quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Bilhetes de Colares, de José Cutileiro

Recomendo quando estiver mal com o dia, por estar calor ou ainda não ter chegado o frio, ou por apetecer que mude o tempo. Recomendo quando quiser sentir um toque de classe a meio da tarde vulgar e um gole de categoria ao anoitecer a banalidade. Indispensável para gozar de um intervalo de ironia para com o excesso de importância que alguns se dão ou para se rir de si próprio.
São os Bilhetes de Colares, assinados por A. B. Kotter, pseudónimo do Embaixador José Cutileiro.Começaram a publicar-se no jornal A Tarde, em 1982, depois no Espaço T, de seguida no Semanário até 1991. Em 1993 ressurgiam na Visão em 1993 e entre 1997 e 1998 na revista de O Independente.
Fantasiando sobre a verdade, Freddy Kotter faz-se o convidado pelo Dr. Vítor da Cunha Rego para escrever uma crónicas sobre os portugueses. Uma crónica em «que diga mal de uns» para agradar aos outros, porque assim, com uma crónica por semana «ao fim de um ano conseguiste dizer mal de toda a gente e toda a gente ficou a gostar de ti». Naturalmente, como tem sucedido com os que fizeram da calúnia meio, do escárnio forma e tudo isso instrumento de uma carreira de sucesso.
Hoje em livro, é um desfilar de personagens inesquecíveis: a Mãe, um vulcão sentimental que, à força de bengala, destesta pobres, galarotes e parvenus, o senhor J. Fonseca, militar amanuense, o Lowater filósofo, a Fatimazinha e a Margarida, cuja tia cozinheira, aos noventas anos, desinteressada de paladares, já só comia «escorcioneira e a papa das radiografias ao estômago», e o Carlinhos, cuja maluquice «é uma gota de água na maluquice do mundo», todos nos contrafortes de Sintra, pela Várzea, em Colares, na Beldroega, um saltada por Cascais e pelos Estoris, entre o Daily Telegraph, a BBC e o Anglo-Portuguese News.
Claro que a fiel Margarida «tem instruções firmes para não deixar jornais portugueses aos olhos da Mãe sempre que haja crises políticas em Portugal», porque a senhora, com noventa anos, ferveria em pouca água, Resultado, Madame tem de ter, de vez em quando, algumas explicações, não vá fazer gaffes em sociedade. «Com um faro especial, sente que deve ter havido crise e pergunta, desconfiada: "Então, o Salazar ainda é o mesmo?". "Não, Mãe", respondo eu. "O Salazar agora é o Dr. Balsemão".
Impagável de excelência! Claro que lhe explicam também que é hoje o Carmona. E passa-se para a crónica seguinte, o dia a melhorar.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Livraria Universo

Era um livreiro em dia triste, porque não se pode estar feliz quando há cada vez menos pessoas a ler. E tinha sido já editor. E é amigo de escritores. E teima em querer fazer amizade com leitores.
A sua livraria é dos livros que ele quer, não dos livros que os distribuidores acham que ele deve vender. Quanto ao que não tem, outros que tenham.
Hoje, a força das coisas trouxe-lhe uma inesperada visista. Vinte anos depois. Ela encontraria, surpresa, o próprio pai, numa fotografia amarelecida exposta ali com o carinho de uma memória estimada, ele encontrava, embaraçado, o Espírito que, como uma língua de fogo, o animava a viver.
«Coragem» diria ela, alma boa, desejosa de ajudar, animando-o. Atrapalhado ser, o seu coração descompassou, esperançado.
Talvez aguente mais uns tempos. Da próxima vez que voltar a Setúbal vou visitá-lo. Digo a todos que o visitem e lhe comprem livros. Há surpresas naquele pequeno lugar. Ontem estava lá, a espreitar-me, uma edição das primeiras da Aparição, ainda saída pela Portugália, no tempo em que os editores amavam livros. «O seu pai vinha muito aqui». Eu e a filha passaremos a ir também.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

The Old Man and the Sea, de Ernest Hemingway

De que é que uma pessoa se lembra de um livro quando não tem o livro consigo? Que histórias ficam quando o livro conta uma história, que pensamentos restam quando se sublinharam nele momentos em que se parou para reflectir? Que nomes de personagens que nos sejam familiares, que lugares referidos mesmo quando são conhecidos?
Recorda-se de um livro uma descrição que tenha impressionado como a de um instante da vida ou de um recanto da terra, a de um fantasioso sonho ou de um improvável pesadelo? Transmite-se de um livro para o seu leitor um sentimento, uma convicção, um credo? Fica um livro como uma recordação de um momento vivido, como uma nostalgia de não nos conseguirmos recordar, mesmo quando foi bom?
Conseguirá um livro fazer-nos dizer que está tudo lido como uma morte que nos diga que tudo já foi vivido?
Esta madrugada acordei a pensar em O Velho e o Mar do Hemingway. O livro não tem história nem lugar nem tempo nem modo. É um enorme intervalo de silêncio. Fala de um homem e um peixe e entre eles a infinita espera que gera a eternidade do amor. Meter no meio de tudo isto o Prémio Nobel da Literatura é um ridículo que só insulta aquele prolongado instante em que o belo se chama paz. Apenas isto e mais o sol, a lenta caminhada para a depredação total, o clímax em que apenas a agonia é memória, a pescaria lenda. Foi escrito em Cuba, em 1951. Tenho-o, mas não aqui. Li-o em busca desse improvável momento final, até perceber que nele cada momento é o começo de si próprio, a perseverança o motor da grandeza monótona de uma longa espera sem esperança.

domingo, 6 de setembro de 2009

Casa da Achada, de Mário Dionísio

Quando eu tinha muitos blogs e escrevia com o meu próprio nome tinha a angústia dos dias em que não escrevia como se tivesse sucedido ter deixado de viver. E depois quando escrevia fazia-o sempre como se fosse outro e quem lia porfiava em imaginar que tinha sido eu.
Um dia vim para aqui deixar que a escita surgisse quando houvesse vontade e mesmo que ela não tivesse que ser mais do que um caderno de um qualquer leitor.
Li na revista Ler que, lutando contra o esquecimento, a família de Mário Dionísio teima em seguir, mesmo sem apoios, com a Casa da Achada, tornando público o espólio deste homem extraordinário nas letras e nas artes, se é que a diferença existe. Vim aqui deixar a notícia, como um repórter chegando à redacção, depois de um dia na rua, a chover, à procura de uma local, a edição a fechar.
Talvez isto seja o meu jornal. Fazê-lo tornou-se um vício diário, como se dizia da velha Capital. Por definição, aliás, jornal é aquilo que sai sempre.
Estão a renascer-me velhos tiques: dia em que não escrevo vivo mal, dia em que não leio é como se tivesse morrido. Qualquer dia escrevo com barbatanas de plástico, latas velhas esquecidas...

sábado, 5 de setembro de 2009

Erros e enredos


«Há pouco, na TVI24, otómano em vez de otomano e Capadoce em vez de Capadócia.Hospitaleiros em vez de Hospitalários. Num documentário sobre hotéis e afins». «Há pouco, na SICN, legendavam a expressão “sangrar-se em saúde” proferida por Marcelo Rebelo de Sousa, assim: “sangrar sem saúde”.
É uma sangria ao cérebro!». Cito do magnífico blog Gasolim Ultramarino. Um nome insólito, um local incomum.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Revolutionary Road, de Sam Mendes

Pode falar-se de um filme como quem fala de um livro. Um filme, é claro, vê-se, mas também se lê, desfolhando as cenas como se fossem páginas, sublinhando excertos. Revolutionary Road é um filme sobre os limites da ilusão, a força do conformismo. A contradição e o absurdo surgem através da boca de um louco, as suas palavras são a violência do embaraço ante o ridículo dos lugares comuns. Filme americano, claro, nisso convencional, fantasia Paris como o lugar do idílio. Mas não é essa a história. Independentemente do que conta - e nos livros a história é por vezes um pormenor - interessa pelo que sugere. A mediocridade mata, raramente o medíocre que sujeita o outro a vivê-la.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Google books

Cada vez mais o acto de ler livros se torna longínquo. O Jorge Luis Borges dizia que não lia jornais precisamente porque eram escritos para serem esquecidos no dia seguinte. Agora com o espaço virtual começa a ser passado a sensação de sentir o papel arenoso e áspero na ponta dos dedos, a capa dura a dar segurança na mão sobre a solidez do escrito, o saco à saída da livraria a pesar no braço, o doer-nos o pescoço ao ler na cama.
É que há o Google que vai ao interior dos livros, pesquisando-os para o pequeno écran. Claro que com erros de risota. Leia este artigo e sorria. «To take Google's word for it, 1899 was a literary annus mirabilis, which saw the publication of Raymond Chandler's Killer in the Rain, The Portable Dorothy Parker, André Malraux's La Condition Humaine, Stephen King's Christine, The Complete Shorter Fiction of Virginia Woolf, Raymond Williams's Culture and Society 1780-1950, and Robert Shelton's biography of Bob Dylan, to name just a few».

