sábado, 23 de maio de 2020

Os mais distintos facínoras

Imagine-se o desejo que me deu de ler Camilo Castelo Branco neste momento da sociedade contemporânea, sociedade reclusa de si mesma e da minha vida, sujeito a tudo o mais. Lembro-me de uma das minhas paixões, Maria Ondina Braga a chegar a Malanje, na automotora, a ler, insólito facto em luxuriante flora africana, A Brasileira de Prazins
Fui à estante, escadote acima, e desci-os todos quantos tenho e são muitos e não são sequer aproximadamente todos, se é possível tal coisa, o conseguir-se reunir toda a sua obra, ele de quem disse Aquilino, produzia «como as macieiras do seu quintalinho dão maçãs. Às cestadas». 
E já agora, veio abaixo também, para o alcance da mão, Aquilino Ribeiro, que é a continuação da mesma família literária e um parente colateral de quem tenho escassa livraria, o Júlio Dinis.
E, moído de deveres, e em mim os deveres são uma maldição bíblica, li, aos poucos, mas todo o livro, os Mistérios de Fafe, que publicou, primeiro, em folhetim, como soía ser, no Jornal do Comércio, corria o ano de 1868 e depois em tomo.
E aqui estou a dar conta do que ficou lido.
Mais uma vez desconsidero a narrativa em favor do modo de no-la contar.
Através desta escrita excepcional e pela sua mão certeira, deambulei pelas Terras de Bastos e e por Lamego, vim a Lisboa e fiz uma surtida pelo Porto que me lembre. Já para as últimas folhas dei comigo por Cascais e ao Vítor em Sintra, onde, em «lua de jalapa» a já tardia nubente «teve a ditosa ocasião de admirar o estômago de seu marido, quanto se pode admirar um estômago no exercício de esmoer jantares dignos de um ogre».
E que riso, que troça inteligente, refinada em ironia e sublimada em vocabulário rebarbativo!
Camilo Castelo Branco transforma-se em contador da história que criou, como se tivesse presenciado e dela fosse crítica testemunha, intromete-se mesmo, por vezes com caritativa distância, para que não pareça ser o escritor juiz, e não surja da sua pena a prosa como condenação.
E muitos são os pecadilhos que por ali fluem como águas de ribeiro, ora manso ora jorrante, de todos eles o menor, apesar de constante, o adultério, seus filhos imprevistos e outras malfeitorias afins.
No permeio, o anticlericalismo atávico do autor não perde nem oportunidade nem fôlego e a tiro de trabuco assesta, quanto pode e o relato permite, chumbada, nos costados dos curas, que ali surgem como exemplo, pela negativa, de uma moral de que o livro é a denúncia e demolição.
As personagens são, cada uma, um manancial espichado de defeitos e duvidosas virtudes. Mais uma vez impossível deixar aqui amostra que seja.
Ele é o vocabulário, a carecer de dicionário que os da contemporaneidade não chegam, aos quais os verbos como "acadrimar" e «eniboscar», ou adjectivos  como "anacarado" são alheios, como estranho surge o "escurentar o coração". Ruralismos, dirão alguns, provincianismos, acrescentarão, aqueles para quem Literatura só merece sê-lo quando transposta para os ambientes citadinos, lisboetas sejam, e mesmo aí, apenas de locais selectos de modernidade e distintos por exclusão. Mas gigantes exemplos, digo, de um modo de escrever que não se perderá enquanto houver quem leia e sem medo da coerção moral de ser tido por antiquado.
O leitor lê e tem pena. Tem pena do espingardeiro de Guimarães, esse Francisco Roixo, com quem a Rosinha Carneira, a mais bonita e invejada rapariga de Fafe quereria casar. Casamento de conveniência, como sucedia, não seria assim que viria ao tema da trama que a partir de então se desenrola. 
Tem pena e sorri ante Caetano de Ataíde Sotto Maior, filho de abastada fidalga do Porto, vindo do Colégio da Lapa, no Porto, e que, «findos três anos de vadiagem com todos os rr possíveis» pela Universidade de Coimbra, regressou a casa «mais ignorante e corrompido do que tinha ido».
À piedade e riso soma-se o temor quanto ao que irá suceder à «besta-fera do Padre Custódio», de cujo púlpito «urrava» uma «virulenta apóstrofe às adúlteras e aos fidalgos devassos» e que um dos bandidos da Cerva, Pedro das Eiras, fez morrer ...de apoplexia, sacerdote que «tinha como sã doutrina violar o sigilo da confissão em benefício das famílias, quando outros recursos mais suaves falhavam ao pio propósito».
E ganha raiva ao modo como a Justiça, morto o enganado marido, serviu a injustiça da ilibação do assassino, «comprando o perdão da viúva do morto. Depois, conseguiu anular-se desde o corpo de delito o processo no supremo tribunal. Alugou a consciência das testemunhas, que se contradisseram. Moveu à piedade a eloquência do acusador público, amaciando-a em favor do réu. Deu-lhe o mais afamado patrono. Os jurados choraram e absolveram.»
O mais é para ficar aqui por dizer, não vá surgir em algum leitor desta nótula ganas de ir-se ao romance e não quero estragar o benefício da surpresa. Sobretudo um muito querido meu, ali das Terras de Basto, fidalgo de dom e modo, que pode ir através deste excerto, procurando pela vizinhança realidade remanescente que dê verdade ao que Camilo diz ser ficção: «É de saber que Silvério de Mendonça tinha nascido em Mondim de Basto, onde avultava o forte de bens paternos. A sua casa torreada era o couto dos malfeitores foragidos das autoridades, que não ousavam pôr mão em criminoso acolhido nos penetrais do desembargador Mendonça. Do turbulento concelho vizinho, chamado Cerva, onde o magistrado tinha casais, raro ano deixaram de acoitar-se em Mondim os mais distintos facínoras, uns porque eram caseiros, outros em virtude do parentesco.»
Fiquem apontamentos que são, todos e cada um, lampejos geniais de observação acutilante, como, em matéria de ditosos enlaces, a provada «utilidade dos comendadores devolutos», o divórcio requerido por D. Gabriela «porque o marido se lhe assenhoreou do dinheiro, como era de uso e justiça, e lho vai jogando com notável infelicidade», a recusa da mesma em «encharcar-se no lameiral
de Fafe, que ela odiava desde os animais até aos vegetais», «as musas do Porto [que] tinha fugido para os joanetes dos brasileiros, cuidado que as protuberâncias calosas eram o seu Pindo»
«Esta novela contém adultérios, homicídios, missionários e outros cirros sociais», adverte Camilo em nota de entrada sobre o título "Aviso às Pessoas Incautas".
Fico por aqui. Vou contar o Camilo que tenho por ordem de data, tentar preencher os espaços vazios e ler, ler o que puder quando puder, entre os deveres mais este dever. 

sábado, 16 de maio de 2020

Uma fuga ao pensamento

Lentamente, como se tivesse todo o tempo da vida e não tenho, li-o na íntegra. E não poderia ser de outro modo, até porque o pouco tempo deve ser oferecido ao que verdadeiramente importa, ida a irrelevância. 
Se me perguntarem pelo fio da narrativa, não consigo reconstituir; se me pedirem para caracterizar as personagens que vão desfilando ao longo da história, também não consigo dizer. É por isso que não sou um crítico literário, apenas leitor que deixa apontamentos sobre quanto leu e, seduzido, tenta, escrevendo, convocar outros à sedução.
E, no entanto, dizem que em Agustina as figuras que retrata ao longo do que conta vão mudando e alguns perdem-se pelo caminho, e talvez assim seja, mas disso não dei conta, nem me parece que tenha sequer importância e até é benéfico que assim seja por aplacarem os remorsos de, tendo lido o que se conta, no final, não saber contar.
O Susto é um livro magnífico e tenho pena ao pensar que talvez já não o volte a ler.
Tenho o hábito insólito de estar atento ao momento em que surgiu a palavra ou a frase que dá título aos livros, como se em busca da pegada que assinale a ideia que gerou a criação. É um exercício minudente, eu sei, mas a vida não é só grandeza; desatento, como sei ser, é uma forma de disciplinar a concentração. E achei, e quando encontro surge um contentamento redobrado, para além daquele outro que provém de ter lido. E ali está, na página 287, desta edição original, tirada pela defunta Guimarães em 1958 - «[...] mas a vida não são, de resto, os assuntos que se nos oferecem, as experiências que sofremos - e, acima de tudo, o susto.» - e de novo, em modo fugaz  na página 324: «o susto tinha-o pois dominado.»
Sei que há quem deteste Agustina por causa dos seus aforismos e tenho comigo o livro Aforismos que a mesma editora - ó fúria dos irritados - publicou em 1988 e em cujo pórtico surge, em jeito de explicação, a lógica deste modo de escrever enleando o texto em máximas e sentenças: «o meu pensamento estende-se de uma maneira caótica e para o deter recorro ao aforismo. E dou muita importância aos aforismos; são uma fuga ao pensamento.». E seguramente dá importância, porque, para si, como o assinala a contracapa dessa obra: «o aforismo é uma lição, e não o pretexto para uma pirueta».
Leio, já o disse aqui, de lápis na mão a sublinhar e fica como critério, o quanto sublinhei, na horizontal a frase, na vertical todo o período, o parágrafo, por vezes as páginas inteiras onde seria impossível destacar um excerto breve como digno de realce: aqui muitíssimo.
Posto isso, é, porém, impossível trazer aqui a lição que esse modo de escrever traz, pois é experiência íntima, intrespassável, redundaria em ofensa se fosse tentado. E, no entanto, é o que apeteceria fazer, de modo tão estridente quanto está vincado na sensibilidade.
Deixo, num outro registo, o arrebatador, o modo como arranca esta escrita: «Num povo pessimista, não o bastante para ser neurótico, nem exasperado para ser sobre-humano, depara-se-nos às vezes certo fenómeno de combustão interior que é pouco menos que uma nova ética». É uma frase típica, desconcertante pelo remate, porque do encadeado do raciocínio esperava-se uma diversa conclusão. Tantas suas são precisamente assim, a surpreender, trazendo o leitor de novo ao dito e vendo que ilusório era o pensado ante um novo pensar aquele encadeado de ideias, aquele jorro de sentimento.
E, ainda em outro, esta também: «E no seu andar rápido, há uma despedida e a justa fugacidade da juventude.»: lê-se e graficamente como se «rápida, a sombra» [perdoe-se a incursão por outro autor] vemos escapar o tempo restante na simbólica nostálgica de um adeus.
Não escrevo mais, apesar do desejo. É sábado à tarde e hoje está Sol. Seja a contenção desta breve nota convite à leitura, pois o livro é encontrável em edição contemporânea, publicado em 2019 pela Relógio de Água, que, em feliz hora, retomou a edição do cânone.

