sábado, 8 de agosto de 2009
sábado, 30 de maio de 2009
O lugar interior
Consegui ontem, por viajar de comboio, iniciar a leitura do Marcovaldo, o livro de crónicas do Italo Calvino. É uma história abstracta vivida num mundo demasiado concreto. O leitor segue o percurso de uma insignificante folha de árvore, soprada pelo vento, acompanha a sua errática trajectória, antecipa o momento que, torneando o pára-brisas de um automóvel, é sustida amigavelmente pela intersecção de uma esquina de parede e uma corda esticada para estender roupa. Os figurantes neste teatro rústico vivido em ambiente citadino têm todos nomes grandiloquentes, clássicos, greco-latinos. A Itália é uma criatura recente, a língua italiana precede-a criando uma Pátria cultural antes de haver uma Nação de cidadãos. Leio Calvino, essa babel linguística magnífica, no original, allegro cantabile, vivace, con brio.
domingo, 17 de maio de 2009
O calor de um sentimento
Ainda não voltei a ler o livro de Rachel Jardim. Talvez o faça ainda esta noite, aproveitando um qualquer instante. Acho que preciso da companhia dessa leitura, retrospectiva, calmante, reintegradora.
Venho aqui esconjurar um momento doloroso que com o livro nasceu esta manhã. Fala-se nele de Tia Inaiá, que casara com tio Renato, arquitecto italiano «que tinha a desproporcionalidade longilínea das figuras de El Greco». Renato era «um ser profundamente sofrido»: «estivera preso durante a Guerra, quando a Itália invadira a Etiópia. Defendera a Etiópia. Contava sempre que, tendo sido aprisionado e estando a caminho de um campo de concentração com outros prisioneiros num carro aberto, um bando de pobres mulheres etíopes fora ao encontro deles, oferecendo frutas. Uma não tinha nada para dar e estendeu o menino que amamentava, para que Renato segurasse por uns instantes e sentisse o seu calor».
Lê-se isto e é um desabar íntimo de tudo quanto ainda existe no precário edifício dos sentimentos. Que pobres somos, afinal, tartamudos, belfos, hesitantes em gaguez, na nossa tentativa de exprimir carinho. E por uns instantes sentisse o seu calor...
Acontece
Oferecerem-nos livros, essa coisa magnífica. Maná para quem esgota o que tem em livros e por vezes, já sob o efeito alucinogénico da livraria, se atreveria a ir para além do esgotamento e do que já não tem. Oferecerem livros a quem quer livros, todos os livros. Oferecerem livros a quem foi deixando ficar livros em casas agora alheias. Oferecerem livros, pelas alminhas, pela sua saúde, oferecerem livros que tenho fome de ler, oferecerem livros muito e muito obrigado bem haja e Deus o guarde. Oferecerem livros, essa ladainha que é ofereceram-me livros.
Rachel Jardim, brasileira, escritora. Teve a generosidade de me oferecer seus livros, com amável e sentida dedicatória. Comecei ainda ontem um deles, o que é meio diário, meio relato íntimo, meio crónica de família, o que tem desenhos de João Guimarães Vieira.
Um dia a História far-se-á assim, para se saber como era, como se sentia, como se vivia, com estes relatos do interior.
Chama-se Os Anos 40. Foi publicado no Rio de Janeiro por J. Olympio, Editor. A obrinha tem esta coisa de notável: na página final, como mandava a tradição, tem as notas do editor e da tipografia. Diz que foi confeccionado - palavra ímpar que desapareceu do mundo editorial, com sabor a gastronomia e a iguaria - nas oficinas dos Estabelecimentos Gráficos Borsoi, S.A. em Novembro do ano de 1973. Até aí tudo bem, como se diz, em modo cantante, nesse nosso Brasil. Mas continua: «sesquincentenário do nascimento de Gonçalves Dias, sesquincentenário da morte de Hipólito José da Costa, centenário do nascimento de Laudelino Freire, Rodolfo Garcia, Santos Dumont..e assim.
