terça-feira, 1 de janeiro de 2013

O Mysterio de Perosinho

 
Com imprimatur da autoridade eclesiástica, firmado a 1 de Janeiro de 1920, por D. António, Bispo do Porto, o bom do Padre José Ribeiro d'Araújo, já em Ovar e longe do lugar de Perosinho, seu rincão natal, onde pastoreara o rebanho do Senhor, deu-se, como alguns dos seus ilustrados confrades de sotaina, a trabalhos de História e Etnografia.
Aventurou-se pelos tempos primitivos, aventando que talvez pelos tempos dos Celtas ou dos Iberos o lugar fosse primitivamente habitado, louvando-se numa mamoa existente pela Barrosa (em Mathosinhos, como escreveu na grafia da época). Para que confusão não haja direi que mamoa é cabana megalítica do tipo dolmético.
O livro foi-me oferecido pela Biblioteca local, esforço comunitário civil autónomo e porfiado, em generosidade ante uma palestra que ali proferi, gente da alma desses construtores que deram ao País vida, oriundos dos Nortes adversos.
Li-o, com o gozo mouro de quem passeia tentando descobrir sob o alcatrão e por entre os interstícios do betão armada um mundo que foi; o gozo e o riso porque, verdadeiro manancial de antiguidades, há nele que dê para uma alma cândida sorrir por várias horas.
Desde crendices como «quando o cão estiver a uivar, o que é sinal de mau agouro, para ele se calar, deve colocar-se um chinelo com o salto para cima» - o que é já esta noite que porei em prática ante um canídeo circundante que ladra com lua ou sem ela pelas horas do sono, até à história do Mysterio, o bruxo que em 1919 se estabeleceu em Canelas, lugar da zona de Gaya (assim mesmo, aquilo que é hoje Vila Nova de Gaia, aliás cidade) e de quem corria folheto segundo o qual «Vive há tempos em Perosinho/No logar de Brandariz/Um ser bem piramidal/Como há poucos no paiz/Quem elle é vou dizê-lo/P'ra que possaes conhecê-lo/É formado em intrujice/P'la Universidade das Lérias/Onde aprendeu a curar/Das humanidades as misérias!!!/E, se alguma vez não erra/Teria fama em toda a Terra [etc., etc.].

domingo, 30 de dezembro de 2012

A fossa trituradora

O livro é tremendo. Breve mas lento ao ler-se, porque aleija, porque vai encharcando a alma de sentimentos, rememorações, pensamentos. Há nele uma narrativa que lembra o mundo enclausurado de Kafka, também ele checo.
O subterrâneo é o seu lugar alegórico, qual caverna de suplícios, porão de escravidão operária. Mas é um livro sobre a vida.
Hanta trabalha numa prensa que reduz papel a um compacto que, depois de reciclado, dará novo papel. Trinta e cinco anos de trabalho e uma identificação do homem com a sua máquina, da função com o seu destino. Lentamente adivinha-se o final daquele homem tornado carcaça, carcomido pela dor e pelo dever, minado pela contemporaneidade.
O triturado é amálgama do que mais diverso seja papel, sejam sacos poeirentos de cimento, embrulhos sanguinolentos de talhos ou bibliotecas inteiras jogadas para o fosso da inutilização, às quais retira, sem que isso interesse a quem seja, preciosidades que o génio humano encerrou em livro, salvando da morte a ideia como se resgatasse da guilhotina a cabeça que a gerou.
É neste cenário que Bohumil Hrabal constrói esta sua magnífica narrativa, afinal um ensaio sobre a transcendência onde ela menos se espera, feita de asco e de sublimação. Um livro de que se não pode revelar o segredo, pela impossibilidade de o transmitir intacto.
Todos os seus livros são auto-biográficos. Depois deste encomendei outro, agora em edição espanhola e uma sua biografia. O primeiro chegou antes deste fim-de-semana alongado. Lê-lo-ei depois, não sem que deseje voltar a este, a "Uma Solidão Demasiado Ruidosa", publicado já em 1992 pela Afrontamento. A história de uma fossa trituradora, afinal a alquimia essencial do que vive provindo do que morreu.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Ruben A. em biografia

 
Ainda vou a meio e lerei tudo. Estou naquela fase em que raramente deixo um livro por terminar, mesmo quando arrasto a leitura por um longo tempo. É a biografia de Ruben A., escrita por Liberto Cruz e Madalena Carretero Cruz.
É difícil, eu sei, o género biográfico, porque se pode ficar prisioneiro de simpatia ou antipatia pelo biografado, escurecendo os seus maus momentos ou acentuando dele os piores instantes. No caso é mais difícil porque o biografado é um ser incerto, que viveu em desconcerto e em modo errático, porque nele a graça da blague obnubilou muitas vezes o sentimento profundo e as ideias invulgares. Mas sobretudo porque se trata da biografia de quem escreveu a sua própria memória, através dos três volumes do livro O Mundo à minha Procura e os seis das Páginas, tudo narrativas centradas sobre o que viveu e viu viver, entre o luxo fulgurante da abundância de vida e a precariedade dos meios de subsistência com que tantas vezes se viu perseguido, nessas guinadas de altos e baixos dos que verdadeiramente são. De quem escreveu livros que quase ninguém leu e fez disso chiste como consolo.
Talvez falte ao livro aquela chama de alma que Ruben A. colocou em tudo quanto escreveu, aquele modo de ser diferente em que muitos viram o snob outros, não o dandy da Linha, mas sim a manifestação radical, meio anarquista, da estética do absurdo, a provocação, a modernidade. Compreendo que não é fácil captar-lhe do espírito a essência e, nessa faceta, a biografia é por isso mais o relato da viagem do que a dos sobressaltos do viajante. Para se alcançar o pulsar irrequieto daquele cérebro e a síncope daquele coração, que o trairia, é preciso ir-se directo às fontes, à sua ficção, aos diários e reflexões, mesmo ao recentemente editado teatro - para mim o seu género menor, ele que o cultivou como interessado e culto espectador na sua Londres vista a representação de que antes lera o argumento, os estudos académicos sobre o seu D. Pedro V. Os biógrafos foram mas o leitor terá de ir. Visto, assim, a biografia enquanto cronologia cumpriu a sua missão: alicia. Dá vontade de ler do biografado a obra, mesmo àquele que já a leu.
 

domingo, 23 de dezembro de 2012

E que eu sorri

Precisamente neste dia, 23, no ano de 1992, Vergílio Ferreira encerrava a sua "Conta Corrente", o controverso diário, que saiu em duas séries, pela Bertrand. 
Controverso porque intrinsecamente verdadeiro naquela força interior, surgida das entranhas dos sentimentos, mesmo os mesquinhos, que um Homem integral não é só feito de grandeza, a fomentar desencontros e rancores, vindictas mesmo. 
Era uma quarta-feira. 
«Quando é que acaba com isso», perguntara-lhe, amigo, Eduardo Lourenço, dorido por sabê-lo enclausurado na obsessão e vítima do próprio vício. 
Acabaria no final desse mês não sem uma íntima revelação do que seria, depois disso, um seu livro póstumo: «A propósito. Desisti definitivamente das "Cartas a Sandar". Estou fora de jogo».
Terminou o que fora, em vida, uma "Alegria Breve": «Seria, aliás, edificante, que à aproximação do Natal eu acabasse em cânticos à alegria», desejou-se ele, bem sabendo que visava o impossível. E tanta coisa. «E de na execução da minha vida sem sentido poder dizer como Deus que tudo está bem».
De todos os livros que julgo ter lido, e de que me vou esquecendo até dos títulos, de todos quantos se interiorizavam em mim fazendo o que sou, escolhi este. «Alegria, alegria. Vou pensar com muita força que ela existe e me pegou ao colo. E que eu sorri.»
Bom Natal a todos.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Príncipe Perfeito

Ia cometendo o erro da precipitação. Talvez pelo mau feitio de ter ficado pela folha aberta a esmo, em plena livraria, e extrapolar que o livro seria, vista aquela página, devassa de intimidades ou revelação de trivialidades. 
Afinal, ao chegar ao fim da totalidade da leitura retrato-me. É uma obra comovente. Talvez tivesse feito falta uma revisão que desse ao texto maior extensão em alguns momentos e uma outra ordem na sistematização, evitando a natureza esparsa do que surgem como apontamentos de uma vida.
Mas confesso que a biografia de Rómulo de Carvalho escrita pela sua filha surpreende facetas que me eram absolutamente desconhecidas e que mesmo as suas memórias aos vindouros, recentemente editadas pela Fundação Calouste Gulbenkian não conseguem revelar.
Percebe-se que a auto-contenção do biografado o levaria a, numa escrita que lembra a de Irene Lisboa, não trazer a público pela sua pena aquilo que Cristina Carvalho nos revela numa obra pessoalíssima.
Entende-se agora a angústia existencial de quem não temeu a morte receando, sim, a vida, a que nunca se soube adaptar, percebe-se agora como a meticulosidade era, afinal, a sua relação de ordem com o Universo, através da rotina até no mais insignificante pormenor, a figurar o combate tranquilo contra o Caos que ameaçava desintegrar aquele seu frágil e solitário ser, em constante alquimia de sublimação. Alcanço, agora, em que medida este homem não poderia ter privado com heróis e dos grandes da História rezou que lhes faltava um fecho-éclair, como a Filipe II, ou dos vultos dos idos Descobrimentos se ficou pela malta das naus. Sinto, agora, como após a travessia silenciosa de uma vida ressurgiu como António Gedeão, ele que fora o menino prodígio em poesia.
Pulsa pelo livro a grandeza do que é viver a tragédia da incompletude, a ânsia da perfeição, ele a quem alcunharam, pelo porte, pela estatura moral, "O Príncipe Perfeito", a inocência e a dádiva.
Permitam-me de tudo o poema:

