Mostrar mensagens com a etiqueta Dulce Maria Cardoso. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dulce Maria Cardoso. Mostrar todas as mensagens

domingo, 30 de março de 2014

Dulce Maria Cardoso: o reencontro

Tive-o nas mãos na livraria e julguei que eu já teria todos os contos que compendiava. Afinal não,  soube ao ler, atrasado, esta tarde de preguiça, a entrevista que o JL publica.
Pela fotografia, que o jornal levava a capa, surgiu-me outra que não o rosto que conhecia de 'Os Meus Sentimentos'.  E de a ter procurado.
Terei, afinal, de tentar encontrá-la, primeiro através do livro. Soube agora que tinha sido Advogada.
Porque nada se sabe.

domingo, 9 de outubro de 2011

O eterno retorno

De repente salta-nos como familiar o mundo que não vivemos mas sabemos ter sido vivido. E que tantos viveram nas suas peles, os últimos dias do "mundo branco" em Angola. E o mundo de antes disso. O último instante do último avião da ponte aérea. A devastação raivosa para que nada fique que eles aproveitem, seja os camiões, e que se incendeiem com gasolina, ou a cadela, que se matará a tiro. Eles «os pretos».
Um livro de onde, de repente, nos salta, ofensiva, a verdade inconveniente de um Exército que já não faz a guerra e já não consegue defender a paz porque serviu um regime e fez uma revolução, onde «era bom que os soldados portugueses fossem antiputas, anticerveja e antiliamba». 
E era tudo assim quando aquele dia deixou de ser aquele dia. O anseio de uma Metrópole que deveria ser seguramente um lugar pequeno e onde todos se encontrariam e encontraram.
Leio "O Retorno" de Dulce Maria Cardoso. 
Li-lhe todos os livros e falei deles quase todos aqui. Adivinha-se pelo título que este é sobre retornados, o seu fantasma pessoal, a sua mundividência, ela que escreve com uma sabedoria que impressiona como se tivesse tido, prévias, mil vidas, como o senti ante "Os Meus Sentimentos", uma estupenda obra. Ela que vive reclusa num mundo em azul, qual mulher em ilha de faroleiro, ela cuja escrita é um longo sangrar como um caco de vidro cravado num pé, e com a hemorragia a sujar-se o leitor com a longa memória das feridas da alma que não resolveu.
Passei pela cerimónia do lançamento do livro. Para um abraço e para me refugiar no livro. Um magnífico livro. Depois direi mais. Agora quero continuar a lê-lo. Nasci em Angola. Ela escreve: «A nossa Angola acabou». Eu leio «A minha Angola nunca existiu». Sou um apátrida. E continua: «insistimos em pormenores insignificantes porque já começámos a esquecer-nos». Ambos.

domingo, 15 de maio de 2011

Biblioteca

Sigo-a por todo o lado na forma de quanto escreve. E por isso só comprei hoje o livro quando descobri que tinha um conto seu, publicada a obra pela FNAC para comemorar o dia mundial do livro.
Ao tentar explicar-me dei conta de que a minha memória falhava pois já não lembrava todos os títulos a que dera vida e não foram muitos. Mas tinha fixado o essencial do enredo, e tinha sobretudo um vinco fundo na sensibilidade derivado de a ter lido. E o espanto do primeiro dia.
Tal como num conto policial, Dulce Maria Cardoso vai deixando, pegada sobre pegada, os sinais sobre o mote «os livros salvaram-me». Não se fala nisso porque há que salvar o prazer de quem ler e que siga o caminho assinalado que leva à descoberta. «Identificar os acasos que nos nos trouxeram ao que somos só nos torna mais frágeis. Fazemo-lo na esperança de percebermos como nos aconteceu tornarmo-nos o que somos», é uma das suas frases que dita a lógica da escrita, o retrato de um mundo inevitável mesmo mas acidental.
«O pensamento dos velhos é circular», diz a personagem quase depois do arranque da breve narrativa, ou di-lo ela por ele pois há um tempo em que tudo se confunde. Só que ao velho sucedeu o azar de uma fatalidade. Surgiu esta história «livremente inspirada em factos reais».

