que protege e que no limite tudo perdoa.

Sim, o livro assenta como um murro no estômago, mas esse murro desperta e faz pensar, não se sente nunca como gratuito.

E depois há as palavras, as fulgurantes, incansáveis palavras, e uma voz sóbria, madura e muito própria, e ainda uma narrativa ancorada não só em vida interior mas numa história bem desenhada e de passo mensurável, num clímax que surpreende e desnorteia, como nem sempre se vê entre autores portugueses.

Há um livro que merece ser livro e um autor que se apresenta de forma extraordinária.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A temperatura das palavras

Encontrei o livro por acaso. E de súbito nele tudo se tornou familiar. Desde logo a primeira referência a Luís Pedo Moitinho de Almeida, filho do proprietário de uma das casas comerciais onde Pessoa exerceu a sua profissão burocrática e que sobre ele nos deixou um livro e outros apontamentos diversos, recordações de um jovem atemorizado entre a genialidade que pressentia.
Depois, a referência ao local de nascimento do autor, Celorico de Basto. E logo um telefonema, a um meu Amigo, a quem li, o texto que assinalava uma tal origem, abriu a oportunidade de uma próxima visita me permitir ver, passando ao largo que seja, pela Casa de Melhorado, a de sua família.
O livro é uma digressão à tertúlia do Café Montanha, que Fernando Pessoa frequentava, extinto porque selvaticamente demolido e talvez, por isso, na superficial imagem do poeta, tudo se concentre como se, como local de companhia, só existisse o Martinho da Arcada, ao Terreiro do Paço.

Mas há mais: é a convivência próxima tornada narrativa, polvilhada de factos pequenos, é certo, mas igualmente interessantes porque mesmo a grandeza tem os seus recônditos íntimos de minudências e insólitos
Há, seguramente, um público ávido de voyeurismo, para quem as pequenas histórias se transmutam na História. Esses encontrarão aqui migalhas com que festejem o banquete da coscuvilhice. E talvez surpreendam Pessoa a não usar outros lápis do que «bocadinhos de lápis, aparados de um e de outro lado», ou no dichote a Pedro Theotónio Pereira, que amplamente detestava, enaltecendo da criatura o que lhe parecia nele de mais notável, o ter «os pés grandes». Ou ainda que, num passeio à Tapada da Ajuda, em carro eléctrico descoberto, Pessoa, entre cedros e abetos, tenha preferido que lhe mostrassem «tamarindo e um grão de pólen e não tarda um segundo que não pretenda que se agarre antes uma abelha».
Mas o que a obra me trouxe foram facetas interessantes, talvez porque as menos acentuadas por tantos que escreveram sobre o autor da Mensagem, que, já agora um pormenor pícaresco, na primeira prova tipográfica vinha o título escrito como Massagem...
Uma delas o da acção política daquele que, no imaginário colectivo, aparece envolto no nevoeiro do isolamento e da marginalidade. São várias as referências à sua acção no Núcleo de Acção Nacional, a mais conhecida fixação em Sidónio Pais, o Presidente-Rei. [quem quiser um pouco mais, pode ler aqui e aqui]. Grupo «meio fantasma» já se lhe chamou, de reduzida intervenção prática, voltado a uma ideia de uma monarquia «científica», assim ela nos é aqui resumida como ideia, fora dos ideais do Integralismo Lusitano, a cujas hostes o autor declara pertencer. Tudo temperado pelo desprezo a Afonso Costa e, afinal, àquilo em que a República se transformara. 
Outra, a da densidade da profunda amizade a Mário de Sá Carneiro e o tremendo momento, que ali se confidencia, do instante, em que, ante um gato agonizante, cena com que tropeçara numa das suas solitárias deambulações, porque envenenando com estricnina, em volteando em longa agonia,  ante os seus atónitos olhos, visão trágica e premonitória, a cabeça do animal aumenta de volume «e era a cabeça redonda do Sá Carneiro, eram as suas órbitas, as suas bochechas e um olhar triste e amargurado de despedida». Sá Carneiro suicidar-se-ia, em Paris, onde estudaria Direito, na Sorbonne, precisamente pela mesma  horrível forma, morte dolorosa.


