domingo, 4 de maio de 2008

Vidas vividas

Uma das coisas boas na leitura é ir lendo, hoje um livro, amanhã outro; mas o melhor é nunca ter a preocupação de ler até ao fim. Um livro é como uma pessoa, não se esgota, vai-se vivendo com ela, folheando-a, sem índice, ao sabor do momento.
Comecei há tempos, e disse-o aqui, a leitura de uma biografia do Stefan Zweig, escrita pelo Jean-Jacques Lafaye. É uma visão sentida e direi mesmo dorida do autor de «Vinte e quatro horas na vida de uma mulher».
Há duas noites entretive uma insónia teimosa com a recta final da história, o momento em que, separado já de Frederike, sua mulher, Zweig chama para junto de si Lotte, a sua secretária e amiga íntima. «Chamando Lotte para seu lado, não é a paixão que fala mas uma legítima compaixão por uma mulher abandonada e sobretudo o amor ao seu próprio trabalho que ela consegue comunicar-lhe pela constância da sua dedicação e o seu sentido de boa ordem».
Fiquei aí, na página 194, antes de me começar a doer a cabeça, no momento em que entendia o que é amar-se um homem pelo que há em si de demónio criador, devorados por isso um a um os sentimentos.
Matar-se-iam os dois, envenenando-se, deixando juntos a vida que os unira. Há vidas que, tal como os livros, não podem ser vividas até ao fim.

sábado, 3 de maio de 2008

Pânico

Encontrei-a na estação de comboios. Sabia que estava a escrever o próximo romance. Só mais tarde, em viagem, descobri que não era um romance. São narrativas, entre o breve apontamento e o conto que não chega a ser novela. Editou-o este ano a Asa, que agora se chama Asa II. Dois dos textos tinha-os lido, em suplementos de jornais, um deles a história de Doris, do farol, o mundo em azul, a mulher ganha ao jogo e perdida pela batota da vida e suas cartas marcadas. É Dulce Maria Cardoso, depois de Os Meus Sentimentos. Sim, «(...) o pai tem de acreditar que, apesar de as mãos tremerem no medo de coisa inexplicável, de os pés se terem tolhido num pavor desconhecido, está tudo bem», diz, num dos instantes do que li, o filho, o contador de tempos, rápido, o tempo sem fim, ao qual «já não será possível escapar». Encontrei-a na estação de comboios, não a pessoa dela mas, o mesmo é dizê-lo, a criatura magnífica e insólita que a habita e nos frequenta.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Muito e abundante

Chega uma altura da vida em que já temos tudo, porque queremos pouco: os mesmos sapatos de sempre, porque o pé se afeiçoou a eles, os fatos de uns anos para os outros, porque o corpo já não muda de formato. Depois come-se menos e os divertimentos começam a ser baratos, estar anónimo num canto a ver a vida chega para ocupar um momento, velhos há para quem o jardim púbico é o cinema a três dimensões, fêmeas maduras que galgaram já o muro dos devaneios a engalanarem-se para sentirem a memória adocicada de serem cortejadas.
Há quem não dispense as viagens incessantes por ressorts insólitos, o último grito em matéria indumentária, os spas e as mil extravagâncias «for the very few», os gastos astronómicos em refeições concorridas e demonstráveis, o excesso esgotante em troca do vazio.
Não é propriamente o meu caso que aprendi com o Graham Greene a viver a vida «por subtracção, em vez de a viver por adição». E, sobretudo, vivo isolado e nem tenho muito tempo para viver bem, quase nenhum para viver sequer.
Ora foi a ler a auto-biografia do Graham Greene, numa tradução da Maria Ondina Braga - como o mundo é pequeno ! - que comecei o meu dia, depois de ter dormido profundamente até às três e meia da manhã. O livro em português chama-se «Uma espécie de vida».
Nas folhas finais da sua narrativa, Greene vê o adiantamento de três anos que o seu editor lhe concedera, para que ele pudesse dedicar-se apenas à escrita, a acabar. Minado de dívidas, socorreu-se da escrita de crítica a romances para The Spectator. Isso aconteceu «Graças a Peter Fleming», acrescenta.
Fantástica coincidência. Estive em Londres para descobrir que Peter é irmão de Ian Fleming e já tinha uma obra reputada editada por Johnatan Cape quando o criador de 007 se iniciou com o Casino Royale». Escreveu um livro fantástico chamado «Uma Aventura no Brasil». E trabalhou, tal como o irmão, tal como Greene, nos serviços secretos britânicos durante a Guerra: aquele no Mi6, Ian no NID, Greene na secção V.
Quase no momento de encerrar a leitura para vir trabalhar - pois hoje é dia do trabalhador! - estava o autor de «O Americano Tranquilo» a contar como é que vivia os seus dias entre uma «vereda lamacenta» e a estalagem «Live and Let Live». E eu, que até ao dia 12 ainda tenho que ler «Live and Let Die» do Ian Fleming, por causa de um livro que tenho mesmo que acabar!
Há momentos em que já temos tudo e darem-nos um livro é, como sucede com as crianças, um mar de espumante alegria!

quarta-feira, 23 de abril de 2008

As entranhas do ser

Uma amiga minha enviou-me um link para os mapas de metropolitano de todo o mundo. No mundo subterrâneo dos que têm de encafuar-se em obrigações, um instrumento desses é mais do que indispensável. Tal como os que fazem vidas clandestinas, refugiados na marginalidade, criaturas da noite e homens da bicicleta, as entranhas da terra são como que uma mãe amiga, esconderijo seguro e lugar de paz. «Vem ao interior da terra e rectificando encontrarás a lápide oculta», escreve-se na câmara de reflexões, uma caveira por companhia. Depois há a luz crua da realidade, apagada a bruxuleante vela da ilusão.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O eu

Através do Eugénio Lisboa revi o José Régio. Depois encontrei-o um dia em Sintra e uma outra passeando em Cascais. Arredio do mundo público da Literatura e das suas tricas, maravilho-me com tudo o que vejo. Esta semana no JL vi que ele tinha escrito sobre si próprio. Não deixei de comparar. Com que desvelo ele escreveu sobre o Régio e com que parcimónia fala de si. Em nossa casa o «eu» era muito mal visto li na biografia de um dos de 'Medici, a propósito de um livro de que estou a rever provas. É isto que marca a grandeza, é sobretudo isto que separa os grandes das miudezas pequenas.

domingo, 13 de abril de 2008

Sentimentos e qualidades

Esta noite encontrei enfim numa Bertrand, ali na Rua de Viriato, «O Homem sem Qualidades», que sabia iria ser publicado este mês, a partir da tradução do original alemão feita pelo João Barrento e que já procurara em vão. Ora eu a julgar que sairia no imediato um só volume, eis dois tomos, o primeiro muito espesso, tudo junto um esforço de perder fôlego e o Musil não se pode ler em passo de corrida, porque aperta o coração e esfalfa os sentimentos. Eis-me, por isso, agora em casa, desesperado, a olhar para eles, estes dois paralelipípedos de papel, e um terceiro ainda virá, sem saber quando me será possível ler o que neles se contém.
Amanhã pela manhã, regressa a rotina e vou ter de acordar de madrugada. Talvez devesse ler, antes de dormir, um texto auto-biográfico que o Eugénio Lisboa escreveu para o JL. Traz dele uma fotografia, oficial miliciano no Quartel em Portalegre como que a explicar porque há nele tanto do José Régio.
Mas estou cansado. Deveria ter começado a escrever, nem ler consigo.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