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Synecdoche, de Charlie Kaufman

É um filme, mas podia ser uma peça de teatro, é uma peça de teatro e simultâneamente um filme mas podia ser um extraordinário livro. As salas de cinema estão ralas de espectadores, porque o título não atrai, porque a narrativa é complexa, os planos temporais cruzando-se, confundem, os sentimentos em volteio constante maltratam, os pontos em que se devia parar para pensar a multiplicarem-se diante dos olhos e o espectador comum hoje quer diversão cómoda.
O filme foi realizado por quem é um escritor, como se vê aqui.
«À medida que conhecemos as pessoas elas desiludem-nos» diz uma das principais personagens; à medida que se vê este filme ele hipnotiza-nos.
A grandeza do cenário lembra O Processo encenado por Orson Welles. «Cada pessoa, dos milhões que povoam o mundo não é um figurante, mas um protagonista da sua própria história». É esta a sinédoque, o falar-se da parte querendo-se referir o todo.
Se não viu o filme, corra para ir vê-lo. Se já o viu volte a vê-lo porque, afinal, não o tinha visto.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

As Velas Ardem Até Ao Fim, de Sándor Márai

É verdade. Não tenho a preocupação de ler novidades, nem a angústia de ter lido pouco, nem o fetiche das primeiras edições. Concluo muitas vezes que o que li agora li-o na altura certa. A vida encarregou-se de criar o tempo para o espaço que um livro ocupa nos nossos sentimentos. É verdade. Li As Velas Ardem Até Ao Fim de Sándor Márai há alguns meses. Voltei hoje ao livro. Reli o que tinha sublinhado e lembrei-me, talvez a despropósito do Robert Musil. Talvez por a personagem ser um general e haver reminiscências militares na obra do magnífico austríaco. Mas não era isso que eu vinha aqui dizer. É que me impressionou, presente em toda a narrativa a solenidade do silêncio, «o mesmo silêncio que reina dentro de uma bomba-relógio minutos antes de explodir». Foi-se o tempo da música de Chopin, a encher salões, ficou agora o ódio à música, à sua incompreensibilidade, ao tocar muito de perto «como uma agressão física», tão dolorosa como um dever. «No colégio não falavam de música. Preceptores e alunos limitavam-se a tolerá-la e a perdoá-la».

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

L'été, de Albert Camus

Longe da solidão populosa das cidades da Europa, em 1939, em Oran, na Argélia, Albert Camus escreve. Um ensaio sobre os lugares sem poesia, em que as amendoeiras florescem, inesperadas, numa certa noite fria de Fevereiro e com elas a renovação prometida da beleza. Cidade sonâmbula e frenética, apetecida por um sol devorador que a calcina, pulvurenta, marítima. Capital do aborrecimento, o lugar do Minotauro, em que Atlas aguarda apenas a sua hora.
Há na potente escrita de Camus a presença sensível da luz e da cor, do odor de tudo quanto é humano, de tudo o que é a Natureza. Sente-se, trágico, o deserto a entranhar-se na alma e com ele o absoluto e o nada infinitos e por isso um mesmo ser.
Obstinados, o mar e as pedras prosseguem ali o seu diálogo de milénios, indiferentes ao irrequietismo pobre dos miseráveis humanos.
Voltando a este seu escrito de juventude, o autor de O Estrangeiro escreverá em 1953: Oran já não precisa de escritores; aguarda a chegada de turistas.

domingo, 30 de agosto de 2009

Cartas, de António Botto


Será que a palavra desgraçado ofende se aplicada a uma pessoa? E é lógica pensando em António Botto?
Sabe-se que nele a pederastia foi uma estrela amarela ao peito, pretexto para a infâmia. Além disso tinha contra si a diminuição estatutária da linhagem, o pai fragateiro, da origem, no Casal da Concavada, do emprego, ajudante de livraria primeiro e funcionário amanuense.
Sena o crónico maldizente pintou-lhe a personalidade como tinginda de «megalomania mórbida e destituída candidamente de escrúpulos».
Os seus livros foram cremados no Governo Civil. Os militantes da Ordem Nova, Marcello Caetano e Pedro Teotónio Pereira congratularam-se então com o facto.
Escrevendo à memória de Fernando Pessoa, Botto ironiza o lamento: «Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses/Voltávamos à mesma: Tu lá onde/Os astros e as divinas madrugadas/Noivam na luz eterna de um sorriso;/E eu, por aqui, vadio da descrença/Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...».
Em 1932 Botto publicou o volume Cartas Que Me Foram Devolvidas. Em estudo sobre a sua obra José Régio diria: «Em quase toda a nossa poesia amorosa, o amor aparece sobretudo como um entusiasmo do coração e um enlevo da alma (...). Ora leia-se alguns dos mais característicos poemas de António Botto: Quando muito, revela-se neles um enlevo do corpo. A carne dá-se e pede avidamente. Mas a alma reserva-se. E a cabeça interroga, espia, analisa, debruça-se sobre o coração».
Claro que uma tal poética traria dissabores. A substanciação do amor é a grande ousadia para o espírito enamorado. Ainda hoje.

sábado, 29 de agosto de 2009

O criador e a criatura

Durante uns anos escrevi assinando com o meu próprio nome. Vários blogs. Chegou a ser facto notado o serem muitos. Respondi várias vezes quanto a saber como tinha tempo para tantos, pergunta feita por quem não notava que havia dias em que não escrevia nalgum deles. Arrumei esses blogs, recortando o que em jornalismo seria o lead de cada post.
Um dia decidi parar. Fiz disso uma questão de honra, para não me deixar tentar pelo desejo de regresso: não mais haveria exposição pública sob o meu próprio nome.
Criei entretanto um blog que corre sob um nome literário: este. O seu título junta um dos meus nomes próprios ao meu apelido materno. É apenas um aparente pseudónimo.
Qual a diferença, perguntei-me já? Significativa. Até aqui, assinando com o meu nome, era possível dizer-se: ele é aquilo que escreve. Sendo outro o nome do autor, vale a escrita pelo que significa em si. Foi-se a pessoalização. Não mais será legítimo dizer-se que está triste quem escreve sobre tristeza, contente o que escreve alegremente.
Os voyeurs, os que fazem da fulanização método, desapontados, dirão que isto é um artifício. Talvez seja. Mas não é uma manobra artificiosa. Quando assinava com o meu próprio nome cada blog era também uma pessoa diferente a escrever. Chegámos a ser muitos. Cansei-me deles.
Hoje o Eduardo Pitta teve a gentileza de uma referência, aqui, mostrando quem é o criador do António Rebelo da Silva. Digo bem, o criador não a criatura. Obrigado pela amablidade.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Lénine e o Museu Britânico

Em Abril de 1902 usando o pseudónimo de Jacob Richter, um dos que se servia para iludir as autoridades tsaristas simultaneamente com o de Lénine, o advogado Vladimir Illitch Oulianoff, motor teórico da revolução soviética, estudou na Biblioteca do Museu Britânico. Foi a sua casa de trabalho, o seu escritório. Deixou ali a sua pegada. Ainda cheguei a conhecê-la, com a sua sóbria beleza. Agora poderia fazê-lo a partir de São Pertersburgo, ou da Finlândia, de onde partiu num comboio selado, artilhado com dinheiro alemão, para lançar a revolução bolchevique. Chega-se lá on line. Dir-se-ia o mundo literário ao alcance de qualquer PC.

