domingo, 22 de janeiro de 2006

Uma vida que começa

Partiu, ontem, cedo na manhã. Uma vida adulta que enfim começa. E em mim, na desolação solitária daquele instante, no que eu gostaria de ter sabido converter em lágrimas, o desejo profundo do melhor dos mundos para ela. Hoje, neste domingo dorminhoco de Inverno, um estranho vazio acompanha-me. Escreveu-me, uma mensagem breve, daquelas em que tudo se diz no pequeno écran de um telefone. O texto é curto, diz que chegou bem, começa com a palavra pai.

O único e o singular de cada amor

Não tinha chegado a dizê-lo, mas o «Diário Íntimo» do Manuel Laranjeira, li-o há dias numa biblioteca pública, aproveitando o tempo durante o qual muitos outros almoçam. Mas ontem que foi sábado, encontrei-o, muito escondido e como se agachado num alfarrabista do Chiado. E esta manhã, ao acordar tarde, com a angústia de já passar das dez, um súbito ímpeto levou-me a ler-lhe o prefácio, o que na altura desconsiderara. Escreveu-o Alberto de Serpa. O prefaciador conheceu o prefaciado e sente-se que o absolve, àquele «pessimista místico», desencontrado com Deus, aquele que viveu «pedindo à existência terrena perfeição e paz que nunca podem ser dela» e morreu com as próprias mãos. Mas um «Diário Íntimo», um diário de amores, é algo de tão próprio, tão único e tão singular, que editá-lo é como que vingar um morto, ante a nudez embaraçosa dos vivos. Mas quando há delicadeza e carinho pelo outro escreve-se como ele escreveu, a justificar-se: «um quinquagenário sabe já bem quanto meio século é pouca coisa, e por tal fui-me às inciais, aos prenomes e aos apelidos com que Laranjeira indicou personagens femininas de ainda possível descoberta, e dei-lhes uma simples letra».

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

Mau parecer

A imprensa noticia que o Brasil está a exportar para Portugal anti-rugas falsificado. Percebe-se agora porque andam todos de semblante façanhudo: até a nossa aparência verdadeira é falsa.

Uma víscera ruim

Manuel Fernandes Laranjeira compôs em 1908 um «Diário Íntimo» onde anotou que, afinal, a alma é uma víscera ruim. Pouco antes do regicídio escreveu uma série de artigos, que Luiz Pacheco viria a editar-lhe, em trezentos modestos exemplares, na Contraponto. São notas soltas sobre o «pessimismo nacional», sobre as «quadrilhas messiânicas», sobre a «enfermidade congénita» dos portugueses, maleita que é um sintoma alarmante «de uma doença infecciosa grave», toda «de natureza parasitária». Manuel Laranjeira suicidou-se em Espinho no dia 22 de Fevereiro de 1912, com um tiro na cabeça, como era inevitável. Dele disse Miguel de Unamuno que «a vida o matou e ele deu vida à morte», como à de Portugal uma «Nação morta destinada a ser devorada pelas Nações vivas». Numa carta a Amadeo de Souza-Cardoso, Laranjeira, médico, diagnosticou a sua doença, a dos que sentem «morrer a vida» por não talhar a vida ao seu ideal.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Um dia

A indelicadeza é isto, visitarem-nos e nós não retribuirmos, falarem em nós e ser como se nem tivessemos dado conta. A selvajaria, porém, é tudo isto acontecer e um dia, a dois de Janeiro, ter morrido alguém e isso ser como se nem tivesse acontecido. Claro que há um sentimento de remorso. Confessá-lo não resolve, é uma forma apenas de me envergonhar publicamente.

domingo, 15 de janeiro de 2006

É só carregar no «on»!

Groucho Marx considerava a televisão um meio muito educativo: cada vez que alguém a ligava, ele ia ler um livro. Hoje, com a proliferação de canais, é caso para se dizer, podem ler-se bibliotecas inteiras.

