sábado, 30 de setembro de 2006

O mundo lá fora

Comecei ontem ainda, já de noite. Mesmo a propósito, «As noites brancas», e logo na primeira folha o «será possível viver sob este céu gente zangada e injusta?». Continuo hoje, sábado de manhã, extenuado, criatura intermédia, fazendo, tal como o sonhador do livro, de mim mesmo um inimigo. Vou na terceira noite. Lá fora o mundo deu em chover.

sábado, 23 de setembro de 2006

O Outono

Esta madrugada começou o Outono, a chover copiosamente. De manhã a cidade estava desolada, com areias espalhadas, esgotos entupidos, folhas a revoar, e os velhotes que acordam cedo sem saberem para quê, a arrastarem-se pelas ruas desertas, a caminho de tanto faz. Por vezes voltam com um saquito de pouco para um almoço de nada. Amanhã é domingo, ainda é pior. Seria o dia de lhes chegar a família, que raramente vem.

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Maria

Eu se não acredito na transmigração das almas, sou um crédulo no símbolo de um acaso. Ela chama-se Maria e baptizou o seu endereço no msn com uma palavra. Ela chama-se também Maria e é a personagem do livro que esta noite leio para o apresentar amanhã, a surpreender-se em Moçambique com tantas vezes ouvir essa mesma palavra. A palavra de que faço bandeira ao acordar e esperança para o dia seguinte quando me deito é Hakuna Matata. É o «carpem diem» africano, o aproveita o teu dia, mote tristonho numa vida despediçada.

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

O adelo da vida

«Não me lembro de nada anterior aos livros». Quem o diz é Cruz Santos, um homem que viveu no mundo da edição. Cada vez são menos estas pessoas que ao livro dedicam uma vida sacrificada. Encontrei outro dia um desses, alfarrabista filho de alfarrabista. Ali andava ele de feira em feira, entre os gananciosos das primeiras edições, e as viúvas a desfazerem-se, envergonhadas da sua miséria disfarçada, do que restava na defunta estante lá de casa. Quantas vezes me dói quando vejo, no adelo da vida, uma dedicatória amorosa que o destino atirou para o acaso de alguém que a lembre. Salvei muitas e guardo-as no silêncio recolhidas da minha livraria, devoções a indiferentes, amores esquecidos, na forma de um autógrafo sentido.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

O efémero

Estamos em época de estudos bocageanos ou estudos «bocagianos», como diz uma brochura da Câmara Municipal de Setúbal que mão amiga me mostrou. Bocage, não o que dá nome à rua onde está o meu escritório, que é o botânico, mas sim o outro, o poeta, o «incapaz de servir num só terreno». Morreu desgraçado, condenado ao efémero do deboche, esquecida a grandeza do génio. Não há imbecil que não conheça dele a despropósito uma anedota!

domingo, 17 de setembro de 2006

O vagão fantasma

«Na sequência das greves dos ferroviários e sabotagem aos comboios como medida reivindicativa, o Governo determina a utilização do “vagão–fantasma”, um vagão aberto cheio de grevistas presos, utilizado à frente da locomotiva, para impedir a sabotagem da via férrea». Foi em 1919. Assim pareço eu agora, colocando-me, aprisionado, à frente da locomotiva da vida, para evitar sabotá-la.

sábado, 16 de setembro de 2006

O dia dos jornais

Lembro-me. Era um adolescente, estudava o liceu em Viseu e queria ser culto. Por isso lia na Biblioteca Municipal coisas que não entendia, requisitava na carrinha biblioteca itinerante da Gulbenkian livros que o funcionário me perguntava se eram para algum outro, mais velho. Mas lembrei-me hoje de quando íamos, pelo fim da tarde, a pé, perto precisamente da Biblioteca, esperar, ávidos de saber, a camioneta que trazia os «jornais de Lisboa». Àquela remota província chegavam, atados, vindo da longínqua e inacessível capital do saber. Disputavam-se os poucos exemplares. Depois, eram uns velhotes de ar endurecido e desconfiado a esconderem, conspirativos o «República», debaixo do casaco, nós, uns jovens vaidosos de atrevimento, a mostrarmos orgulhosos, no café, que líamos o «Diário de Lisboa». Tudo isso já acabou. Já acabou o «República» do Raúl Rego, o «Diário de Lisboa» do Ruella Ramos, o «Século» do Pereira da Rosa. Já acabou o «Diário Popular», já acabou «A Capital». Hoje voltei aos meus tempos do liceu em Viseu. Vou esperar aqui em baixo que cheguem os jornais de Lisboa, para que não esgotem. A diferença é que eu estou em Lisboa, são todos em muitos exemplares e eu não sei se ainda tenho a mesma alegria ao trazê-los para o café.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Sem outra lei

