domingo, 4 de novembro de 2018

Les mémoires de Maigret

Consegui - contentamento! - com um pouco de preguiça de cama - mas é Domingo! - terminar a hoje leitura. Livro breve, formato, lido no original, francês. 
Pertenço, talvez, a uma das últimas gerações que em Portugal saberá ler em francês. Cada vez menos se ensina essa língua, menor em cada dia a influência da cultura gaulesa. No tempo do Eça de Queiroz a novidade levava, para chegar a Portugal, o tempo do Sud Express. Agora já poucos sabem o que foi o Sud Express, Santa Apolónia/Mangualdade/Gare de Austerlitz.
Livro paradoxal este, as memórias de Maigret, como se escritas pela mão do próprio. Assina, Georges Simenon. Se pudesse sem blasfémia convocar-se a teologia, seria a revolta mansa da criatura contra o seu Criador.
O inspector da Police Judiciaire tem, nesta pequena obra que a Presses de la Cité agora reimprimiu, publicada originalmente em 1951, compaixão pelos erros daquele que tanto escreveu sobre as suas investigações, retratando-o como o polícia gordo e fleugmático, tornando-o em Literatura aquilo que ele não é, fazendo-se viver quem não sente ser e aqui tenta emendar.
Sendo permitida a ironia, Maigret escreve tão prodigiosamente como Simenon. A mesma imersão nos ambientes, a mesma compreensão pela dimensão humana de todos os outros. 
Exagerado, como sempre - palavras de Mme Louise Maigret - Jules Amedée François Maigret esforça-se, nesta ânsia de rectificação por nos devolver o inspector de polícia como «simples funcionário», por atenuar a diferença existencial, - que não moral - entre os que estão do lado da lei face a todos os que são o seu objecto de perseguição, do bas fond à alta roda.
Há na escrita a presença permanente da mediania, o conformismo com a modéstia, a quase ausência de rancor. Noites de vigília, o desconforto permanente da chuva em tempo frio, rotas tantas vezes a sola dos sapatos, uma carreira feita a partir da modéstia de um polícia de rua, distribuidor de correio em bicicleta, enfim, a findar as páginas, ébrio de alegria ante a promoção à Brigade Spéciale
Por causa de uma das narrativas sobre um caso seu, perdi há tantos anos que já nem lembro quando, um comboio na gare de Poitiers. 
Companheiro de viagem, num saco com pouca roupa e muitas fichas para a bibliografia de um livro que teimava em escrever - e já nem sei se o completei, era jurídico, o mundo não ficou pior sem ele! - enclavinhado na mão, aquele pequeno mas hipnótico livro e nele Janvier, Lucas, Torrence, a Brasserie Dauphine, a Rue Richard-Lenoir. Esqueci o título, foi-se a história, ficou o sentimento.
Seguia-lhe de tal modo os passos, bebia assim com ele imaginariamente os Calvado's, o Armagnac que, embriagado também pela fantasia e pela ilusão tornada real, nem dei pela aproximação, nem pela paragem, nem pelo arranque do comboio que asseguraria a ligação final, rumo a Lisboa. 
Naquele instante de surpresa e pavor - tinham-se esgotado os francos e nem sabia como fazer para corrigir o sucedido - eu fui O homem que via passar os comboios.

sábado, 6 de outubro de 2018

Agustina: ortografia e nascimento

Que posso dizer quando leio Agustina Bessa-Luís, mesmo pequenos textos de pequenos livros quando em cada um, quase diria em cada linha, encontro uma ideia, uma sensação, um sentimento, que dariam para parar, tempo de reflexão e de enamoramento e a leitura se adensa e caminha devagar?
Trouxe o Caderno de Significados, pela única razão de ser de aparência diminuta e cansa, trazer para regressarem não lidos aqueles livros para os quais, extensos sendo, não se encontra tempo, na escravidão em que se tornaram as nossas vidas para ler, folheando apenas que fosse.
E pela tarde morna de sonolência e durante a noite irrequieta de insónia prossigo pelas suas cem páginas e ainda não terminei, lendo ao acaso tal como ela parece ter escrito, notas e crónicas «em folhas soltas, em cadernos de notas, em espaços brancos de impressos, em margens de livros, dispersos em pastas de congressos, em gavetas de móveis».
Direi que de tanto ficou neste momento a escrita sobre a escrita e desta o modo de escrever: «a importância da ortografia é a importância do nascimento [...]. Eu tenho a mesma letra dos meus cinco ou seis anos, miúda, desenhada como o arco-íris num rio. Aprendi assim a jactância dos efes, a morbidez dos ás, os bês abaciais e o tê que parece um Quixote com a sua bacia de barbeiro na cabeça».
Que melhor e mais magnífico poderia ler? «Quem não ama a ortografia não respeita a cultura, peregrinação nas matas do alfabeto».

sábado, 9 de junho de 2018

José Régio: fotobiografia reeditada

Tinha conseguido já a edição de 2002, publicada conjuntamente pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda e pela Câmara Municipal de Vila do Conde, escrita por Isabel Cadete Novais. Hoje a Feira do Livro trouxe-me a segunda edição, de 2017, editada pelo Centro de Estudos Regianos, sob o patrocínio da Câmara Municipal da sua terra natal, vindo à luz a 17 de Setembro de 1901.
Melhoria substancial. Capa bem mais apelativa, tal como na anterior com destaque para uma fotografia do biografado, mas desta vez naquele facies em que o reconhecemos, enriquecida com encartes a cor, compensando a ausência de cor no miolo que valorizava a primitiva edição, abre com prefácio de Miguel Real que nos apresenta José Régio, tal como Pessoa e Teixeira de Pascoaes como «um dos grandes solitários da cultura portuguesa do século XX». Solitário, prossegue Real, pois que «criador dos fundamentos teóricos e dos métodos expressivos da sua obra», solitário porque «imune aos modismos estéticos nacionais e internacionais». E mantém o texto introdutório de Eugénio Lisboa, a quem a divulgação do seu nome e obra tanto devem.
José Maria dos Reis Pereira, que em Literatura ficou como José Régio, corre a maldição de ser para cada vez menos.  Pressente-o no verso que no livro se copia: «Morro conformado/Mas só eu sei quanto/Me não tem custado//Há tanto lhes canto/Para ser ouvido/E E ao fim desse tanto/Sou desconhecido». E viveu devorado por essa angústia, fome de ser amado.
Trata-se de uma escrita muito íntima mas em que a fronteira do privado só é trespassada por sugestão diáfana. Mesmo o seu Diário, um dos volumes da Obra Completa que, em excelente hora a Imprensa Nacional editou, não revela mais do que o necessário, ficando no exacto ponto em que a sensibilidade do leitor havia intuído. E, no entanto, escrita de um cidadão interventivo, que firmara as listas do MUD oposicionista ao regime político então vigente e pagara com cortes da Censura a ousadia. Mas cuja delicadeza de carácter lhe permitiu sempre o equilíbrio e uma significativa segurança, não fosse a insegurança interior, em angústia permanente, a neurastenia do isolamento, professor liceal exilado em Portalegre, tendo como companhia o escasso meio de camaradas das letras e companheiros de ideais.
Eis o livro.
Comparando em breve folhear ambas as edições nota-se que nesta se amputou o capítulo «O Escritor Não Morre». E assim não encontro nesta algumas das imagens da anterior, como a da visita de Marcello Caetano quando visitou a Casa Museu em 1971, mantendo-se embora, em assimetria de critério a do Presidente da República, Américo Thomaz, quando visitou a casa em 1966.
Do mesmo modo uma fotografia em que a ele se juntavam Vergílio Ferreira e Eugénio de Andrade não a encontro agora.
Trata-se, pois, em sentido próprio, de uma segunda edição, revista seguramente.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Monumento à memória


Procurei por ele para escrever este texto.

É um livrito pequeno, dos que facilmente se somem na selva das estantes, onde capas brotam como lianas e letras impressas formam a algazarra da manhã. 

Oitenta e sete páginas em formato de bolso e papel robusto, na edição que tenho da Assírio & Alvim, incluindo apresentação, cronologia biográfica e páginas técnicas da praxe. 

Coisa que sem esforço se desvia do lugar. Assim foi. Encontrei-o, insondável ironia, numa pilha à beira do esquecimento no quarto de arrumos.

«Mendel dos Livros», de Stefan Zweig, breve novela publicada em 1929, em folhetim, no jornal diário vienense Neue Freie Presse.

Li-a há poucos meses, num galope febril, afundada em mantas e paracetamol, em certa tarde de doença de que já pouco ou nada recordo além da névoa de folhas sucedendo-se em íntima peregrinação. 

Com o anónimo narrador penetrei, impelida pela chuva, na atmosfera cálida de um café vienense, e por meio dele no túnel de uma súbita recordação de um tempo e lugar em que conheceu Jakob Mendel. 

O absorto e alheado Mendel. O «pequeno, comprimido e completamente envolvido nas suas barbas» judeu ortodoxo vindo do Leste e feito alfarrabista em Viena, para quem só o amor aos livros existia e por trás de cuja «fonte calcária, suja e coberta por um musgo cinzento» se encontravam, «fazendo parte do mundo invisível de fantasmagoria, como que cunhados por meio de fundição de aço, cada um dos nomes e cada um dos títulos alguma vez impressos num frontispício dum livro». 

A sua era uma vida filtrada pela lente de uma única paixão, servida por uma prodigiosa memória, num impoluto mundo de ideias que o império dos factos não saberia entender. 

