domingo, 24 de julho de 2022

Amélia

Escrita breve. Mónica recorda sua Mãe. Interpreta-a, exercício tão difícil, fá-la ressurgir no que ilustrou para este livro. 
É narradora e avisa quando surge, em tímido apontamento. 
Mas é indissociável a sua presença face ao que relata, assim,  como inseparável Amélia, tia de Agustina, não só do livro de que é a personagem e no qual lhe antecipa a morte, mais do que como pressentimento, como antevisão, mas inextricável do que viria a ser a própria Agustina "condenada a administrar o espírito de Amélia".
Tive a honra de editar o "Colar de Flores Bravias", aí a simbiose pictórica de Mónica e o texto memorialístico da autora da "Sibila". 
"Sibilas", aqui no plural, compreensivelmente.

domingo, 19 de junho de 2022

Fernando Pessoa: o tema do outro

Pavorosos na maledicência, certos críticos. Era de bom tom apoucar a biografia de Fernando Pessoa escrita pelo seu contemporâneo João Gaspar Simões.  
Agora que foi publicada a versão portuguesa do monumental esforço biográfico da autoria de Richard Zenith, à falta de melhor há quem o acuse de nada trazer de original e valia sim tinha o outro.
Lendo, como estou a fazer agora e desde há dias, nota-se  a mentira daquela ressabiada proclamação. Infelizmente quem lê críticos não lê os criticados. Pior: refastela-se no escárnio e fica-se por aí. 
Leio, dizia: comecei a mais de meio do livro o que é a minha forma de ler biografias. Está aí o biografado na idade em que  julguei conhecê-lo, teria eu vinte anos. Quando chegar ao fim, e levarei muito tempo por ter pouco tempo, irei ao início, ao início da criatura.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Noite onírica, enlanguescente


 Li "O Barão" e já não fui capaz de ler os dois contos que com esta novela completam o livro. Edição pobre, papel amarelecido, formato bolso, corpo felizmente largo para ajudar à leitura, o que não seria necessário porque neste fim de tarde de Domingo comecei e consegui chegar ao fim ansioso por regressar. E leio pausadamente.

A escrita é torrencial na sua cadência por locais oníricos, a cena em crescendo de enigma a ter o seu epígono numa noite alcoolizada, a trama a crescer e sem caminhar definido por onde segue, viagem em busca da memória do amor idealizado, o amor retraído. 

O que seria a narrativa de uma visita oficial de um sorumbático inspector escolar a uma remota aldeia pelas terras do Barroso dá um viagem fantasmagórica pelo enigma e pela luxúria, longos corredores vazios e seu silêncio, o solar decadente onde a vida de há muito decaiu, correrias pelos esconsos do medo e enfim, a queda e a fractura, a morte, os caminhos sombrios do sonho e da loucura, o barão carnívoro insaciado, a desbragar-se em aviltamento e afinal em sofrida carência de companhia.

António José Branquinho da Fonseca, filho do escritor Tomás da Fonseca. Licenciou-se em Direito mas foi do mesmo escasso praticante para além de funções públicas a desaguarem, porém, no serviço cívico a que deu vida, o das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian que tanta oportunidade deu a que se lesse onde, ao tempo, a leitura não chegava.

Fundara a "Presença", dela sairia com Miguel Torga. Ao chegar à Fundação em 1958 não mais publicaria. O seu livro "Bandeira Preta" é de 1956. 

Dir-se-ia que o escritor se sublima aqui e se redime do pecado do convencional. 

A capa do pequeno volume, desenhada em boleadas curvas languescentes, não vem assinada e é pena. Está ali, num traço, a lascívia do lugar e a que caminha ondulante e deixa atrás de si o momento de silêncio: Idalina, serva e dona, um breve instante, a ambiguidade provocante do quase.


domingo, 23 de janeiro de 2022

Irina Ostrakoff


 Os que supõem que eu leio muito ignoram quanto eu já deveria ter lido. Sucede assim com a obra de Rodrigo Leal de Carvalho, que agora iniciei a partir do seu "Requiem por Irinia Ostrakoff". 

Conheci-o em Macau, há mais de trinta anos, fomos inclusivamente vizinhos no início da minha estadia naquele território.

Amável, cerimonioso, a natureza das funções que cada um de nós desempenhava, ele Procurador-Geral Adjunto, pôs-nos em contacto oficial em circunstâncias que decisivamente não vêm ao caso.

Não o supunha sequer escritor, mas para ter disso uma vaga percepção seria necessário que a minha vida então fosse outra que não a do cargo para que tinha sido nomeado, e, talvez mais ainda, se esse cargo não tivesse criado, ou eu por causa dele, um fosso entre a minha pessoa e o que não eram funções oficiais. Enfim, tudo lamentável, tudo um erro, tudo em nome de uma funesta ilusão, tudo a atulhar-me de recordações desinteressantes, uma lamentável selvajaria. 

O Macau que haveria para conhecer, logo por exemplo, o do seu editor, o Rogério Beltrão Coelho e sua mulher Cecília Jorge e tantos outros que se dedicavam à Cultura, tudo isso eu perdi então.

É com este sentimento nostálgico de inútil arrependimento, impossível a procura do tempo perdido, que terminei, lido aos poucos como só me pode suceder, este seu magnífico livro.

Leal de Carvalho é exímio na arte de contar, um relatar cinematográfico, logo a prender o leitor com a cena de abertura, em que, a inventariar-se os míseros haveres da falecida Irina, se pressente que, envolto no acto, o representante do Ministério Público é seguramente o narrador e por esta via o próprio autor. A partir dali, num tão recordatório ambiente de humidade quente e pegajosa , o ar irrespirável, prossegui para a história daquela ucraniana de vida aventurosa, a ser esgotada desde a revolução bolchevique em 1917, e com ela o exílio para Paris, e despois em permanente viagem, ante o advento do maoismo, pressentido em Xangai, tudo do remedeio à opulência e dali à sordidez, a decadência encapotada pela aparência.

Escrita culta, rica nas referências do contexto histórico em que tudo se move, é também escrita de requinte e de ironia refinada; escrita sensual também, em que a presença carnal nos surge envolta no véu da delicadeza do modo de a convocar.

É também uma escrita bondosa, feita de generosidade compreensiva para os pecados menores, fruto de uma atenta e minuciosa observação dos humanos e das circunstâncias, tantas vezes penosas, em que lhes é dado suportar. O mundo surge-nos ali, como se visto do lado do rodapé da vida, como se a ascensão da rampa que leva aos salões fosse tão efémera quanto a visita, a convite, a um clube exclusivo porque privado.

Vou ler mais, isso em nome de um princípio de que fiz regra, sopesando também o tempo que já se foi: já que leio menos do que devia e do que se supõe, lerei muito do que gosto, nada quase do que suponho não vir a gostar. E não digam que é mundo sem novidade: a haver surpresas, venham as que nos são familiares e são assim já parte do nosso modo de ser. 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

O Leopardo

 


«Tenho setenta e três anos, por alto terei verdadeiramente vivido, um total de dois...três anos no máximo», eis a nostálgica constatação de Don Fabrício, ele que «havia dezenas de anos que ele sentia o fluído vital, a faculdade de existir, a vida, em suma, talvez até a vontade de viver, desprendendo-se de si, vagarosa mas continuamente, como os pequenos grão de areia que escorrega, um a um, sem pressa e sem detença, pelo estreito orifício da ampulheta». Era Julho de 1883.

Cito este excerto de "O Leopardo" de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Um clássico, dos que eu deveria ter lido há imensos anos mas não li, cuja leitura só consegui completar entre breves intervalos, os que foi possível, cuja narrativa não segui, pois nunca sigo, mas cuja paisagem humana, a geografia sentimental, ficou como uma viagem que fizesse pela sua Sicília e já a fiz há tantos anos de que apenas recordo o que leitura retorna agora como reminiscência, terra de «um sol violento e impudico, um sol narcotizante que anulava as vontades e mantinha todas as coisas numa imobilidade servil».

"Il Gattopardo" é, para além de uma estupenda obra romanesca, um momento em que se surpreende a  História da unificação italiana, a ascensão de Garibaldi, o triunfo de uma nova ordem por sobre a decadência da velha classe social, cenário de contrastes, de interesses mascarados de ideais, em que «o ciúme pessoal, o ressentimento do beato contra o primo sem preconceitos, do pateta contra o rapaz inteligente, haviam-se transformado em argumentos políticos», em que «ele havia chegado à conclusão que a aristocracia era constituída por um conjunto de homens-carneiros, cuja existência se justificava somente pela lã que ofereciam às tesouras da tosquia e pelo nome»

Por ali perdida - na página 35 de velha edição portuguesa, que foi a que me serviu, editada em 1961 pela Bertrand, a frase «se queremos que tudo fique como está é preciso que tudo mude», tantas vezes adulterada e imputada a outros. 

É sobretudo um livro carregado de observações irónicas, elegantes na forma, mesmo quando cáusticas na substâncias, de uma categoria senhorial que é de um tempo já morto. A cuidadosa tradução de Rui Cabeçadas mantém-nas incólumes.

Pululam pelas suas páginas personagens risíveis como o «homenzinho seco que escondia a alma de liberal ambicioso e rapace por detrás de uns óculos tranquilizadores e de gravatas imaculadas», ou outro «que praticava as próprias ladroeiras convencido de exercer um direito», o ainda o sacerdote, Padre Pirrone que «se sentava num canto, assumindo o ar marmoreamente abstracto dos sacerdotes que não querem pesar nas decisões alheias».

Talvez para esta viragem do ano, esta leitura, terminada já há semanas, adiada a vinda aqui anunciá-la, seja recordação simbólica. Sem obra prévia publicada, nem posterior, o autor, Príncipe de Lampedusa, iniciou a escrita deste seu livro aos 60 anos.

sábado, 18 de dezembro de 2021

De maneira que é assim

 


Mário de Carvalho é advogado e escritor, diria escritor apesar de ser advogado. Não que na profissão forense não se recrute uma plêiade significativa dos que se dedicaram à escrita e à edição. Entre os primeiros lembro, por exemplo, Rodrigues Miguéis, dos segundos recordo, exemplo também apenas, António Alçada Baptista. Só que as condições em que hoje se advoga por causa delas tudo converge para que quase não sobre tempo, nem estado de alma para que a escrita tenha oportunidade de surgir.

Confesso que li muito pouco de Mário de Carvalho, mas há sempre tempo de emendar a mão. Não digo que tenha começado por este livro, sucede é que terei de reler outros seus para me recordar da leitura pretérita pois, como em mim, já é natureza, há muita leitura que suponho nova mas, ante os sublinhados e por vezes as notas marginais, verifico que mais do que ter já lido, tinha pensado quanto lera e ruminante.

Li, pois, estas suas memórias dispersas, o livro aqui a meu lado. 

Há nelas muito de política, de quem foi militante comunista e em cujo ser essa vivência ficou indelével qual sacramento indissolúvel. O tempo da clandestinidade está ali retratado, temperado com a ironia crítica mas nunca como repúdio. A militância nasce-lhe no sangue como se pressente na apontamento "O dia em que levaram o meu pai", «a altura das perguntas de fundo, que eu nunca havia feito», segue-o com os cuidados conspirativos, os «pontos de apoio», a que se chegava com a consigna «põe os olhos no chão», as "tarefas" que, decididas pelo "colectivo" chegavam através do "funcionário", cujo nome se ocultava pela da sua função.

Mas o livro não se fica por aí. Proliferam apontamentos da Lisboa aldeã, essa aldeia feita de vizinhanças, a Penha de França, a Senhora da Glória, a Rua da Graça, o Forno de Tijolo, Sapadores, o Cinema Royal, os domingos, porque «domingo sem piquenique não era domingo não era nada». 

Leio em muito do que ele escreveu a memória dos mesmos lugares que foram meus, sem, porém, a substância do que para ele significaram e tornam hoje estes "relances" escritos "ao correr da pena", linguagem comum, familiaridade, como se companheirismo sem camaradagem.

«Oxalá nos encontremos, caro leitor», escreve no seu breve e tímido prefácio. Aqui estou, meu caro, com este breve apontamento. Ainda bem que o Ernesto Rodrigues levou as suas cópias "gatafunhadas" ao João de Melo e assim se iniciou com os "Contos da Sétima Esfera". 

Prometo ler mais, começando assim pelo aquele seu princípio.

domingo, 22 de agosto de 2021

A larva racionalista

 


Romeno, Constantin Virgil Gheorghiu estudaria filosofia e teologia em Bucarest e Heidelberg. Por ter servido como Secretário de Embaixada durante o regime do Marechal Antonescu, seria preso ao terminar a 2ª Guerra quando as tropas soviéticas ocuparam o seu país natal. 