«Uns olhos que me olharam com demora,
não sei se por amor se caridade,
fizeram-me pensar na morte, e na saudade
que eu sentiria se morresse agora.
E pensei que da vida não teria
nem saudade nem pena de a perder,
mas que em meus olhos mortos guardaria
certas imagens do que pude ver.
Gostei muito da luz. Gostei de vê-la
de todas as maneiras,
da luz do pirilampo à fria luz da estrela,
do fogo dos incêndios à chama das fogueiras.
Gostei muito de a ver quando cintila
na face de um cristal,
quando trespassa, em lâmina tranquila,
a poeirenta névoa de um pinhal,
quando salta, nas águas, em contorções de cobra,
desfeita em pedrarias de lapidado ceptro,
quando incide num prisma e se desdobra
nas sete cores do espectro.
Também gostei do mar. Gostei de vê-lo em fúria
quando galga lambendo o dorso dos navios,
quando afaga em blandícias de cândida luxúria
a pele morna da areia toda eriçada de calafrios.
E também gostei muito do Jardim da Estrela
com os velhos sentados nos bancos ao sol
e a mãe da pequenita a aconchegá-la no carrinho
e a adormecê-la
e as meninas a correrem atrás das pombas
e os meninos a jogarem ao futebol.

A porta do Jardim, no inverno, ao entardecer,
à hora em que as árvores começam a tomar formas estranhas,
gostei muito de ver
erguer-se a névoa azul do fumo das castanhas.
Também gostei de ver, na rua, os pares de namorados
que se julgam sozinhos no meio de toda a gente,
e se amam com os dedos aflitos, entre cruzados,
de olhos postos nos olhos, angustiadamente.
E gostei de ver as laranjas em montes, nos mercados,
e as mulheres a depenarem galinhas e a proferirem palavras
grosseiras,
e os homens a aguentarem e a travarem os grandes camiões pesados,
e os gatos a miarem e a roçarem-se nas pernas das peixeiras.
Mas ... saudade, saudade propriamente,
essa tenaz que aperta o coração
e deixa na garganta um travo adstringente, essa, não.
Saudade, se a tivesse, só de Aquela
que nas flores se anunciou,
se uma saudade alguém pudesse tê-la
do que não se passou.
De Aquela que morreu antes de eu ter nascido,
ou estará por nascer - quem sabe? - ou talvez ande
nalgum atalho deste mundo grande
para lá dos confins do horizonte perdido.
Triste de quem não tem,
na hora que se esfuma,
saudades de ninguém
nem de coisa nenhuma.»

domingo, 28 de outubro de 2012

Um jogo de cartas

Dirão que é o fetiche do voyeurismo, ou o desejo de surpreender nos grandes a minha própria vulgaridade, consolando-me e menosprezando-me um pouco menos, tudo sentimentos dos insuficientes. Mas gosto de ler cartas de vultos da cultura de que conhecemos apenas a sombra das biografias ou a luz da sua obra.
Desta feita consegui ler, em dois fôlegos, aquelas que, a partir de Paris, António José Saraiva, trocou com Luísa da Costa entre 1961 e 1965.
Cartas de um apaixonado pela cultura, a viver a revolta controlada do desprezo a que havia sido votado desde que deixara, exigente, as fileiras de onde surgira o neo-realismo, escrevendo a "António Vale" uma carta que nunca teve resposta.
Cartas de um expatriado, dividido o quotidiano entre o estudo da obra dos Jesuítas e a melhor técnica de lavar pratos com água quente e detergente líquido Lux.
Cartas incertas, mas sempre gratas, atenciosas no estilo e cuidadosas na forma, a pedir desculpa se a caneta com que eram escritas não desse boa caligrafia mas estava à experiência.
Cartas em que se entende quanto este homem pagou pelas polémicas em que se envolveu, a propósito do que escreveu sobre a Inquisição e temas que sabia malditos e quanta falta lhe fez o carinho o núcleo de uma família de que se exilou.
Através delas sente-se ser possível o mundo que nos surge hoje compendiado em livros, assiste-se ao nascer da ideia, ao retorcer-se de uma alma por ela, aos anseios do corpo pela vida.
Quanto a História da Literatura que escreveu a meias com Óscar Lopes, me pareceu, enfim, uma obra de intrínseca humanidade.
É um livro pequeno, magnífico, editado pela Gradiva. Li-o, antes de partir para estes dias de recolhimento, reconstruindo-me naquilo que é o fruto da incapacidade e da incerteza.
Levei dele comigo o espírito que é o que fica quando nos esquecemos do que lemos.
De resto, que é a vida, no seu errante jogo, mais do que ter sido vivida e não o modo como se viveu?

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Je te casse la figure, Paul!


As minhas graves lacunas culturais em matéria de Literatura são no que se refere a autores estrangeiros. Isso deve-se a várias circunstâncias, que eu consiga objectivar. 
Primeiro, a preconceitos, que eu sei que é realidade horrível em quem se julga um espírito livre. Mas tenho-os, um deles é haver uma rejeição quase instintiva a ler o que toda a gente, de repente, começou a dizer que leu. Foi por isso que nunca li o Paul Auster. 
Depois o preconceito de que os melhores escritores americanos são aqueles que são europeus de mentalidade. E foi por esse motivo que nunca li o Paul Auster. 
Enfim, por ter o hábito de, quando gosto de um autor querer comprar e ler a obra completa e não apenas os livros que se assume definirem o melhor da sua escrita, tal é o desejo de querer conhecer também o pior e por isso o escritor em si, e há quem tenha escrito uma estante já difícil de ler no tempo que me resta de vida. Eis porque nunca li o Paul Auster.
Um destes dias encontrei o Diário de Inverno, precisamente do Paul Auster. 
Acho que o vira citado num jornal literário. E comecei a ler, em deslumbramento, as «memórias» do Paul Auster. 
O deslumbramento nascia da simplicidade da linguagem, porque o Paul Auster é tipicamente americano e das referências ao quotidiano reconhecível na vida de toda a gente e por isso imensa gente se revê ali. Além disso falava dos livros que foi escrevendo quase sem os nomear e dava-me a ilusão de que eu assim iludia o facto de nada ter lido do que era a sua extensa obra.
Estava a resolver-me com ele e contente com isso, como se tivéssemos feito as pazes, reconciliando ressentimentos.
Houve então o momento em que, leitura que se estava a tornar vertiginosa ele descrevia, página após página, as casas onde viveu e eu, que ao início achei a ideia um achado, comecei a saturar-me, perguntando-me se não se seria já escrita a metro para satisfazer o voyeurismo do leitor. 
Depois vieram os pormenores da mãe alcoólica, da avó que matara o avô a tiro e o arrazoado da tia coscuvilheira e maledicente mais as mulheres com quem dormiu e eu já me perguntava se aquilo não era devassa de intimidades próprias e alheias e exposição das lepras familiares como os pedintes medievais à porta das igrejas.
Foi quando ele entrou na explicação do "esquentamento" que apanhou em jovem e do líquido verde que lhe saía , dolorosamente, pela ponta da "pila", o urinar um ardor, que eu disse «basta». A "pila" do Paulo Auster já vai muito para além dos meus interesses literários.
Felizmente estou quase no fim da breve obra e por isso posse decretar que já li este livro do Paulo Auster.
Perguntei entretanto já não sei a quem porque é ele tão lido e tão falado e disseram-me que, para além do mais, porque é um homem muito bonito e as mulheres adoram a figura e são as mulheres quem hoje mais lê. Terrível isso. Porque um dos meus atavismos absolutamente nascidos do facto de ter nascido no mato, é essa repulsa para que os puxam pelo corpinho para terem valor intelectual ou os cujo valor também resulta disso mesmo, de terem nascido prendados na aparência. E lá se foi o Paul Auster.
Convençam-me que é um grande escritor, que merece ser lido, porque eu agora, com sinceridade, estou em dúvida, e até já com pena do homem, porque pode não ter culpa de ser no que se tornou nem daquela masculinidade morena e de olhar profundo e doce, farto cabelo em banda larga que lhe dão o tom e a pose.
Estou a escrever estas linhas numa madrugada de insónias, os sonos trocados pelo cansaço, e fui dar uma olhadela ainda a umas folhas do livro, para ver se o salvava. Azar: calhei naquelas em que ele descreve as mil e uma coisas que fez com a mão direita. São páginas sobre isso. Desisto.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O Concerto Interior

