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quinta-feira, 4 de abril de 2019
O riso
Parei de ler o que me foi possível ler do livro do Onésimo Teotónio Almeida sobre as Correntes de Escrita, que saiu agora em Fevereiro de 2019. Tinha acabado de ler grande parte de um livro seu sobre Darwin & Marx, que me entusiasmou, tal como este me está a desapontar. Os textos daquele outro eram antigos já, mas as ideias permaneciam novas. O estilo coloquial convidava à leitura. E foi assim que, entusiasmado, entrei neste.
Dizem-me, e nota-se, que Onésimo cultiva o humor como método e objecto. Só que o humor pressupõe doses calculadas, sob o pena se tornar vulgar e perder a graça. E por aqui abundam piadas e anedotas a ponto de a sua aparição perder impacto.
A ironia é forma de sabedoria ou de entretenimento, consoante o tempo de maturação ou a oportunidade. A chalaça, que é a sua forma vulgar, maça muito e ensina pouco e a sua repetição faz perder a vontade de ouvir. Há por aqui um pouco de tudo. Percebe-se que o propósito é ilustrar uma ideia; mas há o risco de o leitor se ficar pela superficialidade do riso.
Sei que estou a ser antipático quando, por regra, encontro sempre algo de positivo nos livros que leio e seguramente injusto, pois quando iniciei a leitura estava entusiasmado ou talvez bem disposto e disponível para ser contagiado. E nem o autor nem os editores da Opera Omnia merecem isso.
Mas hoje está a chover, fiz centenas de quilómetros em trabalho e nem sempre temos boa-disposição.
Tenho o livro aqui ao lado, sublinhado e com textos ainda por ler. Vim aqui escrever isto por ser típico sentimento de leitor. Ao contrário do crítico que, se honesto, deve ler integralmente antes de formular juízo, o leitor pode maçar-se a meio ou, para ganhar vontade que sente escoar-se, recomeçar a leitura do fim para o princípio, contando da última folha ou de cada dos dos capítulos. Como um caranguejo, como o livro que Caranguejo se chama, do Ruben A.
Voltando às Correntes. Suponho que o que aqui aparece escrito tenha causado vivo efeito quando dito em discurso oral. Falta aqui a pausa e a expressão, o semblante e o gestos. Talvez por isso nas redes sociais se escreva (risos) quando queremos dizer, sem um emoji que nos rimos. E eu não estou a rir. E hesito em guardar o livro ou regressar à sua leitura para não desanimar.
sábado, 25 de maio de 2013
Ruben A. em provas...
quinta-feira, 2 de maio de 2013
A gramática portuguesa à procura de Ruben A.
Aqui fica o texto do que li ante a Sociedade de Língua no passado dia 30 de Abril. Não sou especialista em Literatura, apenas um leitor.
1.
O tema nasce porque o leitor de português no King’s College, onde obtivera o grau académico de Master of Arts, Ruben Alfredo Andresen Leitão, perdeu, em 1951, o lugar, devido a pressões do Governo de Lisboa, na sequência do segundo volume que no ano transacto fizera editar, o das suas Páginas. Motivo directo: heterodoxia sintáctica.
Por detrás da conformidade do escrito com as regras linguísticas estavam também dois factores: o político, decorrente do conteúdo do relato e a intriga, rodeada esta numa penumbra sentimental que envolveria uma senhora, alegada denunciante, frustrada de amores pelo seu irmão José.
Destas duas últimas razões, a primeira faz sentido no contexto relativo da época: o escrito abunda em menções de substância crítica à Inglaterra, onde o autor desempenhava funções académicas e à própria realidade portuguesa, a primeira apta a criar dificuldades à política externa face à nossa mais velha aliada, a Loira Albion, a segunda, à “política do espírito” que reinava como ideologia securitária culural do Estado Novo. A segunda é a eterna fonte das acções humanas, a simbiose do ódio pelo não amor, o despeito.
A causa primeira, a causa eficiente como lhe chamaria Aristóteles, essa porém, é um insólito que ainda hoje ecoa e me me animou a revivê-la aqui.
O livro havia sido composto nas Oficinas Gráficas da Coimbra Editora, cidade onde o autor fizera estudos universitários, editado, no entanto, a expensas suas, e com venda reduzidíssima, facto que ainda hoje pertence ao domínio da petite histoire editorial. «Os meus livros raro chegam a atingir um grau medíocre de comunicação», diria mais tarde.
Nele compendiavam-se dispersos, apontamentos de viagens, de presença e de ausência, notas pessoais, o ego do escritor em acção, traduzindo o sentir em que muitos se poderiam rever no silêncio da leitura. Nada de extraordinário neste País de emigrantes e Nação de poetas.
