sábado, 24 de outubro de 2009
Ludwig Wittgenstein
O Ludwig Wittgenstein era homossexual, o que importa pouco, mas era um génio, o que importa muito. Escreveu filosofia nas trincheiras, o que ajuda a formar uma lenda, na sua foto mais conhecida aparece a envergar um flying jacket o que compõe sobremaneira a imagem. Além disso, trocou a comodidade de filho de um magnate do aço por professor de escolas primárias em aldeias pobres na Áustria, o que dá uma certificação política que, tudo junto, é um autêntico «laissez passer».
Bertrand Russel abriu-lhe as portas em Cambridge, a sua obra abriu-lhe as portas do reconhecimento da comunidade inteligente do planeta. Diz-se que a sua última frase foi a de pedir que espalhassem que tinha tido uma vida maravilhosa. Escreveu o Tractatus Logico Philosophicus em 1921 para demonstrar que o que se sabe tem como limite o que se diz. Mesmo assim há aporias, como quando se diz algo que não existe, salvo como conceito matemático pois que estatístico. É o caso da magnífica frase «um homem médio tem 2,6 filhos». Coitado daquele que for o 0,6 !
Escrevo isto com ironia mas tenho uma viva admiração por ele, mesmo quando não o compreendo e talvez por isso. O modo risonho deste escrito nocturno resulta de ter encontrado há pouco um interessante blog chamado A Namorada de Wittgenstein. Está aqui.
O Livro do Chá, de Okakura Kakuzō
Okakura Kakuzō estudou na Universidade Imperial de Tóquio sob a direcção de Ernest Fenollosa. Li há uns anos o seu Livro do Chá editado pela Cotovia em 1997. Escrito amorosamente é quase um texto sagrado sobre uma religião que a ter nome se chamaria - e ele assim a chamou - o Cháismo.
A leitura revolucionou-me o espírito, convocando-me para uma muito outra visão das coisas. ««O Cháismo é um culto baseado na adoração do que é belo entre os factos sórdidos da existência diária (...). Consiste essencialmente numa adoração do Imperfeito, já que é uma tentativa terna de atingir algo possível nesta coisa impossível a que chamamos vida». Assim abre esta formidável descrição, de exaltação da assimetria porque só ela abre a porta enigmática ao que equilibra e completa, um saber líquido feito de enamoramento da Sala de Chá enquanto Domicílio da Fantasia.
Lê-se e inicia-se. A verdadeira sabedoria está no não repetir, na proibição da reiteração inútil. No um encontra-se o uno por uma única vez. Entra-se na Arte quando se aprende «a subtil utilidade do inútil». O Cháismo transforma-nos preparando-nos. «Na religião, o Futuro está atrás de nós. Na Arte, o Presente é o Eterno».
Martin Heidegger, por Emmanuel Faye
Quando a Segunda Guerra terminou os aliados passaram certificados de «desnazificação». Passou a haver os bons e os maus nazis. Alguns nazis úteis passaram a ser bons alemães. Depois houve a vista grossa em relação a muitos activistas e colaboracionistas, porque eram intelectuais de renome, mestres-cantores na Kultur ou pessoas sedutoras na Arte. Na música, no cinema, nas letras, os exemplos abundam. De quando em vez há um que tem de entrar em explicações ante o tribunal da opinião pública.
Lembro isto por causa de um notável artigo que se pode ler aqui sobre o filósofo Heidegger, hoje laureado e com honras de acolhimento nos respeitáveis meios culturais e académicos, mas outora um proeminente adepto das doutrinas expansionistas e racistas do III Reich. Trata-se da recensão à tradução inglesa do livro de Emmanuel Faye, Heidegger: The Introduction of Nazism Into Philosophy, a publicar em breve pela Yale University Press [sobre a versão original e sobre o autor em geral, consulte-se aqui].
A linha geral do livro, que o artigo ressalta, é que um autor que coloca as suas ideias ao serviço do nazismo não pode ser considerado um filósofo. A tese é discutível e a ser verdadeira mina os fundamentos filosóficos de todos os que alinharam filosoficamente pelos totalitarismos. Poder-se-á sim pensar que não é filosofia mas ideologia todo o pensamento que visa a legitimação de uma política. A ser assim, estaríamos entre propagandistas refinados, construindo como se sistema fosse, aquilo que seria uma prática agressiva, como se de razão se tratasse, a expressão violenta do irracional. Engenheiros de almas, moldariam a política do espírito, gerando a submissão da mente ao triunfo da vontade.
Nisso, as ideias de Matin Heidegger, os filmes de Lenni Riefensthal e a música de Herbert von Karajan, são uma e a mesma realidade: para além dos nazis que, como bodes, expiaram em Nuremberg, só são hoje nazis os pequenos alemães que se não conseguiram empregar na indústria cultural subsequente aos Acordos de Potsdam.
Na cultura, há sempre uma forma de uma pessoa se justificar: é a teoria da cebola e suas cascas. Also Spracht SS-Mann Günter Grass.
Dormir al Sol, de Bioy Casares
Enganei-me. E como sou superticioso, acredito no valor simbólico do engano.Tinha comprado dois livros de Bioy Casares. Ainda não acabei de ler um deles e hoje, com a vista ainda meia turva de sono, peguei no que julgava ser esse e levei-o para continuar a leitura, com o propósito, aliás, de acabá-la, porque deve haver uma qualquer lei do consumo de literatura que define a quantidade máxima de livros que simultâneamente se estão ainda a ler sem chegar ao fim.
Tarde demais dei pelo erro. Já não podia voltar atrás para o reparar, porque é dia de preguiça e ao mesmo tempo arrisquei seguir o trilho que o destino me assinalara. Agora está inevitavelmente inciado, o que é irritante por aumentar a minha dificuldade em reduzir as pendências literárias e ainda por cima, estou seduzido pelo que leio e vou ser vítima da inevitabilidade.
Assim foi que iniciei o Dormir al Sol. É uma narrativa contada num contexto de um matrimónio quesilento, no território azedo dos mal-entendidos e das zangas, em que é falso que as pessoas se entendam a conversar, por ser precisamente a conversar que se irritam e o silêncio equivaler à paz.
Diana, cavilosa e desconfiada, qualquer boa notícia a entristece, porque dá a supor que, para compensá-la, virá uma má. Para si a frase «se não queres entristecer-me, não estejas nunca triste» tem como resposta razoável «então, não venhas com a história de que é por minha causa que te preocupas». E abre-se a cena do ódio e da recriminação.
É o mundo do «descontentamento geral», das indispostas e queixosas senhoras do «grémio das esposas». Haverá seguramente livros sobre maridos contentes e mulheres felizes, na base do era uma vez. Este está-me a parecer que trata da teoria geral da indisposição e seus fantasmas.
«Peripécias inusitadas», diz-se na contra-capa a anunciar a obra. Ou talvez não. Depois digo se não são, afinal, modos extraordinários de contar lugares comuns.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
8-8-8: a luta pelos três tempos
A cultura tem muito a ver com a política, se bem que a política não se importa muito com a cultura. No século dezanove o ideal reformador eram os três oito, oito horas para trabalhar, oito para descansar, oito para uma pessoa se cultivar. Era o homem integral, trabalhador, lúdico, sabedor. Hoje temos pela frente uma multidão de ensonados, porque o tempo mal chega para dormir e mal conseguem ler um livro porque passam horas no trabalho ou no vai-vém que os leva e traz do trabalho.
Encontrei hoje por acaso uma expressão dessa velha reivindicação operária: um blog sobre os três oitos, aqui, ainda a tempo, diga-se.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Cartas, de Manuel Laranjeira
Quando fui a Manhufe ver a casa do Amadeo de Souza Cardoso perguntei em Amarante onde era Manhufe e o residente da terra de Pascoaes não sabia. Depois lá me informei, fui pela estrada fora e passei pela casa sem dar conta, porque não estava assinalada. Voltei para trás e lá a descobri. Estava fechada e não admitia visitas. Não voltei. Vi então alguns quadros do Amadeo no museu local e confesso não tive coragem para ir à Gulbenkian, que é aqui em frente, quando tout Lisbonne decidiu que o homem que deu escândalo quando da sua primeira exposição na Liga Naval era, enfim, um génio.