domingo, 12 de abril de 2020

Un Uomo Finito

Terminei-o, fim em dia de Páscoa, e que sentido faz esta coincidência, tudo visto, ante o epílogo desta escrita torrencial, o que dá título ao livro, o clímax de uma epopeia em busca do Absoluto, viagem e salto, afogamento e salvação, a história de um Homem que, anunciando-se morto, nega a possibilidade e proclama ao Destino e a todos os outros que não está acabado, agora que começa.
Livro magnífico, livro que tomaria comigo se tivesse de escolher muito poucos para levar e não mais, livro que me recorda tanto de Friedrich Nietzsche, outro desgraçado, o do super-Homem e do Humano demasiado Humano, mais o da Gaia Ciência, mas tudo num livro só, cozinhado em sofrimento, escrito sem perder nunca o fôlego, confissão de revolta e de amor, desprezo e despojamento, sobretudo, obra de intrínseca e humilde verdade, jogando-se nu até nos seus defeitos rascas e na vanglória do seu excesso de virtudes.
Li-o todo, linha a linha, depois de o ter lido, sem ter lido, em tempos. 
Quanto nos irmanamos nele, em quanto vemos quão reles e liliputiana é a vidinha de que curamos e à qual hipotecamos o mais precioso de todos os bens, o inegociável Tempo, o pouquíssimo tempo que nos é dado. 
Quanto nos torna diminutos ante aquele combate demoníaco e salvífico com todos os deuses, pela Razão e pela irracionalidade que a nega, com a Humanidade e ao arrepio dela.
É de norma que se escreva e cite do que se escreveu para provar o que se afirma ou se mobilize o leitor. Impossível é fazê-lo aqui: uma só palavra citada, destruiria a magia de todo o conjunto, reduziria a grandeza do escrito, anularia o sentimento do lido.
Dir-se que neste período de clausura se devem ler superficialidades reconfortantes. Nego, repudio, combato! Siga-se o exemplo dos grandes solitários, as almas que no deserto do confinamento buscaram as suas entranhas e escrutinaram os círculos do Céu: há que procurar mais alto, escavar mais fundo.
No mundo das coisas práticas em que nos tornámos pelas circunstâncias actuais, parece que tudo afinal encontrou o caminho do trivial para enfrentar a seriedade. Enquanto isso suceder o Homem prossegue o Reino da Quantidade, tendo passado, pelas dificuldades, apenas do muito ao muito pouco. 
Talvez não exista a alma, há, porém, o espírito, o de cada pessoa e o Espírito Cósmico, do qual somos centelha provisória jogados no infinito ao sabor da lei da gravitação universal. Ao ler Giovanni Papini senti a esperança depois de ter chegado à agonia do desespero, o sentido pascal, afinal, do renascer.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A pedra na calçada que se agita

Foi este o texto que ontem, dia 30 de Janeiro de 2020, li na Universidade Lusíada, respeitante à personalidade literária do Embaixador Franco Nogueira, faceta menos conhecida da sua vida e concretamente em face deste seu livro o Jornal de Crítica Literária.


Seja-me permitida esta inesperada incursão. Apresento-me: sou apenas um leitor apaixonado pelo que lê, leitor que procura livros nos alfarrabistas, nos que os vendem em improvisadas bancas na rua, os que os expõe no chão, livros de bibliotecas desfeitas pelo desinteresse, pela necessidade, pelas leis sucessórias, livros particulares de quem um dia os sentiu como seres a mais, por não ter espaço para eles ou não querer ter espaço em que os conserve, livros vendidos por miséria, até por ganância de colecionador, leitor que teme o futuro dos livros que retirou ao abandono. 

Sou apenas um leitor que descobriu num Sábado, na Rua de Anchieta, um livro em que o título não correspondia com a ideia que fazia então do seu autor. O livro chamava-se Jornal de Crítica Literária, o autor Franco Nogueira, editado em 1954. 

Alberto Marciano Gorjão Franco Nogueira, diplomata, ministro dos Negócios Estrangeiros, ensaísta, autor de uma inevitável porque notável biografia de António de Oliveira Salazar, que serviu como ministro. Mas Franco Nogueira crítico literário? 

Sim, Franco Nogueira foi crítico literário, num tempo em que a crítica literária quase inexistia em Portugal; mas se é notória a sua paixão pelo que escrevia, e se era fácil prever uma continuação desse seu envolvimento com as Letras, a carreira diplomática, que abraçara em Outubro de 1941, veio a criar circunstâncias que o fizeram perder-se dessa sua natureza. Foi então colocado em Londres, cidade onde viveria de novo, em exílio, saído das «prisões de Abril», e onde escreveria os seus volumes biográficos sobre Oliveira Salazar. 

Convidado a 18 de Janeiro de 1955 para integrar o júri dos “Prémios Literários”, do Secretariado Nacional de Informação e Turismo, concretamente do júri do prémio “Ramalho Ortigão” para as obras ensaísticas, declinou com amabilidade, pois uma colocação no estrangeiro iria impedi-lo de aceitar o convite que, de outro modo, «gostosamente» aceitaria. Nesse mesmo ano publicaria, já em Londres, na Adam International Review, prestigiada revista literária britânica, um ensaio sobre seis poetas maiores, tradução de um dos capítulos do Jornal. 

Li o livro. Devo à Aida Franco Nogueira, sua filha, uma gentileza que nunca poderei retribuir, a cedência da parte do espólio de seu Pai respeitante à sua personalidade literária. 

É precisamente isso que trago aqui: as notas de leitor, somadas agora à correspondência particular, precisamente por causa deste mesmo livro. 

O Jornal de Crítica Literária, publicado, como disse, em 1954, condensa escritos que o seu autor foi dispersando «com largas intermitências», nos diz, entre 1943 e 1953. 

Logo esta cronologia traz uma primeira interessante constatação: nesses anos, Franco Nogueira já detinha na estrutura do Ministério, cargo de responsabilidade o que logo faz adivinhar o que foi, aliás, realidade: esta sua faceta de envolvimento com as letras não foi olhada como conatural à pose da função pelo que, tendo chegado à ousadia de saírem tais escritos em letra de imprensa, editados pela Portugália de Agostinho Fernandes – esse generoso mecenas a quem tanto se deve e pouco se agradeceu – a obra é a demonstração ostensiva de uma personalidade forte de quem, tendo-lhes dado vida, se recusou a confiná-los à gaveta. 

Alongada por um decénio, a análise crítica de Franco Nogueira surpreende as letras portuguesas num momento em que convergem duas circunstâncias. 

A primeira, no plano da vida cultural, a da quase total inexistência de críticos literários dignos desse nome, salvo excepções de que, ao longo do livro, dá reiteradamente conta: João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Jaime Brasil, Álvaro Salema, António Ramos Rosa, Mário Dionísio e uns quantos poucos mais. 

A segunda, resulta de esse corte temporal, congruente com algum critério que o autor não revela, talvez de sua opção pessoal, encontrar a literatura portuguesa num período intermédio em que se assiste ao que Óscar Lopes e António José Saraiva chamam a «revalorização do realismo», literatura, afinal, de crítica social conjugada com [e deles cito] «um sentimento de confiança no processo histórico-social, confiança depositada sobre a própria antítese progressista que surge de dadas condições inumanas», em suma, digo, e para usar palavras que não poderiam ser expressas assim de modo tão claro ante o regime político então reinante, vigente a Censura prévia à imprensa e o controlo editorial aos livros, uma literatura de crítica ao capitalismo e empenhamento no socialismo de Estado como forma de realização do Homem e bandeira sobre a qual os escritores ditos «progressistas» deveriam marchar. 

É nesta dupla vertente contextual que tudo se torna interessante em torno deste livro. 

Por um lado, Franco Nogueira justifica-se como crítico literário e define o que entende serem os critérios de uma tal missão, antecipando o que será a razão pela qual afere os livros sobre os quais faz incidir a sua análise. 

Nas suas palavras, do que se trata, para o crítico, é de estar em processo de contínua renovação, ser homem do seu tempo, nessa tarefa que no essencial é «a recondução da arte à vida». 