Tentei não ler o Borges em português, para esperar o dia em que pudesse lê-lo no original. Encontrei-o agora, em livrinhos pequenos, daqueles que se transportam na pasta ao lado do que pesa como obrigação. Ainda por cima o Jorge Luis Borges escreve textos pequenos com ideias grandes, como se tivesse pena de quem tem pouco tempo. Hoje, nem sei como, lá foram mais umas folhas vividas e numa delas o que poderia ser um modo de viver, não fora o moralismo endémico da infância, o sentido do dever da juventude, o sentido dos limites desta idade: viver a vida «sin otra ley que la fruición y la indiferencia inmediata».

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

O problema do se

Eu sabia que havia uma lagoa das sete cidades, descobri hoje que havia três cidades dentro de uma cidade e várias pessoas dentro de uma pessoa. Num mundo assim, um homem tem muito por onde passear-se. Assim mesmo, reflexamente.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Chevalier servant

Mimadamente disperso, como diria uma amiga minha, ando a ler a esmo o que os outros já leram há séculos. E ainda por cima não tenho vergonha de o dizer. Ontem estive com os «Bilhetes de Colares», escritos entre 1982 e 1987 pelo A. B. Kotter, esse fantástico pseudónimo que parece autêntico, e que o ainda sobrevivente jornal «Semanário» editou há dezasseis anos. São textos curtos, que se lêem antes de dormir e que dão um sonho risonho. O lido ontem, antes da «deita», era sobre um tal fictício Henri de Beaucul de Monfart, amanuense de Paul Bourget, «chevalier servant» da mamã do autor entre 1937 e 1939. A prosa é doce de estilo e picante de ironia: «Fauxcul, como nós lhe chamávamos», escreve o Dr. Kotter, «por ser mulherenguíssimo, dizia sempre que a Mãe submetia a ortografia à fonética porque pensava com o coração». E continua, a rematar: «Esta causalidade chocha, assim metida a martelo, só enganava, julgo eu, a própria Mãe, vaidosa como todas as mulheres, e era a maneira de Fauxcul se insinuar, felino, entre os lençóis da Senhora sem deixar de luzir nos olhos de Bourget». Ora aí está uma maneira agradável de se começar o dia, a rir. Tem de ser, porque tenho de ir trabalhar! Mimadamente disperso, entre outras coisas trabalho numa profissão que é uma espécie de condenação às galés.

domingo, 10 de setembro de 2006

Ausência de si

«Há dias, em que o rosto até se pode transformar e se ausentar de si mesmo... », li isto aqui -»., a propósito do chão de prata. Li e perguntei-me, como se a um espelho me visse, reflexamente, que poderia eu mais dizer.

sábado, 9 de setembro de 2006

O cemitério da razão

A frase dizem-me que é do Albert Camus, o homem revoltado: pode ter-se razão e perder. É por isso que a verdade é um combate diário e corpo a corpo e os cemitérios estão cheios de cruzes de reconhecimento póstumo. Há muitos que preferem ficar vivos. A sua sobrevivência é a demonstração da sua vitória.

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

A grilheta do dever

Havia no Jardim Zoológico um elefante que a troco de uma moeda tocava um sino. Ensinado, recusava, jogando-as fora, as moedas escuras, só aceitando as prateadas. Os miúdos riam a bandeiras despregadas. Amarrado ao inferno de ter ganhar assim o que lhe davam para comer, o animal metia dó. De vez em quando soltava aquele som lúgubre, de aflição, como se lhe faltasse a naturalidade do seu mundo ao qual o haviam raptado. Lembrei-me dele esta noite e do sentimento de profundo desapontamento irritado dos meus pais ante a minha tristeza. Acho que já morreu, ou pelo menos matei-o na minha memória, esgotado de ter pena.

