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sábado, 22 de junho de 2013

Froilano de Melo sobre Tagore



A vida é feita de acasos significativos a que chamamos coincidências. Visitava-se o Chaminé da Mota. Surge-me a Maria José com um ensaio sobre a poesia de Rabindranath Tagore. Nem queria acreditar ao ver o nome do autor: Froilano de Melo. Abrevia o primeiro nome com um I. Talvez por se chamar Indalécio, nome invulgar. Sucede que ao ter escrito em 2001 o meu livro O Espião Alemão em Goa, reeditado em 2011, e ao nele descrever o incidente trágico que levou em 1943 ao incêndio e afundamento de quatro  navios estacionados no porto de Momugão escrevera:

«Os seis feridos são, entretanto, transportados para o Hospital Central no bairro de Campal, em Panjim.
Numa das lanchas dos serviços de saúde, Alfredo de Mello, então um jovem estudante de medicina, com quem me correspondi durante a feitura da primeira edição deste livro, acompanhando seu pai, o médico local Dr. Froilano de Mello [i] , tentaria estancar o sangue a um dos marinheiros do Ehrenfels, mas este esvair-se-ia por uma hemorragia da artéria femoral e morre à vista da Fortaleza dos Reis Magos. Era o marinheiro Paskarbeit.». 

E na nota de rodapé acrescentara: «[i] O Dr. Froilano de Mello, era à data, o chefe dos serviços de saúde. Nascido em 1877, faleceria em 1955. Cientista de elevada reputação e homem de letras, deve-se ao seu esforço o levantamento das causas de malária em Goa. Especializado no combate à tuberculose e à lepra, os seus trabalhos práticos no sector granjearam-lhe justa auréola doutoral.»


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Eis, agora, ali, diante de mim, o livro. Froilano de Melo escrevera-o na Páscoa em 1944. Dedicara-o aos filho. Um deles, Alfredo de Melo, encontrei-o, como disse, no Urugai quando investigava a história que daria azo àquele meu livro. Hoje, sábado, 22 de Junho de 2013, o círculo fechava-se, sob o signo da Poesia.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A Revolta das Palavras

 
Um país governado por um homem de quem se pode dizer que é um mentiroso é um país ignominioso, tanto por ser dirigido pelo que mente, como por aqueles que o deixam continuar a mentir. Ressuscitei o blog A Revolta das Palavras. Não era possível continuar calado.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O autor e a sua cria

É seguramente um labirinto de sentimentos e de vivências; é essa complexidade que talvez permita chamar-lhe um romance. Mereceu ontem uma menção crítica no jornal Expresso. Citei-a, aqui. A autora da recensão é a Professora Helena Barbas. No mesmo dia o poeta Nuno Júdice apresentou-o livro em Faro.
Mentia se não dissesse que isso traz alegria. Um autor gosta da sua obra e por isso consente na sua edição.
Eu sei que no mundo dos escritores ninguém pensa assim. Deveria fazer de conta que não li a crítica e que não fiquei feliz por ser muito amável, para poder fingir ignorar quando vier bordoada de meia-noite ou aqueles silêncios que desanimam. Mas sou este e não aquilo.
Ontem descobri-lhe uma gralha, ao livro tantas vezes revisto: um «fui» em vez de foi. Um pequeno sinal de imperfeição mostra a fragilidade no escrito. Oxalá ninguém dê conta.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A excepção e a regra

Hesito sempre em usar os meus espaços para falar das minhas coisas. E haja quem explique este atavismo. Talvez não pareça que isso é assim, porque escrevi um romance e dei aqui notícia dele; apresentei-o ao público e ficou aqui notícia do facto. Além disso na lateral deste blog está menção aos livros que escrevi e a uma editora que decidi criar.
Há, porém, algo que estas referências omitem: a dúvida com que tudo isso acontece, talvez um pouco menos do que um sentimento de pudor.
Desta vez a mesma sensação ao anunciar que vou a Faro porque o Nuno Júdice apresenta aquele romance que é a minha estreia no género.
Haveria razão para que eu não o dissesse? Talvez não haja. Tenho vergonha? Não, tenho orgulho. Devo alguma coisa a alguém? Só aos meus credores. Porque vim aqui escrever isto? Porque cada vez que falo de mim penso sempre que há o risco de quem lê pensar em outra coisa.
Blog de leitores, este, acho, enfim, que ele pode ser também das coisas que leio por tê-las escrito. Não como excepção, mas por haver uma regra geral.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O regresso da existência



