quarta-feira, 30 de maio de 2007

A agonia do real

Quando uma nave espacial reentra na atmosfera sofre um choque que quase a destrói. Quando uma criança nasce do ventre de sua mãe, grita de dor, como se ao entrar-lhe o ar exterior nos pulmões, lhe entrasse o desejo de sufocar. Quando o mundo da ilusão reencontra o real, sente-se a vontade da loucura, porque ao menos aí a agonia é medicada. Há é claro sempre a solução de se partir de férias e com isso a esperança de que no regresso esteja já, enfim, tudo morto.

sábado, 26 de maio de 2007

A herança da raça

Graças ao meu amigo, que está expatriado em Macau, estive hoje, um sábado com prometida chuva e surpreendente calor, com o Wenceslau de Moraes e um seu livro de paisagens escritas sobre a China e o Japão.
Wenceslau José de Sousa de Moraes, oficial de Marinha, fixou-se em Macau em 1889, transferindo-se definitivamente em 1898 para o Japão, onde viveria os últimos trinta e um anos da sua vida, sem mais regressar.
Ser delicado, qual sismógrafo capaz de registar a mais pequena vibração humana naquela terra de terramotos, deixou-nos páginas de inteligente e ardorosa visão sobre o Oriente «esfíngico e fatal», como lhe chamou Fernando Pessoa, local de exílio voluntário e de fuga redentora, a quem entregou a alma e que lhe recebeu os ossos.
Frequentemente sorumbático por natureza da alma, e erraticamente apaixonado por herança da raça, ele foi no Dai-Nippon, o «senhor Portugal».
Lembrei-me disto esta manhã, ao acordar cedo, os pássaros a cantar: «Neste país japonês, onde parece que os seres, homens e bichos, nasceram e vivem num banho permanente de sorrisos» escreveu ele, o que viu que «o riso é a linguagem mais em uso nesta terra». Assim eu.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

A alma japonesa

Vivendo uma vida isolada, tenho muito poucos amigos. Um deles deixou-se ficar por Macau. É daqueles que compreendem quando não lhes aparecemos e respeitam o nosso exílio, poupando-nos à vergonha de ter de expor em público as nosas chagas. Mandou-me agora dois volumes da obra de Wenceslau de Moares, que está a ser ali editada, aguçando-me o apetite por ler tudo. Esta manhã em que, exaurido, permiti que a preguiça me desse descanso, li a contra-capa de um deles: Aprendi que não se beija uma japonesa, ainda que na face, sem a ofender, «mas poderás talvez beijar, sem que a musumé o saiba, dissimulando o gesto... o seu vestido».
Claro que, visto pelos olhos da contemporaneidade, pelo espírito prático dos dias de hoje, pela banalidade grotesca em que se tornou a subtileza, tudo isto é ridículo, mesmo eu, disto leitor, num dia como o de hoje, numa manhã como esta.

domingo, 13 de maio de 2007

Andar com o janêro!

«Esta noite nã dí dormido nada!... – Atã perquém? – Os gatos andam p’aí com o janêro, era uma miada qu’a casa até tremia...». Descobri este português magnífico, antigo, viajando com insónias e sem ao menos uma maçã para entreter o dente e aquietar o corpo em sobressalto. Foi em Monchique, em «O Parente de Refóias». Glossário risonho, cheira a sol e a sul, o que a mim, ser bisonho e implicativo é como se fosse do outro lado do mundo da minha neurose, terra onde está sempre a chover.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

A vida possível

Ouve-se aqui o amanhecer através do cantar dos pássaros e depois do gorgorejar da água das fontes. Lá em baixo uma cidade com as suas vulgaridades e com os seus recantos de reservada beleza. Preparado para esgotar mais um dia, trancado num sala e de tudo isolado, olho para o livro que trouxe expectante e que a meu lado espera ansioso que eu o leia. «Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível», ainda consegui ler ontem, já os olhos a fecharem-se, impossíveis. Clarice Lispector escreveu-o. Ama-se um mulher que só se conhece através do que escreveu. Eu sei que ela está morta. Guardo por isso esse segredo, para tornar a vida possível, a única vida que já me resta viver.

domingo, 6 de maio de 2007

A mulher a dias

Ontem, dia de preguiça deliberada, ainda consegui arranjar tempo para iniciar a leitura de uma novela da Clarice Lispector que tem o título apelativo «Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres». Trata-se daquele livro em que parece que perdemos a página inicial, porque começa «, estando tão ocupada».
A vida deveria ser assim também, iniciar-se com uma vírgula e sobretudo não ter ponto final.
Trata-se da história de uma mulher que descobriu que «não tinha um dia-a-dia, mas sim uma vida-a-vida», e que não usava «perfumes que a contradiziam».
Como é possível que eu hoje, contradizendo-me, nem tempo tenha tido ou, pior do que isso, disposição haja encontrado para voltar para os braços da perfumada leitura, na minha noite-a-noite de trabalho forçado!

sábado, 5 de maio de 2007

5/50

Aprendi uma lição de sabedoria, dada por quem a tinha recebido em miúdo: «se quiseres ganhar cinco, prepara-te para perder cinquenta». Gostava de saber a que aplica isto, mas sei, por experiência ganha e vida perdida que se aplica a tudo, mesmo!

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Viver a vida

A esta hora há gente a entrar para dentro dos cubículos voadores que são os aviões para não sei quantas horas de trabalho desconfortável para que outros viajem felizes, enfermeiros a suportar turnos nocturnos a tentar que a morte não vença, polícias a fazer giros de ronda para que os vizinhos durmam seguros. No meio disto, o incómodo, o monótono, o cansaço, não há moral para nos queixarmos. É só uma vida estúpida, há que vivê-la com estupidez.