Por outro, é ilustrativo que a observação que o livro traduz surpreenda autores em fase ainda de amadurecimento e que viriam a revelar-se essenciais, outros ainda nos primórdios promissores, como Vergílio Ferreira, mais aqueles que o tempo veio a tornar irrelevantes pela decadência da obra, perda de leitores ou desajustamento com os interesses voláteis da actualidade. 

Se vale um princípio segundo o qual não há santos sem Igreja, talvez assim se compreenda que José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Alves Redol - valham ou não as suas obras literárias, e há desigualdades de valia - tenham, relevando o ambiente post-Abril que ainda hoje perdura, encontrado perdurabilidade, mas já não quanto escreveram Domingos Monteiro, José Luís Cajão, Cunha e Sá, António de Navarro e Afonso Duarte. 

Afonso Duarte que já na altura estava «tão injustamente esquecido», como em carta de 3 de Agosto de 1954, João José Cochofel lhe faz notar, agradecendo que o tenha restituído à memória. 

Para chegar a este ponto de fina percepção da Literatura do seu tempo, Alberto Franco Nogueira faz apelo a uma escrita límpida e objectiva, e a uma cultura vasta, fruto de leituras que lhe permitiram chegar ao pormenor da narrativa, surpreender a estilística da redacção, captar a arquitectura do texto mas, como se isso não bastasse, convocar para as suas conclusões, a leitura de obras pretéritas de cada autor e registos comparados da literatura universal. 

Trata-se de crítica de quem leu, em leitura fina, análise de quem se fundamenta nessa leitura, afirmações de quem está informado quando à matéria sobre a qual escreve. 

Leitura fina, digo, pois que, encontro-o revelado nas suas próprias palavras: 

«Rigorosamente, nenhum crítico deveria pronunciar-se sobre uma obra literária senão após três leituras. E seria ideal, para além disso, que fossem feitas com largo intervalo umas das outras.» 

O que avulta, porém, nesta obra e julgo digno de menção, não é a bagagem erudita do crítico, o inventário da biblioteca lida, menos ainda ponderar aquilo em que o futuro veio desmentir as suas conjecturas quanto ao sucesso de alguns a quem vaticinou carreira. 

O que, permitam-me considerar decisivamente relevante ante este livro, é ter encontrado nele espelhada a coragem e a honradez do seu autor. 

Escrevendo-lhe do Brasil, a 6 de Dezembro de 1954, o director da Edições Dois Mundos revela-lhe:

«O autor, Casais Monteiro, declarou-me pessoalmente que considera o seu livro como uma das obras mais honestas e de maior valor que se têm publicado em Portugal nos últimos anos». 

Escrevendo-lhe directamente, a 24 de Agosto de 1954, numa carta preenchida com notas de leitura pormenorizada, José Fernandes Fafe, faz-lhe sentir:

«Li o seu livro com toda a atenção de que sou capaz. E, antes de mais, deixe-me dizer-lhe que todas as páginas praticam a honestidade do mister crítico, teorizada, com muita actualidade, na denúncia que faz da “crítica necessária”». 

Eugénio de Andrade, escrevendo-lhe a 31 de Julho desse mesmo ano, depois de ter lido a totalidade da obra, declara-lhe: 

«Antes de mais quero dizer-lhe que achei corajosa, desassombrada e limpa a sua visão da nossa literatura contemporânea. É tão rara essa coragem nos nossos dias e tal modo se perdeu o hábito de dizer a verdade» que aquilo que deveria ser norma passou a excepção». 

Idem na mesma perspectiva Fernando Lopes Graça, num cartão de visita pessoal: 

«Fernando Lopes Graça agradece ao Dr. Franco Nogueira a amabilidade da oferta do seu Jornal de Crítica Literária e felicita-o sinceramente pelas invulgares qualidades de penetração, honestidade e coragem de que no seu livro dá provas.» 

Coragem desde logo porque, funcionário diplomático já com responsabilidades funcionais significativas, não hesitou em ter tomado como referência escritores cuja ideologia e alinhamento político eram ostensivamente mais do que contra o governo de então, contra o regime, mais ainda do que contra este, contra o próprio sistema económico-social característico do mundo ocidental em que nos inserimos. 

Estão presentes, em extensas páginas do Jornal, Aquilino Ribeiro, Soeiro Pereira Gomes, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, com quem se viria a incompatibilizar, mesmo não convocando como relevante um Ferreira de Castro. E estão com a plena consciência por parte de quem avaliou as suas obras, das ideias políticas que professavam e da projecção que as mesmas tinham nessa escrita. 

Sabendo do risco, Alberto Franco Nogueira correu o risco; não tinha por si outra força do que a sua, outra autoridade do que a autoridade moral, sobretudo porque, para si, a arte pela arte era conceito caduco. 

Risco que, no entanto, não o poupou à irritação de expoentes da direita política mais radical, de que cito, entre outros António José Brito, monárquico e integralista, que sobre ele escreveu: 

«Vindo dos ambientes da esquerda, a sua percepção do interesse nacional levou-o a juntar-se a Salazar na defesa da integridade do território pátrio. Sem dúvida algo da sua formação originária lhe ficou presente e, por isso, nem sempre damos plena adesão à sua obra e às suas posições. Quando aborda o período do Estado Novo no volume consagrado a essa época, editado pela Livraria Civilização, as páginas que dedica à vida cultural, com destaque exagerado para a mera Literatura e, nela, para os escritores da oposição, elogiados bem além dos méritos e elencados com minúcia (que não se verifica para outros, de quadrante oposto), são páginas que me causaram compreensível irritação.» 

Coragem também porque, tomando, como veremos, posição clara contra a escrita-panfleto, a redução da arte à propaganda, soube, precisamente em coerência com esses princípios, censurar, de modo ostensivo e desassombrado, todos os livros que haviam sido escritos por Francisco Costa, escritor assumidamente católico e que fazia da mensagem católica tema da sua escrita, mas num estilo em que: 

«[…] os primeiros trabalhos foram mais obras panfletárias ou apologéticas do que romance.» 

Mas entendamo-nos para que não haja mal-entendidos. Para Franco Nogueira: 

«O catolicismo de modo nenhum é inibitório de realizações artísticas. Sob certos aspectos, pode mesmo dizer-se que dá ao artista uma maior liberdade e amplitude de criação.» 

Mas o que está em causa, e no entender do crítico, desvaloriza a obra e a sua intemporalidade é que: 

«Os seus romances são mais do que católicos: mostram que o desejam ser; que foram escritos para defesa e apologia do catolicismo; que são premeditada e intencionalmente, meros instrumentos ao serviço de uma doutrina e de uma mística.» 

E, no entanto, ao abordar uma obra como Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira, reconhece, contabilizando-as, ideologia do autor e natureza artística da obra, e por isso escreve: 

«Neste particular, poder-se-ia dizer que se trata de uma novela obedecendo a uma concepção ideológica precisa e com um intuito determinado. Mas Carlos de Oliveira é estruturalmente artista e para ele a arte sobrepõe-se a quaisquer considerações extra-literárias: a sua novela nunca é um panfleto: é, de facto, uma obra de arte.» 

Honradez, disse, porque soube declarar virtudes onde as encontrou, esconjurar defeitos onde eles se encontravam. 

Escrevendo-lhe a 2 de Agosto de 1954, Marcello Caetano, então Presidente da Câmara Corporativa, anima-o, primeiro com um pedido de compreensão: 

«Levei tempo a ler o seu Jornal de Crítica Literária não só porque leio devagar (sobretudo quando a leitura se presta à reflexão) como porque estes dois últimos meses foram para mim de grande fadiga – são os meses de exame e eu fiz 442 provas orais!» 

Mas continua: 

«O seu livro é um livro sério – o livro de um homem inteligente e culto, que parte de certos princípios críticos e que sabe ser fiel às suas regras formais.» 

Franco Nogueira escreve este livro com a consciência de que o seu tempo literário era o do elogio generalizado, de que os jornais prodigalizavam encómios a tal ponto monótono que todos os livros pareciam, sem excepção, serem obras-primas. 

E, no entanto, há na sua avaliação sempre o mesmo registo de contida moderação, furtando-se a denegrir. 

Dele não se poderá dizer, como de tantos, que o crítico quer sucesso na medida de ter sido um escritor falhado. Senhor da arte da prosa, não se lhe conhece obra publicada na ficção ou na poesia. O livro de poemas que escreveu, e está inédito, redigiu-o quando de 28 de Setembro de 1974 a Maio de 1975, com a dignidade de a sofrer sem queixume, esteve em prisão no Forte Caxias. Chamou-lhe O Vento e as Grades. 

Estamos, pois, ante uma postura senhorial, até pela modéstia com que entoa as suas afirmações, sempre sob ressalva, a benefício de outra melhor opinião. 

Alberto Franco Nogueira escreveu o Jornal de Crítica Literária bem sabendo que tal não seria patamar para o que fosse na vida social, bem consciente de que se tratava de opção atípica na profissão que escolhera, advertido até do embaraço que poderia daí resultar. 

Trata-se de momento agónico na sua vida literária; tudo tinha começado, como no-lo recordou Henrique Martins de Carvalho, seu condiscípulo, com o contacto, ainda aluno da Faculdade de Direito, «com os jovens escritores que cultivavam o neo-realismo ou escreviam na Seara Nova ou no Novo Cancioneiro.» 

Posto isto, acompanhemo-lo na sua análise crítica para lhe descortinar a razão e o modo. 

Nota-se, em primeiro lugar, um apreço seu pelo profissionalismo, fruto da tenacidade e do aprimoramento da obra literária. 