Rumaria a Paris e publicaria aí o que é a obra pela qual é mais conhecido, "A 25ª Hora" [título original Ora 25] uma denúncia dos totalitarismos. Em 1963 seria ordenado padre da Igreja Ortodoxa. 

Li este livro na edição original. Foi escrito em 1956 e a Bertrand publicou-a em 1957, sem data de edição, com tradução de Maria Isabel Cunha Dias Miguel e dele tiraria uma segunda edição em 1970. Foi-me difícil trazê-lo aqui por não achar modo de o dizer.

A narrativa comove, ferindo por vezes a sensibilidade. Pressente-se na leitura algo de autobiográfico neste professor romeno a viver na Bulgária, dividido entre a obediência devida às autoridades locais do País estrangeiro onde presta serviço e o dever humanitário de salvar quantos possa da violência feroz do ocupante a que o País se rendera, subserviente, qual código de honra de marinheiro ante naufrágio e «há na Bulgária, na Roménia, mais pessoas que se afogam na terra do que no meio do oceano em plena tempestade».

A narrativa ocorre na Bulgária e na Roménia já sob o domínio soviético, trazendo para a Literatura a experiência vivida pelo autor. 

«José Martin era agora professor na Universidade de Sófia e director do Instituto de Antropologia Búlgara». O seu trabalho, financiado por um "Instituto de História Natural dos Estados Unidos" era «medir, pesar, fotografar, penetrar nos segredos da vida e da alma» de todos quantos na Bulgária pudessem ser assim inventariados, por ser a Bulgária tida pelos americanos, como um dos povos "atrasados", como «as tribos negras da Austrália, os Esqimós, canibais, a Grécia, os Pigmeus, as tribos indianas, a Roménia, a Índia». 

Há nisto uma amarga ironia e um substrato antroposófico racial que a narrativa vai tornando presente através da estonteante imaginação do autor, o da aniquilação da pessoa pela colectividade, o ar irrespirável que se vai acumulando ao longo das duzentas páginas deste meu exemplar de folhas tão oxidadas pelo tempo que passou.

Livro em que está presente a expiação da culpa, a culpa pela incapacidade de salvar na terra aqueles que os homens condenaram, há, a perpassar a escrita, a tragédia existencial entre o místico e o racional, este como opressor, aquele como salvífico, a danação do Homem sem transcendência,: «um místico, um homem que tem fé, pode libertar-se do pecado. Um homem lógico leva o pecado até à morte».

É seguramente uma obra de empenhada denúncia, mais do que a sorte dos seres humanos que, quase vultos, povoam as suas páginas, o destino cruel a que os arranjos da 2ª Guerra condenaram aqueles povos: «Os senhores entregaram aos Russos os Romenos, os Búlgaros, para salvar Roma, Paris, Londres. Entregaram-nos aos Russos no decurso das vossas conferência de Teerão, de Yalta, de Potsdam», em que o cinismo da diplomacia tenta convencer-se, em conveniente hipocrisia moral, de que os novos tempos trazem a oportunidade da convivência pacífica, e do compromisso, cómodo e utilitário modo de vida entre os Estados, regra de vida do Embaixador romeno que, não por acaso, tem como nome "Pilatos", em alegoria ao Pilatos bíblico que, assim o autor no-lo apresenta, na Última Ceia, tinha já o cheiro do Estado «tinha concluído a aliança com a Polícia».

Relato de um universo de aprisionamento, de mimetismo, em que «todos os homens têm um rosto semelhante», mundo de rendição, de seres que, tocados no ombro, levantam os braços e gritam, apavorados, «rendo-me!», rendição pela qual ansiavam, ansiosos de desistência.

Há em tudo quanto li, e li tudo, o que creio ser a mais conseguida faceta deste modo de escrever, a figuração do verme, "racionalista" porque apenas pode viver no cérebro do Homem, que «com o cérebro cheio de vermes o Homem não deseja na vida senão a "pequena lógica", a quotidiana, instrumental para a sobrevivência imediata, mas mutante «que deixe de ser válida de um dia para o outro».

A "larva racionalista" que faz aquele em que foi feita penetrar «perder primeiro a alegria. Depois perde a tristeza. Nunca mais está alegre nem triste. O verme racionalista devora em seguida outro segmento do cérebro, o Homem fica sem nenhuma espécie de ideal, sem nenhuma esperança. Depois o Homem que tem o verme na cabeça torna-se indiferente à noção de direcção. Todas as direcções lhe são indiferentes. A vontade começa a fatigar-se por sua vez. Tudo o que pode acontecer a este Homem lhe é indiferente.»

Livro tremendo, pena estar esgotado, actual, necessário. A vida repete-se mesmo quando a História parece diversa. O Homem é sempre "O Primeiro Homem".

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Escorrer do próprio verbo

 


Agustina surpreende-nos íntima mas secreta pela sua escrita quando se interpõe aos seus personagens, tornando-se narradora e amiúde comentadora, ou quando se revela através deles.

Mas foi talvez nesta correspondência que um conhecimento deu em amizade e esta em sentimento de pertença, esta naquele sentido em que as almas, diferentes porque diversas, se encontram num relação de mútuo e tão próximo reconhecimento.

O encontro deu-se no que seria uma ocasião que lhe deixaria azedas recordações, em Julho de 1959, em Loumarin, perto de Aix-en-Provence, num colóquio de escritores, patrocinado pelos EUA um dos «meios de combate contra a a influência soviética na Europa durante a Guerra Fria».

Como se percebe por esta troca de cartas e não se supõe de modo tão nítido no livro "Embaixada a Calígula", livro de viagens em que esta é uma das referidas, nem os organizadores do colóquio a sentiram como parte do que ali estava e se pretendia e ela própria se apartou de tudo, antipatizando com o que lhe foi dado assistir, essa «majestosa mediocridade» lhe chamaria, acintosa no seu sentir verdadeiro. Antipatia, com uma excepção, porém, a do seu interlocutor nesta correspondência, o escritor Juan Rodolfo Wilcock, que se inicia nesse ano e se prolonga até 1965.

Trata-se, como acentua o prefaciador, Ernesto Montequin, de laços que oscilaram «entre o afecto e a malícia, entre o respeito e a insolência, entre o fascínio e o temor».

Ante as cartas, editadas em abril de 2012 pela "Relógio d'Água, o leitor sente a pulsão errática do desejo, o do encontro, adiado pelas circunstâncias ou tomadas as circunstâncias como razão para o evitar.

Para quem queira achar a pessoa da escritora para além do que escreve, há aqui uma relativa oportunidade, não fora Agustina, mesmo aqui, não largar a pele de quem não se abandona para além da sua escrita. Mesmo assim, momentos surgem, inesperados, em que a volúpia das sensações irrompe para além da contenção das conveniências e seus encargos, como quando em Agosto de 1960, escrevendo de Esposende, para o «meu querido John», como que sussurra: «e nós escorremos do próprio verbo, gracioso e amantíssimo companheiro meu», para longo se disciplinar, como a soerguer-se, para o rictus da pose, clamar, em desespero: «Todas as coisas em meu redor murcham na minha presença, em sólidas, demasiado mortas, recordações».

É um livro requintado, desigual, Juan Rodolfo Wilcock tão aquém, fugidio, cerimonioso mesmo quando superficial, desentendido ou a desentender-se do que lhe chega em afagos de cuidado e mimo mesmo quando em rompante áspero, tal qual foi Agustina, ou quando «vagabunda nos meus costumes e volto a ouvir-me hermeticamente».

É, sobretudo, um livro dorido de revelações: «Vivo a minha crise mais terrível, de dúvidas, de neurastenia, de horror pelo mundo e por mim mesma», escreve do Porto, em Outubro de 1960, e continua: «Caverna de desejos de aparência negra, eu não me atrevo a consolar-me por medo de perder o melhor da minha inspiração, o sofrimento.»

Mónica Baldaque traduziu as cartas que vinham em castelhano e nas notas à tradução explica recuando às origens terenas do Ser excepcional que foi sua Mãe: «A relação de Agustina Bessa-Luís com o castelhano tem raízes familiares do lado materno. A sua mãe, Laura Jurado Ferreira, nascida em Corrales del Vino, na província de Zamora, a 17 de Janeiro de 1897, era filha de Loureço Guedes Ferreira, nascido em Loureiro, Peso da Régua, que por motivos profissionais se mudou para Zamora em 1895. Foi nesta ocasião que conheceu a espanhola Lourença Agustina, também nascida em Corrales del Vino, com quem viria a casar-se em segundas núpcias e de quem teve vários filhos, mas só três sobreviveram.»



sábado, 31 de julho de 2021

A nobreza de não saber viver

 


Tenho apreço pelas fotobiografias, porque nelas mais do que ler, vê-se o biografado, forma de aumentar o nosso sentir sobre ele, como se nos fosse restituído.

Claro que são, amiúde, obras de devoção e esta, que estava à minha espera depois de uns dias de descanso junto ao mar, anuncia-se como uma «obra de devoção filial» e há, por nisso nelas,  menos nesta, perdoável exaltação do biografado: aqui é a voz do sangue dos seus que se perfilam, em escrita respeitosa, eles a quem lhes deu o ser mas deles tão ausente esteve pelas circunstâncias que a vida lhe impôs e fruto do que, ser complexo e tenso, quis fazer da vida. 

Estudei Literatura no Liceu a partir da obra que António José Saraiva compusera a meias com o seu companheiro de uma vida, Óscar Lopes, apesar de o meu professor de então ter feito feito notar que o Reitor lhe havia feito saber e pedido que dissesse que se tratava de obra que não podia ser aconselhada. Razões, percebi mais tarde, decorrentes da filiação comunista de Saraiva, com a qual romperia em termos graves e que o decorrer da vida acentuaria.

 Vejo aqui que esse notável estudo sobre a História das Literatura em Portugal, teve vinte e uma edições, e foi escrito nas mais penosas circunstâncias, afastado o autor do ensino, confinado de meios económicos, a obra publicada com dificuldade, assim como a sua "História da Cultura em Portugal", editada na década de cinquenta, em fascículos, pelo "Jornal do Foro", a revista dirigida pelo Advogado Fernando Abranches Ferrão.

António José Saraiva marcou o seu tempo pelo inconformismo e este livro, que Ernesto Rodrigues prefacia, é disso exemplo, quer pelo que vem escrito por seus filhos, António Manuel, José António e Pedro António, quer pela significativa antologia que o guarnece. Ao lê-lo, vem à lembrança a rebeldia de um Agostinho da Silva.

Levada a subtítulo, a frase «a intimidade de um intelectual indomável» é rica de conteúdo, mas a que me fica como exemplar é a que lhe volveu Vitorino Nemésio, seu mestre, quando, a rematar uma iracunda conversa entre ambos, sobre a nota a atribuir a um aluno, e depois de Saraiva ter tido o arrojo de lhe desligar o telefone na cara, rematou o que viria a converter-se num processo disciplinar: «Saraiva, você tem a nobreza de não saber viver».

É esta a narrativa de uma vida, os altos e baixos, as polémicas, a ruptura política, o «arco tenso» dos enamoramentos, a frugalidade estóica. Nascido em Leiria, com família originária de Donas, exilou-se em Paris, ensinou na Holanda, escreveu em Macau.

A vida interrompeu-se-lhe ao falar de Fidelino Figueiredo. Quer o que seja, acaso ou predestinação, é um dos pensadores de quem reuni quantos livros me foi possível e por quem nutro um apreço feito de sensibilidade comum.

Aqui ficam estas notas. Do filho José António fui companheiro de escrita no "Comércio do Funchal», o jornalinho cor de rosa onde se albergavam quantos eram do "contra" na década de sessenta; dirigido por Vicente Jorge Silva, vejo aqui uma fotografia em que reencontro, enfim, a fisionomia daquele que para mim era então apenas um correspondente a quem enviava, dactilografados em meia folha de papel, os meus artigos incipientes, fruto de vinte anos de atrevimento: sorriso largo, tão novos éramos, Luís Manuel Angélica.


domingo, 18 de julho de 2021

Genoveva de Lima, a elegante pluma

 


Li o que Genoveva de Lima Mayer Ulrich [1886-1963] escreveu, com arrebatamento e elegância, sobre Carlos Félix de Lima Mayer, seu pai [1846-1910]. Um artigo de jornal, nosso contemporâneo, achafurdando por mexericos sobre a sua vida social e íntima, para gáudio dos alarves, chama-a, com selvática injustiça, uma «escritora medíocre».