Comecei um novo livro. É uma narrativa ficcionada. Hesito em chamar-lhe novela, talvez me digam que não é um romance. Começa assim:

«Escrevera um livro sobre sentimentos com uma história ficcionada. Quando o leu, temendo-o autobiográfico, viu que era sobre a vida que poderia ter tido. Agora, sentado num cubículo da existência, imaginava um livro sobre ideias. O medo da ficção levava-o para a tentação da realidade. Havia nele algo de essencial que tinha, porém, deixado de existir.
Todos os dias, pelas quatro da tarde, era a hora de visita. Esperou a sua vez meses a fio, certo que a existência o descobriria. Até ao momento derradeiro em que todos os outros regressavam taciturnos, ainda que consolados, do acto triste que é ser-se visitado, nunca desistiu de pensar que um dia isso também lhe sucederia, tornando-se possível. Foi então que Deus teve piedade. Transformou-lhe o mundo existente no mundo dos conceitos. A vida tornou-se uma ideia.
Naquele local, diga-se, Deus não era uma questão de crença, uma eventualidade da fé, sim um produto da gestação humana. Nascera prematuro e devia a vida à pouca medicina de um enfermeiro, que acorreu quando a mãe, a esvair-se, pedia que se trocasse a sua vida por aquela vida. Foi assim que ocorreu o facto de ter sobrevivido, ainda que sem saber hoje para quê.
Tinha cinquenta e oito anos, um rosto escalavrado os olhos recolhidos a esconderem o interior de uma vida incógnita. Nunca se lhe ouvira uma história sobre a família que era justo que tivesse tido, nem o relato daquela outra gente que afinal tivera, querendo-os até que o não quiseram.
Dizia que se chamava João de Deus. Quando ali dera entrada, vindo de uma esquina que ajudara a conspurcar com a sua miséria, tornando-a tão repelente como o desinteresse dos que se agoniavam consigo, não trazia documentos nem queria dizer onde se poderiam encontrar. Iniciara-se aí o vazio que faz agora todos os outros sentirem-se uma excrescência na sua vida em nome do qual dizem nada terem a ver consigo.
Em vez de ter inventado uma biografia, fantasiou um corpo. Fez-se homem para poder ser Deus.
Como todos os deuses também ele tinha um Céu. A diferença é que dizia que o tinha perdido. Passava noites olhando, absorto, o firmamento, mesmo quando as nuvens lhe roubavam as estrelas.
Uma vez alguém divertido com humilhá-lo perguntou-lhe se no seu Céu havia anjos. Foi a primeira vez que, ao olhá-lo, a Humanidade de todos os demais se perguntou se não seria cego, a expressão imóvel, os olhos indiferentes. Era, porém, uma Humanidade pequena em número e escassa de subtilezas.
Naquele lugar, a Humanidade era o nome de uma ala das enfermarias onde se arrecadavam os mais mansos, que podiam passear a sua indiferença pelos corredores desertos do antigo convento, à espera de alguma coisa que tivessem oportunidade de evitar.
Era um local de indivíduos que tinham deixado de ser pessoas. Conheciam-se pelo número da cama, antecedido pela letra da camarata. Os números mais altos eram os dos mais velhos, porque ali a lotação era contada e quando se chegava a um percebia-se que não podia haver zero.
Havia noites em que o silêncio fazia medo, dias em que a algazarra dava vontade de gritar. Uma dia um deles suicidou-se e por umas semanas a Humanidade ficou triste só porque faltava um número e ninguém sabia quem o substituiria para que o zero não surgisse e assim o horror do vazio.
Talvez tivesse sido o oblíquo do sol e o reflexo da sua luz num instante do imenso vitral. O arco-íris, soma refractada de uma luz branca que é calor, projectava-se, inevitável, na parede em frente do refeitório, onde as bocas ruminantes mesmo até as desdentadas almoçavam sopa de couves tristes e uns peixes em escabeche que só um mar ignoto e ressequido de salinidade poderia ter albergado, mumificando-os para os tornar de vida em alimento rude. E Deus sorriu, uivando como um cão.
Naquele dia começou esta história. Aquele sorriso feito de animalidade e assim uma ternura feita só de carinho sem mais razão, momento inaugural da felicidade entre os homens, era a devolução da paz que, como um fogo primitivo, aos homens tivesse sido roubado.
Alumiando-se pelas noites de eucaristia pagã, palmilhando os corredores e seu labirinto, enclavinhando nas mãos tochas fumegantes, velas cuja luminosidade bruxuleava mesmo no segundo em que, incertas, quase se lhes fenecia o sopro de luz, indecisas acendalhas, havia homens que saíam de lugares desconhecidos caminhando errantes para parte nenhuma, celebrando a comunhão da substância num corpo sacrificado. Um pacto de silêncio, as bocas contidas, um crime feito expiação de todos os outros crimes por expiar.
Agora, porém, contagiados pelo riso, como crianças para quem a irrequietude é contentamento, agitando no interior dos seus corpos incumpridos o rugir da existência, vogavam pela terra da ilusão, mãe da arte de marear.
João de Deus contou-lhes então uma história de um homem que era marinheiro e encontrou Cristo, filho de pescador.
Tinha sido tudo numa praia, praia como todas as praias arenosas, ainda que sem banhistas, praia de gaivotas sonolentas e um mar feito só rebentação e rochas descarnadas, em que tudo acontece. Naquele dia era Inverno. A Natureza proporcionava-se, fêmea.
Penso que o Cristo já não existe e a praia talvez já nem esteja assim. Ficou, porém uma ideia, precisamente a génese deste livro de ideias de quem receou um livro sobre sentimentos. Mesmo uma história fictícia de sentimentos reais».