A incontável felicidade

A arte de contar de Jorge Luís Borges não é apenas o saber condensar em poucas páginas uma biblioteca de ideias, mas o supremo saber ver tão profundamente cada uma das coisas que, sendo cego, só podiam estar nas entranhas anímicas de si. É impossível que este homem tenha morrido.
Encontrei há uns dias mais um dos seus livrinhos, na língua original. Trouxe-o comigo e como tantas vezes me sucede, comecei a lê-lo do fim.
Servido de uma memória de prodígio, de um cultura de excepção, o que mais maravilha em Borges é a capacidade de imaginar o irreal possível, tornando quase o absurdo desejável. Com ele o que não há, devia ser.
No caso, falava dos Yahoos uma inventada tribo de estupendos seres, que moravam em Mlch, nome que só parece invulgar a quem julgue que fazem falta vogais numa língua e a língua deles, povo estranho em que só alguns tinham nome - e para que haverá tudo e todos de ter nome? -era formada por monosílabos em que cada um traduz uma ideia geral , como nrz, por exemplo, que significava dispersão de manchas e tanto podia querer dizer céu estrelado como leopardo ou até um bando de aves ou tantas outras coisas, tudo dependendo do contexto e da expressão facial de quem dissesse, pelo que era impossível escrever-se, já que o idioma yahoo pressupunha que as pessoas falassem umas com as outras, não que se lessem, as ideias e os sentimentos expressos através de todo o corpo e seus gestos.
Mas vinha isto a propósito de tal excepcional povo ter um sistema numérico contado pelos dedos em que apenas quatro dígitos individualizavam o mundo da quantidade e assim um, dois, três, quatro, muitos, o polegar correspodendo ao infinito.
Ficou no presente real esse insólito sistema fabuloso de um passado inventado: perguntados sobre se vai tudo bem, erguemos o polegar para dizer que sim, o tudo bem, esse dedo a dizer da incontável felicidade do ser.

terça-feira, 8 de abril de 2008

O Emaús da escrita

Escreveu-me uma carta à mão, como já não se escrevem, com letra tão irregular como incertos os sentimentos que o animaram ao escrevê-la. E contou-me na carta uma história real. O garoto viaja com a mãe no eléctrico, carro aberto, instável, aos sacões. Por causa disso, a senhora, num brusco movimento do transporte, perdeu um sapato. Aflitos ambos, impossível recuperá-lo, o sapato a ficar cada vez mais distante quando, num gesto repentino e intencional, a mãe joga, ante o olhar atónito do filho, o outro sapato à linha, tentando, a golpe de braço, que fique perto do que perdera.
Pergunta o jovem, perplexo, porquê. «Porque a mim o sapato sobejante já não serve sem o perdido, que já não podemos encontrar, aqui vai este para que, juntos, sirvam a quem possa deles aproveitar-se».
Eis a vida numa moral simples. Li a carta até ao fim. Guardei-a junto às outras coisas que nesta vida junto, e que tanta gente não saberia sequer aproveitar.

terça-feira, 1 de abril de 2008

O troco

A probabilidade de um taxista apanhar em Lisboa duas vezes o mesmo passageiro no mesmo local pelas onze da noite é pequena, mas existe. A eventualidade de o passageiro dizer o nome da rua para onde vai e o taxista lembrar-se da rua com a qual ela faz cruzamento já é menor; mas aconteceu hoje tudo isso com o taxista que adorava a Rádio Luna do Montijo, pela música clássica que passava, a quem hoje resta a Antena Dois.
Desta vez estava taciturno: pouco serviço, por causa do futebol, «o senhor não vê pois eu também não, mas o pessoal fica todo em casa, além disso esta maldita rádio agora deu em ser só conversa». Pois era, «uma chatice», comentei para lhe fazer companhia. Depois disse-me que tinha ouvido no concerto para jovens o Mendelsohn, que não conhecia. «É o da marcha nupcial», disse-lhe, para não ficar calado. «Há outra do Wagner», ainda quis dizer, mas tinha-se instalado entretanto um silêncio de chumbo. A probabilidade de um taxista e seu passageiro irem sorumbáticamente calados essa é muito maior. Cheguei a casa. «Pague-se de sete», disse-lhe eu e «até qualquer dia» ouvi como se a dizer-me «e guarde o troco».

segunda-feira, 31 de março de 2008

A qualidade do ser

Por hábito compro o JL, algumas vezes consigo lê-lo quase todo, a maior parte das vezes, arrumo-o para o ler com o da vez seguinte e acabo por passar adiante, lido nenhum.
Desta vez vi na capa a palavra mágica «Musil» e sobressaltei-me. Ainda não abri o jornal, mas já vi, espreitando as folhas entreabertas, que era o João Barreto a anunciar mais um passo de gigante na saga de traduzir este notável militar austríaco que marchou para a Literatura Universal; desta feita virá o primeiro de três volumes, dedicado a «O Homem sem Qualidades».
Enfim, uma tradução com qualidades, as do prestígio do tradutor. De há muito que a velha edição dos «Livros do Brasil», publicando a tradução de Mário Braga precisava de sucessor.
Uma das coisas que eu aprendi com o Robert Musil é que «um acontecimento e uma verdade possíveis não são iguais a um aconntecimento e uma verdade reais menos o valor "realidade"». Nesta equação em que equilibriam a ontologia do ser, a lógica da verdade e a epistemologia do conhecer está contida, quase que timidamente, a totalidade da vida. No mais, o livro é um prodígio de ironia, como quando nos lembra que «a zoologia ensina que a soma de indivíduos diminuídos pode resultar num indivíduo genial».

sexta-feira, 28 de março de 2008

O acaso e a memória

Falaram-me ontem, depois do jantar, em tom de maravilha, de «O Físico Prodigioso». Retorqui que era o livro mais auto-biográfico que Jorge de Sena escrevera. A minha interlocutora não o sabia. Esta noite vim confirmar o afirmado e tenho aqui a meu lado o livro e o texto introdutório, escrito em Março de 1977, onde o seu autor o admite. Ia para copiar a citação e reafirmar o ontem dito, quando um estranho sentimento de revisitação surgiu como uma sombra de mim. Lembrei-me então que já tinha escrito isso mesmo. Foi em 22 de Junho de 2007, também depois de um jantar. Encontrei o escrito, aqui. Acho que não me consegui desembaraçar do atónito. Para quem não acredita no acaso, começa a ser demais: um dia lembro-me de ter falado em ter morrido e acordo morto!