Vem isto a propósito de ter descoberto esta noite que o Manuel Laranjeira, esse místico laico que achava que os misticismos eram patologias do espírito e ele era um profundo neurasténico, se correspondeu com o ímpar pintor. Encontrei-as, essas desesperadas missivas no pequeno livro que Ramiro Mourão, que com ele viveu os últimos dez anos de vida, editou, em 1942, pela Portugália, com um prefácio de Miguel de Unamuno.
Leio: «Lisboa é um símbolo, o resumo da torpeza nacional: aos que não corrompe, enoja-os», gritava numa o solitário escritor.
Mas não foi por isso que eu vim aqui. É que tendo encontrado aqui uma caricatura em que Amadeo se retrata com Laranjeira pedalando numa bicicleta, o primeiro abatido o segundo iracundo, encontrei também a carta de 24 de Abril de 1906 que Laranjeira escreve ao pintor: «V. tem falhado em todas as vezes que tenta caricaturar-me, meu amigo, e vou dizer-lhe. É porque você ainda está na idade em que se ri das coisas tristes».
terça-feira, 20 de outubro de 2009
José Saramago: ateu e a-meu
O José Saramago, porque é Prémio Nobel da Literatura, diz coisas e o País ouve. Devia ser o mundo a ouvi-lo mas ele não tem, reconheçamos, dimensão para ser escutado pelo mundo, porque o Saramago é cada vez menos Prémio Nobel e o Prémio Nobel é cada vez menos prémio. Agora, pelo que vejo, escreveu sobre Deus e a Bíblia e essas coisas que dão sarilho porque mexem em sensibilidades íntimas e para cuja defesa há igrejas organizadas e vigilantes.
Neste intervalo, em que já houve eleições mas não há governo, a boutade em forma de livrito serviu para animar os calores nacionais. Ele e a Maitê Proença que disse mal dos portugueses e que o Miguel Sousa Tavares veio defender, talvez porque raramente diga bem do quer que seja.
É um mundo de tricas e de baldrocas. Nada disso tem a ver com a Literatura, sim com a mediocridade do meio literário. Que Saramago não goste de Deus e a Proença dos portugueses, seja. Ao menos que valha a pena ler porquê. Sem que isso tenha importância, vim aqui dizê-lo e explicar que escolhi esta foto do Levantado do Chão: não porque abre os braços em cruz, sim porque se abraça a si próprio. Significativamente. E pronto, está feita a terapia hepática.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Onde o homem acaba...,por Emídio Santana
Emídio Santana, militante anarco-sindicalista. A cabeça patrícia, uma farta cabeleira como a de Álvaro Cunhal, o semblante a lembrar o José Gomes Ferreira.
Em 4 de Fevereiro de 1937 planeou um atentado contra António de Oliveira Salazar, colocando uma bomba num colector na Avenida Barbosa du Bocage. Planeava matar o Presidente do Conselho de Ministros e assim pôr termo ao jovem Estado Novo. O engenho explodiu, mas mal colocado porque mal calculado, não matou quem pretendia liquidar. Salazar escapou. Santana foi condenado a 16 anos de prisão.
Profundo conhecedor da alma humana, cinzelado pelo sacrifício da militância e pelo sofrimento da repressão, condensou num livro os seus escritos do cárcere. A Assírio e Alvim editou-os em 1989. Chama-se a pequena obra Onde o Homem Acaba e a Maldição Começa. São narrativas sobre a realidade carcerária dos anos quarenta, mas são histórias actuais, de «ex-homens», limitados pelo confinamento celular, orientados ao único objectivo que é o de sobreviver, resistir, aguentar, chegar ao fim da pena.
Li esta noite a história do Varandas, condenado da velha guarda, veterano inconformista, irreverente, a odiar por igual a autoridade, que tinha por opressora, e a religião, que julgava supersticiosa. Cumpriu parte da sentença porque o mandado de soltura foi a certidão de óbito.
Entrou na enfermaria, ante-câmara do cemitério, roído de padecimentos. Sofreu a insónia, a agonia, a angústia, a solidão, o estretor e já no fim, alta a madrugada, a alma a libertar-se, foi.
«O Varandas já não era um recluso; deixara de ser o 174...porque já era um cadáver. Libertara-se no silêncio da noite, fechado numa cela, a sós com o seu sofruimento, os seus sonhos e as suas quimeras». Veio o capelão encomendar quem não lho pedira. «Era uma filoxera a menos na vinha do Senhor, uma unidade da trista conserva humana carcerária que expiava uma sentença». Finara.
Ressuma bondade a escrita deste homem que, por amor à sua Pátria, quis matar o Estado em nome da Nação.
domingo, 18 de outubro de 2009
La Invención de Morel, de Bioy Casares
São livros de formato pequeno, que cabem precisamente num bolso, artigos de uma colecção em cuja selecção se percebe ter havido critério. Edita-os a Alianza Editorial. Publica-se nessa forma todo o Borges e qualquer dia já li assim todo o Borges editado. Agora comecei o Adolfo Bioy Casares que era amigo do Borges e que o Borges prefaciou e que em certas fotografias parece o Borges e que se divertiu com o Borges na sublime arte da risota inteligente. Chama-se La Invención de Morel. O dito Morel só surge na página 49, inesperadamente. Tive de voltar atrás para confirmar se o autor não tinha falado dele anteriormente. Mas não tinha, de facto.
No prefácio que referi o Jorge Luís Borges fala do que chama com notável capacidade de sugerir «a novela de peripécias». A maior parte das narrativas são assim baseadas no suceder de coisas que sucedem. Nesta são ocorrências. Surgem exteriores ao narrador, o leitor ganha a ilusão que têm a ver com ele e, por via disso, que têm a ver consigo.Surge assim «a casa infestada de ecos», as «bibliotecas inesgotáveis e deficientes», e, para animar quem vive «em ruína incómoda» o acicatante «bordel de mulheres cegas». Faz sentido porque o amor é cego, os escritores são loucos e os russos demonstaram que em Literatura já não há impossíveis.
sábado, 17 de outubro de 2009
Geschlecth in Fesseln, de Wilhelm Dieterle
São títulos enganadores e classificações idiotas. «Geschlecth in Fesseln», um filme alemão realizado e protagonizado por Wilhelm Dieterle e realizado em 1928 aparece em algumas fontes sobre cinema classificado sobre a homossexualidade nas prisões. É tudo menos isso ou quase.
A narrativa prende-se com a fidelidade de uma mulher a um marido preso. Toca de modo mais do que subtil uma possível carícia entre o preso e um outro companheiro de cela.
Desenvolvendo-se numa lógica de angústia, culpa e expiação, num contexto social em que o desemprego e as dificuldades financeiras dão um ligeiro contexto, a narrativa termina com um suicídio do casal, morte conjunta como a de Stefan Zweig e sua última mulher.
Película ingénua, em cinema mudo, a viver dos efeitos visuais e da melhor expressão - o seu realizador trabalhou com Murnau - , não há nele nada de importante a contar.
O título em português Sexo Acorrentado, que vem, aliás, na peugada da titulação em outras línguas - Sex in Chains na versão inglesa - sugere algum fetiche sado-maso. Mas no fundo trata-se da história convencional de uma questão séria, em que com boa vontade se pode ver um perfume freudiano.
Púdico o que nele se conta é o efeito da ausência de carinho e de companhia. Nele, a palavra sexo está a mais. Mas o título alemão já é assim, a falar de carne e não de alma. Foi esta noite, na Cinemateca.
