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domingo, 28 de setembro de 2025

Ramalho Ortigão e as mulheres escritoras


Tenho mantido presença regular em cada número da revista As Artes entre as Letras, quinzenalmente publicada no Porto, sob a direcção de Nassalete Miranda.

No penúltimo número escrevi sobre uma crónica de Ramalho Ortigão, a qual é mais um elemento a demonstrar a não equivalência entre a imagem pública do mesmo e o seu pensamento real. Isto para não não falar nas censuráveis atitudes, até em relação a Eça de Queiroz, seu companheiro e amigo dedicado, como o falecido Campos Matos demonstrou. 

Eis o escrito:

O problemático nas biografias literárias é elas fixarem amiúde a personalidade biografada naquela faceta que é escolhida como sendo a determinante, em detrimento de todas as outras. Escolha arbitrária, por vezes a tornar a complexidade de um desenho na singeleza expressiva de uma caricatura. E sobretudo idolatrá-las, hagiografando as virtudes.

Veio isto ao pensamento por causa de uma leitura a três dias da minha rentrée profissional e com ela o consequente sufoco para tudo o que não seja o mundo das leis e conflitos ali desaguantes.

Vieram numa caixa e num pacote adjacente, expedidos por mão de alfarrabista amiga, muitos volumes da Obra Completa de Ramalho Ortigão. Conhecia-a mal e fiz menção de me aproximar da sua vida e obra.

O que me liga ao escritor não é, permita-se a ironia, Reis Brasil na sua História da Literatura Portuguesa, que eu tenha na 3ª edição, revista, sem publicada em 1971 sem menção a editor, o dar como nascido em Barreiros, lugar do concelho da Maia, quando todos os demais situam no Porto o seu lugar de nascimento, na Casa de Germalde à Lapa, freguesia de Santo Ildefonso.

A ligação decorre, sim, de eu o associar acriticamente a Eça de Queiroz e assim à escrita, em esforço geminado, das Farpas e através delas à crítica social áspera e dir-se-ia “progressista” e ao movimento fracturante da Questão Coimbrã, e ao movimento renovador dos autodenominados Vencidos da Vida. Tudo como se a de uma mentalidade à frente do seu tempo, cáustica, morigeradora e por isso, erradamente indissociável do autor de A Cidade e as Serras.

Vagueando preguiçosamente pela minha dispersa biblioteca, assim o encontro retratado na colectânea Como se Devem Ler os Escritores Modernos, obra conjunta de João de Barros e Guerreiro Murta, editada pela Sá da Costa em data que o livro não menciona, mas foi o ano de 1940, com republicação em 1942: «é dos poucos moralistas da nossa história literária, sabendo corrigir com bom humor, e censurar sem acrimónia, mas apenas com severa e rígida justiça».

Já não é tanto assim a apreciação de Óscar Lopes e António José Saraiva, na sua História da Literatura, aquela que o professor de Literatura do meu 7º ano do Liceu em Viseu dizia que o Reitor o avisara para não recomendar e, claro aquela que, por isso, logo comprei. Nessa obra de referência aludem à «formação tradicionalista de Ramalho», ao seu «culto, no fundo provinciano, da elegância citadina», en bref, autor de uma obra que «exprime um bom senso burguês de sentidos apurados».

Três surpresas me aguardavam, porém, ao ter pormenorizado o meu breve estudo para este artigo.

Uma já provinha do antecedente ao encontrar-me com a sua Carta de um Velho a um Novo.

Escrita 7 de Setembro de 1914, um ano antes de falecer, e dirigida a João Amaral, que a geração do Integralismo Lusitano recebeu como legado e carta de missão e por isso Alberto de Monsaraz, na edição da mesma, publicada em 1947, pelas Edições Gama não hesitou em afirmar: «Ramalho Ortigão era, tento quanto nós somos e talvez mais ainda do que nós somos, um puro integralista». Monárquico, sim, virulentamente anti republicano, tradicionalista, em suma.

Mas, eis o que dita esta crónica, regressando aos volumes da Obra Completa e concretamente ao tomo que compendiou as Crónicas Portuenses. Entre elas li a que foi editada no Jornal do Porto, propriedade de José Barbosa Leão e publicada no n.º 87 desse periódico a 20 de Junho de 1859.

A prosa é uma diatribe feroz contra um livro de versos, intitulado Esboços Poéticos, da autoria da actriz Eugénia Infante Câmara.