Franco Nogueira está consciente da medida em que escritor de uma obra só não é digno ainda de se considerar como tal e, com igual lógica, segue atento, em relação àqueles cujos livros estuda, o percurso literário tal como se projectou nos sucessivos livros publicados. 

À reiteração teimosa na produção literária, junta, por outro lado, a minúcia que é a antítese da improvisação. É isso que regista em Carlos de Oliveira, ao censurar-lhe o livro Alcateia, por contraponto à obra A Casa na Duna, este publicado em 1944 aquele um ano antes, já que para si: 

«O artista dotado de grande facilidade de realização terá tendência para resvalar aos poucos numa improvisação artística». 

Eis porque conclui, resumindo o seu pensamento: 

«Não vimos nós, por exemplo, um romancista português, consagrado e de numeroso público, afirmar num dado momento que o seu programa literário consistia em escrever e editar dois livros todos os três anos? Quando um artista chega a esta sistematização da sua personalidade poderemos recear o embotamento das suas faculdades.» 

Sente o que diz a propósito dos primórdios da obra de Fernando Namora na poesia e reportando-se ao nosso meio literário: 

«Alguns limitam-se a um livro de versos e nada mais publicam: para estes, quase sempre adolescentes, a literatura é simplesmente um processo de satisfazer a sua vaidade pessoal.» 

De Aquilino Ribeiro diz, por exemplo, que «todos os volumes subsequentes são uma projecção, um desdobramento, uma ampliação dos contos inseridos em Jardim de Tormentas, esse «livro de mocidade», publicado em 1915, tinha Aquilino já trinta anos. 

Do ponto de vista da forma, Franco Nogueira mostra quanto a técnica da escrita é para si o ponto de observação indispensável a uma correcta valoração das obras sobre as quais incide a sua culta observação. 

É, em primeiro lugar, o tema do estilo, um dos critérios reitores da aferição da boa literatura. 

Em Aquilino Ribeiro, por exemplo, encontra o tema «o acto de criação é estilo», «a realidade corporiza-se em estilo». 

É essa transmutação da «realidade circundante numa outra realidade formal independente e pessoal» que é para si característico da Arte; realidade pessoal, no entanto, como sublinha, quando escreve sobre José Gomes Ferreira e o seu livro O Mundos dos Outros, publicado em 1950 com prefácio de Mário Dionísio, que 

«[...] não obstante a independência da obra de arte, por detrás desta paira sempre a personalidade do artista.» 

mas, sem prejuízo desta prevenção: 

«[…] há que estabelecer uma cuidada distinção entre o seu aspecto literário e o seu aspecto pessoal. Perante este há que manter um escrupuloso respeito. Perante aquele, a crítica pode ir até onde lhe permitirem os dados fornecidos pela análise da obra». 

Em Fernando Namora, concretamente em A Noite e a Madrugada, obra em que, apesar de a considerar «frouxa», encontra nas páginas dedicadas ao episódio do cerco dos contrabandistas o que lhe permite afirmar: 

«[…] pela sua intensidade, pelo seu vigor, pela sua flagrância, pelo dramatismo das situações, pelo recorte dos personagens, pelo seu movimento geral, essas páginas são das mais notáveis da literatura portuguesa dos nossos dias». 

Namora que, em contrapartida e mau grado o reparo adverso, teve a suma categoria pessoal de, em carta de 12 de Agosto de 1954, lhe ter escrito: 

«Muito obrigado pelo seu livro – um belo e sereno livro. Quanto a mim uma das melhores obras que têm sido publicadas em Portugal.» 

Enfim, é o domínio da linguagem, a riqueza vocabular, a construção frásica. 

Se em Aquilino Ribeiro, Franco Nogueira encontra o óbvio, a banalização de expressões não comuns, um vocabulário de dupla raiz «erudita e humanista umas vezes; noutras, popular e regionalista», não se coíbe de considerar que, em alguns passos, o autor do Malhadinhas «vai ao ponto do exagero», do mesmo modo que lhe assinala «a inusitada construção das frases», afinal, «tudo a faculdade de se exprimir sensorialmente», em suma, o suficiente para, em remate de avaliação, o considerar «o maior estilista e o maior prosador português da actualidade». 

É esse exprimir-se sensorialmente que capta a sensibilidade do crítico Franco Nogueira e assim também em Fernando Namora ele recorta: 

«Namora tem um dom especial de usar as palavras de modo a tornar-nos o que descreve plasticamente vivo». 

Se, em relação a Aquilino Ribeiro, coragem teve para ter suscitado defeitos em quem já era um insigne prosador, mais ainda, depois daquele superlativo citado quanto à valia do examinado, considerou, em juízo crítico censuratório que um romance como Maria Benigna é exemplo de um dos «trabalhos nitidamente falhados como construção romanesca», pois, mais uma vez nas suas palavras «Aquilino demonstra aí uma completa inabilidade para o romance citadino». 

Mas não é só questão de intrepidez é que, a fundamentar a sua asserção, Franco Nogueira dá mostra de uma agudeza de análise que não pode passar sem registo. 

Para si «a grande, a excepcional capacidade de Aquilino está toda na análise psicológica em profundidade ou em extensão. Revela-se inapto a uma análise psicológica em profundidade ou em cunha, a uma investigação subterrânea da pessoa humana». 

Já no que à substância respeita, é aí que se centra, no tempo histórico em que escreveu, o cerne da questão que, sendo polémica, encontra a linha axial delimitadora do que é arte face ao que é propaganda. 

É sabido que os anos da guerra e do pós-guerra – e como guerra refiro-me à que ensanguentou a Europa entre 1939/1945 – o grande tema da vida intelectual europeia era saber se a Arte, e de todas elas a Literatura, deveriam estar ao serviço de uma causa, e naturalmente, que oriunda a ideia das esquerdas, alinhando necessariamente o artista e o escritor com a causa dos desfavorecidos e, mais restritamente do proletariado, em prol da paz, forma de engobar, em frente unitária, o denominado antifascismo. 

Tudo isso trouxe debate público e esteve na origem de obras que de técnica literária tinham pouco, mas que, na valoração global que então polarizava os espíritos, havia quem considerasse que, pelo seu conteúdo militante, haveriam de ser consideradas como obras de referência, ao serviço do povo. 

De tal modo se enraizou o problema que, ainda em 1954, Álvaro Cunhal, escrevendo a partir do Estabelecimento Prisional de Lisboa, sob o pseudónimo de António Vale, faria chegar à revista Vértice, editada a partir de Coimbra, um texto, intitulado Cinco Notas sobre Forma e Conteúdo, no qual, tenta, em ponto de ordem à polémica, a dialética de conjunção dos dois termos do binómio, o conteúdo e a forma, através da valorização deste como instrumento da forma. Citando-o neste trecho de bela extracção estética: 

«A indicação “primeiro o conteúdo!” visa estimular o artista a não sacrificar os seus mais belos sonhos à inabilidade, à indisciplina, à desobediência ou impaciência das próprias mãos. Visa estimular o artista a exigir das próprias mãos o trabalho, o esforço, a paciência, a tenacidade, a perseverança, a audácia, para realizar os seus sonhos mais queridos. É evidente que (mesmo considerando o “momento da criação artística”), o amor pela arte, o espírito criador, o caminho para o enriquecimento e renovação formais, está da parte daqueles que dizem “primeiro o conteúdo!” e querem que as mãos sirvam para realizar o sonho. O acanhamento, a hostilidade a uma arte renovadora, a estagnação formal, da parte daqueles que gritam “o assunto depois!”, que sacrificam assim os sonhos à inabilidade das mãos, às deficiências e limitações formais se é que, mais comodamente ainda, não deixam de sonhar.» 

Alberto Franco Nogueira não é imune a este contexto. Está seguramente ao lado da literatura que sente as dores humanas, que se coloca ao lado dos explorados e dos humilhados. 

Nota-se quando, por exemplo, ao analisar Ferreira de Castro nele encontra o que entende adequado chamar «literatura de simpatia humana», a «preocupação do drama social» e valoriza positivamente esse alinhamento, não deixando, porém, sem reparo que o livro A Curva da Estrada, publicado em 1950, é «talvez» - e veja-se a delicada elegância desta forma adverbial dubitativa a evitar a arrogância assertiva que outros teriam - «tenha sido um livro oportunista no ponto de vista político.» 

E é então que surge, ostensivamente exposta, a questão da intemporalidade como vector essencial da avaliação de uma obra literária, ressalvando, como diz a certo passo que «uma obra de arte impõe-se aos vindouros e subsiste no tempo por qualidades diferentes das que foram encontradas pelos seus contemporâneos». 

Diz Franco Nogueira sobre esta obra de Ferreira de Castro, projectando a conclusão para a obra futura cuja continuidade já adivinhava: 

«[…] será mesmo de recear que, sem embargo das suas inegáveis virtudes, toda a obra de Ferreira de Castro – demasiado temporal, excessivamente ditada por solicitações de momento, humanitária sem chegar a ser humana – possa ser vítima de preocupações ou das necessidades transitórias de espírito que, até agora, a tem motivado». 

Este mesmo critério, pois que fruto de verticalidade intelectual, aplica-o Franco Nogueira à obra de alguém mais próximo dos ideais de conservadorismo político, Joaquim Paço d’ Arcos, a quem descortina três fases na respectiva obra, a primeira a biográfica, a segunda sobre os «vícios e preconceitos» da pequena burguesia lisboeta, a terceira a «cosmopolita» mas em quem verifica que «sofre muitas limitações que roubam à sua obra profundidade e duração». 