domingo, 29 de abril de 2007

Maneiras assimétricas

Zangado com o José Gomes Ferreira e comigo por isso irritado, encontro-o hoje, domingo de tarde, a prefaciar «O escritor confessa-se», que recomecei a ler, a cidade vazia de portugueses. Aquilino, é um lugar comum dizê-lo, brinca com a língua portuguesa, como alguém que às escuras se passeia, insone, por uma casa da qual conhece todos os escaninhos.
Hoje de manhã, surpreendi-me a desejar escrever aqui sobre cada uma das palavras que nele encontro e antes desconhecia ou nem supunha que pudessem sequer surgir-me assim nessa inesperada pragmática. «Pois que fora marítimo quando moço, resultara daí conservar maneiras assimétricas e a brusquidão de quem medrara sobre o balacé dos saveiros e ao encontrão dos homens das companhas», escreveu sobre o padre prefeito do seminário de Beja, por onde estiolou, famélico, a tonsura adiada.
Lê-se e com um amargo de boca, sabendo quanto piores estamos, admitimos que já não se escreve assim; pior, já não se vive uma vida que permita escrever assim; pior ainda, já quase nem há, «alimárias claudicantes» em que nos tornámos, quem consiga entender que a vida pode ser vista inteligentemente assim. Inútil o navegar, o português perdeu a inesperada assimetria, esparramaçado no lodaçal previsível da monotonia de maneiras.

sábado, 28 de abril de 2007

O duplo

Hoje fui aos livros e vim para a casa com a alegria na forma de sacos em plástico atulhados de alfarrábios. Ando a reconstituir a obra completa do José Gomes Ferreira de que julgava, erradamente, já só me faltar a poesia. Foi, por isso, com o contentamento de quem descobre que há mais mundos do que os vividos, que encontrei, ainda editado em 1980, pela Moraes, «O Enigma da Árvore Enamorada». Pobre do momento breve que durou o sentir-me bem. Acabo de o ler, livro lamentável, banal, de uma escrita vulgar, indigna do seu autor e imposível de de ser sequer trabalho de militância política inteligente. Quando gosto de um escritor leio-lhe a obra toda, mesmo que seja para me irritar, como é o caso. Num breve escrito adjacente, de tipo auto-biográfico, o meu autor de hoje confessa que se formou ideologicamente conjugando «o marxismo-leninismo actual com o pensamento de Leonardo Coimbra e de Teixeira de Pacoaes». Talvez por isso me tenha cruzado, ao folhear a biografia que dele escreveu Alexandre Pinheiro Torres, seu familiar político, com o dito «só nunca fui uma coisa: eu próprio». Falava da duplicidade de José Gomes Ferreira, filho de Alexandre Ferreira, o pai da Universidade Livre (a primeira) e dos Inválidos do Comércio.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Refastelado na otomana

Cansado, esgotado e exausto, dia feriado é oportunidade para dormir impunemente, horas a fio. Acorda-se com a boca azeda das obrigações por cumprir, a cabeça pesada pelo agora como vai ser. No intervalo fui ao IKEA comprar uma cadeira para a secretária do meu rapaz. Estonteados entre as filas volteantes de compradores, insectos alados hipnotizados pela luz do consumo, ali um organizado casal media rígidas estantes para os livros encadernados do Círculo, aqui umas desajeitadas jovens apalpavam fofas almofadas para espalharmos pelo chão, diziam, ao fundo da loja, refastelava-se uma avózinha em otomanas para da marquise se fazer mais um quarto, quando vierem os netos a visitá-la.
Aos tropeções, vivi a tragédia adolescente do candeeiro com ou sem luz e halogénio. A meu lado, uma quarentona e muito, mamã tardia, perguntava-me qual a diferença entre dois focos para mesinha de cabeceira. «Acho que são iguais», respondi-lhe por não conseguir acertar na diferença. «Não faz mal, vai este, que, para o que é, tanto serve», retorquiu-me, pegando num a esmo.
Foi aí que vim dormir até às cinco. Como é para esquecer, tanto serve também.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Comigo

Hoje eram cinco a manhã e já andava pelas ruas, dormidas poucas horas e pelas nove em Setúbal, na livraria «Novo Mundo», e procurar, para um amigo, o último «Cartas ao Léu», mais um exemplar da epistolografia do Luiz Pacheco. Amigável, o livreiro disse-me que aquela edição está a acabar, aquele era o último exemplar que lhe restava. Agora, depois de um dia de servidão, são onze da noite e estou a cair de cansaço, a tentar folhear uns livros que comprei entretanto em Matozinhos. Um deles, cuidadosamente encadernado são os versos do Manuel Laranjeira. Agora reparei que no dia dezassete de Janeiro do ano passado tinha escrito sobre ambos, o Pacheco e o Laranjeira. Com a passagem do tempo, esqueci-me, e bem assim que o autor dos versos que agora me acompanham se matou com um tiro na cabeça aos trinta e quatro anos de idade. O livro de versos chama-se «Comigo, versos de um solitário», o último dos poemas «A morte». Trágicamente premonitório e talvez ninguém tivesse reparado.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

A sensação amável

Este fim de semana estive em Matozinhos, entre escritores e outros artistas. Foi um refrescamento amigável, ver quem são os que escrevem a escrita com que viajamos pelo mundo do sonho, do consolo e da fantasia. O encontro era precisamente dedicado à Literatura e Viagens.
Ao ter descoberto que tinha dado aulas, no longínquo ano de 1976 e na Faculdade de Direito de Lisboa, sem me lembrar já disso, ao Germano de Almeida, não só me surgiu o ímpeto de ler mais livros dele do que os que já li; veio, lenta e difusamente, a sensação reconfortante de que ainda tenho um mundo inteiro para viver, o das coisas que eu não sabia, não recordava ou a que não tinha dado importância. Viajemos pois!