quarta-feira, 26 de março de 2008

O livro das horas

Já não sei há quanto tempo tinha deixado de usar relógio. Primeiro, foi para não me enervar, no incessante olhar para o mostrador, a angústia de ser tão tarde. Nessa altura não havia ainda telemóveis, pelo que não se viam as horas a olhar para o telefone. Depois, foi porque o relógio deixou de ser um instrumento para se saberem as horas que faltava perder com a sua passagem ou as que se tinham ganho deixando-as passar, e transformou-se num acto de exibicionismo, usado quase em cima da mão, fora da camisa, para que todos o vissem e lhe adivinhassem o preço, como quem passeia mulher vistosa para inveja do vizinho, ou automóvel de luxo para raiva dos colegas.
Ontem ofereceram-me um lindo e discreto relógio com marca de relógio, ponteiros de relógio, daqueles que marcam horas e numa janelinha que dia é. Saí com ele hoje à rua, a passeá-lo, com o orgulho de o saber escondido dos outros, num agrado só meu. Houve um momento em que vi, no seu quadrante dividido em sessenta partes, que eram onze e quarenta, vinte para o meio-dia.Uma sensação de conforto com a vida invadiu-me, a lembrança antiga de ser quase a hora de almoço.

segunda-feira, 24 de março de 2008

A insurreição

Há um livro do Carlos de Oliveira que se chama «O Aprendiz de Feiticeiro». Oliveira nasceu em Belém do Pará, no Brasil, no ano de 1921 e morreu em Lisboa em 1981.Do livro saíu uma primeira edição em 1971. Em 1979 o autor, minucioso, corigiu definitivamente o texto. E do texto consta uma admirável narrativa do pensamento de «O Inquilino». É um pensar interrogativo e dubitativo, uma ladainha de hesitações: «Aceito a ordem das coisas, a geometria imposta do quarto? Os objectos no lugar de sempre, a distância exacta da cadeira à mesa, do meiple à janela? O sono do tapete?». Etc. Etc. Lembrei-me disto, porque o livro estava à mão, entre aqueles que não encontro. E lembrei-me disto, sobretudo, porque o texto acaba assim: «Ou desencadeio a insurreição mudando de sítio o meiple, a cadeira, mudando-me a mim?».

domingo, 23 de março de 2008

A anunciação da Aurora

Pelas quatro da madrugada a passarada arranca, em cantoria, a anunciar a chegada do dia. Os homens ainda o não vêm, porque perderam a capacidade de sentir. Mas para aqueles pequenos seres emplumados, que a Mãe Natureza tornou inteligentes através do seu minúsculo coração, é a anuncição da aurora.
Já sentiram, aprisionado na vossa mão, espavorido de medo, um passarinho, mesmo de insignificante tamanho, o príncipe canário ou o plebeu pardal? O coração descompassado, parece que rebenta, ribombando dentro do peito.
Eis o que o humano perdeu. Hoje Dia de Páscoa, há quem celebre Cristo ter liberto os homens que o pregaram na cruz.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A loirinha

Vinha no comboio. O homem contava as suas façanhas. Elevava a voz como quem busca mais auditório. Não tinha. Era eu, ali no bar, à espera que me arranjassem naquele Intercidades lugar sentado em troca do bilhete no Alfa, que me tinha fintado atrasando-se muito e adiantando-se de surpresa comigo à espera ao frio na gare, e um outro anónimo, magro de carnes e curto de ideias, a boca escancarada, do género dos que nunca perdem na vida um comboio, só não sabem é o destino para onde vão.
E a façanha, proeza de bravo, prova de virilidade, aquilo que o homem proclamava como sendo o máximo de si, era ter bebido cinquenta cervejas numa tarde. «Cinquenta», repetiu como num eco do dito, à falta de pergunta.
Fez-se um denso silêncio. Refugiei-me no baixar os olhos. «E sem ir mijar, que aí é que está a coisa», atirou-nos, ao que o ouvia e a mim que tinha de o ouvir.
Um aperto dorido atingiu-me então o por baixo da coisa. Pouco depois vinha o revisor, salvar-me. Raspei-me, esgueirando-e por ele. «Não vai uma loirinha?», perguntou-me. «Não, obrigado», balbuciei atarantado, «não me sinto capaz...».
Lá ficou. «Isto já nem há homens neste mundo» deve ter arrotado, entre tremoços, a boca limpa às costas da mão.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Mecânica estatistica

Há um momento da Mandraloga, essa estupenda peça teatral escrita no início de quinhentos que ainda hoje é uma paródia ao triunfo dos interesses sobre a moralidade, em que Callimaco, falando a Siro da sua ânsia por Lucrezia, mulher de Niccia, fala dos trabalhadores manuais como as «pessoas mecânicas». Uns séculos depois, martelando horas a fio ao computador, mecânica por mecânica, penso que os que vivem puxando pela cabeça, também o são.

domingo, 9 de março de 2008

O homem da maratona

Chegou-me uma mensagem segundo a qual «O bancário Fernando Hideo Ikai, 31 anos, terminou o livro “O Caçador de Pipas”, (360 páginas) em dois dias». Ora eu confesso que não conhecia o caçador de pipas, mas sei o que é ler trezentas e sessenta páginas, ademais imaginando-me bancário e admitindo que não estivesse em férias, ou mesmo sem ser assim.
A explicação vem depois: «Parece façanha de leitor voraz, mas Fernando não leu o livro: ele o ouviu. O bancário é um dos adeptos dos audiolivros. A audição dessa obra e outra de auto-ajuda, “O Segredo Além do Pensamento”, Fernando conta terem sido feitas em casa, com um CD. “Ouço no meu computador. Acho muito mais prático: se fosse ler o livro, levaria mais de uma semana”, fala».
Li isto e fiquei a pensar, enquanto mais metade da manhã de domingo já se foi e eu cheio de remorsos por ter acordado tarde!
É que há, por um lado, um mundo de leitores «vorazes», daqueles que cometem façanhas, espécie de atletas em corridas de obstáculos quando lêm o James Joyce e seu Ulisses, ou homens da maratona quando se atiram ao Guerra e Paz , ao Proust ou ao Robert Musil, saltando folhas e fazendo «sprints», ao desfolhá-las a trote.
Por outro lado, há os que sabem da cultura por ouvir dizer, um comentário aqui uma opinião acolá e ficam desde logo convencidos sobre o que é bom e mau no campo das letras e sobretudo sobre o que «incontornável» saber e sobre cuja genialidade nem se podem atrever a duvidar. Lêm, como alguns tocam música, de ouvido.
No caso, trata-se de um audio-livro. Tenho alguns, mas só por graça. Quando ouvi o Camus, com uma voz de cana rachada a ler o seu doloroso «Estrangeiro», desisti. Abri excepção para o Ezra Pound com os «Cantos»: o rosto, a voz e a obra, numa magnífica, excepcional e inesquecível conjunção.
Agora, ao passar pelas livrarias, tenho visto que começaram a multiplicar-se também entre nós os CD's de livros lidos. Só que a partir de hoje temo ficar como este Ikai e sentir-me na literatura como no IKEA. Por isso, enquanto tiver olhos, prefiro ler devagar. E é isso: «ler devagar», uma magnífica ideia, carinhosa para quem escreve, respeitadora para quem lê.