Já não há disto, minha gente, um editor que mede os anos por datas de vida e morte de seus escritores, como se não houvesse na Literatura outro tempo nem outro modo de o contar.
Vou na página 22 de 119. Se hoje puder e este sol magnífico não me tentar com sua mão macia ou o trabalho não me vencer com sua garra aguda, tentarei ler mais.
Ontem estive com o tio Mário: «nunca vi ninguém partir fatias de queijo tão finas e, durante muitos anos, pensei que aquilo fosse a prova máxima de boa educação»; com «seu» Bernardo «dizem que morreu de desgosto, de surpresa, de perplexidade (foi um enfarte)»; com Florinda que «era parteira e fazia abortos e amor, quase livremente»; fui ainda ao cinema ver O Monte dos Vendavais, que nesse além-mar de língua portuguesa se chamou O Morro dos Ventos Uivantes, e com ele a imaginação em vez de vida: «A vida era mais imaginada do que vivida. Não havia sofreguidão em viver. O ritmo era lento. Um dia me perguntaram - o que vocês faziam em Juiz de Fora, naquela época? Esperávamos. E nessa espera, fora e dentro de nós, as coisas aconteciam». Lê-se isto e como se aprende que no mundo de hoje, em que tanto sucede, afinal, nada acontece.
sábado, 16 de maio de 2009
Contrafatta Natura
A caminho do Pingo Doce fui à Pó dos Livros, aqui ao lado, e encontrei lá o Marcovaldo do Italo Calvino, naquela edição apetecível da Oscar Mondadori. Estive há tempos em Bolonha e trouxe de lá uns quantos, a esmo, por querer trazer todos. Tinha lido em português Se uma Noite um Viajante. Outro dia reparei que, entre tantos, faltavam-me tantos. Juntei-lhes hoje mais este, reconstituindo a família, que está numa estante giratória à janela do meu quarto. Em dias de sol apanham sol. Há pouco entreabri-lhe a apresentação para me maravilhar, sabendo que me maravilharia. «In mezzo all cità di cemento e asfalto, Marcovaldo va in cerca della Natura. Ma esixte ancora la Natura? Quella che egli trova è una Natura dispetosa, contrafatta, compromessa con la vita artificiale». Fantástico! Sabem como aprendi italiano? A ler italiano. Esfomeado de ler.
Um moço que já morreu
Muitos conhecem-no como ministro dos Negócios Estrangeiros do anterior regime político que caiu com o 25 de Abril. Tantos reconhecem-no como o autor do monumental Salazar que ainda é das melhores biografias que se escreveram sob o o homem que governou Portugal, para o mal e para o bem, durante cinquenta anos. Fui descobri-lo neste seu livro de crítica literária. Editou-o a Portugália em 1954. Talvez por lhe conhecer do pensamento político a faceta conservadora fui ler o que dizia sobre Carlos de Oliveira. Imaginar-se-ia distante, frio, crítico do envolvimento social do seu autor, apto de desmontar-lhe qualquer momento em que lhe surpreendesse o panfleto, a militância, sabido como é que o autor de Pequeno Burgueses entroncou na aguerrida família do neo-realismo onde pontificava tanto proselitismo e todos da Oposição ao Estado Novo. Nada disso. Sereno, honrado, Franco Nogueira rende-se ao rasgado elogio. Estuda a Casa na Duna, analisa o Alcateia, disseca Uma Abelha na Chuva. E termina, depois de semear mimos: «Se o ritmo da carreira literária de Carlos de Oliveira não for quebrado ou desviado, o romance português poderá contar mais um dos seus raros e grandes cultores». Ah! grandeza humana. P. S. O exemplar que tenho encontrei-o num alfarrabista. Traz ainda uma amorosa dedicatória manuscrita em esmerada caligrafia: «Para a querida Luizinha esta recordação longínqua de um moço que há muito já morre, esta lembrança de uma velha pedra da calçada que se agita, esta oferta sem expressão nem mérito que no entanto simboliza tudo, of. do Alberto»
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Uma natureza violenta
«Receoso e susceptível», assim nos viu, como povo, Miguel de Unamuno, um «povo triste mesmo quando sorri», uma Nação de gente «mais apaixonada do que sentimental». Enfim, «um povo de suicidas».