O estilo era, porém, incomum, a tocar o revolucionário para a época, mesmo relevando as estonteantes piruetas estilísticas que os anos vinte haviam trazido ao regime político de Lisboa no domínio da Literatura, através dos modernistas que António Ferro convocara e, entre todos eles, como genial ímpar, José de Almada Negreiros, o autor da verrinosa Cena do Ódio e de toda uma escrita contorcionista apta a surpreender.
O autor tinha então 29 anos de idade e, como se exprimiria mais tarde, quase vinte anos volvidos, «ambicionava criar uma linguagem que libertasse a minha sensibilidade» e por isso mesmo «não podia usar a linguagem do Costa, porque o que eu tinha a dizer não era de modo nenhum o que o Costa dizia».
Verdade é que foi por causa do estilo que a matéria subiu à mão do contido e sóbrio Presidente do Conselho de Ministros, o qual redigiu, nas folhas de bloco em que se confiou para a História, notas de leitura que endereçou ao Ministro da Educação na altura, Fernando Pires de Lima.
Eis a primeira vez que o ditador teve o ensejo de exercer crítica literária, e fê-lo num aquém absolutamente humilhante da sua personalidade de estadista, perplexo e ofendido mesmo no seu conservadorismo atávico, ante o que lia.
Dois excertos:
«Lá fora o Juiz falava calmamente da natureza, dos pássaros, das colheitas e na generalidade aceitava o uivar constantes da multidão profundamente sexuada pelas áreas de La Bella. A rivalidade entre o Juiz e o escroque máximo – para a posse da prima-dona – atingiu uma troca de palavras baixas, feias, confidenciais – prostituídas rapidamente assimiladas pela careca bailarínica do Engenheiro C. do M.G. dos C. em particular».
«A mentirosa de Londres – a mulher de boca podre também me aldrabou. Alguns amigos – ao jantar – ouviram condescendentemente um bêbado que pelo facto de cheirar mal era o charme de Londres. A Mentirosa beijou-o num vislumbre sujo de mau hálito. Há poucos dias voltei a encontrá-la e tornou a mentir pela fama baixa que deita – em casa toma atitudes onézimas e, quando bem atestada pelo enfrasque do vinho ou das borras, só sabe falar verdade quando mente, prevenido encaixei algumas cujo sentido prático se desdobrava em sexo.»
Recorda-a, a essa ira salazarista, o irmão José Andresen Leitão, depois de ter feito uma privada investigação junto do Instituto de Alta Cultura, de que o controverso autor era bolseiro, e através de elementos que o Secretário do Ministro, António Miranda, para isso lhe facultou.
Em quatro páginas Salazar procedera a uma crítica «violenta, arrasante, doutrinal». Segundo o Secretário ministerial, o livro «tocou profundamente o seu edifício lógico, ordeiro e convencional».
Do manuscrito ficam estas frases a traduzir a visão do que da biografia e escrita do leitor em Londres ficara no espírito de retraída libido do Chefe do Governo: «pertence a uma boa família do Porto»; «há páginas completamente ininteligíveis e irredutíveis na análise das regras da gramática portuguesa recheadas de termos de invenção do Autor»; «explora-se o reles, o ordinário, o palavreado porco não só da língua literária e do falar corrente»; «as porcarias absurdas, palavrões juncam o livro»; «em certas passagens é chocarreiramente desabrido com os ingleses»; «de certa corrente modernista e isso é um caso para a censura e a polícia»; «o Autor deve pertencer a um tipo de pessoas que a polícia persegue»; «o Autor não pode representar Portugal nem ensinar português».
Enfim, era o atestado de mau comportamento moral e civil, barramento para a função pública, ao limite, perto quase, nas entrelinhas, da fronteira que enxotara do serviço público António Botto, demitido em Novembro de 1942 entre outras coisas por «não manter na repartição a devida compostura e aprumo, dirigindo galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social» e «fazer versos e recitá-los durante as horas regulamentares do funcionamento da repartição, prejudicando assim não só o rendimento dos serviços mas a sua própria disciplina interna.»
Sucede que os ingleses reagiram mal a esta intervenção moralista literária do Chefe do Executivo português e o Reitor da Universidade de Londres fez sentir, por via diplomática mas de modo suficientemente trovejante, que se não deixavam o Governo trabalhista britânico imiscuir-se na Universidade, menos ainda ao iriam tolerar a um Governo estrangeiro.