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Abertos à leitura


Para além deste, escrevo em outros blogs: um dedicado à Clarice Lispector, outro à Irene Lisboa, enfim um terceiro sobre a Maria Ondina Braga. Ah! E um outro com o meu nome que durante uns anos foi alimentado com «leads» do que eu escrevia numa pequena plantação de outros blogs que, como cogumelos, foram nascendo, alguns a esmo, uns quantos de curta duração, todos parasitas dessa ânsia de dizer. Esses estão suspensos, à espera de melhor ver.
Essa proliferação de escrita levou a que surgisse uma exposição intimista nem sempre desejável e que se prestou não sei quantas vezes a vários equívocos. Acontece o mesmo quando se escrevem livros de ficção: o leitor toma-os frequentemente como se fossem auto-biografias disfarçadas. Na blogoesfera o efeito é, porém, mais potente.
Quando não eram escritos de intimidade devassável e adulterável, alguns desses blogs tinham ingénuos e pouco conseguidos objectivos de intervenção cívica, ou na área social e política ou na área jurídica, por causa da minha profissão. Sucede o mesmo a tantos que julgam que transformam o mundo a partir da blogoesfera quando por vezes alcançam apenas um aceno de concordância dos já convencidos. A blogoesfera amplifica essa vaidade de opinar, permitindo a cada um a vaidade de ser o director e o jornalista - e quantas vezes o solitário leitor - do seu próprio jornal.
Tudo visto achei num certo momento que era bom parar. A verdade é que o meu mundo mudara e eu mudara-me por causa disso para a casa das letras, com um blog que é este onde se fala de livros e de ofícios correlativos à escrita. Dei-lhe o nome que é parte do meu nome e que já usei como pseudónimo literário. Para além de espaço de leitor, o blog trata do que a cultura assume como fazendo parte da família.
Viciado em ler e iniciado na arte de escrever, dei comigo agora a ser editor, que é uma forma de se conseguir que surjam os livros de que se gosta. Tudo isso, que é o meu presente e será talvez o meu futuro anda à solta por aqui.
Uma só coisa mudei e vim aqui dizê-lo: reabri ontem à leitura os blogs que antes existiam.
A minha ideia ao tê-los encerrado foi virar a página desse tempo e recolhê-los para o interior ignoto como quem corre gelosias. Só que a menção que aparecia a quem tentava aceder-lhes era que doravante cada um daqueles blogs só podia ser consultado por leitores convidados. Ora essa ideia elitista e por isso selectiva não correspondia ao meu pensamento nem ao meu sentimento. Mas era o que as pessoas retinham com toda a sorte de confusões. Como diria o o outro «um certo mau aspecto».
Pronto aí está tudo de volta, taipais soerguidos.
Mau grado algumas cartas que recebi, continuo a pensar que a minha intervenção cívica não justifica em resultados que possa ter a pretensão vaidosa de imaginá-la útil. Quanto às crónicas do quotidiano prefiro abster-me. Não tenho segredos, quero ter é sossego. O que for ficção, ficcionar-se-á. Fiz publicar um romance estou a escrever outro.
Em suma os blogs agora legíveis ficam no estado em que estavam, cometas imóveis num espaço em que o tempo parou.
P. S. Para mostrar que tudo na vida tem um tempo, ilustro este post com uma fotografia. É a Avenida 5 de Outubro aqui há uns tempos atrás. Imagine-se que o cavalo pensava que a carroça, que era inevitável para ele mais aos que nela se alapavam, era uma exigência do futuro!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Tombo