Casada com o Embaixador Rui Ennes Ulrich, duas vezes ministro plenipotenciário em Londres, a sua casa, hoje sobrevivente, em Campo de Ourique, animou um requintado salão literário. Há uns anos, graças à gentileza do seu actual curador, Alfredo Magalhães Ramalho,  tive a grata oportunidade de ali falar sobre o texto de apresentação que escrevi para a edição, enfim traduzida do italiano, da obra "O Príncipe" de Nicolau Maquiavel. 

O livro,  publicado em 1945, editado pela Livraria Luso-Espanhola que ainda conheci na Rua Nova do Almada,  é uma biografia de uma pessoa e retrato de uma época, dando o título sinal que resuma a obra: "O único vencido da vida que também o foi na morte».

Discreto membro do grupo "Os Vencidos da Vida", esse escol de primeira linha da inteligência combativa do século dezanove, foi esforço carinhoso para «baixar as pontes levadiças no castelo do esquecimento, revogar o ostracismo, esconjurar o silêncio» daquele ser propulsivo que, propiciando meios para que outros deles usufruíssem, se recolheu à discrição, ficando assim sujeito ao «emudecimento avaro dos seus contemporâneos», esse silêncio nascido na «conspiração subtil em que colaboram o inconsciente e a distração num sentimento fratricida inconfesso, onde vagamente giram despeitos subjacentes e conivências herméticas, sepultando na mesma cova a gratidão e a dívida!...»

Ler o livro, hoje quase já só em bibliotecas, como a Biblioteca Nacional ou a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian,  é surpreender na intimidade toda uma plêiade magnífica da cultura e sensibilidade, achá-los reunidos na Quinta da Cruz do Taboado, de Lima Mayer, areópago de «onze menestréis românticos, talvez irreverentes vagamente truculentos, como tudo quanto é moço, mas sem a morbidez fatalista e acusatória daqueles que, julgando conhecê-los, lhes conferiram desígnios demolidores e negativistas»; mas é também seguir a trajectória, ascencional primeiro, e depois em rápida decadência, do biografado a partir do momento em que «a alma do vencido começava a arrefecer antes do corpo: a desolação penetrava-o como lâmina mortal dum gládio invisível». 

Sobre Lima Mayer, pobre, em progressiva cegueira, isolado na sua casa às Janelas Verdes, sem companhia que apenas Jaime Batalha Reis consolava, mas já em vão, aproxima-se o momento em que «não era possível viver naquela jugulação como um destroço aos tombos», põe termo à vida com um tiro de pistola. Afinal como Antero de Quental.

Espírito tremendo de irrequieto, nada tendo escrito, Carlos Félix foi, porém, activo contemporâneo, mas em permanente «exílio incognoscível», entre tertúlias e salões,  de João de Deus, «o poeta amorável, o sonhador dos ritos ternos, o contemplativo ingénuo e forte como alma de criança e, no peito, toda uma orquestra de cânticos matutinos soltos pelos jardins de Deus», de Eça, que Manuel Rezende lhe apresenta como o «José Maria Eça Mefistófeles de Queiroz, meu velho amigo, que, dentro das botas, esconde os seus pés de chibo», do fugaz Camilo, o severo Herculano, «rodeado de admiradores submissos e de damas fanatizadas», Antero de Quental, «que, nessa altura, já vinha marcado com sombrias inclinações», Ramalho Ortigão, «em briga elegante e empoada com o racionalismo em bronze de Oliveira Martins», este «o herói da sinceridade do pensamento», tantos, afinal, na vida literária, assim como na diplomática, aqui em elegante companhia em Londres com o Marquês de Soveral, embaixador em Londres, figura lendária que se tornou íntimo do Rei Eduardo VII, estimado pela Rainha Vitória e pela Rainha Alexandra, da Dinamarca, que ambas o condecoraram.

Li o livro, há uns dias. Guardo dele, hoje que vim aqui deixar da leitura esta breve nótula, a sensação requintada do que foi, no seu mais esplêndido fulgor, esse intervalo da "Belle Époque"; entre os reposteiros da sociabilidade convivial, a pulsão trovejante de uma época de ruptura, «torneio de fúrias em desalinho, excelentes, higiénicas, que punham correntes de ar na temperatura anquilosada pela espessura dos santos».

Tudo quando cito são expressões de Veva de Lima, como ficou conhecida por este "petit nom". Por aqui se vê que medíocre é quem tão mediocremente a viu, mas isso quanto menos importa. 

 

sábado, 26 de junho de 2021

A fisiologia do amor

 


A Queda de um Anjo de Camilo Castelo Branco pode ser lido, e há quem leia, como se lido Eça de Queiroz, naquilo em que há nele, em parábola humorística, de crítica social, chacota à vida política e parlamentar do tempo, diatribe à pomposidade oca dos seus discursos, ao caciquismo como forma de promoção partidária, ao triunfo da mediocridade pelo arranjismo

A obra teve primeira edição em 1865, tinha Eça vinte anos, dez anos antes de se ter aventurado pela ironia cáustica com O Crime do Padre Amaro.

Li-a agora na 7ª edição, dita conforme a 2ª, esta revista pelo autor, publicada em 1925 pela Parceria António Maria Pereira, naquelas edições populares, em oitavo, em papel pobre, encadernadas sem título na capa, sim apenas na lombada.

O que retive foi menos aquela dimensão que hoje se diria de intervenção social pelo  sarcasmo literário - essa embora impossível de não se denotar - mas o riso, sim, de trágica ironia sobre  os acidentes do amor e seus ridículos.

A personagem, presta-se ao efeito. Sente-se em Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, nascido na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda, em 1815, filho de Basilissa Escolástica e de pai também Calisto, casado com sua prima direita, D. Theodora Barbuda de Figueiroa, ela também morgada, mas de Travanca «senhora de raro aviso, muito apontada em amanho de casa, e ignorante mais que o necessário para ter juízo», o corpo de «poucas carnes» em que assentará a soma de anedóticos particulares que o tornam grotesco.

E é assim que ruma a Lisboa onde «o demónio parlamentar descobre o anjo» e nas Cortes o novel tribuno se destaca, primeiro, pelo burlesco dos seus discursos de  cândido puritanismo e de de estrénuo combate pelos antigos valores legitimistas para, de comicidade em comicidade, ferrar o pé nos salões de Lisboa, nestes na casa de um antigo desembargador do Paço, pai de duas galantes senhoras, uma casada e outra solteira, aquela envolta em trabalhos íntimos extra-conjugais.

É por aqui que o fio da história se descose, Calisto qual anjo custódio, urde a seguir «o caminho da predestinação de desviar aquela senhora do caminho mau» e a conquistar as graças do choroso pai, arqueado de gratidão pela restituição da paz doméstica, sem saber que novos bulícios lhe surgiriam porquanto, o anjo salvador, casado embora, seria acometido por serôdia paixão pela filha disponível.

Eis o que se me tornou o momento mais inesperado e marcante do livro, a fisiologia, diria físico-química da fulminante paixão, eis Camilo em um dos seus magníficos arranques:

«Foi neste momento que o morgado da Agra de Freimas sentiu no lado esquerdo do peito, entre a quarta e a quinta costela, um calor de ventosa, acompanhado de vibrações elétricas, e vaporações cálidas, que lhe passaram à espinha dorsal, e daqui ao cérebro, e pouco depois a toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as face com o rubor mais virginal».

Mais! Explorando a fundo a caricatura e com ela a mofa, continua o autor da Brasileira de Prazins:

«Duas enfermidades há aí, cujos sintomas não descobrem as pessoas inexpertas; uma é o amor, a outra é a ténia. Os sintomas do amor, em muitos indivíduos enfermos, confundem-se com os sintomas do idiotismo. É mister muito acume de vista e longa prática para discriminá-los. Passa o mesmo com a ténia, lombriga por excelência. O aspecto mórbido das vítimas daquele parasita, que é para os intestinos baixos o que o amor é para os intestinos altos, confunde-se com os sintomas de graves achaques, desde o hidrotórax até à espinhela caída.

«E aqui está que Calisto Eloy - ia-me esquecendo dizê-lo - também sentiu a queda da espinhela, sensação esquisita de vácuo e despêgo, que a gente experimenta, uma polegada e três linhas acima do estomago, quando o amor ou o susto nos leva de assalto repentinamente».

Eis a fisiologia do amor, o «beliscão suavíssimo», «as misérias e parvoíces d'esta serôdia mocidade», o «trabalharem-no umas cogitações tão sandias, que seriam imperdoáveis, se não estivessem na tresloucada natureza de todo o homem que ama», esses «hórridos eclipses do entendimento que após si deixam lágrimas tardias e vergonhas insanáveis».

Perfilhado como «filho de mãe incógnita», órfão de pai aos dez anos, Camilo vivia então, idos amores tumultuosos, com Ana Plácido, em São Miguel de Seide. Por ela e com ela expiara na cadeia pelo crime de adultério.

É, pois aqui que tudo se situa e tudo se explica, a escrita obra de catarse e expiação.

«O amor é tão engenhoso como a natureza» remata-se na obra, no penúltimo capítulo antes da conclusão. Um escritor como Camilo sublima esse engenho com magnificência da Arte de dizer.

 

sábado, 12 de junho de 2021

Palavras e Sangue

 


O privilégio de ter um livro, ainda que amarelecido, encarquilhadas as folhas, desbotadas quando não manchadas, a capa, porém, ainda a resistir. Um daqueles livros em que os cadernos iam cosidos antes de a capa ser colada aos folios já batidos, mas em que a guilhotina se ausentava, deixando o corte dianteiro rugoso e imperfeito. 

Livro destinado a ter de se abrir com uma faca e ter uma faca adestrada a cortar papel, tudo relíquias de um tempo que parece já tão sumido no tempo, livro indiscreto, a denunciar não ter sido folheado sequer ante os maços por abrir.

Livro assinado pelo que antes o teve como seu, no caso em 1957, ano desta edição, identificado com um ex-libris e que na biblioteca pessoal teve número de ordem manuscrito na folha de guarda.

Livro com orelhas, a esquerda de resumo da própria obra, a direita a anunciar a próxima da colecção, assim fidelizando o leitor.

Livro com capa do pintor Bernardo Marques, que tanto trouxe à ilustração editorial com o seu traço em que pressentimos um Almada Negreiros ou um Mário Eloy.

Ter um livro cuja tradução se prenunciaria fraca, por ter sido isso infelizmente o que sucedeu na editora, mas que é notável porque afinal do poeta brasileiro Mário Quintana, sendo este o seu primeiro trabalho de tradução para a "Editora Globo", versão revista para português de Portugal pelo açoriano Agostinho Vieira d'Areia.

Ter a oportunidade de o livro, buscado à estante, ser de Giovanni Papini, essa portentosa figura do panorama literário italiano, de quem tento juntar quanto posso e ler tudo o que escreveu.

Livro de breves contos, publicado no original em 1912, precisamente no ano em que o autor parecia esgotado com o seu "Un Uomo Finito", ano prolífico em que traria a lume mais três obras, este, "Palavras e Sangue", traz-nos a escrita paradoxal, a equação do tempo com o seu espaço e todo um referencial onírico de desdobramento do eu em um mundo que é o seu próprio espelho.

Difícil escolher em tantas da narrativas qual a que melhor figuraria neste apontamento. Logo o primeiro em que «um pescador estendeu as suas redes e de dispôs a enganar também naquele dia os ridículos peixes», em que «o vento soprava ainda mais forte, encolerizado com a preguiça das nuvens»; ou aquele a que chamou "Sem Razão Alguma", para cujo personagem, «a insónia era o seu excitante e as obras por escrever alinhavam-se, noite a noite, na sua memória, como sonhos artificialmente conservados».

Pena faz que talvez já não haja leitores para quem «todo este presente não é mais do que um prefácio», sensibilidades comuns de alguém «encerrado como uma mónada, secreto como uma célula, mudo com um nocturno felino», seres para os quais «a quinta essência da subtileza filosófica consiste em descobrir a diferença entre iguais».

Fico por aqui. Mundos pequenos: um dos pseudónimos de Giovanni Papini foi "Gian Falco", o mesmo como se iniciou na escrita a nossa Irene Lisboa, a quem dediquei um blog, há tanto tempo por visitar.

sábado, 3 de abril de 2021

Albert Camus: livros de uma vida


 Fui comprando aos poucos, porque a vida faz perder bibliotecas, estas ao mercê dos seus insucessos, os livros de Albert Camus. Uns, agora poucos em português, a maioria, de novo já em francês, da edições de bolso da colecção Folio que a Gallimard tornou apetecível. 

Entretanto, foi-me possível, num momento de folga financeira ou de atrevimento, encontrar a obra completa já na Pléiade, com aquele típica sóbria encadernação, impressa em papel bíblia. E, depois disso, mais recentemente juntei ao lote de novo a obra integral, de novo editada pela Gallimard, agora na coleccção Quarto, desta vez enriquecida com alguns trabalhos preparatórios dos textos e notas críticas escritas por outros a tentarem dar enquadramento ao que lesse.

