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sábado, 11 de março de 2023

Alma clarividente

Sábado sem chuva. Deveres da profissão que podem esperar. Manhã de veraneio. Na Rua de Anchieta, livros! Entre eles este Gionanni Papini. Obra de desespero e clamor, cartas ficcionadas, apelo à Fé como Graça quando a razão a negue.
Escreveu-o em 1946. Editou-o a já ida Quadrante, que tinha sede na Rua do Passadiço, em Lisboa. Publicação sem data. Nem no portal da Biblioteca Nacional consta. A capa é gravura de António-Lino.
Irá juntar-se a tantos de sua autoria que tenho pacientemente comprado e lido, fruto do génio de quem escreveu o "L'Uomo Finito", depois do qual, mesmo cegos os olhos do corpo, a alma ganha, na escuridão, clarividência.

sábado, 12 de junho de 2021

Palavras e Sangue

 


O privilégio de ter um livro, ainda que amarelecido, encarquilhadas as folhas, desbotadas quando não manchadas, a capa, porém, ainda a resistir. Um daqueles livros em que os cadernos iam cosidos antes de a capa ser colada aos folios já batidos, mas em que a guilhotina se ausentava, deixando o corte dianteiro rugoso e imperfeito. 

Livro destinado a ter de se abrir com uma faca e ter uma faca adestrada a cortar papel, tudo relíquias de um tempo que parece já tão sumido no tempo, livro indiscreto, a denunciar não ter sido folheado sequer ante os maços por abrir.

Livro assinado pelo que antes o teve como seu, no caso em 1957, ano desta edição, identificado com um ex-libris e que na biblioteca pessoal teve número de ordem manuscrito na folha de guarda.

Livro com orelhas, a esquerda de resumo da própria obra, a direita a anunciar a próxima da colecção, assim fidelizando o leitor.

Livro com capa do pintor Bernardo Marques, que tanto trouxe à ilustração editorial com o seu traço em que pressentimos um Almada Negreiros ou um Mário Eloy.

Ter um livro cuja tradução se prenunciaria fraca, por ter sido isso infelizmente o que sucedeu na editora, mas que é notável porque afinal do poeta brasileiro Mário Quintana, sendo este o seu primeiro trabalho de tradução para a "Editora Globo", versão revista para português de Portugal pelo açoriano Agostinho Vieira d'Areia.

Ter a oportunidade de o livro, buscado à estante, ser de Giovanni Papini, essa portentosa figura do panorama literário italiano, de quem tento juntar quanto posso e ler tudo o que escreveu.

Livro de breves contos, publicado no original em 1912, precisamente no ano em que o autor parecia esgotado com o seu "Un Uomo Finito", ano prolífico em que traria a lume mais três obras, este, "Palavras e Sangue", traz-nos a escrita paradoxal, a equação do tempo com o seu espaço e todo um referencial onírico de desdobramento do eu em um mundo que é o seu próprio espelho.

Difícil escolher em tantas da narrativas qual a que melhor figuraria neste apontamento. Logo o primeiro em que «um pescador estendeu as suas redes e de dispôs a enganar também naquele dia os ridículos peixes», em que «o vento soprava ainda mais forte, encolerizado com a preguiça das nuvens»; ou aquele a que chamou "Sem Razão Alguma", para cujo personagem, «a insónia era o seu excitante e as obras por escrever alinhavam-se, noite a noite, na sua memória, como sonhos artificialmente conservados».

Pena faz que talvez já não haja leitores para quem «todo este presente não é mais do que um prefácio», sensibilidades comuns de alguém «encerrado como uma mónada, secreto como uma célula, mudo com um nocturno felino», seres para os quais «a quinta essência da subtileza filosófica consiste em descobrir a diferença entre iguais».