Ante isto, e o demais que se deve ter seguido no sentido de isolar Salazar, este, a 25 de Julho de 1951 escreve um cartão a Pires de Lima, no qual consigna: «Só hoje me mandaram os seus cartões e papéis relativos ao leitorado em Londres. Devolvo estes. Não há objecção ao que se pretende visto que o maluco do homem tem habilidade e competência para o cargo».
Eis, pois, aquilo que me traz aqui a este jantar: o «maluco do homem», genial escritor e os malefícios da gramática portuguesa.
Se Londres resistiu a cedê-lo à polícia do gosto, Ruben Andresen Leitão, humilhado, abandonou o cargo. Regressou a Lisboa, prostrado, isolado, e sem meios. «Escrever foi lutar», como notaria Jacinto Baptista, em homenagem póstuma. E lutou, escrevendo.
De emprego em emprego, começando pela Lever, seria a Embaixada do Brasil que se lhe garantiria lugar certo entre 1954 a 1972, e Vitorino Nemésio quem lhe alcançaria, em 1962, o posto de responsável pelo Instituto de Cultura Brasileira na Faculdade de Letras de Lisboa. Por um ano, em 1953, ensinaria no Liceu D. João de Castro. Em 1959, devido aos seus estudos sobre D. Pedro V, marco interessante na biografia daquele magnífico monarca, é eleito sócio correspondente da Academia Portuguesa de História. Só mais tarde, porém, em 1972 quando, com a liberalização do regime ensaiada por Marcello Caetano, alcançaria o posto de administrador da Imprensa Nacional.
Com o 25 de Abril João de Freitas Branco fá-lo-ia nomear por Vasco Gonçalves Director-Geral dos Assuntos Culturais, mas Ruben, irrequieto, atordoante, não se coaduna com o cargo, menos ainda com os militares. The right man at the wrong place, at the wrong time.
«A asneira não é privilégio das direitas ou das esquerdas, é uma constante nacional», escreveu um dia. Resumia-se, assim, o seu infortúnio com a política da cultura. Restava a grandeza da Literatura, a língua portuguesa como a sua Pátria.
A ela regressava para aquilo que denominaria, em síntese conclusiva, a «explosão do absurdo», o «encontro do ser normal Ruben Andresen Leitão com o outro personagem», o escritor Ruben A., com quem jogaria a dualidade típica do seu signo astrológico, Gémeos.
Mais tarde, o risível antagonismo irrompe em diálogo com Ruben B., o reprovado escolar que treparia à fortuna, à “barriguinha”, ao Buick à porta e mais seis filhos. Era o vértice do triângulo existência/literatura/sociedade, no qual surgiria o furacão criador de si. [para ler o resto clicar aqui]
sábado, 29 de dezembro de 2012
Ruben A. em biografia
Ainda vou a meio e lerei tudo. Estou naquela fase em que raramente deixo um livro por terminar, mesmo quando arrasto a leitura por um longo tempo. É a biografia de Ruben A., escrita por Liberto Cruz e Madalena Carretero Cruz.
É difícil, eu sei, o género biográfico, porque se pode ficar prisioneiro de simpatia ou antipatia pelo biografado, escurecendo os seus maus momentos ou acentuando dele os piores instantes. No caso é mais difícil porque o biografado é um ser incerto, que viveu em desconcerto e em modo errático, porque nele a graça da blague obnubilou muitas vezes o sentimento profundo e as ideias invulgares. Mas sobretudo porque se trata da biografia de quem escreveu a sua própria memória, através dos três volumes do livro O Mundo à minha Procura e os seis das Páginas, tudo narrativas centradas sobre o que viveu e viu viver, entre o luxo fulgurante da abundância de vida e a precariedade dos meios de subsistência com que tantas vezes se viu perseguido, nessas guinadas de altos e baixos dos que verdadeiramente são. De quem escreveu livros que quase ninguém leu e fez disso chiste como consolo.
Talvez falte ao livro aquela chama de alma que Ruben A. colocou em tudo quanto escreveu, aquele modo de ser diferente em que muitos viram o snob outros, não o dandy da Linha, mas sim a manifestação radical, meio anarquista, da estética do absurdo, a provocação, a modernidade. Compreendo que não é fácil captar-lhe do espírito a essência e, nessa faceta, a biografia é por isso mais o relato da viagem do que a dos sobressaltos do viajante. Para se alcançar o pulsar irrequieto daquele cérebro e a síncope daquele coração, que o trairia, é preciso ir-se directo às fontes, à sua ficção, aos diários e reflexões, mesmo ao recentemente editado teatro - para mim o seu género menor, ele que o cultivou como interessado e culto espectador na sua Londres vista a representação de que antes lera o argumento, os estudos académicos sobre o seu D. Pedro V. Os biógrafos foram mas o leitor terá de ir. Visto, assim, a biografia enquanto cronologia cumpriu a sua missão: alicia. Dá vontade de ler do biografado a obra, mesmo àquele que já a leu.