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

Anrique Paço d'Arcos

Vi na passada semana no JL que passariam no dia 2 de Setembro cem anos sobre a data em que nascera Anrique Paço d'Arcos. Em 1993 a Imprensa Nacional editara-lhe as «Poesias Completas», que vai agora republicar. Irmão do escritor Joaquim Paço d'Arcos estavam ambos praticamente esquecidos. Do Joaquim, que foi funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ainda se encontram pelos alfarrabistas algumas edições do «Tons Verdes em Fundo Escuro», escrito em 1946, do seu magnífico conto «Samovar», e mesmo a história de «Venâncio», na qual todos os funcionários públicos se revêem e o seu inevitável «Ana Paula». Agora do irmão Anrique é que pouco aparece. O «Dicionário da Literatura Portuguesa no Mundo» ignora-o, a História da Literatura do Óscar Lopes e António José Saraiva que eu tenho dos tempos do liceu nem nele falava. Claro que eu esforço-me por acreditar que não há acasos. Mas como explicar que tenha encontrado durante as férias, deambulando já nem sei por onde, uma terceira edição do «Amores e Viagens» do Joaquim, em terceira edição da defunta Parceria António Maria Pereira, publicada em 1943, e ver nele uma comovente dedicatória ao irmão Anrique, aquele que «deste rancho de irmãos que entrou na vida rico de todas as ansiedades». E como explicar sobretudo, ao ler, precisamente no JL a ligação de Anrique a Teixeira de Pascoaess, dos quais ali se publicam duas cartas, que eu não me lembrasse sequer que, precisamente em nome do acaso, escrevera já, curiosamente neste mesmo blog, então a celebrar «minha intrínseca tristeza, essa forma melancólica de viver, connosco por companhia», isto mesmo, que hoje reli, como se outro o tivesse escrito! Perplexo parti à descoberta, para me cruzar, no espaço poético com a magnífica ave-azul.

terça-feira, 5 de setembro de 2006

Enfronhado

Dei conta ao reler-me, o que raramente faço, pois nunca tenho tempo: uma pessoa regressa de férias, enfronha-se na profissão, cheio de bons propósitos organisativos, a querer que ela seja apenas uma parte da sua vida, necessária mas que não ultrapasse o suficiente. Vejam o resultado: nestes últimos dias quase só falo de Direito, do que está, do que virá, do que tomara que viesse. A continuar assim, a coisa dá para o torto.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Longínquo

Eu, que não me sinto branco nascido em África, e nasci em Angola, nem europeu se isso não for Portugal, penso agora no Quénia longínquo. Um sentimento apátrida, invade-me o ser, como se um nómada, para quem tivesse morrido a família primeiro e lhe tivessem destruído a aldeia depois.

As leis da Natureza

Claro que eu tinha de ir ler imediatamente Dostoiévski ao chegar. E foi ao lê-lo, naqueles seus «Cadermos Subterrâneos» que me encontrei «com um homem que tivesse, para cúmulo, a especial infelicidade de viver em Petersburgo, a cidade mais abstracta e mais premeditada do planeta». Tudo isto é discutível, eternamente polémico, pretexto para uma interminável discussão para «chegarmos, mediante as mais inelutáveis combinações lógicas, até às mais repugnantes conclusões». Ao ver hoje aquela cidade-cenário, palco de uma itinerante comédia de rua, a contínua passerelle da beleza efémera e do exibicionismo do que é bem, sente-se que é de facto «impossível perdoar às leis da Natureza».

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

As ideias abstractas

Às vezes acontece, quando se viaja, pegar-se num livro à medida da bagagem que se leva, por causa do espaço, do peso, do tempo livre de que se dispõe. Poucas vezes sucede encontrar um livro que se compatibilize com o problema do local para onde se viaja. No caso um dos personagens do que leio tinha perdido há muito a crença na perfeição da espécie humana; pior, estava já amargamente convicto de que os indivíduos faziam sofrer os outros pela sua brutalidade, a sua malícia, a sua falta de compreensão. Por isso mesmo convivia melhor com as ideias abstractas da reforma social, a igualdade de oportunidades, em suma, a fraternidade humana. Comovia-se, porém, com os milhares de outros que, não ambicionando a liderança, seguiam um ideal com paciência e pobreza.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

O labirinto

Imagine-se num local onde nada se entende do que dizemos e não entendemos o que nos querem dizer. Imagine-se um homem diminuido pela arrogância do que o cerca, perdido no labirinto do que procura. Pode ser uma cidade ou um momento da vida. Pode ser estar de férias ou o desejo de tentar sair delas. Imagine-se querer compreender e não conseguir sequer entender.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