sábado, 8 de março de 2008

O espelho

«No dicionário de Daniel, Mulher Que Se Olha Ao Espelho é toda aquela que está constantemente diante de si mesma», diz Daniel, a personagem do Lavagante, o livrinho póstumo de José Cardoso Pires, agora editado. «A solidão conta muito para explicar as mulheres ao espelho», respondeu-lhe o seu interlocutor. Hoje é o dia mundial da mulher. Lembrei-me disto, e vim escrevê-lo. Poderia ter escrito tanto sobre tanta coisa de tanta mulher, mas que importa o que se escreve se é sempre para concluir o mesmo.

quarta-feira, 5 de março de 2008

A república dos corvos

Em Janeiro de 1995 José Cardoso Pires entrou em morte cerebral, a «morte branca» como lhe chamou. Sentiu-a chegar, ao começar a «desmantelar palavras» ele cuja vida de escritor girava em torno delas. Conseguiu regressar do coma e escreveu dois anos depois «A Valsa Lenta» a que chamou «De Profundis», onde descreve a sua passagem por aquele corredor luminoso que é a passagem para lá, o ritual asséptico em que ele «pessoa de coisíssima nenhuma», se surpreende como o Outro, a cumprir as tardes de hospital «num vaguear inocente».
Hoje cruzei-me com um há dias anunciado mas já em segunda edição inédito seu. Trouxe-o comigo. Tudo igual no mundo das letras: as segundas distribuições a chamarem-se de segundas edições, o espólio inesgotável à mercê de insaciáveis leitores.
Li o breve livro numa pausa deste fim de tarde em que a cidade arrefeceu. «São as pessoas a devorarem-se a elas mesmas», disse na página 12 o jornalista que bebe com o narrador e com o barman. Senti isso precisamente, envergonhado porque o livro é fraco e o autor de «A República dos Corvos» merecia mais.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Viver à margem

Tinha sabido que ela existia por causa da «Conta Corrente» do Vergílio Ferreira. Depois vi que era formada em Direito. Disseram agora que morreu e deixa uma extensa obra publicada que «viveu à margem da Literatura». Não entendo o que quer dizer uma tal frase. Sei que tive dificuldade em compreendê-la, coleccionando-lhe os livors para os ler um dia, quando fosse capaz. Se um escritor vive à margem da Literatura, é porque a Literatura é um mundo para os que não são escritores. Chamava-se Maria Gabriela Llansol Nunes da Cunha Rodrigues Joaquim. Morreu hoje, em Sintra, onde eu vivi numa altura em que não sabia que ela existia.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Obrigadinho à mesma

Era o único táxi naquela praça deserta. Quando entrei ouvia a Sétima Sinfonia de Beethoven. Mais do que ouvir a Antena 2, o que é raro entre os taxistas, tinha saudades da Rádio Luna e dos carolas que a sustentavam a partir do Montijo para garantir um oásis de qualidade num mundo de mediocridade comercial.
Lamentámos durante o percurso a vergonha de o sinal da rádio clássica ser tão errático, tão sujeito a interferências, quando por ser da rádio pública devia ter mais meios para ser melhor, quando pela música que difundem qualquer ruído é uma agressão à sensibilidade do ouvinte. Quando chegávamos perto do meu destino dava-me conta do seu gosto pelo barroco. «Se o senhor não tivesse entrado no meu táxi, eu também estava bem», rematou-me à despedida, em jeito de amabilidade.
Fiquei a pensar nisso e na funda filosofia que a frase contém e no modo verdadeiro como a disse. Era o único táxi naquela praça deserta, fechado que estava no mundo em que o belo pode ser interrompido pelo abrir da porta por um inesperado freguês e com ele a entrada do banal e do boçal. «Mas olhe, amigo», rematou ao deixar-me, «obrigadinho à mesma, foi um bocadinho menos de música por um pedaço bom de conversa».

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Escrito algures

Eu tenho que acreditar à força na predestinação, porque encontrei hoje, num alfarrabista o livrinho que o Eugénio Lisboa escreveu sobre o seu José Régio e à tarde, na Guia, o próprio Eugénio Lisboa, a perguntar-me pelo meu Graham Greene, sobre quem eu publicara, e ele não sabia, na Mea Libra, um estudo sobre a sua biografia secreta, isso na data do seu centenário.
E porque nesse livro sobre o Régio, que se editou em 1957, ele conclui que com o poema «Sabedoria» o escritor de A Velha Casa, que eu fui ver a Vila do Conde, em dia de extraordinário acaso, «chega, coincidentemente, ao máximo desespero e à máxima serenidade», eu que me lamuriava então de não mais ter escrito nada sobre nada com afinco e com sistema, estou aqui cheio de energia e de entusiasmo. E se eu seguisse o que está escrito algures que vai ser?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Clízia

Por causa de uma obrigação a que me amarrei, pois não há meio de aprender a dizer que não, vim no comboio a estudar o Maquiavel. Não é ler, que isso faz-se, enfim, como quem leria por estranho desfastio o Orlando Furioso do Ariosto ou por insólito deleite as traduções do italiano feitas pelo Vasco Graça Moura ou relesse mesmo, como se fossem livros novos, os Dostoievski's agora traduzidos do russo ou o Musil enfim traduzido pelo João Barrento, só que nunca mais saindo das desventuras do pupilo Törless.
Não é ler, é estudar, de lápis na mão, a sublinhar, entrando pela errática cronologia das suas obras, pelas dúvidas sobre a sua formação humanista, pelas ambições venais do Secretário, e, chegava o comboio ao Pragal, o Tejo à vista, entrando eu pelas intimidades de saber se a Clizia, a última obra sua, uma peça sobre os efeitos devastadores do amor, representada dois anos antes da sua morte, não seria, em aguda e dolorosa consciência, a comédia da velhice, o crepúsculo senil dos ardores impossíveis, a morte anunciada do amar o amor que lhe deu seis filhos, um casamento, e o enamoramento pelos jogos de poder e sedução.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

O porvir da nostalgia

Já o tinha visto, ao livro de Jean-Jacques Lafaye, que é mais uma biografia de Stefan Zweig, o austríaco que ressuscitou agora para os escaparates, depois de se ter suicidado, no Brasil, sua pátria de exílio, onde se matou conjuntamente com sua mulher, abrindo a clareira do insólito facto e a dor do desconhecido fim na alma dos seus muitos leitores.
Tinha hesitado em comprá-lo, porque anunciava que tinha uma apresentação escrita por Mário Soares, que considera essa sua introdução «honra imerecida» e «desnecessária» e, a meu ver, despropositada. Mas, enfim, o nome de Soares é sonante e o mercado editorial, magro de vendas, gosta disso.
Comecei ontem a lê-lo, devagar, porque tem uma letra miúda, com dificuldade porque o meu estado de espírito não é o melhor. É uma narrativa em que o discurso por vezes entra na primeira pessoa, transformando-se em auto-biografia, um livro que fala da «sua intimidade com as as palavras, companheiras de cada momento, sua única fidelidade absoluta». No momento em que parei o autor explicava que para o autor de «Vinte e quatro horas na vida de uma mulher», a pobreza «é uma abstracção». Talvez, mas a sua maior riqueza foi a capacidade de sentir, com distância crítica embora, e sobretudo saber dizê-lo. O livro chama-se «O Porvir da Nostalgia».