Nos teus olhos altamente perigosas

«Tu não poderias ficar presa comigo à roda em que apodreço, apodrecemos». Hoje é domingo, ouve comigo Alexandre O'Neill. A alegria sonâmbula, o modo funcionário de viver, a miséria de uma noite gerada por um dia igual.

Saudades do gasolim

Na selvajaria de que se faz vida há lugares magníficos onde não vamos, momentos de beleza que perdemos, recantos de sensibilidade que esquecemos. Hoje voltei ao gasolim ultramarino, para matar saudades.

A Praça de Espanha

Hoje o dia deu em chuva. Por ser domingo parece que chove mais e de modo que mais encharca. Refugiado num patamar de uma rua sem cafés, pesa-me tudo o que poderia estar a fazer a esta hora. Um casal de turistas pergunta-me pela Paça de Espanha. Condenando-o à desilusão do inóspito com que se vão surpeender quando lá chegarem, digo-lhes que é ali, mais em frente, sempre em frente.

Ler, rir e viajar

Há nos jornais suplementos sobre viagens, que parecem publicidade encapotada dos departamentos turísticos das embaixadas estrangeiras, quando não das próprias agências de viagens. São todos tão informativos como o «Guide Michelin», alguns sóbrios como o «Rough Guide». O que raramente são é divertidos. Ler e rir nem sempre acontece. Mas sucedeu hoje. O artigo é sobre o homem que atravessou um país inteiro durante uma semana, conhecendo-o detalhadamente. O país chama-se Andorra.

Tempus fugit

Há um livro onde se explica porque é que o tempo parece correr mais depressa à medida que envelhecemos, demonstrando como por o nosso relógio biológico, com a passagem do tempo, andar com mais vagar, tudo o resto parece decorrer mais rápido. Será um livro interessante, mas seguramente é daqueles que não vou ler, só por já não ter tempo para isso. Há pouco ainda me parecia ser sábado, amanhã já é segunda feira. Um vizinho desce a escada apressado, o autocarro em frente arranca veloz, um jovem casal, abraçado, corre ágil para fugir da chuva.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

Alça daqui!

Viaja-se no espaço Schengen, e são os acordos de Schengen, e não há cooperação judicial que não seja a de Schengen, nem questões sobre passaportes em que não se fale de Schengen. Nesta maçada institucionalizada que é a Europa, uma coisa fantástica está na parede de uma igreja, a caminho da feira da ladra: «Schengen, sai deste espaço!». Assim, sem mais nem menos, a bazar! Um cão tristonho, pelo rente e ar desiludido, alçava ali pata, regando a dita parede. Vadio, ele era, em quatro patas, a imagem da excepção a Schengen: nas suas deambulações por este seu mundo de caixotes do lixo, é a liberdade de circulação total!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Um furo!

Tive um furo, ou melhor dizendo, o pneu do meu carro furou! E então são aqueles momentos da descobertas das maravilhas do nosso mundo moderno. Primeiro, fica-se a saber que antigamente o pneu sobressalente era um pneu igual aos outros e agora é uma rodinha ridícula, a vergonha de todas as rodas que se prezam, mais pequeno que os outros pneus e pintada a uma cor absurda, com um letreiro garrafal a dizer que não pode andar a mais de oitenta à hora. Já não basta o embaraço de ficar no meio da estrada naqueles propósitos, ainda se segue depois aquela humilhação do olha aquele furou! Mas há mais! O macaco que vem no carro é um verdadeiro saguí, o liliput de toda a genealogia simiesca, espécie de alavanquinha absurda com a qual se tem que alçar o carro à força de braço, na singular posição de estar metade do tempo de cócoras e outra metade de joelhos, os intervalos agarrado aos rins. Ainda por cima, para ajudar à festa, a coisa tem todo o ar de se desconjuntar a todo o momento e cair-nos o carro em cima de um pé. Agora com os coletinhos verdes fosforecentes, um tipo nestes ademanes vê-se à meia-légua. Dirá quem me lê que o meu problema foi ter sido apanhado nesta. Não, não foi, porque consegui arrumar-me para uma ruela sossegada. Ironia do destino era em frente de uma escola de condução, onde se calhar ensinavam num quadro como mudar teoricamente um pneu. O que mais me desassossegou foi uma amiga minha dizer-me num amigável e carinhoso «coitado de ti só te faltava esta» que «um furo, que é coisa que quase não há». Pois é, minha querida, quase não há mas houve: e foi hoje e comigo, na estrada de Sintra. E não foi ao volante de um Chevrolet, nem pela estrada do sonho!