Hoje, ao encomendar na mesma colecção a obra integral do filósofo romeno Emil Cioran, de que me chegou, tardio eu sei, o desejo de o aprofundar, trazido o nome pela mão do Mircea Eliade, deparei-me com a questão: que fazer àqueles esparsos que fui juntando, que a alguém pode apetecer ler como a mim apeteceu, tão cedo isso foi na minha juventude? E com a questão caí no problema: mas quem lerá hoje em francês, língua em vias de extinção no nosso ensino? E quem quererá ler Albert Camus em francês e com ele a seriedade angustiada num mundo saturado de mal-estar, sedento de banalidade?

Sim, da sua autoria esgotou-se A Peste, de que houve necessidade de fazer apressadas reimpressões por causa da associação homóloga à actual pandemia. O livro que no passado foi lido como um manifesto contra o nazismo tornou-se no espelho reflexo do nosso confinamento.

Mas, regresso ao tema: que fazer daquilo que em mim é excesso e a outros, suponho, talvez necessidade? Não pretendo pô-los em venda nos OLX's pois só a ideia de os degradar ao cêntimo me incomoda. Prefiro oferecê-los, assim saiba a quem e sobretudo para quê.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Agustina - Régio: dois seres correspondentes

 


É o epistolário entre dois seres bisonhos, excepcionais na sensibilidade, Agustina a levar a palma em sarcasmo e em profundidade do pensamento, Régio, pretenso tímido, na defensiva, a defender o seu último fortim de sociabilidade, o Diana Bar, lugar que se tornou de desencontro.

E, como em toda a correspondência, ei-las as coisas miúdas, desde os reparos às pessoas, aos pequenos mandados, com a arca a comprar e a restaurar, que se tornaram duas sem que, ao final do livro, o leitor, tenha podido concluir se a segunda se chegou a concretizar.

O «luxo verbal» de Agustina está presente em toda esta escrita, adivinha a cerrada letra miúda, a ocupar toda a mancha do papel passível de ser escrita, e nela também os seus ódios e o seu orgulho, afinal a solidão, em paralelo com o misantropismo de Régio, confuso, proclamando humildade mas ardendo, afinal, no desejo de que os amigos gostassem dele e o lessem, ambíguo na sua contrição.

Claro que, como sublinha Isabel Ponce de Leão, na sua introdução ao pequeno livro, que em 2014 a extinta Babel editou, ainda com a marca Guimarães e a meias com a Câmara Municipal de Vila do Conde, a correspondência entre escritores presta-se ao voyeurismo, apelando ao consumo e assim ao aumento de vendas. Podendo ser esse o caso da primeira particularidade, e a ser ela pecado e não virtude de fruição privada, duvido que tenha ocorrido quanto à segunda. 

Através do bem cuidado índice, o leitor reencontra lugares e pessoas. É útil, mas traz, como seu resultado preterintencional, o ir-se directo ao momento em que algumas das figuras literárias que se supunham amadas, aparecerem desfeiteadas com apreciações sinceras mas nada lisonjeiras. O voyeur rancoroso terá  aí espaço para o seu deleite, breve, porém. Bem feita! Há que dar aos grandes o benefício de terem sobre o resto um outro olhar, cruel seja, até injusto.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

A Funda



Só me apercebi da sua existência quando publicou, recuperando o estilo e as personagens queirosianas, o livro que apelidou de O Regresso do Conde de Abranches, memórias do contemporâneo transpostas para os olhos transactos, narradas pelo fiel Secretário do Conde, e através dele, Zagalo, o chiste e os "leões de riso" em torno de personagens já consagrados na vida pública portuguesa nesse conturbado período em que escreveu, o ano de 1976. Personagens que não terão na altura achado qualquer espécie de piada ao à la minute de que eram instantâneo caricatural, mas que, noblesse oblige, terão disfarçado, com cara de pau, a humilhação ante o que sabiam ser fundamentalmente verdade. Entre eles, Marcial Ribeiro de Souzela.

Li-o então, a Artur Portela (Filho), em pleno PREC, no Jornal Novo, periódico que fundara em 1975 e que, corajosamente, enfrentava a radicalização que tomava conta das mentalidades e das opções políticas. Fazendo-se eco da ideia de que o riso é também uma opinião constitucional, os artigos e os livros suscitavam apreço e rancores na exacta proporção em que o País estava dividido.

Recuperei agora os volumes que faltavam [excepto um, o quarto] da sua série a que chamou A Funda, que teve início em 1972, ainda sob o consulado marcelista, de que me chegou às mãos já só a 2ª edição, editada pela defunta Moraes Editores, onde António Alçada Baptista se foi endividando até ao limite da resistência, custeando, além dos livros, revistas como O Tempo e o Modo, que faleceria às mãos do MRPP e a Concilium, porta voz de uma outra visão do catolicismo, vista do ponto de vista do personalismo cristão.

Ler este livro é surpreender  a jovem geração tecnocrática que, com Marcello Caetano à frente do Governo, entrava então na vida pública, e para eles se formava a SEDES, a sociedade de estudos que haviam gerado para tornear a proibição de partidos, ante a subsistência de partido único que o Presidente do Conselho sucessor de Salazar não conseguiu ultrapassar, limitando-se a uma alteração de etiquetas, substituindo a União Nacional pela Acção Nacional Popular.

Incidindo sobre essa nova vaga o lorgnon da sua acutilante análise, Portela, que nos deixou este ano, tira-lhes as medidas, numa crónica datada de Janeiro de 1971: «Com Salazar, impacientavam-se na antecâmara. Com Marcello Caetano, entraram, de roldão, na vida pública. Vêm de Económicas e Financeiras, de Engenharia, de Sociologia. Têm quarenta anos. São apolíticos. Estão na Assembleia Nacional, na Câmara Corporativa, nos Gabinetes Técnicos. Fazem sauna, são católicos progressistas e falam alto, forte».

Assim pintados, eis o seu pensamento pragmático e utilitarista, numa só frase sumariado: «A política, ela própria, globalista, surge-lhes como um romantismo. Não há política. Há políticas. Não há política. Há soluções.»

E, no entanto, o regime, astuto, Artur Portela anota, soube sacar-lhes o necessário proveito. «Muito mais hábil, Marcello Caetano coloca-os, politicamente, nos cargos menos políticos. Ele tira o rendimento máximo destes operários altissimamente especializados. Importa-lhe pouco o seu snobismo tecnocrático. A cheia que eles são é, afinal, força motriz. Força motriz que, politicamente, rende.»

Eis o tom. Claro que livro não é só política. Há nele um pouco de tudo e muitos de tantos passa por ali, num retrato irónico da nossa sociedade, não diria de então, talvez melhor diria, retrato do português de sempre. 

Claro que um livro destes custa a ler quando desnuda, com sarcasmo, aqueles de quem gostamos. Mas se não soubermos suportar o riso, se nos levarmos excessivamente a sério, e não aceitarmos que possam ser assim, em gargalhada, avaliados os nossos heróis privados, é porque perdemos então da inteligência o fair play e com isso estamos já em estátua, e pior do que isso, estátua erigida ridiculamente em auto-consagração.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Um gesto inacabado de Deus

 


Biografando a Mãe, Mónica Baldaque biografa-se também, tornando indissociável a sua pessoa daquela que lhe deu o ser; em simbiose natural, Alberto Luís surge-nos, como elo inextricável dessa vida em comum, vida sua pautada pela dedicação à escrita de Agustina, consumida pela profissão de advogado, enriquecida pela arte de desenhar, desenhos de que o livro nos oferece exuberantes exemplos, pena a dimensão das imagens, nisso incluindo as fotografias, não transmitir, quanto devia, o que se sente quando se vê.

Escrita densa de sentimentos, perpassam por ela personagens que julgaríamos inesperados, momentos em que o suposto conservadorismo da autora de Sibila se nos revela em surpreendente inconformismo e mais surpreendente ainda rebeldia de espírito, em humor contido, em cáustico reparo.

Livro de memórias, de lugares, de habitações, polvilhado com pessoas também, nesta parte pode ser lido pelas que lá não estão, até as da vida da própria autora; relato de sociabilidade, é igualmente espaço em que a reclusão se expressa, nota-se pudor no que em outra mão surgiria ostensivo.

Há, eu sei, uma biografia de Agustina, que se tornou controversa. escrita por Isabel Rio Novo, sob o título O Poço e a Estrada. Mas o breve livro que Mónica Baldaque acaba de nos deixar, editado pela Relógio de Água, há um outro mundo em que aos pormenores do quotidiano se sobrepõem os sentimentos familiares e as sensações íntimas, os breves instantes que são um mundo a saber.

Quando, tempos de aventura, editei em álbum o inédito Colar de Flores Bravias, que Agustina escrevera, memória de sua infância, e Mónica Baldaque amorosamente  ilustrou, pressenti então o que aqui leio. O livro ficou-se pelo tempo do esquecimento, a editora sumiu-se como um intervalo do que já vivi.

Livro singelo, afinal, como se caderno diário, tornando em escrita o que está num carta de sua Mãe: «Não estilizemos demasiado o que sentimos porque acabaríamos afinal por fazer da melancolia uma vaidade mais». É esta a sua beleza sem ênfase. 


domingo, 27 de dezembro de 2020

Um bicho de afectos


Suponho que difícil é escrever a biografia de alguém que tenha ainda vivos parentes mais directos, por haver o risco de ferir susceptibilidades, ao ir além em revelações embaraçosas e suponho também quanto não seja fácil escrever a biografia de alguém com uma personalidade de extremos e tudo é o caso de Fernando Assis Pacheco: é, pois, tarefa difícil para que não torne a biografia ficção, amputado o biografado da sua completude.

Não poderei concluir que esta o conseguiu, porquanto, para formular juízo, precisaria conhecer aquele cuja vida fica assim relatada, mas talvez me entenda comigo, entre o que julgo ser o que os outros dele pressupõem e aqui se esclarece agora ao ler, e aquilo em que eu estava, afinal, errado e tive, enfim, a oportunidade de descobrir.

Os que o consideraram Assis Pacheco jornalista, no Diário de Lisboa e em O Jornal, para não mencionar a República e tantos outro periódicos, acertaram, mas muitos, reduzindo-o assim, talvez tenham esquecido o escritor, da ficção à poesia, passando pelo ensaio, e sobretudo escritor que na prosa jornalística de distinguia pelo cuidado na fórmula, pela ironia no modo de dizer.

Os que lhe conheciam o estilo, irreverente até na maleabilidade que dava à língua portuguesa e ao modo de surpreender pela construção frásica, talvez ignorassem quanto se perdeu no domínio da ensaística académica, nomeadamente na Literatura alemã, em que não completou os estudos que iniciara sob a direcção de Paulo Quintela.

Mas são aqueles, os do estado de conhecimento de muitos desses vectores da pessoa que são, afinal, parte subsidiária de uma vida exterior, resíduo apenas da densa interioridade que define o ser, os que precisariam de um livro como este para nele acharem as contraditórias pulsões, as do amor e do sofrimento, da ternura e da cólera, da irrealização e da meticulosidade. Para saberem que ao terem-se rido ou irritado com a sua presença em A Visita da Cornélia, talvez não tenham pressentido quanto há de lastro dorido das vivências da guerra que lhe vincaram a sensibilidade.

O que a biografia de Nuno Costa Santos me trouxe e por isso a breve epígrafe levada à contracapa, frase de Miguel Esteves Cardoso, a considera maravilhosa por ser verdadeira, foi a revelação do que será para muitos um pormenor, não fosse uma daquelas surpresas que a vida nos revela, restituindo-nos à humildade do pouco que sabemos e mostrando quão precária é a aparência de que fazíamos certeza.

Tinha lido dele os Trabalhos e Paixões de Benito Prada, publicado em 1993, pela Asa. Fui dar, outro dia, na estante, para além da edição com encantadora encadernação, de que aquela editora fez imagem de marca, uma outra, de bolso, capa mole, afinal aquela que lera em primeira mão. E logo no arranque do livro a prosa me ficou para todo o sempre, com ela o espasmo violento daquela forma tão brutal de começar: «Quando o padeiro velho de Casdemundo teve a certeza de que o Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo [...]».

Foi com esses olhos que encomendei à Tantos Livros, essa carinhosa livraria que fica ali pela Marquês de Tomar, ao chegar-se à Duque de Ávila, e o li em três fôlegos nocturnos.

