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domingo, 8 de novembro de 2009

Bater-se pela cultura!



Não resisto a contar-vos aquela história exemplar que o Mário Dionísio deixa na sua autobiografia que ontem li. Corria o ano de 1943. Como forma de divulgação da cultura mas, claro, também de agitação política, um grupo de «amigos», entre os quais Sidónio Muralha, Fancine Benoît, Alexandre Cabral e o próprio Dionísio organizam militantemente na que hoje se chama a Casa do Alentejo, então denominada Grémio Alentejano, uma série de conferências. A primeira delas, proferida pelo matemático e figura de referência da oposição ao regime, Bento de Jesus Caraça, correria sem problemas de maior. Casa cheia, os eventos prometiam sucesso para os fins políticos em vista.
Já quando da segunda, tudo evidenciava que ia haver sarilho, na sala apinhada a mostrarem-se aqui e além os infiltrados provocadores, ali colocados para gerarem o boicote.
No momento em que o conferencista, o maestro Fernando Lopes Graça, a meio da sua prelecção, colocava um disco para ilustrar uma qualquer particularidade da música medieval, salta da boca de um deles em surdina um dichote achincalhante e apto à confusão que, num ápice, se generalizaria: «vira o disco e toca o mesmo!».
O efeito foi um rastilho. Apanhada de surpresa a sala reagiu, em exaltado tumulto. Segundos depois a pancadaria generalizava-se. «Cães à solta», lhes chama Dionísio, os «mercenários», agora em plena acção, «excitavam-se a si próprios». Aqui um berro vindo do seu magote «Quem é que disse morra a Pátria?» e de além, do mesmo grupo a resposta orquestrada: «Viva a Pátria! Viva Salazar!» e logo a pronta retaliação verbal e física porque bater, por vezes, em caso de aperto, chega a ser uma excelente resposta.
Sucede que o Alexandre Cabral, que trabalharia na Carris, havia trazido um grupo de operários, daquela empresa, enrijecidos pelo trabalho braçal e, como se adivinha, no meio daquela refrega, ei-los em acção, com grossa artilharia dos seus afoitos punhos, a abrir clareiras entre a mole dos atrevidos esbirros.
No meio, e eis o momento do riso, Bento de Jesus Caraça, a sua figura imponente, contemplando a batalha campal que se instalara, maravilhava-se como é que ainda havia gente disposta a «bater-se pela cultura».
Bater-se no sentido próprio do termo, claro, à porrada, forma directa de as ideias entrarem dentro das cabeças, rachando-as!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Autobiografia, de Mário Dionísio



«Contar a minha vida. Sempre que me falam nisso, imagino-me sentado num banco de cozinha, com um grosso camisolão, ombros caídos, a olhar por uma janela alta e estreita o que ela deixa ver da floresta. Alguém deixou um machado na peque na clareira em frente da janela. Andarão a rachar lenha. Grandes aves esvoaçam lá por fora, não muito alto decerto. E, além disto, silêncio. O pro fundo silêncio do que não volta mais. Mas que floresta? Nunca vivi em nenhuma flo resta. Nem sequer perto de. Talvez uma lógica in terna — penso então — comande os próprios des mandos do nosso pensamento. E esse indivíduo mais ou menos ruço, no meio da cozinha lajeada, olhando o que não existe, queira dizer apenas que tudo foi bastante diferente do que eu teria deseja do. Ou será a suspeita (uma quase certeza) de que contar a nossa vida é impossível. Por isso, à ideia de lembrar o que vivi e como, correrei a meter-me na pele de um qualquer em que mal me reconhe ço. É o que se chama atropelamento e fuga». É Mário Dionísio na primeira pessoa, editado pelo saudoso O Jornal. Lê-se na Casa da Achada, um lugar em sua memória, repleto de iniciativas e de entusiasmo.

domingo, 6 de setembro de 2009

Casa da Achada, de Mário Dionísio

Quando eu tinha muitos blogs e escrevia com o meu próprio nome tinha a angústia dos dias em que não escrevia como se tivesse sucedido ter deixado de viver. E depois quando escrevia fazia-o sempre como se fosse outro e quem lia porfiava em imaginar que tinha sido eu.
Um dia vim para aqui deixar que a escita surgisse quando houvesse vontade e mesmo que ela não tivesse que ser mais do que um caderno de um qualquer leitor.
Li na revista Ler que, lutando contra o esquecimento, a família de Mário Dionísio teima em seguir, mesmo sem apoios, com a Casa da Achada, tornando público o espólio deste homem extraordinário nas letras e nas artes, se é que a diferença existe. Vim aqui deixar a notícia, como um repórter chegando à redacção, depois de um dia na rua, a chover, à procura de uma local, a edição a fechar.
Talvez isto seja o meu jornal. Fazê-lo tornou-se um vício diário, como se dizia da velha Capital. Por definição, aliás, jornal é aquilo que sai sempre.
Estão a renascer-me velhos tiques: dia em que não escrevo vivo mal, dia em que não leio é como se tivesse morrido. Qualquer dia escrevo com barbatanas de plástico, latas velhas esquecidas...