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Um só palavra

Reinaldo de Azevedo e Silva Ferreira, o repórter X, que morreu no dia quatro de Outubro de mil novecentos e trinta e cinco confessou, numa crónica ao jornal «O Diabo», então dirigido por Ferreira de Castro, o seu embaraço ao sentir-se «acartazado» em romancista policial.
Há muitas palavras que eu nem sabia que existiam na língua portuguesa, outras que se calhar nem existem mesmo: «acartazado» é uma delas.
Esta descobri-a, hoje de tarde, num consultório médico, ao ler o livro número setecentos da Colecção Vampiro, dedicada aos mestres da literatura policial, que amigavelmente publica, nesta sua edição comemorativa, as «Memórias de um chauffer de táxi».
Claro que se eu tivesse lido «A Estilística da Língua Portuguesa», de Manuel Rodrigues Lapa, já saberia que «numa simples palavra se pode resumir todo o universo». A ter de escolher, resumiria tudo num «obrigado», a tudo, a todos, a ti, mesmo à Colecção Vampiro, minha companhia de angústia.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

O corpo e o muro

Em Outubro de 1968, andava eu já pela Faculdade, ofereceste-me o teu primeiro livro de versos, «O Corpo e o Muro». Estudámos ambos o possível no Liceu, íamos esperar, pacientes, a camioneta dos jornais que nos chegava de Lisboa e passeávamos, horas a fio, pelas ruas desertas de Viseu, conversando intermináveis palavras de inesgotáveis assuntos. Foi graças a ti que encontrei na literatura o sentimento, nos livros as ideias, no ler um sentido para a vida solitária e desnorteada.
Hoje, Luís Miranda Rocha, disseram-me que tinhas morrido. Há séculos que não sabia de ti. Agora que finalmente soube, a tristeza afundou-se em mim, o mundo mais vazio, a juventude envelhecida.
Hoje à noite, devolvido ao meu trivial prosaico, lembro-te um verso, o momento da despedida: «Digo-te adeus adeus e digo-te adeus a ti e é como se dissesse adeus também a isto tudo a esta cidade donde me vou e onde ficas».
Estamos a ficar sem amigos, uns porque morrem, outros porque se desiludem de nós. Um destes dias, os que sobejamos, deixamos de fazer falta a este mundo e marcamos encontro na cidade para onde vais.

sábado, 7 de abril de 2007

O tempo e a volta

A propósito do livro que o médico Alfredo Ribeiro dos Santos dedicou a Leonardo Coimbra, Jesué Pinharanda Gomes escreve, em prefácio: «a perda de tempo é propriedade de Lisboa, que é, em si mesma, um puro tempo perdido». Lembro-me disto, felizmente ainda a tempo, neste momento em que estou a pensar ir dar uma volta, talvez a São Pedro de Moel, a terra de Afonso Lopes Vieira, para a leitura de cujo Amadis de Gaula ainda não consegui encontrar tempo, talvez por viver em Lisboa.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

O ser exibicionista

Eu não sei se cheguei a dizer aqui que li o «Calçada do Sol», o pequeno livro biográfico que o José Gomes Ferreira escreveu sobre a sua meninice ou se cheguei a dizer que ainda o não devolvi à estante. Nada disto, fazendo parte do meu íntimo doméstico teria importância não fosse uma circunstância, o estar lá escrito «odiava esse ser exibicionista, mas nunca logrei estrangulá-lo» e a frase perseguir-me como se dissesse «cala-te e pára lá de te lamuriar em público». Hoje o livro regressa para junto dos outros, os definitivamente lidos, que eu quero sossego comigo e paz com os outros.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

A sombra

De quando em vez uma pessoa perde-se. Quando dá por si anda por aí, sem rumo, com a ideia de que deveria ter outra vida a seguir àquela em que se vai esgotando.
Os meus pontos de referência são os livros que vou acumulando sem ler e mais os que vão ficando lidos até metade.
Esta noite, envergonhado enfim de tanta ausência, peguei no «Tempo Escandinavo», o livro que José Gomes Ferreira escreveu por causa da circunstância de, aborrecido com o Direito, ter sido cônsul na Noruega.
O exemplar que tenho encontrei numa alfarrabista em Campo de Ourique, chamada Crisálida - de que já falei aqui - e ainda é na edição da defunta Portugália, de Agostinho Fernandes esse mecenas que o ganhava nas conservas de peixe para o afundar no mar da cultura.
Folheei-o, uns contos pelo meio à espera de mim, outros já sublinhados, pois que lidos já nem sei há quanto tempo.
É um livro macio de sensualidade, não a do amor ginástico e secreto, mas o de «um turbilhão de bocas vivas», «com unhas nas palavras e nos silêncios».
Foi lá que vi que os portugueses se convencem «que possuem o segredo de embebedar as mulheres com palavras».
Livro magnífico, narrativa de solidão e amor efémero em que «a sombra tem carne feminina», prometo continuar com ele, mas não hoje, compreende-se!

domingo, 25 de março de 2007

A hora perdida

Isto de mal ler jornais e nem ver televisão, para já não falar no ouvir rádio, qu raramente ligo, passando agora os dias a escrever, tem de acabar. Hoje acordei e já tinha passado uma hora sem eu ter dado conta. Ainda por cima é o dia do meu aniversário. Fiquei de repente, com essa hora perdida, mais velho sem ter dado conta.

segunda-feira, 19 de março de 2007

O dia do pai

Hoje é dia do pai. E eu, que tenho uma vida de filho e uma saúde de avô, corro o risco de não chegar a netos. Restam, é certo, as mulheres, de quem se é inocentemente filho e com quem se fazem maliciosamente filhos. Hoje é o dia de me lembrar disto tudo. Resta-me plantar uma árvore, porque livros já escrevi. Se for alta, ainda me penduro nela, não enforcado - cruzes ! - mas a fazer elevações e flexões abdominais até que, condoídos com a flacidez do que de mim sobeja, surjam no horizonte, uns quantos dos amigos que restam e me levem - salve-se a dignidade do que fui! - para o lar dos sem família dos órfãos e dos estéreis, a legião dos sem dia certo nem data a comemorar.

domingo, 18 de março de 2007

Confissões estúpidas de uma estupidez!

