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domingo, 8 de setembro de 2019

Simenon & Maigret

Foi o primeiro livro que escreveu da série Inspector Maigret e assinou com nome próprio. Na altura já tinha mais de vinte "romances populares" publicados pela Fayard. 
Tudo nesta escrita de Georges Simenon é interessante, até o próprio processo de escrita.  Abalançou-se a este género que considerou difícil.
Dactilografado numa improvisada secretária, pregada esta a um barco em que vogava entre o acaso e um porto de acolhimento, a narrativa traduz, em muito, o ambiente circundante, desde a vida portuária à dos personagens que o habitam. Li-o em francês por ser nessa língua que ele pode ser sentido e por isso compreendido.
Permito-me sugerir que aquilo que fez um género na categoria dos romances policiais só seria possível pela conjunção deste ambiente, de uma personalidade conturbada como a do seu autor e um ambiente filosófico parisiense, que mais tarde o existencialismo haveria de assumir como filosofia e literatura.
Por um lado, porque Jules Amedée François Maigret tem vida própria, nisso incluindo biografia. Nasceu em 1877 e morreu no final de 1970; por outro, porque o seu método de trabalho é em tudo distinto daquele a que o leitor se habituou a assistir quanto a todos os outros. O que há aqui não é o exercício da inteligência lógico-dedutiva de um Sherlock Holmes, nem a ambiência upper class das figuras de Agatha Christie, na qual o belga Hercule Poirot é seguramente lídimo expoente e presença refinada.
A vida pessoal e familiar de Maigret, a sua missão, o modo como Simenon o situa, são também, numa certa essência, um panfleto de crítica social: mal pago, a viver uma vida de modéstia e sacrifício, sujeito a todas as contingências, é o proclamado braço da lei em luta contra o mundo do crime, mas socialmente desprezado por tantos que, querendo paz e tranquilidade para as suas vidas, beneficiam da vida de que acaba por se privar, dia e noite perseguindo as suas pistas, sofrendo intempéries e arrostando perigos, vencendo o cansaço e a desilusão. Logo no segundo capítulo: «La présence de Maigret au Majestic avait fatalement quelque chose d'hostile. Il formait en quelque sorte un bloc que l'atmosphère se refusait à assimiler», um polícia ostensivo num lobby de hotel, «le mot crime, cauchemar de tous les hôteliers du monde.»
O que há neste livro de interessante, depois de ter lido, à solta, muitos outros da mesma série, é que está ali tudo, porque no ovo da serpente contém-se a totalidade da serpente: a figura maciça do inspector, como se talhado de um bloco de carvalho, a sua calma fleugmática, a persistência de um cão de caça, mas sobretudo aquele método de envolvimento com o mundo onde descortina o crime, o de se plantar e deixar embeber pelos locais, seus odores e seus ruídos, e isto porque «dans tout malfaiteur, dans tout bandit, il y a un homme». 
Para chegar à essência da realidade é preciso esperar, aguardar por uma fissura que revele o humano e não apenas o jogador que é aquilo que, em regra, a polícia procura. É preciso chegar mesmo à perigosa proximidade com o criminoso, não sendo menor perigo atingir o limiar da compaixão, essa forma amorosa de amizade, ir em busca de Pietr le Letton, dito Fédor Yourovitch, dito Oswald Oppenheim e, enfim, não o encontrar, antes aquele que se apoderou da sua alma por já ter o seu corpo.
E, no entanto, como ressalva Simenon, também ele Maigret usa, como os outros seus colegas, os meios extraordinários do seu tempo, os do francês [Albert] Bertillon, doamericano [Albert John] Reisse e os do também francês [Edmond] Locard, com tudo quanto eles significam de crença racionalista na ciência como método criminalístico.
A história deste livro é, não apenas a de um interessante exercício sobre a duplicidade de dois gémeos, mas igualmente a transposição do tema para o mundo da própria atitude policial, tantas vezes o polícia tem também de se travestir no que não é, mas naquilo que seja, no caso, a aparência e o porte conveniente; é, por outro lado, o da excepcionalidade do homicídio no quadro da criminalidade financeira, no caso, a de uma rede de burla por falsificação, excepção que, tornando invulgar a ocorrência da morte, gera quase a improbabilidade da sua existência e a dificuldade na sua condenação, por tudo se situar num mundo em que os jogos de poder atenuam a diferença entre o permitido e a infracção, tornando sólidas reputações um biombo interessante para a ocultação da sua ligação ao crime, o agente de polícia figura insignificante no território em que se movem embaixadas e políticos, empresários e altos quadros.
No interjogo teatral dos episódios, em que o narrador amiúde se intromete, como espectador comprometido da sua própria escrita, tudo é, além disso, transportado para contextos históricos e sociais, em que a percepção das pessoas só se alcança pela compreensão da sua proveniência. É uma escrita culta, para leitores que se não fatiguem. 
Escrito em 1931, terá de se compreender, é certo, a mundivisão do autor, não diferenciada do que era o Zeitgeist desse momento: os segmentados países bálticos, o entrechoque dos comunistas e dos ultranacionalistas, o ghetto judaico, os russos e os polacos, os intelectuais e os vagabundos. 
Algumas das referências talvez não passassem no crivo delirante do politicamente correcto, essa neo-censura da contemporaneidade.
Trata-se de Literatura, sem arrogância nem piruetas de estilo, expressão, mostra, enfim, da força vital de uma densa humanidade e de compreensão por tudo quanto é humano. Só por isso, vale a pena, até como pedagogia, necessária para os burocratas da repressão, mesmo os que, na repartição pública do pensamento, organizam o modo tecnocrático de tentar ir ao seu encontro, para a debelar, afinal sem a entender. 