O Chão dos Pardais (ii), de Dulce Maria Cardoso
Acabei. Fantástico. Houve um momento a meio em que hesitei. Julguei-o pior do que os livros anteriores. Para uma escritora premiada seria penoso. Mas prossegui. Caminhei como Elizaveta, a mala na mão em busca do corpo de Clara, porque «o amor faz bem a quem o sente. Aos amados nem por isso. Tolhe-os. Endivida-os» e eu desejava a familiaridade desta escrita.
Talvez eliminasse no livro os momentos que são o espaço virtual em conversação, esse quarto-escuro de alucinações, ainda por cima impressos a corpo menor, a dar um ar de improvisação tipográfica a uma obra que exigia ter sido impressa em oitavo, para um formato mais íntimo, um livro que se aconchegasse junto de quem o lê.
É uma escrita de risos também, mas sobretudo uma escrita dorida. Caminha «contra aquilo que o corpo quer», como os papagaios verdes que não pertencem àqueles céus. Uma escrita feita da desistência de matar, em que todos sobrevivem como personagens, mesmo os mortos como pessoas, porque ninguém rejeita o futuro, mesmo as irrealidades humanas feitas de cólera quase inhumana.
É um modo de escrever «com relâmpagos na cabeça» em que «o mal era capaz de sorrir de uma forma mais sedutora do que o bem». Uma bela escrita.
«A distância é uma morte temporária». Dulce Maria Cardoso ainda não pode parar de escrever.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
As noites brancas, de Fiódor Dostoiévski
Traduzido do russo e não do francês - como tantas outras versões - por Nina Guerra e Filipe Guerra, o livro As Noites Brancas de Fiódor Dostoiévski a si mesmo se chama «romance sentimental, das memórias de um sonhador». A obra foi publicada pela primeira vez em 1848. Como nota o tradutor, o herói, tal como o dos Cadernos do Subterrâneo, do mesmo autor, é um desadaptado que perdeu o talento de viver «na vida real».
Logo nos primeiros diálogos, aliás, a desconhecia, a «querida Nástenka», com quem contracena ao longo da narrativa, percebe-o porque ele «faz de si um inimigo» e é essa inimizade que o arrasta e ele persegue, sonhador e o sonhador «não é uma pessoa mas uma categoria intermédia», a vogar, por isso, num mundo feito de criaturas.
Na terceira noite ela está contente e trava-se a conversa que é a chave dos sentimentos de que a obra é a a ficção:
«Sabe por que estou tão contente? - disse ela. - Porque me agrada tanto vê-lo? Por que gosto tanto de si hoje?
«Porquê? - perguntei e o meu coração tremeu.
«Gosto de si, porque não se apaixonou por mim».
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
O Chão dos Pardais, de Dulce Maria Cardoso
Há na escrita de Dulce Maria Cardoso uma toada, como se uma ladainha feita de murmúrios antigos, vindos de um tempo interior, intemporal. Feita de frases curtas, algumas com a inocência infantil de serem um modo de escrever tal qual se diz, é uma escrita única na sonoridade, assim a reconheceria quem a visse escrita numa pauta musical em clave de sol.
Reconheço-a, pois, neste seu último romance que me chegou hoje pela manhã e hoje mesmo pela noite comecei a ler.
É difícil ler-se um livro de quem se aprecia a escrita. Neste caso desmesuradamente difícil. «Como é que se pensa uma ideia» pensa Alice cuja ideia no momento em que abro o livro é apenas encontrar uma prenda inesquecível para um marido que há muito a havia esquecido.
Foi assim que, leitor fiel, parti para a leitura e estou na página 56, receoso de que um qualquer momento dessa narrativa a autora falhe, como um cristal que se estilhace porque «não há nada mais imperdoável do que os erros estéticos. Além de incuráveis são contagiosos» e ela não pode errar.
Sigo pelas páginas, como se pelas linhas fora. Passei já pela Clara, substancialmente verdadeira no desejo mesmo quando diferente no acto de desejar, pelo Mc9 tão virtual como possível e um dia deixar-se-á conhecer para além do seu remorso, pela nudez de Sofia, tão apostável como disponível e magnífica. No meio de tudo isso vivi já a dor subrogada pela morte de uma princesa, porque não tem de ser nossa a causa da nossa dor. Vou continuar. Parei agora para vir dizer que estou a ler. Num momento ritual dei uma furtiva olhadela a uma das páginas do fim: «eu acredito que só deveríamos experimentar a juventude se nunca nos fosse tirada», disse Afonso. Talvez tenha melhorado como ser ao longo do romance. No momento em que o leio tem uns horríveis sessenta anos. Odeio-o e «ninguém consegue odiar sem esforço. O ódio exige mais conhecimento, mais prática e mais rotinas do que o amor». Até já.
A cambada de Corgos, de Carlos de Oliveira
Capula vai trair os camaradas de latrocínio. Pouco a pouco «à medida que se fora habituando à ideia de trair os companheiros, invadira-o uma súbita serenidade. Até à frieza completa de agora». É uma narrativa forte, em que a alma se arrepanha pela garra da leitura, chove desapiedadamente na história e no interior de quem lê, uma noite de sangue e de lamaçal, de olhos «cheios do luar pasmoso», de vento, de Natureza e pântano, que «nem chega a ser traição aquilo, é o destino». E, no entanto, um destino que convém às minudências humanas, pequenas misérias de ambição, venalidades pela glória, maldades por vingança. Cosme Sapo que intriga, o Padre Silva, pressuroso, serviçal no púlpito, fugidio porque «ninguém sabe as razões porque padre Silva faz qualquer coisa, nem ele próprio, mas está do lado do Cosme Sapo e é o que importa», todos ali estão, até os amores de Fernando e as ânsias de Hermengarda.
Condenados à grilheta o Leandro, o Venâncio e o Troncho, ladrões do alheio por nada terem de seu, a tristeza que é raiva contra toda a gente, e o povoléu, minguado de meios, em que «ninguém sabe o que deve e o que é seu». Traídos uns pela delação outros pela fatalidade do momento e da origem.
Estou aqui precisamente: Capula trai, compra junto do Administrador a impunidade, mas morre, expiando com a vida a venda dos outros que entrega sem coração, para se livrar «do peso, da solidão, da angústia, que esmagavam a sua vida». Estou pois no momento em que, presa a quadrilha, volta o sossego e o prestígio ao doutor Carmo, o Administrador. Talvez Presidente de Câmara, quem sabe se Governador Civil eis uma carreira que assim se reforça e soergue nas alturas do pequeno mando do incógnito lugar. É a página 206. Triunfante sobre Cosme Sapo, é o momento em que «a corja começava a saltar para o outro lado, à procura da boa sombra». Soberbo, Carmo sente subir-lhe o desprezo pela «cambada de Corgos». Perpetua-se o poder à força da vitória sobre a quadrilha. É a Alcateia de Carlos de Oliveira. O livro que ele negou. Um excelente livro.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Mars Attacks!, de Tim Burton
Talvez por provocação repetidas vezes fiz saber que Marte Ataca! é uma das mais geniais criações que o espírito humano gerou. Claro que ironizo quando o digo e divirto-me com a seriedade dos outros, aqueles que se enfurecem quando há riso, se zangam quando não estamos no território da densidade e da profundidade. Restam aqueles que não perderam a capacidade infantil de ouvir histórias.
Génio, sim, Tim Burton que sobre o original de Jonathan Gems construiu o insólito, o bizarro, o surreal, mas, afinal, uma paródia sobre a condição humana e sobre os tiques lunáticos da sociedade americana.