Não vejo televisão, agora quase nem leio jornais, tenho livros indispensáveis a meio, por ler, e outros, exigentes, a um terço, por escrever. Em alguns dias dou comigo inutilizado porque a tensão arterial resolveu disparar, sem eu compreender porquê, outros moído de dores que imagino serem reais, porque as sinto, imaginárias por já nem acreditar que tenham voltado. No meio de tudo isto deram-me ontem um convite para uma exposição sobre a vida e obra de Ruben A., na Fundação Gulbenkian. Descobri hoje, dia 18, ao lê-lo, que tudo foi no dia 15, no dia 16 e no dia 17. Nem sei em que vida estúpida estaria eu sufocado nesses dias que não fui a nada, nem que estupidez de vida me fez nem ter dado conta que isto estava a acontecer. Comprei, volume a volume, tudo o que ele escreveu; consegui mesmo encontrar a sua compilação dos arquivos da casa de Windsor e os novos arquivos da Casa de Windsor e mais os escritos sobre o D. Pedro V. Li-lhe o «Kaos» e hei-de ler a «Torre de Barbela». Num dos volumes do «Cores», porque, devido a um erro de encadernação tinha folhas repetidas em vez de folhas que ali faltavam, pintei a aguarelas o vulto de um «dandy» que nem sei quem é. Diga-se que eu não sei pintar a aguarelas. Não sei qual a estupidez que me faz não saber, mas de facto não sei. Coitado do Ruben A.: reunida que tenho a sua obra, lá lhe perdi a sua vida. Foi na Gulbenkian. Moro mesmo ao lado. Sou mesmo estúpido, reconheçam!

quarta-feira, 14 de março de 2007

O preciso

Conheci um homem a quem tinham prometido, num momento difícil para si, mundos e fundos de apoio. Na hora da verdade, compreendeu que estava sozinho. Inteligente, deve ter percebido a minha perplexidade ante a sua tranquilidade compreensiva quando tudo ruía à sua volta e os amigos lhe faltavam. «Sabe, quando se precisa, não nos podemos zangar muito», disse-me, mansamente, como se não ensinasse uma regra sapiente da vida. Havia só uma coisa que ele, sábio como era, não sabia: não precisava!

sábado, 10 de março de 2007

O desejo de ler

Vim passar o fim-de-semana com a ucraniana Clarice Lispector, uma mulher extraordinária, que nos acorda, lendo-a, o sentimento e o desejo de a ler. Importa que eu explique, para que não haja equívocos que ela, uma mulher que escrevia para se manter viva, faleceu em 1977, depois de uma vida em grande parte esgotada no Brasil. Li algures que teria mau feitio e repentes de veemência exaltada, mas, como ela sabia «ninguém se lembra de que os elefantes, de acordo com os estudiosos, são criaturas extremamente sensíveis, mesmo nas grossas patas».

quinta-feira, 8 de março de 2007

Volta meu cavalo alazão

Eu que levo a vida a rir, só vejo gente triste à minha volta! Pensei nisto e nisto penso em cada hora de sorriso em cada noite de gargalhada.
Ó vós, gentes de cenho carregado, alma sorumbática, que sois musgo nas paredes da vossa alma! Acordai, escancarando-as, de par em par, as janelas do entendimento e percebei, enfim! Façam como eu: rir, rir até mais não! Mas atenção, riam-se de vós e do que parecem. Cavaleiros da triste figura, apeados de montada, escoicinhai nos desgostos passados e parti, esporeando o corcel da vida presente, à desfilada, montanha abaixo, rumo futuro para a terra do nunca, sulcando-as, pedregosas, as veredas do Destino!
Vereis que vale a pena. Para quem não tiver arcaboiço poético, há a Feira Popular, julgo eu, ou até essa, lunapark barato dos sem eira nem beira dos sentimentos fortes, também já desapareceu?

domingo, 4 de março de 2007

Tempo afectuoso

O Francisco da Conceição Espadinha, da Presença, editou agora um livro de homenagem ao António Alçada Baptista. Tinha-o visto na montra da Bertrand da Avenida de Roma, à noite, mas a livraria estava fechada. Procurei-o, alvoroçado, ainda essa noite na Barata, logo ao lado, mas tinham-se-lhes esgotado os poucos que tinham. Esqueci-me, entretanto. Ontem, na Bertrand do CCB, lá estava à minha espera, para me animar a alma maltratada.
A história do homenageado é conhecida: advogado, fartou-se da advocacia; com o dinheiros de umas heranças, comprou a livraria Moraes, que editava livros de Direito, mas fê-la rumar a outras paragens editoriais, pelas enseadas do pensamento, nos baixios da cultura, notabilizando-a mesmo no mar encapelado da poesia.
Alçada Baptista arruinar-se-ia trazendo para a vida portuguesa obras de pouca leitura, custeando «O Tempo e o Modo», a «Concilium» e tanta outra iniciativa sua e de outros do «humanismo cristão», aqueles a quem João Bénard da Costa chamou num pequeno livrinho de memória, «nós os vencidos do catolicismo».
Ontem ainda, entre a tarde e a noite, consegui ler o livro, para adormecer, já de madrugada com a incómoda sensação de como um homem pode ser descrito mas tantas vezes exilado pelos que dele não estão próximos. Alguns dos que ali escrevem e que tão próximos estiveram, é vergonha que tão distantes pareçam ter estado, a escrita seca, as palavras de palha, frases de panegírico obituário, mesmo historietas banais com que se decidiram sem remorso a colaborar.
É nisso que entendimento não contábil com o mundo», referido por Leonor Xavier, na sua contribuição, me fez sentido, por recortar o biografado, pela diferença, no mundo dos outros.
Acordei hoje para vir dizer isto aqui, com uma tristeza na alma vinda do que li num livro que se chama «Tempo Afectuoso».O António Alçada Baptista, porque é um bom homem, calculo, esteja contente, forma social de se parecer feliz. Eu vou ler o que me falta dos livros dele.

sábado, 3 de março de 2007

Uma vida debalde

Como todos os defectivos sentimentais, Fernando Pessoa era um esfaimado por afectos. Numa das suas cartas a Ofélia Queiroz lamentava-se, tristonho: «merecia ser mais bem tratado pelo Destino do que estou sendo - pelo Destino e pelas pessoas».
Mas é pela ironia amarga que Nogueira Pessoa - como lhe chama o meu amigo que é sábio - melhor exprime a amargura solitária da sua alma enganadoramente múltipla.
Foi em cinco de Abril de mil novecentos e vinte, numa carta ao seu «bébé pequeno e rabino», já depois de bebida, sozinho, meia garrafa de Porto: «adeus; vou-me deitar dentro de um balde de cabeça para baixo, para descansar o espírito; Assim fazem todos os grandes homens - pelo menos quando têm - 1º espírito, 2º cabeça, 3º balde onde meter a cabeça».

Ridícula talvez, de amor seguramente, esta carta, a pedir ao tempo que passe e a ela que soubesse ao menos como amá-lo.