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Tiroteio editorial

Consegui creio que ontem, porque os dias e as noites já se me confundem na memória, e os feriados e as pontes ajudam à confusão, dar um salto a uma das FNAC's. De repente apercebi-me que o regicídio tinha desencadeado um torvelinho de livros, sobre os mortos e os seus matadores.
Ao cruzar-me pelo escaparate das novidades quase ribombavam os ecos da carabina Winchester 1907 do Buiça e da pistola Browning calibre 7.65 do Costa, mais a fuzilaria da Guarda Municipal.
No panorama editorial as efemérides são um negócio a prazo, os escritores a esgravatarem com um olho no calendário. Hoje felizmente estive trancado a trabalhar quando não levava com os sermões do Padre António Vieiria e com os que nele descobriram o visionário de um mundo por haver. Passava, qual duche escocês, do jacobinismo ao jesuitismo ao virar de uma estante.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Trama

Tinha prometido que o faria e hoje arranjei uma nesga de tempo para o fazer. Fica na Rua S. Filipe Nery, ao Rato, a rua que se sobe ladeando os correios, onde era o velho armazém da Livraria Almedina. Em 1981 fui lá ver chegar, vindo da tipografia, o meu livro de processo penal, impresso na Tipografia Lousanense. É uma livraria, uma aposta jovem. Chama-se Trama.
Fico sempre com o coração apertado cada vez que entro numa nova iniciativa que tenha a ver com livros, imaginando a dificuldade quantas dificuldades há em vingar um empreendimento cultural.
Encontrei um livro que não conhecia, alguma «correspondência» entre o Jorge de Sena e o Vergílio Ferreira. Logo a propósito, a abrir, uma carta do autor do hoje desaparecido «Mudança», escrita em 5 de Fevereiro de 1950, a pedir que lhe comentasse, em crítica, o livro que editara a expensas próprias. É tocante: «rasamente e miseravelmente lhe confesso, portanto, que desejo a discussão para vender o livro. Diabo, seis contos é peso desconforme para o orçamento de um funcionário público».
No último dia desse ano, Sena pedia-lhe, em carta: «e agora posso pedir-lhe um favor que V. fará se puder ou quiser? Esta edição obriga-me à venda certa de uns tantos exemplares. Vê V. possibilidade de me colocar alguns aí em Évora?». Em 4 de Janeiro, chegava-lhe a desanimadora resposta, vinda da Rua Mesquita, n.º 28: «só lamento não descobrir posibilidades, ao menos para já, de colocar alguns exs., isto porque o mercado das minhas relações está saturado pelas frequentes vendas no género. Versos, romances, desenhos, tudo me tem vindo bater à porta, nestes tempos de futebol e de crise».
Hoje, outros Senas, outros Vergílios Ferreiras, escrevem cartas assim, «nestes tempos de futebol e de crise».

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A repetição da História

Não sei como, mas ainda consegui começar a ler o livro de memórias do Manuel Poppe, irmão do Lopes Cardoso que foi ministro da Agricultura e teve o nome amaldiçoado pelas paredes de Lisboa, antes do António Barreto, por causa da Reforma Agrária.
Não são grandes memórias, mas é um livro de grandes momentos, como aquele com quem me cruzei hoje, antes de ter a noite aprisionada, quando descobri que o João Gaspar Simões trabalhou de revisor na Imprensa Nacional, emendando provas, grande presença de espírito seguramente para quem haveria de ser um grande vulto na nossa crítica literária.
Vou na página 77. Ontem lembro-me de ter lido que ele estava convencido de que «para perceber poesia, era indispensável o sofrimento». Assim, «ante de começar a ler deprimia-me, esforçava-me por criar, dentro de mim, infelicidade», acrescenta, para que nos sintamos como se sentiu.
Não vou ter tempo de ler. Fica-me a recordação de ele, que viveu na Guarda, me ter trazido à memória o Dr. João Gomes. Conheci-o e à sua extensa biblioteca, quando ali cheguei, fardado de militar, um aspirante a oficial miliciano, contra-vontade no meio das campanhas «dinamização cultural», em vias de passar de bestial a besta, de «herói anti-fascista» a «vendido reformista». É isto a vida e a sua repetição. Uma longa história ou talvez a mesma História.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Uma história portuguesa

O Francisco Teixeira da Mota escreveu um livro «Alves Reis, uma história portuguesa», editado pela Oficina do Livro.
Convidou-me para lhe apresentar o livro. Daqui a pouco fá-lo-ei. Escrevi este texto, para servir como cábula do que direi.


Sabem os juristas o que é uma burla.
Não é um crime pelo qual alguém se aproprie, embora possa haver apropriação; é um crime pelo qual alguém causa um dano, ao enganado ou a outro. Nisso, é parte deste mundo de lástimas em que nas Faculdades se ensina em volta do «bem jurídico» e nos tribunais se aturam os «males jurídicos», como ironizava ontem um amigo meu, ácido porque esperto, risonho porque irónico.
Mas o que torna a burla um crime atraente é, sobretudo, o facto de ser o crime das pessoas inteligentes. Diz o Código Penal de hoje que a burla concretiza-se através de um processo enganatório astucioso, como o Código Penal de 1886 dizia que se materializava pelo artifício fraudulento.
Ao contrário do ladrão, que pratica o furto apoderando-se de uma coisa, apreendendo-a, subtraindo-a, tendo que se mover, vulgar criatura, no mundo das coisas físicas e materiais, diversamente do que abusa da confiança, que entra na galeria imoral dos traidores, defraudando quem nele confiou, o burlão move-se no plano superior das ideias, usa da argúcia argumentativa, manipula o enredo discursivo, é mestre na arte da encenação, o engano é para ele um meio, o erro da sua vitima a vitória da sua inteligência.
No plano dos afectos, ele, o agente do crime é um amoroso, cortejador, longe da rudeza do gatuno, diferente da vilania do usurário, da malvadez congénita do extorsionário.
O burlão é um sedutor, perante o qual a vítima sente-se, consumado o acto, um idiota, um despeitado, ciumento face à urdidura a que se rendeu, enraivecido pelo desejo da vingança que aplaque a imagem de miséria intelectual com que fica de si mesmo.
Eis as palavras-chave em relação à burla: sedução e dano. Eis o caso Alves Reis.
A história é simples, na sua aparência: a reputada firma britânica Waterlow & Sons, tipografia especial, porque imprimia o mais valioso dos impressos, o papel-moeda, recebeu uma encomenda do Governo de Portugal, imprimir notas de quinhentos escudos, com a efígie Vasco da Gama.
Só que desta feita a encomenda tinha o seu «quê»: tratava-se de uma emissão duplicada, ou seja, com a mesma série numérica de uma emissão já em circulação.
Por ser assim, a encomenda era «secreta».
Para que Sir Wlilliam Alfred Waterlow, velho bulldog da praça financeira londrina, não desconfiasse, as notas em causa, a serem lançadas em circulação, sê-lo-iam no espaço restrito de Angola, pelo que, ao chegarem a Lisboa, ser-lhes-ia aposta a sobrecarga a óleo com o nome desta colónia do Ultramar.
Eis uma história já por si extraordinária: Londres honrou a encomenda, tendo tratado do negócio confidencial directamente com Artur Virgílio Alves Reis, portador de dois contratos forjados pelos quais era autorizado pelo Banco de Portugal a tratar do assunto com a casa impressora inglesa [continua aqui]

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

«Zé, eu não suporto mais isto!»