The End of the Affair, de Graham Greene

Em 1941 o escritor Graham Greene trabalhou nos serviços secretos britânicos, na Secção V do MI6, colocado no departamento português do desk ibérico, sob as ordens de «Kim» Philby. Philby revelar-se-ia, com escândalo, uma «toupeira» do KGB. Tendo escapado para a União Soviética escreveria dali um livro de memórias intitulado My Silent War, que em Portugal foi editado pela Bertrand com o título erróneo de A Guerra do Silêncio. Greene escreveu o texto de apresentação e nele fez constar uma frase que se tornou notória: quantos de nós traímos algo de bem mais importante do que um país.
The End of the Affair é a magnífica narrativa dessa problemática, da fidelidade a um amor, a uma crença, a uma religião. O livro está dedicado a «C» mas sob esta letra consegue-se reconstituir o nome de Catherine Waltson, um dos muitos amores adúlteros do escritor. A edição americana menciona mesmo «para Catherine».
Catherine Compton Walston era mulher de um homem de negócios britânico. Uma manhã, em 1946, o seu avião particular aterra perto da casa do escritor. Tímida Vivienne Greene recebe-a, na ausência do marido. A visita traz um inesperado pedido. Americana de origem, decidira converter-se ao catolicismo e pretende que o autor de The Lawless Roads seja o seu padrinho de baptismo. Um ano depois, padrinho e afilhada envolvem-se num relacionamento que traria assim, pela natureza do sacramento que os une, um travo incestuoso.
Sexo clandestino, a princípio, aquele que os atrai, recebe, para o dissimular, um nome de código, que ambos combinam como o santo e a senha para os encontros íntimos: «onions». No romance o encontro amoroso entre Sarah e Maurice começara com um jantar de bife de cebolada.
União decadente, esta dava ao escritor a possibilidade de ver realizadas as suas mais negras fantasias. Com ela se transpuseram os limites do convencional. Odisseias inconfessáveis foram então atingidas entre ambos. Em 1950, estando Greene em Veneza a filmar The Stranger's Hand tê-la-á feito acompanhá-lo a um bordel, vestida de homem e caracterizada como tal, ambos com um amigo comum, que relataria quanto ela «gozara como um homem» o que ali se podia fruir. Sexo insano e demencial mas profundo amor, terminaria em 1948. «Uma história não tem começo nem fim», assim começa o livro. Eis a narrativa da intemporalidade.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Os dias loucos do PREC

Em Outubro de 1975 o então Conselheiro da Revolução Canto e Castro definia Portugal de então como um «manicómio em auto-gestão». A 19 de Outubro, um domingo, o Sindicato dos Trabalhadores da Panificação definia: qualquer que seja a linha política governamental, os operários da panificação deixavam de trabalhar de noite.
Daí que, noticiava a imprensa, papos secos ao pequeno almoço era coisa que deixaria de haver. «Quem está interessado no trabalho nocturno? São aqueles que se aproveitam da escuridão da noite para poder livremente roubar ao peso do pão e falisificar as farinhas que nele são utilizadas», era o argumento utilizado pela comissão de trabalhadores em luta.
Leio isto no livro Os Dias Loucos do PREC, de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, editado pelos jornais Expresso e Público, em Abril de 2006. Leio e lembro-me de ter visto alguém comentar então com humor o que era afinal o leitmotiv dos padeiros: «queremos dormir com as nossas carcaças! Ora aí está uma razão mais do que legítima, revolucionária ou não! Mesmo nos anos loucos do «processo revolucionário em curso», que triunfe o amor sobre o pão nosso de cada dia. Ri-te, ri-te, riri.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Teoremas de Filosofia

Ao arrumar livros, ou melhor, ao continuar em arrumações, estive a ordená-los os Teoremas de Filosofia, de que se editaram doze cadernos, dirigidos por Joaquim Domingues e Pedro Sinde.
O último arquiva intervenções que tiveram lugar em Sesimbra, nos primeiros dias de Março de 2005, em torno do colóquio A Filosofia Portuguesa de Álvaro Ribeiro. Folheei o texto inicial, a conferência de António Telmo, para recordar um excerto que me tinha trazido a alegria breve de um riso. Refere-se a Álvaro como «(com Agostinho da Silva) o mais notável discípulo de Leonardo Coimbra». Na verdade aquele no seu livro Memórias de um Letrado, saído em três pequenos tomos, pela Guimarães, já havia confiado esse sonho de vir a ser assistente do autor de A Rússia de Hoje, o Homem de Sempre. Mas tudo começou num exame, o último do Curso de Letras da entretanto extinta Faculdade de Letras do Porto. Do júri fazia parte Leonardo. Conta Telmo: «Durante o interrogatório feito por Leonardo Coimbra o jovem estudante praticamente pouco disse. Não encontrava as palavras para o seu pensamento, hesitava, tartamudeava, fazia gestos». Terminado o exame, faltava a nota. Os três professores conferenciaram. Dois sugeriam uma negativa. Leonardo propôs: «vinte valores!». Claro que a ideia daria brado. «Vinte valores!, exclamaram eles. - Mas o rapaz não disse praticamente nada!». Mas Leonardo Coimbra tinha uma razão: «Não disse com palavras! E então os gestos?».
Á consideração dos espíritos superiores, já que, pelos vistos, o gesto é tudo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Borda d'Água de 2007

Ao arrumar estantes encontrei o Borda de Água de 2007, dirigido pelo Pedro Teixeira da Mota. Num dos cantos em que alberga conselhos úteis explica que para se dormir bem deve tirar-se o excesso de energia dentro da cabeça. Para tal aconselha o andar consciente dos budistas: sentir o pé que se levante, a perna que se move, o pé que assenta. O Borda d'Água tem isto de magnífico: ser um «reportório útil a toda a gente». É o que diz ser: o verdadeiro almanaque.

domingo, 16 de agosto de 2009

Borges, de Jason Wilson

Tenho uma biografia do Jorge Luís Borges, extensa, profunda, erudita, escrita por um professor de Oxford especialista em Cervantes, Edwin Williamson. Tenho outra feita com base em depoimentos da sua criada de mais de trinta anos, Epifania Uveda de Robledo. Acho que são ambas fundamentais. E tenho a fotobiografia que a Teorema traduziu, escrita por Alejandro Vaccaro onde estão rostos e expressões, tudo aprisionado para a posteridade, entorpecidos pela pose do instante. E sei que hoje há troupes que se digladiam em Buenos Aires pela posse da memória deste homem e uma viúva que se bate, herdeira, pelas edições do que o indefeso morto não quis que se reeditasse. E sei que é chic dizer-se agora à esquerda «sim, Borges» como ontem era politicamente correcto detestá-lo, porque era de direita.
Foi por isso um bem ter nas mãos a pequena biografia que Jason Wilson escreveu em 2006 e a editora Fio da Palavra Editores traduziu este ano. Por ser um livro inteligente.
Vou a meio e aprendi que, esgotado por pulsões inconsequentes, sempre apaixonado e desgraçado em amores, este homem soube ser uma realidade permanente independentemente da sua provisória pessoa. Viveu a vida através da literatura, antes de ser cego. Aconteceram-lhe muitas coisas, porque leu.
A sua vida exterior é monótona, as entrevistas repetitivas, não há biografia possível da aparência. Há a obra.
Uma vez, na rua, perguntaram-lhe se era Jorge Luís Borges. Irreverente, respondeu: «Às vezes». Naturalmente.
Há um passo do livro que me fez parar e pensar e vir escrever já aqui. «Cada momento que vivemos extingue todo o passado, ao mover-se para o futuro». Eis porque o budismo sabe que o passado é incerto. Verdadeiramente «Deus ainda não criou o mundo», escreveu na narrativa Os Teólogos, para o livro El Aleph. Saber isto é descobrir a existência, depois de termos julgado existir.