P. S. Já tinha escrito isto hoje ao começo da manhã quando li no livrinho «Aspectos críticos da língua portuguesa», de Sandra Duarte Tavares, leitura de sábado, obra minúscula que cabe num canto da pasta, que não existem na língua portuguesa palavras que contenham dois acentos, pelo que se escreve «bebé» e não «bébé». Atenção, porém! O «til», explica-se no mesmo trabalho, não é um acento gráfico mas uma marca de nasalidade, indicando ditongos ou mesmo só vogais anasaladas e por isso mesmo se escreve «bênção» e não «benção». Abençoada língua esta em que, por melhor que se tente, se está sempre errado, mesmo que seja a falar da Ofélia «Queiroz» ou será «Queirós»?!

quinta-feira, 1 de março de 2007

De que cor é sentir?

Interrompi de novo a leitura do livro sobre O'Neill, porque vi, já tardiamente, um livro com cartas do Fernando Pessoa, escritas entre 1916 e 1925. São textos breves, dos que se lêm antes de adormecer e que por vezes nos tiram o sono. Logo a primeira, escrita a Mário de Sá-Carneiro, no dia 14 de Março, às nove horas e dez da noite: «estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há um presente imóvel com um muro de angústia em torno». Eu nem sei o que diga quando leio esta imensão de ser numa frase só.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

O leitor incessante

Isto de eu vir aqui falar dos livros que ando a ler tem talvez a ver com a vontade de que os os outros os leiam também. Claro que há nisto uma tripla vaidade, digo para os que nas condutas alheias só encontram o lado pérfido, raramente o sincero: primeiro, é eu supor que há quem me leia, segundo, o pensar que se interessam pelo que eu leio, terceiro, julgar que há interesse no que eu digo ter lido.
Acordei esta manhã a pensar nisto mesmo, pois consegui acabar a leitura do breve manuscrito de George Agostinho Baptista da Silva que devido ao cuidado amigo de Amon Pinho Davi e Romana Valente Pinho foi recuperado do espólio do mestre.
O que aprendi eu ao ter lido? Por um lado, aquelas coisas pequenas que ou se esquecem de vez ou brilham, fugazes, em conversas ao jantar, fazendo os outros pensar que somos gente culta, quando apenas um sótão de minudências espantosas: por exemplo, que ao referir-se uma coisa de São Salvador da Baía se diz «soteropolitano», vá lá saber-se porquê, e que Barca d'Alva provém de Barca de Este e que assim se chamou até ao século dezasseis, o que faz sentido pois é de leste que nos vem o sol.
Mas o que tornou este pequeno livrinho uma fonte de pensamento, raiz daqueles momentos agónicos ao passar pelos quais não voltamos a ser como éramos, são aqueles surpreendentes acasos de escrita como os que aqui ficam hoje sábado, dia de preguiça e de rebeldia contra o fazer quotidiano.
Li, perplexo pois, num círculo infinito de pensar, que num mundo que «recua ao nada», «se eu pudesse voar do além para o aquém, jamais veria o princípio do mundo, mas ele todo já sendo».
Percebi com a minha cabeça dispersa, depois, rememorando o pessoano «tudo é o que é e assim é que é» que «os sentidos comuns de inventar ou descobrir são abusivos: tudo já estava».
Comovi-me no meu coração maltratado, a propósito da Maria da Ponte, guarda da linha do Minho e Douro, que há Homens «alguns tão bons que mereciam ter sido animal, papoula ou árvore, mas em mundo em que não houvesse homens, para que os não domesticassem, nem colhessem, nem podassem».
Prometi-me, enfim, com a minha vontade incerta, não ser mais como aquelas pessoas que «dão-se a melancolias e abandonos que os desviam de se cumprir o que são, como portugueses e como cidadãos do mundo ao mundo dados».
Como já notou quem me lê, se me lê e se gosta do que lê, eu há muito que não escrevo por ter descoberto nada haver mais para dizer. Leio, leio, incessantemente, escrevendo nos livros dos outros o que eles neles escreveram e dizendo-me, ruminante e conformado, o «é isto mesmo», fonte de todo o silêncio, mãe de todo o saber.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

A vida obrigatória

Diz-se dos amores inesperados que se anda neles «embrulhado». Ora eu, infiel ou talvez inconstante, interrompi a leitura do livro com que andava repito «embrulhado», porque encontrei numa livraria em Setúbal um livro do Agostinho da Silva, o «Caderno de Lembranças». O livreiro era amigo do professor e tem dele, por isso, uma fotografia do filósofo errante não consigo, mas com o seu filho mais miúdo. Pequeno, o livro é um convite para que o tenhamos como companhia num intervalo da vida obrigatória e foi nele que vi que teria valido a pena viver «tendo à volta uma muralha de livros tão alta quanto possível, para que me escondesse bem da vida que por aí vai». Por mim, comecei já a reunir primeira fieira de pedregulhos livrescos, em torno da cama, barricando-me nela.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

A biblioteca itinerante n.º 17

Ao ter lido, durante este fim de tarde, mais umas folhas da biografia do Alexandre O'Neill, fiquei a saber que, em certo momento de aperto financeiro, ele foi empregado em uma das carrinhas das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian, no caso naquela que fazia o percurso pela zona de Sacavém e Loures. O Herberto Helder também por ali andou, ganhando para poder escrever.
Lembrei-me então da minha adolescência em Abravezes, perto de Viseu. Morava ao lado do cemitério. Entre esse lugar de plantação de falecidos e a «tasca do Zé da Bucha» ficava a igreja e o seu invisível cura; mais abaixo a mercearia da Cilinha, que tinha um cão paralítico por ter sido atropelado! De quando em vez, quebrando a monotonia do lugar, lá vinha a carrinha da Fundação, atulhada com livros, para empréstimo domiciliário. Li, com catroze anos, as coisas mais inacreditáveis para a minha idade, como um livro do Husserl de que compreendi nada e de que nem o nome me ficou. Terá sido então que me caíu nas mãos o «Rumor Branco» do Almeida Faria, que me transtornou a cabeça em matéria de literatura. Esta madrugada, em vez de estar a dormir, ou agarrado à minha profissão, estou aqui a lembrar-me disto, como se numa noctívaga fenomenologia do espírito.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

