quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Clízia

Por causa de uma obrigação a que me amarrei, pois não há meio de aprender a dizer que não, vim no comboio a estudar o Maquiavel. Não é ler, que isso faz-se, enfim, como quem leria por estranho desfastio o Orlando Furioso do Ariosto ou por insólito deleite as traduções do italiano feitas pelo Vasco Graça Moura ou relesse mesmo, como se fossem livros novos, os Dostoievski's agora traduzidos do russo ou o Musil enfim traduzido pelo João Barrento, só que nunca mais saindo das desventuras do pupilo Törless.
Não é ler, é estudar, de lápis na mão, a sublinhar, entrando pela errática cronologia das suas obras, pelas dúvidas sobre a sua formação humanista, pelas ambições venais do Secretário, e, chegava o comboio ao Pragal, o Tejo à vista, entrando eu pelas intimidades de saber se a Clizia, a última obra sua, uma peça sobre os efeitos devastadores do amor, representada dois anos antes da sua morte, não seria, em aguda e dolorosa consciência, a comédia da velhice, o crepúsculo senil dos ardores impossíveis, a morte anunciada do amar o amor que lhe deu seis filhos, um casamento, e o enamoramento pelos jogos de poder e sedução.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

O porvir da nostalgia

Já o tinha visto, ao livro de Jean-Jacques Lafaye, que é mais uma biografia de Stefan Zweig, o austríaco que ressuscitou agora para os escaparates, depois de se ter suicidado, no Brasil, sua pátria de exílio, onde se matou conjuntamente com sua mulher, abrindo a clareira do insólito facto e a dor do desconhecido fim na alma dos seus muitos leitores.
Tinha hesitado em comprá-lo, porque anunciava que tinha uma apresentação escrita por Mário Soares, que considera essa sua introdução «honra imerecida» e «desnecessária» e, a meu ver, despropositada. Mas, enfim, o nome de Soares é sonante e o mercado editorial, magro de vendas, gosta disso.
Comecei ontem a lê-lo, devagar, porque tem uma letra miúda, com dificuldade porque o meu estado de espírito não é o melhor. É uma narrativa em que o discurso por vezes entra na primeira pessoa, transformando-se em auto-biografia, um livro que fala da «sua intimidade com as as palavras, companheiras de cada momento, sua única fidelidade absoluta». No momento em que parei o autor explicava que para o autor de «Vinte e quatro horas na vida de uma mulher», a pobreza «é uma abstracção». Talvez, mas a sua maior riqueza foi a capacidade de sentir, com distância crítica embora, e sobretudo saber dizê-lo. O livro chama-se «O Porvir da Nostalgia».

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Tiroteio editorial

Consegui creio que ontem, porque os dias e as noites já se me confundem na memória, e os feriados e as pontes ajudam à confusão, dar um salto a uma das FNAC's. De repente apercebi-me que o regicídio tinha desencadeado um torvelinho de livros, sobre os mortos e os seus matadores.
Ao cruzar-me pelo escaparate das novidades quase ribombavam os ecos da carabina Winchester 1907 do Buiça e da pistola Browning calibre 7.65 do Costa, mais a fuzilaria da Guarda Municipal.
No panorama editorial as efemérides são um negócio a prazo, os escritores a esgravatarem com um olho no calendário. Hoje felizmente estive trancado a trabalhar quando não levava com os sermões do Padre António Vieiria e com os que nele descobriram o visionário de um mundo por haver. Passava, qual duche escocês, do jacobinismo ao jesuitismo ao virar de uma estante.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Trama

Tinha prometido que o faria e hoje arranjei uma nesga de tempo para o fazer. Fica na Rua S. Filipe Nery, ao Rato, a rua que se sobe ladeando os correios, onde era o velho armazém da Livraria Almedina. Em 1981 fui lá ver chegar, vindo da tipografia, o meu livro de processo penal, impresso na Tipografia Lousanense. É uma livraria, uma aposta jovem. Chama-se Trama.
Fico sempre com o coração apertado cada vez que entro numa nova iniciativa que tenha a ver com livros, imaginando a dificuldade quantas dificuldades há em vingar um empreendimento cultural.
Encontrei um livro que não conhecia, alguma «correspondência» entre o Jorge de Sena e o Vergílio Ferreira. Logo a propósito, a abrir, uma carta do autor do hoje desaparecido «Mudança», escrita em 5 de Fevereiro de 1950, a pedir que lhe comentasse, em crítica, o livro que editara a expensas próprias. É tocante: «rasamente e miseravelmente lhe confesso, portanto, que desejo a discussão para vender o livro. Diabo, seis contos é peso desconforme para o orçamento de um funcionário público».
No último dia desse ano, Sena pedia-lhe, em carta: «e agora posso pedir-lhe um favor que V. fará se puder ou quiser? Esta edição obriga-me à venda certa de uns tantos exemplares. Vê V. possibilidade de me colocar alguns aí em Évora?». Em 4 de Janeiro, chegava-lhe a desanimadora resposta, vinda da Rua Mesquita, n.º 28: «só lamento não descobrir posibilidades, ao menos para já, de colocar alguns exs., isto porque o mercado das minhas relações está saturado pelas frequentes vendas no género. Versos, romances, desenhos, tudo me tem vindo bater à porta, nestes tempos de futebol e de crise».
Hoje, outros Senas, outros Vergílios Ferreiras, escrevem cartas assim, «nestes tempos de futebol e de crise».

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A repetição da História

Não sei como, mas ainda consegui começar a ler o livro de memórias do Manuel Poppe, irmão do Lopes Cardoso que foi ministro da Agricultura e teve o nome amaldiçoado pelas paredes de Lisboa, antes do António Barreto, por causa da Reforma Agrária.
Não são grandes memórias, mas é um livro de grandes momentos, como aquele com quem me cruzei hoje, antes de ter a noite aprisionada, quando descobri que o João Gaspar Simões trabalhou de revisor na Imprensa Nacional, emendando provas, grande presença de espírito seguramente para quem haveria de ser um grande vulto na nossa crítica literária.
Vou na página 77. Ontem lembro-me de ter lido que ele estava convencido de que «para perceber poesia, era indispensável o sofrimento». Assim, «ante de começar a ler deprimia-me, esforçava-me por criar, dentro de mim, infelicidade», acrescenta, para que nos sintamos como se sentiu.
Não vou ter tempo de ler. Fica-me a recordação de ele, que viveu na Guarda, me ter trazido à memória o Dr. João Gomes. Conheci-o e à sua extensa biblioteca, quando ali cheguei, fardado de militar, um aspirante a oficial miliciano, contra-vontade no meio das campanhas «dinamização cultural», em vias de passar de bestial a besta, de «herói anti-fascista» a «vendido reformista». É isto a vida e a sua repetição. Uma longa história ou talvez a mesma História.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Uma história portuguesa

O Francisco Teixeira da Mota escreveu um livro «Alves Reis, uma história portuguesa», editado pela Oficina do Livro.
Convidou-me para lhe apresentar o livro. Daqui a pouco fá-lo-ei. Escrevi este texto, para servir como cábula do que direi.