O mundo oblíquo

Leo Tolstoi tinha como hobby fabricar sapatos, nos intervalos de uma extensa e intensa escrita. Vivia com modéstia, numa das suas casas servido por dez criados. Dostoievsky sofreu na Sibéria a cadeia e o exílio e definhou, esvaindo-se em literatura. O primeiro vivia o problema da mística, o segundo o da angústia dos homens. Cada um deles tem as suas casas evocativas, a do segundo uma casa de esquina, como a de tantos dos seus personagens. Gorki também teve casa, oferecida pelos sovietes mas, como se simbolicamente, está encerrada para obras. Falta quem? Faltam tantos! Maiakovsky, por exemplo, oblíquo, vanguardista, provocador, suicida. No meio das suas vidas surgiu o tumulto dos engenheiros de almas, o anseio do homem novo. Hoje já nada sobeja. Numa das portas do Kremlin está o símbolo da Rolls-Royce, talvez por causa do carro luxuoso usado por Lenine, a bandeira do proletariado. Quantos milhões deram a vida por tudo isto. O motorista que nos conduz benze-se ao passar em cada Igreja. Hoje, já só o próprio Deus o poderá surpreender.

domingo, 20 de agosto de 2006

Museu ao ar livre

Viajo. Estou num local onde os computadores acentuam de modo diverso, sem que eu possa usar, ao escrever, o nosso modo de acentuar, obrigando-me a usar palavras que omitam o que por aqui inexiste. Curiosa forma de escrever esta, confinado por exemplo a ter de dizer sim, sem a possibilidade de acesso a uma palavra que exprima a negativa. Estou longe de casa, numa cidade com pouco mais de duzentos anos, um museu ao ar livre, replicando em arte o que de melhor a Europa tinha e as colossais fortunas podiam comprar, caixa de bonecas, de corpos espectaculares que se pavoneiam ante a rua do desinteresse. Oriundo de um Portugal com mais de oitocentos anos de vida independente, trago comigo o peso dos escombros acumulados com que nos fomos fazendo. Tenho saudades, talvez por hoje ser domingo, o dia do aborrecimento universal.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Acontece

Vou viajar. Fiz praia, quase sem lá ir. Saio, sem ter conseguido retomar o primeiro livro da Dulce Cardoso, que encentei há vários meses, o que se chama «Campo de Sangue», já foi prémio «Acontece» e agora a editora despacha a saldos. Hoje ainda peguei nele para me decidir a levá-lo na mala. Uma das últimas frases que ali tinha sublinhado trazia a nostalgia de uma colónia de férias onde eu nunca estive: «no útimo dia de férias deixaram na aldeia uma fila ordeira de pés tristes». Acho que o Verão está a acabar, ou pelo menos as férias. O tempo começa a arrefecer e eu sinto-me cansado já delas.

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Sua mercê

Nunca me arrependa eu tanto de uma coisa como me arrependo de mostrar-me na fragilidade que os heróis quotidianos nunca admitem. A vida de hoje é o mundo do êxito, a sociedade o podium dos vitoriosos. Peço pois o favor a todos quantos lerem o que eu possa aqui chorar, de se rirem disso às gargalhadas. Não para que eu ganhe razão, mas para que ganhe ao menos alguma vergonha. Para tristes figuras já basta as que fazemos, escusamos de as contar. É nisso em que a blogoesfera é o muro das lamentações que eu me repugno de mim. Com tanto motivo para me exibir, ando nisto da tristeza e da comiseração enjoada à mercê. Restam, eu sei, uns quantos sincera e carinhosamente condoídos. É a esses que eu peço que desandem. Ridículo por ridículo, prefiro-me assim, pobre e mal agradecido.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Feriado

Há dias em que devia amanhecer logo o dia seguinte. Era assim, como se uma folha a menos no calendário. Amanhã, por exemplo, é feriado para que nada aconteça na vida de muita gente. Podia ser hoje. Para mim, devia ter sido hoje.

O espanto

Ana, a personagem de Clarice Lispector no seu conto «Amor» acabou por «descobrir que também sem felicidade se vive». Antes era «uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável». Vi esta noite, ao chegar a casa que começara a ler o livro, sem o ter terminado e, afinal, sem o ter compreendido. Voltei a ele, tal como ela, com «o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada». A diferença, é que esse novo saber sentido em Ana fora um lar quem «perplexamente lhe dera».