O café dos livros abandonados

Estive hoje a olhar para eles: uns lidos até metade, outros à espera que eu os leia. Poucos, muito poucos, aqueles que nunca lerei. O Jorge Luís Borges metia em sacos os livros de que se queria ver livre e abandonava-os, como se perdidos, nos cafés. Claro que muitas vezes lhe acontecia aparecer-lhe o empregado do café, solícito, a devolver-lhe os livros, pensando que, distraído, se tinha esquecido deles. Como se sabe o Borges ficou progressivamente cego e imagino que esta cena sucederia na altura em que ainda conseguiria ler alguma coisa. Comigo, sou eu o empregado do meu café dos livros abandonados. Hoje apareci-me [este verbo tem de ter, para que eu seja feliz, a forma reflexa, diga o que disser a gramática!] com o João Miguel Fernandes Jorge e o seu livro de poesia «Termo de Óbidos». Tinha-o lido, como tantas vezes faço, de trás para a frente, sublinhando aqui e além. A última linha anotada dizia as «letras impressas guardam para nós a escrita».

domingo, 18 de fevereiro de 2007

O medo de me surpreender

Trouxe-a para casa, à biografia do Alexandre O'Neill. A biógrafa nasceu em Viseu, onde, vindo de África, eu nasci interiormente. Comecei ontem a leitura, embriagado naquela vida de boémia desconchavada, um sibarita entre tabernas e alfurjas, o prego e os calotes como modos de resistir. No meio de tudo isto, a recusa do modo funcionário de viver. O'Neill morreu no dia 21 de Agosto de 1986, um dia encalorado. Tempos antes, ressacado de dor, dissera numa entrevista que a morte é uma fuga definitiva a todas as chatices. Hoje é domingo, faz sol, e cá continuo, vivo, a ler. «Quem se destrói, não cansa». Pois não. Tal como ele e os outros escreveram para dizer porque eram surrealistas, perdi o medo de me surpreender.

domingo, 21 de janeiro de 2007

Alucinado

Hoje andei a entregar cartas. É bom isto, o fazer de paquete, e saber assim onde são as portas e quem as abre. Nada como o trabalho braçal para que os intelectuais saibam quanto custa a vida ao povo, dizia o presidente Mao. Foi por isso que dei com ele, a farda cinzenta de segurança, uma barba a revelar cansaço, dentro do seu casinhoto, conformado, neste entardecer de domingo, fumando, tranquilo, o seu cachimbo. Lembrei-me da lagarta do Alice no País das Maravilhas, lançando ondas multicolores do seu hookah, numa antecipação psicadélica com que a mente genial de Walt Disney enriqueceu o primitivo desenho de John Tenniel. Lembram-se da história: metade do cogumelo fazia crescer, a outra metade encolher. No caso dele, estava do lado menor da vida, recebendo cartas, entre fumos de resignação.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

A próxima vez

O senhor Artur estrebuchava, aflito, os seus oitenta e tal anos tornados naquele escanzelado corpo, em convulsões. Entubado, a respirar artificialmente, monitorado em todos os sinais vitais, ei-lo qual peixe moribundo em busca de ar. Nervosa a máquina de vigilância gritava como uma sirene de bombeiros, a luz vermelha piscava insistente. «Tenham calma, tenham calma, que ele aguenta-se», comandava um médico, no que parecia a antevisão do improvável, tais eram os gritos da máquina, o chiar, trepidante, da maca, os ossos, trémulos, num feixe de dor. «Senhor Artur, senhor Artur», chamava-o, crispada, a enfermeira, a voz da própria vida a reclamá-lo. Lentamente, o senhor Artur, parou de tiritar. Abriu de súbito os olhos como se surpreendido com todos e de todos ausente. Regressara até nós, e ficaria connosco à espera da próxima vez. Feliz comigo, dei-me alta. Cá fora o mundo pareceu-me um pouco melhor.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Alma comburente

Começo a suspeitar que há por aí uma Natureza demoníaca e viral que se tenta apoderar dos corpos melancólicos e se diverte a esfacelá-los. Amassa-lhes a ossada, para que acordem bem moídos com a pancada que deviam ter levado por conta dos pecados ainda impunes, faz-lhes chegar a noite a tiritar sem ter febre. Um tipo mesmo com bonomia na alma e humor não bilioso não se salva. Hoje acho que consegui escapar, fugindo para a rua, quase em pijama. Em frente a mim um casal de namorados beijava-se, febril. Eis uma forma de se ter saúde, o corpo animado em combustão!

sábado, 6 de janeiro de 2007

O legado de Hemingway

O médico chegou-me, enfim, na forma de um livro. Ireneu Cruz, médico gastrenterologista, escreveu um estudo sobre a morte, por suicídio, de Ernest Hemingway. O autor de «O Velho e o Mar» e controverso prémo Nobel da Literatura, teve um final de vida decadente, a sua estrutura física minada pelos excessos de vida, o seu psiquismo possuído pelo desejo libertador de morte. Perdida aos poucos a memória, incapaz de escrever, Hemingway viveu a longa agonia de um sofrimento atroz, até que um dia, com um tiro de caçadeira se restituiu à paz. Numa das suas cartas confessou sentir-se perseguido por um esgotamento nervoso assassino.
Neste seu estudo o ilustre médico pergunta-se, entre outras coisas, se não teria sido o tratamento que lhe foi instituído para debelar a hipertensão a causa da depressão que o liquidou.
Interessante exercício necrológico, autópsia sobre a morte surpreendente, eis a medicina que salva, a medicina que mata.
O livro chama-se «Hemingway, o seu último legado». O legado, a sua dádiva, teria sido morrer, pois ante isso «redobrou-se a atenção clínica para uma mais cuidadosa avaliação e prevenção dos efeitos colaterais dos fármacos» usados no seu caso. Em nome dos que ainda não fomos mortos pela cura, obrigado, pois, «Papá».

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Tussa pois!

Aquela anedota do Raúl Solnado do sujeito que vai ao médico e este lhe diz «tussa» e ele tosse, ao que o médico repete «tussa outra vez» e ele de novo tosse, ao que o médico, enfim, lhe diagnostica «o seu mal é tosse», eu vou mandar encaixilhá-la como o diagnóstico por antonomásia. No mais, descobri outra coisa: o nosso organismo tem uma capacidade inata de se curar, mesmo sem remédios, sobretudo sem eles. Às vezes morre-se da cura, ou do esforço de tossir. Mas é, como diria, mais ecológico e, ao menos nisso, estamos com o politicamemte correcto! Tussa, pois!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Só pode ser no gozo!