E porquê, perguntar-se-á o leitor? Porque, segue Franco Nogueira: 

«[…] escasseiam elementos de recriação que as intemporalizam; os dramas dos seus personagens são demasiado afirmados e pouco sentidos; o seu universalismo, mais geográfico e espacial do que humano e psicológico, tem por base somente nomes estranhos e terras exóticas; e a realidade da acção funda-se numa objectividade material e fotográfica de que se não soube extrair uma segunda realidade que domine artisticamente a primeira e que, revelando-a, a ela se sobreponha sob o influxo da imaginação criadora». 

Lançados assim os eixos do pensamento do crítico literário, não destoam no seu alinhamento em relação a cada um dos escritores sobre os quais incide a sua análise acutilante. Vejamos a simpatia por Miguel Torga e a distância por José Régio: neste detecta a bisonha clausura, naquele o «panteísmo telúrico». 

Em José Régio, Alberto Franco Nogueira acha – e acha que ele não superará essa condição - : 

«[…] o escritor que se recusa à vida: memorialista intelectualizado, esteta fechado sobre si próprio, egocentrista, alheio a emoções e estranho a dramas que não sejam os seus» 

a juntar a um escritor que segundo ele, é dos que «escreve por desfastio». 

Haverá nisto excesso, que a obra posterior de Régio viria a desmentir, mas não se pode negar estar-se ante ponto de partida congruente e rico de potencialidades analíticas. 

Em Torga, sobretudo no Torga poeta, Franco Nogueira acha: 

«[…] uma nitidez de linhas, uma clareza de expressão, um vigor de linguagem e de subtil imagística, por vezes um ritmo harmonioso, que fazem do autor do Cântico dos Homens um dos excepcionais poetas, adentro dos poetas maiores, da nossa actualidade literária». 

Mas não só ao poeta, sim também ao novelista, ao contista, Torga, Franco Nogueira dedica o seu entusiasmo a este «escritor [que] parece realizar-se e projectar-se completamente em qualquer género». 

Para o interpretar, dando-lhe sentido e linhagem, entronca-o na tradição literária mas aquela que seja a de um «cidadão livre do mundo e português», individualista, «mais próximo de um Herculano de botas cardadas, chapéu de abas e guarda-chuva no braço, visitando pomares e vinhedos, do que de um Garrett, aristocrático e amaneirado, pisando salões; é mais irmão de um Camilo, que partilha broa com um almocreve de Viseu, do que de um Eça, mundano e cosmopolita; é mais vizinho de um Aquilino, que de samarra percorre as feiras-francas nas estradas da Beira, do que de um José Régio, esteticista e misantropo intelectual». 

Excelente trecho, como magnífico este outro sobre o médico escritor: 

«[…] esse amor medular pela terra e pelos homens da terra tem qualquer coisa de divino». 

Veja-se agora como reagiu o granítico Torga, que não era tido por amável, a escrever-lhe, em jeito de pedido, a partir de Coimbra, a 5 de Julho de 1954 sobre o livro crítico que acabara de ler: 

«É, em minha fraca opinião, uma tentativa séria, e em muitos passos feliz, de clarificação do nosso confuso panorama literário actual. Apenas me apetecia pedir-lhe duas coisas: maior margem de esperança para certos jovens, a quem talvez não seja justo pôr já diante dos olhos a perspectiva do naufrágio e um pouco mais de paciência judicativa para obras que estão ainda a processar-se». 

Não quero esgotar o livro Jornal de Crítica Literária, tarefa aliás inviável, nem abusar do vosso tempo. 

Se trouxe este livro não é porque ele esgote toda a escrita de Franco Nogueira no domínio do seu contacto com a Literatura. É uma selecção de escritos saídos em jornais, no Diário Popular e também em A Semana, nesta de 1951 a 1953. É sobretudo um fim de uma «vocação autêntica» como bem afirma Manuel de Lucena ao ter ido ao encontro da sua biografia. 

Um fim com uma excepção, porque, como bem reparou, atento e minucioso Jesué Pinharanda Gomes, num artigo com que contribuiu para um volume de homenagem, publicado em 1999, organizada por Teresa de Melo Ribeiro, Manuel Vieira da Cruz e Gonçalo de Sampaio e Melo: 

«Franco Nogueira revisitou a literatura portuguesa, num acto de regresso ao princípio, quando a “Livraria Civilização” o incumbiu de escrever o volume suplementar à História de Portugal de Damião Peres. O extenso capítulo sobre a Vida Cultural é obra de meritória informação, ainda que de diferente valoração, ao conceder a primacialidade à literatura e às artes plásticas […]» 

«Uma obra vale por si ou não vale de todo» é frase com que este livro se inaugura. Frase de quem fez nome na vida pública, considerado e desprezado consoante os tempos históricos e por tempos históricos contrários teve de passar, mas, em síntese, cada vez mais respeitado, arrefecidas as pulsões ideológicas em favor de juízos mais serenos da vida e dos homens, esta obra vale por si. E muito. Através dela encontra-se não apenas alguma Literatura, não apenas uma época, e já seria muito, mas o culto da honradez no modo de julgar. E com que actualidade. Citando: 

«O público, é certo, já não acredita nas críticas que lê, tantas são as vezes em que tem sido ludibriado […] Os próprios autores criaram a psicologia do louvor. Deixa-os insatisfeitos tudo o que não seja aplauso incondicional ao que escrevem. […] Sobre as direcções dos jornais e revistas exercem-se pressões de toda a ordem; as direcções, por sua vez, transferem essa pressão para o crítico.» 

Franco Nogueira, crítico literário, Franco Nogueira ministro. 

Em uma carta pessoal, belíssima e comovente, escrita a 2 de Março de 1962, Fernando Piteira Santos, seu condiscípulo, a mulher então presa pela PIDE, lança-lhe, com dedicada elevação, a agonia da tremenda questão existencial que se pressente ante estas duas facetas do mesmo Homem, dois momentos de uma mesma vida: 

«Penso na distância entre a política sem futuro em relação à África de que é solidário e o estímulo das palavras que dedicou à contribuição do Castro Seromenho para uma “literatura negra verdadeira”. Pergunto-me se ao chegar a sua casa será capaz de reler os poemas de Manuel da Fonseca ou de José Gomes Ferreira? Pergunto-lhe se ainda lhe é consentido admirar um Casais Monteiro ou um Miguel Torga? Pergunto-lhe as páginas de “Uma Abelha na Chuva” ou os versos de “Terra de Harmonia” não terão para si hoje um acre e estranho sabor? Pergunto-me se do mistério das suas cores quentes, do traço exacto e forte, as camponesas do Pavia não o olham com desolado espanto?» 

Enfim: não sou crítico literário, nem universitário das letras, sou apenas um homem grato. É por gratidão à Aida Franco Nogueira e homenagem a seu Pai que escrevi este texto que acabo de vos ler, por gratidão à Universidade Lusíada, onde tentei ensinar durante dez anos, que me sinto honrado por lê-lo hoje aqui. 

Termino. O livro que me levou ao encontro de Alberto Franco Nogueira ostenta uma dedicatória íntima: 

«recordação longínqua de um moço que há muito morreu, esta lembrança de uma velha pedra da calçada que se agita». 

Melhor título não há para este momento de memória: uma velha pedra da calçada que se agita. 

Muito obrigado.

domingo, 17 de novembro de 2019

A alma de uma grande escritora

Segurei-o com o cuidado devido para que a lombada não partisse e as folhas amarelecidas não se desconjuntassem, afinal com a delicadeza que me irmanava com a delicada escrita.
Publicado em 1945 são «novelas» como lhe chamou o editora, a extinta Parceria A. M. Pereira, saída de uma vivência que lembra a de Irene Lisboa e que - seguramente por causa do título - me trouxe a memória sensitiva de José Régio. 
O título, interessante - e tenho o hábito de procurar razão para os títulos dos livros no interior dos próprios livros - é o nome do conto inicial, curiosamente alma é nome da personagem de outro dos contos, ambiguamente chamado Perdi Alma, a autora expondo-se ali como uma das figuras da história, a professora primária.
Lido agora, temos de nos situar no tempo em que tudo foi escrito para encontrar o que ainda hoje nos apela como contemporâneo e é muitíssimo, ainda que aquele mundo não seja o ambiente citadino onde os leitores abundam ou pelo menos os que viram páginas aos livros.
Leitores cruéis logo concitariam contra a autora tudo quanto a tornou actualmente ignorada, desde o ter sido responsável pela página literária do Diário de Notícias até ao facto que se indicia pela dedicatória, feita a Fernanda de Castro. 
E, no entanto, essa rejeição pelas ideias impede a adesão ao que é Arte pela Literatura. 
Se frases soltas dão exemplo da valia literária de uma obra - e só por si não dão, pois há o enredo, a arquitectura da história e o modo de a contar - sublinhei as suficientes para só por isso fosse possível convencer à leitura.
Logo no texto inicial, a velha casa onde «a umidade [sic] da grande casa sombria e os longos anos sem auroras enchiam-na dum doloroso tédio», aquela casa «tão velha que já não tinha história», povoada «pelo silêncio entornado na casa sem risos infantis». Vida de ausência a que ali se relata a daquela mulher que «dentro da resignação que aparentava, caminhava, submissa, para uma loucura pungente», surge num relato de tal modo sentido que quase apetece intrometer-nos na história e pedir ao destino que lhe altere o fim: só que não tem fim, deixando em aberto o que teria sucedido àquela vida diminuída.
É esta capacidade de transmitir que a autora coloca na boca de uma das suas figuras numa expressão notável: «eu, por palavras, é que não sei dizer...só escrevendo...» e assim se por dizer ante este livro em que a simples descrição da Natureza surge de forma carregada de sensações, como quando, no conto A Preta, «acima da sua cabeça o céu toca a parreira e fala-lhe uma linguagem de Sol e calor, de promessas e de festa», porque «Na Primavera, o céu é tão azul, tão azul, que até parece que nos quer falar», ou ainda como, no conto Eu venho sempre, surge à caminhante «um ponto branco, indiferente, e a estrada que já perdeu as sombras ainda lhe não disse: - Pára, é esta a tua casa; bate, é esta a tua porta».
Poderia prosseguir, indo a Ferros-Velhos buscar tanto que por ali se espraia, exuberante, de riqueza de observação, conto de cinco homens e cinco carroças, a viverem «do mesmo negócio triste de comprar coisas velhas pelos povoados das proximidades», figuras de um recorte gritante de dura figuração, «cobertos de andrajos, cheios de fome, e não compreendem que pertencem àquela humanidade que ama, cria e se continua», «expostos às chuvas e às invernias, os ferros-velhos são figuras misteriosas - eles que não têm outro mistério que o seu fado», dormindo em palheiras, «o Tio Mela geme na noite e embala numa cadência dorida o sono dos que não têm conforto»; mas deixo ao leitor a possibilidade remota de encontrar a obra em algum alfarrabista e encontrar-se com o aqui fica em breve apontamento.
Natércia Ribeiro de Oliveira Freire, nasceu em Benavente em 1919 e morreu em Lisboa em 2004. Teve no seu tempo fama, tem no presente olvido. É nome de rua, para os lados de Benfica, mas mal tem quem a leia. Se tê-lo feito lhe devolveu à alma vida, fico feliz por isso.