A caderneta escolar

Tenho pudor em dizer a quem pertencia. Mas ali estava, no chão, à venda, entre bugigangas diversas, a caderneta escolar de uma mulher de quem se disseram já coisas civicamente maravilhosas. É assim a Pátria agradecida e assim são as famílias que, morta a criatura, lhe despejam os papéis para o lixo. Se é para isto que serve ter família, antes ser sozinho, ou morrer pobre, sem nada para deixar.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

O homem de Manhufe

Consegui estar este fim de semana em Amarante, por causa do Amadeo de Souza-Cardoso. A casa da família, onde viveu, está fechada a visitas. Para a descobrir é preciso perguntar e muitas vezes. Muita gente da terra nem sabe onde é Manhufe. Mas, enfim, de curva em curva, entre rotundas e inversões de marcha, lá acertámos. Já na rua da pequeníssima localidade, hesitante, abordei um passeante nos seus sessentas, que pela samarra e passo vagaroso me parecia um habitante da terra: «a casa do Amadeo Souza-Cardoso é aquela ali em baixo?», perguntei. «É sim», respondeu-me, solícito, o meu interlocutor, acrescentando, prestável: «mas olhe que ele não deve estar em casa, pois costuma ir até Lisboa». Pois costuma, pensei eu, mas a última vez que isso aconteceu foi em 1916. Pensei mas não disse, talvez com receio de ouvir como resposta um «Ah! Bem me parecia! Por isso o não vejo há tanto tempo».

domingo, 8 de janeiro de 2006

Sendo-se justo

Acabei, enfim, a leitura do «Diário» do José Régio. Hesitante quanto ao que pensariam os seus leitores sobre as pessoas quanto às quais ele formulava, nesse gotejar de pensamentos íntimos, opiniões tão vincadas e sobretudo em que medida se influenciariam irremediavelmente em função dos seus tão vivos juízos de desfavor, Régio prevenia quanto ao que havia de circunstancial nessas suas mordazes opiniões. Vítima de críticas nem sempre respeitosas, desabafou, entretanto, por escrúpulo, num momento de verdade que difícil é ser-se justo quando se é vítima de injustiça.

sábado, 7 de janeiro de 2006

Cantam as nossas almas

O meu pai, hoje faria anos. Nasceu há dois séculos, em 1898. Era mais velho do que o pai da minha mãe. Sempre tive um pai mais velho do que o meu avô. Tudo isso me deu uma noção da precariedade do tempo, do relativo da idade. Absoluto só o nascer, mesmo a morte conta pouco. Hoje, a estar cá, estaria de parabéns. Era o seu dia. Ao nascer, nasci, a possibilidade de mim na forma do ele.

A intranquila sensação

Cheguei com a cidade tragada por um nevoeiro gélido. Acordei com ela devolvida a uma luz crua do sol. O acordar tarde, uma sensação de estremunhamento, a angústia do tempo perdido, a ansiedade do pouco tempo que resta, os sentimentos habituais da intranquilidade. A quatrocentos quilómetros de casa, ou no quotidiano da minha monótona aldeia, sempre a mesma ideia pesecutória do mundo por haver. São quase dez e meia da manhã. A rua vazia, em redor a pacatez dorminhoca de sábado, todos indiferentes ao pecado do dormir demais.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2006