Disseram-me da livraria que já o tinham e, regressado do Tribunal, fui buscá-lo. Li-o neste fim de tarde, em ordem arbitrária, apesar de ser uma biografia «evocações de um poeta», detendo-me sobre o que foi a sua vida como advogado - e meu Bastonário na Ordem que é a da minha profissão - e, seguindo, em trilho errático, pelas memórias do tempo vivido, o convívio com a literatura, as raízes da sua família. 
«O título devia ser "Breve Autobiografia". Só que dezenas de pessoas, de parentes, animais, bichos, árvores, trabalhadores rurais, que estão dentro dele, disseram já muito do que tinham a dizer». É assim, com este mote como se de São Francisco de Assis que o poeta António Osório abre esta narrativa na primeira pessoa, que acaba por ser singular porque resumida, como se um desfolhar da agenda de uma vida, recordando os prazos e as diligências que deram da vida o ser ao advogado António Osório de Castro.
Vim aqui escrever pelo que me comoveu a referência que faz a sua Mãe, ao publicar-lhe, da intimidade, uma das cartas que escreveu ao marido, desde que faleceu, e que regularmente lhe levava ao cemitério no Alto de São João. 
Trata-se da primeira, redigida a 19 de Janeiro de 1968, no seu italiano natal, «um poema sem uma palavra a mais»:

«Caro Miguel
Non posso vivere lontano da te. Più il tempo passa e più sento la tua mancanza, anche nelle minime cose. La mia vita al tuo lato è sata una completa felicità, fra due periodi tormentosi. Quando giovanni, ho sofferto tanto per aspettarti: adesso sofro di pi`perchè sei che aspetti me. A riverdeci, Miguel carissimo La tua Giú».

Se um dia perguntarem o que é o amor, físico e para além dele, o amor integral, intangível e indizível, está aqui, no livro O Concerto Interior.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Agustina: a obra incompleta

As Artes Entre as Letras dedicou largo espaço deste seu último número aos 90 anos de idade de Agutina Bessa-Luís. Autora de tanto livro esgotado, ela que aquilo para que nasceu foi para escrever.
A propósito disso mesmo Isabel Ponce de Leão escreve o que me permito citar pois que sintomático e exemplar: «Quando foi anunciada a publicação da Opera Omnia - edição ne varietur  das obras completas de Agustina - pela Guimarães Editores, chancela da Babel, já o acesso a certos volumes era praticamente impossível e, faltando-me alguns, dirigi-me alegremente à editora, no Edifício da Biblioteca Nacional e, avisadamente, comprei e paguei antecipadamente a obra completa que ficou de me ser enviada à medida que os diversos volumes fossem publicados. Corria o ano de 2008 e fui informada que a obra completa seria publicada aproximadamente até 2010, De facto, desde 2010 que não recebo qualquer volume nem satisafção, mas o número de volumes recebidos quedou-se em dez...sendo como é, a obra de Agustina composta por cerca de uma centena de títulos».
O trecho citado dispensa comentários pela corajosa clareza. Fica a questão enunciada e a dúvida em aberto: que irá suceder ao resto da obra, cujos direitos foram adquiridos e corre o risco de não ver, nesta edição, a luz do dia?
No mesmo jornal perguntada sobre «em que que ponto se encontra a reedição da obra completa de Agustina Bessa-Luis?» responde sua filha a escritora Mónica Baldaque: «a retomar em breve.»

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Aparição

Comprar livros que já temos e que julgamos já ter em mais do que um exemplar. Mas comprar porque a capa é encadernada e a encadernação atrai, no caso um esboço de colunas romanas, e tentam sê-lo, no caso as do templo de Diana e o livro é a Aparição de Vergílio Ferreira. 
Comprar, mau grado o livro ter-se vulgarizado, tão obrigatório como livro escolar, e correr o risco de se tornar odiado e depois esquecido, apesar de ser do autor o que se tornou mais reconhecível e com ele indissociável porque é a narrativa de um professor, como ele foi, e em Évora, onde ele esteve.
Comprar assim, porque é assim que se mostra aos próprios olhos ser definitivo o primeiro momento, em que a «mão de semeador bíblico» de um dos figurantes do romance me marcou definitivamente a sensibilidade e o livro se me impregnou como uma pele, arrastando consigo a imagem e o símbolo e o modo de expressão e com tudo o que é a grande Literatura e um notável escritor e depois disso acumulei, um a um, o que não consegui ser a obra toda. 
«Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro», assim abre o livro. Como neste instante. A memória está apagar-se. Talvez por pressenti-lo comprei ontem o mesmo livro. Sabendo que o tinha. Para que perdurasse a ideia de que o tinha. Não nesta edição que aqui publico, Uma outra. Mais uma edição do mesmo texto.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O Bem e o Mal

Só a ilusão dos citadinos de que o Portugal dos livros de Camilo Castelo Branco desapareceu, ido o mundo rural, avassaladora que se tornou a sociedade de serviços, é que nos impediria de o ler e com o maior agrado e sobretudo recreação.
Não, aquele mundo subsiste porque traduz a alma portuguesa e o modo de ser de pessoas que ainda hoje reconhecemos, mesmo que expatriados nas cidades.
Podem as classes sociais já não conterem o domínio arrogante dos titulares, cujo "Dom" já era só por si uma fortuna, ou o o clero já não conter aquelas figuras de "reverendos vigários", nomeados pelo Governo, para lugares de pingues côngruas que tornavam o púlpito almejado conforto, ou todos os outros da extensa galeria de vidas feitos actores da narrativa.
Mas, descontadas as roupagens, desconsiderados os intérpretes, as personagens subsistem.
Digo isto ao estar a meio da leitura de O Bem e o Mal, «novela» de amores recusados por serem inconveniências os de filho de carpinteiro com donzela brasonada e da mais antiga estirpe, paixão negada pelos interesses da família, mas abençoada, afinal, pela integridade mural de um cura aldeão, caso, afinal, de humildade vencedora.
Não falarei do livro, não por não ter ainda terminado a leitura, mas porque, lendo seguindo mais o modo de contar a historia do que a história tal como é contada, confundo ainda as sombras das figuras deste magnífico teatro e sobretudo em cada capítulo há uma surpresa que aguarda.
Cito, sim, do prefácio a esta segunda edição, que surgiu na época erroneamente como sendo a terceira: «Foi vagarosa a saída da primeira edição deste livro. É óbvia, e ao mesmo passo, desconsoladora a explicação. A novela não perdeu por mal escrita; mas por mal pensada. Quanto a linguagem, tanto montava o quilate desta como o das suas irmãs. A incorrecção é o castigo de quem escreve muito à pressa para ir acabando mais devagar. Em Portugal é preciso isto».

sábado, 18 de agosto de 2012

A magnificência e a imundície

Estou quase a acabar de ler Os Últimos Dias de Pequim de Pierre Loti. Leio-o na edição da Lello, não a de 1990 sim numa publicada sem data, num exemplar que a alguém pertenceu em 1942. 
Livro que relata uma expedição militar do autor à China, enquanto comandante de Marinha, no quadro de uma força militar internacional que invadiu aquele País em nome do combate à guerra dos "boxers", este é uma travessia pelos territórios do sublime e do sórdido, acumula-se por páginas que doem ao ler pelo relato descarnado da violência indescritível e bestial e páginas que são devaneio para a sensibilidade ao descreverem, com minúcia e sensibilidade, a milenária China e os seus imutáveis habitantes.
Traduzido pelo seareiro Raúl Proença, é um excelente exemplo daquela Literatura de viagens em que nos sentimentos passageiros, ademais pelos confins viciantes do Oriente.
Tudo começa, sob um céu cheio de estrelas, no mar, a 24 de Setembro de 1900, o navio a ter feito cinco mil léguas, «quase sem respirar, dando constantemente, por minuto, quarenta e oito voltas da sua hélice». Invisíveis as montanhas da Mongólia aguardam-no como limite.
Prepare-se quem ler. Irá cruzar-se com cenas que lhe marcarão a alma, uma narrativa circular, a terminar quando aqueles por causa de cuja ferocidade contra os estrangeiros cristãos foi levada a cabo aquela expedição militar, agora, submissos, numa aparente docilidade, os servem, sobretudo aos franceses. 
«Sob a nuvem de carvão de pedra, começam a delinear-se coisas extra-longínquas, só perceptíveis a olhos de marinheiros», diz Loti a anunciar o horizonte. Na amurada, quem lê, afina a vista, preparando-se para saber surpreender sem que a surpresa o atinja primeiro.
O cenário é o de uma guerra de ocupação já sem tiros. A barbárie tinha passado já, carnívora, estorpiando, violando, profanando. 
A 3 de Outubro fundeia-se na praia de Ning-Hai: «cossacos, austríacos, alemães, midships ingleses ao lado dos nossos marujos amados; soldadinhos do Japão, espantosos de correcção no seu porte militar, com os seus novos fardamentos à europeia; damas louras, da Cruz Vermelha da Rússia, azafamadas, a desenfardar material de ambulâncias». A mesma Alemanha que em 1870 estivera em conflito aberto com a França une-se-lhe. A política é sem porquê.
Cumprida a missão, Loti regressará em Maio do ano seguinte. Na dedicatória ao Almirante lembra quanto viu mas não esquece os seus homens que, acantonados nos navios, viveram entre a fornalha e a clausura. Convivera com a eternidade, com a magnificência, com a mais rasca imundície. É esta a grandeza da vida para quem a vive na totalidade.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Um desencantado da República