sábado, 15 de agosto de 2009

Eu e Elas, de Maria Archer

Quando em 1945 publicou o livro que hoje encontrei, Eu e Elas, apontamentos de romancista, Maria (Eyrolles Baltazar Moreira) Archer já tinha escrito catorze livros, mas confessava que ainda se via «embaraçada para escrever um romance». Uma enciclopédia literária, chamada não se percebe porquê, Literatura Portuguesa do Mundo, diz que os seus livros «abordaram com ousadia, na sociedade dos anos 30 e 40, o tema da dependência civil, económica e social da mulher (...)»; e que «devido a esta preocupação feminista e de crítica social foi forçada ao exílio no Brasil, em 1954». Confirma-se aqui.
Se é assim, este que leio tem uma tal leveza na ironia e subtileza na crítica que a autora parece insinuante parte da paisagem que descreve. São pequenas notas de observação social, em que abundam meninas casadoiras e viúvas passíveis de casamento, o mundo do «marido vantajoso», da «rapariga de boas famílias», o pano de cena das heranças e dos dotes e onde contracena o ser-se bonito, «bem» e o ter fortuna, para surpresa a inútil inteligência, tudo apoiado em criadas de servir e vivido por pessoas que se servem.
Na prosa de abertura duas senhoras de idade indefinida organizam-se para uma saída em diversão, buscando respeitável homem que atrelem. A alternativa, cruel porque dentro do possível, é que seja «o mais decorativo que se pode imaginar» ou «que nos pague os capilés». Encontrado cavalheiro, acaba por se imiscuir na cena «o Caril», coitado, indiano e milionário, que a juntar-se à mesa, envergonharia o possível aparelhado que encontraram, que na hora da conta, ó cruel vida, não teria correspondência em numerário à vista que fazia. Ódio a um mundo remediado!
Enfim, vinagre e veneno e calda açúcar. Num décor de serão, em que «aquelas senhora criava bobos com palavras e fazia das suas indefesas amigas os seus bobos de salão», alguém se sai com «um homem pode pensar o que quiser, conquanto que não o diga, e uma mulher pode dizer o que quiser, conquanto que não o pense».
O título de uma das crónicas «silogismo da crueldade feminina» talvez merecesse ter sido o nome do livro. Dentro de uma meia-hora acabo-o, ou ele comigo: «porque será que os portugueses me parecem mortos...mortos amáveis?», pergunta uma das personagens. Pois não sei. Talvez nas folhas que faltam venha a solução ou o enigma. Na página 104 estava uma pista: «os meus amigos já parecem gente pobre, de tal forma se civilizaram, se educaram, se apagaram no bom gosto e nas boas maneiras». Riam-se! Foi escrito em 5 de Março de 1943, chama-se Cocktail em Casa de Volframistas.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Andanças para a Liberdade, de Camilo Mortágua

Teria já acabado de o ler se não se tivesse intrometido outro pelo meio e mais os acontecimentos da vida e as obrigações do trabalho e as da manutenção do corpo, a exigirem, por exemplo, dormir. Vou na página 149 das Andanças para a Liberdade, de Camilo Mortágua. É o primeiro volume. Cobre o período de 1934-1961. Interessei-me por ele porque esteve no assalto ao Santa Maria. Confesso que saltei o período em que era pequenino. Faço quase sempre isso com as biografias, como se esse fosse um tempo sem interesse, uma preparação para o momento da vida em que a pessoa verdadeiramente nos interessa. Eu sei que isso é cruel, como se matássemos uma pessoa. Mas é verdade.
O livro é uma história de privações, de uma vida dorida, de um «remetido à condição dos que não contam», ferido pelo «estigma da não existência social». Cedo emigrante, logo na América do Sul, enfim na Venezuela. A política chegará mais tarde. Por enquanto Camilo esgota-se ainda na busca de trabalho, moço de taberna, padeiro, o que seja. É um livro de fome, de uma mais dolorosas fomes, a se viver. Tem 255 páginas. Foi editado pela Esfera do Caos.
Ri-me, por vezes. Em Caracas, os polícias corruptos multavam mesmo os desgraçados «porque sim». É assim mesmo que as coisas nos acontecem: «porque sim».

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Bocage Maçon, de Jorge Morais

O livro é pequeno mas, sobretudo, lê-se bem; como dizia alguém, com humor, «deixa-se ler». Esgotei-lhe as páginas em dois fôlegos. Apoiado em sólida bibliografia não cansa com despautérios de exibição erudita. Está, sobretudo, bem escrito. Trata-se do Bocage Maçon, de Jorge Morais, jornalista e escritor, prefaciado por António Valdemar, da Academia das Ciências. Foi editado em 2007 pela Occidentalis. Na capa um óleo figurando o biografado, da colecção do falecido Pisany Burnay.
Essencialmente a obra toma como sólida a filiação maçónica do vate Sadino, irmão «Lucrécio» da loja Fortaleza e dá-nos conta dos poucos sucessos e muitos insucessos decorrentes dessa circunstância . Mas a partir deste território é um ensaio interessante da confluência do iluminismo,do jacobinismo e da influência dos pedreiros-livres na formação do pensamento de Portugal no século dezoito. Além disso, aborda algumas outras problemáticas teimosas da História da pedreiragem no nosso país como a filiação maçónica de Pombal, a execução de Gomes Freire de Andrade e a origem, afinal inglesa, do Grande Oriente antes de o francesismo ter ocupado os ritos e as ideias dos «filhos da viúva».
Perseguido pertinazmente pelo Intendente Inácio Pina Manique, Bocage acabaria «cativo por convicções» por ser julgado pelo Santo Ofício, ao Palácio de Estaus e condenado em 17 de Fevereiro de 1789 a...um curso de doutrinação no Mosteiro de São Bento, onde hoje doutrinam os deputados na Assembleia da República. Aí fica até 24 de Março protegido por um beneditino.
Já para o final da vida, em 1800, Manuel Maria trabalha, em troca de soldada regular, na Oficina Tipográfica, Calcográfica e Tipoplástica do Arco do Cego. Um ano depois está desempregado. Foi enterrado no dia 22 de Dezembro de 1805.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O Império, de Henrique Galvão

«Há dez anos - exactamente quando a Europa começava a debater-se entre as mais escuras dificuldades da desordem política e social - um Homem de raro equilíbrio e profundo saber, um Homem capaz de agir como órgão de acção e de pensar como órgão de ideias, restaura a vida portuguesa, desperta as virtudes adormecidas deste povo, refaz uma doutrina, reconstitui uma força e encaminha de novo Portugal para o cumprimento da sua Missão, no rumo glorioso da sua finalidade histórica: Salazar».
Quem escreveu este panegírico do Chefe? Num opúsculo editado pelo SPN, o Secretariado da Propaganda Nacional? Seguramente uma figura do regime, um seu prócere: Henrique Galvão! Uns anos depois a irrequieta criatura passar-se-ia para o outro lado e entraria na História ao liderar o assalto ao navio Santa Maria, da Companhia Colonial de Navegação. Conquistou assim direito à amnésia de alguns sobre esta parte antecedente da sua biografia.
Escritor prolífico, recolho na Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian a lista dos seus livros. Muitos sobre África. Bastantes bem escritos.
A volubilidade de carácter e a riqueza literária associam-se por vezes nesta língua dúctil e maleável, feita de condicionais e de pretéritos mais do que perfeitos.
É verdade: a citação pertence ao opúsculo, como disse, chamado O Império, sem data, mas talvez tirado em 1938.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A Tragédia do Glória Scott, de Arthur Connan Doyle

O que nos leva a ler um livro? Seguramente o tê-lo à mão.
Ora eu tenho a obra creio que completa em livros de bolso e dois belos tomos encadernados que um dia encontrei em Inglaterra e com que vim ajoujado quase a ter de pagar excesso de carga, a mala já carregada com outros livros. Mas devo ao facto de o Diário de Notícias estar a distribuir gratuitamente livrinhos com as histórias de Sherlock Holmes a possibilidade de o ter lido. Vinham com o jornal da manhã. Calhou esta tarde. A narrativa era breve, como todas, simples como é o estilo de (Sir) Arthur Conan Doyle, cuja complexidade espiritualista e filosófica não passa para a escrita. Acabei há minutos, aproveitando um intervalo, A Tragédia do Glória Scott: um juiz de paz perseguido pelos remorsos de um passado criminoso, de matança e roubo, recebe a visita da sua má consciência. O método dedutivo entra em acção e Watson escuta, da boca do próprio Holmes, os prodigiosos efeitos da inteligência. No meio da trama, surge, ao bom estilo de Edgar Poe, um misterioso bilhete, escrito em código: cada três palavras uma faz sentido. Saltando de três em três percebe-se a mensagem. Esotericamente está lá tudo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O mocho

Escrevendo da Rua de Buarcos na Figueira da Foz, em 16 de Agosto de 1937, para José Régio, Vitorino Nemésio dava-lhe conta: «(...) eu, há três anos, não sou senhor de mim nem do meu tempo. Disponho dele a medo e sempre com remorsos de o não dar à preparação e cogitação dos meios de não ser esmagado pelos mochos universitários, em cuja companhia infelizmente me meti, e que alegam aos menos desconfiados que eu não sou inteiramente mocho - puro pretexto para me correrem do bando». Fui ler esta carta que vem na Obra Completa de Régio, que a Imprensa Nacional está a editar, talvez por não estar em férias.