Sabem os juristas o que é uma burla.
Não é um crime pelo qual alguém se aproprie, embora possa haver apropriação; é um crime pelo qual alguém causa um dano, ao enganado ou a outro. Nisso, é parte deste mundo de lástimas em que nas Faculdades se ensina em volta do «bem jurídico» e nos tribunais se aturam os «males jurídicos», como ironizava ontem um amigo meu, ácido porque esperto, risonho porque irónico.
Mas o que torna a burla um crime atraente é, sobretudo, o facto de ser o crime das pessoas inteligentes. Diz o Código Penal de hoje que a burla concretiza-se através de um processo enganatório astucioso, como o Código Penal de 1886 dizia que se materializava pelo artifício fraudulento.
Ao contrário do ladrão, que pratica o furto apoderando-se de uma coisa, apreendendo-a, subtraindo-a, tendo que se mover, vulgar criatura, no mundo das coisas físicas e materiais, diversamente do que abusa da confiança, que entra na galeria imoral dos traidores, defraudando quem nele confiou, o burlão move-se no plano superior das ideias, usa da argúcia argumentativa, manipula o enredo discursivo, é mestre na arte da encenação, o engano é para ele um meio, o erro da sua vitima a vitória da sua inteligência.
No plano dos afectos, ele, o agente do crime é um amoroso, cortejador, longe da rudeza do gatuno, diferente da vilania do usurário, da malvadez congénita do extorsionário.
O burlão é um sedutor, perante o qual a vítima sente-se, consumado o acto, um idiota, um despeitado, ciumento face à urdidura a que se rendeu, enraivecido pelo desejo da vingança que aplaque a imagem de miséria intelectual com que fica de si mesmo.
Eis as palavras-chave em relação à burla: sedução e dano. Eis o caso Alves Reis.
A história é simples, na sua aparência: a reputada firma britânica Waterlow & Sons, tipografia especial, porque imprimia o mais valioso dos impressos, o papel-moeda, recebeu uma encomenda do Governo de Portugal, imprimir notas de quinhentos escudos, com a efígie Vasco da Gama.
Só que desta feita a encomenda tinha o seu «quê»: tratava-se de uma emissão duplicada, ou seja, com a mesma série numérica de uma emissão já em circulação.
Por ser assim, a encomenda era «secreta».
Para que Sir Wlilliam Alfred Waterlow, velho bulldog da praça financeira londrina, não desconfiasse, as notas em causa, a serem lançadas em circulação, sê-lo-iam no espaço restrito de Angola, pelo que, ao chegarem a Lisboa, ser-lhes-ia aposta a sobrecarga a óleo com o nome desta colónia do Ultramar.
Eis uma história já por si extraordinária: Londres honrou a encomenda, tendo tratado do negócio confidencial directamente com Artur Virgílio Alves Reis, portador de dois contratos forjados pelos quais era autorizado pelo Banco de Portugal a tratar do assunto com a casa impressora inglesa [continua aqui]

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

«Zé, eu não suporto mais isto!»

O Museu do Neo-Realismo expõe amanhã: «O desenho na obra de Dias Coelho». Militante comunista, entrou na clandestinidade em 1955, foi morto a tiro pela PIDE, em 19 de Dezembro de 1961. Escreveu a meias com sua mulher, Margarida Tengarrinha, um livro sobre a resistência.
«De todas as sementes confiadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas». A frase é sua, seu o sangue, nossa a memória esperançosa de que não haja sido em vão.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Sintomático

À procura de uns papéis que não encontrava e que teimava existirem, dei com uns apontamentos manuscritos tirados não sei de que livro do Vergílio Ferreira. Numa qualquer página 45 dizia ele que «o maior sintoma de decadência é vivermos à conta do que já fomos». No caso dele as coisas complicaram-se porque, tirando a «Aparição» que tornando-se livro escolar corre o risco de se tornar para as novas gerações um livro insuportável, a maior parte da sua obra está esgotada e não se reedita.Um destes dias encontrei no lugar inesperado de um tribunal quem tivesse lido a «Conta-Corrente», esse diário em duas séries que ele amaldiçoava escrever e escrevia com amor. Fiquei espantado. Nesse dia senti que a profissão não seca as almas, apenas torna ressequidas as que já chegam a elas empalhadas em vida.

domingo, 13 de janeiro de 2008

O sentimento do reflexo

Trouxe-os de Itália, os que encontrei, livros de Italo Calvino. Esta manhã de chuva peganhenta levei um deles comigo, a «Collezione di sabbia», por ser pequeno, por ser leve, caber-me na persistente pasta e poder fazer-me companhia, sem peso ou excesso de presença.
O título deve-se a quanto impressionou o autor, numa exposição de coleccionismo em Paris, ter-se deparado, de entre tão diversos objectos arrecadáveis, de selos a caricas, o trivial dos armazenistas açambarcadores do vulgar, catalogadores do acumulado, frascos de areia das mais diversas partes do mundo, diferente na textura, na consistência, na cor e na maciez, como se epiderme fosse cada uma da terra remota de onde proveio.
Cheguei agora a casa para escrever sobre o que li. Há no livro um capítulo sobre o Japão e neste um artigo em que se diz que viajar serve para reactivar o uso dos olhos, é uma leitura visual do mundo, ver assim o que não se via, distinguir o indistinto
Li e vi que o amor pela lua se confunde muitas vezes com o amor do seu reflexo.

sábado, 12 de janeiro de 2008

O eu falar de mim

Li-as durante a noite e consegui-o, as 262 páginas do livro de Maria Luísa Blanco, de «Conversas com António Lobo Antunes». Livro emprestado, folheado meticulosamente, está pronto para ser dado de volta, imensamente grato, ao seu dono.
A autora é espanhola e a edição original saíu em 2001. A Dom Quixote, agora deglutida pelo voraz grupo de Paes do Amaral, deu-o à estampa no ano seguinte, traduzido.
Não sei que estranha sensação invade ao penetrar-se nas intimidades de um escritor laureado, mesmo daqueles de quem se passou a gostar: saber-lhe dos amores e dos terrores, a ilusão da infância e o pavor da velhice, as obsessões familiares e a congénita solidão.
António Lobo Antunes nunca se sente só quando está sozinho; a solidão dorida nasce-lhe quando das convivências que lhe roubam o tempo para escrever.
Sabendo-o escritor, escusava de ter querido sabê-lo pessoa, ainda por cima, através do seu próprio verbo.
Foi assim, com esse sentimento de devassa que o surpreendi na banalidade de conversar sobre si, como se numa vulgar bisbilhotice de falar sobre os outros.
Terminei e concluo: prefiro lê-lo, mesmo quando não gosto, no discurso indirecto que nele parece, aliás, sempre directo; é que a auto-biografia, no seu caso, não explica, apenas justifica e pouco.
Salvou-me tê-lo visto, entrevistado por Mário Crespo, em transposição de discurso: «o Mário escreve», diz ele, como se não dissesse «eu escrevo». Extraordinário.