Chegou hoje pelo correio, um livro em formato fascículo, escrito por Machado Santos.
Herói da República, aguentou-se com um grupo de bravos na Rotunda, contribuindo para a inversão das forças que levariam à queda da Monarquia. Filiado na Carbonária, morreria assassinado em 1921. Leia-se sobre ele mais aqui. A sua vida é bem a imagem do gérmen que levaria cinco anos após a sua morte ao Estado Novo.
Desencantado, este seu escrito de 1916 é bem o retrato da desilusão. Editado pela Papelaria e Tipografia Liberty, de Lamas e Franlkin, com loja na Rua do Sacramento, 88-90, nele se relata: «Fizemos o possível para que a República não viesse a transformar-se n'uma roça que fosse propriedade dos seus três grandes caudilhos que a têm administrado em comandita. Infelizmente a morte de Miguel Bombarda e a de Cândido dos Reis, que se lhe seguiu, tudo nos transtornou. A morte e a traição; pois que rendo de se preencher, apenas, as vagas desses homens ilustres, houve quem aquiescesse, sem o nosso consentimento, a alteração profunda que se fez na constituição do primeiro governo da República, que deveria ter sido esta:
 
Presidência e Interior: Bazílio Teles
Justiça: José de Castro
Fazenda: Inocêncio Camacho
Guerra: Ramos da Costa
Marinha e Colónias: Carlos Cândido dos Reis
Negócios Estrangeiros: Miguel Bombarda
Obras Públicas: António José de Almeida».

Como se sabe o primeiro governo provisório da República ficaria assim formado:

Presidência: Teófilo Braga
Interior: António José de Almeida
Justiça e Cultos: Afonso Costa
Finanças: Basílio Teles, uns dias depois substituído por José Relvas
Estrangeiros: Bernardino Machado
Fomento: António Luís Gomes
Guerra: António Xavier Correia Barreto
Marinha: Amaro de Azevedo Gomes


«Com um governo assim constituído n'uma situação tão anormal fatalmente havia de passar para a rua a anarquia que lavrava nos espíritos», conclui o autor.

sábado, 11 de agosto de 2012

Memórias do Cárcere

Encontrei-o! Na Livraria Esperança no Funchal. Depois de ter tentado em vão em outros lugares. Depois de o meu amigo Abel ter procurado encontrá-lo para me obsequiar com ele: o livro As Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos, livro inconcluso, originariamente editado por José Olympo, em 1953. Ficaram-me os olhos no exemplares da edição da Caminho, encadernados, em bom papel, letra mais legível, mas a diferença do custo para os que a Europa América editou era significativa.
Doeu-me ter hesitado por causa do preço e ter-me conformado com o mais barato, como quem dá consigo a uma esquina, mão estendida, a pedir livros. Mas há um momento em que tem de ser o bom senso a imperar, ou o conformismo revoltante.
Regressado, deixei-os em Lisboa, aos dois volumes, mais dois outros do mesmo magnífico autor. Esgotara já o que estava também na estante, o Vidas Secas, alcançados estes trepado num escadote. Na viagem li apenas o prefácio, de uma coragem e sensibilidade invulgares. De uma honradez que é exemplo.

domingo, 29 de julho de 2012

Ímpia piedade

Não o conhecia. Há quem tenha pudor em admitir realidades destas. Não é o meu caso. Só tardiamente ganhei cultura literária. Tenho lacunas imperdoáveis. Mesmo falando-se de Henry de Monteherlant, da Academia Francesa, sobre o qual há imenso escrito [veja-se aqui e aqui] e uma latente polémica em torno dos seus amores sobretudo quando homossexuais e do que exprimiu sobre o feminino. E, no entanto, sem grosseria. A elegância pode ser escandalosa quando doce.
Li a passada semana, Piedade para as Mulheres, volume da tetralogia Les jeunes filles. Chegou-me oferecido inesperadamente, dado por quem o tinha que é a forma mais generosa de dar.
O romance é prodigioso na técnica literária, somando a narrativa em que a personagem e o autor se intrometem, o primeiro como figura central da descrição, a que dá voz, o segundo com ele contracenando e por vezes desmentindo-o ou rectificando-o, e tudo em justaposição com cartas, excertos de diário e apontamentos breves que surgem, como se não vindo ao caso, a dar ao conjunto a força apelativa da surpresa permanente.
Filosofia misógina, dir-se-ia naquela forma redutora como estas questões são normalmente tratadas quando não canónicas, com decaídas de vulgaridade é certo, mas a fazer, no entanto, esperas constantes ao leitor, tornando-o presa do que é a notável argúcia na observação e a fina complexidade na avaliação da extraordinária riqueza da vida. Ainda que discutível, mesmo a não resistir à revisão do que se sublinhou.
Livro sobre o amor e seus demónios, sobe vertiginosamente da dorida luxúria à alegria sádica, vítima e algoz a confundirem-se, bem e mal a tornarem-se indistintos, mundo do «em quem confiaríamos se não confiássemos nos que não conhecemos?», paradoxo moral cuja periculosidade é, afinal, uma das chaves da compreensão desta obra, em que, parafraseando se «torna o amador na coisa amada».
Biográfico, numa desconfortável medida porque oculta, história em que o desamor pelas mulheres irrompe travestido em mal-entendido ressentido, em que o ser-se contra a natureza por ser-se contra os costumes se torna apenas como uma das muitas máscaras de reserva de um autor que se esconde e demonstra com igual convicção e falta de sinceridade.
Final vulgar, reles mesmo, como que a assinalar, em despejos, o pantagruélico festim, exauridas as possibilidades até ao momento em que, como nos Evangelhos, o homem: «mulher, o que há entre mim e ti?». Vazio, nada, o zero apto à esperança do recomeço. «Um escritor digno desse nome é sempre um monstro». Montherlant, sátiro, dixit.



O passageiro do navio do nunca

Li-o e sempre a compará-lo com Wenceslau de Moraes. Não conseguiu, como este, florescer no jardim da sua alma a cultura oriental, talvez porque aquele teve o privilégio de rumar da China ao Japão e colher do perfume floral do sentir a verdadeira essência. Também não alcançou aquele vértice de despojamento errante, temível de grandeza mesmo quando a roçar a miséria.
Camilo Pessanha esgotou-se numa obra sem ter querido escrevê-la enquanto livro, a Clepsidra. Tudo o mais não lhe sobejou, dizimado por um filho desprezado, pelo seu esvaimento em vida, pela displicência com que sobrevivia ante o materialismo necessário dos cargos públicos de que pouco fruia.
António Dias Miguel encontrou-lhe o rasto, buscando-o aos primórdios por Lamego, menino, ele que não se lembrava de ter tido infância, e seguiu-lhe até ao rastejar moribundo, trazido à luz pela ilusão do ópio, vivendo entre o ambiente confuso e mal arrumado de uma quarto onde se confinava, qual junco «do incessante naufrágio que tem sido a minha pobre vida», passageiro de bordo de um navio que gostaria fosse sem destino «a não chegar ao meu sítio nunca».
Europeu por natureza, expatriado por necessidade, sabia que «os ossos, mesquinhos, ai de mim! esses pertencem, por um destino invencível e absurdo, ao chão antipático do exílio».
O seu espólio encontra-se na Biblioteca Nacional [ver, por exemplo, aqui]. O possível.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A simplicidade de Deus

Abre grandiloquente e depois, um pouco a seguir ao meio do primeiro volume, dilui-se na intriga da pequena política e seus actores. Por momentos a escrita tenta aí erguer-se, em voo largo, mas falta-lhe asa e logo baixa ao rasteiro do comentário por vezes brejeiro. Surpreender-se-à aí El-Rei Dom Carlos, na vertente que o perdeu, fulminado como o «caçador Simão» pela pena então iconoclasta de Guerra Junqueiro, com ele a Monaquia agonizante, entre a Parada e a alcova alcovitada, o espectro do regicídio no horizonte, os partidos fracturando-se e com eles a Nação.
São as Memórias de Raul Brandão. Leio-as, e no seu pórtico a retumbância: «Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho poído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra».
Que dizer dessa portentosa escrita, vivida naquela «época horrível», de um horror «porque já não cremos e não cremos ainda», de uma História que «tanto se faz com a verdade como com a mentira»? São crónicas do Passeio Público e da Feira das Vaidades, e retratos burlescos, de gente que hoje são vultos informes, como «o Schwalbach, sempre aflito e sempre despreocupado», ainda do Eça, que «usou toda a vida bentinhos ao pescoço», o Ramalho melhor definido como «um pinheiro com uma melancia em cima». 
Sim, isso tudo mas também geniais momentos, arrancados ao peito onde se esconde a piedade amorosa, sobre o Gomes Leal e o Fialho, sobre a penúria e a compulsão, este «um doente com inveja das doenças dos outros», «dilacerando dilacerando-se», aquele «encolhido e friorento», carcomido pela necessidade e, no entanto, voraz ante a vida, e Fernandes Tomaz, «outro homem adorável que morre, mas felizmente não sabe que morre».
Escrevo esta noite. E esta última frase solta-se como uma tristeza que vogasse, errática, pela sala vazia onde me surge. E penso com ele: «Deus é muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me - não o sei explicar».