Obra enorme de sensibilidade, simultâneo lamento por uma era perdida e homenagem ao espírito, reclama ser lida de coração nas mãos, naquele sítio interior onde habita o que já só em nós existe. 

Stefan Zweig, querendo erguer um monumento ao livro, ergueu-o também à memória, essa ínfima centelha redentora que faz de nós guardiões do tempo em que vivemos e de quem nele existiu. Delgada corda com que nos alçamos uns aos outros do alçapão escuro da aniquilação. 

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Dia Mundial do Livro

Hoje é o Dia Mundial do Livro. E como não me são indiferentes os livros. 
Vicissitudes da vida fizeram com que extensas bibliotecas ficassem por lugares por onde se repartiu a minha existência, desde Malanje onde nasci, imensos mais em livrarias onde os vi sem ter por vezes meios para os comprar, outras por ter deixado para depois ir comprá-los, ou não me ter apercebido de que teria sido importante aproveitar a ocasião que se perfilava diante dos olhos, ao alcance do desejo e das possibilidades.
Estendo estantes por onde posso, por esta casa, pelo escritório e por um outro escritório que teimosamente mantenho na cidade do Porto. E andam pelo chão, em montículos que juro serem provisórios. Quando posso, arrumo-os por ordem, os de ficção eslava para que se não confundam com os que juntei sobre estudos literários ou de angeologia, incluindo os anjos caídos, o Vergílio Ferreira agora todo ordenado por datas, o Alesteir Crowley incompleto e a esmo, ainda ao lado, nem sei porquê do Amadeu Souza-Cardoso. 
Sobre tantos temas tenho livros, alguns temas descobri-os ao ter descoberto um livro sobre isso. E depois há a incógnita, não por ter comprado um dicionário de esperanto mas sim um outro sobre tibetano, língua que não me imagino sequer a balbuciar. Um dia dei comigo a hesitar sobre não deveria adquirir, na ida Bucholz quando ainda era o que foi, a Summa Theologica do São Tomás de Aquino, mas comprei, um a um, todos da Enciclopédia Larousse, e os quarenta e cinco volumes da Obra Completa do Lénine, estes que ainda guardo, aqueles que alguém guardou para si. E tenho-a, porque confiada, a obra jurídica completa do Lobão, incluindo os Comentários a Pascoal e o próprio Pascoal Mello Freire, ainda em Latim.
Fui leitor e sou leitor e nunca o fazer contas à vida e aos anos que posso ainda viver me impediu de querer mais livros, sempre mais livros, mesmo que razoavelmente fiquem muitos por abrir ou sequer folhear: há nisto uma raivosa esperança em querer ter mais alma do que a fatalidade do precário corpo. São amigos, companheiros, a sua presença aquece o espírito, há sempre um que faz sentido na alegria e na dor.
Fui editor, duas vezes, a primeira dos meus próprios livros, a segunda de livros alheios. Na primeira  veste, dei-me voz sem prejudicar quem seja, na segunda arruinei um capital meu que não quis poupar e que se esgotou quando os prejuízos somados e a insolvência da distribuidora me devolveram razão ao sonho que se tornava pesadelo. De qualquer modo, por estúpido que seja, não me arrependo: isto é a teimosia dos que acreditam no sucesso que se encontra no desastre. Mesmo com o mercado adverso, mesmo com diminutos leitores, mesmo oferecendo livros, carregando com eles às costas e somando sobras, valeu a pena. Aprendi tudo do ofício, desde o primeiro momento em que o livro é uma ideia até à final em que é um pacote a levar para a sessão de apresentação e regressar, tristonho, porque ninguém o quis.
Não diabolizo o mundo digital , porque sou dos que também lêem num écran, em todos eles. Ler não importa onde, não importa que tipo de escrita, manuscrita ou tipográfica, ler, que seja jornal já requentado, ou versículos da Bíblia num noite insone, encontrada numa gaveta de hotel.
Hoje é o Dia do Livro, como aliás cada dia passou a ser o dia de não importa o quê.
Fui ontem buscar ali à Livraria do Centro de Arte Moderna mais um livro do Hermann Hesse, chegou hoje, vindo da Amazon um outro sobre César Ritz e o chef August Escoffier. Há pouco arrumei na estante, por estar nesta num lugar errado, o Vidas Secas do Graciliano Ramos.
A imagem deste post é de um livro emprestado. Terei de o devolver com mágoa. Irene Lisboa, a quem dediquei um blog, e da qual creio ter conseguido reunir a obra completa, escreveu em 1944 o Inquérito ao Livro em Portugal. Publicou-o a Seara Nova, de que foi dilecta colaborada. Lê-lo é concluir que os problemas de hoje são os de sempre: poucos leitores, curta passagem dos livros pelas livrarias, excesso de produção, problemas comerciais de distribuição. 
Comove ir ao índice e ver o que sucedeu aos livreiros que ela ouviu para o que escreveu, tudo falido, tudo ido: Parceria A. M. Pereira, Livraria Sá da Costa, Editorial Gleba, Livraria Luso-Espanhola,  Livraria Latina,  Arménio Amado, Coimbra Editora, Livraria Cunha, Casa Livros de Portugal.
Neste mundo de mortos, uma coisa vive: o livro e o amor dos leitores pelo que eles são.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Fulgurantes, incansáveis palavras


Uma confissão.

Evito muitas vezes a leitura da moda sem argumento melhor que o da simples vontade de não ir por aí, de caminhar fora de trilho e clareira e esgueirar-me, por entre árvores, até onde se supõe aguardar-me o inesperado tesouro. Sei bem que é uma indesculpável (mas espero que benigna) forma de soberba. Primeiro, porque nem todas as florestas abrigam tesouros; segundo, porque nem todos os trilhos levam a lugares comuns.

É, em todo o caso, a razão pela qual O Meu Irmão, obra vencedora do Prémio Leya 2014 e amplamente badalada, me veio cair nos braços só muito recentemente, um pouco aos trambolhões. A visita à livraria destinava-se a comprar um outro livro de um outro autor; lida, porém, a primeira página deste, já não sei se por acaso ou por curiosidade, não me foi possível deixá-lo para trás.

Começo por dizer que o menos interessante da obra será essa arqueologia literária que quase sempre se cai na tentação de fazer em torno dos autores de livros célebres ou celebrados. Que Afonso Reis Cabral venceu o Prémio Leya com apenas 24 anos. Que é trineto de Eça de Queirós. Que o livro, embora ficcional, é influenciado pela experiência directa do autor, por motivos familiares, com a síndrome de Down.

Nada disso deve relevar em excesso ante uma escrita que merece ser lida sem mitologia nem qualificativos. Isto é: que merece ser aplaudida pelo surpreendente sopro de vida com que insufla as personagens e a sua história, e não por um qualquer apesar ou por causa.

A premissa, em linhas sumárias, é esta: numa aldeia portuguesa, abandonada ao desgaste do tempo e da ausência como tantas, dois irmãos passam uns dias na casa de família. Miguel, o mais novo, nasceu com síndrome de Down. O narrador, pouco mais velho, chamou a si a responsabilidade de cuidar dele após a morte dos pais, reatando a proximidade de infância interrompida por muitos anos de afastamento do seio familiar. Contra este pano de fundo vão desfilando as memórias da sua vida em comum, que a par e passo nos revelam, por vezes de modo insólito, quem são estes irmãos e quais as razões e efeitos do seu distanciamento e ulterior reaproximação.

Há também, no passado e no presente, pessoas cuja presença adensa a trama do livro e os seus argumentos. E há ainda, perpassando toda a história na qualidade dupla de cenário e de personagem central, o Portugal interior – desertificado, viúvo, à espera – composto com o rigor e o critério de quem sabe muito bem o que fazer com as palavras.

Fiquem avisados de que este livro agita até aos ossos. De que ousa ser cru e desapaixonado e colocar no centro da narrativa uma personagem imensamente imperfeita e ferida em algum sítio fundamental. Menos ainda hesita fazer-nos olhar de frente para questões difíceis, como a da crueldade que vem vestida com as roupagens do amor, ou a da solidão de corpo presente, ou ainda a do amor em si mesmo perfeito mas excludente de tudo ao seu redor.

Depois, é claro, há a questão da deficiência, que Afonso Reis Cabral retrata nas suas pequenas e grandes manifestações, e cujo impacto na vida de cada personagem se esforça por investigar sem derivas fáceis.

Convém dizer que o livro, sendo duro, não é desprovido de humor, de momentos mais ligeiros, até de uma certa redenção, sob a forma da capacidade para o amor total e também para aquele amor que aprende a ser na adversidade, que aceita, que protege e que no limite tudo perdoa.

Sim, o livro assenta como um murro no estômago, mas esse murro desperta e faz pensar, não se sente nunca como gratuito.

E depois há as palavras, as fulgurantes, incansáveis palavras, e uma voz sóbria, madura e muito própria, e ainda uma narrativa ancorada não só em vida interior mas numa história bem desenhada e de passo mensurável, num clímax que surpreende e desnorteia, como nem sempre se vê entre autores portugueses.