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

A felicidade menor

Ainda consegui ler ontem uma conferência que o Jorge Luis Borges fez na Universidade de Belgrano, em 1979, dedicada ao livro. Trata-se de um ensaio erudito, o livro visto por alguns clássicos, mas que é sobretudo um contraponto entre a forma escrita e a forma oral. O livrinho, onde vem essa conferência e outras quatro chama-se, aliás, «Borges Oral». Nela, o seu autor diz que reler é mais importante do que ler e precisamente para vir aqui deixar esta nota, reli esta manhã o que ontem lera. E que ficou? Por um lado que «se lemos um livro antigo é como se lêssemos todo o tempo que decorreu desde o dia que foi escrito para nós», por outro que «uma forma de felicidade é a leitura; outra forma de felicidade menor é a criação poética, o que chamamos criação, que é uma mistura de esquecimento e de recordação do que lemos». Claro que eu transpus isto para o modo de estar com os outros, para o folhear no outro cada interstício do corpo e cada recanto da alma. Li pois e reli e descobri assim a infelicidade das páginas em branco e de um tempo decorrido em que nada conseguimos ler. Por isso a felicidade menor desta escrita.

quinta-feira, 10 de agosto de 2006

O mais azedo dos suores

A vida é feita de acasos. Terminei, enfim, a leitura do livro de memórias do José Gomes Ferreira. E como decidi abolir a diferença entre os dias de férias e aqueles em que trabalho, como quem vive feliz uma infelicidade, depois de ter ido consultar, nesta tarde de calor, um processo a um qualquer desses tribunais, passei por uma biblioteca pública onde encontrei «A Gaveta de Nuvens» outra obrinha sua, de crónicas e apontamentos. Sentei-me, anónimo, num canto a ler. A meu lado, um anafado munícipe usava aquele local de cultura para ler os anúncios do imobiliário, secção «condomínios, vendem-se».
José Gomes Ferreira também tirou o curso de Direito e tentou, sem continuidade ou empenho, a advocacia. Passou como obscuro cônsul na Noruega mas foi a viver da pena, escrevendo de tudo, desde anúncios publicitários a traduções para o cinema, no meio disto um livro policial como autor anónimo, que trabalhou «na escravatura do suor mental (o mais azedo dos suores)», escrevendo andante, em intervalos.
Voltei há pouco à casa onde estou, com a cabeça cheia de pensamentos sobre tudo isto. E eu que escrevo curto, por ser feito daquela «carne tímida» de quem acha que tem pouco a dizer, encontro-me hoje, nesta tarde andarilhante, com a cabeça toldada de ideias, que se atropelam.
Primeiro, que pouco vale uma vida literária. Impressionou-me, comoveu-me mesmo, ver, pela sua palavra, trazidos do pó indiferente do esquecimento, tantos nomes de escritores e artistas, génios no seu tempo por um critério exasperado e exigente e hoje absolutamente olvidados. E causa-me funda impressão, pela razão inversa de o ter lido, a ele Gomes Ferreira, desejoso por raiva de apedrejar as montras das livrarias de Lisboa onde se não encontrava então nem um só dos livros do Teixeira de Pascoaes, já só nos alfarrabistas «para educação das traças».
Depois, neste «labirinto de conversa inútil», dou comigo a pensar o nada que vale um livro. No caso, os dele, editados pela Moraes, que já faliu, pela Portugália, que já morreu, e de que hoje se encontram nas chamadas «livrarias», que mais não são do que armazéns de papel temporário, os mais ridículos, os menos característicos, os que menos dizem do grande escritor de quem falamos. Mas fere-me, sobretudo, o meu livro, este exemplar seu que li e sublinhei e a que quase arranquei as folhas de tanto o ler, onde consta o sangue arrefecido de uma inscrição, manuscrita por alguém, para quem este volume já foi um momento qualquer na sua vida: «Na Parede, 8 Set. 66, quando os anos não têm sido uma parede». Assina: Guida. Não sei quem é, ela não sabe que eu a encontrei. Entre nós, se ainda estamos ambos vivos, há o acontecimento morto que lhe atirou o livro para um adelo, onde o comprei, ao desbarato, amarelecido e esquecido, como se escrito por olhos enormes «da existência de milhões e milhões de lágrimas do mundo por chorar». Tudo isto faz com um homem não queira ser aquilo que é.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

O reduto da vontade

Hoje, dia nove de Agosto, uma quarta-feira de sol e de calor, com tanta gente de férias a não escrever por não poder, estou aqui eu a não escrever por não querer. O silêncio tem uma vantagem, raramente se dá por ele.

