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terça-feira, 19 de abril de 2022

Noite onírica, enlanguescente


 Li "O Barão" e já não fui capaz de ler os dois contos que com esta novela completam o livro. Edição pobre, papel amarelecido, formato bolso, corpo felizmente largo para ajudar à leitura, o que não seria necessário porque neste fim de tarde de Domingo comecei e consegui chegar ao fim ansioso por regressar. E leio pausadamente.

A escrita é torrencial na sua cadência por locais oníricos, a cena em crescendo de enigma a ter o seu epígono numa noite alcoolizada, a trama a crescer e sem caminhar definido por onde segue, viagem em busca da memória do amor idealizado, o amor retraído. 

O que seria a narrativa de uma visita oficial de um sorumbático inspector escolar a uma remota aldeia pelas terras do Barroso dá um viagem fantasmagórica pelo enigma e pela luxúria, longos corredores vazios e seu silêncio, o solar decadente onde a vida de há muito decaiu, correrias pelos esconsos do medo e enfim, a queda e a fractura, a morte, os caminhos sombrios do sonho e da loucura, o barão carnívoro insaciado, a desbragar-se em aviltamento e afinal em sofrida carência de companhia.

António José Branquinho da Fonseca, filho do escritor Tomás da Fonseca. Licenciou-se em Direito mas foi do mesmo escasso praticante para além de funções públicas a desaguarem, porém, no serviço cívico a que deu vida, o das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian que tanta oportunidade deu a que se lesse onde, ao tempo, a leitura não chegava.

Fundara a "Presença", dela sairia com Miguel Torga. Ao chegar à Fundação em 1958 não mais publicaria. O seu livro "Bandeira Preta" é de 1956. 

Dir-se-ia que o escritor se sublima aqui e se redime do pecado do convencional. 

A capa do pequeno volume, desenhada em boleadas curvas languescentes, não vem assinada e é pena. Está ali, num traço, a lascívia do lugar e a que caminha ondulante e deixa atrás de si o momento de silêncio: Idalina, serva e dona, um breve instante, a ambiguidade provocante do quase.


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A Bandeira Preta

Encontrei-a no jardim da Gulbenkian, em exposição, há uns dias passados. Fotografei-a como me foi possível, com o telefone. As que conheci na minha juventude e me traziam à aldeia de Abravezes livros que eu nem imaginava que existiam, eram cinzentas. Soube mais tarde que o Herberto Hélder trabalhou numa delas, percorrendo o país, distribuindo cultura, instigando ao saber.
Deveu-se à organização dessas Bibliotecas Itinerantes ao escritor Branquinho da Fonseca, coadjuvado por António Quadros. 
Em homenagem, a Fundação reeditou «a título excepcional» o Boletim Cultural que em Janeiro de 1984 lhe dedicou.Trouxe então um exemplar. Li-o hoje, em viagem, para me lembrar do pouco que sabia sobe este homem que foi mais um dos licenciados em Direito que pediu asilo à Literatura.
Como o mundo é tão pequeno. Fui ali encontrar um estudo sobre a presença da mulher na sua escrita da autoria de Natalina Andrade Grilo. E um sentimento de comoção tornou-se pudor. Não fui capaz de o ler. Amanhã voltarei. As memórias, as dolorosas sobretudo, são como uma reticência que nos envergonha. 
Branquinho da Fonseca, filho de Tomaz da Fonseca. O seu livro "Bandeira Preta", o único que li, começa assim: «Pedro abriu uns grandes olhos de espanto»...