A autora partiria esse ano para o Brasil, com o actor e empresário teatral Luís Furtado Coelho, onde se tornaria, com escândalo público, amante do poeta, dramaturgo e advogado António Frederico de Castro Alves, o denominado «poeta dos escravos» dado o teor abolicionista dos seus versos criatura excepcional de vida, complexa, pujante e tumultuosa.

A sua intensa vida amorosa daria, aliás, tema a um filme de José Leitão de Barros, intitulado Vendaval Maravilhoso, rodado em 1949 em que a sua pessoa foi representada pela fadista Amália Rodrigues e cuja cópia foi restaurada pela Cinemateca Nacional.
Ora Ramalho não a poupa, a crítica é deapiedada: «o livro da senhora Eugénia não presta para nada. É uma colecção de babosas tolices; é um apontoado em partes surrado e sujo, de insofríveis parvoiçadas; é um empacho, um cataplasma, uma papa de insipidez». E não se fica por aqui: «A senhora Eugénia Câmara enceleirou nos antros da sua retentiva um cabedalão de pieguices chochas, chanças gordíssimas e de acumulados arrojos duma grosseria nada feminil».

Mas o pior é a apreciação generalizadora que o crítico faz do papel da mulher escritora.

Lê-se com um arrepio de alma: «Livrinho escrito por senhora, cá para mim, significa sempre um duplo desastre», porque, em sua opinião: «A mulher que faz livros transcura a sua missão, desfita o alvo do seu existir, transvia-se da sua trilha, rescinde os seus direitos, deixa de ser mulher, fica sendo somente a fêmea do homem, ou antes um homem-fêmea».

Fica equacionado o tema. Urge dissociar Eça e Ramalho, essa «estranha amizade», como a qualificou Maria Filomena Mónica e aceitar o que Campos Matos documentou sobre a Ramalhal Figura e o seu lamentável comportamento para com a obra daquele seu companheiro, morto este. E sobretudo, relativizar tudo, para tudo melhor compreender. Não ter ilusões enquanto se não cegar.







domingo, 18 de julho de 2021

Genoveva de Lima, a elegante pluma

 


Li o que Genoveva de Lima Mayer Ulrich [1886-1963] escreveu, com arrebatamento e elegância, sobre Carlos Félix de Lima Mayer, seu pai [1846-1910]. Um artigo de jornal, nosso contemporâneo, achafurdando por mexericos sobre a sua vida social e íntima, para gáudio dos alarves, chama-a, com selvática injustiça, uma «escritora medíocre».

Casada com o Embaixador Rui Ennes Ulrich, duas vezes ministro plenipotenciário em Londres, a sua casa, hoje sobrevivente, em Campo de Ourique, animou um requintado salão literário. Há uns anos, graças à gentileza do seu actual curador, Alfredo Magalhães Ramalho,  tive a grata oportunidade de ali falar sobre o texto de apresentação que escrevi para a edição, enfim traduzida do italiano, da obra "O Príncipe" de Nicolau Maquiavel. 

O livro,  publicado em 1945, editado pela Livraria Luso-Espanhola que ainda conheci na Rua Nova do Almada,  é uma biografia de uma pessoa e retrato de uma época, dando o título sinal que resuma a obra: "O único vencido da vida que também o foi na morte».

Discreto membro do grupo "Os Vencidos da Vida", esse escol de primeira linha da inteligência combativa do século dezanove, foi esforço carinhoso para «baixar as pontes levadiças no castelo do esquecimento, revogar o ostracismo, esconjurar o silêncio» daquele ser propulsivo que, propiciando meios para que outros deles usufruíssem, se recolheu à discrição, ficando assim sujeito ao «emudecimento avaro dos seus contemporâneos», esse silêncio nascido na «conspiração subtil em que colaboram o inconsciente e a distração num sentimento fratricida inconfesso, onde vagamente giram despeitos subjacentes e conivências herméticas, sepultando na mesma cova a gratidão e a dívida!...»

Ler o livro, hoje quase já só em bibliotecas, como a Biblioteca Nacional ou a Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian,  é surpreender na intimidade toda uma plêiade magnífica da cultura e sensibilidade, achá-los reunidos na Quinta da Cruz do Taboado, de Lima Mayer, areópago de «onze menestréis românticos, talvez irreverentes vagamente truculentos, como tudo quanto é moço, mas sem a morbidez fatalista e acusatória daqueles que, julgando conhecê-los, lhes conferiram desígnios demolidores e negativistas»; mas é também seguir a trajectória, ascencional primeiro, e depois em rápida decadência, do biografado a partir do momento em que «a alma do vencido começava a arrefecer antes do corpo: a desolação penetrava-o como lâmina mortal dum gládio invisível». 