sábado, 5 de janeiro de 2008

A sabedoria da Rita

Há um amigo meu que nos últimos sete anos manda imprimir, a expensas próprias, um caderninho, de formato sempre igual, no qual compila textos que o marcaram durante o ano. Oferece-o sempre pelo Natal. No deste ano vem uma página dedicada a frases de crianças, como esta fantástica «há muitas coisas que a gente sabe e que as notas não dizem». É da Rita, com dez anos de imensa sabedoria.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

O mundo infinito dos livros

Deve ser seguramente da idade e do medo pavoroso da anorexia mental. Mas acho que já disse que me veio parar às mãos um livro chamadao «Libroterapia», que, editado em Itália, ostenta como subtítulo «Um viaggio nel mondo infinito dei libro, perché i ibri curano l'anima».
E porque deve ser seguramente da idade, abri no capítulo que se intitula a velhice cura-se lendo [«la vechhiaia si cura leggendo»], para me confortar, no que ao meu atraso cultural respeita, com a magnífica frase: «leggere in tarda età significa reccuperare il territorio dell'immaginario».
Transportado pelas asas da literatura, era, pois, uma vez...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Um critério em azul

Reconciliei-me, até mais ver, com o António Lobo Antunes, e decidi-me então a conhecer-lhe a escrita. Esqueço o homem e o modo como se descreve, em constante adjectivação de si. Comecei, atrasado vinte e oito anos, com «A Memória de Elefante». Passo adiante dos escancardos palavrões, que enxameiam o texto para além do necessário, mesmo quando proferidos por bocas reais, nas quais são linguagem comum, menos suja a língua do que a alma. Evito subrogar-me, envergonhado, à família quando na sua narrativa descreve factos, dos mais íntimos aos mais torpes, em que os envolve, incluindo os dolorosos e os ternos, como se em cada página matasse de desgosto a própria mãe, expusesse da mulher a própria nudez.
António Lobo Antunes atira-se, de borco, para a sua escrita, mesmo quando sórdida, enlameando-se nela, onde raramente encontramos um momento em que o vejamos sentir a grandeza do momento grande que sabe criar.
É, tenho de o reconhecer, um modo magnífico de escrever o que sente, de descrever sentidamente o que vê. Vou em frente no livro, lerei todos os livros, mesmo quando, já me preveniram, ele muda de estilo e se torna ilegível, dizem-me.
A acção aqui decorre num hospital, a personagem um psiquiatra, filho de médico, traumatizado pela sua condição burguesa, agredido nas suas memórias pela vivido na guerra colonial, esfarelado por uma sensibilidade que quase lhe desintegra o entendimento. É «o que outros chamamos de loucura, que é afinal a nossa e da qual nos protegemos ao etiquetá-la».
Leio e pergunto-me se muitos dos que se dizem seus leitores, por gostarem dele, o serão de facto mais do que eu, que o detesto e aprendi a amar-lhe a escrita. Talvez sejam os olhos azuis que marquem a diferença. Não sei. Deixem-me ler.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

O gozo imortal

O Charlie Chaplin que conhecemos é aquela figura coincidente com o garoto que teve roubar comida para sobreviver, fruto de uma infância desvalida, o vagabundo Charlot.
Mas há um outro, o homem da reiterada infelicidade conjugal, semeando um caudal de relações falhadas, divórcios sucessivos e amores irrealizados.
Morreu no dia de Natal. Três meses depois, ladrões roubaram o corpo, para tentarem extorquir dinheiro à família à conta do resgate.
Terminou assim em caricatura milionária , uma vida em que a miséria foi elevada à categoria de ridículo, para gozo imortal de todos nós.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

O piar do passarinho

De todas as coisas compráveis, das mil lembranças transportáveis, de tudo o que é possível dar-se, há quem tenha comprado dois passarinhos para dar companhia a quem a não tem. De todos os pássaros compráveis, transportáveis e oferecíveis, houve quem tivesse tido o cuidado de comprar dois, para que um fizesse companhia ao outro, na solidão extrema que é ter de acompanhar quem não nos acompanha. No mais, daqui a pouco, começando a escurecer, é Natal, disse-mo um passarinho, perdão, dois.

sábado, 22 de dezembro de 2007

A Lua Azul

Quantos sabem que a lua cheia é a totalidade da lua reflectida sobre a terra? Sabem todos os que, vendo a lua, nela pensarem, sentindo-a na alucinação das nocturnas ideias, na revolta das madrugadas sensíveis.
Mas quantos sabem que a lua azul é a segunda lua cheia no mesmo mês? Aconteceu pela última vez no dia 31 de Maio deste ano.
A lua azul é a lua inesperada, a lua do improvável suceder.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

O homem de vastos amanheceres

Jorge Luis Borges, descrevendo, num dos seus extraordinários contos o brasileiro chefe de bando Azevedo Bandeira, mostra-o como «um mestre na arte da intimidação progressiva, na satânica manobra de humilhar o interlocutor gradualmente, combinando verdades e mentiras», e explica como é que ele mandou matar Benjamín Otálora, que mais virtude não tinha, nos «vastos amanheceres» de que fazia vida, se não «a enfatuação da coragem» e que ousara desafiar a sua autoridade sobre as coisas e o seu mando sobre os homens.
Com a profundidade de vista de quem é cego, o notável argentino remata a breve narrativa, contando como é que a Otálora foi permitido, antes de o matarem, dentro da sua própria lei, a da bala, viver o mando e o triunfo, mandando, livre, nos jagunços de Bandeira e fruindo-lhe, adúltero, as exigêncidas da sua própria amante: é que, desde o dia em que, ciumento por tudo o que era o ter e mandar, o condenou a morrer, Bandeira já o sabia morto.
Voltei a ler, enfim! Retomei Borges, o livro chama-se «El Aleph», Borges na língua pátria, o modo de pensar como se num esperanto afectivo, a linguagem compreensiva de toda a humanidade.

domingo, 16 de dezembro de 2007

A perdição dos livros

Leio que abriram aqui 3 300 metros quadrados de livraria; chega-me ao mesmo tempo, por mão amiga, a notícia de que abriu na Rua Augusto Gil 15-B, junto à Avenida de Roma, uma livraria chamada «Círculo das Letras». Quem me avisa diz que será ali «o nosso ponto de encontro». Só pode, seguramente. Na outra, uma pessoa perde-se.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O gato das botas