domingo, 20 de outubro de 2019

Tomaz de Figueiredo: lido na minha toca

Luto por ler, a horas desencontradas, surgidas pela noite, forçando-me a tornar em descanso uma pausa nos deveres que, almas penadas, não param. 
E li assim, folha a folha, até mesmo às últimas folhas que a teimosia me fez passar para a manhã de hoje e bem poderia ter terminado ainda ontem, mas há aquele resíduo de liberdade que é deixar para amanhã o que bem poderias fazer hoje e assim fiz.
E que livro extraordinário e sobretudo que descoberta surpreendente. Digo isto, bem sabendo que os meus espantos são a admissão pública da minha ignorância, pois Tomaz de Figueiredo tem Obra Completa editada pela Imprensa Nacional, graças à iniciativa daquela outra alma sensível que é António Braz Teixeira. Mas que querem se eu não o conhecia, e só cheguei a ele porque no livro Estátua de Sal de Maria Ondina Braga li uma sua carinhosa apresentação da obra, escrita como a negar-se a apresentar mas tão cheio de júbilo e admiração pela escritora sua conterrânea? E se, estando a trabalhar sobre o Jornal de Crítica Literária para o que depois direi, não desanimei quando Alberto Franco Nogueira (para muitos ainda) seu inesperado autor faz um delicado reparo a uma sua segunda obra, o Nó Cego, vendo nela seriedade mas frieza?
Agarrei-me, assim, a A Toca do Lobo, ademais numa encadernação maravilhosa que alguém com mimo mandou envolver a obra, em macia pelica marron, com letras douradas, incluindo as da menção «prémio Eça de Queiroz (romance)/Concurso de Prémios Literários (1948) do Secretariado Nacional da Informação», menção que por certo condenaria o livro para a fogueira em que os inquisidores contemporâneos, polícias do gosto e serviçais do politicamente correcto, logo o condenariam, visto o ano da edição (1947) e o prémio governamental que recebeu.
Mas eu estou na idade do querer lá saber e já nem luta travo com inutilidades, usando antes o tempo de guerra para ler em paz o que os outros repudiam, e ler até mesmo o que esses tais proprietários do bem e do bom idolatram - sem suporem sequer e nem teriam, insignificante eu - ser tão quisto por seres como o meu ente leitor.
Voltando ao livro e à descoberta. 
Há nele, em todo o seu esplendor, a notável língua portuguesa, a mesma de que cada vez há mais gente a usar menos vocábulos e frases, económicos com os termos porque curtos com as ideias, mas que aqui surge a trazer-me memórias do que ouvia em casa e assim rememoro, palavras que, sem se topar o significado, quase sugerem, logo pela fonética, ao que vêm: o «não pagar a pena estar com pequices», os «codiciosos padrecas», os tecidos «enfeitados de borbetos», a boca «mal desfranzida», o «pontapé [que] foi muito bem assopado», o «como quem arrancasse os pesos e estorcagasse o pêndulo dum relógio», a «cambulhada de filhos» e tanto mais.
E há também aquelas formas de dizer que, de originais, acrescentam ao dito, o feito: «lia-a, lia-a, saltando linhas, atrapalhando páginas», «ia ficando mais vermelho que os corais de um peru, quase lhe saltavam as cordoveias do pescoço», a tia Francisca «aquela alma enérgica e grande demais para corpo tão sequinho, quase só feito de roupa», o «desarreigar da memória», o «jovem levita, fulo, depois de uns palanfrórios casuísticos, dumas alicantinas que deixaram a tia Francisca de gesso. /Pois sim! Levou para tabaco)» e uma torrente de expressões em luxúria que é deleite.
Mas não é apenas prodigalidade vocabular e estilística de que a obra é feita, sim, e muito, aquilo a que alguns detractores de minguado verbo, invejosos, apodaram de "regionalismos", a rebaixar, tentando alçar-se em cima da escória do palavrão soez porquanto inútil, os do que Vergílio Ferreira, bilioso, na sua Conta Corrente chamava [e com vossa licença, eis tal qual, volta Gil Vicente!] «da Literatura de caralhadas». 
Escrito sobre casa em aldeia, surpreendendo dos rurais o verbo, A Toca trá-los no discurso directo e retrata-os com as cores do seu modo de ser e falar.
Há no sedimento desta escrita crítica social aberta, à justiça duvidosa e ao clero prevaricador, de carinho pelos dos baixios da vida, nisso incluindo as senhorias morgadas em miséria envergonhada, mendigos sem ousarem estender a mão, e sobretudo aquela fome de vida e de amor, aquela ânsia de tempo e o desejo de paz no silêncio da criação. 
Livro de linhagem há nele patente desprezo pelo estado vil a que chegaram os que pela origem tinham deveres e se afundaram pelo gozo das liberdades até ao rebaixamento: «Já reparaste na vergonha que é, o geral disso a que ainda se chama fidalguia portuguesa? A pedir vassourada, meu filho, a pedir vassourada! Já quase sem distinguir entre uma espada e um chanfalho de polícia...Não to digo por vaidade, pois não me julgo de melhor sangue do que tantos e tantos, mas, em muitos desse tantos, o bom sangue é o que já secou... Misturado com muita borra...Uns porcos!).»
Livro de desesperada solidão, há, apanhada em instantâneo fulgurante «a multidão dos felizes, os de tão acanhada alma, que se confessavam e eram, felizes!».
Leio, li, pudesse achar tempo, fabricando-o, leria de novo. Descobri outro livro seu, desta feita com prefácio risonho - e como não poderia sê-lo - de Onésimo Teotónio Pereira. E vou comprar todos os que a Imprensa editou, sofrendo-lhe o incompreensível preço usurário, vergonha porque de uma entidade que deveria promover a cultura tornando o ler barato e assim acessível.
Fico por aqui. Voltando aonde comecei direi, citando o excerto final do que escreveu para Maria Ondina: «Apresentar este livro? Um livro destes?! Apresentá-lo só o apresentaria se cada leitor aqui o chamasse e lho lesse». 
Tal e qual. 
Venham, pois, leiam por mim e o que eu não li.

domingo, 13 de outubro de 2019

Robert Walser: a plenitude do Céu

Ler caminhando, ou ler ao caminhar, talvez possa ser assim, que se configure a obra do suíço Robert Walser e o livro das conversas que Carl Seelig com ele manteve quando o encontrou já internado num hospital psiquiátrico, em Herisau.
Patrocinado pela Pro Heltevia, Fundação Suíça para a Cultura,  e editado em Abril, pela BCF, Editores, a obra, que no original alemão se denominou Wanderung mit Robert Walser, vem traduzida por Bernardo Ferro [com revisão de Isabel Castro Silva] e traz na edição portuguesa, assinada em Agosto de 2018, texto de apresentação do curador de Arte, Hans Ulrich Obrist.