Há um livro que merece ser livro e um autor que se apresenta de forma extraordinária.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A temperatura das palavras

Encontrei o livro por acaso. E de súbito nele tudo se tornou familiar. Desde logo a primeira referência a Luís Pedo Moitinho de Almeida, filho do proprietário de uma das casas comerciais onde Pessoa exerceu a sua profissão burocrática e que sobre ele nos deixou um livro e outros apontamentos diversos, recordações de um jovem atemorizado entre a genialidade que pressentia.
Depois, a referência ao local de nascimento do autor, Celorico de Basto. E logo um telefonema, a um meu Amigo, a quem li, o texto que assinalava uma tal origem, abriu a oportunidade de uma próxima visita me permitir ver, passando ao largo que seja, pela Casa de Melhorado, a de sua família.
O livro é uma digressão à tertúlia do Café Montanha, que Fernando Pessoa frequentava, extinto porque selvaticamente demolido e talvez, por isso, na superficial imagem do poeta, tudo se concentre como se, como local de companhia, só existisse o Martinho da Arcada, ao Terreiro do Paço.

Mas há mais: é a convivência próxima tornada narrativa, polvilhada de factos pequenos, é certo, mas igualmente interessantes porque mesmo a grandeza tem os seus recônditos íntimos de minudências e insólitos
Há, seguramente, um público ávido de voyeurismo, para quem as pequenas histórias se transmutam na História. Esses encontrarão aqui migalhas com que festejem o banquete da coscuvilhice. E talvez surpreendam Pessoa a não usar outros lápis do que «bocadinhos de lápis, aparados de um e de outro lado», ou no dichote a Pedro Theotónio Pereira, que amplamente detestava, enaltecendo da criatura o que lhe parecia nele de mais notável, o ter «os pés grandes». Ou ainda que, num passeio à Tapada da Ajuda, em carro eléctrico descoberto, Pessoa, entre cedros e abetos, tenha preferido que lhe mostrassem «tamarindo e um grão de pólen e não tarda um segundo que não pretenda que se agarre antes uma abelha».
Mas o que a obra me trouxe foram facetas interessantes, talvez porque as menos acentuadas por tantos que escreveram sobre o autor da Mensagem, que, já agora um pormenor pícaresco, na primeira prova tipográfica vinha o título escrito como Massagem...
Uma delas o da acção política daquele que, no imaginário colectivo, aparece envolto no nevoeiro do isolamento e da marginalidade. São várias as referências à sua acção no Núcleo de Acção Nacional, a mais conhecida fixação em Sidónio Pais, o Presidente-Rei. [quem quiser um pouco mais, pode ler aqui e aqui]. Grupo «meio fantasma» já se lhe chamou, de reduzida intervenção prática, voltado a uma ideia de uma monarquia «científica», assim ela nos é aqui resumida como ideia, fora dos ideais do Integralismo Lusitano, a cujas hostes o autor declara pertencer. Tudo temperado pelo desprezo a Afonso Costa e, afinal, àquilo em que a República se transformara. 
Outra, a da densidade da profunda amizade a Mário de Sá Carneiro e o tremendo momento, que ali se confidencia, do instante, em que, ante um gato agonizante, cena com que tropeçara numa das suas solitárias deambulações, porque envenenando com estricnina, em volteando em longa agonia,  ante os seus atónitos olhos, visão trágica e premonitória, a cabeça do animal aumenta de volume «e era a cabeça redonda do Sá Carneiro, eram as suas órbitas, as suas bochechas e um olhar triste e amargurado de despedida». Sá Carneiro suicidar-se-ia, em Paris, onde estudaria Direito, na Sorbonne, precisamente pela mesma  horrível forma, morte dolorosa.


Francisco de Paula Peixoto da Silva Bourbon [1908-1992] divulgou as crónicas que o livro agora compila no jornal Ecos de Estremoz, entre 1972 e 1973. Outras, sob o mesmo tema, publicaria nos jornais Cidade de Tomar, Consciência Nacional, Notícias de Guimarães, O Comércio de Gaia.
Sobre o livro, com cujo autor privou, Pedro Teixeira da Motta escreveria no seu blog [ver aqui]: «Francisco Peixoto Bourbon cultivava muito as amizades, era sinceramente um ser bom e generoso e foi ele mesmo que me introduziu a outros amigos de Fernando Pessoa, tais como Moutinho de Almeida e o Manuel Menezes de Vasconcelos, e transmite muito bem nas suas evocações o calor humano que circulava entre eles, realçando bastante a falta do meio condigno do génio de Fernando Pessoa, embora a tertúlia do Montanha fosse quase um refúgio de consagração e onde se podia dialogar com franca troca de ideias, como o jovem estudante de agronomia logo experimentou, tornando-se como que o benjamim acalentado da tertúlia, da qual nomeia como participantes o eng. Rogério Caldeira Santos (seria o maior admirador de Pessoa e posteriormente tentou infrutuosamente transformar o café Montanha num museu Fernando Pessoa), o dr. Manuel de Menezes Vasconcelos (um dos mais íntimos), o Marquês de Penafiel, Da Cunha Dias, o Joaquim Palhares, Victoriano Braga, o dr. Pedro Moreira, o Mário Saa, o Dr. Carlos Lobo de Oliveira, o eng. Pulido Garcia, o Victoriano Braga, o Gualdino Gomes, o capitão Gastão de Melo de Matos, e umas poucas vezes o António Botto e o Almada Negreiros.»
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Eis o apontamento singelo. As palavras têm temperatura. Estas, fruto de um Domingo que finda, teimosamente ainda frio, terminada a leitura, feita às prestações, são mornas. 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Anunciando uma coabitação


Hoje, 9 de Fevereiro de 2018, anuncio uma coabitação. Adriana Barreiros, minha filha, que se estreou na poesia com o livro Ser humano é uma coisa Pessoal [ver aqui], aqui se junta com as suas ávidas leituras e a sua refinada sensibilidade.
Talvez devesse como pai sentir orgulho, mas um filho não é um prolongamento de nós, sinto, pois, uma infinita alegria.
Na memória de um pai, um filho é sempre a imagem da eterna meninice. Ei-la, pois, o rejuvenescimento perpétuo.

domingo, 7 de janeiro de 2018

A casa arrumada


Este blog passa a conter, de hoje diante, todas as notas de leitura, sejam os livros contemporâneos ou de alfarrabista. Importei tudo quanto estava escrito em outro blog que, usando parte do meu nome - o que por vezes funcionou como pseudónimo literário - se chama António Rebelo da Silva.
Fica assim a casa arrumada. Não é que a dispersão não tenha a sua razão de ser, o motivo é não ser razoável distinguir a literatura pela fita do tempo. Há justificação para a ideia de que a Literatura é intemporal. Ora por isso, eis.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Epílogo: em breve a Primavera

Passei o ano a ler um livro. Motivo de alegria. Acto simbólico. Porque nem sempre a profissão dá tempo e há que resgatar tempo para poder ler, por gosto, vários livros ao mesmo tempo, debicando como os pássaros.
Desta vez comecei esta manhã e antes da meia noite tinha terminado. E com tantas outras coisas pelo meio, até tempo para dormitar.
O livro é nostálgico, sofrido. São memórias, em forma de diário, varridas pela tragédia da morte da que foi a companheira de mais de cinquenta anos.
Eugénio Lisboa encerra assim o Acta est Fabula, título que deu aos volumes que foi regularmente confiando à Opera Omnia, a editora de Guimarães que, lutando contra as vicissitudes do mercado, cuida da sua publicação.
Dir-se-ia que não é leitura que se deva ter na passagem do ano. Mas é precisamente a leitura que, a ter acontecido com a passagem do ano,  dá ao novo ano o valor da esperança.
Livro de dor desesperada, é testemunho de amor que não não permite luto, exaltação de carinho, exemplo de humanidade.
No meio, claro, as obsessões literárias do autor, cruas no modo de dizer, algumas a fazer surgir a clareira soalheira do riso. Assim a vida, assim estes dias de Inverno, assim em breve a Primavera...

