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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A Bandeira Preta

Encontrei-a no jardim da Gulbenkian, em exposição, há uns dias passados. Fotografei-a como me foi possível, com o telefone. As que conheci na minha juventude e me traziam à aldeia de Abravezes livros que eu nem imaginava que existiam, eram cinzentas. Soube mais tarde que o Herberto Hélder trabalhou numa delas, percorrendo o país, distribuindo cultura, instigando ao saber.
Deveu-se à organização dessas Bibliotecas Itinerantes ao escritor Branquinho da Fonseca, coadjuvado por António Quadros. 
Em homenagem, a Fundação reeditou «a título excepcional» o Boletim Cultural que em Janeiro de 1984 lhe dedicou.Trouxe então um exemplar. Li-o hoje, em viagem, para me lembrar do pouco que sabia sobe este homem que foi mais um dos licenciados em Direito que pediu asilo à Literatura.
Como o mundo é tão pequeno. Fui ali encontrar um estudo sobre a presença da mulher na sua escrita da autoria de Natalina Andrade Grilo. E um sentimento de comoção tornou-se pudor. Não fui capaz de o ler. Amanhã voltarei. As memórias, as dolorosas sobretudo, são como uma reticência que nos envergonha. 
Branquinho da Fonseca, filho de Tomaz da Fonseca. O seu livro "Bandeira Preta", o único que li, começa assim: «Pedro abriu uns grandes olhos de espanto»...

domingo, 9 de outubro de 2011

Uma Frescura de Asas

Ali estava ele,entre outros, quase escondido. Já o tinha e até lido e comentado mesmo, aqui. Na edição da Europress, mal colado, as folhas a soltarem-se da lombada. Mas este tinha de o trazer. Para o devolver à intimidade do segredo. António Quadros escreveu "Uma Frescura de Asas". E aquele exemplar dedicou-o «ao Sam Levy, com todo o apreço e a velha amizade». Foi em Abril de 1991. 
Não sei que factos da vida ou da morte atiram estas dedicatórias para a rua e seus mercados. Recolhi-o hoje e guardo-o, escondendo-o para que não fique prova. Vim contá-lo porque é verdade.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Ser diverso

Comprei-o na Feira do Livro. É o fac-simile do livro Batalha de Flores, de António Ferro, publicado no Rio de Janeiro em 1923. Obra prefaciada por seu filho António Quadros.
São crónicas e são histórias. Uma escrita refinada, irónica, por vezes desconcertante. «Detesto os livros obsesos, ventrudos, impenetráveis, cerrados, não se abrindo para ninguém, sempre metidos consigo. Adoro os livros delgados, elegantes, esguios que convivem comnosco que uma hora depois de apresentados, já nos têm contado o seu passado, o seu presente, o seu futuro». Começa assim o escrito O Meu Poeta.
O homem que proclamou que a Arte moderna é uma «Arte de relâmpago», uma Arte que «estabelece telegrafia com as almas», foi no seu tempo um avançado. De si disse: «eu só tenho a coerência da incoerência. Ser incoerente é ser diverso».

domingo, 21 de março de 2010

António Quadros

Num blog que se chama Geometria do Abismo escrevi sobre ele: «se há momentos de uma filosofia que marcam um destino, o que ele escreveu sobre o mal do positivismo traçou-me a rota mental». Devo-lhe pois tudo.
Sim, foi António Quadros quem me deu a conhecer a filosofia portuguesa, quando ela já era um corpo sedimentado e sistematizado. Pela sua mão fui percorrendo os caminhos de um Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro, Santana Dionísio, José Marinho, para chegar a Brás Teixeira, Sinde Monteiro, Elísio Gala, a tantos outros que estou a ofender não lhes mencionando o nome. Conheci entre os vivos apenas Pinharanda Gomes, porque o entrevistei. O meu modo isolado de ser vedou-me outras companhias.
Guiado pelas veredas íngremes da saudade e pelas alturas da Tradição, desvendando lápidas ocultas e submetido a sortilégios e outros encantamentos de um mundo maravilhoso, foi sobretudo através dele que aprendi que só há uma filosofia magnífica da existência fora do que sofremos ser o raquitismo do existente, nas terras a que a razão não ascende, de que o racional ignora os segredos.
A transcendência do humano alcança-se com essa leveza de asas, o céu como horizonte.
Pressente-se quando por detrás de um sistema tranquilizante está uma angústia mansa. Eis a biografia deste homem. Um grande Homem. Deixou, mais do que uma obra, um exemplo. Faz hoje dezassete anos que se escondeu da nossa visibilidade para que o recriássemos com os remorsos da nossa memória. Ficou a obra como testemunho de que esteve aqui.

sábado, 2 de maio de 2009

Os Ramos Entrelaçados

Danilo Barreiros escreveu, Pedro Barreiros desenhou a capa, com uma pintura chinesa Os Ramos Entrelaçados das Flores de Ameixoeira. É um pequeno fascículo, editado em 1961, edição de autor, impresso na Bertrand, sobre a morte e o testamento de Camilo Pessanha. Cruzei-me hoje com ele na Rua de Anchieta, onde está a feira dos livros usados. Trouxe-o comigo. Deve-se a Danilo Barreiros ter copiado, na sua máquina Underwood, «com fita de duas cores» as Elegias Chinesas de Camilo Pessanha. «Foi este material que António Quadros utilizou para a publicação do texto na Europa-América com as obras completas de Pessanha», diz Pedro Barreiros que, em 1999, as editaria, homenagem de aluno que foi no Liceu de Macau, ao Tap Siac.