Francisco de Paula Peixoto da Silva Bourbon [1908-1992] divulgou as crónicas que o livro agora compila no jornal Ecos de Estremoz, entre 1972 e 1973. Outras, sob o mesmo tema, publicaria nos jornais Cidade de Tomar, Consciência Nacional, Notícias de Guimarães, O Comércio de Gaia.
Sobre o livro, com cujo autor privou, Pedro Teixeira da Motta escreveria no seu blog [ver aqui]: «Francisco Peixoto Bourbon cultivava muito as amizades, era sinceramente um ser bom e generoso e foi ele mesmo que me introduziu a outros amigos de Fernando Pessoa, tais como Moutinho de Almeida e o Manuel Menezes de Vasconcelos, e transmite muito bem nas suas evocações o calor humano que circulava entre eles, realçando bastante a falta do meio condigno do génio de Fernando Pessoa, embora a tertúlia do Montanha fosse quase um refúgio de consagração e onde se podia dialogar com franca troca de ideias, como o jovem estudante de agronomia logo experimentou, tornando-se como que o benjamim acalentado da tertúlia, da qual nomeia como participantes o eng. Rogério Caldeira Santos (seria o maior admirador de Pessoa e posteriormente tentou infrutuosamente transformar o café Montanha num museu Fernando Pessoa), o dr. Manuel de Menezes Vasconcelos (um dos mais íntimos), o Marquês de Penafiel, Da Cunha Dias, o Joaquim Palhares, Victoriano Braga, o dr. Pedro Moreira, o Mário Saa, o Dr. Carlos Lobo de Oliveira, o eng. Pulido Garcia, o Victoriano Braga, o Gualdino Gomes, o capitão Gastão de Melo de Matos, e umas poucas vezes o António Botto e o Almada Negreiros.»
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Eis o apontamento singelo. As palavras têm temperatura. Estas, fruto de um Domingo que finda, teimosamente ainda frio, terminada a leitura, feita às prestações, são mornas. 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Anunciando uma coabitação


Hoje, 9 de Fevereiro de 2018, anuncio uma coabitação. Adriana Barreiros, minha filha, que se estreou na poesia com o livro Ser humano é uma coisa Pessoal [ver aqui], aqui se junta com as suas ávidas leituras e a sua refinada sensibilidade.
Talvez devesse como pai sentir orgulho, mas um filho não é um prolongamento de nós, sinto, pois, uma infinita alegria.
Na memória de um pai, um filho é sempre a imagem da eterna meninice. Ei-la, pois, o rejuvenescimento perpétuo.

domingo, 7 de janeiro de 2018

A casa arrumada


Este blog passa a conter, de hoje diante, todas as notas de leitura, sejam os livros contemporâneos ou de alfarrabista. Importei tudo quanto estava escrito em outro blog que, usando parte do meu nome - o que por vezes funcionou como pseudónimo literário - se chama António Rebelo da Silva.
Fica assim a casa arrumada. Não é que a dispersão não tenha a sua razão de ser, o motivo é não ser razoável distinguir a literatura pela fita do tempo. Há justificação para a ideia de que a Literatura é intemporal. Ora por isso, eis.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Epílogo: em breve a Primavera

Passei o ano a ler um livro. Motivo de alegria. Acto simbólico. Porque nem sempre a profissão dá tempo e há que resgatar tempo para poder ler, por gosto, vários livros ao mesmo tempo, debicando como os pássaros.
Desta vez comecei esta manhã e antes da meia noite tinha terminado. E com tantas outras coisas pelo meio, até tempo para dormitar.
O livro é nostálgico, sofrido. São memórias, em forma de diário, varridas pela tragédia da morte da que foi a companheira de mais de cinquenta anos.
Eugénio Lisboa encerra assim o Acta est Fabula, título que deu aos volumes que foi regularmente confiando à Opera Omnia, a editora de Guimarães que, lutando contra as vicissitudes do mercado, cuida da sua publicação.
Dir-se-ia que não é leitura que se deva ter na passagem do ano. Mas é precisamente a leitura que, a ter acontecido com a passagem do ano,  dá ao novo ano o valor da esperança.
Livro de dor desesperada, é testemunho de amor que não não permite luto, exaltação de carinho, exemplo de humanidade.
No meio, claro, as obsessões literárias do autor, cruas no modo de dizer, algumas a fazer surgir a clareira soalheira do riso. Assim a vida, assim estes dias de Inverno, assim em breve a Primavera...