O Museu do Neo-Realismo expõe amanhã: «O desenho na obra de Dias Coelho». Militante comunista, entrou na clandestinidade em 1955, foi morto a tiro pela PIDE, em 19 de Dezembro de 1961. Escreveu a meias com sua mulher, Margarida Tengarrinha, um livro sobre a resistência.
«De todas as sementes confiadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas». A frase é sua, seu o sangue, nossa a memória esperançosa de que não haja sido em vão.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Sintomático

À procura de uns papéis que não encontrava e que teimava existirem, dei com uns apontamentos manuscritos tirados não sei de que livro do Vergílio Ferreira. Numa qualquer página 45 dizia ele que «o maior sintoma de decadência é vivermos à conta do que já fomos». No caso dele as coisas complicaram-se porque, tirando a «Aparição» que tornando-se livro escolar corre o risco de se tornar para as novas gerações um livro insuportável, a maior parte da sua obra está esgotada e não se reedita.Um destes dias encontrei no lugar inesperado de um tribunal quem tivesse lido a «Conta-Corrente», esse diário em duas séries que ele amaldiçoava escrever e escrevia com amor. Fiquei espantado. Nesse dia senti que a profissão não seca as almas, apenas torna ressequidas as que já chegam a elas empalhadas em vida.

domingo, 13 de janeiro de 2008

O sentimento do reflexo

Trouxe-os de Itália, os que encontrei, livros de Italo Calvino. Esta manhã de chuva peganhenta levei um deles comigo, a «Collezione di sabbia», por ser pequeno, por ser leve, caber-me na persistente pasta e poder fazer-me companhia, sem peso ou excesso de presença.
O título deve-se a quanto impressionou o autor, numa exposição de coleccionismo em Paris, ter-se deparado, de entre tão diversos objectos arrecadáveis, de selos a caricas, o trivial dos armazenistas açambarcadores do vulgar, catalogadores do acumulado, frascos de areia das mais diversas partes do mundo, diferente na textura, na consistência, na cor e na maciez, como se epiderme fosse cada uma da terra remota de onde proveio.
Cheguei agora a casa para escrever sobre o que li. Há no livro um capítulo sobre o Japão e neste um artigo em que se diz que viajar serve para reactivar o uso dos olhos, é uma leitura visual do mundo, ver assim o que não se via, distinguir o indistinto
Li e vi que o amor pela lua se confunde muitas vezes com o amor do seu reflexo.

sábado, 12 de janeiro de 2008

O eu falar de mim

Li-as durante a noite e consegui-o, as 262 páginas do livro de Maria Luísa Blanco, de «Conversas com António Lobo Antunes». Livro emprestado, folheado meticulosamente, está pronto para ser dado de volta, imensamente grato, ao seu dono.
A autora é espanhola e a edição original saíu em 2001. A Dom Quixote, agora deglutida pelo voraz grupo de Paes do Amaral, deu-o à estampa no ano seguinte, traduzido.
Não sei que estranha sensação invade ao penetrar-se nas intimidades de um escritor laureado, mesmo daqueles de quem se passou a gostar: saber-lhe dos amores e dos terrores, a ilusão da infância e o pavor da velhice, as obsessões familiares e a congénita solidão.
António Lobo Antunes nunca se sente só quando está sozinho; a solidão dorida nasce-lhe quando das convivências que lhe roubam o tempo para escrever.
Sabendo-o escritor, escusava de ter querido sabê-lo pessoa, ainda por cima, através do seu próprio verbo.
Foi assim, com esse sentimento de devassa que o surpreendi na banalidade de conversar sobre si, como se numa vulgar bisbilhotice de falar sobre os outros.
Terminei e concluo: prefiro lê-lo, mesmo quando não gosto, no discurso indirecto que nele parece, aliás, sempre directo; é que a auto-biografia, no seu caso, não explica, apenas justifica e pouco.
Salvou-me tê-lo visto, entrevistado por Mário Crespo, em transposição de discurso: «o Mário escreve», diz ele, como se não dissesse «eu escrevo». Extraordinário.

sábado, 5 de janeiro de 2008

A sabedoria da Rita

Há um amigo meu que nos últimos sete anos manda imprimir, a expensas próprias, um caderninho, de formato sempre igual, no qual compila textos que o marcaram durante o ano. Oferece-o sempre pelo Natal. No deste ano vem uma página dedicada a frases de crianças, como esta fantástica «há muitas coisas que a gente sabe e que as notas não dizem». É da Rita, com dez anos de imensa sabedoria.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

O mundo infinito dos livros

Deve ser seguramente da idade e do medo pavoroso da anorexia mental. Mas acho que já disse que me veio parar às mãos um livro chamadao «Libroterapia», que, editado em Itália, ostenta como subtítulo «Um viaggio nel mondo infinito dei libro, perché i ibri curano l'anima».
E porque deve ser seguramente da idade, abri no capítulo que se intitula a velhice cura-se lendo [«la vechhiaia si cura leggendo»], para me confortar, no que ao meu atraso cultural respeita, com a magnífica frase: «leggere in tarda età significa reccuperare il territorio dell'immaginario».
Transportado pelas asas da literatura, era, pois, uma vez...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Um critério em azul

Reconciliei-me, até mais ver, com o António Lobo Antunes, e decidi-me então a conhecer-lhe a escrita. Esqueço o homem e o modo como se descreve, em constante adjectivação de si. Comecei, atrasado vinte e oito anos, com «A Memória de Elefante». Passo adiante dos escancardos palavrões, que enxameiam o texto para além do necessário, mesmo quando proferidos por bocas reais, nas quais são linguagem comum, menos suja a língua do que a alma. Evito subrogar-me, envergonhado, à família quando na sua narrativa descreve factos, dos mais íntimos aos mais torpes, em que os envolve, incluindo os dolorosos e os ternos, como se em cada página matasse de desgosto a própria mãe, expusesse da mulher a própria nudez.
António Lobo Antunes atira-se, de borco, para a sua escrita, mesmo quando sórdida, enlameando-se nela, onde raramente encontramos um momento em que o vejamos sentir a grandeza do momento grande que sabe criar.
É, tenho de o reconhecer, um modo magnífico de escrever o que sente, de descrever sentidamente o que vê. Vou em frente no livro, lerei todos os livros, mesmo quando, já me preveniram, ele muda de estilo e se torna ilegível, dizem-me.
A acção aqui decorre num hospital, a personagem um psiquiatra, filho de médico, traumatizado pela sua condição burguesa, agredido nas suas memórias pela vivido na guerra colonial, esfarelado por uma sensibilidade que quase lhe desintegra o entendimento. É «o que outros chamamos de loucura, que é afinal a nossa e da qual nos protegemos ao etiquetá-la».
Leio e pergunto-me se muitos dos que se dizem seus leitores, por gostarem dele, o serão de facto mais do que eu, que o detesto e aprendi a amar-lhe a escrita. Talvez sejam os olhos azuis que marquem a diferença. Não sei. Deixem-me ler.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

