sábado, 28 de março de 2026

Hipólito Raposo e Campos e Sousa: uma dedicatória


 De novo em torno dos integralistas, desta vez ao chegar-me pela mão de um alfarrabista uma preciosidade. Trata-se de um opúsculo, publicado em Guimarães, como separata da revista Gil Vicente, precisamente pelo Natal do ano de 1949, aquele em que eu nasci. 

Intitula-se Jardim Suspenso, e é uma colectânea de 215 cantigas populares que Hipólito Raposo ouvira há meio século, na sua meninice, em Vicente da Beira [Guardunha], na casa paterna, com texto introdutório de sua autoria,  escrito com refinado estilo e sentimento. 

Dá-nos aí conta de que após a primeira e abundante recolha, «nos anos imediatos, por magustos, descamisadas e debulhas, atentamente iria ouvindo vizinho Francisco António, saudoso soldado do Rei, e de outra gente popular, alguns contos maravilhoso, trovas de romanceiro, xácaras, orações devotas e curativas».

E tudo isto lhe fez sentir admiração pelo Poeta-Povo «e sempre me ficaria o gosto da primeira lição da sua Literatura, em boa hora recebida da boca daqueles que me procriaram, e por entre brandos cuidados e carícias me ensinaram a falar português».

José Hipólito Vaz Raposo, nasceu a 13 de Fevereiro de 1885 e faleceu em Lisboa, na freguesia da Lapa a 26 de Agosto de 1953.

Advogado de profissão, teve acção relevantíssima no campo político. Monárquico foi membro destacado do Integralismo Lusitano, tendo deixado importante obra no domínio da Literatura, da História e da Política.

Casou com a irmão de Pequito Rebelo, outro companheiro do movimento integralista,, sobre o qual já deixei neste espaço um breve porque primeiro apontamento.

Fundador da revista Nação Portuguesa, Hipólito Raposo colaborou também nas revistas O Occidente (1878-1915), Serões (1901-1911),  A Farça (1909-1910), Contemporânea [1915] -1926), Atlântida (1915-1920), entre outras. Foi  diretor do periódico A Monarquia.
Tendo assumido papel relevante no pronunciamento monárquico de Monsanto, ocorrido em 1919, como relata no seu livro Folhas do Meu Cadastro, seria condenado a uma pena de prisão. 
Cumprida a mesma no Forte de São Julião da Barra,  partiu para Angola (1922-1923), onde exerceu advocacia em Luanda. 

De regresso a Portugal, continuou a exercer a profissão de advogado. Em 1930 recusou colaborar com a União Nacional salazarista, defendendo que essa devia ser a posição dos monárquicos, e opôs-se à institucionalização do regime do Estado Novo. Em 1950 foi um dos subscritores do manifesto Portugal restaurado pela Monarquia, uma tentativa de reatualização doutrinária do movimento integralista

O pormenor mais curioso deste folheto que tenho diante de mim é, no entanto a dedicatória manuscrita que me surpreendeu, feita a José de Campos e Sousa por lembrança do seu camarada e amigo».

Integrado no campo integralista Campos e Sousa seria fundador das edições Gama e proprietário e director do jornal vanguardista Aléo.

Educado por uma preceptora irlandesa, tinha perfeito domínio da língua inglesa, assumindo, em 1 de Outubro de 1932, a direcção do Secretariado de Propaganda no Estrangeiro do Nacional-Sindicalismo, sendo nomeado, a 14 de Março de 1934, por Rolão Preto como Secretário particular da Chefia. 

José Manuel Quintas, no espaço virtual Estudos Portugueses, confere largo destaque a ambos, publicando escritos e material gráfico e uma extensa informação sobre cada um deles.

E, eis-me, neste Sábado em que intervalo os deveres da profissão, a tentar pôr em ordem os meus papéis e a dar-me o consolo de uma viagem pelo passado, frequentando outras zonas do pensar e do sentir, tentando encontrar-lhes razão de ser e sobretudo a adesão que suscitaram. 

Leio e estudo contra o que foi o lido e estudado toda uma vida, porque, é título de uma notável obra de "José Régio" «há mais mundos».