Uma escrita exaurida

Há homens que ficam amarrados ao que parecem. No José Régio são os Cristos de antiquário, a fazer supor que ele era um beato católico, quando ele nega o catolicismo, declarando-se cristão; é a escrita familiar, intimista e dorida, a sugerir que ele fosse um conservador, quando ele se confessa socialista. Mas o que mais espanta é sobretudo aquele ar de eterno celibatário e misógeno, quando no seu Diário o surpreendemos nas suas obsessões sexuais e, quando calhava, a dar-lhes livre curso, até à exaustão. Há homens que parecem, enfim, amarrados ao que ficam.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Morreu

Saudava-o com um «olá, autor de Fast Lane», que fora o seu primeiro livro de ficção. Ele, com a bonomia tranquila expressa num sorriso, respondia com um «olá, ilustre causídico». Hoje morreu, no livro da realidade. E o ilustre causídico, agrilhoado ao remo de mais um julgamento, nem tempo terá para ir ao seu funeral. Olá Cáceres Monteiro, autor de «Fast Lane, um exercício de sedução», esta será a tua última reportagem, em busca de um Deus desconhecido.

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

A cidadela sitiada

Uma alma inquieta, mesmo contemporânea, é como uma cidadela medieval, sitiada pelo exterior das suas muralhas defensivas: confinada a si, morre de fome, saindo ao exterior é assassinada. Nisto não há nada melhor do que viver de portas abertas em convívio ameno com os nossos invasores. Claro que há nisso o risco de, num minuto de distracção, se morrer atropelado ou, num momento de distenção, nos miscigenarmos com eles.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

A definição de uma alma

Talvez porque o António Telmo fale no José Régio, dei comigo a ler-lhe o diário que o António Maria Lisboa, seu estudioso, compilou e que se chama «Páginas de um Diário Íntimo». E ali encontro a excepcionalidade de uma definição que em si contém, em extensão e densidade, todo o conteúdo de uma alma única: «eu sou, a meus próprios olhos, um doido que por acaso nasceu com juízo». Em Régio a neurastia é aparente, surge apenas como a obsessão da sua inquietude, o seu «furioso desejo de Nada».

Adivinha quem vem jantar?

Nada como a companhia de um livro quando se janta sozinho: o livro evita-nos ter de olhar para os outros, o livro poupa-nos a ter de reparar que estão a olhar para nós. Esta noite foi uma entrevista de António Telmo a José Manuel Viegas, que ele compilou num livro a que chamou, talvez por causa do Agostinho da Silva «Viagem a Granada». Tinha acabado a sopa, uma sopa invernosa e espessa, excelente para um dia de frio, quando a frase chegou: cada português transporta dentro de si a pátria portuguesa.Telmo diz, numa outra entrevista, que Fernando Pessoa é um «poeta enorme». Do ponto de vista do que contém e deixa perceber, esta frase também.

Um tiro às escuras

A referência vem aqui, num artigo sobre a adaptação ao cinema de histórias previamente contadas em livro. Uma das graças é que «no livro as imagens são sempre melhores do que no cinema». Mas o que me ficou foi a menção a Tchekov, quando, a propósito ainda do teatro, dizia, a propósito dos tempos cénicos, que se há uma arma na primeira cena, ela tem que ser disparada na segunda. A atentar em algumas peças de teatro, o risco é serem disparadas sim, mas da plateia sobre o palco. O mesmo se diga do cinema, mas com menos sucesso.