domingo, 9 de agosto de 2009

L'Envers et l'Endroit, de Albert Camus

Durante vinte anos de vida como escritor recusou a reedição dos escritos de juventude. Ao prefaciar um deles, L'Envers et l' Endroit, para uma edição saída em 1958, dois anos antes do acidente de automóvel que o matou, Albert Camus concluía-o confessando que continuava a viver com a ideia de que a sua obra ainda não tinha começado. Tinha recebido o Prémio Nobel da Literatura um ano antes.
Estou a lê-lo agora, esse livro primordial, escrito na Argélia, nas mais lamentáveis, porque duras, condições de vida. Tinha na altura vinte de dois anos. O texto é um hino à dignidade, o apelo à pobreza sem ressentimentos; filho de pais analfabetos, em breve órfão, foi a vida de privações que o ensinou a dor de não saber possuir, a graça de fruir em plenitude o que não se goza quando começa o excesso de bens.
«Não há amor de viver sem desespero de viver», escreveu nestes ensaios que parecem uma reportagem sobre o que esquecemos da vida, as noites silenciosas, os labirintos do ser, as existências densas mesmo quando silenciosas.
O primeiro chama-se A Ironia. Estão nele três destinos diferentes e no entanto semelhantes, sentidos dolorosamente, sob o sol, naquela pátria tranquila. Num deles, vivendo «um medo ácido e doloroso», a velha mulher «acreditava que o amor é uma coisa que se exige».
Albert Camus sabia que o ofício de escritor era trabalho de vaidade. Nos salões de Tout-Paris faziam-se desfaziam-se carreiras, géneros, génios. Ao discursar ante a Academia sueca diria: «L'art n'est pas à mes yeux une réjouissance solitaire. Is est un moyen d' émouvoir le plus grand nombre d'hommes en leur offrant une image priviligiée des souffrances et de joies communes».
Conseguiu-o para muitos da minha geração. A sua escrita não erode com o tempo. Senti-o agora, também para mim quarenta anos depois.

Cisne, de Luis González-Mata Lledó

Por causa de um livro que traduzo estou a ler muitos outros. Já tinha lido este em diagonal. Agora faço-o com pormenor. É a sua autobiografia. «Cisne» é o nome de código quando trabalhou como agente secreto para o SIM espanhol. Daí que o livro ostente como sub-título «Un espia de Franco».
Esta histórias sobre espiões correm o risco de serem ridículas. No caso são esclarecedoras. Luis fez da sua amoralidade carreira, da sua ambição, sucesso. Esteve na Legião Espanhola, de Millán Astray, heróica e controversa figura, mutilado de guerra, a quem credita a frase gritada no desfile da Vitória: «Franco, hijo de puta! Contempla a nuestros hijos y admiralos! Franco sonrió». Por supuesto, claro. O mesmo Astray que no confronto com Unamuno lançaria o «Muera la inteligencia! Viva la muerte!». Foi em 12 de Outubro de 1936.
Nos anos sessenta González-Mata infiltrar-se-ia no DRIL de "Sotomayor", Velo Mosquera, Henrique Galvão e Humberto Delgado, movimento que estaria na génese do assalto ao paquete Santa Maria, da Companhia Colonial de Navegação. Investigaria a morte deste, elaborando um relatório que embaraçaria os portugueses depois das polémicas declarações de Franco Nogueira sobre a autoria do caso, vista a localização do cadáver em Malos Pasos.
Neste momento vou na página 54. Rafael Leónidas Trujillo, o ditador que governou Santo Domingo entre 1939 e 1961 pergunta-lhe qual a razão pela qual aceitou ter como destino o seu país. «Cisne» responde sem hesitar: «Confío encontrar em Santo Domingo las satisfaciones y la vida que mi país ne ha negado hasta la fecha». Sinceridade lucrativa. De todos os que Espanha enviara como ajuda para a organização dos serviços militares e de segurança da República Dominicana ele foi o que singrou. Tempos depois organizavam juntar a invasão de Cuba, com o apoio dos serviços secretos alemães, da CIA e vinte e dois milhões de dólares do Presidente deposto Fulgencio Baptista. Vou precisamente aí. São 392 páginas, mais índices. Ainda há muito para ler.

Le Chat, de Georges Simenon


Li ontem Le Chat de Georges Simenon. Numa edição portuguesa, que era a que havia aqui em casa, oferecida, de 1967, traduzida por António Barahona da Fonseca, com capa de António Cândido.
É uma história dolorosa de um casal que fez do silêncio a melhor expressão para o seu mútuo ressentimento, para o ódio rancoroso, para a indiferença, filhos da impossibilidade. «Ambos se sentiam vítimas e se consideravam mutuamente como monstros». Andando pelos sessenta anos «ainda não sabiam a que velocidade iam envelhecer». Só que foi tudo muito rápido, mataram-se fazendo da vida tristeza. Compartilhavam, forçados, o mesmo espaço, o mesmo quarto, a mesma cozinha, lugares onde separavam os corpos, fugiam do encontro dos olhares, evitavam a proximidade das almas, de tal modo «se ignoravam com tanta perfeição». Comunicavam por bilhetinhos.
Um dia ela, por malvadez, ter-lhe-á envenenado o gato, ele, vingativo, matou-lhe o papagaio. «Um vulgar gato de telhado - afirmava ela no tempo em que ainda se falavam para iniciar uma discussão».
Vida esvaziada, ambos tinham tido anteriores casamentos, o dele feliz, com Angèle, feito de risos de uma «alegria ruidosa», de beijos e passeios, mas Marguerite agora «insensibilizara-se logo ao primeiro contacto físico e as duas camas eram o símbolo da sua união fracassada».
Um dia ele saiu de casa. Havia Nelly, de peito roliço, que se dava, rápida, aos homens que queria, na cozinha da pequena tasca, de nádegas alçadas, virada para não lhes ver a cara. Uma vez ele também ali foi, usá-la, e daí em diante tantas vezes, quantas quis, ela a notar que «não és dos que ficam tristes depois de fazer amor».
Deixei por ler quatro folhas de Le Chat. Acabei-as agora mesmo. A narrativa termina com o perceptível: Émile Bouin regressa a casa, incapaz de suportar a dor da mulher deixada.
É impossível não recordar a vida familiar do próprio Simenon, desgraçada, dorida, a usar da vida «o estritamente necessário». «J' ai été marié deux fois. Je vis avec une troisième femme. Mas il ne me viendrait pas à l'esprit de les mélanger dans mes souvenirs». Assim quase termina a Letre a ma mère que ele escreveria, com setenta anos. Émile, porém, «acabava por se zangar, por metê-las todas no mesmo saco, por considerá-las inimigas», Angèle, Marguerite, Nelly. Esta «conhecia os homens, Se se entendia com eles era porque não lhes pedia mais do que podiam dar». Mesmo assim. Uma tristeza. A história de como se assassina o amor. Livros de excepção.

sábado, 8 de agosto de 2009

Obra Poética, de Jorge Luís Borges

Encontrei hoje, numa livraria aqui perto, o volume primeiro da Obra Poética do Jorge Luís Borges, que a Alianza Editorial vem editando. Como tudo o que ele escreve é pequeno em extensão e, por isso, enormemente magnífico em profundidade em sentido e significado. Fica aqui o texto por não poder ficar a impressão da dedicatória com que guarneceu o livro Fervor de Buenos Aires, editado em 1923: «Si las páginas de este libro consienten algún verso feliz, perdóneme el lector la descortesía de haberlo usurpado yo, previamente. Nuestras nadas poco diferen; es trivial y fortuita la circunstancia de que seas tú lector de estos ejercícios, y yo su redactor»

O início de uma vida

Quando cheguei a Lisboa estava a chover, na rua e na minha alma. Para trás ficara muito de uma vida, das várias que seria possível ter vivido. Inicio agora. Aquartelei-me nesta casa. O propósito ser editor. Aqui perto morou o Mircea Eliade. Este blog guarda reflexões pessoais, enquanto leitor.

sábado, 30 de maio de 2009

O lugar interior

Consegui ontem, por viajar de comboio, iniciar a leitura do Marcovaldo, o livro de crónicas do Italo Calvino. É uma história abstracta vivida num mundo demasiado concreto. O leitor segue o percurso de uma insignificante folha de árvore, soprada pelo vento, acompanha a sua errática trajectória, antecipa o momento que, torneando o pára-brisas de um automóvel, é sustida amigavelmente pela intersecção de uma esquina de parede e uma corda esticada para estender roupa. Os figurantes neste teatro rústico vivido em ambiente citadino têm todos nomes grandiloquentes, clássicos, greco-latinos. A Itália é uma criatura recente, a língua italiana precede-a criando uma Pátria cultural antes de haver uma Nação de cidadãos. Leio Calvino, essa babel linguística magnífica, no original, allegro cantabile, vivace, con brio.

domingo, 17 de maio de 2009

O calor de um sentimento

Ainda não voltei a ler o livro de Rachel Jardim. Talvez o faça ainda esta noite, aproveitando um qualquer instante. Acho que preciso da companhia dessa leitura, retrospectiva, calmante, reintegradora.
Venho aqui esconjurar um momento doloroso que com o livro nasceu esta manhã. Fala-se nele de Tia Inaiá, que casara com tio Renato, arquitecto italiano «que tinha a desproporcionalidade longilínea das figuras de El Greco». Renato era «um ser profundamente sofrido»: «estivera preso durante a Guerra, quando a Itália invadira a Etiópia. Defendera a Etiópia. Contava sempre que, tendo sido aprisionado e estando a caminho de um campo de concentração com outros prisioneiros num carro aberto, um bando de pobres mulheres etíopes fora ao encontro deles, oferecendo frutas. Uma não tinha nada para dar e estendeu o menino que amamentava, para que Renato segurasse por uns instantes e sentisse o seu calor».
Lê-se isto e é um desabar íntimo de tudo quanto ainda existe no precário edifício dos sentimentos. Que pobres somos, afinal, tartamudos, belfos, hesitantes em gaguez, na nossa tentativa de exprimir carinho. E por uns instantes sentisse o seu calor...