Riso largo sobre as crenças e sobre as ilusões, gargalhada sobre o poder e a miséria, o filme é mais denso de perspectivas do que a superficialidade de algumas das simplificações a que o sujeitam os espectadores do trivial. Esta noite estava no TVCine-3. Tim Burton iniciou-se a ler Edgar Allan Poe. Walt Disney contratou-o. O oculto abria então portas ao profundo.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Cuntas de la Tierra de las Faias, de António Bárbolo Alves
Acho que a editora Campo das Letras acabou. Ficou um catálogo interessante como as obras em mirandês a que deu vida. É uma língua estranha, antiga, do grupo asturo-leonês. Sente-se nossa, fonética, próxima. A palatização de alguns dos seus sons fá-la surgir como se entranhada no corpo e alma, não como aquelas línguas tagarelantes e superficiais, antes uma língua que se respira, gargareja e regurgita. «Yê ua nuite de Eimbierno. L cielo de un azul alto i strellado cubre la preinada. L algodon an rama ampeçou lhougo pula manhana i todo I santo die fui bê-lo caer. Parecie sembrado a manadas. Num era I purmeiro nebon de l anho mas era de certeza i mais fuorte».
Magnífica, gutural, bucal, mastigada língua. «La tierra parecie drumida. Ancantada por aquel ancanto».
Der Vorleser, de Bernhard Schlink
Um blog sobre livros pressupõe que se leia, assim como um blog sobre a vida exige que se viva. Há, porém, aqueles intervalos em que se não lê porque se está a viver uma vida fora dos livros. No filme Der Vorleser ela é analfabeta. Lê através dos olhos de outrem. O amor e o ódio surgem através da leitura, os sentimentos vão-se acumulando como livros e, tal como eles, há um momento em que exigem arrumação. Nesse momento ela está presa.
O autor do romance é jurista e professor de Direito. A história transforma-se numa reflexão sobre o que é justo, num mundo em que a pergunta é saber apenas o que é possível.
sábado, 10 de outubro de 2009
The Comedians, por Graham Greene
Porque é que Graham Greene é um grande escritor? Porque o leitor vai virando folha sobre folha, conduzido pela sua narrativa, sem esforço, seduzido; porque há enredo nas suas histórias e contexto; e porque há densidade humana nas personagens, humanidade; e porque, não havendo trivialidade, há senso comum, vida reconhecível.
Comecei a ler The Comedians, a novela, escrita em 1965, que se passa no Haiti, com todos os elementos reconhecíveis do que era e em parte ainda é aquele desgraçado país, incluindo a miséria, a repressão, o voodoo, a atracção turística, a Natureza indiferente ao que dói.
Irónico, no prefácio o autor explica que o narrador «apesar de o seu nome ser Brown, não é Greene». No mesmo registo acrescenta que muitos o tomaram já como sendo alguma das suas personagens, supondo-o, por exemplo, o amante ciumento da mulher de um funcionário público. Lendo The End of the Affair e comparando-o com a biografia de Greene, o leitor sorri-se.Deveria, porém, penalizar-se, pois os seus mais íntimos e magoados sentimentos escondem-se em cada linha, por vezes quase imperceptíveis a quem não conheça o que viveu: «this is onde of the pains of illict love: even your mistress most extreme embrace is a proof the more that love doesn't last».
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
terça-feira, 6 de outubro de 2009
1984, de George Orwell
Labiríntico, orwelliano, é o Palácio da Cultura. Vê-se da janela do hotel, imponente na larga avenida. Quando escreveu sobre o Ministério da Verdade na Oceania, George Orwell imaginou-o assim, gigantesco, piramidal, 300 metros de altura e 3 000 salas de extensão. No livro 1984 havia também o Ministério do Amor, o Ministério da Fartura e o Ministério da Paz. No primeiro trata-se de prender os dissidentes. Naturalmente, porque a fidelidade é um dever e quem ama o Estado, ama-o indiscutivelmente.
Eis o pensamente tornado aqui arquitectura. Li o livro através da minha janela em folhas de betão.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
A República e o darwinismo
A República aboliu a fatalidade hereditária. Se vigorasse a lei do aperfeiçoamento das espécies seria um fantástico regime. Hoje, ausente da Pátria, e sem livros de que me possa socorrer, resta-me apenas recordar os intervalos dinásticos e aquele em que, pela regra da sucessão, perdemos a independência, e mais as leis do banimento. Ou então, para tentar estar contente, os momentos equívocos e embaraçosos em que se contrapõem na política legitimidade e conveniência: É o caso do Rei Carol, da Roménia, deposto. Um dia apareceu em Portugal, vindo de Espanha, fugido. Estávamos em 1941. A propósito, um jornal grego noticiava: «O ex rei da Roménia, Carlos, que há pouco tempo chegou a Lisboa com a sua mulher a ex senhora Lupesco (sic), pode em breve, se o quiser, candidatar-se ao trono de Portugal, que permanece vago desde a morte do rei D. Manuel II. Com efeito Carlos é e o ante neto da Rainha Maria de Portugal que pelo seu casamento com o príncipe alemão Fernando teve três filhos: Pedro V, que morreu quando da peste, Luís I, herdeiro de Pedro e uma filha D. Maria Antónia. Maria Antónia casou com Leopoldo de Hoenzollern e teve dele um filho, Fernando da Roménia, pai de Carlos. Dado que o ex rei Carlos é o descendente do ramo da dinastia portuguesa que permaneceu fiel à Constituição, ele tem, de acordo com certos historiadores mais direitos do que o actual pretende D. Duarte Nuno que é descendente do ramo que se opôs à Constituição e foi por isso expulso de Portugal. Por isso vários se perguntam em Lisboa se no fim Carlos irá reivindicar a Coroa portuguesa sobre a qual tem tantos direitos ou se, pelo contrário, preferirá ser restaurado no trono da Roménia, porque correm rumores de que Carlos está em vias de substituir o seu filho Miguel, que não goza da simpatia dos comunistas romenos».
E se o Rei, em vez de se ter refugiado na linha do Estoril, tivesse tomado em mãos o Palácio da Ajuda? Seria Rei. E hoje adeus feriado!
domingo, 4 de outubro de 2009
O tempo e as nuvens
Hoje é domingo e estou a viajar. Aqui há uns anos assisti a um encontro onde os escritores que se reuniam falavam de literatura de viagens. Alguns viajaram muito e falavam de tudo, incluindo a Amazónia que já passou a banalidade burguesa. Outros, mais confinados, ou menos exuberantes falavam das viagens à volta do seu quarto e das viagens interiores, estas às profundezas do eu.
Ao chegar aqui tinha um email que me dizia assim: quando eu era pequena e viajei de avião não queria que o avião estragasse as nuvens. Ora quem viaja assim viaja no Céu, sentada ao lado de quem viaja apenas pelos céus.
Aterrei aqui vinte minutos antes da hora, com a sensação de estar a ganhar pontos ao decurso do tempo. Na revista que vim a ler, oferta da TAP incluída no preço do bilhete, um professor explicava: se passar aleatoriamente o conteúdo de um DVD, baralhando tudo, onde está o tempo dentro do DVD? Confesso que não sei. Não é por ter acabado de chegar, é porque a inteligência vai escasseando com a passagem do tempo. É que já são sessenta anos.
sábado, 3 de outubro de 2009
Pântano da Morte, de Cândido de Oliveira
Um sábado recolhido a preparar uma comunicação sobre as redes clandestinas do SOE em Portugal durante a 2ª Guerra. O SOE foi o organismo que coordenou a guerra subversiva nos países ocupados. Teve também actuação em países neutrais como no nosso.
Organizadas por um advogado, oriundo da reputada firma Slaughter & May, delas fez parte uma figura lendária no desporto, chamado Cândido de Oliveira, o agente «Pax».
Descobertas devido a uma infiltração da PVDE e ao descuidado relacionamento com a Legião Portuguesa, a sua existência ia causando um grave incidente diplomático.
Salazar salvou a face à nossa mais velha aliada, apanhada em contra-mão, evitando o escândalo. Quem sofreu a parte pior foram os portugueses, internados no Tarrafal, para que o seu julgamento não fosse a demonstração pública de algo que os interesses da política queriam esconder. Nisso o sofrimento individual é sempre pequeno ante as razões de Estado.