Um homem em fuga

Sempre a fugir do calendário e a tentar fintar a agenda, fazendo da noite dia, e dos minutos horas, lá tento ler, quando posso e sobretudo quanto posso. Claro que, há umas semanas, estava a ler «As intermitências da morte», comprado logo no dia em que ele saíu. Hoje, que o tempo passou sem eu dar conta, continuo a lê-lo, no mesmo sítio onde ia. Saramago falava na folha que eu agora abri, dos que morrem de «morte parada». Também os há, eu sei, e por causa disso, o melhor é eu ler amanhã. Em matéria de leituras intermitentes, hoje fico parado.

domingo, 1 de janeiro de 2006

Dias assim

Só um aceno. Cheguei há momentos. Não tenho nada para dizer e não quero ouvir coisa alguma. Há dias assim, completos!

sábado, 31 de dezembro de 2005

O beneficente consolo

A salvação já existiu! Andávamos por meados do século dezanove e ela chamava-se a «Associação Consoladora dos Aflitos».Tinha um jornal, que a Biblioteca Nacional generosamente agora faculta à leitura pública, aqui e que se chamava «A Beneficência». Vendia-se «na loja do sr. Lavado, Rua Augusta, n.º 8». A associação, segundo proclamava o generoso periódico, era animada pelas «damas ilustres (...) semelhantes a bandos de níveos pombinhos, conduzindo verdes ramos de pacífica oliveira». Com tais níveos pombinhos, um homem ficava consolado pela certa, por mais aflito que andasse.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

Elixir capilar

Só o homem, que não os outros animais precisam de ir ao barbeiro e mesmo assim só em relação aos pelos da cabeça, enquanto não caem de vez. Agora a esses fígaros chamam-se de cabeleireiros, o que faz sentido, vista a zona onde primacialmente operam. Só o homem que não os outros animais precisam de ir ao barbeiro cortar os pelos da parte de baixo da cabeça, os da barba e do bigode. Se nisto, da ininterruptabilidade do crescimento capilar está a natureza humana do homem, a calvície é a tragédia existencial da desumanização.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2005

Na imensidão de um muro

Eu tenho um amigo que em cada Natal manda imprir um livrinho com poemas e pequenos outros textos que selecciona e o distribui por aqueles a quem quer obsequiar. Este ano, uma amiga fez o mesmo com belíssimos textos seus. Fale-se, para já, do primeiro, onde eu leio o que estará inscrito num momento da imensidão da Grande Muralha da China: «a certeza guardada como reserva, elogios não esperados de um artista, a descoberta da nobreza em nós próprios». São as três coisas boas.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

Uma língua que ecoa

Continuam as leituras compulsivas para o fechar do já atrasado livro. Há sempre uma pausa agradável, mesmo nos dias que nos entristecem. No caso, foi ao ler nas memórias de Elizabeth Hill, a prima russa da minha biografada, o momento em que ela assiste às aulas de russo na Universidade, em Inglaterra. Ministradas por um professor arménio, os seus alunos eram obedientes oficiais do Exército britânico, que, ante o facto de o professor repetir, para melhor audibilidade, cada palavra do vocabulário a memorizar, convenceram-se, com seriedade, que em russo cada palavra se pronunciava, sabe-se lá porquê, duas vezes: «niet, niet», «da, da»!

O lugar de toda a gente

O livro trata da vida quotidina em São Petersburgo na época romântica. Estou a estudá-lo porque a minha biografada, Nathalie Sergueiew nasceu naquela que Pedro o Grande quis que fosse a janela da Rússia sobre a Europa. Há nele um capítulo que trata da condição feminina e outro da vida cultural nessa cosmopolita cidade. Não recordo em qual vem a propósito de Elizabeth Khitrovo, filha do general Koutozov que, estando doente, e não podendo receber nos seus salões, como costumava, a corte de intelectuais, artistas e homens de cultura que a frequentavam, abriu-lhes as portas do seu quarto e a um, com equívoca amabilidade, lhe disse: não, não se sente aí nessa cadeira, pois é a preferida de Putschkine, nem naquele fauteil, pois é o de Viguel. Sente-se aqui, na minha cama, que é o lugar de toda a gente. Uns anos depois, os sovietes arancavam em armas com o sonho de que isso era uma verdade universal para todas as coisas, em todos os lugares.

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

Vocês, vejam lá!