Acontece

Oferecerem-nos livros, essa coisa magnífica. Maná para quem esgota o que tem em livros e por vezes, já sob o efeito alucinogénico da livraria, se atreveria a ir para além do esgotamento e do que já não tem. Oferecerem livros a quem quer livros, todos os livros. Oferecerem livros a quem foi deixando ficar livros em casas agora alheias. Oferecerem livros, pelas alminhas, pela sua saúde, oferecerem livros que tenho fome de ler, oferecerem livros muito e muito obrigado bem haja e Deus o guarde. Oferecerem livros, essa ladainha que é ofereceram-me livros.
Rachel Jardim, brasileira, escritora. Teve a generosidade de me oferecer seus livros, com amável e sentida dedicatória. Comecei ainda ontem um deles, o que é meio diário, meio relato íntimo, meio crónica de família, o que tem desenhos de João Guimarães Vieira.
Um dia a História far-se-á assim, para se saber como era, como se sentia, como se vivia, com estes relatos do interior.
Chama-se Os Anos 40. Foi publicado no Rio de Janeiro por J. Olympio, Editor. A obrinha tem esta coisa de notável: na página final, como mandava a tradição, tem as notas do editor e da tipografia. Diz que foi confeccionado - palavra ímpar que desapareceu do mundo editorial, com sabor a gastronomia e a iguaria - nas oficinas dos Estabelecimentos Gráficos Borsoi, S.A. em Novembro do ano de 1973. Até aí tudo bem, como se diz, em modo cantante, nesse nosso Brasil. Mas continua: «sesquincentenário do nascimento de Gonçalves Dias, sesquincentenário da morte de Hipólito José da Costa, centenário do nascimento de Laudelino Freire, Rodolfo Garcia, Santos Dumont..e assim.
Já não há disto, minha gente, um editor que mede os anos por datas de vida e morte de seus escritores, como se não houvesse na Literatura outro tempo nem outro modo de o contar.
Vou na página 22 de 119. Se hoje puder e este sol magnífico não me tentar com sua mão macia ou o trabalho não me vencer com sua garra aguda, tentarei ler mais.
Ontem estive com o tio Mário: «nunca vi ninguém partir fatias de queijo tão finas e, durante muitos anos, pensei que aquilo fosse a prova máxima de boa educação»; com «seu» Bernardo «dizem que morreu de desgosto, de surpresa, de perplexidade (foi um enfarte)»; com Florinda que «era parteira e fazia abortos e amor, quase livremente»; fui ainda ao cinema ver O Monte dos Vendavais, que nesse além-mar de língua portuguesa se chamou O Morro dos Ventos Uivantes, e com ele a imaginação em vez de vida: «A vida era mais imaginada do que vivida. Não havia sofreguidão em viver. O ritmo era lento. Um dia me perguntaram - o que vocês faziam em Juiz de Fora, naquela época? Esperávamos. E nessa espera, fora e dentro de nós, as coisas aconteciam». Lê-se isto e como se aprende que no mundo de hoje, em que tanto sucede, afinal, nada acontece.

sábado, 16 de maio de 2009

Contrafatta Natura

A caminho do Pingo Doce fui à Pó dos Livros, aqui ao lado, e encontrei lá o Marcovaldo do Italo Calvino, naquela edição apetecível da Oscar Mondadori. Estive há tempos em Bolonha e trouxe de lá uns quantos, a esmo, por querer trazer todos. Tinha lido em português Se uma Noite um Viajante. Outro dia reparei que, entre tantos, faltavam-me tantos. Juntei-lhes hoje mais este, reconstituindo a família, que está numa estante giratória à janela do meu quarto. Em dias de sol apanham sol. Há pouco entreabri-lhe a apresentação para me maravilhar, sabendo que me maravilharia. «In mezzo all cità di cemento e asfalto, Marcovaldo va in cerca della Natura. Ma esixte ancora la Natura? Quella che egli trova è una Natura dispetosa, contrafatta, compromessa con la vita artificiale». Fantástico! Sabem como aprendi italiano? A ler italiano. Esfomeado de ler.

Um moço que já morreu

Muitos conhecem-no como ministro dos Negócios Estrangeiros do anterior regime político que caiu com o 25 de Abril. Tantos reconhecem-no como o autor do monumental Salazar que ainda é das melhores biografias que se escreveram sob o o homem que governou Portugal, para o mal e para o bem, durante cinquenta anos. Fui descobri-lo neste seu livro de crítica literária. Editou-o a Portugália em 1954. Talvez por lhe conhecer do pensamento político a faceta conservadora fui ler o que dizia sobre Carlos de Oliveira. Imaginar-se-ia distante, frio, crítico do envolvimento social do seu autor, apto de desmontar-lhe qualquer momento em que lhe surpreendesse o panfleto, a militância, sabido como é que o autor de Pequeno Burgueses entroncou na aguerrida família do neo-realismo onde pontificava tanto proselitismo e todos da Oposição ao Estado Novo. Nada disso. Sereno, honrado, Franco Nogueira rende-se ao rasgado elogio. Estuda a Casa na Duna, analisa o Alcateia, disseca Uma Abelha na Chuva. E termina, depois de semear mimos: «Se o ritmo da carreira literária de Carlos de Oliveira não for quebrado ou desviado, o romance português poderá contar mais um dos seus raros e grandes cultores». Ah! grandeza humana.
P. S. O exemplar que tenho encontrei-o num alfarrabista. Traz ainda uma amorosa dedicatória manuscrita em esmerada caligrafia: «Para a querida Luizinha esta recordação longínqua de um moço que há muito já morre, esta lembrança de uma velha pedra da calçada que se agita, esta oferta sem expressão nem mérito que no entanto simboliza tudo, of. do Alberto»

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Uma natureza violenta

«Receoso e susceptível», assim nos viu, como povo, Miguel de Unamuno, um «povo triste mesmo quando sorri», uma Nação de gente «mais apaixonada do que sentimental». Enfim, «um povo de suicidas».
É a paixão que traz aos portugueses a vida e os atira para a morte.
Suicidou-se Herculano por isolamento, Camilo e Antero, a tiro. Os nossos grandes vultos são grandes condenados. Os menos corajosos estiolam-se. Suicidas os que matam e os que morrem. Suicida Buíça ao matar Dom Carlos, suicida foi o Rei.
Impossível ler Unamuno e não ir ler Manuel Laranjeira, esse extraordinário neurasténico, médico, que por isso tão bem se conhecia e nos conhecia. Impossível dele não vincar a frase «em Portugal todos temos os olhos vestidos de luto por nós mesmos».
Laranjeira e Unamuno encontraram-se casualmente em Espinho no dia 8 de Agosto de 1908. Duas almas trágicas, a do português analítica, o espanhol paradoxal. Recordo-vos de Laranjeira a perplexidade que me arrancou o seu estudo sobre a santidade como patologia, o misticismo como doença, o êxtase como terapia; o carinho que devotou à «Cartilha Maternal» de João de Deus. Mas quero recordar-vos sobretudo o que foi a sua dolorosa experiência sentimental, a sua «Augusta», modesta, plebeia, mas fonte de seus amores e causa de suas angústias. Inadaptado aos erros do coração, Laranjeira sabia que «o amor quando o não matam, morre, e morre como uma tarde de Setembro». Leio no seu Diário Íntimo. «Sou uma natureza violenta, silenciosamente violenta – que é a pior maneira de se ser violento», escrevera a António Carneiro, pintor. Violentou-se. Também com um tiro na cabeça, em 22 de Fevereiro de 1912. «Decididamente isto há-de acabar mal», confidenciara a Amadeo de Sousa Cardozo. Tinha então 34 anos.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Janelas fechadas

