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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Lido & A Ler: Giovanni Papini

 Não serão notas de leitura, mas breves apontamentos sobre os que livros que leio e os que li, no caso um livro cuja leitura terminei, salvo, noto agora, a de um conto e vá lá saber-se porquê, há poucos meses.

Quem se interessar por estes apontamentos, dar-se-á conta da extravagância, porquanto, não tendo eu a preocupação de ler apenas o que acaba de ser publicado, leio, direi mesmo de modo determinante, o que passou já para a zona penumbrosa do esquecimento. 

Inauguro esta coluna com uma colectânea de contos de Giovanni Papini, de quem tenho mais de uma dezena de obras, que fui juntando nos últimos anos e de que li quase tudo, incluindo o volumoso Diário, naquele meu jeito de ler, sublinhando, na fantasiosa ideia de anotar assim para um qualquer momento futuro as ideais importantes e os relevantes modos de ter escrito.

No caso, a obra é um pequeno volume de 160 páginas, editado pela Livros do Brasil, na sua colecção Miniatura, com tradução de Graziela Saviotti Molinari, com capa de Bernardo Marques, da segunda geração dos Modernistas.

O meu exemplar não tem data de publicação, mas pela antiguidade do papel permito-me presumir que seja a edição de 1951, ou seja um ano depois da publicação do original em Itália, pela mão do seu amigo e editor Attilio Valecchi.


As narrativas são, ao bom estilo do autor de Gog, insólitas, dir-se-ia surreais. Sendo impossível relatar todas, havendo que escolher ao menos uma que sirva de demonstração, retomo aquela que abre precisamente assim com a rememoração deste personagem: ««Encontrei há dias o famoso Gog, o milionário louco, a quem consagrei um livro inteiro, e ele quis contar-me a sua última experiência».

E qual era essa vivência decorrente de um um «tempo horrível e uma recrudescência aguda de humor tétrico? O visionamento de um filme que mandara fazer sobre um tema de sua invenção.

Filme esse que é a reprovação de todos os filmes em voga, em que contracenam figuras que são «a mais rendosa especulação sobre a estupidez humana».

Não que Gog se declara um moralista, pois anuncia-se como «cínico imoralista», mas, na sua simplicidade, a película «não exibe porcarias nem canalhices, burlas ou carnificinas», sendo, por isso, «um filme muito mais surpreendente e fantástico do que nos servem todos os dias produtores sem escrúpulos e sem imaginação»: «os protagonistas são gente de bem, que trabalha em santa paz e não sente o frenesi de fazer mal aos outros nem de mudar de visa».

E, no fim a moral da história: «Estamos hoje em véspera de novos furações mortíferos. O nosso dever é encorajar, por todos os meios - e o cinema é um meio poderosíssimo - as forças do bem e mostrar que existe ainda na terra um bom número de "homens humanos" e que, até, se estes não existissem, o Mundo já estaria transformado num inferno ainda mais infernal do que é hoje. O meu filme pode ser um péssimo negócio, mas será, de todas as maneiras, uma boa acção».



sábado, 12 de junho de 2021

Palavras e Sangue

 


O privilégio de ter um livro, ainda que amarelecido, encarquilhadas as folhas, desbotadas quando não manchadas, a capa, porém, ainda a resistir. Um daqueles livros em que os cadernos iam cosidos antes de a capa ser colada aos folios já batidos, mas em que a guilhotina se ausentava, deixando o corte dianteiro rugoso e imperfeito. 

Livro destinado a ter de se abrir com uma faca e ter uma faca adestrada a cortar papel, tudo relíquias de um tempo que parece já tão sumido no tempo, livro indiscreto, a denunciar não ter sido folheado sequer ante os maços por abrir.

Livro assinado pelo que antes o teve como seu, no caso em 1957, ano desta edição, identificado com um ex-libris e que na biblioteca pessoal teve número de ordem manuscrito na folha de guarda.

Livro com orelhas, a esquerda de resumo da própria obra, a direita a anunciar a próxima da colecção, assim fidelizando o leitor.

Livro com capa do pintor Bernardo Marques, que tanto trouxe à ilustração editorial com o seu traço em que pressentimos um Almada Negreiros ou um Mário Eloy.

Ter um livro cuja tradução se prenunciaria fraca, por ter sido isso infelizmente o que sucedeu na editora, mas que é notável porque afinal do poeta brasileiro Mário Quintana, sendo este o seu primeiro trabalho de tradução para a "Editora Globo", versão revista para português de Portugal pelo açoriano Agostinho Vieira d'Areia.