sábado, 9 de dezembro de 2017

Bohumil Hrabal, o terno bárbaro

O livro retorce as circunvoluções do cérebro, as ansas das vísceras. Estonteia. Porque, declarando-se livro de lembranças de um pintor checo, Vladimir Boudník [1924-1968], a verdade é que é uma polvorosa sobre o mundo visível, o seu interior e o reverso, a realidade aparente e os seus símbolos reais, as evidências boçais quando sábias e o mistério do óbvio. Está traduzido em português por Ludmila Dismánova, editado pela Teodolito, em 2011. 
Pequeno em formato, é daqueles que não se consegue ler de uma só vez. Levei imenso tempo a chegar ao fim das suas 123 páginas, que encerram com o repto de Jorge Listopad «aprendam checo ó leitores». E quase que, imersos naquele ambiente, se sente a necessidade de, pela língua, ser habitante para ler tudo quanto não está traduzido e ir aos locais e aos sentimentos onde tudo se passou.
Que se pode dizer de uma obra assim que a não reduza? Como usar, sem desfeitear, a palavra surreal quando, em verdade, é de irreal que se trata? Sim, claro, o dadaísmo, a abjecção, presente quase em cada folha, mas também o sublime. Mas tudo isso é somenos.
E a escrita, potente! As associações de ideias e de vocábulos, surpreendentes!
De taberna em taberna, entre litros de cerveja e aguardente, uma galeria insolente de personagens povoa a obra, irrompendo erraticamente, o também pintor Nejedlo que, desde a Escola das Belas-Artes «adorava enforcar-se», «grandes olhos de corça que oscilavam no metrómono do escadote», e que se enforcou, de facto, mas «por engano, na maçaneta da porta».
Há em cada recanto da obra momentos alucinantes de densidade e inteligência, como quando «o regresso de Vladimir, regressus ad originem, é simultâneamente um progressus ad futurum»,  e a inversão da topologia e da cronologia a que nos habituámos, como naquele instante de horror pro inversão da equação espaço/tempo, no flagrante instante «quando ganhar coragem, hei-de perguntar àquele cego se por acaso ao saltarem das órbitas, no último segundo, os seus seus olhos não se teriam virado e pela primeira e última vez não teriam olhado para sua própria cara, dentro das órbitas vazias.»
Livro teológico e escatológico, encontra-se, entre a sordidez, em metamorfose, com a ideia de que «o Deus dos católicos também é capaz de agir directamente sem o elo causal» e  com Vladimir a jogar, entre Spinoza e Kant, «o jogo absoluto; fruitio Dei, mónada das mónadas, cens realissimum, Ding an sich selbst» e nisto a carnalidade em tudo quando «a erecção e a ejaculação de Valdimir tinham um carácter transcendental, a sua semente tinha o poder de fecundar uma virgem», livro de bondade franciscana porque «quem é amigo dos animais é graciosamente amigo de Deus, e assim suma só vez, une e liga o que há de mais baixo com o mais alto, fechando o círculo [...].»
Claro que há aqui Franz Kafka, em cada momento em que o tecto do mundo se abate e nos sufoca, menos o escritório da companhia de seguros, mas mais a volúpia transgressora de George Grosz, o filosofar às marteladas de Friedrich Nietzsche, alma a explodir dentro do mirrado corpo e o símbolo da prensa e da gravura em metal, o anarquismo de um Jaroslav Hasek, rindo para não chorar. Com todos eles me tenho agora envolvido em leituras, como ele «mestre da imaginação táctil, sempre a morrer, a estoirar, mas somente para poder ressuscitar, rejuvenescer, sempre para reencontrar a força, furar a parede com a cabeça, passar para o outro lado e depois, seguindo o cordão umbilical, recuar até ao início de todas as coisas, de regresso à primeira semana da criação do mundo».
Não digo mais. Leiam! De novo Listopad: «Claro, a Bohumil Hrabal devo muito mais. Ponham-no na minha conta».

domingo, 5 de novembro de 2017

Luiz Pacheco: a teoria sobre o cheiro a sovaco

Quanto menos tempo tenho para ler, mais livros compro. É uma lógica de razão inversa fundada na esperança de que um dia, ainda que longínquo, terei tempo para os ler e a certeza de que um dia, muito próximo, o livro que não tiver comprado agora terá sumido nas guilhotinas do esquecimento editorial. E tenho pena que seja assim a minha vida, diminuída no que valorizo.
Hoje comprei a colectânea de escritos que António Cândido Franco dedicou a Luiz Pacheco. Pacheco de quem compro tudo quanto encontro - e não tenho encontrado muito - e compro também quanto surge sobre Luiz Pacheco. Reencontrei outro dia, a propósito, as Cartas ao Léu, que julgava perdidas e cuja existência na minha biblioteca me veio à superfície da memória por via de uma visita - coração apertado com receio de a encontrar já ida - à resistente Livraria Uni Verso, em Setúbal, obra militante de João Raposo.
Animado de boa-vontade, achando que merecia - porque aí pelas quatro trabalhava na profissão, transviado de insónia - iniciei a leitura. 
Pelas primeiras vinte folhas já tinha alcançado que a chave biográfica ia ser uma aproximação à sexualidade de Pacheco, para o que convocar o registo freudiano faria sentido. E não me enganei. Por mais críticas que mereça a análise do ilustre médico de Viena - uma delas é que o mundo, tal como o concebe a psicanálise, a caminhar sobre o sexo deve ser, além do mais, particularmente doloroso - é uma abordagem que abre janelas interessantes de reflexão, descontado o voyeurismo.
Cheguei, porém, à página vinte e nove. Já tinha sido informado que Pacheco fora sodomizado aos doze anos - e informado sobre o nome do autor do acto [o que acho de interesse duvidoso] - e fora às prostitutas uma vez na adolescência. Mas na dita página, em decrescendo, adita-se que foi aos quinze anos que beijou na boca pela primeira vez uma mulher [e de novo o nome e o local do nascimento desta osculada e uma vez mais a minha dúvida quanto ao interesse da individualização]. 
Até aí, enfim. E enfim também que «não chegou a consumar a relação por causa dum pormenor que lhe repugnou, o cheiro das axilas».
Agora, o que não tem "enfim" é que António Cândido Franco, ante o facto, acrescente, em lógica analítica: «É um ponto particular que revela a educação puritana e burguesa, cheia de preconceitos higiénicos, em que se formou o primeiro Luiz Pacheco» e, adite que isso «mostra ainda que o espaço dominante nesta época era a casa, com o seu conforto, os seus preconceitos de ordem e limpeza, os seus tabus, e não a rua, muito solta, que o jovem só por excepção, e no quadro das suas deambulações liceais, terá frequentado nestes primeiros lustros».
É que bem pelo contrário e eis a irritação que vim aqui vociferar: juntar Marx, quanto aos preconceitos burgueses, e Freud, quanto aos complexos oriundos do recalcamento, isto por causa de um cheiro a sovaco que murcha qualquer apetite, é querer teorizar onde não há teoria possível, apenas mau cheiro por falta de água e sabão.
Haja pachorra! E é pena porque sigo o que posso dos trabalhos de António Cândido Franco, porque algumas das ribeiras mentais por onde esbracejo confluem nos rios onde dá braçadas.
Vou continuar a ler, a bílis recomposta. Se Pacheco fosse vivo, permito-me supor que, no seu estilo de ácido sulfúrico, tinha corroído a análise, liquefazendo-a, se é que não enxovalhava o autor da mesma com o marmeleiro da sua incerta ira. 
É talvez isso, a fúria argumentativa, que, descontando tudo, a vinhaça, o deboche e o calote, me atraíram sempre na sua obra. Isso, o altíssimo conhecimento da vida literária portuguesa, e um acto de coragem cívica em relação ao mecenas Manuel Vinhas, quando este, que deu de comer a muito "intelectual", se viu por quantos desprezado e ignorado quando se exilou no Brasil após o 25 de Abril. E, por aqui me fico, que isso sim fede como latrina e daria pano para mangas.

sábado, 17 de junho de 2017

Robert Musil: qualidades e perturbações

Tentei, por várias vezes, lançar-me na leitura do livro que em português se tem chamado, com imprecisão reconhecida O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil. Imprecisão que nasce da circunstância, admitida pelo finalmente encontrado tradutor directo do alemão, João Barrento, de ser essa palavra ambígua para designar o título original Der Mann Ohne Eigenschaften, pois que o termo na nossa língua tanto se refere a «atributos», ou «particularidades distintas do ser», digo eu, como a características positivas de algo, virtudes e valores apreciáveis.
Não consegui, porém, mas estou certo que o conseguirei, os três volumes a aguardarem-me na estante. 
A escrita é simples, não se colocam dificuldades de vocabulário que se tenham de vencer, tempos de narrativa assíncronos que reclamem atenção constante do leitor. Sucede que, de tão aparentemente fácil, a narrativa prende, cada página é um valor maior de conceitos que contêm em si mesmo noções que permitem multiplicar sentidos e propiciam reflexões e um sentimento de pertença e de aprisionamento, e o leitor seduzido pela agrilhoamento à leitura, por ela esgotado, progride cada vez mais lentamente como um comboio a aproximar-se do local do seu estacionamento. 
Por isso me decidi a optar por um outro livro seu, igualmente traduzido do alemão, também por João Barrento, editado em português antes daquele, já em 2005, há doze anos, portanto.
Gostaria de ser daqueles que estão sempre com o último instante, le dermier cri da cultura. Mas não é assim que a vida me sucede. Leio, pois, o que tantos clamariam estarem já a reler. Sem vergonha, eu.
Terminei, eis quanto quero portanto dizer, a leitura do livro As perturbações do pupilo Törless.
Pode-se dizer dessa obra o local da narrativa, porquanto tudo decorre dentro de um internato para estudantes, antigo seminário, não pode é, com palavras nossas, restituir-nos, por aproximação sequer, o conteúdo, menos ainda a importância. Seria como quem ao descrever um corpo humano supusesse ter descrito a pessoa.
Dizer que ali se contam as perversidades, vícios, e a sádica violência, liberta ante cativeiro escolar, é dizer pouco. Acrescentar que estão em presença dois mundos, o linear, cinzento, monocórdico e repetitivo universo da banalidade feita professorado e o incerto, plural, informe ainda mundo de jovens em formação, pulsões à solta, personalidades a rasgar-lhes o corpo, libertando-lhes a alma em ódio e amor, ainda é ficar aquém. Que o também austríaco Sigmund Freud, seu contemporâneo, se encontraria em tantos dos passos da forma de ver pela qual a história se exprime, teria interesse, mas leva a menos do que devia, na fertilidade das pistas interpretativas que o escrito proporciona, das quais o ter a novela conteúdo biográfico não é, sobretudo para algum voyeurismo literário contemporâneo, pela sordidez atraído, moscas, um somenos.
É que tudo se passa, convocando-se lugares narrativos tão incomuns como na matemática a incompreensível aparência dos números imaginários, na geometria o encontro no infinito de duas paralelas que se prolonguem indefinidamente, na teologia a própria noção de um Deus que não esteja em cada uma de todas as coisas, na filosofia Immanuel Kant como se fosse a impossibilidade de se pensar mais do que o já pensado.
Tenho o estranho hábito de procurar no que leio em ficção, longa que seja a exposição, o local onde está a palavra levada a título; no caso, ei-la precisamente na última página, atingida depois de várias sessões de leitura, esta noite: «ele envergonhava-se de ter passado por essas perturbações». Aqui outra ambiguidade, «perturbações» sendo no original «verwirrung» que houve quem traduzisse para este mesmo livro por «confusão», e assim sucedeu com a obra de outro austríaco - e como são tantos e magníficos todos - Stefan Zweig, em língua portuguesa Confusão de Sentimentos, na língua original Verwirrung der Gefühle.
Poderia deixar aqui excertos, tantos são, sublinhados para quem como eu lê com um lápis, sublinhando o que merece ser recordado, a frase, o parágrafo, a página inteira, em traços horizontais e verticais de perícia incerta.
Ao colocar o livro no lugar do seu repouso, vagueei quanto a poder organizar uma biblioteca com um único critério: lado a lado os livros já lidos, a distinguirem-se, indistintos e variados fossem dos que ainda faltaria ler, precisamente o sentido da vida, o já vivido ao lado do que falta viver com a diferença: naquela ao contrário do que seria na minha insólita biblioteca, o valor do tempo sobejante é progressivamente menor, tal como Musil assim viu, ao colocar a perplexidade das divisões que progredindo indefinidamente, deixam sempre resto, como se o zero fosse inatingível, a total ausência um paradoxo, afinal, da existência.