Houve tempos em que escrevia à mão, em que cheguei a Freiburgo na Alemanha, de comboio, carregando ao ombro uma caixa de fichas bibliográficas, a que colara a etiqueta «frágil», que trouxera do aeroporto.
Houve tempos em que uma amiga minha, investigadora desse instituto, ao ver-me sair da gare ferroviária naquele propósito, me perguntou, em francês, que era então a nossa língua franca, por causa do meu rudimentar alemão: «fragile, qui, vous?».
Hoje foi-se a caixa, que comprara no J. B. Fernandes, ali perto da Praça do Município, que também já fechou. Foi-se a minha amiga alemã. Foram-se as fichas bibliográficas. Foi-se mesmo o chegar a Freiburgo, a pé que seja.
Hoje é tudo na base do computador.
É por causa disso que de quando em vez perco tudo, mais do que perdia: a paciência por exemplo, sobretudo quando me dizem que o problema talvez seja da «motherboard» e de eu não ter feito «backup dos psts's no server».
Houve tempos em que eu escrevia à mão e tinha tempo e paciência para passar tudo a limpo, à máquina. Hoje é tudo mais «fragile», «trés fragile», como descobri ontem que, como se tocasse piano, reaprendi a falar francês. Só falta miar, porque de dores lombares, dizem que por causa da posição defeituosa ao computador, elas são de ganir!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

O primeiro violinista

Foi só porque a televisão, entre tantos defeitos, permite captar soberbos momentos que isto foi possível. Foi esta noite no canal «Mezzo», Cecilia Bartoli, com uma ária da ópera de Mozart, Don Giovanni. Segura, sem excessos de afirmação vocal, progredia em sonoridades densas, os imensos olhos negros como se cravados no infinito da glória. Foi então que, o surpreendi, aplicado no seu frágil e desconcertante instrumento musical, esse prodígio da criação melódica, o primeiro violinista, desconcentrar-se por um momento, seduzido por aquele voz. Socorreu-o, nesse silêncio comprometedor, todo o naipe de cordas em seu redor. Naquele segundo, os olhos marejados de lágrimas, ele era, apagando-se como artista para assim contemplar, extasiado, a própria Arte, a imagem real do que é o amor.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Erros na conjugação

Primeiro, a desdentação, grito de alerta nos carnívoros, fealdade facial no lugar da sua mais gritante evidência, a morte do sorriso natural, o mirrar-se uma pessoa engolfada nas entranhas ressequidas de si. Depois, o ranger da ossada, as dores persecutórias a todas as horas do dia e pesadelo companheiro da noite. Imobilizado o corpo, perdida a vontade de rir, resta o voo errático da alma, pelo devaneio de um resto de janela tristonha.
Primeiro, é não notar sequer quem são, depois é segui-las, figurinhas vibráteis de uma juventude que se soergue, soberba da glória carnal, leve na despreocupada forma de viver, adejante, a própria existência.
Um dia acorda-se a pensar de quantos adjectivos é feita a nossa indiferença, empedernidos os verbos, o futuro condicional pior ainda do que o pretérito imperfeito.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Camões e Macau

Eu tenho um amigo que possui, na sua maneira discreta de ser, uma capacidade profunda de surpreender. Quase como quem anda pé-ante-pé por um casa adormecida que não quer acordar, passou por todos nós, a cumprimentar-nos pelos êxitos efémeros, escondidos debaixo do braço, os rolos de um desconhecido texto seu, de que nem murmúrio nos chegava, preocupado connosco.
Ei-lo, enfim. «Camões esteve ou não em Macau?», pergunta Eduardo Ribeiro, um irmão a cuja seriedade eu devo não ter ficado enforcado na corda da infâmia naquele Oriente fatal onde ele se radicou. Como foi possível que tu nem a nós desses conta de que albergavas dentro de ti aquele valor que o teu trabalho demonstra?

A boca e os braços

Generalizou-se o beijo como cumprimento entre homem e mulher e no vice-versa cumprimentador de ambos.
Passou a haver o ritual do um só beijo, a distinguir os que, refinados, não dão os dois beijos plebeus, os que deixam por vezes o segundo beijo no ar das intenções, a cara do outro já recolhida, por imaginar terminada a saudação.
E há os três beijos, tricolores, afrancesados, quase como se distribuindo, na face, força, beleza, vigor; liberdade, igualdade e fraternidade.
Banalizou-se o beijo. O beijo na cara entre desconhecidos que se acabam de conhecer, o beijinho a marcar, em diminuitivo galaico-português, uma expressão de diferença meiga, a beijoca adolescente e ruidosa, o xoxo onomatopaicamente sugante.
Foi-se o beijo na testa, que já nem as crianças recebem. Distingue-se, pois que raro, o beija-mão, venerador e amarquesado. Pareceria hoje equívoco o beijo na boca, à russa, condecoração militar entre homens.
Arrepiraria o beijo no pescoço, vampiresco, o beijar a orelha, ósculo de segundas intenções. E fiquemo-nos por aqui na geografia corporal do beijo.
Multiplicou-se, enfim, o beijo. Foi-se o estender da mão, acto igualitário e republicano, ajudado por enérgicas sacudidelas públicas e burguesas, como se a aspergir alegrias demonstráveis, enterrou-se no baú das velharis a genuflexão ante a senhoria, o abanicar da mão a floreá-la, os dedos fibrilhantes, num volteio de borboleta.
Não há hoje carta, bilhete de recado, email ou conversa que não termine assim, beijocando.
E depois há, neste mundo de abreviaturas sentimentais, o «bjs» e o «bj» querendo dizer o beijo.
A tal ponto se beija, que uma mulher se embaraçaria se um homem, no fru-fru social mais banal, lhe desse, não um beijo ou mesmo dois, mas um simples abraço: no momento em que os corpos se enlaçassem haveria mais humanidade sim no exteriorizar desse saudarem-se ambos, as almas tocando-se, mas mais atrevimento, a físico-química do sentir contido a iniciar a sua função vital, ruborizando-os.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Charamba

É uma canção popular açoriana e chama-se Charamba. Ouvi-a na voz do Adriano Correia de Oliveira, com estes versos que não lhe conhecia: «a saudade é um luto, é um luto, uma afeição, é um cortinado roxo que me corta o coração».
Não sei que outro amor ao que se perdeu, paixão em agonia ao que se não tem, rasgão na pele dos sentimentos idos, melhor exprimirá este modo dorido de o dizer.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O mundo maravilhado

Passam-se os anos, interiormente séculos, quase uma vida se esvai e de súbito, num comboio que termina a sua marcha encontram-se no sorriso da indesmentível alegria de se reverem Ela mirava-o eternecida, acanhada, ele sentiu, ao surpreendê-la, o rufar da alegria no seu interior em festa. Pelos vistos há demasiado tempo que se tinham perdido. Seguiram cada um para o seu lado. Ao perdê-los de vista, carregando as minhas malas, revivi com eles a incontrolável força do gostar. A minha alma, sorriu-se melancólica à ideia, a vida real interrompida por aquele instante de sonho. Estarão hoje remoendo o seu passado perdido, talvez a dificuldade do seu presente, Naquele segundo, porém, todo o mundo parou, maravilhado para lhes dar espaço e tempo de uma vida por viver.