É a paixão que traz aos portugueses a vida e os atira para a morte.
Suicidou-se Herculano por isolamento, Camilo e Antero, a tiro. Os nossos grandes vultos são grandes condenados. Os menos corajosos estiolam-se. Suicidas os que matam e os que morrem. Suicida Buíça ao matar Dom Carlos, suicida foi o Rei.
Impossível ler Unamuno e não ir ler Manuel Laranjeira, esse extraordinário neurasténico, médico, que por isso tão bem se conhecia e nos conhecia. Impossível dele não vincar a frase «em Portugal todos temos os olhos vestidos de luto por nós mesmos».
Laranjeira e Unamuno encontraram-se casualmente em Espinho no dia 8 de Agosto de 1908. Duas almas trágicas, a do português analítica, o espanhol paradoxal. Recordo-vos de Laranjeira a perplexidade que me arrancou o seu estudo sobre a santidade como patologia, o misticismo como doença, o êxtase como terapia; o carinho que devotou à «Cartilha Maternal» de João de Deus. Mas quero recordar-vos sobretudo o que foi a sua dolorosa experiência sentimental, a sua «Augusta», modesta, plebeia, mas fonte de seus amores e causa de suas angústias. Inadaptado aos erros do coração, Laranjeira sabia que «o amor quando o não matam, morre, e morre como uma tarde de Setembro». Leio no seu Diário Íntimo. «Sou uma natureza violenta, silenciosamente violenta – que é a pior maneira de se ser violento», escrevera a António Carneiro, pintor. Violentou-se. Também com um tiro na cabeça, em 22 de Fevereiro de 1912. «Decididamente isto há-de acabar mal», confidenciara a Amadeo de Sousa Cardozo. Tinha então 34 anos.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Janelas fechadas
Há na Mimosa um quiosque que vende jornais e revistas. Talvez tabaco para quem fumar. Foi nele que esta tarde comprei a revista Ler. Sentei-me a ler a Ler. Veio um chá de menta e scones. Sem doce porque não posso adoçar-me. O dia esgotava-se e eu estava cansado. Dali a pouco tinha de estar numa conferência. Mas agora, na rua, esforçava-me por não levantar os olhos do que lia. O mundo tinha desaparecido, todas as janelas estavam fechadas. Lia sem nexo. Evitei o Graça Moura, poupei-me ao Agualusa. Para me animar a ler mais, comecei pelo fim. Vi então esta livraria. Fica a norte de Nova York. Aninhei-me nela, devolvido a casa.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
O inacabado momento
Extravagante, insolente, próximo do paroxismo e do pânico, eis Guilherme Augusto Cau da Costa de Santa Rita, Santa Rita Pintor como passou para a posteridade, uma posteridade para que se lançou aos vinte e oito anos. Estive com ele mais de perto há uns tempos quando tive nas mãos, por confiança extrema, o número dois da revista Orpheu. A meio uma estampa, litografada, composta em Paris em 1913, a que chamou de «compenetração estática interior de uma cabeça - complementarismo congénito absoluto». Esta noite abri o álbum que Joaquim Matos Chaves lhe dedicou em 1989, ano do centenário do seu nascimento, e que a Quimera editou. Progredi com muita incomodidade pelas páginas em que o anedótico, a blague, vão lançando a peçonha do burlesco, do clownesco, menorizando a grandeza do delírio, do éter do êxtase. Quase no fim surgiu a académica Cabeça de Velha com que foi laureado com vinte valores na cadeira de expressão de Veloso Salgado. O sorriso ligeiramente tombado, uma aura de viuvez, há nela uma névoa no olhar, uma avó a retirar-se da família, do mundo, da vida. Mas foi com o inacabado Louco que me aproximei da meia-noite numa noite em que hesitei sobre se teria algo a dizer. Boquiaberto, um grito feito de dor sem dentes, olhos esvaídos, ele é um sangrar-se pela tela, oblíquo, transversal, torturadamente repulsivo.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Personagem e intérprete
Imaginam-se sons, onomatopaicos, antecipam-se luzes. Ensaia-se o movimento, a pausa, o nada no espaço e o intervalo no tempo. Teme-se a apoteose do grande final. Em breve será vida. Outros a representarem, a realidade a explicar a imaginação. No dia 21.