Supunha-o galego, de uma Galiza que tivesse sido local de nascimento, fosse em si a origem e o modo de ser. Foi, pois, a biografia sobre a qual escrevo que me devolveu afinal ao conhecimento de que o livro foi caminhada em retrogressão, em busca da ascendência avoenga, tal como uma outra obra não concluída sobre um avô paterno que viveu anos em São Tomé.

Restituída a criatura à sua realidade, não se esgotou ela em menos verdade, nem em menor riqueza. 

Construído a partir da vida documentada e das memórias relatadas, o livro traz-nos esse «pasmado sem cura», sôfrego de vida, e que a viveu em grande parte nesse «mundo em Azert» para retomar uma frase de um falecido querido amigo, o Cáceres Monteiro, seu colega de jornalismo, meu colega de curso.

Não digo mais. Lido um livro, chegando o momento de o trazer aqui, fico sempre com a ideia de ter ficado por partilhar a riqueza do seu conteúdo, aquilo que dele retive, os momentos que me foram dados viver com a sua leitura. Se há nessa omissão propósito, ele é o de apelar os outros  a que leiam.

Fernando Assis Pacheco morreu em frente à Livraria Buchholz. A verdadeira Livraria Bucholz morreria depois: «Morre-se praí/morre-se num instatemente de nada/morre-se a morte mocha/sem a gente dizer ai», escreveu no poema O Mocho e o Macaco.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A inesperada maravilha


Ter nas mãos um livro inesperado por não se saber a razão pela qual se adquiriu, ver nele, como autor, um nome que logo se alcança ser pseudónimo, autor que mesmo depois de desvendado, não há dele vestígio conhecido. Lê-lo, e nele descobrir magnificência no modo de escrever, riqueza vocabular e a estilística que convoca do real a existência e da fantasia a possibilidade. Chegar ao termo com o coração apertado pela tragédia humana que o sentimento de quem o escreveu soube encontrar e a que não fugiu, e tudo isso trazer eco de memória. 

Eis quanto encontrei ante o livro China, País da Angústia, assinado como de Ruy Sant'Elmo, afinal Abílio Augusto de Brito e Nascimento, personagem ignoto mas que consegui saber ter sido juiz em Macau. A obra, com capa de Fong-Iôn-Chi foi impressa em 1938 e publicada pela Parceria António Maria Pereira.

São contos, Kakemonos, lhe chamou o autor, como «a pintura chinesa, executada em peças móveis de papel ou seda, colada sobre um tecido ou papel mais forte, que lhe serve de moldura e se prolonga pela parte superior, terminando por um rolo de madeira». 

Mas não só: há a apresentá-los uma rememoração de alguns dos conceitos taoístas, e tanto eles regressam como luz interior ao conteúdo de cada narrativa, trazendo-lhes, nesse «o quer que seja»  um outro sentido para além do imanente conteúdo narrativo, o mundo na sua identidade em constante transformações, pois, em todo esse seu mundo aparente de sombras, dor e agonia, «não há senão vida...Transformação incessante...A morte não existe!».

Tanto há no que li que traz recordação e presença, logo o título, a convocar o Angústia em Pequim de Maria Ondina Braga, que, tal como ele, soube embeber-se dessa alma oriental no sentido da máxima melancolia e da íntima compreensão, mescla que em outros convidaria ao distanciamento, almas geminadas de Camilo Pessanha e Wenceslau de Morais, que a vida amaldiçoou, martirizando-os até ao supremo exaurimento.

No momento de vir aqui, não sei o que vos traga do que li. 

São as excelentes formulações, formas de ver ante o que se lê, como ao falar da orografia local e seus montículos se lhes refere como «o dorso das eminências, zebrado de clareiras», ou a propósito dos tormentos infligidos por ordem do mandarim, «cevando a raiva apavorada da reivindita», ou, cruzando-se, indiferente, com a carpa agonizante junto da folha verde-jade dum golfão azul «o estertor da morte, a convulsa agitação dos opérculos, faziam estremecer as escamas que tremeluziam em lucilações cor de brasa», ou, enfim, a velha e seus «olhos pequeninos, sumidos entre papulusidades refranzidas das suas pálpebras oblíquas, que perscrutavam o insondável».

É a recriação da língua, indo surpreendê-la em vocábulos raros mas que arrastam, alguns pela onomatopeia, ideas, factos, sensações, como a «bruma glutinosa», o «ar bochorno», a «poeira exil das fumaças» de ópio, a «fauce hiante» dos leões de Fó, as «curvas alvorescentes» da delicada figurita de rapariga, a «nevoeira incoercível» cor de zinco, as «arnelas dos dentes à mostra», a «tremulina murmurante da sua ondulação».

Mas é sobretudo a natureza invulgar, surpreendente, insólita mesmo dos costumes e suas tradições que são o rasto da narrativa, ao trazer-nos, invulgar, o necessário casamento para um morto e assim se não perde a linhagem, ao contar-nos o inquestionado modo de a ida ao templo trazer a prenhez da mulher do homem estéril, que no silêncio resignado quanto ao modo de ela ter sido alcançada, encontra, sim, meio de procurar o que pretendia, afinal, a descendência, ao afogar-nos os sentimentos pelo ópio que não mata, mata sim a insaciedade do viciado, ao relatar, com grandiloquência o suicídio vingativo de quem não poderia, sem perder a face, bandido embora, sofrer derrota às mãos alheias.

Muito mais haveria nesta obra dedicada a Leal da Câmara.

É preito de respeito que, ao falar do que se leu, não se estrague o prazer a quem puder  vir a ler. Livro raro este, será improvável que haja quem eu possa assim ofender contando mais. Fica, no entanto, apenas este excerto por uma outra legítima razão, a de a minha escrita sobre quanto li ficar aquém e ficará seguramente muito aquém de quanto li e me trouxe a inesperada maravilha.

sábado, 23 de maio de 2020

Os mais distintos facínoras

Imagine-se o desejo que me deu de ler Camilo Castelo Branco neste momento da sociedade contemporânea, sociedade reclusa de si mesma e da minha vida, sujeito a tudo o mais. Lembro-me de uma das minhas paixões, Maria Ondina Braga a chegar a Malanje, na automotora, a ler, insólito facto em luxuriante flora africana, A Brasileira de Prazins
Fui à estante, escadote acima, e desci-os todos quantos tenho e são muitos e não são sequer aproximadamente todos, se é possível tal coisa, o conseguir-se reunir toda a sua obra, ele de quem disse Aquilino, produzia «como as macieiras do seu quintalinho dão maçãs. Às cestadas». 
E já agora, veio abaixo também, para o alcance da mão, Aquilino Ribeiro, que é a continuação da mesma família literária e um parente colateral de quem tenho escassa livraria, o Júlio Dinis.
E, moído de deveres, e em mim os deveres são uma maldição bíblica, li, aos poucos, mas todo o livro, os Mistérios de Fafe, que publicou, primeiro, em folhetim, como soía ser, no Jornal do Comércio, corria o ano de 1868 e depois em tomo.
E aqui estou a dar conta do que ficou lido.
Mais uma vez desconsidero a narrativa em favor do modo de no-la contar.
Através desta escrita excepcional e pela sua mão certeira, deambulei pelas Terras de Bastos e e por Lamego, vim a Lisboa e fiz uma surtida pelo Porto que me lembre. Já para as últimas folhas dei comigo por Cascais e ao Vítor em Sintra, onde, em «lua de jalapa» a já tardia nubente «teve a ditosa ocasião de admirar o estômago de seu marido, quanto se pode admirar um estômago no exercício de esmoer jantares dignos de um ogre».
E que riso, que troça inteligente, refinada em ironia e sublimada em vocabulário rebarbativo!
Camilo Castelo Branco transforma-se em contador da história que criou, como se tivesse presenciado e dela fosse crítica testemunha, intromete-se mesmo, por vezes com caritativa distância, para que não pareça ser o escritor juiz, e não surja da sua pena a prosa como condenação.
E muitos são os pecadilhos que por ali fluem como águas de ribeiro, ora manso ora jorrante, de todos eles o menor, apesar de constante, o adultério, seus filhos imprevistos e outras malfeitorias afins.
No permeio, o anticlericalismo atávico do autor não perde nem oportunidade nem fôlego e a tiro de trabuco assesta, quanto pode e o relato permite, chumbada, nos costados dos curas, que ali surgem como exemplo, pela negativa, de uma moral de que o livro é a denúncia e demolição.
As personagens são, cada uma, um manancial espichado de defeitos e duvidosas virtudes. Mais uma vez impossível deixar aqui amostra que seja.
Ele é o vocabulário, a carecer de dicionário que os da contemporaneidade não chegam, aos quais os verbos como "acadrimar" e «eniboscar», ou adjectivos  como "anacarado" são alheios, como estranho surge o "escurentar o coração". Ruralismos, dirão alguns, provincianismos, acrescentarão, aqueles para quem Literatura só merece sê-lo quando transposta para os ambientes citadinos, lisboetas sejam, e mesmo aí, apenas de locais selectos de modernidade e distintos por exclusão. Mas gigantes exemplos, digo, de um modo de escrever que não se perderá enquanto houver quem leia e sem medo da coerção moral de ser tido por antiquado.
O leitor lê e tem pena. Tem pena do espingardeiro de Guimarães, esse Francisco Roixo, com quem a Rosinha Carneira, a mais bonita e invejada rapariga de Fafe quereria casar. Casamento de conveniência, como sucedia, não seria assim que viria ao tema da trama que a partir de então se desenrola. 
Tem pena e sorri ante Caetano de Ataíde Sotto Maior, filho de abastada fidalga do Porto, vindo do Colégio da Lapa, no Porto, e que, «findos três anos de vadiagem com todos os rr possíveis» pela Universidade de Coimbra, regressou a casa «mais ignorante e corrompido do que tinha ido».
À piedade e riso soma-se o temor quanto ao que irá suceder à «besta-fera do Padre Custódio», de cujo púlpito «urrava» uma «virulenta apóstrofe às adúlteras e aos fidalgos devassos» e que um dos bandidos da Cerva, Pedro das Eiras, fez morrer ...de apoplexia, sacerdote que «tinha como sã doutrina violar o sigilo da confissão em benefício das famílias, quando outros recursos mais suaves falhavam ao pio propósito».
E ganha raiva ao modo como a Justiça, morto o enganado marido, serviu a injustiça da ilibação do assassino, «comprando o perdão da viúva do morto. Depois, conseguiu anular-se desde o corpo de delito o processo no supremo tribunal. Alugou a consciência das testemunhas, que se contradisseram. Moveu à piedade a eloquência do acusador público, amaciando-a em favor do réu. Deu-lhe o mais afamado patrono. Os jurados choraram e absolveram.»
O mais é para ficar aqui por dizer, não vá surgir em algum leitor desta nótula ganas de ir-se ao romance e não quero estragar o benefício da surpresa. Sobretudo um muito querido meu, ali das Terras de Basto, fidalgo de dom e modo, que pode ir através deste excerto, procurando pela vizinhança realidade remanescente que dê verdade ao que Camilo diz ser ficção: «É de saber que Silvério de Mendonça tinha nascido em Mondim de Basto, onde avultava o forte de bens paternos. A sua casa torreada era o couto dos malfeitores foragidos das autoridades, que não ousavam pôr mão em criminoso acolhido nos penetrais do desembargador Mendonça. Do turbulento concelho vizinho, chamado Cerva, onde o magistrado tinha casais, raro ano deixaram de acoitar-se em Mondim os mais distintos facínoras, uns porque eram caseiros, outros em virtude do parentesco.»
Fiquem apontamentos que são, todos e cada um, lampejos geniais de observação acutilante, como, em matéria de ditosos enlaces, a provada «utilidade dos comendadores devolutos», o divórcio requerido por D. Gabriela «porque o marido se lhe assenhoreou do dinheiro, como era de uso e justiça, e lho vai jogando com notável infelicidade», a recusa da mesma em «encharcar-se no lameiral
de Fafe, que ela odiava desde os animais até aos vegetais», «as musas do Porto [que] tinha fugido para os joanetes dos brasileiros, cuidado que as protuberâncias calosas eram o seu Pindo»
«Esta novela contém adultérios, homicídios, missionários e outros cirros sociais», adverte Camilo em nota de entrada sobre o título "Aviso às Pessoas Incautas".
Fico por aqui. Vou contar o Camilo que tenho por ordem de data, tentar preencher os espaços vazios e ler, ler o que puder quando puder, entre os deveres mais este dever. 