sábado, 9 de dezembro de 2017

Bohumil Hrabal, o terno bárbaro

O livro retorce as circunvoluções do cérebro, as ansas das vísceras. Estonteia. Porque, declarando-se livro de lembranças de um pintor checo, Vladimir Boudník [1924-1968], a verdade é que é uma polvorosa sobre o mundo visível, o seu interior e o reverso, a realidade aparente e os seus símbolos reais, as evidências boçais quando sábias e o mistério do óbvio. Está traduzido em português por Ludmila Dismánova, editado pela Teodolito, em 2011. 
Pequeno em formato, é daqueles que não se consegue ler de uma só vez. Levei imenso tempo a chegar ao fim das suas 123 páginas, que encerram com o repto de Jorge Listopad «aprendam checo ó leitores». E quase que, imersos naquele ambiente, se sente a necessidade de, pela língua, ser habitante para ler tudo quanto não está traduzido e ir aos locais e aos sentimentos onde tudo se passou.
Que se pode dizer de uma obra assim que a não reduza? Como usar, sem desfeitear, a palavra surreal quando, em verdade, é de irreal que se trata? Sim, claro, o dadaísmo, a abjecção, presente quase em cada folha, mas também o sublime. Mas tudo isso é somenos.
E a escrita, potente! As associações de ideias e de vocábulos, surpreendentes!
De taberna em taberna, entre litros de cerveja e aguardente, uma galeria insolente de personagens povoa a obra, irrompendo erraticamente, o também pintor Nejedlo que, desde a Escola das Belas-Artes «adorava enforcar-se», «grandes olhos de corça que oscilavam no metrómono do escadote», e que se enforcou, de facto, mas «por engano, na maçaneta da porta».
Há em cada recanto da obra momentos alucinantes de densidade e inteligência, como quando «o regresso de Vladimir, regressus ad originem, é simultâneamente um progressus ad futurum»,  e a inversão da topologia e da cronologia a que nos habituámos, como naquele instante de horror pro inversão da equação espaço/tempo, no flagrante instante «quando ganhar coragem, hei-de perguntar àquele cego se por acaso ao saltarem das órbitas, no último segundo, os seus seus olhos não se teriam virado e pela primeira e última vez não teriam olhado para sua própria cara, dentro das órbitas vazias.»
Livro teológico e escatológico, encontra-se, entre a sordidez, em metamorfose, com a ideia de que «o Deus dos católicos também é capaz de agir directamente sem o elo causal» e  com Vladimir a jogar, entre Spinoza e Kant, «o jogo absoluto; fruitio Dei, mónada das mónadas, cens realissimum, Ding an sich selbst» e nisto a carnalidade em tudo quando «a erecção e a ejaculação de Valdimir tinham um carácter transcendental, a sua semente tinha o poder de fecundar uma virgem», livro de bondade franciscana porque «quem é amigo dos animais é graciosamente amigo de Deus, e assim suma só vez, une e liga o que há de mais baixo com o mais alto, fechando o círculo [...].»
Claro que há aqui Franz Kafka, em cada momento em que o tecto do mundo se abate e nos sufoca, menos o escritório da companhia de seguros, mas mais a volúpia transgressora de George Grosz, o filosofar às marteladas de Friedrich Nietzsche, alma a explodir dentro do mirrado corpo e o símbolo da prensa e da gravura em metal, o anarquismo de um Jaroslav Hasek, rindo para não chorar. Com todos eles me tenho agora envolvido em leituras, como ele «mestre da imaginação táctil, sempre a morrer, a estoirar, mas somente para poder ressuscitar, rejuvenescer, sempre para reencontrar a força, furar a parede com a cabeça, passar para o outro lado e depois, seguindo o cordão umbilical, recuar até ao início de todas as coisas, de regresso à primeira semana da criação do mundo».
Não digo mais. Leiam! De novo Listopad: «Claro, a Bohumil Hrabal devo muito mais. Ponham-no na minha conta».