domingo, 3 de maio de 2009
Um certo frenesi
Subi hoje, esbaforido de calor, a rampa da Feira, e ei-lo o Marquês da Bacalhoa, do António de Albuquerque, descendente pelo lado paterno do Afonso de Albuquerque, do lado materno de João de Barros. Apanhava sol. Diz no exórdio Paulo da Costa Domingos: «Ele tem tido uma vida de aventuras: bateu-se em duelo em Madrid, caçou no Cabo com lordes, tocou guitarra em Trouville e teve uma loja de instalações eléctricas em Itália». Morreu de cancro na bexiga, a gritar e a mijar-se, a miséria a rir-se de quem escreveu a escarnecer. Agora está aqui a meu lado. Junto, no mesmo tomo, A Execução do Rei Dom Carlos, do mesmo. Tem como menção ter sido terminado na Ermijeira, em 6 de Setembro de 1907.sábado, 2 de maio de 2009
Os Ramos Entrelaçados
Danilo Barreiros escreveu, Pedro Barreiros desenhou a capa, com uma pintura chinesa Os Ramos Entrelaçados das Flores de Ameixoeira. É um pequeno fascículo, editado em 1961, edição de autor, impresso na Bertrand, sobre a morte e o testamento de Camilo Pessanha. Cruzei-me hoje com ele na Rua de Anchieta, onde está a feira dos livros usados. Trouxe-o comigo. Deve-se a Danilo Barreiros ter copiado, na sua máquina Underwood, «com fita de duas cores» as Elegias Chinesas de Camilo Pessanha. «Foi este material que António Quadros utilizou para a publicação do texto na Europa-América com as obras completas de Pessanha», diz Pedro Barreiros que, em 1999, as editaria, homenagem de aluno que foi no Liceu de Macau, ao Tap Siac.quarta-feira, 29 de abril de 2009
Caroline
O esquema era simples: eu mandava-lhe um fax com a lista dos livros procurados, ela descobria-os nos lugares mais recônditos. Um dia veio um de uma companhia de lanceiros na Escócia, cuja biblioteca havia sido desactivada. Outras vezes impregnava-os um cheiro a mofo por terem estado armazenados na escuridão bolorenta de alguma cave.
Lembrei-me hoje com saudade dos gatos e dos livros que me chegavam de Inglaterra. Vi este bichano, qual caminhante sobre as águas encapeladas da literatura. De jangada.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Resistir
Joaquim Paço d’ Arcos começa a narrativa do seu romance Ana Paula com uma viagem a caminho da Torre. O autor de Tons Verdes em Fundo Escuro felizmente volta a estar na moda. A Guimarães está a reeditar-lhe a obra, agora em exemplares magníficos. «Poucos medem a pressão de toda a ordem que as várias facções exercem sobre o romancista, tentando arregimentá-lo para os seus respectivos credos. É ela de tal ordem, que o mérito do escritor não está em optar, sim em resistir (…)», escreveu ele em Confissão e Defesa do Romancista. Sabia do que falava. Concorrera em 1938, precisamente com Ana Paula, ao prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências. O parecer dos imortais académicos foi arrasador. Pior, posto a circular na imprensa. Pior ainda, deram-lhe o prémio. O autor retaliou recusando a ofensiva distinção. O Presidente da Academia lamentou em sessão que «o moço e ilustre escritor» tivesse tomado melindre com o feito. Joaquim soube resistir.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Não me contem o filme!