domingo, 4 de novembro de 2018

Les mémoires de Maigret

Consegui - contentamento! - com um pouco de preguiça de cama - mas é Domingo! - terminar a hoje leitura. Livro breve, formato, lido no original, francês. 
Pertenço, talvez, a uma das últimas gerações que em Portugal saberá ler em francês. Cada vez menos se ensina essa língua, menor em cada dia a influência da cultura gaulesa. No tempo do Eça de Queiroz a novidade levava, para chegar a Portugal, o tempo do Sud Express. Agora já poucos sabem o que foi o Sud Express, Santa Apolónia/Mangualdade/Gare de Austerlitz.
Livro paradoxal este, as memórias de Maigret, como se escritas pela mão do próprio. Assina, Georges Simenon. Se pudesse sem blasfémia convocar-se a teologia, seria a revolta mansa da criatura contra o seu Criador.
O inspector da Police Judiciaire tem, nesta pequena obra que a Presses de la Cité agora reimprimiu, publicada originalmente em 1951, compaixão pelos erros daquele que tanto escreveu sobre as suas investigações, retratando-o como o polícia gordo e fleugmático, tornando-o em Literatura aquilo que ele não é, fazendo-se viver quem não sente ser e aqui tenta emendar.
Sendo permitida a ironia, Maigret escreve tão prodigiosamente como Simenon. A mesma imersão nos ambientes, a mesma compreensão pela dimensão humana de todos os outros. 
Exagerado, como sempre - palavras de Mme Louise Maigret - Jules Amedée François Maigret esforça-se, nesta ânsia de rectificação por nos devolver o inspector de polícia como «simples funcionário», por atenuar a diferença existencial, - que não moral - entre os que estão do lado da lei face a todos os que são o seu objecto de perseguição, do bas fond à alta roda.
Há na escrita a presença permanente da mediania, o conformismo com a modéstia, a quase ausência de rancor. Noites de vigília, o desconforto permanente da chuva em tempo frio, rotas tantas vezes a sola dos sapatos, uma carreira feita a partir da modéstia de um polícia de rua, distribuidor de correio em bicicleta, enfim, a findar as páginas, ébrio de alegria ante a promoção à Brigade Spéciale
Por causa de uma das narrativas sobre um caso seu, perdi há tantos anos que já nem lembro quando, um comboio na gare de Poitiers. 
Companheiro de viagem, num saco com pouca roupa e muitas fichas para a bibliografia de um livro que teimava em escrever - e já nem sei se o completei, era jurídico, o mundo não ficou pior sem ele! - enclavinhado na mão, aquele pequeno mas hipnótico livro e nele Janvier, Lucas, Torrence, a Brasserie Dauphine, a Rue Richard-Lenoir. Esqueci o título, foi-se a história, ficou o sentimento.
Seguia-lhe de tal modo os passos, bebia assim com ele imaginariamente os Calvado's, o Armagnac que, embriagado também pela fantasia e pela ilusão tornada real, nem dei pela aproximação, nem pela paragem, nem pelo arranque do comboio que asseguraria a ligação final, rumo a Lisboa. 
Naquele instante de surpresa e pavor - tinham-se esgotado os francos e nem sabia como fazer para corrigir o sucedido - eu fui O homem que via passar os comboios.