Cândido de Oliveira escreveu um livro sobre o que viu. Chama-se Pântano da Morte. Foi editado em 1974, pelo jornal República, de Raul Rego.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Lobo Antunes
Houve um jornal que publicou hoje uma entrevista minha. Não sei por que pudor me abstenho de a reproduzir aqui, mesmo em parte, e mesmo esta referência já me parece algo atrevida.
Há na escrita este desdobramento que leva a que sinta o autor (alguns autores, já lá vamos) alguma timidez em falar extensamente de si. Não sendo propriamente um escritor - acho que é preciso alguma coragem para alguém se julgar isso sem durante muitos anos ser apenas aquele que escreve - sinto algo parecido.
Em excepção contida à regra fica aqui, porém, apenas uma pergunta e uma resposta dessa entrevista: «O que faz para se divertir? Basicamente, leio e escrevo. Hoje, a escrita é a minha grande ocupação. E leio muito, por vezes os livros de um autor todos seguidos. Fiz as pazes com a complexa Agustina, com o labiríntico Borges, qualquer dia até com o Lobo Antunes, fingindo que ele não existe como pessoa insuportável de vaidade. Há alturas para tudo na vida. Até para se fazerem pazes com o mundo».
A que propósito vem isto? De ter visto nas montras mais um livro de conversas com o Lobo Antunes e andar cheio de engulhos quanto a comprá-lo. Não há dúvida que a criatura tem o condão de irritar a paciência por causa da soberba. Talvez em atenção ao João Céu e Silva me decida. Mas sempre a lembrar-me o que dizia, ensarilhado nas suas angústias, o Vergílio Ferreira: que o homem tem entradas de Lobo e saídas de Antunes. Subiu-lhe a fama à cabeça! A culpa é de quem lhe atura a arrogância.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
O Mundo não pode dormir, de Stefan Zweig
«Há hoje no mundo pouca gente que durma; as noites são mais longas, mais longos os dias». Assim começa Stefan Zweig a sua poderosa narrativa sobre o tenso ambiente de uma Europa em guerra, a vigília como sentinela. «Em todos os países, por essa Europa fora, em todas as cidades, em cada rua, cada casa, cada aposento, tornou-se mais curta e febril a tranquila respiração do sono».
Li este texto há uns anos, no mesmo estado de exaltação que o escasso descanso traz ao organismo, a inquietação tornada constante insónia. «Toda a humanidade tem agora febre de dia e de noite; esse terrível, pavoroso, estar deperto transparece nos sentidos sobreexcitados de milhões de criaturas».
Lá pelas quatro da manhã virá não o sono mas o cansaço.Umas horas depois a luz do dia e o ruído da vida irrompem. O sentido do dever aguilhoa a resistência. No mais é a inércia do movimento, essa lei da dinâmica do que acaba por suceder.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
À Sombra, de Jerónimo Negrão Buisel
Imagine-se que se compra um livro num alfarrabista. Um livro pequeno, brochado, mas ainda com os fólios cosidos, que pertenceu a uma qualquer biblioteca, talvez particular, de quem o numerou com uma vinheta, daquelas que se colavam com goma arábica. Um livro impresso - e cito tal e qual está no seu frontespício - na «Typographia Editora José Bastos», que era no número 100 da Rua da Alegria em Lisboa.
Um livro que saiu sem data, mas que tem um prefácio datado de 17 de Outubro de 1915. Um livro que se chama À Sombra e tem como subtítulo e de novo a grafia da época «versos colligidos em 7 mezes de preso político no Limoeiro».
Imagine-se ainda um livro que tem aposto no verso da capa um ex-libris, que é coisa do tempo em que a propriedade dos livros se assinalava assim, um ex-libris que tem o logotipo de uma caravela, ornado com uma pedra de armas cujo lema é «tole lege». Um ex-libris que nos diz que pertenceu ao contra-almirante João Correia Pereira. Um livro autografado pelo autor.
Imaginem-me agora à procura de saber quem é o autor desse livro e descobrir que «natural de Portimão. A profissão de empregado comercial era complementada com a prática da escrita, que cedo desenvolveu. Foi colaborador de vários jornais e revistas, fundador e director da revista "O Algarve". «À Sombra» foi o seu único contributo literário. A nível político, continuava a defender os ideais monárquicos, o que o levou a ser perseguido e preso no início do actual regime. Membro do Partido Regenerador. Fazia parte do conjunto de figuras políticas notáveis de Portimão na segunda metade do século XIX».
Só mais um esforço. Imaginem-me, só para terminarmos, à procura de quem foi o almirante João Correia Pereira e descobrir que publicou um estudo chamado A Marinha de Guerra e o Império na Revista do Ultramar, em 1948.
Voltemos à realidade, deixando a imaginação. É este o prazer dos livros, a teia que se urde em torno deles, fios de vida que se espalham entre as paredes da biblioteca, pelos quais passeia a aranha da fantasia.
Ah! O autor chama-se «Jeronymo Negrão Buisel». E os versos, coitadinhos dos versos que são tristes suspiros de uma alma agrilhoada. Cito um, por amigável compaixão: «Amas a Nosso Senhor/que morreu por toda a gente,/e a mim não me tens amor, que morro por ti somente». Chama-se Ciúme.
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terça-feira, 29 de setembro de 2009
Estilhaços, um livro de...
Quando se arrumam livros descobrem-se neles coisas extraordinárias: são os que tiveram importância e hoje já não sabemos porquê, aqueles que nunca tiveram qualquer espécie de relevo e que comprámos sabe-se lá a razão, aqueles que de súbito ganham um momento de atenção no nosso quotidiano.Eis o caso.
Não sei como classificar o livro Estilhaços. Sei que foi escrito por um advogado que nasceu em Luanda e exerceu advocacia até 1999. À data da publicação era consultor jurídico do Instituto da Conservação da Natureza. Segundo a badana do livro «na qualidade de especialista de Direito do Ambiente foi orador convidado em diversos congressos e seminários, portugueses e estrangeiros, e professor em cursos de formação, de pós graduação e de mestrado». O seu autor chama-se Adolfo Morais de Macedo.
Tudo faz sentido, tudo é lógico. Agora a surpresa. Em 1981 fundou o grupo de rock Auaufeiomau, em 1984 os Mão Morta. O seu nome artístico é..Adolfo Luxúria Canibal! Voilá!
E ora bom dia! Aprendamos a ser um outro. Não Somos Aqueles é o nome de um dos seus escritos: «Somos aqueles contra quem a televisão nos preveniu». Exactamente. Ainda ontem à noite, solenemente.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Lendo jornais
Dia sem possibilidade de ler nada, salvo o jornal da manhã. A Capital, de que o Sousa Tavares (pai) foi director, chamava-se «o seu vício diário». Como nunca me rendi a vícios - sou capaz de fumar um cigarro e deixar de fumar os outros dezanove - porque tenho outros graves defeitos, leio de quando em vez um jornal, nem sempre o mesmo. Outro dia uma jornalista dizia-me «não leio esse jornal, porque... (...)». E eu pensava: «se seguisse esse critério não lia nenhum. Sobretudo o Diário da República».
Maria Ondina Braga, um blog
A edilidade de Braga descerrou um busto de homenagem a Maria Ondina Braga. A câmara patrocina um prémio literário com o seu nome. Já tinha dado o seu nome àquela rua que se vê na fotografia. É o possível reconhecimento local de uma grande escritora. A verdadeira homenagem ainda está, porém, por fazer-se, a edição completa das suas obras. Estão esgotadas, nem pelos alfarrabistas se encontram. Soube outro dia que a Maria Ondina deixou um romance inédito. Sei que entregou para edição o segundo volume da obra Mulheres Escritoras.