Vi-o, na capa do JL, ao professor Matoso, o historiador. E lembrei-me que tinha de comprar o jornal. Na papelaria o homem disse-me um mas este é o da semana passada e acresecentou mais é que isto sai de quinze em quinze dias. Como eu lhe disse um convicto eu sei eu sei, mas é que me esqueci de o comprar, rematou-me com um pois é, este é daqueles que nunca se desactualizam! Pois não, vim eu a pensar. E. de facto, lá dentro ainda se fala do Afonso Henriques, vejam lá!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

Prognóstico reservado

Saíu também a Geometria do Abismo da câmara de reanimação em que se encontrava. É claro que a dispersão exaure e mata de fadiga quem escreve e de cansaço a quem lê. Talvez por isso a «geométrica noção dos males e dos remédios» ajude um pouco na convalescença.

A lenda dos malvados

Por andar a escrever um livro sobre a pintora Sonia Delaunay acabei hoje, dia seguinte ao de Natal, a leitura minuciosa do livro que o Mário Cláudio escreveu sobre Amadeo de Souza-Cardozo. Mário Cláudio é um dos que felizmente encontrou depois do Direito uma forma de se salvar, pela literatura. O livro é superlativo, como momentos extravagantes de observação, como quando surpreende que na vida do seu biografado «as mulheres desfilam no horizonte de sua mira, como outras tantas hipóteses de conhecimento de si mesmo». No caso são, em Paris, incessantes «expedições cinegéticas do amor», em que entrecruzam mulheres «exaustivamente nuas», «a entrega a ninfas e harpias que caracteriza a lenda dos malvados». Tudo acaba, porém, no caso de Amadeo ainda sem completar trinta e um anos, no dia vinte e sete de Outubro de mil novecentos e dezoito. Nesse dia «a vida que findara começa, como todas as que se extinguem, no reviver do palpitar definitivo das suas cores». Mata a pneumónica um extraordinário pintor: «pessoas de tal nervo, só porque não podem dar-se ao luxo da ausência de si próprias, se não ausentam dos outros».

Enleante cuidado

Repare-se num gato a atravessar numa casa por entre obstáculos miúdos e dispersos. Tem de articular quatro patas, fazer passar um corpo horizontal, extenso em excesso comparativamente com a sua distância do chã,. maior em comprimento do que em altura. Compare-se com o homem, que tem duas pernas e não quatro e, porque na vertical, ocupa menos raio de acção. Veja-se agora a trapalhice do humano e a destreza do felino. De vez em quando lá vai um bibelot em cacos. Segue-se uma zaragata, não de miaus, mas de berros!

domingo, 25 de dezembro de 2005

Amar

Havia-os em todas as casas dos anos quarenta, com aquelas capas que hoje ressuscitaram para o bom gosto, os livros do Stefan Zweig. Alguém disse outro dia que ele era um escritor mediano. E, no entanto, este domingo de Natal a sua descrição de Sigmund Freud devolveu-me, enfim, a compreensão respeitosa pela escola psicanalista de Viena, o modo como ele comenta o Ulisses de James Joyce ensinou-me, enfim, o que é o génio de escrever. Um homem destes ama os livros. Sobre eles escreveu um agradecimento singular: "os livros esperam, em silêncio. Chamam, convidam-nos, mas não exigem". Só quem ama, respeitando-se, escreve uma coisa assim.

A estrada

Chove e é domingo e por ser Natal há nesta estrada esperanças contentes e memórias entristecidas transportando-se no sonho reflexo da ilusão.

sábado, 24 de dezembro de 2005

Os limites da compreensão

Interceptou-me na rua e disse-me que representava o senso comum, tal como John Locke. Eu sei que é inesperado ser-se interrompido numa rua, invulgar quando isso acontece numa noite de Natal, excepcional para nos virem falar no senso comum, caso único quando é alguém que se diz idêntico a John Locke. Locke nasceum em 1632. Um dos pontos nevrálgicos do seu contributo para a filosofia foi a compreensão dos limites do entendimento humano. Eis precisamente com o que me confrontei esta noite, a minha incapacidade de pereceber o que se passava com esta mulher, mesmo em termos de senso comum. Ouvimo-nos e sem que nos tivéssemos entendido, mutuamente nos desejámos um Bom Natal.