terça-feira, 8 de agosto de 2006

A modos de que

«Hoje todo o cuidado com os homens é pouco. E mesmo com as mulheres, que já andam ao mesmo», dizia ela, uma vulgar criatura, meia-idade indefinida, alombando sacos de plástico, chanata a arrastar, vinda com outra do mini-mercado, atulhada de mercearias gordas e bebidas adocicadas. «Sim, o parvalhão, a ver-me sozinha na estrada e a oferecer-me boleia, a abrir o vidro do carro, a abrandar a marcha, o metediço, filho de uma grandecíssima vaca. «E tu conhecia-lo, Maria?», inquiria a companheira, magricela de ressabiada, repartindo a carga dos víveres, um garrafão água em cada mão, o jornal amarfanhado debaixo do sovaco suado. «Ora se conhecia. Então não se conhece logo pelos modos! E com as gajas é o mesmo, que já andam desenfreadas ao ataque que ainda outro dia uma...». Foi hoje de manhã. Separámo-nos numa esquina da rua. Eu redobrado de cuidados, não vá toparem-me pelos modos, assim a modos de que.

sábado, 5 de agosto de 2006

Borges, perdoa a minha cegueira

Eu sei que é uma vergonha: mas detestava o Jorge Luís Borges só porque um desses arrogantes peralvilhos da nossa cultura, impante de opinião pomposa, o idolatrava. Só que nunca o tinha lido. Hoje, indiferente ao meio, qual cego, descobri-o, tacteando-o. Confesso o meu sentimento de reprovação para com o meu passado vergonhoso. Ando a juntar, livro a livro, cada um dos seus livros e os livros sobre a sua pessoa. Aqui na Feira do Livro de Faro vendia-se o pobre do Borges integral e traduzido a metade do preço. Recusei comprar. Trouxe, para acabar de o ler o «Borges verbal», colectânea de citações, algumas talvez apócrifas, compiladas por Pilar Bravo. Leio-as, por vezes acrítico de maravilhado a essas frases desconcertantes. Arrependido do tempo perdido, rio-me, como se de mim, de uma piada deprimente que circulava em Buenos Aires a seu respeito e que ali vem citada no prefácio: «Borges é uma das provas da inexistência de Deus. Porquê? Porque se Deus realmente existisse, tê-lo-ia feito mudo e não cego».

sábado, 8 de julho de 2006

Sem regresso

Façam de conta que eu lá fiquei, naquela praia, naquele hotel. Imaginem que talvez um ou outro postal se tenha extraviado, ou que eu nem tenha escrito. Imaginem que eu não voltei.

sábado, 1 de julho de 2006

De saída

Vou sair para uma tentativa de descansar. Levo comigo aqueles livros que ando há semanas para acabar de ler, antes que eles acabem com a minha vontade de ler. Vou para perto de uma praia, para que ela me provoque e me faça sentir o desejo. Talvez apanhe sol. Quem sabe, talvez tenha a ousadia de me entregar ao sal de um abraço no mar. Eu vou sair, para descansar de mim. Volto domingo, comigo.

quarta-feira, 28 de junho de 2006

Passados os anos

É uma espécie de biografia que o José Gomes Ferreira escreveu e que encontrei, numa segunda edição, daquelas belíssimas da Portugália. Chama-se «A Memória das Palavras». Comecei a ler, ontem à noite, quase a cair de sono. Lembrei-me hoje de uma frase que lá vem, no prefácio, que na forma de uma carta ele dedica à sua Rosalia: «Aqui tens o meu passado. A parte mais pura do meu passado. A única digna de ti, minha querida companheira de tantos e tantos felizes anos árduos». Eu nem isso consigo escrever, passados os anos, tantos anos depois.

domingo, 25 de junho de 2006

A aura do contentamento

A essência e o afecto que ele transporta conferem a autenticidade à existência. O mais, e o que nele há de acidental são as contingências da vida, as inéricas, as adstringentes conveniências. É a aura do contentamento. Um dia descobre-se que não há perguntas possíveis, nem respostas admissíveis. Um homem perdido na física adocicada do rir, dá consigo na química salgada do chorar.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Trinta quilómetros

Um sonâmbulo ao volante pelas estradas do dever. A ânsia de um momento para poder parar. Agora nas auto-estradas já não há as bermas das estradas. Restam as áreas de serviço. Um homem olha e vê uma tabuleta azul. São só trinta quilómetros. O medo é o não saber se não fecharei os olhos até lá, definitivamente.

quinta-feira, 15 de junho de 2006

E uma muda de roupa

Três livros! O «Mandarim» do Eça, naquelas edições da Lello, em azul, encontrado a saldos num alfarrabista, a cinco euros, que está quase no fim, a Clarice Lispector que, sendo um livro de contos, se vai lendo um de quando em vez e enfim a Ondina Braga, porque sendo para ler toda, já vai lida no terceiro volume da prosa. Três livros e uma muda de roupa. Depois digo como foi. Hoje apetecia-me ir à praia, se eu gostasse de praia. Nem toda a gente sabe que eu escrevi isto. Nem toda a gente o entende. Ainda por cima hoje faz sol, um sol tímido, hesitante, um sol para quem gosta de ler e cega com o excesso de luz.