«João de Vasconcelos Lopes, aos vinte e cinco anos, já professor de liceu, doutorando com uma tese a caminho e muito apaixonado pela sua noiva, que lhe retribui esse amor, vê-se na iminência de ter de partir para Angola como oficial miliciano. Um amigo muito envolvido nas lutas antifascistas prepara-lhe a saída a salto pelo Norte, Vera irá depois ter com ele, e lá vai João viver a grande aventura da sua vida, a travessia da fronteira e, em Espanha, onde o esperam outros apoios, novas peripécias até San Sebastian, onde consegue integrar-se numa excursão turística daí a Biarritz. E ei-lo em França, com o seu passaporte, com os primeiros carimbos falsos, é claro, a instalar-se num hotelzinho modesto no bairro Latino, a conviver com exilados políticos (...)».
É o resumo de um livro, que encontrei numa recensão da Fundação Gulbenkian, aqui.
E porque será que ante tais ingredientes não me apetece lê-lo? Será por algum reaccionarismo primário? Ou será porque na arte se exige mais subtileza, mais sublimação, mais forma de se chegar lá! Não me contem o filme se querem que eu vá ao cinema!
Mas há supresas: «Assim um dia, o Professor Pardon propõe-lhe ir viver na província de Anjou, bela região entre o Maine e o Loire, em casa de uma fidalga, Madame de la Boullerie, que precisava de uma espécie de secretário-bibliotecário, que lhe arrumasse os livros que tinha em desordem e a ajudasse a organizar as memórias de seu falecido esposo (...)».
Ah! Mundo promissor! Uma Madame sem o falecido esposo e carecida de que lhe arrumassem os livros!
Desisto, mesmo. Já agora, aqui fica. O livro chama-se João Sem Terra. O autor, José Augusto França. O crítico embevecido Urbano Tavares Rodrigues. «Recomendar muito vivamente a repousada leitura deste livro é o mínimo que posso fazer», diz ele.
É verdade! A obra saiu o ano passado.
domingo, 19 de abril de 2009
O sorriso
Vi outro dia que vai ser editada a Obra Completa de Lygia Fagundes Teles. A primeira fornada começa agora a chegar, li no «Estadão». Fornada - palavra excelente - como se os livros fossem pãezinhos quentes, para barrar com manteiga, acompanhados a café.
«Clarice Lispector sempre me dizia: ?Lygia, não sorria nas fotos porque ninguém leva a sério escritoras que riem». Rio-me este domingo, ao pensar nisso. Claro que por vezes este rosto torna-se nesta face. É a vida. Sorrir é por dentro, com a alma a sorrir.
The Cocktail Party
De novo o Ruben A., agora a peça de teatro Júlia que publicou em 1960. Inspira-se no The Cocktail Party de T. S. Eliot, que traduziria. Não é um extraordinário texto, mas tem ironia suficiente para ser inteligente. Há crítica nos diálogos, alguma por pura descrição desse «mundo dissonante», como neste trecho exemplar, de conversa banal enquanto se joga canasta numa tarde de domingo, sem convicção: «Esta semana não queremos deixar de ir ver a fita que vai no Tivoli. Toda a gente fala. É uma fita que vale a pena ver. Estamos atrasados. Se nos apanham, sem termos visto essa fita, julgam que não fazemos nada».
domingo, 12 de abril de 2009
O eclipse
«Isto já não vai com Deus!» diz Loukas Notaras, o ortodoxo, com os turcos já às portas de Constantinopla e Constantino a saber que «a justiça é a comida da ilusão». A cidade cairia às mãos do Otomano no dia 29 de Maio de 1453 e com ela o Império Romano do Oriente. Era uma terça-feira. Constantino XI expiará o seu maior pecado, «a ambição de não ter ambição».