A leitura é viciante de tão atraente; de tal modo que dali passei para a busca de toda a obra de Walser.
Um certo instinto levou-me às traduções francesas, se bem que em Portugal haja já parte significativa da escrita publicada: porventura a ideia, mais do que discutível mas que tenho por segura por mero instinto, de que para uma versão a partir do alemão serão o francês e o italiano os idiomas que melhor reproduzirão as subtilezas linguísticas, desde o rigor do vocábulo à cadência do estilo. 
Além disso, trata-se de um modo de escrever poético, luxuriante na adjectivação, embora sem subtilezas estilísticas, mas em que cada palavra vale por si e pelo que onomatopaicamente sugere.
Vindo aqui, que direi do lido sem assassinar a apetência pela leitura?
Falando deste livro de Seelig e das conversas que, entre 1936 e 1956, manteve com aquele que assim acaba por surgir indirectamente biografado, estamos em pleno passeio pela cultura, conhecida como se por uma lenta sedimentação, familiares sendo os autores e artistas, conhecidas as circunstâncias e tudo sempre em simbiose íntima com a Natureza, essa magnífica biblioteca e pinacoteca onde Walser encontra letras e cores, conhecimento e sentimento e o a propósito que ao disperso confere harmonia, mesmo quando surpreendente.
Há, talvez possa dizê-lo, um difuso panteísmo, nessa mansa mística que perpassa pela contemplação extasiada, a alma solitária a corporizar-se pelo que a cerca, em substanciação do que existe pela vida de toda a existência. 
E há, também, direi, nesse vagabundo extravagante e vagueante, uma categoria pessoal senhorial tão rara no mundo de rudeza boçal em que gorgoreja tanta linguagem que se supõe Arte, dignidade na penúria e na renúncia.


Lido o livro em dois fôlegos, li também já Der Spaziergang, traduzido para o francês por Bernard Lortholary e publicado em 1987 pela Gallimard e agora reimpresso em Março. Trata-se agora da escrita do próprio, as suas caminhadas, as suas reflexões: rareiam as alusões literárias, aumentam as menções pessoais, o estilo ganha corpo, longas tiradas em cada marco da jornada, um humor requintado a pontuar sabedoria. Disso se trata, talvez: a obra de um eremita saído do seu presbitério, excerto de vida de um homem de sete ofícios. 
A viagem inicia-se ao sair do seu «gabinete de trabalho ou de fantasmagoria» e precipitar-se na rua. Estou a quase metade de um terceiro livro, outros vêm ao meu encontro, já encomendados. 
Quando gosto, quero saber a extensão máxima do desejo, admitindo mesmo o desapontamento da frustração.
Dir-se-à que esta escrita lembra a que Franz Kafka: não, porque neste, os tectos são rebaixados, os interiores sufocante, em Walser o horizonte é o infinito entardecer e a plenitude do Céu em noite de luar, apaixonado. Chama, sim, numa certa parte, Robert Musil, por um não sei o quê que me surge sem que o saiba dizer; e bem compreendo que se trate de um autor tão prezado por Stefan Zweig, outro viajante pelo território da tragédia, como Friedrich Hölderin, como tantos, errantes e caminhantes.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Num espelho estilhaçado



Em Comala, há mortos que nunca realmente morrem e vivos que nunca realmente vivem.

Há um filho que chega, para pedir satisfações a um pai ausente, por promessa feita à mãe em seu leito de morte.

Há outros filhos e outras mães, e outras gentes ainda daquela cidade, por vezes pouco mais que vultos num horizonte à meia-luz, desfiando sem pedir licença um infindável rosário de misérias, enxertando sem pudor a sua história na trama principal, reclamando protagonismo.

E há, no centro de tudo, aquele pai ausente e latifundiário tirano. Um homem cuja magra réstia de luz, eivada de trevas, reside na constância de um grande amor de juventude, tão determinado quanto impossível.

Como num espelho estilhaçado, a narrativa em «Pedro Páramo» muda de boca, ponto de vista, casa, cronologia.

O que se mantém constante é o pano de fundo: um lugar e um tempo cruéis, regidos pelas leis da violência, da vingança e da perda, povoados por personagens que, mais do que interagirem, parecem chocar umas contra as outras, para logo se desencontrarem no essencial.

Emerge também, ao longo das páginas, o retrato de um México rural, dominado por donos de terras e agitado pela revolução e pelo conflito armado.

Os locais são descritos como quem caminha por eles adentro com cada sentido desperto, deslocando o leitor do lugar onde porventura se encontre para o interior de um «tempo da canícula, quando o ar de Agosto sopra quente, envenenado pelo odor putrefacto das saponárias»; para o interior do «voo das pombas rompendo o ar quieto, sacudindo as asas como se se desprendessem do dia»; para o interior da «água que goteja das telhas» e soa «plás plás e depois novamente plás, em meia folha de louro que dava voltas e reviravoltas entalada numa fenda dos tijolos»; para o interior, ainda, do «eriçar da tarde com uma chuva de triplas ondulações» e de «uma aldeia que cheira a mel derramado…».

Real e irreal são um só, nesta obra original, misteriosa, simbólica e pujante, escrita pelo mexicano Juan Rulfo, e à qual Jorge Luis Borges chamou «una de las mejores novelas de las literaturas de lengua hispánica, y aun de la literatura».

Li-a na tradução de Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues, publicada pela Leya em 2017.

domingo, 8 de setembro de 2019

Simenon & Maigret

Foi o primeiro livro que escreveu da série Inspector Maigret e assinou com nome próprio. Na altura já tinha mais de vinte "romances populares" publicados pela Fayard. 
Tudo nesta escrita de Georges Simenon é interessante, até o próprio processo de escrita.  Abalançou-se a este género que considerou difícil.
Dactilografado numa improvisada secretária, pregada esta a um barco em que vogava entre o acaso e um porto de acolhimento, a narrativa traduz, em muito, o ambiente circundante, desde a vida portuária à dos personagens que o habitam. Li-o em francês por ser nessa língua que ele pode ser sentido e por isso compreendido.
Permito-me sugerir que aquilo que fez um género na categoria dos romances policiais só seria possível pela conjunção deste ambiente, de uma personalidade conturbada como a do seu autor e um ambiente filosófico parisiense, que mais tarde o existencialismo haveria de assumir como filosofia e literatura.
Por um lado, porque Jules Amedée François Maigret tem vida própria, nisso incluindo biografia. Nasceu em 1877 e morreu no final de 1970; por outro, porque o seu método de trabalho é em tudo distinto daquele a que o leitor se habituou a assistir quanto a todos os outros. O que há aqui não é o exercício da inteligência lógico-dedutiva de um Sherlock Holmes, nem a ambiência upper class das figuras de Agatha Christie, na qual o belga Hercule Poirot é seguramente lídimo expoente e presença refinada.
A vida pessoal e familiar de Maigret, a sua missão, o modo como Simenon o situa, são também, numa certa essência, um panfleto de crítica social: mal pago, a viver uma vida de modéstia e sacrifício, sujeito a todas as contingências, é o proclamado braço da lei em luta contra o mundo do crime, mas socialmente desprezado por tantos que, querendo paz e tranquilidade para as suas vidas, beneficiam da vida de que acaba por se privar, dia e noite perseguindo as suas pistas, sofrendo intempéries e arrostando perigos, vencendo o cansaço e a desilusão. Logo no segundo capítulo: «La présence de Maigret au Majestic avait fatalement quelque chose d'hostile. Il formait en quelque sorte un bloc que l'atmosphère se refusait à assimiler», um polícia ostensivo num lobby de hotel, «le mot crime, cauchemar de tous les hôteliers du monde.»
O que há neste livro de interessante, depois de ter lido, à solta, muitos outros da mesma série, é que está ali tudo, porque no ovo da serpente contém-se a totalidade da serpente: a figura maciça do inspector, como se talhado de um bloco de carvalho, a sua calma fleugmática, a persistência de um cão de caça, mas sobretudo aquele método de envolvimento com o mundo onde descortina o crime, o de se plantar e deixar embeber pelos locais, seus odores e seus ruídos, e isto porque «dans tout malfaiteur, dans tout bandit, il y a un homme». 
Para chegar à essência da realidade é preciso esperar, aguardar por uma fissura que revele o humano e não apenas o jogador que é aquilo que, em regra, a polícia procura. É preciso chegar mesmo à perigosa proximidade com o criminoso, não sendo menor perigo atingir o limiar da compaixão, essa forma amorosa de amizade, ir em busca de Pietr le Letton, dito Fédor Yourovitch, dito Oswald Oppenheim e, enfim, não o encontrar, antes aquele que se apoderou da sua alma por já ter o seu corpo.
E, no entanto, como ressalva Simenon, também ele Maigret usa, como os outros seus colegas, os meios extraordinários do seu tempo, os do francês [Albert] Bertillon, doamericano [Albert John] Reisse e os do também francês [Edmond] Locard, com tudo quanto eles significam de crença racionalista na ciência como método criminalístico.
A história deste livro é, não apenas a de um interessante exercício sobre a duplicidade de dois gémeos, mas igualmente a transposição do tema para o mundo da própria atitude policial, tantas vezes o polícia tem também de se travestir no que não é, mas naquilo que seja, no caso, a aparência e o porte conveniente; é, por outro lado, o da excepcionalidade do homicídio no quadro da criminalidade financeira, no caso, a de uma rede de burla por falsificação, excepção que, tornando invulgar a ocorrência da morte, gera quase a improbabilidade da sua existência e a dificuldade na sua condenação, por tudo se situar num mundo em que os jogos de poder atenuam a diferença entre o permitido e a infracção, tornando sólidas reputações um biombo interessante para a ocultação da sua ligação ao crime, o agente de polícia figura insignificante no território em que se movem embaixadas e políticos, empresários e altos quadros.
No interjogo teatral dos episódios, em que o narrador amiúde se intromete, como espectador comprometido da sua própria escrita, tudo é, além disso, transportado para contextos históricos e sociais, em que a percepção das pessoas só se alcança pela compreensão da sua proveniência. É uma escrita culta, para leitores que se não fatiguem. 
Escrito em 1931, terá de se compreender, é certo, a mundivisão do autor, não diferenciada do que era o Zeitgeist desse momento: os segmentados países bálticos, o entrechoque dos comunistas e dos ultranacionalistas, o ghetto judaico, os russos e os polacos, os intelectuais e os vagabundos. 
Algumas das referências talvez não passassem no crivo delirante do politicamente correcto, essa neo-censura da contemporaneidade.
Trata-se de Literatura, sem arrogância nem piruetas de estilo, expressão, mostra, enfim, da força vital de uma densa humanidade e de compreensão por tudo quanto é humano. Só por isso, vale a pena, até como pedagogia, necessária para os burocratas da repressão, mesmo os que, na repartição pública do pensamento, organizam o modo tecnocrático de tentar ir ao seu encontro, para a debelar, afinal sem a entender. 