terça-feira, 13 de junho de 2006

Sem esforço nem angústia

Guardei para estes dias mais folgados o fazer aquelas coisas que há meses se arrastam, pendentes. O problema é que, devido precisamente à passagem do tempo, já nem me lembro bem quais elas são. O que, como se conclui, que o deixar andar é uma forma muito simpática de ver os problemas resolvidos e sem esforço nem angústia! E eu enganado estes anos todos, com a solução ao alcance da mão!

domingo, 11 de junho de 2006

O sono da lua

A lua foi dormir, depois de ter dado, estou certo disso, uma noite de muito divertimento e alguma alegria a muitos dos meus semelhantes. Companheiro deles, nesta viagem pelo tempo, anichados no planeta terra, à velocidade de translação de 1.783 quilómetros por minuto, fico feliz por eles, como se fossem eu. A lua foi dormir e com ela a segurança de que amanhã volta, menos exuberante, claro, até ao vazio total de se ter esgotado o seu ciclo de criação. Agora que a maré baixa, e é domingo, avançam banhistas em famílias e em casais e uns quantos solitários que a vida desirmanou ao encontro da ilusão refrescante da água, em busca de um horizonte longínquo que os retire de si e da sua mesquinhez terrena. A lua foi dormir sem que tantos tivessem ao menos nela reparado ou voltem sequer a reparar.

sábado, 10 de junho de 2006

Abreviando-se um homem nesta vida

Quando Manuel Laranjeira aos trinta e quatro anos de idade deu um tiro na cabeça, abreviando-se nesta terra, Unamuno escreveu que ele dera vida à própria morte. Comprei agora um livro sobre o seu misticismo pagão, ainda na esperança de que o mundo possa ter uma via salvífica para além dos deuses e aquém de um tiro. Laranjeira, escrevendo sobre a mocidade idealista, que foi a sua, lembrou quanto outrora se faziam excursões aos túmulos dos vencidos, hoje aos arraiais dos vencedores.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

A mão

Trancado de manhã e de tarde trancado, rodeado de gente soturna, a ouvir e a vêr o lado feio e mau do mundo que o cerca. Dia após dia, ano após ano, floresce lá fora a primavera e sempre a um homem a viver no interior de um mundo sem paisagem nem natureza. Uma ânsia de um momento de paz, toma conta de uma pessoa que assim vive ou julga que assim é viver. Lembro-me de uma cena horripilante de uma mão hirta e enclavinhada, saída de um esburacado momento de uma casota em madeira, como se, através dela, todo um corpo se quisesse libertar. Ali dentro morriam sufocados, envenenados a gás, todos os membros de uma família. Aquela mão era uma tentativa de escapar ao inevitável, até que as forças lhe faltaram.

quarta-feira, 7 de junho de 2006

Violeta

Confesso que é uma paixão literária forte. Não a conheço pessoalmente mas li-lhe o segundo livro, linha após linha, com o coração a doer-me. Depois disso, procurei o primeiro livro e estou a lê-lo, muito lentamente. Soube que era paixão quando li num jornal que diziam mal da capa daquele livro que eu já li, a que chamou «Os meus sentimentos». Ofendi-me com isso, como se fosse comigo. Esta noite recebi a oferta carinhosa de um link para uma entrevista sua à TSF. Fica aqui. Vou ouvi-la. Até amanhã. Ela chama-se Dulce Cardoso, Dulce Maria Cardoso. A personagem do livro tinha o nome de uma cor que também é o de uma flor. Chamava-se Violeta.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

Escrita mendicante

Assírio Bacelar, que deu nome à editora Assírio & Alvim, lembrou, numa recente entrevista, que os autores ganham entre 8 a 10% em cada livro, e que as grandes superfícies, sem arriscarem nada, ganham 45%. Há só uma correcção: é que os autores ganham quando ganham, pois muitas vezes ficam a olhar para as mãos, vazias. E, no entanto, nunca se editou tanto. Não são escritores a escreverem ficção, são escritores a viverem na ficção.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

O desaforo dos aforismos

Com aquele estilo grandiloquente de falar de si, enobrecendo-se, Agustina Bessa-Luís publicou um livro de aforismos de que só agora dei conta, por tê-lo encontrado na Feira do Livro. Amarga desilusão, porém: é uma compilação daqueles que ela foi semeando pelos seus muitos livros antecedentes a 1988. Conhecendo-se o apreço que Agustina tem por Agustina, já é azar ter aberto esta obra logo com «um grande livro não pode ser medido pela desordem do seu rosto, mas sim pela grandeza dos seus aforismos». Percebe-se agora porque é há quem se irrite com ela, mesmo os que gostam do que escreve, incluindo os aforismos.