domingo, 23 de abril de 2017

Almada, o africano


Levei-o esta manhã porque está aqui perto, na Gulbenkian do seu Despertar, a exposição sobre o José de Almada Negreiros, a qual eu ainda acabo por perder ao ser um impaciente de personalidade incompatível com filas e multidões e, a somar, com o que surge - ainda que excepcional em qualidade - com o rótulo elitista de evento "imperdível" colado ao facto pelos polícias do bom-gosto.
Não fui mas irei à exposição e até comprei já o catálogo e, como contra-peso, dois lápis alusivos, aliás de má grafite, coisa que me arrasa os nervos, embirrento que sou com essas pequenas coisas que se me tornam enormes em efeito, sobretudo quando a escrita dá em invisível no papel, cinzenta em vez de negra.
Mas, como dizia, levei o livro comigo e estive a lê-lo, aos excertos, os capítulos sem ordem, os mais imediatos sobre o filho José primeiro, porque o livro trata do pai, e do seu outro filho António que se tornou militar e depois entrou no comércio da emigração, e por isso terminou rico porque assim casado.
Não posso dizer que não gostei de uma obra que me levou a uma São Tomé dos finais do século XIX e, assim, às reminiscências da minha origem, pois meu pai por ali deambulou umas dezenas de anos depois. Nomes como a "Roça Saudade", onde «o menino com olhos de gigante» nasceu a 7 de Abril de 1893, antes de ser «transplantado para Lisboa» dois anos depois, ficando órfão de mãe um anos depois disso, fazem eco. 
Ela tenta convencer, citando um verso comovido e beato, que o pai «Almada Negreiros amava o filho»; mas não deixa de ser sintomático que, como o autor reconhece, José de Almada nem uma só vez se lembrou, na sua obra, dos nomes dos seus pais - António Lobo e Elvira Freire Sobral. Todavia não esqueceu o seu irmão António ao qual dedicou, expressamente, o mais significativos dos seus poemas - Histoire du Portugal par Coeur - quando ele, militar, se encontrava no Mosteiro da Batalha, em 1920».
Educado, como durante algum tempo seu irmão, no Colégio de Campolide, da Companhia de Jesus, dali não saía, nem de férias. Dizem que a reclusão o ensinou a desenhar. «Pintar é falar consigo mesmo para que alguém nos entenda: monólogo do pintor», escreveria.
Um ponto final: escrita em 1975, em pleno fulgor revolucionário, a obra hoje lida tem disso pegadas. Assim, a propósito de um longo poema que o pai Almada escreveu - prudentemente sob o pseudónimo de João Alegre - intitulado Senhor, Pão!, em que, a pretexto do centenário da Índia, fazia um diatribe contra a política colonial e sobretudo contra os que das colónias se aproveitavam, o autor intitula o capítulo respectivo como «Do administrador colonialista ao democrata antifascista». Ora "fascismo" em 1897 é obra!
Mas, enfim, já no preâmbulo ao livro consta [página 14] que «Almada [agora o filho] recusou-se sempre a alinhar com o fascismo e o colonialismo».
África, isso é interessante, é, aliás, uma ausência na sua obra. O livro tenta mostrar o contrário. A dialética talvez ajude.

sábado, 10 de dezembro de 2016

A conversão dos pretos...


O folheto intitulava-se Missões de Angola e Congo. O exemplar que encontrei já era o n.º 5 do ano XXI, 1941. Tinha redacção no Porto na Rua Nova do Regado, 250. Era seu Director e Editor o Padre José Maria Figueiredo. Encontrei-o hoje também no meu passeio entre alfarrábios.
Neste número abria com carta de D. Moysés Alves de Pinho. Mas o interessante achei-o já quase a findar o breve e agora amarelecido fólio, uma outra carta do referido cura dirigida aos seus leitores a propósito da Associação de Nossa Senhora de África, para a «conversão dos pretos» e da actividades dos seus «zeladores». Noticiava-se a inscrição do menino Manuel Simões Delfino, de Faro; e mais se relatava a infrene acção da menina Maria Manuela Branco Rezende, que mau grado a sua jovem idade de 12 anos, criara um centro onde congregara 27 associados e levara uma outra companheira, a menina Maria Emília Amorim Mendes da Silva Matos, a abrir centro também, mas em Vila Nova de Gaia. 

Curioso, a propósito, o queixume que, sob o título «Miséria Dourada», o Boletim exarava na página dedicada ao Noticiário das Missões: «(...) o número de sacerdotes em todo o território português de África (Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné) é de 274». Por contraste, segundo a mesma notícia, só a Arquidiocese de Braga contava com...872 (620 párocos) seculares, sem contar com os religiosos que ali trabalham». Elucidativo.

Nada dizendo ou não comparecendo, diz sim!


Encontrei-o esta manhã, entre facturas, bilhetes, cartas íntimas e comerciais, num alfarrabista de rua. Tinha ouvido falar nele, lera, com dezassete anos, caloiro na Faculdade de Direito, livros que a ele se referiam: o boletim pelo qual votou a Constituição de 1933. E agora ali estava, amarrotado, entre minudências.
Sujeita a sufrágio no dia 19 de Março de 1933, um Domingo, a Constituição de 1933, foi, seguindo o Decreto n.º 22229, de 21 de Fevereiro [o texto está aqui], plebiscitada através de uma fórmula curiosa:


O projecto submetido à votação pode ser encontrado aqui
Contados os votos foram apurados os seguintes resultados: O texto constitucional obteve 719 364 votos a favor, 5995 contra e 487 364 abstenções. 
Para se votar contra não era necessário escrever: não. Imagine-se no momento da votação alguém ter de pegar numa caneta e escrever: «não»! A intimidação que este sistema, imposto pelo § único do artigo 22º do Decreto acima citado, conseguia era bastante para adulterar os resultados. 




segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Dr. Fischer e Franz Schubert

Foi neste blog, no dia 13 de Julho de 2005 que comecei a escrever sobre livros, os que lia, os que gostaria de ler. Depois criei um outro espaço que é parte do meu nome, pois chama-se António Rebelo da Silva e está aqui e um outro, intitulado A Fantástica Livraria, que se encontra aqui, dedicado ao que encontro pelos alfarrabistas. Tudo sem regularidade, sem ordem, à mercê das circunstâncias. E tantas foram.
Neste em que hoje volto a escrever, tirando-do do mutismo em que se encontra desde 2011, não havia imagens sem haverá. Apenas letras, aquelas que são as que vejo nos livros que acumulo na ânsia de os concluir ou ao menos iniciar, letras que aprendi a juntar na escola primária, começando antes dela pela Cartilha Maternal de João de Deus. 
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Volto pois, com um livro que comecei a ler numa viagem de avião, precisamente a Genève, onde está inumado, por ali ter vivido os momentos finais da sua vida,  Jorge Luis Borges, leitura que terminei há semanas e guardei porque queria deixar em qualquer lugar uma nota de leitura. 
De tudo quanto escreveu Graham Greene, Dr. Fischer of Geneva or the Bomb Party é talvez das suas obras menos citadas, talvez por ter sido escrito numa lógica de ressentimento ditada por razões pessoais, expressão de desprezo e rancor em que só a generosidade de um dos seus biógrafos e amigo, o Padre Leopoldo Durán encontrou algo de tão insólito quanto semelhança com os Moments Musicaux de Franz Schubert [que se podem ouvir aqui numa interpretação de Alfred Brendel]. E por ser, é o que penso, uma obra com menos valia literária.
Não interessa a história da personagem que nos surge como tradutor de línguas latinas - duas das cartas que traduz são aliás em português - a quem o blitz da Luftwaffe - que o autor tão bem conheceu - amputou, na fatídica noite de Dezembro de 1940, a mão esquerda, ou o seu enamoramento e vida conjugal com a filha do dono da fábrica de chocolates e seu patrão, Dr. Fischer. 
Importa já a medida em que as festas destas, parties pomposos, faustosos, eram pretextos mais do que para a corrupção pelo que a cada convidado calhava a final como obséquio, mas sobretudo para o rebaixamento dos que assim eram obsequiados e de quem Dr. Fischer, o vil anfitrião, poderia, enfim, gozar o sórdido prazer da dominação. 
E talvez importe aquilo em que muitos dos que leram a obra se concentraram - a festa final, roleta russa em que - pobre artifício literário para a grandeza do escritor - as oferendas estavam escondidas em invólucros que supostamente continham uma bomba pelo que, a ganância era, enfim, jogar no precipício do risco a própria vida.
Abundam nesta novela resquícios das obsessões do autor de The End of the Affair, a angústia religiosa, a pulsão sexual, o problema dual do mal e do bem. E a questão da felicidade, que é para si como uma das remotas ilhas do Pacífico, que nenhum cartógrafo anotou e submergem sem que delas fique vestígio e nenhum marinheiro que as haja avistado está seguro de não ter assim acontecido apenas na sua imaginação.

terça-feira, 28 de junho de 2016

António Alçada Baptista: a cor dos dias


Editou e foi editado. Graças a ele tantos escritores puderam sê-lo. Hoje quase o esquecemos. Militou pela sua fé religiosa. Fez da ficção forma de viver a vida. Com a finura do bom-humor, mãe da educação. Nasceu em 1927.