domingo, 18 de abril de 2010
Dono de si mesmo
Ainda tentei ler seguido para tentar acabá-lo, ao volume V das Páginas do Ruben A. de que li a parte final e mais dois terços desde o princípio. Falta o meio. Sei que são trechos soltos mmas mesmo assim. «Gostava de passar o Natal fora» numa daquelas «quintas antigas, com um brasão maior que a fachada, onde fosse dono de mim mesmo». Ah! «Entre a Póvoa de Lanhoso e Cabeceiras de Basto»! É na página 225.
Ele gostava mas, coitado, lá se foi para a terra onde não há Natal. Viajava. Apaixonado. O coração traíu-o, esgotado de tanto. Dono de si mesmo hoje está quase esquecido. Tem viúva e essa coisas todas. E A Asírio que lhe editou os livros. E esta foto, de chapéu na cabeça, o cabelo a faltar-lhe.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Kaos
O livro saíu postumamente. Não foi revisto pelo autor. Talvez por isso a edição esteja cheia de gralhas e de erros e mesmo de palavras incompreensíveis. Se a ideia foi publicá-lo tal qual o manuscrito, isso merecia aviso. Mas aviso não há. Nem no-lo diz o prefácio de José Palla e Carmo, prefácio que por sinal vem no fim, onde se alerta para o facto de o autor considerar que esta é a sua melhor obra, mesmo depois de ter escrito a Torre de Barbela.
O livro é soberbo, pela ironia, pelo paradoxo, pelo magistral modo de dizer: «o cheiro bafiava, a respiração ofegava, o suor pivetava».
Ruben A.inventava palavras, mas não inventava realidades. Com ele a realidade é a Literatura. O Kaos é «uma procura no dentro de um de nós que é eu».
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Nome de rua
Há o hábito de dizer contemporâneo quando se quer dizer mais do que moderno. O vício vem da História que no meu tempo de liceu se classificava em Antiga, Moderna e Contemporânea e ainda havia a Pré-História, como se fosse uma espécie de pré-vida.
Vem isto a propósito do Ruben A. Gostaria de ser capaz de ler os volumes todos das Páginas, mas estou devorado pelas obrigações e diminuído pelas desilusões e é um livro que exige que se esteja livre e se possa ficar contente.
E vem a propósito porque o Ruben A. trouxe-nos uma modernidade na forma de escrever que os seus contemporâneos desconsideraram, recusando a mudança. Com ele a contemporaneidade foi antes da modernidade. Impossibilitado de escrever em progressão paralelizou com o romance Caranguejo. E disse: «tudo que é novo em Portugal precisa de ser arranjado, então as canalizações já são construídas entupidas de nascença».
Detestaram o modo de escrever e a tal ponto do desdém que a coisa meteu autoridades públicas, entidades oficiais e o próprio Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar.
«Eu sou sempre mais moderno do que eu. Sinto-me aos saltos espirituais num rebolar peripatético. Quero escrever as aventuras do Cavaleiro de Barbela». E escreveu mesmo, em 1964 barrocamente desconcertante.
Correram-no então de lugares oficiais. Com o 25 de Abril fizeram-no Director-Geral e outras coisas públicas, com pouca convicção de ambos. Mas ele tinha escrito: «a vida pública ou semipública cria-me caspa. Para se realizar é preciso não participar dos serviços públicos ou municipalizados». Abriu excepção para si próprio, o que é uma forma triste de uma regra ser quebrada.
Ficou um extraordinário escritor, capaz de escrever às cores.
domingo, 24 de janeiro de 2010
O diabo à solta...
Em 1965 perguntaram-lhe «quanto ganhou com o seu primeiro livro?» e ele respondeu: «o primeiro livro que eu publiquei foi Páginas I, na Coimbra Editora, em 1949. Como aconteceu com os livros que publiquei a seguir, perdi sempre dinheiro. A minha obra literária não vive da pena, vive apenas. Dos volumes de Páginas I venderam-se uns trinta e poucos exemplares nos primeiros anos. O meu estilo, a maneira de contar, a expressão directa, um mundo novo que não se comprazia com as amenidades do clima, dificultaram sempre a procura das minhas obras. Tenho investido dinheiro em mim próprio numa obra de fomento».