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Viajando com a Justiça na mala

Há muitos Advogados escritores. Quanto à maioria a escrita acabou por devorar a advocacia, tida por indigesta. É o caso de Alçada Baptista, ou mais recente Graça Moura, ou mais antigo Rodrigues Miguéis.
A vida forense dá material humano, cenário, contexto e pretexto para a escrita. Depois, quando se é Advogado, escreve-se como se defende uma causa. É assim o livro de Francisco Teixeira da Mota sobre Henrique Galvão [ou permita-se a referência pessoal] a minha biografia de Rogério de Menezes.
Numa viagem de comboio li o que já trazia há semanas para ler, o pequeno livro de crónicas de Rui Patrício.
O autor tem rasgo para a observação, o olhar atento, mesmo quando oblíquo, sobretudo quando sobre a invulgaridade, como ao escrever sobre a linha serpentina da beleza. E tem estilo literário para contar, criando no leitor a ilusão do local e tornando a leitura um desfolhar.
"Mapa-Múndi" da Justiça [e o acento deve-se ao facto de a expressão estar aportuguesada porque no latim mapa dobrava o p e inexistem acentos] tem talvez de desnecessário a super-abundância de lugares exóticos, a gerar a pergunta, que o próprio assumiu como sendo a óbvia, sobre se ele teria de facto estado em tantos lugares quantos aqueles. E poderia ter evitado a menção pessoal à presença em tantos hotéis de cinco estrelas. É que, se bem que em época de crise as pessoas gostem de fantasiar o luxo que não têm, e assim era lido Graham Greene nos tempos duros do Guerra, descrevendo iguarias e locais se não sumptuosos ao menos aprazíveis, na época que todos sofremos duvido que isso gere aproximação, fomentando talvez distância. 
Li o livro do fim para o princípio e do princípio para o fim. Quando se aproximava a terra de ninguém do meio da obra reconhecia que no panorama tão generalizado de incultura, em que há quem faça gáudio em proclamar que, por causa da profissão, há anos que não lê um livro que não seja jurídico, ainda há oásis de diferença.
Um livro não faz um escritor. A crónica é um exercício. Escrever breve é uma arte. Nisso o autor tem de trabalhar a escrita. Os livros de viagens são uma espécie difícil porque há o lado feio que o Guia Michelin evita.

domingo, 3 de junho de 2012

Ode em viagem

Métrica irregular, exaltação sentimental, está na ode a odisseia e o clamor, a turba coral, o ser e tudo quanto é. Não é um declamar mas um gritar, não o grito mas o coro da revolta. É sobretudo o homem soerguer-se em nome de toda a sua humanidade.
Lemo-lo e torna-se impossível não encontrar ecos nossos de um Pessoa, a irmandade com um Almada, ou nele não surpreender a desordem clamorosa de um Ezra Pound.
Falo hoje da Ode em Viagem, a sua edição de Março deste ano, editada pela Livros do Mundo
Falo, porque decorreu o tempo em que a li, lendo em alta voz, para ser ouvido e fazendo respirar no meu ser a insuflada declamação, porque exausto, enfim, o esgotamento do grande final, o pico extático em que «terra à vista!» se toca o chão, «suave e frágil, como não haver destino» e onde «tudo está certo».
Deixem-me dizer que Fernando Cabrita é tanto mais excelente quanto mais se afasta da óbvia referência ao reconhecível pelo conhecimento e voa, poeta alado, pelo mundo simbólico das menções significativas intuíveis pela sensação. 
E excelente quanto mais se sente no seu coração de leão não o homem transitório do que é precário, ainda que português, mas o pulsar das dores, aflições e risos em clímax de todos quantos ecoamos na sua voz, no mais, emudecidos ante o eco.
Poema de argonauta, herdeiro dos tempos corajosos do que foi a procela marítima que nos levou às Índias da maravilha, ou a eternamente ficar no cais da saudade, um volante a rodar, alucinado, dentro de nós, a mala eternamente por fazer, é ele hoje, neste poema, sonho fantástico e loucura de imaginação, comandante e equipagem, passageiros e viagem, rota e destino nessa magnífica ave mecânica que se auto-sustenta sobre os céus «vogando etéreo como um cometa sem idade», ah «ó aviões que partem para toda a parte e para parte nenhuma!», nave que «desliza no meu sonho, entre sonhos que se vão».
Sobre tudo quanto existe e sobre tudo quanto poderia existir «tudo morre de novo, instante a instante, e de novo renasce, em ressureição vivaz, e zumbem conversas, e entrechocam-se passagens, e ouvem-se línguas diversas e diversas vaidade».
Magnífico! Magnífico! Viva!
Fernando Cabrita, advogado por acidente momentâneo, poeta por definitividade, viva! Entre a «fuzilaria de sons inúteis e de invisíveis silêncios» a tua voz troveja, agigantando-se em poema!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O território do Amor

Eterna como o acto de escrever ou o acto de contar para os que não sabem escrever, a narrativa do Amor, é a expressão mais lídima da Literatura. Porque nela se joga a totalidade do Homem, o carnal ser e a inexplicável alma. Porque nela se cruzam as miríades de acasos de cujo fruto surge a existência. Porque ela é, afinal, a História da Humanidade.
Há seguramente romances de ideias, poemas sobre sensações, relatos de epopeias. Mas o que são os primeiros se não a exteriorização fria de um sentir cristalizado? O que são os segundos do que condensações miríficas de um extenso e intenso viver? O que são estas últimas do que a toada da paixão, heróica, guerreira, contos de sedução, conquista e despojamento?
Lembrei tudo isto ao ter encerrado esta manhã a Noite Bengali, o romance de Mircea Eliade, que pressinto auto-biográfico. Escrito em 1933.
O livro enleia-se com o leitor, num amplexo que lentamente o envolve, docemente ingénuo no princípio, o que se conta como se saído, balbuciante, dos lábios da inocência. Depois são todas as idades pelas quais o homem se faz homem, o surgir do desejo no território da contemplação.
Através do cerimonial do encantamento, Maitreyi incensa, como um perfume essencial, o espírito imaturo de um europeu, prático mesmo que sensível, incerto nas suas convicções de cristão e de homem branco, povoa-lhe, como uma hipnose os murmúrios do seu sentir até ali esvaziado em trivialidades, fere-o até que a dor não doa, a capacidade de a carne desejar a sua carne, um corpo atrair-se por outro corpo.
Romance de amor em meio hostil, está nele presente o território racial da Índia e sua brutalidade, o horizonte da sua ancestralidade, ainda que incompreensível. Mas é sobretudo um romance sobre a ilusão enovelante da paixão, os rasgões do ciúme no coração, a busca dos Himalaias do Absoluto a tornar-se uma caricatura grotesca pelo desastre quotidiano no Ganges do relativo.
Só talvez em alfarrabistas se encontre a obra. Nem sei se aí. Lia-a. Aos poucos tenho reunido muito do que o seu autor escreveu, no âmbito da História das Religiões, das Filosofias Orientais, do Esoterismo. Sinto-o como um vizinho por ter vivido aqui perto de mim. Está morto e nós ainda não. Ao lê-lo trazemo-lo à vida. Entre os que tudo avaliam pela política uns odiá-lo-ão como a Ezra Pound, rendidos, porém, à secreta confissão darendição ante a genialidade. É este o local próprio para aferir do génio quando se perde pela floresta do Amor, noctívago, sonhador, e nos conta como foi. Mansamente.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Carta ao Futuro