domingo, 5 de novembro de 2017

Luiz Pacheco: a teoria sobre o cheiro a sovaco

Quanto menos tempo tenho para ler, mais livros compro. É uma lógica de razão inversa fundada na esperança de que um dia, ainda que longínquo, terei tempo para os ler e a certeza de que um dia, muito próximo, o livro que não tiver comprado agora terá sumido nas guilhotinas do esquecimento editorial. E tenho pena que seja assim a minha vida, diminuída no que valorizo.
Hoje comprei a colectânea de escritos que António Cândido Franco dedicou a Luiz Pacheco. Pacheco de quem compro tudo quanto encontro - e não tenho encontrado muito - e compro também quanto surge sobre Luiz Pacheco. Reencontrei outro dia, a propósito, as Cartas ao Léu, que julgava perdidas e cuja existência na minha biblioteca me veio à superfície da memória por via de uma visita - coração apertado com receio de a encontrar já ida - à resistente Livraria Uni Verso, em Setúbal, obra militante de João Raposo.
Animado de boa-vontade, achando que merecia - porque aí pelas quatro trabalhava na profissão, transviado de insónia - iniciei a leitura. 
Pelas primeiras vinte folhas já tinha alcançado que a chave biográfica ia ser uma aproximação à sexualidade de Pacheco, para o que convocar o registo freudiano faria sentido. E não me enganei. Por mais críticas que mereça a análise do ilustre médico de Viena - uma delas é que o mundo, tal como o concebe a psicanálise, a caminhar sobre o sexo deve ser, além do mais, particularmente doloroso - é uma abordagem que abre janelas interessantes de reflexão, descontado o voyeurismo.
Cheguei, porém, à página vinte e nove. Já tinha sido informado que Pacheco fora sodomizado aos doze anos - e informado sobre o nome do autor do acto [o que acho de interesse duvidoso] - e fora às prostitutas uma vez na adolescência. Mas na dita página, em decrescendo, adita-se que foi aos quinze anos que beijou na boca pela primeira vez uma mulher [e de novo o nome e o local do nascimento desta osculada e uma vez mais a minha dúvida quanto ao interesse da individualização]. 
Até aí, enfim. E enfim também que «não chegou a consumar a relação por causa dum pormenor que lhe repugnou, o cheiro das axilas».
Agora, o que não tem "enfim" é que António Cândido Franco, ante o facto, acrescente, em lógica analítica: «É um ponto particular que revela a educação puritana e burguesa, cheia de preconceitos higiénicos, em que se formou o primeiro Luiz Pacheco» e, adite que isso «mostra ainda que o espaço dominante nesta época era a casa, com o seu conforto, os seus preconceitos de ordem e limpeza, os seus tabus, e não a rua, muito solta, que o jovem só por excepção, e no quadro das suas deambulações liceais, terá frequentado nestes primeiros lustros».
É que bem pelo contrário e eis a irritação que vim aqui vociferar: juntar Marx, quanto aos preconceitos burgueses, e Freud, quanto aos complexos oriundos do recalcamento, isto por causa de um cheiro a sovaco que murcha qualquer apetite, é querer teorizar onde não há teoria possível, apenas mau cheiro por falta de água e sabão.
Haja pachorra! E é pena porque sigo o que posso dos trabalhos de António Cândido Franco, porque algumas das ribeiras mentais por onde esbracejo confluem nos rios onde dá braçadas.
Vou continuar a ler, a bílis recomposta. Se Pacheco fosse vivo, permito-me supor que, no seu estilo de ácido sulfúrico, tinha corroído a análise, liquefazendo-a, se é que não enxovalhava o autor da mesma com o marmeleiro da sua incerta ira. 
É talvez isso, a fúria argumentativa, que, descontando tudo, a vinhaça, o deboche e o calote, me atraíram sempre na sua obra. Isso, o altíssimo conhecimento da vida literária portuguesa, e um acto de coragem cívica em relação ao mecenas Manuel Vinhas, quando este, que deu de comer a muito "intelectual", se viu por quantos desprezado e ignorado quando se exilou no Brasil após o 25 de Abril. E, por aqui me fico, que isso sim fede como latrina e daria pano para mangas.