Primeiro dia do ano, segunda-feira. Normalmente é a altura de se prometerem coisas novas, normalmente a nós próprios, assim mesmo sem grande convicção e prudentemente sem testemunhas. Desta vez resolvi prometer que na próxima incarnação vou ser feliz. Nesta já não tenho tempo a não ser para tentar ainda, se possível, viver contente.
Prometido que está, vou tentar começar na próxima semana: nesta bem gostaria de me iniciar no contentamento, mas para além das adversidades, contratempos e má catadura, há os outros, os que acham que agora é a vez deles gozarem a vida e, claro, nesta vida não há gozo que chegue para tantos!

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Fé em Deus e talvez uma aspirina!

Encontrei-a, vinha de um médico, atormentado com o descobrir afinal que doença é esta que me roubou as energias e a vontade de as recuperar: era a biografia do jesuíta Padre Vaz Pinto. Estou a lê-la esta noite. Se é possível formar uma opinião ao ter lido apenas cento e quarenta páginas de quatrocentas e trinta e poucas que a obra tem, aqui vai: acho o livro superficial onde ele se esperava profundo, vulgar onde deveria ter sido complexo.
Não falo do mundo «coquette» que se revê em tantas daquelas páginas e que nelas é chamado nominalmente, para o qual a frase «Deus fez-se homem para que o homem se fizesse Deus» deve dar um travo de glória divina momentânea num quotidiano trivial de mundanidades que uma missa domingueira beatifica.
Falo sim do problema existencial de uma vocação, a explicação da mística que leva um finalista de Direito, com 22 anos, em 1965, a entrar no duro Noviciado da Companhia de Jesus e no mais que se lhe segue segundo a formação delienada por Santo Inácio de Loyola. Lê-se o livro e não há uma chama que convença, uma razão que se imponha, um apelo que se faça entender.
Mais! Como era de esperar de quem diz que na hora de entrar «ia morrendo por dentro, ia-me despedindo dolorosamente de todos e de tudo, como se uma vida de que tanto gostasse desparecesse como o Sol, lenta mas inexoravelmente no horizonte», surge-lhe logo, ante os horrores do mundo, a crise de fé, a dúvida sobre a Omnipotência ou a Suprema Bondade daquele Deus que jurou servir.
É aí que o livro supreende e desanima. Vaz Pinto, padre, filósofo, teólogo, homem do mundo e da cultura, colocado perante o dilema-tentação de saber como se compatibiliza um Deus que é o Supremo Bem e o Supremo Poder com a injustiça, a miséria e o sofrimento da humanidade, contentou-se e com isso regressou à tranquilidade do espírito e à paz do coração, com esta forma cândida de singeleza e ingénua de crendice: os santos, sim, os santos, se continuaram fiéis a Deus, é porque a solução existe. Vai daí, tudo se resolve assim: «aceitei os meus limites e o intransponível mistério de Deus». Ponto final.
Vou continuar a ler e amanhã já nem volto ao médico. Achei a cura do meu mal: um insondável mistério de Deus! À cautela, talvez arrisque, mas só uma prudente aspirina, não vá, herege, arder em febres, nas fogueiras infernais!

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Uma alfarrabista

Foi hoje em Sintra, na Volta do Duche, num recanto de uma curva, antes de se chegar à estação. Aberta em dia de Natal, uma livraria-alfarrabista. A juntar à surpresa do encontro, a magia do local, o fantástico das coincidências. Nem me lembro sobre o que conversámos, pelo canto dos olhos encontrava-os, livros que tenho, livros que fui perdendo, livros de que me desapossaram. Ali um Gandra, além um Viterbo, depois os da editora de Colares, que agora é aqui, «do outro lado da rua». Tudo se tornou familiar e mais ainda com a raridade de um nome raro: chamava-se, tal como a minha filha, Adriana, Maria Adriana! Casada com um inglês, Mister Jones, Maria Adriana Jones é conhecida pelos miúdos locais como a Indiana Jones. Na selva dos livros, ela move-se entre os Salteadores da Arca Perdida. Vê-se pelo brilho nos olhos que ama os livros, a ponto de os presentear com a porta aberta ao mundo no Dia de Natal.

domingo, 24 de dezembro de 2006

As primeiras folhas

Regressei ao primeiro livro da Dulce Cardoso, de há muito deixado a meio, a leitura interrompida. Lembrava-me de cena onde ia, o homem na praia com o caco de vidro cravado no pé, o espectáculo tétrico de levarem-no, num dia de sufocante canícula, o metal e o sol combinados com o alcatrão amolecido, para um indiferente hospital. Li umas folhas antes de cair, fulminado de sono, «o passado demora sempre algum tempo a ser reiventado». Tal como a vida, as primeiras folhas já lidas não são, pois, necessariamente assim.

sábado, 23 de dezembro de 2006

A antecâmara

Descobri, ao terminar o segundo volume das memórias do José Gomes Ferreira, hoje que consegui recomeçar a leitura, neste dia em que também sinto «vontade de despir o corpo»: «tenho às vezes a impressão de que estou na antecâmara dum médico - à espera da minha vez. Estou doente de vida. Espero ser recebido um dia...». Acreditem, pois! Espero mesmo ser recebido um dia, doente de vida!

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

O sentimento do «já posso?»