Começara a lê-lo na Biblioteca Pública Municipal do Porto, mas não conseguia concentrar-me. Não pela complexidade da escrita, mas pela densidade do sentimento que induz, a profundidade de pensamentos a que nos conduzem as palavras. Dispersei-me, voltei atrás. Requisitei-o, enfim. Trouxe-o comigo em busca do tempo e do lugar. No dia 19 terei de o devolver. Lá estarei. 
Comprei-o, entretanto, já não na edição primitiva da Bertrand, sim, na reedição da Quetzal, agora publicada. Não pela posse mas para o não perder, porque os livros hoje circulam entre os expositores das livrarias e as guilhotinas dos editores, reciclando o que tenha pouca venda, para poder sublinhar a frase, o trecho, toda a página, anotando, numa osmose entre o leitor e o lido o escritor e o que deixou escrito.
Comecei a lê-lo ontem à noite ainda, talvez na melhor hora, em que o silêncio amigo nos protege na esfera íntima do recolhimento, o corpo fatigado, os sentidos, enfim, tranquilizados. Madrugada, já.
É uma carta, escrita a partir de Évora, lugar simbólico do seu professorado, a cidade que «ignora a exactidão do presente, conhece apenas o alarme da memória», cosmos de onde surgiu o marco miliário da sua escrita, o percurso iniciado com a Aparição
Uma carta que faz nascer vontade de escrever cartas, todas as cartas que digam tudo quanto há para dizer a pessoas a quem nunca o dissemos, a quem nunca escrevemos, àqueles que há tanto tempo nos escreveram. Uma Carta ao Futuro.
Regressei agora ao mesmo lugar, este sofá junto à janela de onde contemplo a frondosa árvore que a iluminação pública incendeia, lugar de vigília, zumbindo, autómatos, os automóveis e seus destinos de monotonia mecânica. Aqui estou, Vergílio Ferreira. Retomo a leitura. «Tenho apenas esta vida para viver, e seria uma traição que eu faltasse à sua entrevista - essa entrevista combinada desde toda a eternidade», dizes, e como eu te compreendo na transitoriedade das coisas, na eternidade da existência.

sábado, 12 de maio de 2012

Um livro por acabar, uma vida por esgotar

Ganhei o hábito de escrever sobre os livros que estou a ler pouco tempo depois de ter iniciado a leitura, assim como pouco antes de a ter concluído. Não sei qual a razão mas na vida nem tudo tem de ter uma explicação.
Guiado pela inflamada biografia que dele escreveu Stefan Zweig, iniciei a obra de Fiódor Dostoiewski com o seu primeiro livro "Gente Pobre" ou "Pobre Gente" como se deu título em algumas traduções.
Leio na versão da Editorial Presença, por ter sido traduzido directamente do russo por Nina Guerra e Filipe Guerra.
Estava prevenido para duas circunstâncias que a leitura confirma nesta breve e aparentemente simples obra.
Primeiro, que tal como na monótona estepe se acentua qualquer saliência desconforme com a chã planície, também aqui, depois de páginas de superficial vulgaridade, porque a vida dos quase sem nada é uma vida com muito pouco, há a inesperada grandiloquência dos momentos em que o leitor sente a visitação de um sentir que o agride na cicatriz do já dorido. E para isso é preciso a paciência de quem lê, o saber esperar que a beleza irrompa, tal como na Natureza do longo inverno que irrompa a primeira flor primaveril. Uma beleza ferida, porque não há gente feliz nem os que, na abundância do ter, poderiam estar melhor e por isso bem.
É talvez a segunda faceta que caracteriza, porém, melhor este modo de escrever, que já se pressentia aos vinte e quatro anos da vida do autor e que, segundo aqueles que a conhecem, lhe assinalar a peculiaridade de toda a obra: é a não linearidade das personagens, não só pelos seus labirintos interiores, mas pela mutação quase imperceptível que nos vão trazendo e que no final se resolve tornando-os os outros de si próprios.
No livro, na aparente individualidade de cada pessoa jogam-se, em constante dissonância, as gradações do Ser e até a sua negação, que vão gerando, como num jogo de sombras, cambiantes no cromatismo dos cinzentos em que a trama se desenvolve, a negritude da clausura sempre presente, em que só a memória traz a nitidez do soalheiro e da arborescência e seus odores. E, no entanto, no seu dar-se ao que não eram está a essência intrínseca do que, afinal, são.
No caso é uma história de duas profundas misérias, numa delas talvez mais patente a da vergonha pública ante a ostensiva pobreza e irremediável, noutra a do impudor de aceitar sabendo que se tira da quem dá porque há a necessidade feita inevitabilidade.
Temperada com o equívoco perverso de uma relação que começa como a de uma dedicação, sempre espistolar, serôdia, embora, de um modesto funcionário face a a uma quase púbere adolescente e se transmuta, na alma em botão daquela figurinha a quem, enfim, alguém se dedica, num enamoramento que lhe incendeia os sentidos, a narrativa vai correndo todos os cambiantes subterrâneos do rebaixamento, no final, ele, arrastando-se entre a vileza e a humilhação, alcoolizado, ela a partir, levada, a história interrompida com o cerimonial do adeus.
Calculo que terminará assim, pois ainda não acabei a leitura.
Há livros que gostaríamos de não terminar para poder interferir na vida das personagens e dar-lhe um final feliz.Como na nossa vida, vivendo eternamente, o Amor até ao ómega de um alfa amoroso que nos deu o ser.


sábado, 5 de maio de 2012

Stefan Zweig: o tormento de Deus

Não me canso de o repetir: é um extraordinário escritor. Mesmo que esteja esquecido, ainda que confinado às prateleiras do mundo de ontem. 
Stefan Zweig joga-se, na integralidade do seu ser, do seu corpo e alma, da sua intimidade e de toda a sua história para dentro dos livros que escreve. E esventra aquele sobre quem escreve, dilacerando aqueles para quem escreve. É nesta carnificina brutal em que os seres se despedaçam que o mundo, na sua unidade, síntese de contrários, fruto de antagonismos, que se exprime a sua Literatura. 
E, no entanto, na aparência, a indumentária cuidado, o rosto aprimorado, o fundo imperscrutável dos seus olhos, sugerir-se-ia o pacato burguês, quotidiano, em paz consigo e com o seu conveniente mundo.
Teria o fim trágico em que viveu. Não foi mais um clímax estrelar pulverizando a galáxia do seu cosmos, foi só o fim do corpo, a interrupção da vida. Esgotara-se. Suicidou-se com sua mulher. A última página agonia os sentidos, as mãos dadas, já só o resíduo dos corpos como se tivessem sido inabitados, sós como se o mundo já não existisse.
Leio-o no que escreveu sobre Fiodor Dostoiesvski. Dir-se-ia que é ele quem ali está naquelas páginas ardentes, menos a prisão, menos a miséria, menos a agonia do mau viver público. É um texto tremendo. Nem sei se fale dele aqui, tal é o silêncio que se nos impõe, ante uma tal escrita, face a um tal viver. 
Entre os extremos do bem e do mal, na agonia de a todo o instante o óptimo se transmutar em péssimo, são seres excepcionais, o ímpar do génio, o tormento de Deus.

domingo, 22 de abril de 2012

Vidas secas

Li-o, enfim, melhor, comecei enfim a lê-lo. Uma escrita descarnada, calcificada, carregada de terra e de gente que com a terra se confunde e de animais, literatura de caminhante e de desolação, a seca a corroer tudo, maldita, gretando as almas, espinhosa, murchando tudo e enrugando os seres. 
É o pequeno e grandioso livro de Graciliano Ramos, Vidas Secas. Uma história de Nordeste em que se pressente, no horizonte da mansidão submissa, o urdir da raiva e com ela o Cangaço revoltoso.
Obra excelente em que a batalha da forma se irmana com a luta pelo conteúdo. Manifesto e Arte, ideologia e sentimentos. E sobretudo uma intrínseca humanidade.
Vou a meio porque dói. Na página 53.

sábado, 7 de abril de 2012

Ai Lello...