Há na Mimosa um quiosque que vende jornais e revistas. Talvez tabaco para quem fumar. Foi nele que esta tarde comprei a revista Ler. Sentei-me a ler a Ler. Veio um chá de menta e scones. Sem doce porque não posso adoçar-me. O dia esgotava-se e eu estava cansado. Dali a pouco tinha de estar numa conferência. Mas agora, na rua, esforçava-me por não levantar os olhos do que lia. O mundo tinha desaparecido, todas as janelas estavam fechadas. Lia sem nexo. Evitei o Graça Moura, poupei-me ao Agualusa. Para me animar a ler mais, comecei pelo fim. Vi então esta livraria. Fica a norte de Nova York. Aninhei-me nela, devolvido a casa.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O inacabado momento

Extravagante, insolente, próximo do paroxismo e do pânico, eis Guilherme Augusto Cau da Costa de Santa Rita, Santa Rita Pintor como passou para a posteridade, uma posteridade para que se lançou aos vinte e oito anos. Estive com ele mais de perto há uns tempos quando tive nas mãos, por confiança extrema, o número dois da revista Orpheu. A meio uma estampa, litografada, composta em Paris em 1913, a que chamou de «compenetração estática interior de uma cabeça - complementarismo congénito absoluto». Esta noite abri o álbum que Joaquim Matos Chaves lhe dedicou em 1989, ano do centenário do seu nascimento, e que a Quimera editou. Progredi com muita incomodidade pelas páginas em que o anedótico, a blague, vão lançando a peçonha do burlesco, do clownesco, menorizando a grandeza do delírio, do éter do êxtase. Quase no fim surgiu a académica Cabeça de Velha com que foi laureado com vinte valores na cadeira de expressão de Veloso Salgado. O sorriso ligeiramente tombado, uma aura de viuvez, há nela uma névoa no olhar, uma avó a retirar-se da família, do mundo, da vida. Mas foi com o inacabado Louco que me aproximei da meia-noite numa noite em que hesitei sobre se teria algo a dizer. Boquiaberto, um grito feito de dor sem dentes, olhos esvaídos, ele é um sangrar-se pela tela, oblíquo, transversal, torturadamente repulsivo.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Personagem e intérprete

Imaginam-se sons, onomatopaicos, antecipam-se luzes. Ensaia-se o movimento, a pausa, o nada no espaço e o intervalo no tempo. Teme-se a apoteose do grande final. Em breve será vida. Outros a representarem, a realidade a explicar a imaginação. No dia 21.

domingo, 3 de maio de 2009

Um certo frenesi

Subi hoje, esbaforido de calor, a rampa da Feira, e ei-lo o Marquês da Bacalhoa, do António de Albuquerque, descendente pelo lado paterno do Afonso de Albuquerque, do lado materno de João de Barros. Apanhava sol. Diz no exórdio Paulo da Costa Domingos: «Ele tem tido uma vida de aventuras: bateu-se em duelo em Madrid, caçou no Cabo com lordes, tocou guitarra em Trouville e teve uma loja de instalações eléctricas em Itália». Morreu de cancro na bexiga, a gritar e a mijar-se, a miséria a rir-se de quem escreveu a escarnecer. Agora está aqui a meu lado. Junto, no mesmo tomo, A Execução do Rei Dom Carlos, do mesmo. Tem como menção ter sido terminado na Ermijeira, em 6 de Setembro de 1907.

sábado, 2 de maio de 2009

Os Ramos Entrelaçados

Danilo Barreiros escreveu, Pedro Barreiros desenhou a capa, com uma pintura chinesa Os Ramos Entrelaçados das Flores de Ameixoeira. É um pequeno fascículo, editado em 1961, edição de autor, impresso na Bertrand, sobre a morte e o testamento de Camilo Pessanha. Cruzei-me hoje com ele na Rua de Anchieta, onde está a feira dos livros usados. Trouxe-o comigo. Deve-se a Danilo Barreiros ter copiado, na sua máquina Underwood, «com fita de duas cores» as Elegias Chinesas de Camilo Pessanha. «Foi este material que António Quadros utilizou para a publicação do texto na Europa-América com as obras completas de Pessanha», diz Pedro Barreiros que, em 1999, as editaria, homenagem de aluno que foi no Liceu de Macau, ao Tap Siac.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Caroline

Não há muitos anos ainda não havia internet e os modems eram umas caixas exteriores , com um débito lento e sucessivas quedas de sinal. Comprava livros antigos em Inglaterra através de uma senhora de quem me lembro de duas coisas: primeiro, que tinha uns folhetos comerciais que ostentavam um gato empoleirado, cauda eriçada em pose espreguiçadeira, em cima de um monte de livros; segundo, que se chamava Caroline.
O esquema era simples: eu mandava-lhe um fax com a lista dos livros procurados, ela descobria-os nos lugares mais recônditos. Um dia veio um de uma companhia de lanceiros na Escócia, cuja biblioteca havia sido desactivada. Outras vezes impregnava-os um cheiro a mofo por terem estado armazenados na escuridão bolorenta de alguma cave.
Lembrei-me hoje com saudade dos gatos e dos livros que me chegavam de Inglaterra. Vi este bichano, qual caminhante sobre as águas encapeladas da literatura. De jangada.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Resistir

Joaquim Paço d’ Arcos começa a narrativa do seu romance Ana Paula com uma viagem a caminho da Torre. O autor de Tons Verdes em Fundo Escuro felizmente volta a estar na moda. A Guimarães está a reeditar-lhe a obra, agora em exemplares magníficos. «Poucos medem a pressão de toda a ordem que as várias facções exercem sobre o romancista, tentando arregimentá-lo para os seus respectivos credos. É ela de tal ordem, que o mérito do escritor não está em optar, sim em resistir (…)», escreveu ele em Confissão e Defesa do Romancista. Sabia do que falava. Concorrera em 1938, precisamente com Ana Paula, ao prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências. O parecer dos imortais académicos foi arrasador. Pior, posto a circular na imprensa. Pior ainda, deram-lhe o prémio. O autor retaliou recusando a ofensiva distinção. O Presidente da Academia lamentou em sessão que «o moço e ilustre escritor» tivesse tomado melindre com o feito. Joaquim soube resistir.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Não me contem o filme!

«João de Vasconcelos Lopes, aos vinte e cinco anos, já professor de liceu, doutorando com uma tese a caminho e muito apaixonado pela sua noiva, que lhe retribui esse amor, vê-se na iminência de ter de partir para Angola como oficial miliciano. Um amigo muito envolvido nas lutas antifascistas prepara-lhe a saída a salto pelo Norte, Vera irá depois ter com ele, e lá vai João viver a grande aventura da sua vida, a travessia da fronteira e, em Espanha, onde o esperam outros apoios, novas peripécias até San Sebastian, onde consegue integrar-se numa excursão turística daí a Biarritz. E ei-lo em França, com o seu passaporte, com os primeiros carimbos falsos, é claro, a instalar-se num hotelzinho modesto no bairro Latino, a conviver com exilados políticos (...)».
É o resumo de um livro, que encontrei numa recensão da Fundação Gulbenkian, aqui.
E porque será que ante tais ingredientes não me apetece lê-lo? Será por algum reaccionarismo primário? Ou será porque na arte se exige mais subtileza, mais sublimação, mais forma de se chegar lá! Não me contem o filme se querem que eu vá ao cinema!
Mas há supresas: «Assim um dia, o Professor Pardon propõe-lhe ir viver na província de Anjou, bela região entre o Maine e o Loire, em casa de uma fidalga, Madame de la Boullerie, que precisava de uma espécie de secretário-bibliotecário, que lhe arrumasse os livros que tinha em desordem e a ajudasse a organizar as memórias de seu falecido esposo (...)».
Ah! Mundo promissor! Uma Madame sem o falecido esposo e carecida de que lhe arrumassem os livros!
Desisto, mesmo. Já agora, aqui fica. O livro chama-se João Sem Terra. O autor, José Augusto França. O crítico embevecido Urbano Tavares Rodrigues. «Recomendar muito vivamente a repousada leitura deste livro é o mínimo que posso fazer», diz ele.
É verdade! A obra saiu o ano passado.

domingo, 19 de abril de 2009

O sorriso

Vi outro dia que vai ser editada a Obra Completa de Lygia Fagundes Teles. A primeira fornada começa agora a chegar, li no «Estadão». Fornada - palavra excelente - como se os livros fossem pãezinhos quentes, para barrar com manteiga, acompanhados a café.
«Clarice Lispector sempre me dizia: ?Lygia, não sorria nas fotos porque ninguém leva a sério escritoras que riem». Rio-me este domingo, ao pensar nisso. Claro que por vezes este rosto torna-se nesta face. É a vida. Sorrir é por dentro, com a alma a sorrir.