sábado, 17 de junho de 2017

Robert Musil: qualidades e perturbações

Tentei, por várias vezes, lançar-me na leitura do livro que em português se tem chamado, com imprecisão reconhecida O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. Imprecisão que nasce da circunstância, admitida pelo finalmente encontrado tradutor directo do alemão, João Barrento, de ser essa palavra ambígua para designar o título original Der Mann Ohne Eigenschaften, pois que o termo na nossa língua tanto se refere a «atributos», ou «particularidades distintas do ser», digo eu, como a características positivas de algo, virtudes e valores apreciáveis.
Não consegui, porém, mas estou certo que o conseguirei, os três volumes a aguardarem-me na estante. 
A escrita é simples, não se colocam dificuldades de vocabulário que se tenham de vencer, tempos de narrativa assíncronos que reclamem atenção constante do leitor. Sucede que, de tão aparentemente fácil, a narrativa prende, cada página é um valor maior de conceitos que contêm em si mesmo noções que permitem multiplicar sentidos e propiciam reflexões e um sentimento de pertença e de aprisionamento, e o leitor seduzido pela agrilhoamento à leitura, por ela esgotado, progride cada vez mais lentamente como um comboio a aproximar-se do local do seu estacionamento. 
Por isso me decidi a optar por um outro livro seu, igualmente traduzido do alemão, também por João Barrento, editado em português antes daquele, já em 2005, há doze anos, portanto.
Gostaria de ser daqueles que estão sempre com o último instante, le dermier cri da cultura. Mas não é assim que a vida me sucede. Leio, pois, o que tantos clamariam estarem já a reler. Sem vergonha, eu.
Terminei, eis quanto quero portanto dizer, a leitura do livro As perturbações do pupilo Törless.
Pode-se dizer dessa obra o local da narrativa, porquanto tudo decorre dentro de um internato para estudantes, antigo seminário, não pode é, com palavras nossas, restituir-nos, por aproximação sequer, o conteúdo, menos ainda a importância. Seria como quem ao descrever um corpo humano supusesse ter descrito a pessoa.
Dizer que ali se contam as perversidades, vícios, e a sádica violência, liberta ante cativeiro escolar, é dizer pouco. Acrescentar que estão em presença dois mundos, o linear, cinzento, monocórdico e repetitivo universo da banalidade feita professorado e o incerto, plural, informe ainda mundo de jovens em formação, pulsões à solta, personalidades a rasgar-lhes o corpo, libertando-lhes a alma em ódio e amor, ainda é ficar aquém. Que o também austríaco Sigmund Freud, seu contemporâneo, se encontraria em tantos dos passos da forma de ver pela qual a história se exprime, teria interesse, mas leva a menos do que devia, na fertilidade das pistas interpretativas que o escrito proporciona, das quais o ter a novela conteúdo biográfico não é, sobretudo para algum voyeurismo literário contemporâneo, pela sordidez atraído, moscas, um somenos.
É que tudo se passa, convocando-se lugares narrativos tão incomuns como na matemática a incompreensível aparência dos números imaginários, na geometria o encontro no infinito de duas paralelas que se prolonguem indefinidamente, na teologia a própria noção de um Deus que não esteja em cada uma de todas as coisas, na filosofia Immanuel Kant como se fosse a impossibilidade de se pensar mais do que o já pensado.
Tenho o estranho hábito de procurar no que leio em ficção, longa que seja a exposição, o local onde está a palavra levada a título; no caso, ei-la precisamente na última página, atingida depois de várias sessões de leitura, esta noite: «ele envergonhava-se de ter passado por essas perturbações». Aqui outra ambiguidade, «perturbações» sendo no original «verwirrung» que houve quem traduzisse para este mesmo livro por «confusão», e assim sucedeu com a obra de outro austríaco - e como são tantos e magníficos todos - Stefan Zweig, em língua portuguesa Confusão de Sentimentos, na língua original Verwirrung der Gefühle.
Poderia deixar aqui excertos, tantos são, sublinhados para quem como eu lê com um lápis, sublinhando o que merece ser recordado, a frase, o parágrafo, a página inteira, em traços horizontais e verticais de perícia incerta.
Ao colocar o livro no lugar do seu repouso, vagueei quanto a poder organizar uma biblioteca com um único critério: lado a lado os livros já lidos, a distinguirem-se, indistintos e variados fossem dos que ainda faltaria ler, precisamente o sentido da vida, o já vivido ao lado do que falta viver com a diferença: naquela ao contrário do que seria na minha insólita biblioteca, o valor do tempo sobejante é progressivamente menor, tal como Musil assim viu, ao colocar a perplexidade das divisões que progredindo indefinidamente, deixam sempre resto, como se o zero fosse inatingível, a total ausência um paradoxo, afinal, da existência.