Criei um blog que lhe era dedicado. Um dia abandonei a escrita pessoalizada na net, e o blog ficou inerte. Lembro isto porque me lembro também da sua escrita, fina, de interior, a sua alma delicada a esvair-se em cada página. Maria Ondina deu-se em livro. Talvez haja razão para que eu recupere aquele blog. Ele, afinal, não me pertence.
domingo, 27 de setembro de 2009
A República dos Corvos, de José Cardoso Pires
Há quem leia para seguir a narrativa, outros o modo de dizer. No meu caso acabei por seguir de linha em linha ao encontro de uma expressão feliz. Li a história de Vicente, o corvo de taberna, o Corvo Taberneiro, o corvo que está na heráldica de Lisboa, Lisboa a República dos Corvos. É um conto triste, que termina com uma morte e com a sua tristeza desesperada, crucitante, ele «que até e lisboeta de nascimento é com grasnar de reguilas e tudo», agora, morta a galinheira, que era a sua companhia e o seu sustento «mantém-se à cabeceira da defunta, não consentindo que ninguém lhe toque e lançando, num crácrá aflitivo, a mais íntima e pessoal de todas as suas vozes».José Cardoso Pires escrevia com sumptuosidade. Uma sumptuosidade pesarosa, mesmo quando revoltada.
sábado, 26 de setembro de 2009
A Orelha de Deus, de Jenny Schwartz
É como o raio verde, aquele momento magnífico e único em que o sol se afunda no mar, e é o pôr do sol: o teatro tem também aquela permanente possibilidade de o milagre quebrar o seu efeito, surgir, feio, desdentado, indesfarçável, o desastre.
Sozinho no palco cada actor enfrenta o medo constante de uma má expressão, uma falha de memória, uma deixa que se perdeu: representa na boca de cena do precipício.
Acabo de chegar da Culturgest. A peça chama-se A Orelha de Deus. Escreveu-a Jenny Schwartz. Encenou Cristina Carvalhal. Representam Cucha Cavalheiro, Diana Sá, Emílio Gomes, Luísa Cruz, Manuel Wiborg, Pedro Carmo e Sandra Fiadeiro.
Há no teatro aquele momento em que está em palco a representação da personagem de que costumamos ser nós os intérpretes. O receio de falhar cola-nos ao palco, as ribaltas como testemunhas, os seus longos olhos a seguirem-nos cada passo, cada gesto, cada fala.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Amor e Dedinhos de Pé, um filme de Luís Filipe Rocha
Sentava-se atrás de mim no anfiteatro três. Deu em cineasta como eu dei em advogado e outros em tanta outra coisa. Nele vê-se que é um dom. No Cénico de Direito foi o Senhor Corvino na peça Volpone de Ben Johnson. Digo isto mas não vi a peça. Rodou o Amor e Dedinhos de Pé, que estreou em 1993. Não fui à estreia mas ele convidou-me. Fui hoje reparar esse erro. Numa das cenas, dono da casa, estava o Henrique Sena Fernandes. Tinha-o visto uns dias antes na mesma Cinemateca a falar com o Paulo Rocha sobre o Wenceslau de Moraes. Foi ele quem escreveu o livro. Não o li apesar de ter estado em Macau. Confesso a vergonha. Hei-de ler. Aos poucos um homem encontra-se consigo próprio. É esse o tema da narrativa contada em filme por Luís Fiipe Rocha. Magnificamente.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Clepsydra, de Camilo Pessanha
Fui hoje à Biblioteca Nacional porque se apresentava o acesso on line ao espólio de Camilo Pessanha. O acesso é por aqui. Autor de um só livro, o autor da Clepsydra desinteressou-se, porém, da sua publicação. Devemo-la a Ana de Castro Osório, a mulher que o amava e não o quis para marido.
Hoje, Daniel Pires encarregou-se de lhe resumir a biografia. Por várias vezes se referiu a seu filho, depreciativamente: a propósito do desinteresse pela obra do pai, a propósito da venda, por puro intuito mercantil, da sua colecção de arte chinesa, que se pode ver hoje no Museu do Oriente, depois de ter sido recusada por vários museus.
Esta noite, já em casa, abri o livro que Danilo Barreiros dedicou em 1961 ao testamento de Camilo Pessanha: «Crescendo num ambiente alheio às convenções normais, quase desprezado pelo pai, que o adoptava de "Malau" (macaco), teve João Manuel formação deficiente, Camilo Pessanha não sentia por ele grande afecto e nunca se empenhou em orientá-lo na vida. Tratava-o com excessiva severidade e, uma vez, aos surpeendê-lo a namoriscar Ngan Ieng, expulsou-o de casa, deixando-o entregue a perigosa vadiagem».
Caramba, que dor para quem se embevece ante o simbolimso florido da sua escrita, para quem, sabendo-o maçon, o imaginava fraterno e solidário.
Nunca fantasies em Literatura. Lê.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Suspiria, de Dario Argento
Uma academia de dança alemã que encombre um areópago de bruxas e se chama Erasmus de Roterdão. Uma vaga reminiscência do oculto que se vai intensificando. Uns quantos símbolos esotéricos entre os quais o inevitável olho no triângulo. Um odor a morte e a perigo.
Suspiria vale a pena pelo modo como Dario Argento gere o suspense, pela beleza de algumas imagens.Tem primarismos quando tenta alguns efeitos especiais, ingenuidades de representação, quebras de sequência. No final coloca-se a questão filosófica da verdade do Maléfico, do transcendente pagão como ramo da psiquiatria.
Lendo a explicação técnica percebe-se que a coloração muito contrastada resulta da junção de uma película de baixíssima sensaibilidade a um excesso de iluminação dos décors. Tipicamente alemães, aliás, bizarros.
O filme, rodado em 1976, seduz para além da história. É o mesmo com a excelente literatura: a narrativa é um incidente.
À saída um jovem dizia: «há uma cena que está cortada». Explicava qual. Fiquei fascinado. Em 1976 ninguém sonhava que ele viria a existir.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
A Ilha de Moraes, de Paulo Rocha
Entre 1975 e 1983 o cineasta Paulo Rocha foi adido cultural na Embaixada de Portugal em Tóquio. Não sabia. Estudou a obra de Wenceslau de Morais, o que foi tema em 1982 da sua longa metragem A Ilha dos Amores, em que Rocha protagoniza Camilo Pessanha e Luís Miguel Cintra o próprio Wenceslau. Ainda tentarei ver.
Vi sim este fim de tarde na Cinemateca Portuguesa um documentário seu que aproveita o trabalho de base desse estudo: A Ilha de Moraes. Foi produzido em 1983. São basicamente conversas sobre o biografado, em Macau, primeiro, no Japão, depois, seguindo a ordem da sua vida. Paulo Rocha fala japonês com fluência, a côr local torna-se mais vincada.
Cinematograficamente quase não há técnica. Sem efeitos, a câmara frequentemente imóvel, como se preguiçosa a escutar a narrativa, há momentos de alguma monotonia. Além disso a qualidade da imagem é pobre, o som ténue.
Verdadeiramente o filme não capta a essência da sensibilidade de Moraes, se bem que perpasse por ele uma devoção permanente. Mas cumpre a sua função. Ao chegar a casa tenho comigo o Bon-Odori em Tokushima, o livro do último dos lugares onde Moraes viveu, depois de ter renunciado a tudo quanto o ligasse a Portugal. Já o tinha lido e sublinhado, agora quero lê-lo uma outra vez. É isso que nem sempre o bom cinema, o de substância e o que tem técnica, consegue: vontade de mais.
Oficial de Marinha, sobretudo escritor, Moraes é um português triste como tantos portugueses. Sofreu de uma insidiosa doença, a doença de quem ama. Morreu sozinho.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Os Meus Sentimentos, de Dulce Maria Cardoso
Quando conheci a escrita da Dulce Maria Cardoso já ela tinha ganho o prémio Acontece com o seu livro Campo de Sangue, mas eu li primeiro o que foi o seu segundo livro. Segui-lhe o conto que divulgou na revista do jornal Expresso, vivido num farol, em tons de azul, e o livro de contos que juntou esse a outros, o Até Nós. Do que li não gostei de muito pouco. É uma escrita notável. Os Meus Sentimentos magoa a alma, dói. Um livro belo, uma escrita que arrebata a mente. Faz perguntar onde viveu ela tanta vida.