sábado, 17 de novembro de 2007

O Príncipe e o pobre

O pai de Niccolò Machiavelli chamava-se Bernardo. Letrado em jurisprudência, ignorava a arte de enriquecer, ao contrário de tantos dos advogados e notários florentinos. Amava, porém, os livros e comprava-os, trocando quantas vezes para isso produtos hortícolas da sua propriedade rural. Maurizio Viroli, cujo estudo sobre o sorriso de Maquiavel estou a ler, diz que a história de Roma, de Tito Lívio, com base na qual o autor da Mandrágora compôs o que foi uma das suas melhores obras, embora a menos conhecida, o Discorsi sopra la prime deca di Tito Livio, a conseguiu ele, elaborando, minuciosa e pacientemente, durante nove meses, um índice dos lugares citados na obra. Como penhor de que cumpriria, o pai Bernardo deixaria ao editor «tre fiaschi di vino vermiglio e un fiasco d'aceto».

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

O vinho

«Vinda sabe-se lá de onde, uma nuvem entra por mim dentro, invade-me com a sua escura e ardente melancolia». João de Melo escreveu e Paula Rego ilustrou. É um livro sobre o vinho. Ofereceram-mo hoje. Embriagado de cansaço, sonhando mostos e roendo grainhas, lembro-a da fermentação etílica que é o processo de nos irmos evaporando no lento sonho da ressaca de uma vida mal curtida. No fim vomita-se, na valeta do desconsolo, a alegria breve da bebedeira, o sarro pastoso dos copos por beber. É a alquimia mágica do viver.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Criaturas embiocadas

Gente do Algarve, gente que acredita que há quem leia o que vale a pena ser lido, foi buscar a um conto de Manuel Teixeira-Gomes, o nome para uma editora. Chama-se «Gente Singular». Eu e o texto éramos então uma mesma alegria.
Na página 17 já o narrador, saído da casa de Monsenhor Romualdo Simas e suas três irmãs Sebastiana, Prudência e Faustina, «criaturas embiocadas em lenços negros», se acoitara num pensão, ouvindo da «língua horrorosa» do Dr. Ximenes sobre o conservador da comarca de Faro que «tinha palavras de semana santa e obras de Entrudo», do Pedro Carneiro, escriturário da Fazenda que, sedento das «lindas moiras» se embrulhara na ideia hipnótica dos amavios de uma sultana a tal ponto que, aproximando-se da cama do que julgava ser uma noite no serralho, «sem acender a luz para mais apimentar os preâmbulos da aventura», se cruzara no ansioso palpar com o Celestino, sua voz grossa e sabe-se lá o quê de inesperadamente pronto.

sábado, 27 de outubro de 2007

A desbunda do arrear crítico

Dizer que um livro de Urbano Tavares Rodrigues, para mais um seu livro recente, é medíocre, é arriscarmo-nos a arranjar sarilhos, porque em Portugal há figuras que atingem uma grau de soberana intangibilidade e as pessoas receiam desdizer, concentrando em outros bodes a desbunda do arrear critico. Mas eu estou na fase do querer lá saber.
Fere-me estar a ler parágrafos de escrita vulgar no seu romance «Ao contrário das Ondas», que ontem trouxe de uma livraria de Aveiro e ainda pela noite, já a cair de desolado cansaço, tentei ler.
São frases que pretendem ser, obsessivamente, mostras de azedume cívico, demonstrações de intervenção social, credos na boca de esquerdismo político, como se o leitor não soubesse quem ele é e quem ele foi, e Urbano tivesse de exibir na cidade vigiada das Artes, a cada polícia da boa literatura militante, o seu passaporte com o visto em ordem, sem o qual não há livre trânsito na escrita.
Ali há um tal António Pedro que vai ao teatro e, claro, a peça é de Bernardo Santareno, há uma conversa à mesa, e obviamente tem de ser sobre a queda do Governo de Vasco Gonçalves, fala-se de Lisboa e lá vem, pois, que é gente bacoca «com ódio à liberdade, e com desdém pelo povo, excepto quando fazem discursos eleitorais». Há ali disto de embarda.
Eis aqui neste modo de escrever, tardio, teimoso, o que desvalorizou, como arte, o neo-realismo: o fingir ignorar, na sua ânsia de ser política através da escrita, que há mais mundos que os do clandestino homem da bicicleta, há mais humano que no social.
E, no entanto, Urbano tem momentos de densidade sentimental, como quando nos conta que para Lívio, em Sabina, havia «muitas zonas da sua intimidade que lhe eram alheias», para aí surgir António Pedro que, subrogando-se a Lívio, «a impediu de secar completamente como mulher». Só que, é neste livro, desgraçadamente é amiúde uma sensibilidade espasmódica de fornicação, o sexo como ginástica do corpo, mecânica dos fluídos, ócio dos afectos, omitida a palavra amor, os beijos-ventosas salivados de insanciável sensualidade, o «nada de sentimentalismos, disse ela, repelindo-o».
E, claro, logo adiante e por todo o lado, como se num comício sempre dos mesmos contra os do costume, o livro feito cartaz, a literatura propaganda, lá vai Lívio falar sobre a blogoesfera à Fundação Luso-Americana para se dizer que se troçava da assistência, o Lívio que, deputado do MDP, falava com elegância de questões de fundo, não sem antes, como independente de esquerda, chefiar um serviço na RTP, eis um moço que é da JCP e detesta o ministro da Justiça, até, enfim ei-lo que chega, o próprio cego que vai tocar gaita de beiços ao monte alentejano e obviamente toca a Kalinka e, ai, a Cumparsita!
Fico-me, social traidor e decadente burguês, pelo tango, roçagante, lascivo, lubrificante, omitida a palavra amor. Acompanhou-me na noite sovada. Hoje, pois acordei, vou ler o resto do livro, para me irritar. Depois ataco a «Obra Completa», na esperança de de que haja um Urbano diferente e sobretudo melhor.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Se uma gaivota voasse

Estive esta tarde no museu do mar em Ílhavo para descobrir o que é a solidão de um um homem, na pequenez entorpecente de um «dóri», o mar gélido como presença, um fio de pesca como esperança, a dura faina pesqueira como ganha-pão.
Foram heróis, na Terra Nova, esses nossos portugueses, escravos marítimos, salgados nas entranhas, como os bacalhaus que pescavam.
Etimologicamente a palavra «dóri» provém de dor, da dor sentida, para além dos ossos e nos confins da alma. Afogada em aguardente, nas saudades de casa, no contido desejo de voltar.
Sente-se hoje o cheiro do pescado salobre, a caminho do Cais do Sodré, na Rua dos Bacalhoeiros, impregnado na cal das paredes, ida que foi a frota de pesca, perdidos os barcos, recolhidas as velas, ancorada uma vida em terra, como gaivota entristecida sem céu para voar.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Tempo presente

