sábado, 6 de junho de 2026
Vergílio Ferreira: memórias sem pose, quotidianas
Eis a crónica que publiquei no penúltimo número da quinzenário As Artes entre as Letras. O repto suscitado pela Directora, Nassalete Miranda foi que se escrevesse sobre a memória. Lembrei-me da Conta Corrente do Vergílio Ferreira.
Tenho consciência de que, como alguém disse, as memórias podem ser obras de ficção, o que depende da probidade intelectual de quem as escreve. Com esta ressalva, sou um leitor compulsivo das mesmas, nisso incluindo os diários, os quais são uma memorialística talvez mais sincera porque espontânea, descontando que o seu autor possa rever o impulso emotivo inicial que levou a confiá-las a texto escrito.
E, convidado pela nossa gentil Directora, a orientar esta minha crónica ao tema da memória, eis-me em torno de um dos escritores que tenho como referência, Vergílio Ferreira.
O autor de Aparição deixou-nos duas séries de diários, intitulados Conta Corrente, iniciados já depois dos 50 anos, onde nos revela que o seu amigo e conterrâneo Eduardo Lourenço o aconselhava a deixar-se desses apontamentos que só o empobreciam aos olhos dos leitores, mas nos quais porfiava com regularidade.
Está ali a pessoa do seu autor, mesmo nas minudências quotidianas que amplificava em tragédias existenciais, os ressentimentos ante quem tentava dele obter uma entrevista, um prefácio, um comentário, a participação num colóquio, o recalcitrar mesmo quando eram ex-colegas do Liceu Camões a tentar retirá-lo da sua tebaida para um almoço na Baixa.
Não ignorando que escrevia para a posteridade, não se poupou ao deixar comentários biliosos contra os neo-realistas, afinal a sua origem – que abjuraria a partir do romance Mudança – a quem apodava de “neo-realeiros”, para com o recém-falecido escritor Lobo Antunes, de quem diria ter tido, na Literatura, «entradas de Lobo e saídas de Antunes», ou ainda para com o Baptista-Bastos, que alcunhou de “Bau Bau”, para não excluir o José Saramago e tutti quanti.
Sou o primeiro a admitir que há, nesse reviver, excertos em que o nível se rebaixa, como quando, a propósito de António Nobre, escreve com brutalidade: «Há neste poeta o que me encanta e o que visceralmente me repugna. E o que me repugna tem que ver com a sua feminilidade que no caso da amizade com o Alberto de Oliveira roça a panasquice».
O próprio Vergílio Ferreira tinha disso consciência pois num apontamento no primeiro volume dessa obra considera esse tipo de escrita «o rés-do-chão de mim como “escritor”, a minha rasa banalidade com uma caneta e uma folha na mão».
Apesar disso descontado, não hesitei em ler a totalidade dessa Conta Corrente, os cinco da primeira série [1969-1985] e quatro da segunda [1989-1992] e não me arrependo de o ter feito. Cheguei a pensar e ainda imagino, irrealista como sou, em compor um índice onomástico que facilite a estudiosos e a voyeurs o estudo da obra e digo aqui porquê dessa não contrição.
Logo em primeiro lugar, porque há, nessa tumultuosa recordatória, o humano, demasiado humano, que ali se surpreende e espanta, amiúde o violento, brejeiro mesmo, frequentemente a injustiça, a desforra e a inveja, mas tudo isso que proporciona um agitar a mente, o acirrar o espírito crítico, concitando o leitor a encontrar, depois do riso, o siso de uma avaliação proporcionada. É assim, como é assim, citando os contemporâneos, ante Luiz Pacheco, ou João Pedro George, cujos virulentos exercícios de estilo têm de ser tidos em conta com uma boa dose de desconto.
Além disso, porquanto entre aluvião do cascalho do dia-a-dia e a brita dos corpo-a-corpo ideológico, há pepitas auríferas de pensamento original e motivador e referências culturais do maior interesse.
Retirado entre as aulas a alunos do Liceu e a solidão do seu sofá, tábua nos joelhos e caneta de tinta permanente na mão, escreveu em letrinha miúda, uma obra que, hoje a caminho do esquecimento, é ponto de referência essencial, na Literatura, na revelação existencial e no combate pelas ideias.
Escapa a este registo o diário correspondente a 1944-1949, que, com prefácio de Helder Godinho e notas de edição de Fernanda Irene Ferreira, a Bertrand Editora publicou em 2008.
Revela-se aí a obsessão pela diarística. Escrevendo em Melo, a 8 de Setembro de 1945, anota: «Pela centésima vez começo um diário. Diabo! Não serei capaz de me obrigar a reflectir cinco minutos por dia? Certo o diário escrito com fins de publicação é idiota e pedante. Mas eu não vou escrever para publicar».
Escreveu e publicou. E permito-me dizer: felizmente. Há neste diário de primícias a expressão do enamoramento pela que, a partir de 1944, seria sua mulher, Regina, Regina da Costa Kasprzykowski, que amorosamente cuidou do seu espólio, hoje confiado à Biblioteca Nacional: «A R. diz-me que o mundo é “estreito”. Que, por isso, eu tenho para o mundo dos outros, olhos deslumbrados e invejosos. Que, se eu chegasse a ser os outros, ficaria desiludido».
Só por uma frase assim vale a pena ser o papa-léguas da longa estrada destas memórias quotidianas de um homem sem pose, solitário num mundo de poseurs.
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