Ter a oportunidade de o livro, buscado à estante, ser de Giovanni Papini, essa portentosa figura do panorama literário italiano, de quem tento juntar quanto posso e ler tudo o que escreveu.

Livro de breves contos, publicado no original em 1912, precisamente no ano em que o autor parecia esgotado com o seu "Un Uomo Finito", ano prolífico em que traria a lume mais três obras, este, "Palavras e Sangue", traz-nos a escrita paradoxal, a equação do tempo com o seu espaço e todo um referencial onírico de desdobramento do eu em um mundo que é o seu próprio espelho.

Difícil escolher em tantas da narrativas qual a que melhor figuraria neste apontamento. Logo o primeiro em que «um pescador estendeu as suas redes e de dispôs a enganar também naquele dia os ridículos peixes», em que «o vento soprava ainda mais forte, encolerizado com a preguiça das nuvens»; ou aquele a que chamou "Sem Razão Alguma", para cujo personagem, «a insónia era o seu excitante e as obras por escrever alinhavam-se, noite a noite, na sua memória, como sonhos artificialmente conservados».

Pena faz que talvez já não haja leitores para quem «todo este presente não é mais do que um prefácio», sensibilidades comuns de alguém «encerrado como uma mónada, secreto como uma célula, mudo com um nocturno felino», seres para os quais «a quinta essência da subtileza filosófica consiste em descobrir a diferença entre iguais».

Fico por aqui. Mundos pequenos: um dos pseudónimos de Giovanni Papini foi "Gian Falco", o mesmo como se iniciou na escrita a nossa Irene Lisboa, a quem dediquei um blog, há tanto tempo por visitar.

sábado, 1 de novembro de 2014

Um vento amplo de solidão


Custavam quatro escudos, publicados pela Edição de Fomento de Publicações, Lda., sita na Travessa do Sequeiro, n.º 4, rés-do-chão, em Lisboa, sob a direcção literária de Manuel do Nascimento.
Tudo nomes esquecidos, quase como o do autor da capa, Bernardo [Loureiro] Marques [sobre este notável pintor, ilustrador, veja-se aqui].
Era a colecção "Mosaico", que tentava ser, no seu formato em oitavo uma «pequena antologia de obras-primas», trazendo ao leitor o gosto pela leitura.
E conseguiu comigo. Li há pouco O Encontro, a morte do engenheiro, às mãos dos irmãos de Delfina, a moça que o lugar lhe proporcionara «recozidos de ódio, trémulos de delírio, tudo neles trabalhava como um desespero animal. E muda, a toda a roda, a montanha aturdia-os de solidão». E assim «ele sentia que a aldeia lhe impunha a violência da sua verdade», encurralado, «um vento amplo de solidão e montanha embatiam-lhe no  peito», «num pavor de precipícios».
Os contos que publicou este pequeno volume de 48 páginas, impresso sem data, mas em 1957 [ver aqui] na Sociedade Industrial Gráfica [hoje Telles da Silva], na Rua de Campolide, n.º 133, estão publicados no volume de contos de Vergílio Ferreira na Obra [quase] Completa que a Bertrand editou e a partir de certa altura deixou esgotar sem reimprimir.
Manuel do Nascimento, mineiro, trabalhou nas minas de Jales, onde conheceu Soeiro Pereira Gomes, Doença pulmonar fê-lo abandonar a profissão e dedicar-se ao jornalismo, à escrita e à edição. 
A sua obra, hoje votada ao apagamento, é um dos expoentes do neo-realismo, fruto de experiência vivida tornada literatura. [sobre a sua pessoa leia-se mais, aqui e aqui]
Por esta altura já o autora de Aparição tinha mudado a agulha, abandonando o alinhamento que o levara a escrever Vagão J. Fora tudo com Mudança. «Não de deixou o autor de "Mudança" contagiar pelo fácil e assim os seus primeiros trabalhos não revelam o esquematismo da grande  parte das obras dos escritores que caminham nas letras seguindo o mesmo rumo», escreveu, corajosamente, o editor.

sábado, 21 de março de 2009

Papel pardo

É um manuscrito de Carlos Queiroz. Tem como suporte uma folha de papel pardo, a qual o pintor Bernardo Marques (1899-1962) utilizara para limpar os pincéis, segundo informação da viúva e doadora, Maria Elisa Marques. Encontrei-o, aqui, por ser o dia mundial da poesia. «Se eu tivesse nascido no seio da província, era fatal, que o meu sonho maior era triunfar na capital». Nem tudo é grande na grandiosidade. Há na insignificância também a grandeza dos sentimentos.