sábado, 16 de maio de 2020

Uma fuga ao pensamento

Lentamente, como se tivesse todo o tempo da vida e não tenho, li-o na íntegra. E não poderia ser de outro modo, até porque o pouco tempo deve ser oferecido ao que verdadeiramente importa, ida a irrelevância. 
Se me perguntarem pelo fio da narrativa, não consigo reconstituir; se me pedirem para caracterizar as personagens que vão desfilando ao longo da história, também não consigo dizer. É por isso que não sou um crítico literário, apenas leitor que deixa apontamentos sobre quanto leu e, seduzido, tenta, escrevendo, convocar outros à sedução.
E, no entanto, dizem que em Agustina as figuras que retrata ao longo do que conta vão mudando e alguns perdem-se pelo caminho, e talvez assim seja, mas disso não dei conta, nem me parece que tenha sequer importância e até é benéfico que assim seja por aplacarem os remorsos de, tendo lido o que se conta, no final, não saber contar.
O Susto é um livro magnífico e tenho pena ao pensar que talvez já não o volte a ler.
Tenho o hábito insólito de estar atento ao momento em que surgiu a palavra ou a frase que dá título aos livros, como se em busca da pegada que assinale a ideia que gerou a criação. É um exercício minudente, eu sei, mas a vida não é só grandeza; desatento, como sei ser, é uma forma de disciplinar a concentração. E achei, e quando encontro surge um contentamento redobrado, para além daquele outro que provém de ter lido. E ali está, na página 287, desta edição original, tirada pela defunta Guimarães em 1958 - «[...] mas a vida não são, de resto, os assuntos que se nos oferecem, as experiências que sofremos - e, acima de tudo, o susto.» - e de novo, em modo fugaz  na página 324: «o susto tinha-o pois dominado.»
Sei que há quem deteste Agustina por causa dos seus aforismos e tenho comigo o livro Aforismos que a mesma editora - ó fúria dos irritados - publicou em 1988 e em cujo pórtico surge, em jeito de explicação, a lógica deste modo de escrever enleando o texto em máximas e sentenças: «o meu pensamento estende-se de uma maneira caótica e para o deter recorro ao aforismo. E dou muita importância aos aforismos; são uma fuga ao pensamento.». E seguramente dá importância, porque, para si, como o assinala a contracapa dessa obra: «o aforismo é uma lição, e não o pretexto para uma pirueta».
Leio, já o disse aqui, de lápis na mão a sublinhar e fica como critério, o quanto sublinhei, na horizontal a frase, na vertical todo o período, o parágrafo, por vezes as páginas inteiras onde seria impossível destacar um excerto breve como digno de realce: aqui muitíssimo.
Posto isso, é, porém, impossível trazer aqui a lição que esse modo de escrever traz, pois é experiência íntima, intrespassável, redundaria em ofensa se fosse tentado. E, no entanto, é o que apeteceria fazer, de modo tão estridente quanto está vincado na sensibilidade.
Deixo, num outro registo, o arrebatador, o modo como arranca esta escrita: «Num povo pessimista, não o bastante para ser neurótico, nem exasperado para ser sobre-humano, depara-se-nos às vezes certo fenómeno de combustão interior que é pouco menos que uma nova ética». É uma frase típica, desconcertante pelo remate, porque do encadeado do raciocínio esperava-se uma diversa conclusão. Tantas suas são precisamente assim, a surpreender, trazendo o leitor de novo ao dito e vendo que ilusório era o pensado ante um novo pensar aquele encadeado de ideias, aquele jorro de sentimento.
E, ainda em outro, esta também: «E no seu andar rápido, há uma despedida e a justa fugacidade da juventude.»: lê-se e graficamente como se «rápida, a sombra» [perdoe-se a incursão por outro autor] vemos escapar o tempo restante na simbólica nostálgica de um adeus.
Não escrevo mais, apesar do desejo. É sábado à tarde e hoje está Sol. Seja a contenção desta breve nota convite à leitura, pois o livro é encontrável em edição contemporânea, publicado em 2019 pela Relógio de Água, que, em feliz hora, retomou a edição do cânone.

domingo, 12 de abril de 2020

Un Uomo Finito

Terminei-o, fim em dia de Páscoa, e que sentido faz esta coincidência, tudo visto, ante o epílogo desta escrita torrencial, o que dá título ao livro, o clímax de uma epopeia em busca do Absoluto, viagem e salto, afogamento e salvação, a história de um Homem que, anunciando-se morto, nega a possibilidade e proclama ao Destino e a todos os outros que não está acabado, agora que começa.
Livro magnífico, livro que tomaria comigo se tivesse de escolher muito poucos para levar e não mais, livro que me recorda tanto de Friedrich Nietzsche, outro desgraçado, o do super-Homem e do Humano demasiado Humano, mais o da Gaia Ciência, mas tudo num livro só, cozinhado em sofrimento, escrito sem perder nunca o fôlego, confissão de revolta e de amor, desprezo e despojamento, sobretudo, obra de intrínseca e humilde verdade, jogando-se nu até nos seus defeitos rascas e na vanglória do seu excesso de virtudes.
Li-o todo, linha a linha, depois de o ter lido, sem ter lido, em tempos. 
Quanto nos irmanamos nele, em quanto vemos quão reles e liliputiana é a vidinha de que curamos e à qual hipotecamos o mais precioso de todos os bens, o inegociável Tempo, o pouquíssimo tempo que nos é dado. 
Quanto nos torna diminutos ante aquele combate demoníaco e salvífico com todos os deuses, pela Razão e pela irracionalidade que a nega, com a Humanidade e ao arrepio dela.
É de norma que se escreva e cite do que se escreveu para provar o que se afirma ou se mobilize o leitor. Impossível é fazê-lo aqui: uma só palavra citada, destruiria a magia de todo o conjunto, reduziria a grandeza do escrito, anularia o sentimento do lido.
Dir-se que neste período de clausura se devem ler superficialidades reconfortantes. Nego, repudio, combato! Siga-se o exemplo dos grandes solitários, as almas que no deserto do confinamento buscaram as suas entranhas e escrutinaram os círculos do Céu: há que procurar mais alto, escavar mais fundo.
No mundo das coisas práticas em que nos tornámos pelas circunstâncias actuais, parece que tudo afinal encontrou o caminho do trivial para enfrentar a seriedade. Enquanto isso suceder o Homem prossegue o Reino da Quantidade, tendo passado, pelas dificuldades, apenas do muito ao muito pouco. 
Talvez não exista a alma, há, porém, o espírito, o de cada pessoa e o Espírito Cósmico, do qual somos centelha provisória jogados no infinito ao sabor da lei da gravitação universal. Ao ler Giovanni Papini senti a esperança depois de ter chegado à agonia do desespero, o sentido pascal, afinal, do renascer.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A pedra na calçada que se agita

Foi este o texto que ontem, dia 30 de Janeiro de 2020, li na Universidade Lusíada, respeitante à personalidade literária do Embaixador Franco Nogueira, faceta menos conhecida da sua vida e concretamente em face deste seu livro o Jornal de Crítica Literária.


Seja-me permitida esta inesperada incursão. Apresento-me: sou apenas um leitor apaixonado pelo que lê, leitor que procura livros nos alfarrabistas, nos que os vendem em improvisadas bancas na rua, os que os expõe no chão, livros de bibliotecas desfeitas pelo desinteresse, pela necessidade, pelas leis sucessórias, livros particulares de quem um dia os sentiu como seres a mais, por não ter espaço para eles ou não querer ter espaço em que os conserve, livros vendidos por miséria, até por ganância de colecionador, leitor que teme o futuro dos livros que retirou ao abandono. 

Sou apenas um leitor que descobriu num Sábado, na Rua de Anchieta, um livro em que o título não correspondia com a ideia que fazia então do seu autor. O livro chamava-se Jornal de Crítica Literária, o autor Franco Nogueira, editado em 1954. 

Alberto Marciano Gorjão Franco Nogueira, diplomata, ministro dos Negócios Estrangeiros, ensaísta, autor de uma inevitável porque notável biografia de António de Oliveira Salazar, que serviu como ministro. Mas Franco Nogueira crítico literário? 

Sim, Franco Nogueira foi crítico literário, num tempo em que a crítica literária quase inexistia em Portugal; mas se é notória a sua paixão pelo que escrevia, e se era fácil prever uma continuação desse seu envolvimento com as Letras, a carreira diplomática, que abraçara em Outubro de 1941, veio a criar circunstâncias que o fizeram perder-se dessa sua natureza. Foi então colocado em Londres, cidade onde viveria de novo, em exílio, saído das «prisões de Abril», e onde escreveria os seus volumes biográficos sobre Oliveira Salazar. 

Convidado a 18 de Janeiro de 1955 para integrar o júri dos “Prémios Literários”, do Secretariado Nacional de Informação e Turismo, concretamente do júri do prémio “Ramalho Ortigão” para as obras ensaísticas, declinou com amabilidade, pois uma colocação no estrangeiro iria impedi-lo de aceitar o convite que, de outro modo, «gostosamente» aceitaria. Nesse mesmo ano publicaria, já em Londres, na Adam International Review, prestigiada revista literária britânica, um ensaio sobre seis poetas maiores, tradução de um dos capítulos do Jornal. 

Li o livro. Devo à Aida Franco Nogueira, sua filha, uma gentileza que nunca poderei retribuir, a cedência da parte do espólio de seu Pai respeitante à sua personalidade literária. 

É precisamente isso que trago aqui: as notas de leitor, somadas agora à correspondência particular, precisamente por causa deste mesmo livro. 

O Jornal de Crítica Literária, publicado, como disse, em 1954, condensa escritos que o seu autor foi dispersando «com largas intermitências», nos diz, entre 1943 e 1953. 

Logo esta cronologia traz uma primeira interessante constatação: nesses anos, Franco Nogueira já detinha na estrutura do Ministério, cargo de responsabilidade o que logo faz adivinhar o que foi, aliás, realidade: esta sua faceta de envolvimento com as letras não foi olhada como conatural à pose da função pelo que, tendo chegado à ousadia de saírem tais escritos em letra de imprensa, editados pela Portugália de Agostinho Fernandes – esse generoso mecenas a quem tanto se deve e pouco se agradeceu – a obra é a demonstração ostensiva de uma personalidade forte de quem, tendo-lhes dado vida, se recusou a confiná-los à gaveta. 

Alongada por um decénio, a análise crítica de Franco Nogueira surpreende as letras portuguesas num momento em que convergem duas circunstâncias. 

A primeira, no plano da vida cultural, a da quase total inexistência de críticos literários dignos desse nome, salvo excepções de que, ao longo do livro, dá reiteradamente conta: João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Jaime Brasil, Álvaro Salema, António Ramos Rosa, Mário Dionísio e uns quantos poucos mais. 

A segunda, resulta de esse corte temporal, congruente com algum critério que o autor não revela, talvez de sua opção pessoal, encontrar a literatura portuguesa num período intermédio em que se assiste ao que Óscar Lopes e António José Saraiva chamam a «revalorização do realismo», literatura, afinal, de crítica social conjugada com [e deles cito] «um sentimento de confiança no processo histórico-social, confiança depositada sobre a própria antítese progressista que surge de dadas condições inumanas», em suma, digo, e para usar palavras que não poderiam ser expressas assim de modo tão claro ante o regime político então reinante, vigente a Censura prévia à imprensa e o controlo editorial aos livros, uma literatura de crítica ao capitalismo e empenhamento no socialismo de Estado como forma de realização do Homem e bandeira sobre a qual os escritores ditos «progressistas» deveriam marchar. 

É nesta dupla vertente contextual que tudo se torna interessante em torno deste livro. 

Por um lado, Franco Nogueira justifica-se como crítico literário e define o que entende serem os critérios de uma tal missão, antecipando o que será a razão pela qual afere os livros sobre os quais faz incidir a sua análise. 

Nas suas palavras, do que se trata, para o crítico, é de estar em processo de contínua renovação, ser homem do seu tempo, nessa tarefa que no essencial é «a recondução da arte à vida». 

Por outro, é ilustrativo que a observação que o livro traduz surpreenda autores em fase ainda de amadurecimento e que viriam a revelar-se essenciais, outros ainda nos primórdios promissores, como Vergílio Ferreira, mais aqueles que o tempo veio a tornar irrelevantes pela decadência da obra, perda de leitores ou desajustamento com os interesses voláteis da actualidade. 

Se vale um princípio segundo o qual não há santos sem Igreja, talvez assim se compreenda que José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Alves Redol - valham ou não as suas obras literárias, e há desigualdades de valia - tenham, relevando o ambiente post-Abril que ainda hoje perdura, encontrado perdurabilidade, mas já não quanto escreveram Domingos Monteiro, José Luís Cajão, Cunha e Sá, António de Navarro e Afonso Duarte. 

Afonso Duarte que já na altura estava «tão injustamente esquecido», como em carta de 3 de Agosto de 1954, João José Cochofel lhe faz notar, agradecendo que o tenha restituído à memória. 