Quatro anos depois perguntaram, agora com mais redondo no modo de perguntar «com base na sua experiência pessoal, qual a principal dificuldade que um escritor encontra na edição da sua obra?» e ele respondeu, mais anguloso ainda: «papel, tinta, tipos de composição, máquina de imprimir. Editar uma obra à própria custa é o diabo à solta em Moscavide»
domingo, 19 de abril de 2009
The Cocktail Party
De novo o Ruben A., agora a peça de teatro Júlia que publicou em 1960. Inspira-se no The Cocktail Party de T. S. Eliot, que traduziria. Não é um extraordinário texto, mas tem ironia suficiente para ser inteligente. Há crítica nos diálogos, alguma por pura descrição desse «mundo dissonante», como neste trecho exemplar, de conversa banal enquanto se joga canasta numa tarde de domingo, sem convicção: «Esta semana não queremos deixar de ir ver a fita que vai no Tivoli. Toda a gente fala. É uma fita que vale a pena ver. Estamos atrasados. Se nos apanham, sem termos visto essa fita, julgam que não fazemos nada».
domingo, 12 de abril de 2009
O eclipse
«Isto já não vai com Deus!» diz Loukas Notaras, o ortodoxo, com os turcos já às portas de Constantinopla e Constantino a saber que «a justiça é a comida da ilusão». A cidade cairia às mãos do Otomano no dia 29 de Maio de 1453 e com ela o Império Romano do Oriente. Era uma terça-feira. Constantino XI expiará o seu maior pecado, «a ambição de não ter ambição».
Li tudo isto ao ler Relato 1453 a peça de teatro que Ruben A. escreveu sobre um tema a que Jorge de Sena se dedicara dois anos antes, escrevendo em Araraquara O Império do Oriente.
«Estão nuvens sobre o céu de Constantinopla...É Deus que se esconde...para as despedidas não quer estar presente. Ah!...Deus está com medo dos turcos, os tempos estão diferentes. Vamos morrer...vamos morrer», revolta-se o Imperador.
A ideia ficou. Desde então resta o presságio de que Deus pode ter medo do infiel. A cidade resistiria, segundo a profecia, enquanto a lua brilhasse no céu. Cinco dias antes ocorreu um eclipse lunar total: o sol envergonhava-se.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
O triálogo
Em 1951, quase a deixar o seu lugar de leitor do King's College, Ruben A. escreveu uma peça de teatro chamada Triálogo. Lia-a agora, enquanto esperava por uma boleia que ainda não chegou. A narrativa é surreal, «absurdismo surreal em sátira culta» lhe chamou o prefaciador da edição da Assírio & Alvim, onde vem publicada, burlesca diria, com Camões, sim o Luiz Vaz, agora feito burocrata e apoquentado com os despachos, «coisas sem interesse, quadras populares, jogos florais, admissões de serventes e contínuos», mais Uma Velha Lady Inglesa que faz de si marido, julgando-se viúva quando, di-lo ele, «juridicamente» - ah! risos - está apenas «hipotecada» e, Pirandello puro, o próprio autor «convertido em personagem».
Ri-me, sim, com gosto e vontade de rir. E a minha boleia sem vir.
É que há, entre tanto riso, aquele momento em que está lá fora a personagem que quer entrar em cena, o inesperado, o director da agência Nini, sequioso por conhecer o Épico e dele obter uma fala, uma conversa, uma entrevista; mas não, não entrará, porque, remata o Ruben A., actor em cena, «o tipo não pode aparecer porque nesta peça só há três personagens falantes e além disso eu não quero que ele apareça. Tira todo o interesse ao nosso triálogo».
E pronto, eis assim, talqualmente, a paródia, mas não só, pois há mais! Há uma possibilidade, lógica, abstracta, mas cenicamente possível, que o teatro é o domínio da liberdade à solta: ele poderia ser o outro, um qualquer, por exemplo o marido de Madame. Porquoi pas?
Mas oh! Uma Lady Inglesa só poderia, caprichosa, dizer com esta diz: «Não quero que seja meu marido. Era desagradável para ele saber que o tinha esquecido. Não convém que seja o meu marido. Proponho que não seja o meu marido».
Ora! E assim ficou: «Então está bem, estamos todos de acordo que o homem que está lá fora não é o seu marido nem mesmo que ele queira», diz Ruben A., magnífico!
É a risota geral, em todo o teatro até na geral, o curral dos que seguem de pé, aninhados pela arte e pelo bilhete baratucho. Aplaudo em pé! A minha boleia chegou.
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