Hoje vejo-a premiada pela Europa e a sua editora a reimprimir-lhe os livros. Fico contente, como aquele que tivesse dito «eu já sabia».
«Quando nos contam uma história ouvimos sempre outra», diz Violeta, de quem os homens riam, mesmo quando lhe gozavam o corpo, apoucando-a, «uma mulher tão gorda, tão gorda que quando caía da cama caía para os dois lados», Violeta que se esvai em agonia, porque ao fim de uma vida «apanhámos o hábito de nos magoarmos» e «os moribundos são mansos que o desespero é coisa de vivos».
Um dia estive em Urbino e encontrei-a, traduzida em italiano. Eu sabia, Violeta «um nome de uma flor que também é uma cor».
Agora é uma questão de tempo e o rancor da crítica ser inferior à inveja dos outros escritores.
Agora é uma questão de tempo e o rancor da crítica ser inferior à inveja dos outros escritores.
domingo, 20 de setembro de 2009
Fears, por Zero Mostel
A constipação a ir-se, posso, enfim, rir. Tudo começa quando se sente o nariz preso, como entalado por um livro de rija lombada. Surge o mal estar e surgem os medos. Querem ver como? Espreitem aqui, já agora até ao fim. Boa noite e amanhã há mais.
P. S: A propósito de Zero Mostel: foi em 1977 o grande actor de The Front de Martin Ritt, com Woody Allen.Um filme de saltarem as lágrimas, de tristeza.Um filme contra a paranóia do macartismo, essa doença viral dos polícias da Arte.
P. S: A propósito de Zero Mostel: foi em 1977 o grande actor de The Front de Martin Ritt, com Woody Allen.Um filme de saltarem as lágrimas, de tristeza.Um filme contra a paranóia do macartismo, essa doença viral dos polícias da Arte.
A Metamorfose, de Franz Kafka
Baseado num estudo científico publicado na Psychological Science, a revista norte-americana Miller-McCune divulgou a ideia: a leitura de literatura absurda estimula a mente.
O exemplo é o mesmo que serve de gag a um momento do filme de Mel Brooks que em português teve como absurdo título Por favor não mexam nas velhinhas e que no original se chamou The Producers: um texto de Franz Kafka.
Sabe-se que Brooks deu à cena a história de um produtor teatral, Max Bialystock, que consegue evitar a falência lançando uma peça que julga ser um fracasso garantido, o que lhe permitirá lucrar com o dinheiro das suas anciãs financiadoras que, assim, não terá de remunerar. O guião escolhido acabará por ser o escrito por um nazi refugiado na América, criatura meia tresloucada, ainda a sonhar com o regresso do seu Führer, vivendo numa mansarda miserável, entre pássaros e goles de schnaps: Springtime for Hitler. Mas há o momento em que, envoltos em manuscritos possíveis, entram pelas primeiras linhas de um livro de Kafka: «Quando Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso insecto». «É bom demais», conclui o produtor, enfastiado, na tela o magnífico Zero Mostel. Lembrei-me hoje, da ideia da metmorfose e do fracasso garantido como causa de sucesso, altamente estimulantes, diga-se.
sábado, 19 de setembro de 2009
Tenho uma grande constipação, de Fernando Pessoa
«Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.»
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.»
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Saber Viver, da Baronesa X (Adelaide Bramão)
Abriu uma secção na revista Modas Bordados, de Maria Lamas, a que chamou Vida Feminina. Depois dedicou-se à escrita doméstica e social. Um dos seus livros mais famosos chama-se Saber Viver. Em 1944 já ia na 5ª edição. Como o esclarece o sub-título, são «regras de etiqueta». Assinava como Baronesa X. Chamava-se Adelaide Bramão, mulher de Alberto Allen Pereira de Sequeira Bramão.
Há um perfume de aristocracia como toque de finesse: «A Condessa de Marval atravessava, vagarosamente os salões, para se certificar de que tudo estava em ordem. Recebia nessa tarde as suas amigas. As festas que dava tinham sempre um cunho de distinção, presididas pela sua alta competência de requintada artista, a que juntava ainda as grandes qualidades intelectuais», assim abre o capítulo intititulado «um chá de tarde, preparativos para a festa».
Sob a forma de um diálogo romanceado, citando, entre tantos, Lamartine e Montaigne, são conselhos para saber estar. Um homem não deve entregar a uma senhora um bilhete de visita que indique o seu título social; «esses são reservados para as relações entre homens», ensina a Baronesa que, na quinta edição viu o texto ajustado em «um ou outro ponto em que a instabilidade social modificou esta ou aquela forma de cortesia».
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
A arte de não fazer nada
São verdadeiros actos de amor e de dedicação, quase um serviço público. Claro que muitas vezes são «picados», os seus textos, as imagens que editam, pura e simplesmente copiados sem ao menos a gentileza de uma menção. Conhecia os Dias que Voam, agora outro chamado Ilustração Portuguesa que me remeteu para um terceiro, o Artistas Portugueses. Publicam material antigo que anda muitas vezes pelos esconsos dos alfarrabistas, que os herdeiros jogam fora, com desprezo, ao esvaziar as casas vazias de quem os coleccionou. Num deles encontrei esta Crónica Feminina de 1964, dedicada à magnífica arte de não fazer nada.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Portugal, que futuro? de Medina Carreira
Medina Carreira publicou um livro. O livro traz na capa o seu nome e também o de Eduardo Dâmaso, que é director-adjunto do jornal Correio da Manhã, porque depois da introdução, escrita pelo primeiro, seguem entrevistas, em que o segundo formula as perguntas, rematando com um texto final.
Claro que as perguntas são extensas, por vezes reflexivas, mas, vistas as respostas, ficam aquém. O entrevistado tem esse condão. «Arrasa» como titulava um blog a propósito de uma sua prestação televisiva em que chegou a pedir ao jornalista que não fizesse de papagaio do senso somum e do discurso do costume. Aqui também o entrevistador não resiste: partiu com optimismo termina a confessar o seu acabrunhamento e a falar de António Guterres e o seu PS.
Refiro isto do título do livro porque antigamente havia no jornalismo uma regra de ouro: entrevistador apagava-se para sobressair o entrevistado; permitir-se pôr as iniciais a assinar a entrevista já era um destaque, ser fotografado ao lado daquele com quem conversava, uma honra. Agora chega-se a ponto em que a entrevista é uma forma de ventriloquismo, em que o perguntado confirma ou é desfeiteado se ousa desmentir.
Talvez esteja a ser injusto, generalizando. Ainda só olhei de soslaio para o livro de Medina Carreira. Chama-se «Portugal, que futuro». Lembra «Portugal e o Futuro», um livro que revolucionou o país. Foi escrito pelo general António de Spínola. Vou ler.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Alcateia, de Carlos de Oliveira
O que leva um autor a renegar um livro? Carlos de Oliveira escreveu o Alcateia em 1944. Retirou-o o do mercado. Em 1945 reeditou-o. Mas no final considerou que o livro não deveria integrar a sua obra. A Assírio & Alvim não lho editou quando foi paulatinamente dando à estampa o seu acervo. A Caminho, quando condensou tudo num só volume, também não.
Encontrei-o, ao livro proscrito, num alfarrabista, em segunda edição, na colecção Novos Prosadores da Coimbra Editora.
É um livro de sangue e morte e luta. «Se choro, é com raiva de não poder matá-lo outra vez», diz Leandro depois de ter mandado o Lourenção para o Inferno, esse «desgraçador maldito» que lhe apoucara a filha. Curioso por lembrar-me o Assis Pacheco e o seu Benito Prada.