Para chegar a este ponto de fina percepção da Literatura do seu tempo, Alberto Franco Nogueira faz apelo a uma escrita límpida e objectiva, e a uma cultura vasta, fruto de leituras que lhe permitiram chegar ao pormenor da narrativa, surpreender a estilística da redacção, captar a arquitectura do texto mas, como se isso não bastasse, convocar para as suas conclusões, a leitura de obras pretéritas de cada autor e registos comparados da literatura universal. 

Trata-se de crítica de quem leu, em leitura fina, análise de quem se fundamenta nessa leitura, afirmações de quem está informado quando à matéria sobre a qual escreve. 

Leitura fina, digo, pois que, encontro-o revelado nas suas próprias palavras: 

«Rigorosamente, nenhum crítico deveria pronunciar-se sobre uma obra literária senão após três leituras. E seria ideal, para além disso, que fossem feitas com largo intervalo umas das outras.» 

O que avulta, porém, nesta obra e julgo digno de menção, não é a bagagem erudita do crítico, o inventário da biblioteca lida, menos ainda ponderar aquilo em que o futuro veio desmentir as suas conjecturas quanto ao sucesso de alguns a quem vaticinou carreira. 

O que, permitam-me considerar decisivamente relevante ante este livro, é ter encontrado nele espelhada a coragem e a honradez do seu autor. 

Escrevendo-lhe do Brasil, a 6 de Dezembro de 1954, o director da Edições Dois Mundos revela-lhe:

«O autor, Casais Monteiro, declarou-me pessoalmente que considera o seu livro como uma das obras mais honestas e de maior valor que se têm publicado em Portugal nos últimos anos». 

Escrevendo-lhe directamente, a 24 de Agosto de 1954, numa carta preenchida com notas de leitura pormenorizada, José Fernandes Fafe, faz-lhe sentir:

«Li o seu livro com toda a atenção de que sou capaz. E, antes de mais, deixe-me dizer-lhe que todas as páginas praticam a honestidade do mister crítico, teorizada, com muita actualidade, na denúncia que faz da “crítica necessária”». 

Eugénio de Andrade, escrevendo-lhe a 31 de Julho desse mesmo ano, depois de ter lido a totalidade da obra, declara-lhe: 

«Antes de mais quero dizer-lhe que achei corajosa, desassombrada e limpa a sua visão da nossa literatura contemporânea. É tão rara essa coragem nos nossos dias e tal modo se perdeu o hábito de dizer a verdade» que aquilo que deveria ser norma passou a excepção». 

Idem na mesma perspectiva Fernando Lopes Graça, num cartão de visita pessoal: 

«Fernando Lopes Graça agradece ao Dr. Franco Nogueira a amabilidade da oferta do seu Jornal de Crítica Literária e felicita-o sinceramente pelas invulgares qualidades de penetração, honestidade e coragem de que no seu livro dá provas.» 

Coragem desde logo porque, funcionário diplomático já com responsabilidades funcionais significativas, não hesitou em ter tomado como referência escritores cuja ideologia e alinhamento político eram ostensivamente mais do que contra o governo de então, contra o regime, mais ainda do que contra este, contra o próprio sistema económico-social característico do mundo ocidental em que nos inserimos. 

Estão presentes, em extensas páginas do Jornal, Aquilino Ribeiro, Soeiro Pereira Gomes, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, com quem se viria a incompatibilizar, mesmo não convocando como relevante um Ferreira de Castro. E estão com a plena consciência por parte de quem avaliou as suas obras, das ideias políticas que professavam e da projecção que as mesmas tinham nessa escrita. 

Sabendo do risco, Alberto Franco Nogueira correu o risco; não tinha por si outra força do que a sua, outra autoridade do que a autoridade moral, sobretudo porque, para si, a arte pela arte era conceito caduco. 

Risco que, no entanto, não o poupou à irritação de expoentes da direita política mais radical, de que cito, entre outros António José Brito, monárquico e integralista, que sobre ele escreveu: 

«Vindo dos ambientes da esquerda, a sua percepção do interesse nacional levou-o a juntar-se a Salazar na defesa da integridade do território pátrio. Sem dúvida algo da sua formação originária lhe ficou presente e, por isso, nem sempre damos plena adesão à sua obra e às suas posições. Quando aborda o período do Estado Novo no volume consagrado a essa época, editado pela Livraria Civilização, as páginas que dedica à vida cultural, com destaque exagerado para a mera Literatura e, nela, para os escritores da oposição, elogiados bem além dos méritos e elencados com minúcia (que não se verifica para outros, de quadrante oposto), são páginas que me causaram compreensível irritação.» 

Coragem também porque, tomando, como veremos, posição clara contra a escrita-panfleto, a redução da arte à propaganda, soube, precisamente em coerência com esses princípios, censurar, de modo ostensivo e desassombrado, todos os livros que haviam sido escritos por Francisco Costa, escritor assumidamente católico e que fazia da mensagem católica tema da sua escrita, mas num estilo em que: 

«[…] os primeiros trabalhos foram mais obras panfletárias ou apologéticas do que romance.» 

Mas entendamo-nos para que não haja mal-entendidos. Para Franco Nogueira: 

«O catolicismo de modo nenhum é inibitório de realizações artísticas. Sob certos aspectos, pode mesmo dizer-se que dá ao artista uma maior liberdade e amplitude de criação.» 

Mas o que está em causa, e no entender do crítico, desvaloriza a obra e a sua intemporalidade é que: 

«Os seus romances são mais do que católicos: mostram que o desejam ser; que foram escritos para defesa e apologia do catolicismo; que são premeditada e intencionalmente, meros instrumentos ao serviço de uma doutrina e de uma mística.» 

E, no entanto, ao abordar uma obra como Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira, reconhece, contabilizando-as, ideologia do autor e natureza artística da obra, e por isso escreve: 

«Neste particular, poder-se-ia dizer que se trata de uma novela obedecendo a uma concepção ideológica precisa e com um intuito determinado. Mas Carlos de Oliveira é estruturalmente artista e para ele a arte sobrepõe-se a quaisquer considerações extra-literárias: a sua novela nunca é um panfleto: é, de facto, uma obra de arte.» 

Honradez, disse, porque soube declarar virtudes onde as encontrou, esconjurar defeitos onde eles se encontravam. 

Escrevendo-lhe a 2 de Agosto de 1954, Marcello Caetano, então Presidente da Câmara Corporativa, anima-o, primeiro com um pedido de compreensão: 

«Levei tempo a ler o seu Jornal de Crítica Literária não só porque leio devagar (sobretudo quando a leitura se presta à reflexão) como porque estes dois últimos meses foram para mim de grande fadiga – são os meses de exame e eu fiz 442 provas orais!» 

Mas continua: 

«O seu livro é um livro sério – o livro de um homem inteligente e culto, que parte de certos princípios críticos e que sabe ser fiel às suas regras formais.» 

Franco Nogueira escreve este livro com a consciência de que o seu tempo literário era o do elogio generalizado, de que os jornais prodigalizavam encómios a tal ponto monótono que todos os livros pareciam, sem excepção, serem obras-primas. 

E, no entanto, há na sua avaliação sempre o mesmo registo de contida moderação, furtando-se a denegrir. 

Dele não se poderá dizer, como de tantos, que o crítico quer sucesso na medida de ter sido um escritor falhado. Senhor da arte da prosa, não se lhe conhece obra publicada na ficção ou na poesia. O livro de poemas que escreveu, e está inédito, redigiu-o quando de 28 de Setembro de 1974 a Maio de 1975, com a dignidade de a sofrer sem queixume, esteve em prisão no Forte Caxias. Chamou-lhe O Vento e as Grades. 

Estamos, pois, ante uma postura senhorial, até pela modéstia com que entoa as suas afirmações, sempre sob ressalva, a benefício de outra melhor opinião. 

Alberto Franco Nogueira escreveu o Jornal de Crítica Literária bem sabendo que tal não seria patamar para o que fosse na vida social, bem consciente de que se tratava de opção atípica na profissão que escolhera, advertido até do embaraço que poderia daí resultar. 

Trata-se de momento agónico na sua vida literária; tudo tinha começado, como no-lo recordou Henrique Martins de Carvalho, seu condiscípulo, com o contacto, ainda aluno da Faculdade de Direito, «com os jovens escritores que cultivavam o neo-realismo ou escreviam na Seara Nova ou no Novo Cancioneiro.» 

Posto isto, acompanhemo-lo na sua análise crítica para lhe descortinar a razão e o modo. 

Nota-se, em primeiro lugar, um apreço seu pelo profissionalismo, fruto da tenacidade e do aprimoramento da obra literária. 

Franco Nogueira está consciente da medida em que escritor de uma obra só não é digno ainda de se considerar como tal e, com igual lógica, segue atento, em relação àqueles cujos livros estuda, o percurso literário tal como se projectou nos sucessivos livros publicados. 

À reiteração teimosa na produção literária, junta, por outro lado, a minúcia que é a antítese da improvisação. É isso que regista em Carlos de Oliveira, ao censurar-lhe o livro Alcateia, por contraponto à obra A Casa na Duna, este publicado em 1944 aquele um ano antes, já que para si: 

«O artista dotado de grande facilidade de realização terá tendência para resvalar aos poucos numa improvisação artística». 

Eis porque conclui, resumindo o seu pensamento: 

«Não vimos nós, por exemplo, um romancista português, consagrado e de numeroso público, afirmar num dado momento que o seu programa literário consistia em escrever e editar dois livros todos os três anos? Quando um artista chega a esta sistematização da sua personalidade poderemos recear o embotamento das suas faculdades.» 

Sente o que diz a propósito dos primórdios da obra de Fernando Namora na poesia e reportando-se ao nosso meio literário: 

«Alguns limitam-se a um livro de versos e nada mais publicam: para estes, quase sempre adolescentes, a literatura é simplesmente um processo de satisfazer a sua vaidade pessoal.» 

De Aquilino Ribeiro diz, por exemplo, que «todos os volumes subsequentes são uma projecção, um desdobramento, uma ampliação dos contos inseridos em Jardim de Tormentas, esse «livro de mocidade», publicado em 1915, tinha Aquilino já trinta anos. 

Do ponto de vista da forma, Franco Nogueira mostra quanto a técnica da escrita é para si o ponto de observação indispensável a uma correcta valoração das obras sobre as quais incide a sua culta observação. 

É, em primeiro lugar, o tema do estilo, um dos critérios reitores da aferição da boa literatura. 

Em Aquilino Ribeiro, por exemplo, encontra o tema «o acto de criação é estilo», «a realidade corporiza-se em estilo». 

É essa transmutação da «realidade circundante numa outra realidade formal independente e pessoal» que é para si característico da Arte; realidade pessoal, no entanto, como sublinha, quando escreve sobre José Gomes Ferreira e o seu livro O Mundos dos Outros, publicado em 1950 com prefácio de Mário Dionísio, que 

«[...] não obstante a independência da obra de arte, por detrás desta paira sempre a personalidade do artista.» 

mas, sem prejuízo desta prevenção: 

«[…] há que estabelecer uma cuidada distinção entre o seu aspecto literário e o seu aspecto pessoal. Perante este há que manter um escrupuloso respeito. Perante aquele, a crítica pode ir até onde lhe permitirem os dados fornecidos pela análise da obra». 

Em Fernando Namora, concretamente em A Noite e a Madrugada, obra em que, apesar de a considerar «frouxa», encontra nas páginas dedicadas ao episódio do cerco dos contrabandistas o que lhe permite afirmar: 

«[…] pela sua intensidade, pelo seu vigor, pela sua flagrância, pelo dramatismo das situações, pelo recorte dos personagens, pelo seu movimento geral, essas páginas são das mais notáveis da literatura portuguesa dos nossos dias». 

Namora que, em contrapartida e mau grado o reparo adverso, teve a suma categoria pessoal de, em carta de 12 de Agosto de 1954, lhe ter escrito: 

«Muito obrigado pelo seu livro – um belo e sereno livro. Quanto a mim uma das melhores obras que têm sido publicadas em Portugal.» 

Enfim, é o domínio da linguagem, a riqueza vocabular, a construção frásica. 

Se em Aquilino Ribeiro, Franco Nogueira encontra o óbvio, a banalização de expressões não comuns, um vocabulário de dupla raiz «erudita e humanista umas vezes; noutras, popular e regionalista», não se coíbe de considerar que, em alguns passos, o autor do Malhadinhas «vai ao ponto do exagero», do mesmo modo que lhe assinala «a inusitada construção das frases», afinal, «tudo a faculdade de se exprimir sensorialmente», em suma, o suficiente para, em remate de avaliação, o considerar «o maior estilista e o maior prosador português da actualidade». 