The Cocktail Party

De novo o Ruben A., agora a peça de teatro Júlia que publicou em 1960. Inspira-se no The Cocktail Party de T. S. Eliot, que traduziria. Não é um extraordinário texto, mas tem ironia suficiente para ser inteligente. Há crítica nos diálogos, alguma por pura descrição desse «mundo dissonante», como neste trecho exemplar, de conversa banal enquanto se joga canasta numa tarde de domingo, sem convicção: «Esta semana não queremos deixar de ir ver a fita que vai no Tivoli. Toda a gente fala. É uma fita que vale a pena ver. Estamos atrasados. Se nos apanham, sem termos visto essa fita, julgam que não fazemos nada».

domingo, 12 de abril de 2009

O eclipse

«Isto já não vai com Deus!» diz Loukas Notaras, o ortodoxo, com os turcos já às portas de Constantinopla e Constantino a saber que «a justiça é a comida da ilusão». A cidade cairia às mãos do Otomano no dia 29 de Maio de 1453 e com ela o Império Romano do Oriente. Era uma terça-feira. Constantino XI expiará o seu maior pecado, «a ambição de não ter ambição».
Li tudo isto ao ler Relato 1453 a peça de teatro que Ruben A. escreveu sobre um tema a que Jorge de Sena se dedicara dois anos antes, escrevendo em Araraquara O Império do Oriente.
«Estão nuvens sobre o céu de Constantinopla...É Deus que se esconde...para as despedidas não quer estar presente. Ah!...Deus está com medo dos turcos, os tempos estão diferentes. Vamos morrer...vamos morrer», revolta-se o Imperador.
A ideia ficou. Desde então resta o presságio de que Deus pode ter medo do infiel. A cidade resistiria, segundo a profecia, enquanto a lua brilhasse no céu. Cinco dias antes ocorreu um eclipse lunar total: o sol envergonhava-se.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O triálogo

Em 1951, quase a deixar o seu lugar de leitor do King's College, Ruben A. escreveu uma peça de teatro chamada Triálogo. Lia-a agora, enquanto esperava por uma boleia que ainda não chegou. A narrativa é surreal, «absurdismo surreal em sátira culta» lhe chamou o prefaciador da edição da Assírio & Alvim, onde vem publicada, burlesca diria, com Camões, sim o Luiz Vaz, agora feito burocrata e apoquentado com os despachos, «coisas sem interesse, quadras populares, jogos florais, admissões de serventes e contínuos», mais Uma Velha Lady Inglesa que faz de si marido, julgando-se viúva quando, di-lo ele, «juridicamente» - ah! risos - está apenas «hipotecada» e, Pirandello puro, o próprio autor «convertido em personagem».
Ri-me, sim, com gosto e vontade de rir. E a minha boleia sem vir.
É que há, entre tanto riso, aquele momento em que está lá fora a personagem que quer entrar em cena, o inesperado, o director da agência Nini, sequioso por conhecer o Épico e dele obter uma fala, uma conversa, uma entrevista; mas não, não entrará, porque, remata o Ruben A., actor em cena, «o tipo não pode aparecer porque nesta peça só há três personagens falantes e além disso eu não quero que ele apareça. Tira todo o interesse ao nosso triálogo».
E pronto, eis assim, talqualmente, a paródia, mas não só, pois há mais! Há uma possibilidade, lógica, abstracta, mas cenicamente possível, que o teatro é o domínio da liberdade à solta: ele poderia ser o outro, um qualquer, por exemplo o marido de Madame. Porquoi pas?
Mas oh! Uma Lady Inglesa só poderia, caprichosa, dizer com esta diz: «Não quero que seja meu marido. Era desagradável para ele saber que o tinha esquecido. Não convém que seja o meu marido. Proponho que não seja o meu marido».
Ora! E assim ficou: «Então está bem, estamos todos de acordo que o homem que está lá fora não é o seu marido nem mesmo que ele queira», diz Ruben A., magnífico!
É a risota geral, em todo o teatro até na geral, o curral dos que seguem de pé, aninhados pela arte e pelo bilhete baratucho. Aplaudo em pé! A minha boleia chegou.

Agradecimento

Quase acabei a leitura, aos poucos, do volume de cartas que Wenceslau de Moraes escreveu a Alfredo Ernesto Dias Branco.
É uma compilação de nostalgias. Fala do drama individual e de uma tragédia colectiva. Está ali um português e Portugal. Ambos tristes.
Exilado da vida, vivendo agora só, Moraes deixa que a Natureza se encarregue dele. A propósito de uma fotografia em que aparece com «barbas de farricôco» escreve este momento de fina ironia: «eu que sempre embirrei em entregar o cabelo e as barbas ao cuidado de mãos que não pudesse beijar em agradecimento no fim da operação; por isto só frequentei barbeiros em caso de força maior».

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Crónica da vida lisboeta

Perguntam-nos assim? Já leu as Crónicas da Vida Lisboeta? E uma pessoa pensa logo no Armando Ferreira e os seus convites à boa disposição. Ou no Gervásio Lobato. Mas depois dizem: não! Do Joaquim Paço d'Arcos. E um incauto vai à estante onde tem tanto livro dele que até já comprou repetidos e diz: pois não tenho! Bom, mando vir. São porventura artigos de jornal sobre recantos alfacinhas.
Chega hoje o livro. É lindo. Edição da Guimarães. Todos os livros da Guimarães agora são bonitos, de uma beleza patrícia.
Olho para a capa! Susto! Afinal são dois romances que já tenho! Ana Paula, publicado em 1938, que ele começara a escrever em Janeiro do ano anterior, e Ansiedade, editado em 1940.
Será que fazem parte de algum conjunto que na origem assim se chamava?
Vou trepar ao escadote para ir verificar na estante. Os livros de Paço d' Arcos, de seu nome real Joaquim Belford Corrêa da Silva, Paço d'Arcos é o designativo nobiliárquico, estão junto ao céu. Um momento.
Voltei. Pois nada. Ana Paula, dedicado a sua mulher, ostenta como subtítulo Perfil duma Lisboeta. Só isso.
Pronto. Mas não desisto. Fui ao estudo de Álvaro Dória sobre a vida do escritor e leio que com a peça teatral O Cúmplice o escritor inaugurou um novo género «em que também se consagraria. O Cúmplice, para onde transitaram algumas das personagens da Ana Paula, agora postas a agir no palco vivo, e daqui, por sua vez, para a "Crónica da Vida Lisboeta" outras que nesta farão carreira, foi à cena no Teatro Avenida na Primavera de 1940».
Vá lá, uma pista. Mas foi finalmente aqui que se encontrou a chave do enigma. «Crónica da Vida Lisboeta» foi o subtítulo de uma série de livros da sua autoria.
Enfim, fico com os livros todos. Olho neste momento com nostalgia para os que tinha. O Ana Paula está encadernado a pano. Juraria que era de uma tipografia colonial, de uma Missão Católica. Na canto superior da lombada está, discreto, o nome do autor, no inferior o nome daquela a quem pertenceu: Alda Corte-Real. Quem será? E o que leu nesta história? E em que recanto do mundo se envolveu nestas páginas? Quanto ao meu Ansiedade, esse tem uma dedicatória de difícil legibilidade mas em que consigo decifrar «para a viagem da ... 20/10/44». Quem seria? Que viagem foi? Ah! Como será bom viajar! Nem que seja literariamente.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O riso

Comecei a ler as cartas de Wenceslau de Moraes a Alfredo Ernesto Dias Branco. Gosto de ler cartas. Dão o sentimento de quem as escreve e o contexto em que são escritas. São mais vivas que um compêndio de História, mais ricas do que um manual de Psicologia. Encontram-se nelas pérolas de observação. Vivendo frugalmente, cônsul de Portugal no Japão, dedicado à escrita, solitário, Moraes distancia-se cada vez da vida política do país. Chegam-lhe ecos da decadência da Monarquia, vê com pouco entusiasmo o alvor da República. Duvida dos homens da política. «A tristeza é no nosso país a doença dos homens honestos, dos bons; só os patifes riem», escreve em 18 de Fevereiro de 1910.