segunda-feira, 29 de maio de 2006

Maria Ondina

Surgiu há muito na minha cabeça, hoje foi apenas a facilidade de lhe dar vida. Talvez a noite soturna, a memória da distância, a agonia da incompreensão. Jardim de essências, é dedicado a Maria Ondina Braga. Coloquei-o aqui.

domingo, 28 de maio de 2006

Uma tarde de calor

Basáltica e rude, a natureza mineral e áspera de todas as coisas, irregular na forma e incerta na sua aparição, nela surge, por um momento fugaz, o milagre da poesia. Abafa-o, porém, a fealdade da indiferença circudante, o ridículo viscoso de uma tarde de calor. Não se inflamam, por isso, as almas presentes, incham, pelo contrário, o corpos dos ausentes. Com o chegar da noite regressou a monotonia do amanhã. Um dia passou. Um dia fora de casa.

sábado, 27 de maio de 2006

A escrita automática

Ao tentar explicar isto aqui escrevi assim: «A Janela do Ocaso» é o meu eu intimista e literário, o ser ledor e reflexivo que vê a vida através do teatro de sombras chinesas que na escrita se project». Como é costume a frase saiu-me, espécie de escrita automática de que me surpreendo ao lê-la. E, no entanto, as contingências da vida empurraram o ser ledor para o saguão escuro em que só há o ser escritor. Prisioneiro de si, esse ser funciona por reflexos, espécie de bolbo raquidiano que comanda apenas o modo, a forma, a concordância verbal. Tudo o mais, como se testamento de morto, está escrito. Povoado de sombras, limito-me a escrevê-lo tal como se o estivesse a ler.

sexta-feira, 26 de maio de 2006

O homem da maratona

É uma luta diária contra o tempo. Começa-se por trabalhar mais depressa, por se encurtarem as horas de refeições, salta-se mesmo o almoço, por vezes nem se janta, há dias em que mal se come. Descobrindo que não há que dormir tanto, rouba-se ao descanso, ilude-se a sonolência, engana-se a habituação viciosa do corpo esgotado ao estridente despertador. Há no homem da maratona, a esganada ambição da meta, a inércia tresloucada do correr. Cronometrado ao segundo, retesa-se num espasmo final, antes de cair de borco, o coração a rebentar, tudo perdido por uma fracção de segundo. No podium da vida não há lugar para tantos e ele é, afinal, um anónimo no pelotão. No sprinter final, joga o seu destino. Um dia, trôpego de velho, uma manta pelos joelhos, é o que lhe valerem as suas recordações. Às vezes são recortes amarelecidos de jornais, fotografias sumidas num álbum sebento. No jardim da indiferença, já ninguém os ouve. São os recordistas da imobilidade, campiões da monotonia, medalhas de ouro de um mundo que já passou.

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Um farol de felicidade

Encontrei-a dezassete anos depois, bonita, jovial, entusiasmada. Irradiava alegria pelo que fazia e bem estar no que vivia. A dois metros de nós estava um, a fazer esforços para fingir eficazmente que não me conhecia. Outro, inopinado, apertou-me a mão circunstancialmente no «como está» seco e convencional. Respondi um «olávocêcomovaibemobrigado», aquela frase magnífica com a qual fica logo tudo despachado. Por momentos percebi o que é ser feliz. É algo de irradiante, como se uma incandescência nocturna e encandeante.

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Melhor vida

Nm quadro impressionante que está exposto no Museu das Janelas Verdes está o retrato de uma velha de lábio mirrado e olhar oblíquo, de refogado ressentimento. Estão lá as datas do nascimento e morte. A propósito de morte diz-se que foi «para melhor vida». Olhando-a antes de sair, só poderia concordar. «Melhor vida» para ela e para os outros seguramente. Basta olhar para a cara.

sábado, 20 de maio de 2006

O reduto último

Esta noite não ouvi os pássaros que cantam por aqui em frente pelas quatro da manhã. Foi uma noite sem pássaros e sem canto, sem gorgeios e sem piares. Esta noite não vi outra coisa mas só a escuridão do dormir, onde nada se ouve e onde nada nos dizem. É o reduto íntimo último da nossa privacidade, dormimos connosco na ilusão da companhia.