De vésperas

Há um ditado brasileiro que diz que «às vezes é preciso fingir de morto para continuar vivendo». Talvez tenha sido isso. Tal como como nos corpos em agonia, a Mãe Natureza desliga-lhes tudo o que gasta energia vital, lançando-os em coma. Fica o mínimo aplicável à sobrevivência. Não escrevi, mal li, quase não pensei. No mais, tentei cumprir as minhas obrigações profissionais e os meus deveres pessoais. Aqui estou, quase sem fôlego, na véspera de Natal. Quando eu era miúdo ansiava por amanhã. Hoje também.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Sabina Freire

Ora entre o carrego de livros que, entusiasta, comprei a semana que passou, encontrei, em cuidada encadernação já moída de maus tratos, o «Sabina Freire», peça de teatro de Manuel Teixeira-Gomes, que já foi Presidente da República e de quem já falei aqui. Na linguagem redonda da época o autor apresenta assim a sua personagem: «ondulosa, braços magros, cinta fina, quadris estreitos, seio farto e inflando na bem geminada curva dos bem distintos pomos». Um homem lê isto e vê, como se um cego em braille, tacteando as letras com as pontas dos dedos.

O acaso persistente

Este fim de semana dei comigo a pensar como haveria de escrever um livro que começara há semanas a alinhavar, mas que não encontrara ainda forma de se expressar. Hoje, depois do jantar, fui à mala do carro, para alombar escada acima com dois sacos de alfarrábios que comprei há dias a uma elegante e distinta senhora que vende livros com a categoria de quem recebe amigos para um cuidado chá. Uma dessas preciosidades é do Metzner Leone, e é um romance que abre com uma frase que eu sei que é muito minha: «qualquer romance tem, pelo menos, duas histórias: a que conta o livro, e a história do próprio livro». Eis neste livro, nas palavras de outro, o que eu havia pensado para o meu livro. Claro que é uma simples coincidência, daquelas que nos martelam a cabeça de persistentes.

domingo, 11 de dezembro de 2005

E é melhor nem pensar!

Eu disse ontem aqui que estava a ler o livro de contos da Florbela Espanca, mas não disse que ele se chama «O Dominó Preto», nem que tinha conseguido ler o conto que dá nome ao livro, na ânsia que fosse o melhor. O tom geral da escrita é aquela calda lacrimosa e adocicada que torna cada uma das linhas como se uma caminhada dissolvente e contribui para a enervação do leitor. A história é a do marçano plebeu, o José, que se enamora da longínqua e distinta cliente, a Maria, e que por marcar encontro em noite de Carnaval num jardim público ao qual ela não aparece, se mata, insolitamente à facada. Como personagem que se preza, o José morre mesmo, no último parágrafo do conto, com uma andorinha a ajudar à cena, passando-lhe veloz «rente à cara dele, com um gritinho de alegria». É assim. A surpresa é que há na narrativa aqueles momentos de lubricidade oculta, como mão discreta entre rendinhas íntimas: não é tanto o dar-se o leitor a perceber nela o «passinho grácil», a «boca fresca» de «polpa carnuda e sumarenta de um morango acabado de colher»; é mais aquele passo em que o José lhe ouve, em imaginação doente, «o riso garoto cheio de reticências, evocador de carícias proibidas e desejadas, o riso que às vezes lhe fazia vir à ideia coisas em que seria melhor não pensar». Num seu diário Florbela definiu-se como «casta sem formalidades», «a palpitar de seiva quente». Percebe-se, e muito bem.

Florbela: conhecer-me!