domingo, 23 de abril de 2017

Almada, o africano


Levei-o esta manhã porque está aqui perto, na Gulbenkian do seu Despertar, a exposição sobre o José de Almada Negreiros, a qual eu ainda acabo por perder ao ser um impaciente de personalidade incompatível com filas e multidões e, a somar, com o que surge - ainda que excepcional em qualidade - com o rótulo elitista de evento "imperdível" colado ao facto pelos polícias do bom-gosto.
Não fui mas irei à exposição e até comprei já o catálogo e, como contra-peso, dois lápis alusivos, aliás de má grafite, coisa que me arrasa os nervos, embirrento que sou com essas pequenas coisas que se me tornam enormes em efeito, sobretudo quando a escrita dá em invisível no papel, cinzenta em vez de negra.
Mas, como dizia, levei o livro comigo e estive a lê-lo, aos excertos, os capítulos sem ordem, os mais imediatos sobre o filho José primeiro, porque o livro trata do pai, e do seu outro filho António que se tornou militar e depois entrou no comércio da emigração, e por isso terminou rico porque assim casado.
Não posso dizer que não gostei de uma obra que me levou a uma São Tomé dos finais do século XIX e, assim, às reminiscências da minha origem, pois meu pai por ali deambulou umas dezenas de anos depois. Nomes como a "Roça Saudade", onde «o menino com olhos de gigante» nasceu a 7 de Abril de 1893, antes de ser «transplantado para Lisboa» dois anos depois, ficando órfão de mãe um anos depois disso, fazem eco. 
Ela tenta convencer, citando um verso comovido e beato, que o pai «Almada Negreiros amava o filho»; mas não deixa de ser sintomático que, como o autor reconhece, José de Almada nem uma só vez se lembrou, na sua obra, dos nomes dos seus pais - António Lobo e Elvira Freire Sobral. Todavia não esqueceu o seu irmão António ao qual dedicou, expressamente, o mais significativos dos seus poemas - Histoire du Portugal par Coeur - quando ele, militar, se encontrava no Mosteiro da Batalha, em 1920».
Educado, como durante algum tempo seu irmão, no Colégio de Campolide, da Companhia de Jesus, dali não saía, nem de férias. Dizem que a reclusão o ensinou a desenhar. «Pintar é falar consigo mesmo para que alguém nos entenda: monólogo do pintor», escreveria.
Um ponto final: escrita em 1975, em pleno fulgor revolucionário, a obra hoje lida tem disso pegadas. Assim, a propósito de um longo poema que o pai Almada escreveu - prudentemente sob o pseudónimo de João Alegre - intitulado Senhor, Pão!, em que, a pretexto do centenário da Índia, fazia um diatribe contra a política colonial e sobretudo contra os que das colónias se aproveitavam, o autor intitula o capítulo respectivo como «Do administrador colonialista ao democrata antifascista». Ora "fascismo" em 1897 é obra!
Mas, enfim, já no preâmbulo ao livro consta [página 14] que «Almada [agora o filho] recusou-se sempre a alinhar com o fascismo e o colonialismo».
África, isso é interessante, é, aliás, uma ausência na sua obra. O livro tenta mostrar o contrário. A dialética talvez ajude.

sábado, 10 de dezembro de 2016

A conversão dos pretos...


O folheto intitulava-se Missões de Angola e Congo. O exemplar que encontrei já era o n.º 5 do ano XXI, 1941. Tinha redacção no Porto na Rua Nova do Regado, 250. Era seu Director e Editor o Padre José Maria Figueiredo. Encontrei-o hoje também no meu passeio entre alfarrábios.
Neste número abria com carta de D. Moysés Alves de Pinho. Mas o interessante achei-o já quase a findar o breve e agora amarelecido fólio, uma outra carta do referido cura dirigida aos seus leitores a propósito da Associação de Nossa Senhora de África, para a «conversão dos pretos» e da actividades dos seus «zeladores». Noticiava-se a inscrição do menino Manuel Simões Delfino, de Faro; e mais se relatava a infrene acção da menina Maria Manuela Branco Rezende, que mau grado a sua jovem idade de 12 anos, criara um centro onde congregara 27 associados e levara uma outra companheira, a menina Maria Emília Amorim Mendes da Silva Matos, a abrir centro também, mas em Vila Nova de Gaia. 

Curioso, a propósito, o queixume que, sob o título «Miséria Dourada», o Boletim exarava na página dedicada ao Noticiário das Missões: «(...) o número de sacerdotes em todo o território português de África (Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné) é de 274». Por contraste, segundo a mesma notícia, só a Arquidiocese de Braga contava com...872 (620 párocos) seculares, sem contar com os religiosos que ali trabalham». Elucidativo.