Envolto no labirinto da Torre do Tombo a trabalhar num outro livro, desta vez com o aguilhão do prazo já prorrogado. Muitos dos blogs dedicados a livros estão a dormitar. Muita gente aproveitou para tirar férias. Férias da blogoesfera, imagina-se. Pois faço o mesmo. Já ontem não escrevi. Volto amanhã com o livro mais adiantado. Arrancado aos arquivos, é uma história de uma memória ambígua. Presos e mais presos, os prevenidos e os ingénuos úteis. Gente que acreditava e gente inacreditável. Depois digo o que é. Para já estou na fase ainda que nem eu sei.
O dia foi duro, a roer papel. Como um rato. No labirinto.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O preço do incomum


Foi assim. Eu precisava de comprar um carro. E achava que precisava de um automóvel confortável porque viajava muito e de uma viatura segura porque viajava para longe.
Mas não queria nenhuma das marcas convencionais que certas pessoas compram, nem os modelos que determinadas pessoas têm, porque não queria uma coisa que fosse parecida com o que certas e determinadas pessoas se parecem.
Foi aí que o vendedor me disse «um carro destes é daqueles que ninguém compra!».
Rendi-me ao argumento. Se me guiasse pelo senso comum perguntaria aos meus tostões: «mas se ninguém compra, porque é que hei-de ser eu a comprar?». Mas foi ao contrário em murmúrio com os meus botões: «ora se ninguém compra, cá está o carro que me apetece ter».
Feliz pela individualidade, contente pela diferença, alegre pela ousadia paguei ontem a factura da não normalidade, de não trivialidade, o preço do incomum. A Saab fechou, lia-se aqui. Goraram-se as negociações que lhe permitiram a sobrevivência.
Um destes dias tenho um problema para resolver. Não o de tentar ver-me livre do meu sonho, como os que atiram gatinhos a afogar para se desembaraçar da incómoda ninhada. Sim de me convencer que aos sessenta anos há coisas que acabam. De vez. Como a Saab.
«Você está a guiar um carro feito por uma empresa que fabrica aviões». Era o lema. Ontem entrei em perda, o altímetro silvando em descida furibunda, o hélice rosnando em bandeira, já sem airelons que me valessem. Em frente, a rude montanha do destino a esperar-me, tremenda, eu agachado no cockpit da minha carcaça humana, a manche da vida enclavinhada na mão, incapaz de voltarmos a ter o nariz virado para o céu. Mayday, mayday. Que Deus nos ajude.
Desculpem, eu sei que este blog é dedicado a livros. Este post também. No espaçoso porta-bagagens do meu Saab ainda estão caixotes com livros, as minhas maletas para a travessia, como aquele vagabundo que numa sacola transportava, imprevisível mercadoria, uma pesada tartaruga. Vem num livro do Miguel Rojas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Não se brinca com facas


A capa vai ser construída a partir deste quadro, do meu Hugo Bernardo. É estudante de Arte. Vinte anos de esperanças. Mora aqui. O texto é uma narrativa sentimental. Chama-se Não se Brinca com Facas. Abre assim: «Explodira-lhe o sol na cabeça e pela noite choveram estrelas na alma, escorrendo alegria. Acordara nua, o corpo em riso. Nesse dia já não poderia enganar-se. Era amor, por uma forma irrecusável, nunca antes sentida. Se morresse agora, ia-se no acto de nascer, esvaída».
Oxalá o livro tenha sorte. Não gostava que o confundissem comigo. Vai para a gráfica dentro de dias. Começo a organizar-me para o dia do lançamento. Nesse dia lá estarei. Faz parte das normas que o autor apareça, mesmo que encabulado.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Tu não és o que tens



Este espaço está destinado ao reflexo das coisas que leio. A verdade, porém, é que também leio as coisas que escrevo. O jornal Correio da Manhã pediu-me uma história para crianças, que editaria na revista de domingo. A história saiu numa página pensada para mulheres. Talvez porque numa vergonhosa medida ainda são as mulheres quem se ocupa das crianças. A jornalista que me recebeu a prosa disse que era uma história para crianças que os pais deviam ler. Escrevi-a a pensar nisso. Arquivo-a aqui com a ilustração que para ela fez Ricardo Cabral.