Sobre Lima Mayer, pobre, em progressiva cegueira, isolado na sua casa às Janelas Verdes, sem companhia que apenas Jaime Batalha Reis consolava, mas já em vão, aproxima-se o momento em que «não era possível viver naquela jugulação como um destroço aos tombos», põe termo à vida com um tiro de pistola. Afinal como Antero de Quental.

Espírito tremendo de irrequieto, nada tendo escrito, Carlos Félix foi, porém, activo contemporâneo, mas em permanente «exílio incognoscível», entre tertúlias e salões,  de João de Deus, «o poeta amorável, o sonhador dos ritos ternos, o contemplativo ingénuo e forte como alma de criança e, no peito, toda uma orquestra de cânticos matutinos soltos pelos jardins de Deus», de Eça, que Manuel Rezende lhe apresenta como o «José Maria Eça Mefistófeles de Queiroz, meu velho amigo, que, dentro das botas, esconde os seus pés de chibo», do fugaz Camilo, o severo Herculano, «rodeado de admiradores submissos e de damas fanatizadas», Antero de Quental, «que, nessa altura, já vinha marcado com sombrias inclinações», Ramalho Ortigão, «em briga elegante e empoada com o racionalismo em bronze de Oliveira Martins», este «o herói da sinceridade do pensamento», tantos, afinal, na vida literária, assim como na diplomática, aqui em elegante companhia em Londres com o Marquês de Soveral, embaixador em Londres, figura lendária que se tornou íntimo do Rei Eduardo VII, estimado pela Rainha Vitória e pela Rainha Alexandra, da Dinamarca, que ambas o condecoraram.

Li o livro, há uns dias. Guardo dele, hoje que vim aqui deixar da leitura esta breve nótula, a sensação requintada do que foi, no seu mais esplêndido fulgor, esse intervalo da "Belle Époque"; entre os reposteiros da sociabilidade convivial, a pulsão trovejante de uma época de ruptura, «torneio de fúrias em desalinho, excelentes, higiénicas, que punham correntes de ar na temperatura anquilosada pela espessura dos santos».

Tudo quando cito são expressões de Veva de Lima, como ficou conhecida por este "petit nom". Por aqui se vê que medíocre é quem tão mediocremente a viu, mas isso quanto menos importa. 

 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A viuvez da alma

Quando fiz anos o meu Hugo ofereceu-me O Bibliófilo Aprendiz de Rubens Borba de Moraes, numa edição da Letra Livre, com um texto de apresentação do estudioso e erudito Pedro Teixeira da Mota. Ontem a minha Zé tinha à minha espera a surpresa de O Crime do Padre Amaro, que faltava na minha queirosiana e que teve o carinho de adquirir na edição crítica organizada por Helena Cidade Moura, e publicada pela Lello em 1964. Nela se compilam as três versões que o livro conheceu, a assassina descuidada e sem revisão de provas pelo autor, de 1875, a segunda, paga pelo pai de Eça de Queiroz porque o editor não arriscava e que ele prefaciou de um ignoto lugar que ali se diz chamar «Akenside Tewace», mas que é gralha porque se trata de Akenside Terrace, em Newcastle, onde Eça desempenhou funções de cônsul [como se pode ver aqui], e a terceira em que o criador do Conde de Abranhos se defende da vil acusação de que copiara para o livro a ideia se não o conteúdo do livro de Émile Zola, La Faute de l'Abbé Mouret.
Eis entre um livro e outro e uma gripe homicida que resolveu reduzir-me à insignificância do desprezível. 
«É aos psicanalistas que se deve perguntar porque se colecciona», escreve Borba de Moraes. Eu não colecciono, gosto de ler. Quando gosto sou insaciável no gostar. É uma viuvez da alma não ser gostado.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Vivamente apurado

Há muito que a procurava. Hoje na Livraria Almedina, do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, encontrei-a, ou melhor, estava à minha espera. «Há que tempos que o não via, ainda está interessado nela?», perguntou-me solícito o empregado, amigo. Era verdade que «há que tempos» e verdade também que «ainda estava interessado». Nunca deixei de estar. 
Comecei a lê-la esta tarde, à biografia de Eça de Queirós escrita por Campos Matos. E a ler,  primeiro a esmo, começando pela sombra da perseguição dos problemas financeiros a que foi sujeito a vida inteira. «Vivamente apurado», no refogado dos apuros, as «atrapalhações de dinheiro» iam-no envelhecendo. Despesas acima dos ganhos, gastos desordenados. Um mês decorrido sobre a sua morte, um dos seus mais dedicados amigos, o Conde de Arnoso, escrevia ao director do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, a implorar ajuda para a família, que, segundo ele, "havia ficado na mais negra miséria". A 21 de Maio de 1901 a Câmara dos Deputados aprovava uma pensão para a viúva [como vem relatado aqui]. Esta «viria a ser anulada pelo governo da República, devido ao facto de dois filhos de Eça terem participado nas incursões monárquicas do Norte de Portugal em 1912», como confirmei aqui. 
Vergonha.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A tragédia do "Via Láctea"