Nada dizendo ou não comparecendo, diz sim!


Encontrei-o esta manhã, entre facturas, bilhetes, cartas íntimas e comerciais, num alfarrabista de rua. Tinha ouvido falar nele, lera, com dezassete anos, caloiro na Faculdade de Direito, livros que a ele se referiam: o boletim pelo qual votou a Constituição de 1933. E agora ali estava, amarrotado, entre minudências.
Sujeita a sufrágio no dia 19 de Março de 1933, um Domingo, a Constituição de 1933, foi, seguindo o Decreto n.º 22229, de 21 de Fevereiro [o texto está aqui], plebiscitada através de uma fórmula curiosa:


O projecto submetido à votação pode ser encontrado aqui
Contados os votos foram apurados os seguintes resultados: O texto constitucional obteve 719 364 votos a favor, 5995 contra e 487 364 abstenções. 
Para se votar contra não era necessário escrever: não. Imagine-se no momento da votação alguém ter de pegar numa caneta e escrever: «não»! A intimidação que este sistema, imposto pelo § único do artigo 22º do Decreto acima citado, conseguia era bastante para adulterar os resultados. 




segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Dr. Fischer e Franz Schubert

Foi neste blog, no dia 13 de Julho de 2005 que comecei a escrever sobre livros, os que lia, os que gostaria de ler. Depois criei um outro espaço que é parte do meu nome, pois chama-se António Rebelo da Silva e está aqui e um outro, intitulado A Fantástica Livraria, que se encontra aqui, dedicado ao que encontro pelos alfarrabistas. Tudo sem regularidade, sem ordem, à mercê das circunstâncias. E tantas foram.
Neste em que hoje volto a escrever, tirando-do do mutismo em que se encontra desde 2011, não havia imagens sem haverá. Apenas letras, aquelas que são as que vejo nos livros que acumulo na ânsia de os concluir ou ao menos iniciar, letras que aprendi a juntar na escola primária, começando antes dela pela Cartilha Maternal de João de Deus. 
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Volto pois, com um livro que comecei a ler numa viagem de avião, precisamente a Genève, onde está inumado, por ali ter vivido os momentos finais da sua vida,  Jorge Luis Borges, leitura que terminei há semanas e guardei porque queria deixar em qualquer lugar uma nota de leitura. 
De tudo quanto escreveu Graham Greene, Dr. Fischer of Geneva or the Bomb Party é talvez das suas obras menos citadas, talvez por ter sido escrito numa lógica de ressentimento ditada por razões pessoais, expressão de desprezo e rancor em que só a generosidade de um dos seus biógrafos e amigo, o Padre Leopoldo Durán encontrou algo de tão insólito quanto semelhança com os Moments Musicaux de Franz Schubert [que se podem ouvir aqui numa interpretação de Alfred Brendel]. E por ser, é o que penso, uma obra com menos valia literária.
Não interessa a história da personagem que nos surge como tradutor de línguas latinas - duas das cartas que traduz são aliás em português - a quem o blitz da Luftwaffe - que o autor tão bem conheceu - amputou, na fatídica noite de Dezembro de 1940, a mão esquerda, ou o seu enamoramento e vida conjugal com a filha do dono da fábrica de chocolates e seu patrão, Dr. Fischer. 
Importa já a medida em que as festas destas, parties pomposos, faustosos, eram pretextos mais do que para a corrupção pelo que a cada convidado calhava a final como obséquio, mas sobretudo para o rebaixamento dos que assim eram obsequiados e de quem Dr. Fischer, o vil anfitrião, poderia, enfim, gozar o sórdido prazer da dominação. 
E talvez importe aquilo em que muitos dos que leram a obra se concentraram - a festa final, roleta russa em que - pobre artifício literário para a grandeza do escritor - as oferendas estavam escondidas em invólucros que supostamente continham uma bomba pelo que, a ganância era, enfim, jogar no precipício do risco a própria vida.
Abundam nesta novela resquícios das obsessões do autor de The End of the Affair, a angústia religiosa, a pulsão sexual, o problema dual do mal e do bem. E a questão da felicidade, que é para si como uma das remotas ilhas do Pacífico, que nenhum cartógrafo anotou e submergem sem que delas fique vestígio e nenhum marinheiro que as haja avistado está seguro de não ter assim acontecido apenas na sua imaginação.