Li pouco ainda. Vou na parte em que o povo se barrica na casa desse predador sem escrúpulo nem arrependimento, para que não caia nas mãos do Estado e se devolva aos roubados o que a usura do salafrário lhes roubou. Chega a Guarda e seus fuzis e o Administrador chega fogo ao local da barricada. Fogem como ratos, bravios, à cava.
Pobre livro, enjeitado.Recebo-o como a um órfão, tirado da roda dos expostos ou salvo dos lobos numa mata de urzes.
São maus os autores quando exigem e não perdoam. Perdem o tino do critério e afogam os filhos como gatos numa bacia, perdida a piedade humana e a capacidade de os amar.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Odisseia, traduzida por T. E. Lawrence
Às vezes fica a ideia de que a leitura é o privilégio dos ociosos, o entretém dos desocupados, um luxo para os que podem. Quando uma pessoa se esfalfa um dia a trabalhar, mesmo que o seu trabalho seja ler, há o balanço do fim do dia. Os olhos estão cansados mas a alma anseia. Claro que intervalamos para alimentar o corpo, ainda que seja uma sopa; naturalmente que animamos o cérebro, nem que seja com comprimidos ou álcool ou cigarros. Quanto ao espírito esse definha, esfomeado.Às vezes fica a ideia de que a leitura é um além que castiga os Sísifos deste mundo, rolando calhaus de deveres por escarpas de obrigações, as mãos esfoladas, a multidão insatisfeita, o cume inatingível, o sopé certo da constante montanha.Talvez ainda leia qualquer coisa antes de ir para a cama, pensa ele, nem que seja o prazo de validade de algum iogurte que sobeje.
T. E. Lawrence, mais conhecido como Lawrence da Arábia, traduziu a Odisseia de Homero no tempo livre enquanto oficial da Royal Air Force. Assim o revelou Sir Maurice Bowra no prefácio à edição de bolso, em oitavo, editada pela Oxford University Press que, há uns anos, trouxe de uma estadia em Inglaterra. Tinha terminado Os Sete Pilares da Sabedoria.Estava esgotado. Mas era «um inexorável homem das letras». É assim que eles se conhecem, inexoravelmente.
domingo, 13 de setembro de 2009
Julieta Monginho
Gosto de livros mas por vezes é difícil ler publicações que falam de livros.Acontece comprar, abrir uma página, ler umas linhas e ficar só isso. Aconteceu com este número do JL, como sucede frequentemente com o JL. Desta vez ficou-me a 'autobiografia' da Julieta Monginho, na última página do jornal e dela uma frase solta. «Tudo se consumou, tudo se consumiu», escreve, pensando no tempo em que chegou aos trinta anos, o tempo dos balanços. É uma crónica de vida, a quem chamou 'Cidades Habitadas', a síntese de um pai e de uma mãe e de uma história que começou em Verona, por alturas de 1956. O tempo dos amores.
sábado, 12 de setembro de 2009
Karl Marx, de Jorge de Sena
Na minha geração o marxismo era a Bíblia. De um dos meus colegas dizia-se que tinha deixado o Das Kapital no seu veloz Porsche, onde a PIDE o apreendera. A esmagadora maioria ia então para a Faculdade a pé. Nessa figuração absurda de um dos dos livros que revolucionou o mundo estar perdido, por displicência, num excepcional automóvel de um abastado estudante, estava contida a semente da contradição do que viríamos a ser quando adultos. A burguesia vive destes insólitos, frutos da crise de crescimento do que são, afinal, os seus filhos pródigos. Mas, enfim, penso que nem ele, patrício, que nos tolerava, nem nós, plebeus, que o desprezávamos, tínhamos lido esse livro monumental, livro publicado que era parte de um livro escrito, livro escrito que era parte de um livro pensado, uma infinita escrita surgida no moto continuum de uma forforescente mente genial.
Karl Marx, em Londres, indissociavemente com Friederich Engels foi um dos mais potentes pensadores de todos os séculos. Escreveu uma crítica à economia política, ao papel redutor do economicismo, em revolta aberta contra a leitura que o bolchevismo faria de si.
Revi isso tudo agora, porque um taxista amável me avisou que havia problemas com o trânsito por causa do enterro de um escritor. Não era enterro mas trasladação, que é uma forma de exumar nas consciência o que o esquecimento sepultou. Mas era escritor, Jorge de Sena. Este seu estudo sobre Marx descobri-o ao ter lido o que escreveu sobre Maquiavel, o genial florentino. Estão os dois estudos num livro da Cotovia, de má tipografia, com as linhas a emaranharem-se para poupar papel. Comprei-o outro dia.
A primeira edição de O Capital, alemã, tem 780 páginas, dedicadas ao processo de produção do capital. Falecido o autor, em 1883, Engels compilou-lhe, nesse ano, o segundo livro, de 500 páginas, sobre o processo de circulação do capital e no ano seguinte as 870 páginas do livro sobre o processo de produção capitalista. Caberia a Karl Kautsky, o renegado Kautsky segundo Lénine, completar a obra em três volumes do que seria um Livro IV, com 480, 380, e 600 páginas. «A metro cúbico de papel» dizia Marx numa carta a Engels, porque é assim que os alemães gostam.
Doutorado em filosofia pela Universidade de Iena, com uma tese sobre a filosofia da Natureza em Demócrito e Epicuro, Marx viveu em Trier. Visitei-lhe aí a casa sombria e inóspita. Revisitei-no no Museu Britânico este Verão, para onde se mudou em 1848. Nesse ano Engels escrevera o Manifesto Comunista. «Proletários de todos os países, uni-vos!». O livro tornava-se o motor da História.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
O Camarareiro, de Ronald Harwood
Um actor que regressa representa um actor que termina. Ruy de Carvalho é Sir Donald Wolfit. A história do intérprete e a da personagem são uma e a mesma, a da agonia do desejo, a decadência do sucesso, o dever esgotante, a biografia da grandeza efémera e da solitária incompreensão.
Encenada por João Mota, a peça surge nos bastidores de uma representação do Rei Lear de William Shakespeare, em tempos de Blitz, em Londres, as bombas da Luftwaffe a serem a possível noite de tempestade. Pela 227ª vez o actor tem de se soerguer do desespero, do cansaço, da inquietação, encontrar em si forças e nos outros amparo para que o pano suba e as ribaltas o projectem à noite das estrelas. Restam-lhe sobejos, remedeios de gente, a piedade cruel feita companheira. E o Camareiro, fiel na humilhação, secreto nos sentimentos, nele a servidão é a única forma de expressar amor.
A cena de tempestade é na concepção do genial dramaturgo inglês o momento da inquietação e da loucura, da raiva e da revolta, os elementos e a alma em fúria.Wolfit pela última vez vocifera contra o que é vida e a existência: «Rumble thy bellyful! Spit, fire! spout, rain! Nor rain, wind, thunder, fire, are my daughters:I tax not you, you elements, with unkindness;I never gave you kingdom, call'd you children...»
Fui ao Dona Maria, aplaudir de pé. John Runciman pintou-a a essa cena do ódio. É esta que os vossos olhos contemplam, o humano rei sumido ante a magnitude imperial da Natureza tresloucada. À saída um amigo meu perguntou-me se tinha gostado do Virgílio Castelo. Disse sim. Era ele o camareiro.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Quando eu nasci, de José Régio
Ler é bom. Ler salva e cura e alimenta doenças do espírito. É uma terapia da alma. Ler não é uma alternativa a não ter companhia, ler é a possibilidade de encontrar todas as possíveis companhias. Na esplanada ela refugiava-se num livro como por detrás de uns óculos escuros. Foi por causa desse livro que ele se atreveu a querê-la. Desfolharam-se então, percorrendo-se o abismo de todas as linhas, saltando parágrafos, abraçando capítulos até ao final feliz.
Ler não é uma forma de se viver, ler é nascer todos os dias. «Quando eu nasci, ficou tudo como estava, Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais.. Somente, esquecida das dores, a minha Mãe sorriu e agradeceu». O poema é de José Régio-
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