É esse exprimir-se sensorialmente que capta a sensibilidade do crítico Franco Nogueira e assim também em Fernando Namora ele recorta: 

«Namora tem um dom especial de usar as palavras de modo a tornar-nos o que descreve plasticamente vivo». 

Se, em relação a Aquilino Ribeiro, coragem teve para ter suscitado defeitos em quem já era um insigne prosador, mais ainda, depois daquele superlativo citado quanto à valia do examinado, considerou, em juízo crítico censuratório que um romance como Maria Benigna é exemplo de um dos «trabalhos nitidamente falhados como construção romanesca», pois, mais uma vez nas suas palavras «Aquilino demonstra aí uma completa inabilidade para o romance citadino». 

Mas não é só questão de intrepidez é que, a fundamentar a sua asserção, Franco Nogueira dá mostra de uma agudeza de análise que não pode passar sem registo. 

Para si «a grande, a excepcional capacidade de Aquilino está toda na análise psicológica em profundidade ou em extensão. Revela-se inapto a uma análise psicológica em profundidade ou em cunha, a uma investigação subterrânea da pessoa humana». 

Já no que à substância respeita, é aí que se centra, no tempo histórico em que escreveu, o cerne da questão que, sendo polémica, encontra a linha axial delimitadora do que é arte face ao que é propaganda. 

É sabido que os anos da guerra e do pós-guerra – e como guerra refiro-me à que ensanguentou a Europa entre 1939/1945 – o grande tema da vida intelectual europeia era saber se a Arte, e de todas elas a Literatura, deveriam estar ao serviço de uma causa, e naturalmente, que oriunda a ideia das esquerdas, alinhando necessariamente o artista e o escritor com a causa dos desfavorecidos e, mais restritamente do proletariado, em prol da paz, forma de engobar, em frente unitária, o denominado antifascismo. 

Tudo isso trouxe debate público e esteve na origem de obras que de técnica literária tinham pouco, mas que, na valoração global que então polarizava os espíritos, havia quem considerasse que, pelo seu conteúdo militante, haveriam de ser consideradas como obras de referência, ao serviço do povo. 

De tal modo se enraizou o problema que, ainda em 1954, Álvaro Cunhal, escrevendo a partir do Estabelecimento Prisional de Lisboa, sob o pseudónimo de António Vale, faria chegar à revista Vértice, editada a partir de Coimbra, um texto, intitulado Cinco Notas sobre Forma e Conteúdo, no qual, tenta, em ponto de ordem à polémica, a dialética de conjunção dos dois termos do binómio, o conteúdo e a forma, através da valorização deste como instrumento da forma. Citando-o neste trecho de bela extracção estética: 

«A indicação “primeiro o conteúdo!” visa estimular o artista a não sacrificar os seus mais belos sonhos à inabilidade, à indisciplina, à desobediência ou impaciência das próprias mãos. Visa estimular o artista a exigir das próprias mãos o trabalho, o esforço, a paciência, a tenacidade, a perseverança, a audácia, para realizar os seus sonhos mais queridos. É evidente que (mesmo considerando o “momento da criação artística”), o amor pela arte, o espírito criador, o caminho para o enriquecimento e renovação formais, está da parte daqueles que dizem “primeiro o conteúdo!” e querem que as mãos sirvam para realizar o sonho. O acanhamento, a hostilidade a uma arte renovadora, a estagnação formal, da parte daqueles que gritam “o assunto depois!”, que sacrificam assim os sonhos à inabilidade das mãos, às deficiências e limitações formais se é que, mais comodamente ainda, não deixam de sonhar.» 

Alberto Franco Nogueira não é imune a este contexto. Está seguramente ao lado da literatura que sente as dores humanas, que se coloca ao lado dos explorados e dos humilhados. 

Nota-se quando, por exemplo, ao analisar Ferreira de Castro nele encontra o que entende adequado chamar «literatura de simpatia humana», a «preocupação do drama social» e valoriza positivamente esse alinhamento, não deixando, porém, sem reparo que o livro A Curva da Estrada, publicado em 1950, é «talvez» - e veja-se a delicada elegância desta forma adverbial dubitativa a evitar a arrogância assertiva que outros teriam - «tenha sido um livro oportunista no ponto de vista político.» 

E é então que surge, ostensivamente exposta, a questão da intemporalidade como vector essencial da avaliação de uma obra literária, ressalvando, como diz a certo passo que «uma obra de arte impõe-se aos vindouros e subsiste no tempo por qualidades diferentes das que foram encontradas pelos seus contemporâneos». 

Diz Franco Nogueira sobre esta obra de Ferreira de Castro, projectando a conclusão para a obra futura cuja continuidade já adivinhava: 

«[…] será mesmo de recear que, sem embargo das suas inegáveis virtudes, toda a obra de Ferreira de Castro – demasiado temporal, excessivamente ditada por solicitações de momento, humanitária sem chegar a ser humana – possa ser vítima de preocupações ou das necessidades transitórias de espírito que, até agora, a tem motivado». 

Este mesmo critério, pois que fruto de verticalidade intelectual, aplica-o Franco Nogueira à obra de alguém mais próximo dos ideais de conservadorismo político, Joaquim Paço d’ Arcos, a quem descortina três fases na respectiva obra, a primeira a biográfica, a segunda sobre os «vícios e preconceitos» da pequena burguesia lisboeta, a terceira a «cosmopolita» mas em quem verifica que «sofre muitas limitações que roubam à sua obra profundidade e duração». 

E porquê, perguntar-se-á o leitor? Porque, segue Franco Nogueira: 

«[…] escasseiam elementos de recriação que as intemporalizam; os dramas dos seus personagens são demasiado afirmados e pouco sentidos; o seu universalismo, mais geográfico e espacial do que humano e psicológico, tem por base somente nomes estranhos e terras exóticas; e a realidade da acção funda-se numa objectividade material e fotográfica de que se não soube extrair uma segunda realidade que domine artisticamente a primeira e que, revelando-a, a ela se sobreponha sob o influxo da imaginação criadora». 

Lançados assim os eixos do pensamento do crítico literário, não destoam no seu alinhamento em relação a cada um dos escritores sobre os quais incide a sua análise acutilante. Vejamos a simpatia por Miguel Torga e a distância por José Régio: neste detecta a bisonha clausura, naquele o «panteísmo telúrico». 

Em José Régio, Alberto Franco Nogueira acha – e acha que ele não superará essa condição - : 

«[…] o escritor que se recusa à vida: memorialista intelectualizado, esteta fechado sobre si próprio, egocentrista, alheio a emoções e estranho a dramas que não sejam os seus» 

a juntar a um escritor que segundo ele, é dos que «escreve por desfastio». 

Haverá nisto excesso, que a obra posterior de Régio viria a desmentir, mas não se pode negar estar-se ante ponto de partida congruente e rico de potencialidades analíticas. 

Em Torga, sobretudo no Torga poeta, Franco Nogueira acha: 

«[…] uma nitidez de linhas, uma clareza de expressão, um vigor de linguagem e de subtil imagística, por vezes um ritmo harmonioso, que fazem do autor do Cântico dos Homens um dos excepcionais poetas, adentro dos poetas maiores, da nossa actualidade literária». 

Mas não só ao poeta, sim também ao novelista, ao contista, Torga, Franco Nogueira dedica o seu entusiasmo a este «escritor [que] parece realizar-se e projectar-se completamente em qualquer género». 

Para o interpretar, dando-lhe sentido e linhagem, entronca-o na tradição literária mas aquela que seja a de um «cidadão livre do mundo e português», individualista, «mais próximo de um Herculano de botas cardadas, chapéu de abas e guarda-chuva no braço, visitando pomares e vinhedos, do que de um Garrett, aristocrático e amaneirado, pisando salões; é mais irmão de um Camilo, que partilha broa com um almocreve de Viseu, do que de um Eça, mundano e cosmopolita; é mais vizinho de um Aquilino, que de samarra percorre as feiras-francas nas estradas da Beira, do que de um José Régio, esteticista e misantropo intelectual». 

Excelente trecho, como magnífico este outro sobre o médico escritor: 

«[…] esse amor medular pela terra e pelos homens da terra tem qualquer coisa de divino». 

Veja-se agora como reagiu o granítico Torga, que não era tido por amável, a escrever-lhe, em jeito de pedido, a partir de Coimbra, a 5 de Julho de 1954 sobre o livro crítico que acabara de ler: 

«É, em minha fraca opinião, uma tentativa séria, e em muitos passos feliz, de clarificação do nosso confuso panorama literário actual. Apenas me apetecia pedir-lhe duas coisas: maior margem de esperança para certos jovens, a quem talvez não seja justo pôr já diante dos olhos a perspectiva do naufrágio e um pouco mais de paciência judicativa para obras que estão ainda a processar-se». 

Não quero esgotar o livro Jornal de Crítica Literária, tarefa aliás inviável, nem abusar do vosso tempo. 

Se trouxe este livro não é porque ele esgote toda a escrita de Franco Nogueira no domínio do seu contacto com a Literatura. É uma selecção de escritos saídos em jornais, no Diário Popular e também em A Semana, nesta de 1951 a 1953. É sobretudo um fim de uma «vocação autêntica» como bem afirma Manuel de Lucena ao ter ido ao encontro da sua biografia. 

Um fim com uma excepção, porque, como bem reparou, atento e minucioso Jesué Pinharanda Gomes, num artigo com que contribuiu para um volume de homenagem, publicado em 1999, organizada por Teresa de Melo Ribeiro, Manuel Vieira da Cruz e Gonçalo de Sampaio e Melo: 

«Franco Nogueira revisitou a literatura portuguesa, num acto de regresso ao princípio, quando a “Livraria Civilização” o incumbiu de escrever o volume suplementar à História de Portugal de Damião Peres. O extenso capítulo sobre a Vida Cultural é obra de meritória informação, ainda que de diferente valoração, ao conceder a primacialidade à literatura e às artes plásticas […]» 

«Uma obra vale por si ou não vale de todo» é frase com que este livro se inaugura. Frase de quem fez nome na vida pública, considerado e desprezado consoante os tempos históricos e por tempos históricos contrários teve de passar, mas, em síntese, cada vez mais respeitado, arrefecidas as pulsões ideológicas em favor de juízos mais serenos da vida e dos homens, esta obra vale por si. E muito. Através dela encontra-se não apenas alguma Literatura, não apenas uma época, e já seria muito, mas o culto da honradez no modo de julgar. E com que actualidade. Citando: 

«O público, é certo, já não acredita nas críticas que lê, tantas são as vezes em que tem sido ludibriado […] Os próprios autores criaram a psicologia do louvor. Deixa-os insatisfeitos tudo o que não seja aplauso incondicional ao que escrevem. […] Sobre as direcções dos jornais e revistas exercem-se pressões de toda a ordem; as direcções, por sua vez, transferem essa pressão para o crítico.» 

Franco Nogueira, crítico literário, Franco Nogueira ministro. 

Em uma carta pessoal, belíssima e comovente, escrita a 2 de Março de 1962, Fernando Piteira Santos, seu condiscípulo, a mulher então presa pela PIDE, lança-lhe, com dedicada elevação, a agonia da tremenda questão existencial que se pressente ante estas duas facetas do mesmo Homem, dois momentos de uma mesma vida: 

«Penso na distância entre a política sem futuro em relação à África de que é solidário e o estímulo das palavras que dedicou à contribuição do Castro Seromenho para uma “literatura negra verdadeira”. Pergunto-me se ao chegar a sua casa será capaz de reler os poemas de Manuel da Fonseca ou de José Gomes Ferreira? Pergunto-lhe se ainda lhe é consentido admirar um Casais Monteiro ou um Miguel Torga? Pergunto-lhe as páginas de “Uma Abelha na Chuva” ou os versos de “Terra de Harmonia” não terão para si hoje um acre e estranho sabor? Pergunto-me se do mistério das suas cores quentes, do traço exacto e forte, as camponesas do Pavia não o olham com desolado espanto?» 

Enfim: não sou crítico literário, nem universitário das letras, sou apenas um homem grato. É por gratidão à Aida Franco Nogueira e homenagem a seu Pai que escrevi este texto que acabo de vos ler, por gratidão à Universidade Lusíada, onde tentei ensinar durante dez anos, que me sinto honrado por lê-lo hoje aqui. 

Termino. O livro que me levou ao encontro de Alberto Franco Nogueira ostenta uma dedicatória íntima: 

«recordação longínqua de um moço que há muito morreu, esta lembrança de uma velha pedra da calçada que se agita». 

Melhor título não há para este momento de memória: uma velha pedra da calçada que se agita. 

Muito obrigado.