sábado, 17 de outubro de 2009

O Chão dos Pardais (ii), de Dulce Maria Cardoso



Acabei. Fantástico. Houve um momento a meio em que hesitei. Julguei-o pior do que os livros anteriores. Para uma escritora premiada seria penoso. Mas prossegui. Caminhei como Elizaveta, a mala na mão em busca do corpo de Clara,  porque «o amor faz bem a quem o sente. Aos amados nem por isso. Tolhe-os. Endivida-os» e eu desejava a familiaridade desta escrita.
Talvez eliminasse no livro os momentos que são o espaço virtual em conversação, esse quarto-escuro de alucinações, ainda por cima impressos a corpo menor, a dar um ar de improvisação tipográfica a uma obra que exigia ter sido impressa em oitavo, para um formato mais íntimo, um livro que se aconchegasse junto de quem o lê.
É uma escrita de risos também, mas sobretudo uma escrita dorida. Caminha «contra aquilo que o corpo quer», como os papagaios verdes que não pertencem àqueles céus. Uma escrita feita da desistência de matar, em que todos sobrevivem como personagens, mesmo os mortos como pessoas, porque ninguém rejeita o futuro, mesmo as irrealidades humanas feitas de cólera quase inhumana.
É um modo de escrever «com relâmpagos na cabeça» em que «o mal era capaz de sorrir de uma forma mais sedutora do que o bem». Uma bela escrita.
«A distância é uma morte temporária». Dulce Maria Cardoso ainda não pode parar de escrever.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O Chão dos Pardais, de Dulce Maria Cardoso



Há na escrita de Dulce Maria Cardoso uma toada, como se uma ladainha feita de murmúrios antigos, vindos de um tempo interior, intemporal. Feita de frases curtas, algumas com a inocência infantil de serem um modo de escrever tal qual se diz, é uma escrita única na sonoridade, assim a reconheceria quem a visse escrita numa pauta musical em clave de sol.
Reconheço-a, pois, neste seu último romance que me chegou hoje pela manhã e hoje mesmo pela noite comecei a ler.
É difícil ler-se um livro de quem se aprecia a escrita. Neste caso desmesuradamente difícil. «Como é que se pensa uma ideia» pensa Alice cuja ideia no momento em que abro o livro é apenas encontrar uma prenda inesquecível para um marido que há muito a havia esquecido.
Foi assim que, leitor fiel, parti para a leitura e estou na página 56, receoso de que um qualquer momento dessa narrativa a autora falhe, como um cristal que se estilhace porque «não há nada mais imperdoável do que os erros estéticos. Além de incuráveis são contagiosos» e ela não pode errar.
Sigo pelas páginas, como se pelas linhas fora. Passei já pela Clara, substancialmente verdadeira no desejo mesmo quando diferente no acto de desejar, pelo Mc9 tão virtual como possível e um dia deixar-se-á conhecer para além do seu remorso, pela nudez de Sofia, tão apostável como disponível e magnífica. No meio de tudo isso vivi já a dor subrogada pela morte de uma princesa, porque não tem de ser nossa a causa da nossa dor. Vou continuar. Parei agora para vir dizer que estou a ler. Num momento ritual dei uma furtiva olhadela a uma das páginas do fim: «eu acredito que só deveríamos experimentar a juventude se nunca nos fosse tirada», disse Afonso. Talvez tenha melhorado como ser ao longo do romance. No momento em que o leio tem uns horríveis sessenta anos. Odeio-o e «ninguém consegue odiar sem esforço. O ódio exige mais conhecimento, mais prática e mais rotinas do que o amor». Até já.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Os Meus Sentimentos, de Dulce Maria Cardoso



Quando conheci a escrita da Dulce Maria Cardoso já ela tinha ganho o prémio Acontece com o seu livro Campo de Sangue, mas eu li primeiro o que foi o seu segundo livro. Segui-lhe o conto que divulgou na revista do jornal Expresso, vivido num farol, em tons de azul, e o livro de contos que juntou esse a outros, o Até Nós. Do que li não gostei de muito pouco. É uma escrita notável. Os Meus Sentimentos magoa a alma, dói. Um livro belo, uma escrita que arrebata a mente. Faz perguntar onde viveu ela tanta vida.
Hoje vejo-a premiada pela Europa e a sua editora a reimprimir-lhe os livros. Fico contente, como aquele que tivesse dito «eu já sabia».
«Quando nos contam uma história ouvimos sempre outra», diz Violeta, de quem os homens riam, mesmo quando lhe gozavam o corpo, apoucando-a, «uma mulher tão gorda, tão gorda que quando caía da cama caía para os dois lados», Violeta que se esvai em agonia, porque ao fim de uma vida «apanhámos o hábito de nos magoarmos» e «os moribundos são mansos que o desespero é coisa de vivos».
Um dia estive em Urbino e encontrei-a, traduzida em italiano. Eu sabia, Violeta «um nome de uma flor que também é uma cor».
Agora é uma questão de tempo e o rancor da crítica ser inferior à inveja dos outros escritores.