«Era uma vez um menino que tinha um pai e uma mãe, um menino que estava na escola. E o menino estava na escola e aprendia verbos, porque quando se está na escola tem de se aprender os verbos e os verbos têm de ser aprendidos. Porque os verbos são o que faz com que as coisas andem, são as pernas das palavras. E se não se aprendem as palavras não andam.
E naquele dia era o verbo ter. Começava assim “eu tenho” e depois “eu tinha” e no fim “eu tive”. E o menino ficou a saber o que eram as coisas que estão e as coisas que já se foram embora. E era uma lição muito fácil e o menino lembrava-se que os avós já cá não estavam, e por isso já não tinha avós e só tinha meio pai porque o pai vivia com outra meia mãe.
E o menino aprendia, aprendia muito e aprendia sempre, mais verbos, mais maneiras de ser do mesmo verbo, porque os verbos têm muitas maneiras de ser, como as pessoas, algumas maneiras tristes como “eu teria” e maneiras de muita alegria como “eu terei”. E o menino lembrava-se do Natal, que cada ano havia, e de todas aquelas coisas que não tivera por ter ficado de castigo.
Um dia o menino tinha de aprender eu “tinha tido”. Foi um dia muito triste. Nesse dia chovia muito e ele sentiu que um dia seria homem. Começou tudo nesse dia. Com muita pena».

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Mulheres escritoras



Já se foi o tempo em que os blogs floresciam como cogumelos e eu me relacionava com eles como com gavetas, em cada um arrumando partes diferenciadas da minha vida. Depois ficou a jura de que não mais haveria escrita intimista na blogoesfera. Nasceu o blog que tomou como título parte do meu nome, António Rebelo da Silva. Dedicado a livros e a leituras não tendo pretensões, que seriam estultas, a blog de crítica literária nem de tesoura e cola de escritos alheios.
Recuperei hoje três outros blogs que são dedicados e cujas vidas não me pertenciam. Cada um deles é dedicado a uma mulher escritora, cuja escrita me marcou profundamente a sensibilidade: Clarice Lispector, Maria Ondina Braga, Irene Lisboa. Todas morreram já o que não morreu foi o sentimento que me une ao seu modo de ser.

sábado, 29 de agosto de 2009

O criador e a criatura

Durante uns anos escrevi assinando com o meu próprio nome. Vários blogs. Chegou a ser facto notado o serem muitos. Respondi várias vezes quanto a saber como tinha tempo para tantos, pergunta feita por quem não notava que havia dias em que não escrevia nalgum deles. Arrumei esses blogs, recortando o que em jornalismo seria o lead de cada post.
Um dia decidi parar. Fiz disso uma questão de honra, para não me deixar tentar pelo desejo de regresso: não mais haveria exposição pública sob o meu próprio nome.
Criei entretanto um blog que corre sob um nome literário: este. O seu título junta um dos meus nomes próprios ao meu apelido materno. É apenas um aparente pseudónimo.
Qual a diferença, perguntei-me já? Significativa. Até aqui, assinando com o meu nome, era possível dizer-se: ele é aquilo que escreve. Sendo outro o nome do autor, vale a escrita pelo que significa em si. Foi-se a pessoalização. Não mais será legítimo dizer-se que está triste quem escreve sobre tristeza, contente o que escreve alegremente.
Os voyeurs, os que fazem da fulanização método, desapontados, dirão que isto é um artifício. Talvez seja. Mas não é uma manobra artificiosa. Quando assinava com o meu próprio nome cada blog era também uma pessoa diferente a escrever. Chegámos a ser muitos. Cansei-me deles.
Hoje o Eduardo Pitta teve a gentileza de uma referência, aqui, mostrando quem é o criador do António Rebelo da Silva. Digo bem, o criador não a criatura. Obrigado pela amablidade.

sábado, 8 de agosto de 2009

O início de uma vida

Quando cheguei a Lisboa estava a chover, na rua e na minha alma. Para trás ficara muito de uma vida, das várias que seria possível ter vivido. Inicio agora. Aquartelei-me nesta casa. O propósito ser editor. Aqui perto morou o Mircea Eliade. Este blog guarda reflexões pessoais, enquanto leitor.