O «blogger» permite fazer o que vou fazer: atrasar o tempo, fazendo com que estas palavras tivessem sido escritas antes da hora em que a Cinderela perde o sapato de cristal.
Faço isso para ficar feliz com a ilusão de que consigo pensar todos os dias, quando há dias em que, robotizado, nem tempo para isso há, e faço isso para que pareça que tenho, como espaço, todo o tempo do mundo.
Claro que há a aparência de verdade de já passarem sete minutos da meia-noite e o desespero de eu estar em Braga, com lembranças de Braga e saudades de Lisboa. Dentro de segundos, graças ao blogger torno o passado presente, como quem empurra para longe de si o tempo futuro.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

O vai-vem

Ir para os lados de Aveiro de manhã e de manhã regressar, ter de trabalhar antes de ir, ainda noite escura, e ter de trabalhar pela noite fora, agora que escureceu, só não me dói porque me dói mais a dor dos outros, com vidas ainda piores e que, com dignidade, silenciam o seu queixume.
A meio da viagem, na Antena 2, ouvi um programa sobre William Faulkner e uma das suas frases inesquecíveis. Perguntando-lhe alguém «mas, senhor Faulkner, que deve fazer quem não entende os seus livros, mesmo depois de os ler três vezes?», respondeu com ironia o laureado Nobel: «lê-los uma quarta vez!».
Ao chegar a Lisboa, a cair de sono e a ter de me acordar, pensei que na quarta vez em que viver, talvez entenda a vida que vivo.

sábado, 22 de setembro de 2007

Rijo como um labrego

Parece que foi há um século que deixei de ler sem ser por obrigação.
Ontem à noite, com os olhos meios piscos, as letras a trocarem-se, tomei em mãos o Manuel Laranjeira, e de novo as suas «Cartas».
Já nem sei se foi este o último livro dos muitos cuja leitura interrompi, mas reencontrei-o numa carta a Ângelo de Almeida, desanimado, possuído da sua desolação infinita, em «apocalíptica lamentação», enfim o estilo decadente que lhe marca a patológica psicologia, numa sociedade mais doente do que ele.
Os meus amigos quando eu escrevo estas coisas pensam que por algum mimetismo eu estarei num estado semelhante, tal como naquela lei sociológica da imitação que já fez escola há umas dezenas largas de anos atrás.
Ah!, os meus amigos, aqueles que, a escreverem-me deveriam tal como ele desejou ao dito Almeida esperar encontrar-me «rijo como um labrego». Rijo e analfabeto, que as letras matam o corpo, fazendo o coração pensar e a cabeça sentir.

sábado, 15 de setembro de 2007

A escada do infinito céu

Ando à procura de uma escada que seja alta na medida suficiente para me permitir alcançar a parte superior da estante dos meus livros. É que estou a cansar-me de os ver rastejantes, cercando-me a cama, por impossibilidade de os arrumar lá em cima, no lugar que, ansioso, os aguarda.
Procurei em vários sítios. Já me contento que ela seja em frio alumínio, desejando-a, embora, em morna madeira! Hoje, na loja do chinês aqui em baixo, a empregada tentava, entre vénias, explicar-me naquela língua em que os «erres» agressivos foram substituído pelos «éles» amaciados: «não ále, só dois deglaus, alto mais não fazê-le».
Olhei aquela filha do Império Celeste, a idade a mantê-la naquele corpito franzino eternamente de adolescente, o íntimo pensamento impenetrável. Esbocei um sorriso. À saída um Buda em plástico, que dá alma aquele amontoado de quinquilharia barata, sorriu-me também.
Inútil tentar subir ao céu quem nasceu para viver na terra. Irei ao IKEA, rumo ao Norte. Talvez ali, mais perto da Estrela Polar, na via do sonho, encontre a minha escada.

sábado, 8 de setembro de 2007

Leituras de cabeceira

A ânsia de ler o atrasado, aqueles livros que houve um tempo em que todos os tinham lido, mesmo os que os não entenderam o que liam; a pressa reler os livros que não faziam falta quando os pude ter e já não existiam quando os desejei rehaver. Tudo isso é hoje o meu modo de ser enquanto leitor.
Sim, porque ter lido o «Rumor Branco» do Almeida Faria naquela primeira edição que deu brado não é o mesmo que tê-lo hoje que tem obra consagrada e parece que já nem escreve.
E depois é aquela preocupação obsessiva de, quando se gosta de um autor, querer ler tudo o que ele escreveu, comprar um a um todos os seus livros e todos os livros sobre si, fazer listas e no fim correr de adelo em alfarrabista para reconstituir o que falta, parecendo que há sempre mais um na bibliografia inédita.
Claro que se sofre com isto. Foi assim com a obra do José Gomes Ferreira. O que eu me entristeci quando li «O enigma da Árvore Enamorada, divertimento em forma de novela quase policial», por achá-lo petulante de título e péssimo de estilo, a narrativa da «árvore que se apaixonara por Ema e que tinha ciúmes do cão!».
A personagem central chama-se Martinho de Samardã, nome foneticamente adequado para o caso, onomatopaicamente sugestivo de recorrências.
Hoje, que andei a arrumar os dispersos que já cercam o estrado que faz de cama, dei com ele, aplicadamente sublinhado, porque o li todo, sacrificado mas fiel.

sábado, 25 de agosto de 2007

Resultado zero

Enfim, a chuva, lavadora de valetas humanas, fecundadora da terra de si ansiosa. A chuva e a sua companheira trovoada. Há muito que a não ouvia, electrizante, ribombando, multiplicando ecos e iluminando-nos com as suas múltiplas estridências. Quando era garoto contava pelos dedos o tempo em segundos da faísca ao trovão e como produto de cada cálculo mental da multiplicação por trezentos e quarenta metros achava a distância do raio, normalmene em quilómetros. Era uma forma infantil de me ir assuntando à medida que o número decrescia.
Um dia, andava pela terceira classe uma descarga fulminou o pára-raios da minha escola. Foi aí que descobri que pequeno é o Homem comparado com a grandeza da Natureza e aprendi a primeira lição de humildade. Nesse dia a minha conta ia dando resultado zero. Igual a nada!