Tarde de sábado, livraria cheia, corropio escada abaixo, escada acima, um mundo de com licença, desculpe. Muitos estrangeiros, uma brasileira embevecida com um álbum sobre os "príncipes de Portugal", um espanhol em busca do «senhor Pessoa». 
Fui ali porque me lembrei que talvez tivessem algum livro da Dalila Lello Pereira da Costa. Não porque eu não julgue tê-los quase todos, mas porque há sempre algo que falha quando amamos um autor e ele nos retribui com uma obra numerosa. Da última vez que lá estivera remeteram-me para o andar de cima, onde, entre trastes de adelo sem interesse, sem nexo nem arranjo, ali estava um opúsculo seu, que afinal eu já tinha.
Mas fui, uma vez mais, na ingénua suposição que sendo uma autora «da casa», tivessem organizado ali, pois que recentemente falecida, algum pequeno pecúlio com o que de essencial ela escreveu, ou talvez tivesse surgido uma daquelas colectâneas de homenagem, mesmo que seja a dos vivos a engalanar a vaidade com o terem conhecido, vagamente que seja, o morto escritor.
Mas não tive tempo de apurar. No burburinho sabático, enquanto eu vasculhava, já desanimado, pelas terras do nada que interesse, um berro surgiu, vindo dos fundos do andar superior, lançado, qual tiro de caçadeira, rumo ao magote pequeno onde eu me ajuntava, já em recta descendente. Alguém, ó deuses, tinha tirado uma fotografia!
Atarantado naquele matagal de livros inúteis, atingindo pela chumbada generalizadora do "guarda-florestal" ainda levantei, hesitante, qual coelho pascal assustadiço, as orelhas alçadas, o dedo num «eu?» inquiridor, tímido, já porque no instante estava de facto de telefone na mão, apontando um número, e vá lá saber-se quando, apanhado em comprometedora ambiguidade, se passa de suspeito a réu. 
Com o seu estilo agreste e sem se levantar do lugar de onde policiava o piso, o zelador livresco anti-imagético, ainda com a mão em riste, ondulante qual ofídeo, apartava entre os atónitos circunstantes, a sua vítima, resolvendo-se num «não não, aquela senhora ali, que eu bem vi disparar o flash». 
Foi então que urdiu a fuzilaria argumentativa: é que não se podiam tirar fotografias e que mais isto e tanto aquilo que, na retaliação possível, deixei os dois livros que já trazia comigo cuidadosamente numa estante ao lado de uma rima de coisa nenhuma sobre horticultura e outras utilidades passíveis de roedura. Fique com eles quem trata leitores assim!
Ali ficou um Pitigrilli e um José Augusto França. Este sobre os anos vinte, os do fascismo, aquele sobre os paradoxos. A propósito.
A contenda passou para o andar de baixo, agora com o dono da casa a intervir. A pobre cliente, que afinal não tirara fotografias, enchia-se de desculpas. Quanto ao modo brutamontes como o assunto havia sido tratado nem palavra de jeito. Para quê? 
Rematou tudo com o patrão, à porta da rua, irado, também de dedo em pistola, dando ainda lições de moral, na base do «se houve erro, todos erramos». 
Subia-se a rua e ainda se ouvia o sujeito vociferar o «eu erro, tu erras, ele erra..». Mestre escola de si mesmo, vinte valores em gramática, zero em educação cívica. 
Que pena tenha sido assim. Neste dia, naquele lugar.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O nascimento de um livro

Agosto Azul

Dia que para tantos é de arroxeada mortificação, expiando do mundo as dores e purgando da alma as chagas, dia de calvário e prostração, dou comigo a ler o Manuel Teixeira Gomes, naquela miscigenação do céu com o mar e dos sentimentos com as sensações. Literatura de carnalidade, de anseios febris e desilusões vingadas na comunhão artística, viandante pelas terras do Belo, nascida da luxúria que o tempo não consome, da degenerescência com que a idade corrompe.
Agosto Azul. Livro estranho, como se sintomaticamente sem género, escandalosamente surpreendente ao virar de escusa esquina no volteio inesperado de uma folha epistolar. 
E dou com ele, contando-se, cevando o ferido orgulho macho, cortejador impenitente, pois que a exibia pelo braço, esplêndida fêmea, «fonte de celestes amavios», «manjar branco», adivinhada maciez ao acto e afinal sáfica, «inapaziguavelmente sáfica», e tendo-o por condutor e conduzido, a orientá-la por bordéis, para que, ali no serralho também ela se servisse do que lhe apaziguava a lascívia, mulheres fáceis, e ele, rasgando-se-lhe no coração a dor da impossibilidade, que a contemplação não sarava, alodado no vício, dele consciente, incapaz de lhe escapar, subrogado ali e assim se substituindo.
Dia de espera, hoje, morto o corpo, a alma sustém a respiração. Ressurgirá, como sinos de catedral, rebates de consciência, no homem integral, no máximo esplendor do pináculo das suas virtudes, nas catacumbas dos seus pecados. Domingo.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

LOL, LOL, LOL, Rivarol

Ri-me a bom rir com a ironia elegante do Eugénio Lisboa quando no último JL conta quando lhe pediram para as Correntes d' Escrita que comentasse um aforismo de Antoine de Rivarol que lhe foi apresentado assim: «as ideias são fundos que nunca dão juros nas mãos do talento».
Imagino um dos tantos "intelectuais" da nossa praça ante tal frase a explorarem-lhe doutamente o "non sense", a focarem-lhe, em desconstrução, o sentido revertido decorrente da formulação, em lógica dialéctica a tentarem a síntese unificadora da contradição, entre a pragmática e a semiótica, em suma, a não terem feito, enfim, o que este homem de uma profunda cultura, intensa erudição e grandiosa humildade fez: foi à fonte conferir a frase porque «depois de ter quebrado a cabeça a tentar achar-lhe sentido» se resolveu ir ver se o seu autor - que morreu em 1801 e se fazia passar por "conde" sem o ser - realmente a tinha proferido. 
Ora aí chegou à conclusão que o autor da frase tinha dito exactamente o contrário do que lhe tinham dito ter sido dito e assim a frase exacta era «as ideias são um capital que só rende juros nas mãos do talento». Ou seja era uma troca de um «só» por um «nunca».
São estes sim os juros do talento, distribuídos generosamente a todos nós.

sábado, 31 de março de 2012

A Conquista do Pão

Lá estavam, em rimas, os livros do Manuel Teixeira Gomes, a pouco mais de três euros e os velhos Vergílio Ferreira, desirmanados, mais os novos que estão a ser reeditados e aquela montanha de romances traduzidos, imensos, com capas que os tornam todos iguais, e mais e mais.
Trouxe o Kropotkine, ainda da Guimarães, quase dado, mais um livro de orações nas várias religiões. Entre a bomba e a reza tem de haver uma salvação para o mundo.
Uma coisa notei: os livros de culinária rabiscados por celebridades do nosso tablado social aumentam. A ideia dos editores deve ser que deveremos gostar de comer o que eles comem. Até o Miguel Sousa Tavares dá cara a uma obra sobre paparoca ao lado de Dona Maria de Lurdes Modesto, esta por direito próprio.
Os tempos da "Geografia da Fome" já devem ter ido. Agora fome é ali mesmo, um pouco adiante daquela Feira do Livro na Gare do Oriente, os mendigos, vagabundos e sem abrigo para quem a literatura são os jornais em que se embrulham por causa do frio. As letras não são só gastronómicas, também caloríferas, pelos vistos.

sábado, 24 de março de 2012

Um livro de silêncio

São cartas,  de uma viuvez em que ficou o corpo tendo-se ido o ser, cartas de uma saudade agora irrealizável, a geologia empedernida da fome, carnal, o anseio e tantas formas «de tu dizeres não», cartas de um lugar ainda guardado na cama, tacteado no sono para ser mais vazio com a consciência ao despertar. Cartas incluindo a décima e última incompleta, fantasiadas como se guardadas por uma filha e não houve filha e procuradas por um amigo, o juiz aposentado, Rodrigo Xavier, para que possível fosse então entender o Para Sempre, talvez o seu mais doloroso romance, de que ele é personagem, carta de quem foi professor e ele foi professor.
Cartas a Sandra. Vi ontem que foram reeditadas mas ainda as tenha na edição da Bertrand e nem sei como foi possível terem chegado à sétima edição e talvez mais, cartas de um amor tão potente quanto dorido e afinal monótono, nascido na súplica e hesitante preparação, e a dádiva enfim como recompensa de uma tal dedicação.
Livro sobre a rejeição e a presença, obra de quem «amava estupidamente o que me doía», escrita sobre o ciúme da felicidade com o outro, a alegria breve, Paulo, perdido, regressado ao seu sombrio «até regressar à posse de mim», e Xana, a filha «a oculta face do seu real». Não sei que adjectivo exista para este livro de silêncio.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A viuvez da alma

Quando fiz anos o meu Hugo ofereceu-me O Bibliófilo Aprendiz de Rubens Borba de Moraes, numa edição da Letra Livre, com um texto de apresentação do estudioso e erudito Pedro Teixeira da Mota. Ontem a minha Zé tinha à minha espera a surpresa de O Crime do Padre Amaro, que faltava na minha queirosiana e que teve o carinho de adquirir na edição crítica organizada por Helena Cidade Moura, e publicada pela Lello em 1964. Nela se compilam as três versões que o livro conheceu, a assassina descuidada e sem revisão de provas pelo autor, de 1875, a segunda, paga pelo pai de Eça de Queiroz porque o editor não arriscava e que ele prefaciou de um ignoto lugar que ali se diz chamar «Akenside Tewace», mas que é gralha porque se trata de Akenside Terrace, em Newcastle, onde Eça desempenhou funções de cônsul [como se pode ver aqui], e a terceira em que o criador do Conde de Abranhos se defende da vil acusação de que copiara para o livro a ideia se não o conteúdo do livro de Émile Zola, La Faute de l'Abbé Mouret.
Eis entre um livro e outro e uma gripe homicida que resolveu reduzir-me à insignificância do desprezível. 
«É aos psicanalistas que se deve perguntar porque se colecciona», escreve Borba de Moraes. Eu não colecciono, gosto de ler. Quando gosto sou insaciável no gostar. É uma viuvez da alma não ser gostado.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Uma vida aumentada