Fico por aqui. Mundos pequenos: um dos pseudónimos de Giovanni Papini foi "Gian Falco", o mesmo como se iniciou na escrita a nossa Irene Lisboa, a quem dediquei um blog, há tanto tempo por visitar.

domingo, 12 de abril de 2020

Un Uomo Finito

Terminei-o, fim em dia de Páscoa, e que sentido faz esta coincidência, tudo visto, ante o epílogo desta escrita torrencial, o que dá título ao livro, o clímax de uma epopeia em busca do Absoluto, viagem e salto, afogamento e salvação, a história de um Homem que, anunciando-se morto, nega a possibilidade e proclama ao Destino e a todos os outros que não está acabado, agora que começa.
Livro magnífico, livro que tomaria comigo se tivesse de escolher muito poucos para levar e não mais, livro que me recorda tanto de Friedrich Nietzsche, outro desgraçado, o do super-Homem e do Humano demasiado Humano, mais o da Gaia Ciência, mas tudo num livro só, cozinhado em sofrimento, escrito sem perder nunca o fôlego, confissão de revolta e de amor, desprezo e despojamento, sobretudo, obra de intrínseca e humilde verdade, jogando-se nu até nos seus defeitos rascas e na vanglória do seu excesso de virtudes.
Li-o todo, linha a linha, depois de o ter lido, sem ter lido, em tempos. 
Quanto nos irmanamos nele, em quanto vemos quão reles e liliputiana é a vidinha de que curamos e à qual hipotecamos o mais precioso de todos os bens, o inegociável Tempo, o pouquíssimo tempo que nos é dado. 
Quanto nos torna diminutos ante aquele combate demoníaco e salvífico com todos os deuses, pela Razão e pela irracionalidade que a nega, com a Humanidade e ao arrepio dela.
É de norma que se escreva e cite do que se escreveu para provar o que se afirma ou se mobilize o leitor. Impossível é fazê-lo aqui: uma só palavra citada, destruiria a magia de todo o conjunto, reduziria a grandeza do escrito, anularia o sentimento do lido.
Dir-se que neste período de clausura se devem ler superficialidades reconfortantes. Nego, repudio, combato! Siga-se o exemplo dos grandes solitários, as almas que no deserto do confinamento buscaram as suas entranhas e escrutinaram os círculos do Céu: há que procurar mais alto, escavar mais fundo.
No mundo das coisas práticas em que nos tornámos pelas circunstâncias actuais, parece que tudo afinal encontrou o caminho do trivial para enfrentar a seriedade. Enquanto isso suceder o Homem prossegue o Reino da Quantidade, tendo passado, pelas dificuldades, apenas do muito ao muito pouco. 
Talvez não exista a alma, há, porém, o espírito, o de cada pessoa e o Espírito Cósmico, do qual somos centelha provisória jogados no infinito ao sabor da lei da gravitação universal. Ao ler Giovanni Papini senti a esperança depois de ter chegado à agonia do desespero, o sentido pascal, afinal, do renascer.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

José da Cruz Santos, de facto "um inventor de livros"


Visitei-o ontem, agora que está no Porto, no seu pequeno espaço na Praça Guilherme Gomes Fernandes, ali junto ao meu sucinto recolhimento, a livraria onde acumula preciosidades.
Lembrámos, após os segundos de hesitação quanto a sermos afinal nós, o nosso encontro em 1999 em torno de uma aventura que daria uma narrativa fantástica de ousadia burlesca de que fomos vítimas. Agora com riso porque o tempo apaga as dores da alma.
Perguntei-lhe por um livro do Giovanni Papini, "Un Uomo Finito", pelo qual ando obcecado. Sabia, como amante de livros que é e seu leitor, que havia tradução portuguesa e qual o título. E ficou de mo encontrar, depois de empoleirado num curto escadote, baixar do alto, todos os Papini's imagináveis. Não lhe disse que vou tentar lê-lo em italiano, porque quero os dois, insaciável nas paixões.
De súbito dei comigo naquele oásis da vida que é conversar. Sem tempo. No espaço da intimidade.
Trouxe comigo em livro um feroz diatribe do Professor Ricardo Jorge contra Teófilo Braga, aqueles rancores que nem a filosofia aplaca e um outro Papini, o do "Juízo Universal"; e, enfim, um onírico Fidelino Figueiredo, de quem estou a reunir, eu tal como ele, um coleccionador de angústias, a obra integral.
Caramba e senti que a vida tinha tido um momento de respiração no sufoco dos deveres.
Bem haja o que me permitiu ir ao seu encontro, António Cruz Santos, de facto um inventor de livros, como se lê aqui.
Com ele volto a esta página que andava ao abandono.

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Fonte da imagem: aqui