Li tudo isto ao ler Relato 1453 a peça de teatro que Ruben A. escreveu sobre um tema a que Jorge de Sena se dedicara dois anos antes, escrevendo em Araraquara O Império do Oriente.
«Estão nuvens sobre o céu de Constantinopla...É Deus que se esconde...para as despedidas não quer estar presente. Ah!...Deus está com medo dos turcos, os tempos estão diferentes. Vamos morrer...vamos morrer», revolta-se o Imperador.
A ideia ficou. Desde então resta o presságio de que Deus pode ter medo do infiel. A cidade resistiria, segundo a profecia, enquanto a lua brilhasse no céu. Cinco dias antes ocorreu um eclipse lunar total: o sol envergonhava-se.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
O triálogo
Em 1951, quase a deixar o seu lugar de leitor do King's College, Ruben A. escreveu uma peça de teatro chamada Triálogo. Lia-a agora, enquanto esperava por uma boleia que ainda não chegou. A narrativa é surreal, «absurdismo surreal em sátira culta» lhe chamou o prefaciador da edição da Assírio & Alvim, onde vem publicada, burlesca diria, com Camões, sim o Luiz Vaz, agora feito burocrata e apoquentado com os despachos, «coisas sem interesse, quadras populares, jogos florais, admissões de serventes e contínuos», mais Uma Velha Lady Inglesa que faz de si marido, julgando-se viúva quando, di-lo ele, «juridicamente» - ah! risos - está apenas «hipotecada» e, Pirandello puro, o próprio autor «convertido em personagem».
Ri-me, sim, com gosto e vontade de rir. E a minha boleia sem vir.
É que há, entre tanto riso, aquele momento em que está lá fora a personagem que quer entrar em cena, o inesperado, o director da agência Nini, sequioso por conhecer o Épico e dele obter uma fala, uma conversa, uma entrevista; mas não, não entrará, porque, remata o Ruben A., actor em cena, «o tipo não pode aparecer porque nesta peça só há três personagens falantes e além disso eu não quero que ele apareça. Tira todo o interesse ao nosso triálogo».
E pronto, eis assim, talqualmente, a paródia, mas não só, pois há mais! Há uma possibilidade, lógica, abstracta, mas cenicamente possível, que o teatro é o domínio da liberdade à solta: ele poderia ser o outro, um qualquer, por exemplo o marido de Madame. Porquoi pas?
Mas oh! Uma Lady Inglesa só poderia, caprichosa, dizer com esta diz: «Não quero que seja meu marido. Era desagradável para ele saber que o tinha esquecido. Não convém que seja o meu marido. Proponho que não seja o meu marido».
Ora! E assim ficou: «Então está bem, estamos todos de acordo que o homem que está lá fora não é o seu marido nem mesmo que ele queira», diz Ruben A., magnífico!
É a risota geral, em todo o teatro até na geral, o curral dos que seguem de pé, aninhados pela arte e pelo bilhete baratucho. Aplaudo em pé! A minha boleia chegou.
Agradecimento
Quase acabei a leitura, aos poucos, do volume de cartas que Wenceslau de Moraes escreveu a Alfredo Ernesto Dias Branco.
É uma compilação de nostalgias. Fala do drama individual e de uma tragédia colectiva. Está ali um português e Portugal. Ambos tristes.
Exilado da vida, vivendo agora só, Moraes deixa que a Natureza se encarregue dele. A propósito de uma fotografia em que aparece com «barbas de farricôco» escreve este momento de fina ironia: «eu que sempre embirrei em entregar o cabelo e as barbas ao cuidado de mãos que não pudesse beijar em agradecimento no fim da operação; por isto só frequentei barbeiros em caso de força maior».