Eu sei que esta semana fez anos que nasceu a Floberla Espanca, que nasceu em Dezembro e em Dezembro quis morrer. Hoje, já longe da data, tenho comigo apenas um livro de contos que ela escreveu e peço-lhe ajuda para poder ter algo de digno a dizer. É pena, porque como disse a Ivette Kace Centeno, que prefaciou uma sua edição, «incomoda nos contos o fácil dos estereótipos». Mas nem tudo é mau neste momento residual de lembrar a tragédia de uma vida. É que nesse livro e nesse «prefácio», que melhor se chamaria de introdução, é lembrado um momento do seu «Diário do Último Ano» aquele em que Florbela configura a eventualidade de, quando enfim morrer, alguém ler aqueles seus «descosidos monólogos» e assim «realize o que eu não pude: conhecer-me». Por mim tentei, sem ser capaz e vim aqui dizê-lo, assim alguém me ajude.

sábado, 10 de dezembro de 2005

Demência, Majestade!

A Fenda editou um estudo do Ezra Pound sobre Camões. Disse-mo um livreiro de bairro, um entusiasta que tenta sobreviver há cinco anos neste mercado de ferocidade mansa que são os livros. Encontrei o opúsculo numa daquelas livrarias de Centro Comercial que agora parecem só ter lixo embrulhado em papel vistoso. Li-o hoje, sábado de manhã, num insólito local, a última fila de bancos da Basílica da Estrela. O texto é curto e trata essencialmente de um tema erudito, o da problemática da tradução de «Os Lusíadas». O que é um desastre é a revisão da tradução. Não fosse a solenidade do local, que umas jovens turistas excepcionavam, viçosas e matinais, tinha-me esbarrigado a rir, sobretudo naquele momento em que nele se diz que a Inês de Castro «foi apunhalada quando pedia demência ao então rei, Afonso IV». Exactamente assim demência! O livro vai em segunda edição: é caso para dizer não revista e muito diminuída!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

A voz, o som, as cores

Há na rádio uma voz cavernosa que é a do António Sérgio. Com ele ouvi o «Lança Chamas» e os «Sinais de Fumo», programas de música tida por imprópria para o que eu deveria ser. Agora o António Sérgio está na «Hora do Lobo», da meia-noite às duas. Lembro-me dos tempos em que eu via rádio. Via, sim, as sonoridades coloridas por detrás dos sons que ouvia, um arco-íris de entusiasmo, na solidão da noite. Hoje, toupeira cega pelo excesso de luz, apuro o ouvido, no labirinto dos sons.

P. S. Hoje lembrei-me. E «Som da Frente» onde, pelo menos para mim, tudo começou?

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

Epigrama

A un português que lloraba, preguntaron la ocasión; respondió que el corazón y que enamorado estaba. Por mitigar su dolor, le preguntarem de quién; Respondió que ninguén: lloro de puro amor! Lope de Vega escreveu este epigrama.

Vencimento

Só para o vencido há vencedor, precisamente porque não venceu. Vergílio Ferreira disse isso faz quarenta anos daqui a dez dias, ao Diário Popular. Nem quem o disse nem onde ele o disse já existem, vencidos.

domingo, 4 de dezembro de 2005

Pensava

Há no último livro da Agustina aquele momento em que as mulheres sofredoras estavam em vias de se tornarem mulheres irritáveis. Pensava eu que já tinha passado essa página, a página número cento e nove.

sábado, 3 de dezembro de 2005

Intervalos de animal

Eu sei que já passava da uma e meia da manhã, mas o sentimento urgente de que já que o dia acabara, ao menos eu podia ter a ilusão de ter lido qualquer coisa mais do que os papéis do meu trabalho, não me deixava descansar. Consegui! Eu sei que foi só meia-página de um livro que se arrasta na mesa de cabeceira há semanas. Mas valeu a pena, pois vem lá que «o homem só é um animal racional nos intervalos de ser animal». Como se vê precisamente pela vida que se vive.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

O princípio da verdade universal

«A vida que vivo não é a minha», Almada-Negreiros a Sonia Delaunay, admirável e universalmente verdadeiro.