Também ele advogado, envolveu-se de tal modo na escrita que procurou, generosamente, não fosse a sua mas a de outros que tivesse voz. Criou para tanto uma editora, a Moraes, a quem tantos autores devem ter leitores, sobretudo os do “Círculo de Poesia”, deserdados que chegaram ao público através daquela colecção, produzida em “arte povera”, num papel que normalmente se diria afecto, no comércio, ao embrulho de víveres baratos, mas belíssimos no efeito estético e no símbolo que traduziam.
Gastou nisso quanto tinha e, já ultrapassado o limite da prudência, o que não tinha, comprometendo junto da banca, para obter crédito, o seu aval pessoal. Endividado, sem meios já para solver compromissos, teve de encerrar a editora. Numa das suas crónicas relata o pesaroso de uma senhora que quase o admoestava por ter fechado portas àquele seu projecto editorial e a quem teria retorquido, na forma de uma pergunta, sobre se a recalcitrante interlocutora tinha, vez alguma que possa, comprado qualquer livro na agora extinta Moraes. A resposta foi a que se adivinha, um nunca comprei, de facto. E assim se compreendia o porquê de não ter possível aguentar mais.
O seu envolvimento com a edição não se limitou aos livros. Graças ao seu esforço e aos meios que entusiasticamente mobilizou para tal propósito, ganharam luz do dia revistas como “O Tempo e o Modo” e a “Concilium”. Através delas, um pensamento crítico, socialmente empenhado, espiritualmente angustiado, encontrou expressão, numa cruzada de proselitismo religioso através do humanismo cristão. Resumindo o que foi esse caminho entre as pedras, João Bénard da Costa daria título a um pequeno opúsculo a que chamou “Nós, os vencidos do catolicismo”: viveram, de facto, entre uma Igreja oficial, apostólica romana e uma esquerda jacobina, irreligiosa quando não ateia, seguindo no domínio filosófico o personalismo cristão de um Jenn-Marie Domenach e de Emmanuel Mounier, as pegadas, afinal dos que eram o corpo redactorial da revista francesa “Esprit”. O Concílio Vaticano II era o seu guia, o pequeno espaço no Largo do Picadeiro, mesmo ao lado da famigerada PIDE, a sua tertúlia de moderada oposição.
Em 1968 Francisco da Conceição Espadinha, da Editorial Presença, abria-lhe as portas para os primeiros passos no domínio da ficção e da crónica ficcionada.
E é aqui que se situa o livro que escolhi para esta semana.
Curiosamente na vertente deste tipo de escrita Alçada Baptista tem um estilo bem diverso daquele que caracterizou outras obras suas, como as “Conversas com Marcelo Caetano” – que lhe valeu não pouca incompreensão da parte de uma certa esquerda política - ou a “Peregrinação Interior” onde lança as suas reflexões existenciais em torno do problema da transcendência e do sentido da vida. Aluno dos jesuítas, estudante em São Fiel, essa origem haveria de marcar-lhe todo o percurso, mesmo quando temperado com a jovialidade do seu modo social de ser.
No caso deste são crónicas, escorreitas, risonhas, que se lê com gosto e são impossíveis de resumir. Narrativas de memórias, próprias e alheias, coisas de ter ouvido dizer, apontamentos, tudo solto, mas em cada uma com um ponto discreto a deixar caminho para uma, como a “moral da história”, dos antigos contos infantis.
Classificando os escritores como os de memória e os de imaginação, colocava nestes os que não tinham vivido a vida e, por isso, se entroncava o entre os segundos. Viveu-a, e como confessou a Miguel Sousa Tavares, sem ter inimigos, «porque ter inimigos dá muito trabalho”, surpreendido com a “preguiça ostensiva” de uma África para si tão sedutora, terra onde não achou colonizadores sim emigrantes. E escreveu bem sabendo que «a literatura que me interessa está na área do prazer, não do saber e de maneira nenhuma do dever»; e sobretudo, não tendo pudor em partilhar uma conversa que manteve com um seu privilegiado leitor que, gostando muito dos seus livros, lhe introduziu ressalva ao gosto: «gosto, porém, o senhor escreve-os do lado dos ricos e eu leio-os do lado dos pobres».
Só um homem honrado o diz publicamente e é essa honradez que marcou o seu legado. Isso e dedicação aos outros. Num mundo de egoísmo galopante é exemplo e moral, antes de ser literatura.

sábado, 28 de maio de 2016

O Natal do Clandestino


Um pequeno opúsculo. Trouxe-o comigo e sobre ele escrevo nesta viagem em comboio. Hoje sexta-feira fecha-se no jornal a edição. Li-o há muitos anos. História de emigrante pobre, afinal a de tantos portugueses com que Portugal enriqueceu mundo.


O número de advogados que, saturados da profissão, procurou exílio na Literatura é imenso; aqueles que a exerceram com empenho e entusiasmo lançaram nos seus livros muita dessa vivência humana que lhes foi dada experimentar, tal como aqueles que foram médicos e conheceram do ser humano as chagas do corpo, os advogados partilharam as dores da alma.

José Rodrigues Miguéis teve breve experiência como advogado no seu modesto escritório na Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa, mas a suficiente para ter compreendido que aquele não era o seu mundo, ademais enredado em pequenos casos de litígios comerciais, enfadonhos e rotineiros, uma secura do seu espírito vocacionado para outros horizontes. E para outras paragens, pois cedo sentiu o apelo da emigração até porque, republicano e democrata, incompatibilizado com o regime político que nos era dado viver em Portugal nesses tempos de ditadura política e de asfixia da liberdade de expressão.

Exilou-se, pois, nos Estados Unidos da América, onde seguiria uma rica experiência de escritor e de professor. Escrita essa hoje tão esquecida, mas cuja natureza poliédrica e sentida merecia bem melhor sorte.

Trago hoje o que imagino ser uma raridade, pequeno conto de sua autoria, publicado em 1957 pela editora Estúdios Cor, sob cuja chancela tantos dos seus livros saíram, e onde José Saramago iniciaria, dois anos depois, a sua vida literária como funcionário, antes de se lançar ele próprio na escrita que lhe traria, já no final da vida, o Prémio Nobel da Literatura.

O livrinho traduz a experiência americana de Miguéis, que se radicara nos States desde 1935. E evidencia-a na pele de um emigrante pobre cuja viagem para o Novo Mundo é surpreendida por uma das épocas do ano mais nostálgicas para quem está triste e longe de casa, o Natal.

Enriquecido com desenhos de Bernardo Marques, O Natal do Clandestino traz na capa, como se efígie fosse, a imagem do pobre recém-chegado das suas berças, o saco dos poucos haveres enrodilhado na mão e, sobre ele agigantada, a longa mão da autoridade, na forma de um polícia americano, farda imponente e capa sobre os ombros, a simbolizar a chuva, a intempérie, o desconforto.

«Em nós o homem mata o escritor», dissera o autor numa frase que Nataniel Costa lembra num breve prefácio. Nataniel, director literário da editora, que convidaria Saramago para o seu lugar para se dedicar à actividade diplomática. A inversa não é, porém, verdadeira e a escrita de Miguéis mostra-o bem, ao abarcar na paisagem social e dimensão existencial do ser humano, as suas esperanças e desesperos, as ilusões e os fracassos.

E assim surpreende a chegada a Baltimore de um velho navio, gasto e ferrugento, «uma dessas ruínas obscuras que singram vagarosamente os mares do mundo», velho cargueiro «esgalgado», e a bordo dele «um passageiro de que não rezavam os livros de navegação, um só, que não pagara a passagem, entregue aos cuidados cúmplices de um ou dois marinheiros».

Assim fugiam em busca do pão, clandestinos, tantos portugueses, como outros a “salto” pela linha raiana, que não há fronteiras que tolham quando se busca o pão que mata a fome, própria e a dos seus.

Narrativa sobre a marginalidade, sobre os homens que viviam à margem da lei, pobres socorridos por pobres, a própria tripulação do navio andrajosa, escravizada ao porão enegrecido do lugre, território onde «a solidariedade é outra lei sagrada entre os homens que vivem à margem da vida», há nela o contraste, tão típico naquela literatura de intervenção social entre quantos tudo têm e aqueles outros para quem, «homens que rastejam à superfície do globo e da vida, não há outro refúgio se não esse, ou uma cama de aluguer ou uns braços de empréstimo».