Por esta altura havia na cidade a azáfama formigueira por causa de embrulhos, laços e prendas, ceias, almoços e visitas forçadas. A esta hora, na cidade, subiam-se escadas e atulhavam-se cestos, na ânsia ilusória de se estar bem, sendo-se bom. Por esta altura a cidade afinal não mudou, Eu, estou aqui, a lembrança infantil de uma mesa posta, onde em nada se poderia tocar. A esse sentimento do «já posso?», seguia-se o do «que será?», vivido na noite que as prendas vinham pela chaminé. Tudo isso foi há muito tempo, convenci-me hoje, de facto, há demasiado tempo.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Agulha em palheiro

A Natureza às vezes tem pena e adoece-nos. Sucedeu. Incapaz de trabalhar, defendido por cobertores, estive a folhear uma fotobiografia do José Gomes Ferreira, detendo-me pelo tempo em que ele, concluído o curso de Direito, esteve como cônsul de Portugal na Noruega. Talvez por causa dos passeios nos fiordes, piorei.
Agora que a noite chega ainda consigo, com a febre a subir, acompanhar a paixão de Fernando por Paulina, descrita por Camilo Castelo Branco. Fernando era o filho do sapateiro do poeta Bocage, o que lhe pagava em botas uns versos que fizeram despontar na sua eleita as primeiras flores do amor. Paulina era um dos frutos de um matrimónio do desembargador Briteiros que sabia «de jurisprudência o necessário para convencer-se do pouquíssimo que necessitava saber um magistrado palaciano, benquisto para as alçadas, e braço inflexível para hastear patíbulos».
Amanhã gostava de estar pior! Educado espartanamente, associando desde garoto «vida de cama, vida de lama», perdia-me por aqui, «atrombando na palha»!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Adeus!

António Gedeão foi um poeta precoce aos cinco anos, que só recuperou o dom notável da escrita pela meia idade. Aos oitenta iniciou um diário, fechando-o dez anos mais tarde, após mais de mil e cem páginas, em 35 linhas, com um espaço em branco no final para a data que fosse a da sua morte e, a rematar, a palavra tão nossa: «Adeus». É um testemunho a pensar nos seus tetranetos, para que eles tenham ali, em folhas de papel pautado, uma imagem do mundo que ele viveu.
Soube-o este fim de semana pelo JL, que de quando em vez ainda consigo ler.
Foi no Jardim da Estrela, entre velhos vagueantes, para quem o preço do café ter baixado cinquenta cêntimos teve o sabor de uma alegria domingueira. «É agora no Inverno» explicava a senhora do balcão, «porque isto tem estado fraco», justificava-se. A meu lado, dividida entre o colesterol e a gulodice uma avó olhava para uns vistosos brigadeiros, impantes de chocolate. «Leve um para o lanche», incentivava-o, solícito, o empregado. «Não o consigo comer todo sozinha», respondeu-lhe ela. Ficou-me no ouvido a palavra «sozinha», enquanto alçado numa cadeira pernalta num canto escondido do café lia: «uma das características da vida actual é o desamparo, a solidão, o desapego, a monotonia, a indiferença, o cansaço».

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

A transsubstanciação

A arte de escrever com pudor, o saber-se da subtileza a arte, só o alcançam almas eleitas, em momentos de excepção. Sebastião Artur Cardoso da Gama. «Andam mais as minhas mãos do que andam os nossos pés», escreveu, num momento só, desprendido de si. Fecham-se os olhos e quase que se sente, táctilmente, do que ele fala, como se de súbito sob o verbo surgisse o corpo.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

A Pátria entrevada

As fotobiografias são uma espécie de vida emoldurada, na saleta de estar de uma vida já vivida em tardes friorentas, de luz baça e recordações indiferentes. Mas eu insisto em comprá-las e em lê-las, mesmo quando as acho aquém dos biografados.
Há dois dias, num intervalo nem sei de quê, comprei a do Almada Negreiros. Hoje, vindo dos confins do dever ser, essa masmorra punitiva onde ganho musgo na alma, comecei a folheá-la.
Sentado na cama, a uns metros de mim, há a exposição do Amadeu Souza-Cardoso, que ainda não visitei. Sobre ele escreveu Almada, em manifesto: «Quando um português, genialmente do século XX, desce da Europa, condoído da Pária entrevada, para lhe dar o parto da sua inteligência, a indiferença espartilhada da família portuguesa ainda não deslaça as mãos de cima da barriga».
As fotobiografias podem ser tudo, uma vida assim, vista do remorso condoído de uma família desfeita, é que já não é nada, nem a indiferença sequer espartilhada.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Um diário inventado

Desci a rua devagar, atrás de mim automóveis acumulavam-se, impacientes. Enfim, quase imperceptível, ei-la ali. Subiu-me à consciência exaltada, vindo dos armazéns pulvurentos da memória, a ideia clara de que lhe já lhe tinha visto a montra, ao passear-me por ali.
Consegui um quarteirão depois um lugar para estacionar. Regressei ao local da surpresa, agora a pé, o passo estugado, os automóveis ainda atulhados na rua, sem paciência: uma livraria, palacete aristocrático de alfarrábios, lar de edições esgotadas, asilo de livros em segunda-mão.
A dona vestia o casaco, depois de um monótono dia sem clientes. Gentil, ao ver-me entrar, disse que tínhamos tempo.
Perguntei-lhe pelo José Gomes Ferreira. Tinha-o todo.
Por causa disso, estou esta noite a tentar ler a «Imitação dos Dias», um diário inventado, também «com restos de gritos na boca a exigirem futuro».
Agradeço a todos, os que me disseram que a procurasse ali, a ela por ter adiado o fim do seu dia. Chama-se Crisálida, borboleteando por entre a cultura em papel. Mostrou-me, como se enamorada por ele, um estudo sobre o Wenceslau de Morais, em papel de arroz, as folhas encadernadas pela outra margem.

domingo, 19 de novembro de 2006

A Natureza amiga

«Atirar bolas de algodão para poços de cortiça». Foi a última frase que me ficou do livro do José Gomes Ferreira que estou a ler. É assim o começar dos revoltados mansos, conformados primeiro com a surdez alheia e lentamente com a sua própria mudez. No fim, chega um manto de nevoeiro, como no dia de hoje, domingo, a Natureza, amiga, a querer-nos abraçar, escondendo-nos dos outros o rosto do desespero.

sábado, 18 de novembro de 2006

O ronronar incerto

Lembro-me que vinha no avião de Dili, o motor ao meu lado a intranquilizar-me com o seu ronronar incerto, a lê-la. Depois recomendei a leitura. Neste mundo improvável e de seres longínquos há sempre uma criatura com uma vida diária de «Que é que ela tem? Alguém perguntou com uma curiosidade negligente». Vinha a ler essa folha, precisamente quando a lembrança surgiu. São os «Laços de Família», da Clarice Lispector. A narrativa em que «a uma coisa bonita faltava o gesto de a dar».