domingo, 19 de agosto de 2007

A renovação do ser

Há o costume de no dia 31 de Dezembro se jogarem fora coisas velhas, de no primeiro dia do ano se ir almoçar fora, tudo esperanças de que o renovar do calendário traga novidade e, nas sociedades onde há pobreza, comida!
Há entre os orientais, o hábito de nesse dia comprarem um animal em cativeiro, como um pássaro numa gaiola, ou um peixe num aquário e darem-lhe a liberdade.
Há em mim o começar muitas vezes o ano sob o peso das amarras, na ânsia de me renovar: assim é no dia um de Janeiro, depois das férias de Verão, quando fico mais velho um ano, quando acordo de manhã bem disposto.
Hoje ouvi falar da beleza do mar e lembrei-me da sua eterna renovação. Por um instante quis ser o peixe ou o pássaro devolvido a todas as possibilidades do ser, que é, filosoficamente, a essência primária da liberdade.

sábado, 18 de agosto de 2007

Leituras iniciáticas

Acho que já me queixei aqui disto: a Livaria Bertrand, que terá os direitos autorais do Aquilino Ribeiro ,deixou esgotar grande parte das suas obras, sem as reeditar. A mesma Bertrand, que editou em vida o Vergílio Ferreira, praticamente já só vende do Vergílio Ferreira a «Aparição», que passou, coitado dele, à maldição compulsiva de livro escolar.
Claro que os editores não são beneméritos da Pátria, mas estes livros não deveriam ser daqueles que deveriam fazer parte de um acervo de obras obrigatórias que o Ministério da Cultura tornasse inesgotáveis?
Lembrei-me disto porque ontem um artista plástico, filho e neto de bibliófilos, me falava, com enlevo, nas várias primeiras edições que havia em sua casa, entre elas uma obra extraordinária do Camilo Castelo Branco, o «Frei Luís de Sousa».
Não me ri porque me apeteceu chorar. Razão teve o Camilo para dar um tiro na cabeça!
Hoje na FNAC uma bem arranjadinha senhora, daquelas de malinha e gargantilha, que educou filhos e toma agora conta dos netos quando os pais vão ao cinema ou se divorciam, ou em ambas as circunstâncias, folheava, pausada e deliciada, a secção de literatura erótica. Nunca é tarde para se aprender, de facto. Afastei-me, discreto, deixando-a no deleite daquela iniciação ao tempo que lhe resta com o corpo que lhe sobra.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Um instante

Usava um kilt, mas nem sequer era europeu quanto mais escocês. Era negro e americano. Usava botas militares e ao peito um símbolo pacifista. A roupa era medíocre, os dedos vinham inchados de anéis em ouro. Acompanhava-o um cão dos que guiam cegos, mas nem ele era cego e o cão era uma cadela. Eu regressava de comboio com vontade de viajar de comboio. O mundo parou por um instante e sorriu para nós. A rapariga bonita que viajava connosco sumiu-se na multidão, ignorando-nos, os olhos postos no ponto imaginário de alguém que a desejasse.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

O Príncipe, de comboio

Vim de comboio de Loulé a Braga a ler o «Príncipe» do Maquiavel, por causa de uma promessa de trabalho em que me enredei e quero cumprir até ao final de Setembro. Cheguei à conclusão que ele escreveu a obra para fomentar um principado que salvasse a Itália dividida, quando o seu coração se inclinava para a República romana.
Cheguei agora, ao Hotel da Estação, e cruzei-me na recepção com o revisor e o maquinista, que vão também pernoitar por aqui. Qualquer dia eu e a CP somos uma família e ainda passamos a Consoada juntos.
Instalado, vim aqui ao meu bloco de notas, deixar um apontamento do que li ferroviariamente.
Maquiavel quiz dedicar a obra a Juliano de Médicis, que teria na altura 25 anos. Só que este magnífico florentino morreria inesperadamente e o livro seria dedicado a Lourenço de Medicis, duque de Urbino, O Magnífico, que por sua vez morreria, jovem também, em 1519, sem poder concretizar os conselhos que assim recebia.
É por isso patético o momento em que, no capítulo 26, exortando o jovem a que cumpra o espírito italiano e trate da redenção da sua terra e a liberte «das mãos dos bárbaros», lhe lembra que «Deus não deseja tudo fazer, para não vos tolher o livre arbítrio e o quinhão de glória que soubermos merecer».
Tinha razão: Deus, não desejando tudo fazer, encarregou a morte do que tinha de ser feito.

sábado, 11 de agosto de 2007

A piedade de Deus

Vaidoso, senhor de si, barroco no estilo, petulante mesmo na forma, Hermano Saraiva está a deixar um legado invulgar sobre a visão do Mundo e da sua pessoa. Nos fascículos em que nos conta, dispersas, as suas memórias, são os pequenos momentos que me atraem e me prendem à leitura.
Como naquela escrita, tão íntima e sentida, perpassa o amor que ele nutria pelo irmão António José, que lhe ganhou a dianteira no caminho para a morte!
Ei-lo, ante o Panteão em Roma, a sentir-se capaz de ali mesmo, ante aquelas gigantescas colunas, rezar e a recordar que aquele que era carne da sua mesma carne «não rezaria em nenhum altar. Nunca estava contente consigo próprio. Pensava e rasgava o já pensado».
A um homem destes, falho de fé, só lhe vale a piedade de Deus, se Deus o não abandonar, misericordioso e contristado pela sua alma.
Hoje é sábado, continuo a ler, tal como ele na Piazza Navona: «tenho o sentimento de que não sou eu que estou na praça, é a praça que está em mim».

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

O vácuo

Acabei de ler um extraordinário livro que sendo sobre o culto do chá é, afinal, uma escola de vida. Há nas suas poucas folhas, momento singulares em que o taoismo, o confucionismo e o Zen se convocam para nos mostrar quanto enganados andamos na multiplicade das nossas exigências, na quantidade das coisas que nos cercam.
É «a reiteração do inútil» que caraceriza a maioria dos nossos lares. Ora só no vazio está a essência do todo, só ele permite preencher o espaço através da imaginação. Ao deixar algo por dizer, fica sempre a eventualidade de se completar a ideia, ensinou Laotse. Acabei de ler um livro pequeno, em que as folhas que lhe faltam são, afinal, tudo o que há para ser pensado.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Livros idos

Lembro-me do livro sobre Vilarinho das Furnas. Ficou. Ficou outro sobre Rio de Onor. Tantos outros ficaram. Recordo-me deles, ao ler esta madrugada: «etnólogo e antropólogo português, António Jorge Dias nasceu no Porto, cursando Filologia Germânica na Universidade de Coimbra e ingressando, a partir de 1938, como leitor de Português em universidades alemãs e, posteriormente, em Espanha. Foi na Alemanha que, influenciado pelos estudos locais, se especializou em Etnologia, onde veio a doutorar-se em 1944».
Vem isto no site da Biblioteca Nacional, a propósito de uma exposição documental sobre Jorge Dias. Até 4 de Setembro. Não me devolverão os meus livros, nem me atrevo a pedi-los. Irei matar saudades deles e da falta que me faz a ideia de os ter.