História de quem chega ao seu destino escondido na vileza clandestina, mal armado sequer de manhas que lhe permitam enfrentar a autoridade, a lei, privados de tudo, do dinheiro à documentação, incapazes até de falar um rude inglês, defendidos pelo estribilho «não ispique inglishe», eles são, força bruta e animal de carga, um e mais um que chegam, a afeitarem-se, serviçais, a qualquer trabalho que traga sustento e amealhar porque bocas famintas deles esperam que regressem um dia e antes deles as suas remessas de dinheiro e logo que possível umas mal amanhadas linhas que «nós por cá todos bem».

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Texto publicado na coluna Ler em Português no jornal Mundo Português, um semanário dedicado à emigração.

sábado, 23 de abril de 2016

Fernando Namora: retalhos de um povo


Muitos médicos dão em escritores. O drama humano é o seu quotidiano, ou pode sê-lo se à profissão juntarem sensibilidade de alma para os que sofrem e para a vida de onde provêm. No caso de Fernando Namora a isso somou ter iniciado carreira pelo interior do País. A sua escrita traduz crises de existência, as contradições de classe que soube exprimir com sinceridade.


Ao reler Fernando Namora com os olhos de quem sabe, pela aura que em torno de si se criou, espera-se ver literatura crítica para com os poderosos, condoída pelos humildes. E terá alcançado essa posição em algumas das suas obras, não propriamente nesta, que escolhi como tema de crónica.

Lidos com os olhos actualizados, comparados com quanto foi escrito por muitos seus camaradas das letras, estes contos, editados em 1949, são manifestação integral de um homem que ainda não encontrou equilíbrio entre a vida coimbrã de onde proveio, misto de boémia e Arte, e as asperezas do mundo, sovado e iletrado, para o qual se lançou no exercício da sua clínica.

Oriundo de uma família de modestos recursos, natural da aldeia de Monsanto, Fernando Gonçalves Namora soube trazer para a Literatura, porque o reconhecia como seu, tal como Vergílio Ferreira, o vocabulário rural que faz com que, os mais snobes considerem esta escrita como “regionalista” e assim a tentem apoucar, como tentaram com gigantes como Camilo ou Aquilino Ribeiro.

Mas não é isso que importa, nem isso que o ultrapassa mesmo num mundo de hoje em que há cada vez mais que fale com menos palavras do dicionário. O interessante é a crueza, crueldade mesmo da sua verdade.

O médico que ele ali relata, que um leitor segue como sendo o próprio autor que pela ficção escrevesse a sua autobiografia, é um ser que assume amiúde facetas detestáveis. É o domínio do mando, o médico que «se sentia feliz por dispor dos receios ou das lamúrias dos camponeses», o dono da vida e dono da morte.

Autoridade e soberba, diga-se, que sabe quanto isso concita de desprezo, logo o do funcionário de justiça, por exemplo, para quem «nós médicos éramos uns porcalhões, uns tipos endurecidos. Gostávamos de remexer em imundícies», mas desprezo afinal também o dos que a sua prática médica não convencia, antes de não curar. 

Mundo cão, mesmo o seu, profissional, é caldeirão de rancores, vilezas, intrigas, embora o que haja ao longo da narrativa, e dite estes sentimentos negativos, seja o pulsar errante de um jovem médico, inseguro ante a doença, presa fácil do meio hostil e que dá de si a pior face: «O médico – escreve – é, na aldeia, um ornamento público, como a igreja, o padre, o bosque de madeiras afamadas», pois «os camponeses vinham ao consultório para admirar a face imberbe do novo médico ou para concretizar desconfianças».

Reciprocando, a personagem dos Retalhos não se coíbe de dar voz, e uma vez mais supomos ser o autor que fala através dele, a um desprezo pelos naturais onde exerce a sua medicina. É o alentejano para quem «o homem do Norte é (…) o galego» porque «quando arribam os ranchos do Norte, já raros, chegam como inimigos», os alentejanos que «dão nabos às vacas, enjoam a hortaliça. Não têm flores, não têm nada de mimoso»; é o pai, de mulher a esvair-se na agonia de um cancro, enxotar os filhos «com a voz e com os pés, como se enxotasse cães»; as mulheres «glutonas da vida alheia», os camponeses «esses labregos atemorizados» ante os quais ele se sentia «feiticeiro medieval», o homem «bexigoso e amulatado», a «ladroeira dos ciganos», que «eram tão nojentos que causavam ânsias».

Não é fácil assim ler Fernando Namora. Primeiro, porque os seus livros caíram no esquecimento, mesmo este que deu um filme de Jorge Brum do Canto, depois porque, quem puder achar um, duvido que não se sinta com este modo, verdadeiro é certo, de viver a vida com todos os demais.

Trata-se, porém, importa sublinhar, de um grande escritor. Momentos há em que a forma de dizer o mostra em alto nível. Quem, de entre tanto vulgar hoje com livro impresso e fama fácil, escreveria: «O vento gania de saudade de outros lugares, molhava-se de chuva e tristeza, e tudo isso, prisão e desespero, escorria também da minha face».

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Texto publicado na coluna Ler em Português no jornal Mundo Português, um semanário dedicado à emigração.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Fernando Assis Pacheco: Trabalhos e Paixões


Chegaram a Portugal pobres, os galegos. Aceitavam os trabalhos mais modestos, mais duros. Mas o seu espírito empreendedor porfiou. Hoje, muitos lugares na restauração, no comércio, na indústria até, têm a sua marca. Fernando Assis Pacheco, jornalista, soube dar-lhes voz, por ser um de entre eles.

O livro lê-se com um sorriso, embora nem tudo nele seja alegre; sucede que a pena do autor consegue captar no ar a alma daquele povo, resistente, carinhoso nos sentimentos e no vocabulário, em que avultam os diminutivos, gente que em tanto se identifica connosco, os portugueses.
O subtítulo da obra dá o mote àquilo de que nele se trata: Benito Prada é o «galego da Província de Ourense, que veio a Portugal ganhar a vida».
Do que li, há muitos anos, ficou-me na memória a frase com que inicia: «Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa em San Bartolomé». Cortada a cabeça do corpo, o Padeiro «chamuscou-o bem chamuscado», pelas duas da manhã «untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado». 
Este arranque, trágico, violento, cómico na sua rudeza primitiva, marca o tom da escrita. E logo o remate, que estoira com um foguete de lágrimas e risos: «”Caramba”, disse o irmão do meio, que admirava todas as invenções do mais velho, “é à segoviana!”».
Escrita por quem foi jornalista, do extinto semanário “O Jornal”, a obra é um pequenino prodígio quanto ao modo de dizer, de observações acutilantes. É o Grego «que nascera para vender a pele do diabo se lhe dessem percentagem conveniente», é a filha do Manca perante a qual «Benito começou a fazer-se distraído das mãos, a tocar-lhe num ombro, depois num braço, quando a estreitou pela cintura com a desculpa de ver como ficava um saiote de lã (…)», o próprio animal de nome bíblico, «Noé, o mulo (…) um perpétuo sobressalto» e ele, Benito, «em menos de um fósforo estava (…) a tirar a minga dos calções e a mijar bem mijada a palha do almoço de Noé, que se encanitou com o ultraje desenhando um coice», enfim, tantas frases em que o leitor se detém para melhor as saborear.
Dir-se-á que o livro, como todos os romances e novelas tem uma história. Mas que importa ela quando é mais o modo de a contar que interessa? É essa a diferença entre a grande e a mínima Literatura. Hoje, como afinal, sempre, desde que pelo século dezanove a figura do romance ganhou vida, existem livros espessos em que o escritor vai pura e simplesmente contando, cenas, lugares, vidas e lembranças, amiúde com pormenor cinematográfico, fazendo o leitor ver através das letras o que passou a observar melhor quando surgiu o animatógrafo que deu em cinema: são estendais feitos para entreter, em que um sala é inventariada quase que de bibelot em bibelot, os amores infelizes relatados, começando-se pelo tempo em que aos amantes lhes nasceram os avós.
Nada disso aqui. As figuras são reais, mesmo na sua brutalidade, e o picante da sua linguagem picaresca é porque o leitor é transportado para o pequeno mundo onde tudo isso é possível. Que melhor exemplo que o padre Oyarbide que, virando-se para Filemón Prada, pai de Benito, que achava o ritual da igreja uma maçada, o admoesta, primeiro, com um «mas é assim, meu filho, e quem somos nós para mudar uma coisa que vem dos alçapões do tempo?» mas logo a seguir, piedoso e tolerante o absolve: «E também te desculpo a má criação de faltares à missa, porque mais vale não te ver enfastiado e a coçar as partes quando celebro Deus».
Voltarei e este autor assim como voltarei àqueles sobre os quais escrevi as duas crónicas anteriores, Vergílio Ferreira e Fernando Namora: é que decidi-me falar aqui de livros e cada um deles escreveu muitos livros. Dir-me-ão que são livros difíceis de encontrar e sei que é verdade. Mas eis o meu propósito: tornar a leitura procura, como quem sai pela manhã por entre matos e planuras em busca de perdizes, longa sendo a caminhada.

Fernando Santiago Mendes Assis Pacheco, que se definia como «portugalego», morreu em 1995. Neto materno de Santiago Doallo Álvarez, galego da aldeia de Melias, Ourense. Tanta falta faz.