O gozo imortal

O Charlie Chaplin que conhecemos é aquela figura coincidente com o garoto que teve roubar comida para sobreviver, fruto de uma infância desvalida, o vagabundo Charlot.
Mas há um outro, o homem da reiterada infelicidade conjugal, semeando um caudal de relações falhadas, divórcios sucessivos e amores irrealizados.
Morreu no dia de Natal. Três meses depois, ladrões roubaram o corpo, para tentarem extorquir dinheiro à família à conta do resgate.
Terminou assim em caricatura milionária , uma vida em que a miséria foi elevada à categoria de ridículo, para gozo imortal de todos nós.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

O piar do passarinho

De todas as coisas compráveis, das mil lembranças transportáveis, de tudo o que é possível dar-se, há quem tenha comprado dois passarinhos para dar companhia a quem a não tem. De todos os pássaros compráveis, transportáveis e oferecíveis, houve quem tivesse tido o cuidado de comprar dois, para que um fizesse companhia ao outro, na solidão extrema que é ter de acompanhar quem não nos acompanha. No mais, daqui a pouco, começando a escurecer, é Natal, disse-mo um passarinho, perdão, dois.

sábado, 22 de dezembro de 2007

A Lua Azul

Quantos sabem que a lua cheia é a totalidade da lua reflectida sobre a terra? Sabem todos os que, vendo a lua, nela pensarem, sentindo-a na alucinação das nocturnas ideias, na revolta das madrugadas sensíveis.
Mas quantos sabem que a lua azul é a segunda lua cheia no mesmo mês? Aconteceu pela última vez no dia 31 de Maio deste ano.
A lua azul é a lua inesperada, a lua do improvável suceder.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

O homem de vastos amanheceres

Jorge Luis Borges, descrevendo, num dos seus extraordinários contos o brasileiro chefe de bando Azevedo Bandeira, mostra-o como «um mestre na arte da intimidação progressiva, na satânica manobra de humilhar o interlocutor gradualmente, combinando verdades e mentiras», e explica como é que ele mandou matar Benjamín Otálora, que mais virtude não tinha, nos «vastos amanheceres» de que fazia vida, se não «a enfatuação da coragem» e que ousara desafiar a sua autoridade sobre as coisas e o seu mando sobre os homens.
Com a profundidade de vista de quem é cego, o notável argentino remata a breve narrativa, contando como é que a Otálora foi permitido, antes de o matarem, dentro da sua própria lei, a da bala, viver o mando e o triunfo, mandando, livre, nos jagunços de Bandeira e fruindo-lhe, adúltero, as exigêncidas da sua própria amante: é que, desde o dia em que, ciumento por tudo o que era o ter e mandar, o condenou a morrer, Bandeira já o sabia morto.
Voltei a ler, enfim! Retomei Borges, o livro chama-se «El Aleph», Borges na língua pátria, o modo de pensar como se num esperanto afectivo, a linguagem compreensiva de toda a humanidade.

domingo, 16 de dezembro de 2007

A perdição dos livros

Leio que abriram aqui 3 300 metros quadrados de livraria; chega-me ao mesmo tempo, por mão amiga, a notícia de que abriu na Rua Augusto Gil 15-B, junto à Avenida de Roma, uma livraria chamada «Círculo das Letras». Quem me avisa diz que será ali «o nosso ponto de encontro». Só pode, seguramente. Na outra, uma pessoa perde-se.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O gato das botas

Houve tempos em que escrevia à mão, em que cheguei a Freiburgo na Alemanha, de comboio, carregando ao ombro uma caixa de fichas bibliográficas, a que colara a etiqueta «frágil», que trouxera do aeroporto.
Houve tempos em que uma amiga minha, investigadora desse instituto, ao ver-me sair da gare ferroviária naquele propósito, me perguntou, em francês, que era então a nossa língua franca, por causa do meu rudimentar alemão: «fragile, qui, vous?».
Hoje foi-se a caixa, que comprara no J. B. Fernandes, ali perto da Praça do Município, que também já fechou. Foi-se a minha amiga alemã. Foram-se as fichas bibliográficas. Foi-se mesmo o chegar a Freiburgo, a pé que seja.
Hoje é tudo na base do computador.
É por causa disso que de quando em vez perco tudo, mais do que perdia: a paciência por exemplo, sobretudo quando me dizem que o problema talvez seja da «motherboard» e de eu não ter feito «backup dos psts's no server».
Houve tempos em que eu escrevia à mão e tinha tempo e paciência para passar tudo a limpo, à máquina. Hoje é tudo mais «fragile», «trés fragile», como descobri ontem que, como se tocasse piano, reaprendi a falar francês. Só falta miar, porque de dores lombares, dizem que por causa da posição defeituosa ao computador, elas são de ganir!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

O primeiro violinista

Foi só porque a televisão, entre tantos defeitos, permite captar soberbos momentos que isto foi possível. Foi esta noite no canal «Mezzo», Cecilia Bartoli, com uma ária da ópera de Mozart, Don Giovanni. Segura, sem excessos de afirmação vocal, progredia em sonoridades densas, os imensos olhos negros como se cravados no infinito da glória. Foi então que, o surpreendi, aplicado no seu frágil e desconcertante instrumento musical, esse prodígio da criação melódica, o primeiro violinista, desconcentrar-se por um momento, seduzido por aquele voz. Socorreu-o, nesse silêncio comprometedor, todo o naipe de cordas em seu redor. Naquele segundo, os olhos marejados de lágrimas, ele era, apagando-se como artista para assim contemplar, extasiado, a própria Arte, a imagem real do que é o amor.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Erros na conjugação

Primeiro, a desdentação, grito de alerta nos carnívoros, fealdade facial no lugar da sua mais gritante evidência, a morte do sorriso natural, o mirrar-se uma pessoa engolfada nas entranhas ressequidas de si. Depois, o ranger da ossada, as dores persecutórias a todas as horas do dia e pesadelo companheiro da noite. Imobilizado o corpo, perdida a vontade de rir, resta o voo errático da alma, pelo devaneio de um resto de janela tristonha.
Primeiro, é não notar sequer quem são, depois é segui-las, figurinhas vibráteis de uma juventude que se soergue, soberba da glória carnal, leve na despreocupada forma de viver, adejante, a própria existência.
Um dia acorda-se a pensar de quantos adjectivos é feita a nossa indiferença, empedernidos os verbos, o futuro condicional pior ainda do que o pretérito imperfeito.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Camões e Macau

Eu tenho um amigo que possui, na sua maneira discreta de ser, uma capacidade profunda de surpreender. Quase como quem anda pé-ante-pé por um casa adormecida que não quer acordar, passou por todos nós, a cumprimentar-nos pelos êxitos efémeros, escondidos debaixo do braço, os rolos de um desconhecido texto seu, de que nem murmúrio nos chegava, preocupado connosco.
Ei-lo, enfim. «Camões esteve ou não em Macau?», pergunta Eduardo Ribeiro, um irmão a cuja seriedade eu devo não ter ficado enforcado na corda da infâmia naquele Oriente fatal onde ele se radicou. Como foi possível que tu nem a nós desses conta de que albergavas dentro de ti aquele valor que o teu trabalho demonstra?