sábado, 4 de agosto de 2007

Afinidades

Trouxe comigo, entre outros, um dos livros do Wenceslau de Moraes que não consegui acabar de ler durante os últimos meses, «Os Serões no Japão». São apontamentos, menos do que crónicas, mais do que notas. Um deles, queontem li, abre com uma anedota a de um velho juiz que, a julgar um caso de bigamia, e ao não se lembrar que pena cabia a tal crime, segredou ao colega a pergunta respectiva, obtendo como resposta que a pena era «ter de aturar duas sogras».
Como, nos termos da lei, as afinidade se não quebram com os divórcios, quem casou muitas vezes com ex-casadas, vulgaridade neste mundo moderno em que os casamentos se numeram, está condenado a mais uma infelicidade desse seu atribulado passado conjugal. Qualquer que seja a ex- para que se volte houve-a falar «na minha sogra», querendo dizer a mãe do outro. Depois uma pessoa habitua-se a que aquilo não tem sintomaticamente a ver consigo. Ao menos, nesse linguajar doméstico, algumas viúvas, que se vão pela lei da morte libertando, estão mais defendidas, porque se referem sempre ao «falecido que Deus haja». Algumas acrescentam «e que a terra lhe seja leve, apesar de tudo». O dito, esse, não passsa pelo embaraço de ouvir.

terça-feira, 31 de julho de 2007

A atracção lunar

O livro é muito pequeno e é daqueles que os livreiros, astutos, colocam perto da saída, para tentarem os leitores. Ali estão, num «leva-me contigo» que chega a fazer dó, depois de tantos outros terem ficado para trás.
Trouxe-o. Trata do culto do chá, é escrito por um japonês e tem por isso a beleza subtil das coisas profundas que nos passam despercebidas: Kakuzo Okakura.
Através dele e da sua delicada escrita, abeirei-me do sublime, em silenciosa reverência. Esta noite a lua começa a descer já nos céus, quente e tentadora. «Sonhemos com a evanescência, e demoremo-nos na bela tolice das coisas». Estou neste momento com esta frase, a desejar sair pelas ruas, sem motivo razoável, sem destino a que chame certo, sem a inteligência sequer de um rumo. Tal como as marés, atraído pela força lunar e seu magnífico apelo à renovação das almas.

domingo, 22 de julho de 2007

A pragmática da comunicação crustácea

Regressei a Lisboa ouvindo a «Antena 2» e nela uma entrevista sobre o autor de um livro que há pouco comprei sobre a série que a «Caminho» está a editar sobre linguística. Este é dedicado à pragmática. O seu autor, José Pinto de Lima, escreve melhor do que fala, o que me recordou o capítulo inicial do seu opúsculo intitulado interrogativamente será verdade que «há falar e há fazer?». Que o digam na política os mestres cantores das promessas, na sociedade civil os obreiros silenciosos.
A pragmática trata da função da língua. Hoje ao almoço, ainda com o mar à vista, perguntou-se ao empregado do restaurante o que havia de sobremesa. Respondeu «nada, só fruta, pudim e gelados». No fundo o que ele queria dizer «não repararam que temos gente à espera da mesa?». Não se tinha reparado, nomeadamente que era um grupo de estrangeiros dos que com muita probabibilidade comem lagosta com vinho rosé. Um pragmático, em suma, mestre linguista, empírico mas eficaz.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Mossas na alma

Ao findar um «epitáfio» aos «Textos Sadinos» do Luiz Pacheco, de que o seu amigo editor Raposo Nunes encontrou agora uns quantos exemplares, com um dos quais me cruzei esta tarde, Ângela Caires cita o escritor: «Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente estranha nesta Viagem». O livro alberga textos diversos, um deles a narrativa da história que levou Pacheco ao Torel, dali ao Tribunal da Boa-Hora, para fundear na cadeia, por envolvimento sexual, porque amoroso, com uma menor. Nas suas próprias palavras «é uma história de amor, triste como o costume. As histórias de amor alegres não são para contar. As verdadeiras acabam sempre mal duma maneira ou doutra». Consegui ler o livro quase todo, esta tarde, nos intervalos da profissão: «estas coisas aos vinte anos custam, lembrá-las aos sessenta faz mossas na nossa alma». Estou quase lá. Mais dois anos, carregado de nódoas negras.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Triste hino à alegria

Porque há mais mundo do que o social, ontem estive ainda com o «Diário Íntimo» de Manuel Laranjeira. Médico em Espinho, Laranjeira suicidou-se por já não conseguir sobreviver à vida. O Diário é um escrito singelo, sem pompa, por vezes ingénuo, com momentos de surpreendente observação. No dia 8 de Maio de 1908, uma sexta-feira, confiou à folha da agenda médica de que fazia repositório memorialista, como descobrira que Beethoven fora «infinitamente triste, tragicamente triste, divinamente triste»: porque «concebeu e sonhou uma alegria que não existe».

segunda-feira, 16 de julho de 2007

O encontro e a separação

Graças ao meu amigo que lá se ficou pelo Oriente fatal, continuo a ler o Wenceslau de Moraes, de que ele me envia, pelo correio, livro a livro, todos os que estão a ser editados em Macau evocativos da sua extraordinária obra. Estive ontem com um dos seus contos, em torno de um provérbio japonês. Escreve-se, em grafia ocidental, «Au Wa wakaré no hajimé» e traduz-se, diz Moraes, em versão livre como «o encontro é o começo da separação».
Curioso não é a natureza budista desta frase, mas sim, que, ante ela, e colocado perante o confrangedor princípio segundo o qual «se quiseres evitar a separação, evita o encontro», ele nos anuncie, com aquela candura triste que a velhice traz que «em assuntos de amor, eu creio mais nas borboletas do que em Buda».

sábado, 14 de julho de 2007

O hóspede

Ter tantos sítios onde se pode escrever, não quer dizer que se escreva. Às vezes é a falta de tempo, outras a de paciência, muitas vezes o querer falar pelo silênciao.
Ainda por cima um ser humano não se esgota numa profissão, numa militância cívica, mesmo numa vivência filosófica. Sobeja às vezes pessoa dentro do indivíduo.
Aconteceu assim.
Estou, em intervalo do meu viver, num magnífico lugar, casa antiga que hoje sobrevive à conta do turismo de habitação. Casa de memórias acumuladas e poupadas, casa de delicadeza sóbria, de vida experimentada. Local de enamoramento de um casal que a vida não separou. Casal onde se lembram os dias dos aniversários natalícios, dos casamento, as datas da formatura, de nascimento dos filhos e do baptismo dos netos.
Acordo e sinto o passado como se presente estivesse e pesa-me então a lástima do que é uma vida desagregada, um hópede que adopta o calor de uma família alheia, os ecos dos seus risos, a sua angústia ante o futuro, como se fossem os seus, à falta de mais alguém.