Talvez pudesse dizer em nome da sensatez do que não tenho que não podia, ou do escrúpulo do que não fiz que não devia, mas trouxe-o porque o título Trabalhos de Paixões de Fernando Assis Pacheco se sobrepõe à obra deste, a magnífica narrativa galega Trabalhos e Paixões de Benito Prada, cujo parágrafo de arranque me fulminou. É um livro bonito, como são todos os da Tinta da China, escrito por Nuno Costa Santos que o quis apenas como «crónica biográfica, talvez por pudor. E comecei a lê-lo, minado de tosse e moído de cansaço, mas leio e gostava de ser capaz de o terminar esta noite, assim não me vença o sono ou a morrinha
Não sei porque se escrevem biografias nem porque as leio, vivendo assim, sub-rogada, a vida alheia como se própria fosse. 
Jornalista, escritor, o jornalismo foi a sua profissão dominante, mas viveu-a como escritor, o refinamento da frase, a estrutura do contar. 
Parei na página setenta e seis. São dias difíceis em que um homem se não reconhece e procura-se em tudo quanto há, como nele, que aumentou a vida através do prazer de existir.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Vivamente apurado

Há muito que a procurava. Hoje na Livraria Almedina, do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, encontrei-a, ou melhor, estava à minha espera. «Há que tempos que o não via, ainda está interessado nela?», perguntou-me solícito o empregado, amigo. Era verdade que «há que tempos» e verdade também que «ainda estava interessado». Nunca deixei de estar. 
Comecei a lê-la esta tarde, à biografia de Eça de Queirós escrita por Campos Matos. E a ler,  primeiro a esmo, começando pela sombra da perseguição dos problemas financeiros a que foi sujeito a vida inteira. «Vivamente apurado», no refogado dos apuros, as «atrapalhações de dinheiro» iam-no envelhecendo. Despesas acima dos ganhos, gastos desordenados. Um mês decorrido sobre a sua morte, um dos seus mais dedicados amigos, o Conde de Arnoso, escrevia ao director do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, a implorar ajuda para a família, que, segundo ele, "havia ficado na mais negra miséria". A 21 de Maio de 1901 a Câmara dos Deputados aprovava uma pensão para a viúva [como vem relatado aqui]. Esta «viria a ser anulada pelo governo da República, devido ao facto de dois filhos de Eça terem participado nas incursões monárquicas do Norte de Portugal em 1912», como confirmei aqui
Vergonha.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O melhor do tempo

Imagina-se esquálido, casquinante de sarcasmo, fustigando amigos e desprezando adversários caídos, mas paradoxal sempre, piedoso, vivendo entre a magreza da pecúnia e a opulência da criatividade, mas aureolado pela jovialidade que seria o círculo mágico que o defenderia do mau olhado da desolação. 
Mito puro. No Verão de 1870 escrevia a Jaime Batalha Reis e a Antero de Quental, cognominando-os, em triunfal gargalhada no pórtico da epístola de «Queridos Amigos Snrs. Batal e Quentalha»!
Eça de Queiroz estava administrador de concelho em Leiria. «Imaginem-me aqui nesta terra melancólica, só sem um livro, sem um dito, sem uma conversa, sem um paradoxo, sem uma teoria, sem um satanismo - estiolado, magro, cercado de regedores. e devorado de candidatos!».
Numa carta em que chibateia a neura com o azorrague da ironia e termina com «saúde, paternidade e água», o magnífico escritor confessa do seu mundo a pequenez: «o melhor do tempo ocupo-o a ver em volta de mim morrer a minha vida».

domingo, 15 de janeiro de 2012

A tragédia do "Via Láctea"

Há quanto tempo não escrevia aqui porque há quanto tempo não os lia! Entre os livros velhos que comprava para ler um dia e os que iam a meio para a eles voltar num qualquer dia o progresso era curto. E com isso não havia forma de a antiguidade se tornar moderna.
Encontrei-o numa venda de rua, aqui perto, no Campo Pequeno, no passeio da Avenida de Berna. Ao frio, ao vento, à chuva. ladeados por automóveis ferozes que iam e vinham pelo túnel fora, o Campo de Touros indiferente, nas suas catacumbas um Centro Comercial verdadeira manjedoura pública e outras aderências consumistas, os alfarrabistas.
Ali encontrei o livro das cartas em torno do Eça de Queiroz e da publicação das Prosas Bárbaras. Cartas do e para o Jaime Batalha Reis, do e para o Luís Magalhães. O escritor, organizador da colectânea, o editor. E um texto magnífico do Ramalhão Ortigão descrevendo o Cenáculo, a tertúlia sita na Travessa do Guarda-Mor, servido por um criado galego crismado como o "Via Láctea", incumbido de «um trabalho duro, violento, mas glorioso»: «examinar atenta e vigilantemente tudo o que se passasse no Universo, e informar o Cenáculo».
Imagina-se do irónico o absurdo. Inquirido duas vezes ao dia, o pobre homem, símbolo do real a fecundar aqueles espíritos únicos de um Antero de Quental, um Oliveira Martins, um Batalha Reis, um Salomão Saraga, um Lobo de Moura, respondia, trágico, a questões do teor das que assim se exprimiam: «Via Láctea, sentaste-te, misterioso e sinistro, à beira do grande rio profundo da humanidade? - Que foi que te disseram no seu confuso turbilhão as grandes correntes históricas? - Surpreendeste por acaso o grande fenómeno genesético, ó Via Láctea? - Seguiste o átomo até ele se converter na molécula?».
Genial, sobretudo pela capacidade de pensar a rir.

sábado, 26 de novembro de 2011

A tristeza como doença

Ângelo Pereira e Odemiro César escreveram o que é um clássico talvez controverso e a minha [fraca] memória regista quem tenha criticado o livro. Mas a simplicidade tem o seu lugar e mesmo o discutível. Biografam Wenceslau de Moraes do ponto de vista das relações amorosas que teve. Aditam-lhe um [então] inédito e um excerto de diário. Foi a obra publicada em 1937, pela Editorial Labor. Trouxe-o de casa de minha mãe. Foi dos que restou da biblioteca doméstica que por Angola ficou em 1962. Chama-se "Os Amores de Wenceslau de Moraes". Acabei de o ler.
Fazendo jus à mentalidade da sua época, dominada ainda pelo positivismo, o livro tenta encontrar na patologia a explicação para o génio e para a invulgaridade do carácter.
A apetência no feminino pela delicadeza das mãos e pela pequenez dos pés, em detrimento de outro qualquer atributo da beleza física, surge para eles como «hipertrofia do sentimento natural do amor que os livros científicos apontam como uma das características mórbidas dos degenerados superiores», de um ser de «temperamento profundamente sensual, ligado a uma nevropatia hereditária», «alma de uma sensibilidade doentia, hiper-excitada pela doença nervosa ocasional», cuja «neurastia agrava-se de dia para dia», cuja «solidão arrepiante» é o fruto de uma «hipocondria com todo o seu cortejo de misérias físicas».
Eis pois um homem colocado na morgue literária, sob o bisturi dos médicos legistas seus críticos, as vísceras sobre a mesa do teatro anatómico.
«Eu fui sempre um triste», confidenciou ele ao seu diário íntimo, em 7 de Setembro de 1925. Percebe-se isso pelo livro, mas como um defeito de carácter, uma neurose. Enfim, uma tristeza mortuária.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Ruy Cinatii



Ruy Cinatti Vaz Monteiro Gomes nasceu em Londres em 1915, neto do então Cônsul Geral português, Demétrio Cinatti.«Foi meteorologista, secretário do governador de Timor, chefe dos Serviços Agronómicos no mesmo território e investigador da Junta de Investigação do Ultramar. Doutorou-se em 1961 na Universidade de Oxford, Inglaterra, em Antropologia Social e Etnografia». E um extraordinário poeta. O padre Peter Stilwell, actual vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP), dedicou-lhe a tese de doutoramento com a obra "A condição humana em Ruy Cinatti".
A ler necessariamente. Notícia aqui. Exilado e descontente escreveu [de um seu inédito poema]:

«A quem transmito o meu testamento,
cabe, piedoso,
distribuí-lo entre os mais escolhidos,
os que sonharam não serem vencidos,
os que sonharam
voltar um dia ao país natal,
bemaventurados
de nobre escolha e firme propósito:
Um dia livre
de miseráveis concessões políticas;
um dia ímpar
que nos redima para toda a vida;
um dia igual
ao das minhas-nossas gerações futuras».