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Crónica da vida lisboeta
Perguntam-nos assim? Já leu as Crónicas da Vida Lisboeta? E uma pessoa pensa logo no Armando Ferreira e os seus convites à boa disposição. Ou no Gervásio Lobato. Mas depois dizem: não! Do Joaquim Paço d'Arcos. E um incauto vai à estante onde tem tanto livro dele que até já comprou repetidos e diz: pois não tenho! Bom, mando vir. São porventura artigos de jornal sobre recantos alfacinhas.
Chega hoje o livro. É lindo. Edição da Guimarães. Todos os livros da Guimarães agora são bonitos, de uma beleza patrícia.
Olho para a capa! Susto! Afinal são dois romances que já tenho! Ana Paula, publicado em 1938, que ele começara a escrever em Janeiro do ano anterior, e Ansiedade, editado em 1940.
Será que fazem parte de algum conjunto que na origem assim se chamava?
Vou trepar ao escadote para ir verificar na estante. Os livros de Paço d' Arcos, de seu nome real Joaquim Belford Corrêa da Silva, Paço d'Arcos é o designativo nobiliárquico, estão junto ao céu. Um momento.
Voltei. Pois nada. Ana Paula, dedicado a sua mulher, ostenta como subtítulo Perfil duma Lisboeta. Só isso.
Pronto. Mas não desisto. Fui ao estudo de Álvaro Dória sobre a vida do escritor e leio que com a peça teatral O Cúmplice o escritor inaugurou um novo género «em que também se consagraria. O Cúmplice, para onde transitaram algumas das personagens da Ana Paula, agora postas a agir no palco vivo, e daqui, por sua vez, para a "Crónica da Vida Lisboeta" outras que nesta farão carreira, foi à cena no Teatro Avenida na Primavera de 1940».
Vá lá, uma pista. Mas foi finalmente aqui que se encontrou a chave do enigma. «Crónica da Vida Lisboeta» foi o subtítulo de uma série de livros da sua autoria.
Enfim, fico com os livros todos. Olho neste momento com nostalgia para os que tinha. O Ana Paula está encadernado a pano. Juraria que era de uma tipografia colonial, de uma Missão Católica. Na canto superior da lombada está, discreto, o nome do autor, no inferior o nome daquela a quem pertenceu: Alda Corte-Real. Quem será? E o que leu nesta história? E em que recanto do mundo se envolveu nestas páginas? Quanto ao meu Ansiedade, esse tem uma dedicatória de difícil legibilidade mas em que consigo decifrar «para a viagem da ... 20/10/44». Quem seria? Que viagem foi? Ah! Como será bom viajar! Nem que seja literariamente.
Chega hoje o livro. É lindo. Edição da Guimarães. Todos os livros da Guimarães agora são bonitos, de uma beleza patrícia.
Olho para a capa! Susto! Afinal são dois romances que já tenho! Ana Paula, publicado em 1938, que ele começara a escrever em Janeiro do ano anterior, e Ansiedade, editado em 1940.
Será que fazem parte de algum conjunto que na origem assim se chamava?
Vou trepar ao escadote para ir verificar na estante. Os livros de Paço d' Arcos, de seu nome real Joaquim Belford Corrêa da Silva, Paço d'Arcos é o designativo nobiliárquico, estão junto ao céu. Um momento.
Voltei. Pois nada. Ana Paula, dedicado a sua mulher, ostenta como subtítulo Perfil duma Lisboeta. Só isso.
Pronto. Mas não desisto. Fui ao estudo de Álvaro Dória sobre a vida do escritor e leio que com a peça teatral O Cúmplice o escritor inaugurou um novo género «em que também se consagraria. O Cúmplice, para onde transitaram algumas das personagens da Ana Paula, agora postas a agir no palco vivo, e daqui, por sua vez, para a "Crónica da Vida Lisboeta" outras que nesta farão carreira, foi à cena no Teatro Avenida na Primavera de 1940».