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Esta é uma das crónicas que tenho vindo a publicar no semanário "Mundo Português", cujos leitores são essencialmente os portugueses emigrados. Porque ao contrário do que tantos pensam merecem melhor do que serem tidos por incultos e tratados com o desdém de quem, por ter ficado aqui, se julga mais.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

António Macedo: a Academia de ontem e de sempre


A razão pela qual compro tantos livros, mesmo os que sei não irei ler tão cedo e talvez não venha a ler nunca, é porque o tempo de sobrevivência neles nas livrarias é diminuto, como borboletas cuja vida se perde em dias; e dos antigos é raridade achá-los por vezes nem em alfarrabistas, e nem sempre é possível ir lê-los a bibliotecas pública quanto fazem falta ou quando nos apetece.
Veio isto a propósito de edição de autor, da conferência proferida, a 16 de Maio de 1945, no Salão da Faculdade de Letras de Coimbra, a convite da Associação Académica, de que viria a ser o primeiro presidente eleito da mesma  Francisco Salgado Zenha que, em apêndice ao opúsculo, publica «uma carta» de enaltecimento do discurso escutado. De facto, à data a Associação Académica encontrava-se há nove anos sujeita a uma Comissão Administrativa nomeada pelo Governo.
Leu-a António Macedo, um advogado que já havia editado na Biblioteca Fenianos no mesmo ano uma monografia sobre Direitos da Criança, e que viria a ser após 1974 destacado dirigente dos primórdios do Partido Socialista Português, dedicaria o exemplar que me coube encontrar ao «Dr. Constantino Fernandes», outro Colega de profissão, que entre 1957 e 1962 presidiu ao Conselho Distrital da Ordem dos Advogados, traria naquela sua alocução uma palavra de «confiança» ao seu jovem auditório, e de «coragem», culminando a sua intervenção citando António Sérgio: «Abramos as janelas que os nossos avós sistematicamente cerraram».
Zenha, no seu estilo já então ironicamente ácido, deter-se-ia sobre o anacronimso do ensino então ministrado, as injustiças que dele decorriam, não deixando de citar, com acinte, um trecho da Reforma Judiciária de 1944, que, a propósito do ensino do Direito o considerou «bagagem de conhecimentos, simples erudição mais ou menos livresca, sem verdadeira compreensão do que se diz».
Livro diminuto nas suas sessenta e quatro páginas é testemunho de um tempo de luta e de pálida expectativa que o fim da guerra parecia proporcionar.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Vergílio Ferreira: inumado para as efemérides


Coitado do Vergílio Ferreira, agora à mercê de se comemorar o centenário e ser, enfim, retirado do covil do esquecimento dos leitores, exumado para a procissão da efeméride - que é a forma necrófila de o mercado tentar relembrar - ele que nos trazia aquela escrita angustiada que passou de moda, malquista num mundo que só quer heróis trágicos enquanto patéticos e obscenos; mais: ele que, ao romper com o neo-realismo, tornando-os ódio de estimação, como ressalta da sua Conta-Corrente, mais a fuzilaria da polémica com o Pinheiro Torres, ficou isolado porque sem outra barricada outra salvo a dos poucos amigos e ex-alunos. E resistentes leitores.
Vejo-o, hoje Domingo, capa do JL, tocando violino, coisa que poucos sabiam ele fazia, assim Einstein e também Sherlock Holmes, o perfil esfíngico.
E encontrei-o ontem na Rua de Anchieta, em alfarrabista de rua, na edição facsimilada do Vagão J, o romance que a Bertrand ainda reeditou antes de o abandonar, a obra que ainda lhe garante lugar cativo no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, até que com Mudança [como escrevi aqui] moveu-se para a consciência literária de que o Homem não é apenas a luta pelo pão, nem a Literatura manifesto.
Escrevera já sob o livro [aqui]. Hoje publico o que sobre ele pensava um capitão que trabalhava nos Serviços de Censura, em 1947.
Fui ali à estante, onde estão quase todos e quase todos lidos, de lápis na mão, que é a forma de ler linha a linha, palavra a palavra. E leio no seu prefácio à segunda edição: «um livro é o registo do nosso diálogo com o mundo, ele não pode emendar-se como a juventude que errámos».

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

As mãos sumidas


Quando volto aqui e vejo o fosso temporal que se abriu desde o último escrito, humilha-me notar em que selvagem me tornei, interrompidas leituras, livros deixado a meios, mantida a obsessão de os comprar, amarrado à promessa de os ler, moído pela agrura de não ter sido capaz. E tudo isto com a inexorável ampulheta do tempo a escoar-se e a consciência, que nem tudo tranquiliza, de que a vida não são apenas livros. E a nora dos deveres da profissão, à qual burro me amarro, cego a tudo o mais, para que tantos outros tenham o seu pão e eu com eles.
Ontem fui buscá-lo, e aguardava que eu me voltasse a interessar por ele com o mesmo cuidado carinhoso com que o trouxe há meses do Porto, seduzido pela beleza da obra gráfica, atraído pelos esparsos que fui folheando.
São crónicas suas publicadas pelo Jornal da Régua. o lastro humano do sentimento surgido da profissão de médico - essa que traz o grave problema existencial da vida e a inevitável questão da sua precariedade, mais as maleitas do humano e as epidemias da sociedade - que João de Araújo Correia exerceu com devoção.
Trazido à estampa pelo amoroso cuidado de Cruz Santos, pela sua Modo de Ler, que torna cada obra um mimo de beleza e Arte. E resiste e como eu sei o que é resistir como editor, custeando o preço de o ser.
Quando são livros assim, que me parecem despegados como se de folhas soltas fossem, escritos no caso ante a força da "hora de fecho" do periódico que os recebeu - e que dor essa agonia da hora de "entrar na máquina" a prosa ainda a compor-se - dei comigo a ler, em caranguejo, de trás para a frente, em arrecuas discursivos. e a rir baixinho pois era noite, porque é isso que falta a muita da Literatura Contemporânea, a começar pelo que tenho escrito, ausente dela a ironia, confiado o cómico que está aos neopalhaços do circo mediático, boçais até ao rasca, brejeiros para o aplauso e muitos encartados de doutores e que o tornam burlesco e aos jorros de vomitado reles.
E por ali estive, a ler com um lápis na mão, até que me chegou o sono, a terminar o serão com o António Pereira - de alcunha o «sagüi» pelo seu formato simiesco - arisco por fêmea - que «se a menina me desse cúnfia» - mas ela «olhos e ouvidos pasciam-se por longe» - , vindimador «filhote do sítio», calaceiro e manhoso, o capataz a prometer-lhe «quatro ladreiradas nesse costado» e ele, em ânsias de amor a dar-lhe para poeta que «a menina é alta como um castelo onde eu quisera estar preso», mas, triste, daquela tristeza do inconseguido, a morrer solteiro, «solteiro como nascera», ah! mas que «parecia bem no caixão», porque, ungulado de unhas defeituosas como cascos, mãos incapazes de carícia em corpo feminil, «uma senhora teve o cuidado de lhe esconder as unhas nas dobras dum túnica de linho». E assim entrou no mundo dos simples, «ele que nunca se atrevera com vizinha nova ou velha» mas que, suspirante e gemendo, «soltava líricos relinchos ao pé da serraninha».
Adormeci, a tempo de fechar a página e marcar o local, sem dobrar da folha o canto porque seria pecado. E uma sensação de paz confiou-me ao sono.

terça-feira, 21 de abril de 2015

José Bação Leal: um legado de sangue


Tive-o. E ficou por uma dessas casas por onde uma pessoa vive e deixa ficar. Talvez tenha sido o morno pudor de não pedir a restituição ou a certeza fria de que já não o encontraria. Mas procurei-o anos a fio. Há uns meses, o acaso quase me tornou o reencontro em realidade. Mas estava reservado para alguém que se antecipou no mesmo preciso dia.
Desta vez foi uma conversa com o José da Cruz Santos, da Modo de Ler. Foi buscá-lo à estante. O Urbano Tavares Rodrigues falara-lhe nele. E prefaciara a obra.
A guerra matou-o, em África, a José Bação Leal. Sua Mãe guardara, como ao menino em seu regaço, «rascunhos que ele deitava fora», versos. A eles o livro soma cartas, breves garatujas, densos sentimentos tornados pensar.
Tudo começa no Alentejo, em Mourão, desaguando em dor na dorida África colonial.
A 7 de Junho de 1965 foi transferido para Vila Cabral, em Moçambique. Escreveu então: «aqui as acácias ainda não floriram. Sangram (por agora) desordenadamente no olhar humano da negra gente. Gosto das acácias de Dezembro, deste verão póstumo a rolar na montanha».
O livro comove, são lágrimas tornadas escrita, versos, cartas, apontamentos. 
«Os únicos católicos Bons que encontrei seriam igualmente Bons, mesmo sem Deus», confiara ao seu amigo César, no dia antecedente, escrevendo do Alto Molucué, «poeticamente exausto, verticalmente só» se declarara em Mafra no ano de 1963.
«Um legado de sangue», assim chamou ao livro o seu íntimo prefaciador. «Sucedem coisas curiosas», escrevera José Crisóstomo em verso magoado: «ontem imaginei poder beber/um calmo desespero por uma incerteza/um suave adorno das rosas negras/que são o sangue do meu sofrer//Não consegui porém e bebi tristeza/uma tristeza feita de angústia serena/quase reconfortante mas sem paladar».