Há quanto tempo não escrevia aqui porque há quanto tempo não os lia! Entre os livros velhos que comprava para ler um dia e os que iam a meio para a eles voltar num qualquer dia o progresso era curto. E com isso não havia forma de a antiguidade se tornar moderna.
Encontrei-o numa venda de rua, aqui perto, no Campo Pequeno, no passeio da Avenida de Berna. Ao frio, ao vento, à chuva. ladeados por automóveis ferozes que iam e vinham pelo túnel fora, o Campo de Touros indiferente, nas suas catacumbas um Centro Comercial verdadeira manjedoura pública e outras aderências consumistas, os alfarrabistas.
Ali encontrei o livro das cartas em torno do Eça de Queiroz e da publicação das Prosas Bárbaras. Cartas do e para o Jaime Batalha Reis, do e para o Luís Magalhães. O escritor, organizador da colectânea, o editor. E um texto magnífico do Ramalhão Ortigão descrevendo o Cenáculo, a tertúlia sita na Travessa do Guarda-Mor, servido por um criado galego crismado como o "Via Láctea", incumbido de «um trabalho duro, violento, mas glorioso»: «examinar atenta e vigilantemente tudo o que se passasse no Universo, e informar o Cenáculo».
Imagina-se do irónico o absurdo. Inquirido duas vezes ao dia, o pobre homem, símbolo do real a fecundar aqueles espíritos únicos de um Antero de Quental, um Oliveira Martins, um Batalha Reis, um Salomão Saraga, um Lobo de Moura, respondia, trágico, a questões do teor das que assim se exprimiam: «Via Láctea, sentaste-te, misterioso e sinistro, à beira do grande rio profundo da humanidade? - Que foi que te disseram no seu confuso turbilhão as grandes correntes históricas? - Surpreendeste por acaso o grande fenómeno genesético, ó Via Láctea? - Seguiste o átomo até ele se converter na molécula?».
Genial, sobretudo pela capacidade de pensar a rir.

domingo, 24 de julho de 2011

A conversão

Vim para encontrar o meu Eça de Queiroz, controverso, o das Cartas de Inglaterra, certeiro no que observa, o coração dorido ante a miséria e o egoísmo, ante a fome na Irlanda, a depredação no Afeganistão. Não o levei para férias porque a edição é antiga e haveria o risco de o papel de 1945 não aguentar a contemporaneidade da praia, o conteúdo do escrito, esse, resistiu à usura do tempo. «O esforço humano consegue, quando muito, converter um proletariado faminto numa burguesia farta; mas surge logo das entranhas da sociedade um proletariado pior. Jesus tinha razão: haverá sempre pobres entre nós. Donde é a prova que esta humanidade é o maior erro que jamais Deus cometeu».

sábado, 2 de julho de 2011

Prosas Bárbaras

Encontrar o conhecido quando era desconhecido, eis o encanto da vida. Saber que o que é teve o momento em que estava a ser, eis o mistério do ser e do seu tempo. Encontrei-o ontem no Chaminé da Mota, o alfarrabista do Porto, o livro que veio a chamar-se "Prosas Bárbaras" e que Jaime Batalha Reis convenceu José Maria Eça de Eça de Queiroz, seu autor, a publicar, assim reunisse o que vinha publicando de modo avulso na Gazeta de Portugal, de António Augusto Teixeira de Vasconcelos. E na introdução este momento:
«Repentinamente (em Março de 1866), começaram a aparecer uns folhetins assinados "Eça de Queiroz": ninguém conhecia a pessoa designada por estes apelidos que, por algum tempo, se supôs serem um pseudónimo».
Trouxe-o comigo e esta manhã, retirado para um recanto de paz, estou a lê-lo, tendo ao lado uma ediçãodas "Últimas Páginas", biografias de santos, o livro fantástico que seria póstumo. Daqui a pouco almoça-se e regresso à leitura, enquanto a Natureza se espraia, indolente, em calor.