A boca e os braços

Generalizou-se o beijo como cumprimento entre homem e mulher e no vice-versa cumprimentador de ambos.
Passou a haver o ritual do um só beijo, a distinguir os que, refinados, não dão os dois beijos plebeus, os que deixam por vezes o segundo beijo no ar das intenções, a cara do outro já recolhida, por imaginar terminada a saudação.
E há os três beijos, tricolores, afrancesados, quase como se distribuindo, na face, força, beleza, vigor; liberdade, igualdade e fraternidade.
Banalizou-se o beijo. O beijo na cara entre desconhecidos que se acabam de conhecer, o beijinho a marcar, em diminuitivo galaico-português, uma expressão de diferença meiga, a beijoca adolescente e ruidosa, o xoxo onomatopaicamente sugante.
Foi-se o beijo na testa, que já nem as crianças recebem. Distingue-se, pois que raro, o beija-mão, venerador e amarquesado. Pareceria hoje equívoco o beijo na boca, à russa, condecoração militar entre homens.
Arrepiraria o beijo no pescoço, vampiresco, o beijar a orelha, ósculo de segundas intenções. E fiquemo-nos por aqui na geografia corporal do beijo.
Multiplicou-se, enfim, o beijo. Foi-se o estender da mão, acto igualitário e republicano, ajudado por enérgicas sacudidelas públicas e burguesas, como se a aspergir alegrias demonstráveis, enterrou-se no baú das velharis a genuflexão ante a senhoria, o abanicar da mão a floreá-la, os dedos fibrilhantes, num volteio de borboleta.
Não há hoje carta, bilhete de recado, email ou conversa que não termine assim, beijocando.
E depois há, neste mundo de abreviaturas sentimentais, o «bjs» e o «bj» querendo dizer o beijo.
A tal ponto se beija, que uma mulher se embaraçaria se um homem, no fru-fru social mais banal, lhe desse, não um beijo ou mesmo dois, mas um simples abraço: no momento em que os corpos se enlaçassem haveria mais humanidade sim no exteriorizar desse saudarem-se ambos, as almas tocando-se, mas mais atrevimento, a físico-química do sentir contido a iniciar a sua função vital, ruborizando-os.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Charamba

É uma canção popular açoriana e chama-se Charamba. Ouvi-a na voz do Adriano Correia de Oliveira, com estes versos que não lhe conhecia: «a saudade é um luto, é um luto, uma afeição, é um cortinado roxo que me corta o coração».
Não sei que outro amor ao que se perdeu, paixão em agonia ao que se não tem, rasgão na pele dos sentimentos idos, melhor exprimirá este modo dorido de o dizer.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O mundo maravilhado

Passam-se os anos, interiormente séculos, quase uma vida se esvai e de súbito, num comboio que termina a sua marcha encontram-se no sorriso da indesmentível alegria de se reverem Ela mirava-o eternecida, acanhada, ele sentiu, ao surpreendê-la, o rufar da alegria no seu interior em festa. Pelos vistos há demasiado tempo que se tinham perdido. Seguiram cada um para o seu lado. Ao perdê-los de vista, carregando as minhas malas, revivi com eles a incontrolável força do gostar. A minha alma, sorriu-se melancólica à ideia, a vida real interrompida por aquele instante de sonho. Estarão hoje remoendo o seu passado perdido, talvez a dificuldade do seu presente, Naquele segundo, porém, todo o mundo parou, maravilhado para lhes dar espaço e tempo de uma vida por viver.

sábado, 17 de novembro de 2007

O Príncipe e o pobre

O pai de Niccolò Machiavelli chamava-se Bernardo. Letrado em jurisprudência, ignorava a arte de enriquecer, ao contrário de tantos dos advogados e notários florentinos. Amava, porém, os livros e comprava-os, trocando quantas vezes para isso produtos hortícolas da sua propriedade rural. Maurizio Viroli, cujo estudo sobre o sorriso de Maquiavel estou a ler, diz que a história de Roma, de Tito Lívio, com base na qual o autor da Mandrágora compôs o que foi uma das suas melhores obras, embora a menos conhecida, o Discorsi sopra la prime deca di Tito Livio, a conseguiu ele, elaborando, minuciosa e pacientemente, durante nove meses, um índice dos lugares citados na obra. Como penhor de que cumpriria, o pai Bernardo deixaria ao editor «tre fiaschi di vino vermiglio e un fiasco d'aceto».

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

O vinho

«Vinda sabe-se lá de onde, uma nuvem entra por mim dentro, invade-me com a sua escura e ardente melancolia». João de Melo escreveu e Paula Rego ilustrou. É um livro sobre o vinho. Ofereceram-mo hoje. Embriagado de cansaço, sonhando mostos e roendo grainhas, lembro-a da fermentação etílica que é o processo de nos irmos evaporando no lento sonho da ressaca de uma vida mal curtida. No fim vomita-se, na valeta do desconsolo, a alegria breve da bebedeira, o sarro pastoso dos copos por beber. É a alquimia mágica do viver.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Criaturas embiocadas

Gente do Algarve, gente que acredita que há quem leia o que vale a pena ser lido, foi buscar a um conto de Manuel Teixeira-Gomes, o nome para uma editora. Chama-se «Gente Singular». Eu e o texto éramos então uma mesma alegria.
Na página 17 já o narrador, saído da casa de Monsenhor Romualdo Simas e suas três irmãs Sebastiana, Prudência e Faustina, «criaturas embiocadas em lenços negros», se acoitara num pensão, ouvindo da «língua horrorosa» do Dr. Ximenes sobre o conservador da comarca de Faro que «tinha palavras de semana santa e obras de Entrudo», do Pedro Carneiro, escriturário da Fazenda que, sedento das «lindas moiras» se embrulhara na ideia hipnótica dos amavios de uma sultana a tal ponto que, aproximando-se da cama do que julgava ser uma noite no serralho, «sem acender a luz para mais apimentar os preâmbulos da aventura», se cruzara no ansioso palpar com o Celestino, sua voz grossa e sabe-se lá o quê de inesperadamente pronto.