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Mulher e Mito


Cover of The Penelopiad, by Margaret Atwood

Terminei há algumas semanas o breve livro «The Penelopiad», de Margaret Atwood. Li-o na versão original, publicada pela editora escocesa Canongate.

Em Portugal, após uma primeira tradução publicada em 2006 pela Teorema, a obra encontra agora guarida no catálogo da Elsinore, chancela da 20|20 Editora, sob o título «A Odisseia de Penélope».

Numa narrativa que vira do avesso o clássico e o mítico – sem, por isso, se abster de uma ou outra vénia a certas convenções do género, como o uso do coro – Margaret Atwood propõe-nos uma releitura da «Odisseia» com olhos femininos e actuais.

É Penélope, falecida há muito séculos, quem nos relata os acontecimentos, ou melhor, a sua versão dos acontecimentos. A narrativa é pontuada por outras intervenções femininas marcantes, como as fugazes aparições de Helena e, mais impressivamente, os monólogos disruptivos das doze servas enforcadas.

A linguagem engendrada por Atwood para este relato sente-se, na essência, como contemporânea. Um pouco, na opinião desta leitora, como aquele exercício em voga de colorir fotografias do passado para demostrar o quanto é aparência o que nos separa dos que viveram noutras épocas.

Assim, no tempo que Penélope recorda, como hoje, os mesmos desejos e ambições, os mesmos jogos de poder, os mesmos enganos e desenganos, as mesmas pequenezes, o mesmo pragmatismo.

Por toda a obra passa, sobretudo, a noção de que a única verdade possível é a dos ângulos sob os quais essa verdade pode ser olhada. E a consciência de que o relato histórico que vinga diz mais sobre o equilíbrio de forças, desde logo sociais, de determinada época do que sobre aquilo que ela foi em absoluto.

Nesse sentido, o relato de Penélope (ou de Atwood, como se preferir) coloca em evidência uma questão sobre a qual tenho reflectido ultimamente e que é a da natureza aberrante do tradicional narrador literário omnisciente e omnipresente. Aberrante porque exclusivo da literatura. Um daqueles momentos em que a arte rompe os seus vínculos com a vida para gerar algo inteiramente seu, porventura porque a complexidade do real, com a sua verdade irremediavelmente fragmentada, nos faça exigir ao imaginado certos refúgios de certeza.

De forma evidente, «A Odisseia de Penélope» reflecte também sobre a condição da mulher e, dentro dela, sobre a de certas mulheres em particular. São questões centrais nas obras de Atwood, a julgar pelo que li nalguns textos de enquadramento, pois que, lamentavelmente, das próprias obras praticamente tudo me falta ler. Mas neste ponto não me alongarei, para não estragar o pleno efeito da história sobre futuros leitores.

Sinto ainda a necessidade de referir que li este livro antes de ler a original «Odisseia», de Homero. O plano era outro, mas a minha insistência em começar pela «Ilíada» e a minha impaciência em ler o livro de Atwood assim o determinaram.

Penso que não é impossível apreciar a obra deste modo, pressupostas uma breve pesquisa prévia e a noção geral que a cultura popular nos deu já das linhas de força do texto clássico de Homero.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Alienistas e Tribunais

Agustina Bessa-Luís escreveu-o, na forma de folhetim no já ido jornal O Independente, em 54 episódios, entre Maio de 2001 e Maio de 2002. Surgiu depois editado em livro, com capa de Vasco Rosa.
Má revisão desfeou a paginação da obra sobretudo nas hifenizações. Mas que passe isso adiante, minudência oficinal em território de sublime.
Ser folhetim deu oportunidade ao mais característico estilo de Agustina: a história é contada com  repetições, nem sempre idênticas na menção, meio de lembrar ao leitor semanário o que pode ter esquecido com a passagem do tempo; e da narrativa sobressaem os aforismos. O que poderia passar por má técnica ganha aqui a força arrebatadora de uma reiteração de tema que prende o leitor com um caminho pelo fio da história face ao qual tudo são nuvens de divagação e Arte em suas flores.
São, eu sei, os aforismos o mais controverso dessa forma de contar para aqueles a quem incomoda seguramente a profunda sabedoria que deles dimana, sabedoria de conhecimento pela instrução e pela cultura, sabedoria pela experiência de vida, sabedoria sobretudo pela profundíssima sensibilidade à alma humana. Seguramente tomaram-no tantos cujo erguer do lugar comum é voo breve e, sobretudo, rasteiro.
De tudo isso, a história é quanto menos importa: no caso a de Maria Adelaide Coelho, filha de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias, que o marido, Alfredo da Cunha, então director do periódico da Avenida da Liberdade, fez internar em manicómio, por razão ou ganância fosse, na peugada de uma história de paixão entre ela e seu motorista.
Para esta narrativa Agustina convoca, como em contraponto, o que se escreveu então sobre o caso,  a começar pela personagem, facto que arrastou a opinião, e situa-a no advento e morte do sidonismo, o estretor da República, as primeiras pedras do Estado Novo a serem forjadas; e imiscui-se mesmo em diálogo com as suas fontes, tornando vivo, pois que contemporâneo, o relato que recupera à memória pública.
História de alienistas e tribunais, vêm com ela e suas pulsões o que para ela necessariamente trouxe a psicanálise e seu foco na histeria e, em permanente registo a dúvida sobre a sanidade dos seus principais intervenientes; e, sobretudo, esse desfolhar de intimidades erógenas a que a autora se não furta e a torna, a quem a não conheça, surpreendente. Agustina nestes domínios, engana pela aparência.
Talvez seja hoje impossível encontrar o livro ou, pelo menos, muito difícil: o tempo de sobrevivência da escrita no mundo em que vivemos, não chega a criar lembrança no tempo em que se escreveu, quanto mais dezassete anos depois.
Escrevo este apontamento para que nem tudo se perca, pois nem tudo há neste ano da morte da sua autora, e gostaria de o terminar com uma de tantas frases que ficaram a germinar, sublinhadas que foram para que um dia depois as reencontre, assim releeia, a ter ainda tempo para tal. 
Tiro à sorte, abrindo o livro numa página qualquer, ao acaso. Fala na página par de Sidónio Pais para quem «a morte era-lhe necessária depois de tanta grandeza» e volta na ímpar seguinte a Maria Adelaide, que «acabava sempre com aquele soluço na garganta, um desejo de amor que a fazia pálida, distraída e cansada».
Pudesse, copiava-os todos, magníficos que são, maravilhosos de espanto.

sábado, 20 de julho de 2019

Sarah Afonso: eu sou o que sou!

Ver esta manhã a exposição da arte popular minhota de Sarah Afonso, que agora se encontra na Fundação Calouste Gulbenkian, foi desfiar um álbum de recordações. 
Lembrei-me ao chegar a casa do livro de conversas suas com a neta, Maria José Almada Negreiros, editado em 1982 com prefácio de António Alçada Baptista. 
Procurava explicação para um facto que se me tornou evidente ante a cronologia do exposto que, pouco extensa, vai aos primórdios da juventude, nascida que foi em 1899. 
Casada com José de Almada Negreiros em 1934, terminaria a sua carreira de pintora em 1939. Em aberto ficou-me o porquê dessa pressentida e enigmática negação do que fora uma vida, tão breve interrompida.
Achei-a no livro. Primeiro a razão da pintura: «Eu entrei na pintura por emoção», diz, a abrir a conversa que arranca precisamente com essa origem minhota e com a arte popular * marcante ante a vivência vianense em que se situou o seu aprendizado de «desenho linear e trabalho de mãos», estes os depois chamados «lavores femininos».
Depois a razão da desistência [Conversas, página 112 da edição da Arcádia **] «[...] eu não sei explicar o que é a pintura. Ainda hoje uma senhora que é muito simpática, quis conhecer-me, veio cá a casa, olhou para os meus quadros e disse " a sua pintura é igual à do Almada". Disse isto para ser simpática mas isto fere-me. Ele é o que é. Eu sou o que sou. Mas que me venham dizer que a minha pintura é igual à dele, isso ofende-me, sobretudo porque ele tem um grande nome. E isso foi uma das coisas que me fez parar. Havia sempre alguém a dizer "a sua pintura é igual à do Almada". E não é nada igual».
A emoção que ditara o começo condicionara afinal o fim. Daí em diante Sarah Afonso canalizaria a criatividade para o desenho, porventura com «[...] aquele prazer da obscuridade que muitas vezes é a marca das grandes amorosas», como se diz de Maria Adelaide no folhetim de Agustina Bessa-Luís O Mistério da Légua da Póvoa.
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* Popular sem aspas, ao contrário do catálogo que, como se envergonhasse do termo, a curadora Ana Afonso o grafa em itálico e entra em remissão para obra académica a situá-lo, relativizando-o, afinal
* página 91 na segunda edição, publicada em 1993 pela D. Quixote, mais cuidada na resolução das imagens, se bem que também todas a preto e branco.