domingo, 9 de agosto de 2009

Le Chat, de Georges Simenon


Li ontem Le Chat de Georges Simenon. Numa edição portuguesa, que era a que havia aqui em casa, oferecida, de 1967, traduzida por António Barahona da Fonseca, com capa de António Cândido.
É uma história dolorosa de um casal que fez do silêncio a melhor expressão para o seu mútuo ressentimento, para o ódio rancoroso, para a indiferença, filhos da impossibilidade. «Ambos se sentiam vítimas e se consideravam mutuamente como monstros». Andando pelos sessenta anos «ainda não sabiam a que velocidade iam envelhecer». Só que foi tudo muito rápido, mataram-se fazendo da vida tristeza. Compartilhavam, forçados, o mesmo espaço, o mesmo quarto, a mesma cozinha, lugares onde separavam os corpos, fugiam do encontro dos olhares, evitavam a proximidade das almas, de tal modo «se ignoravam com tanta perfeição». Comunicavam por bilhetinhos.
Um dia ela, por malvadez, ter-lhe-á envenenado o gato, ele, vingativo, matou-lhe o papagaio. «Um vulgar gato de telhado - afirmava ela no tempo em que ainda se falavam para iniciar uma discussão».
Vida esvaziada, ambos tinham tido anteriores casamentos, o dele feliz, com Angèle, feito de risos de uma «alegria ruidosa», de beijos e passeios, mas Marguerite agora «insensibilizara-se logo ao primeiro contacto físico e as duas camas eram o símbolo da sua união fracassada».
Um dia ele saiu de casa. Havia Nelly, de peito roliço, que se dava, rápida, aos homens que queria, na cozinha da pequena tasca, de nádegas alçadas, virada para não lhes ver a cara. Uma vez ele também ali foi, usá-la, e daí em diante tantas vezes, quantas quis, ela a notar que «não és dos que ficam tristes depois de fazer amor».
Deixei por ler quatro folhas de Le Chat. Acabei-as agora mesmo. A narrativa termina com o perceptível: Émile Bouin regressa a casa, incapaz de suportar a dor da mulher deixada.
É impossível não recordar a vida familiar do próprio Simenon, desgraçada, dorida, a usar da vida «o estritamente necessário». «J' ai été marié deux fois. Je vis avec une troisième femme. Mas il ne me viendrait pas à l'esprit de les mélanger dans mes souvenirs». Assim quase termina a Letre a ma mère que ele escreveria, com setenta anos. Émile, porém, «acabava por se zangar, por metê-las todas no mesmo saco, por considerá-las inimigas», Angèle, Marguerite, Nelly. Esta «conhecia os homens, Se se entendia com eles era porque não lhes pedia mais do que podiam dar». Mesmo assim. Uma tristeza. A história de como se assassina o amor. Livros de excepção.