Vá lá, uma pista. Mas foi finalmente aqui que se encontrou a chave do enigma. «Crónica da Vida Lisboeta» foi o subtítulo de uma série de livros da sua autoria.
Enfim, fico com os livros todos. Olho neste momento com nostalgia para os que tinha. O Ana Paula está encadernado a pano. Juraria que era de uma tipografia colonial, de uma Missão Católica. Na canto superior da lombada está, discreto, o nome do autor, no inferior o nome daquela a quem pertenceu: Alda Corte-Real. Quem será? E o que leu nesta história? E em que recanto do mundo se envolveu nestas páginas? Quanto ao meu Ansiedade, esse tem uma dedicatória de difícil legibilidade mas em que consigo decifrar «para a viagem da ... 20/10/44». Quem seria? Que viagem foi? Ah! Como será bom viajar! Nem que seja literariamente.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
O riso
Comecei a ler as cartas de Wenceslau de Moraes a Alfredo Ernesto Dias Branco. Gosto de ler cartas. Dão o sentimento de quem as escreve e o contexto em que são escritas. São mais vivas que um compêndio de História, mais ricas do que um manual de Psicologia. Encontram-se nelas pérolas de observação. Vivendo frugalmente, cônsul de Portugal no Japão, dedicado à escrita, solitário, Moraes distancia-se cada vez da vida política do país. Chegam-lhe ecos da decadência da Monarquia, vê com pouco entusiasmo o alvor da República. Duvida dos homens da política. «A tristeza é no nosso país a doença dos homens honestos, dos bons; só os patifes riem», escreve em 18 de Fevereiro de 1910.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Osoroshi
A si próprio se chamou Osoroshi, termo japonês que na nossa língua se traduz por O Mete-Medo. Wenceslau de Moraes, oficial de Marinha, excepcional escritor, exemplo de invulgar sensibilidade e de honorabilidade. Já tinha reunido o que considerava ser a obra toda porque recentemente editada em Macau, dispersos muitos dos livros da mais antiga saída da Parceria António Maria Pereira. Cruzei-me hoje com este, que são cartas a Alfredo Ernesto Dias Branco, um oficial do Exército, escritas entre 1905 e 1929. Na última, já sem data, a pouco tempo de morrer o autor de Dai-Nippon deixava, como um prenúncio: «estou doente. Mal posso escrever».Aconteceu tudo em Coimbra neste alfarrabista. Um lugar de escolha cuidada.
domingo, 29 de março de 2009
sábado, 21 de março de 2009
Um príncipe em casa
Devo ao Bettencourt da Câmara * a revelação: a primeira edição portuguesa da obra O Príncipe de Maquiavel só ocorreu - espanto - em 1935, através da Atlântida, de Coimbra, ornada «com um artigo de Mussolini a servir de introdução». Referi-o na apresentação que escrevi para uma edição que a Presença publicou o ano passado da mesma obra, em nova tradução. Seria em 1945 que Manuel Mendes e Berta Mendes trariam para a Cosmos um Maquiavel, agora já não pré-fascista, mas sim democrata e amigo do povo. Vicissitudes da vida e obra de uma desgraçada criatura de que estudei o teatro e a poesia. Encontrei-a hoje, na Rua Anchieta, aquela comprometedora edição. Trouxe-a para aqui, contente por estar agora à mão. Até aqui tinha lido por amabilidade de empréstimo, que é uma forma tímida de se ler. Agora verei como é tê-lo comigo.
* Câmara, João Bettencourt da, A Primeira Edição d’ O Príncipe ou o Maquiavel Fascista de Francisco Morais, em Res-Publica, Revista Lusófona de Ciência Política e Relações Internacionais, 2005, 1, 5-6
Papel pardo
É um manuscrito de Carlos Queiroz. Tem como suporte uma folha de papel pardo, a qual o pintor Bernardo Marques (1899-1962) utilizara para limpar os pincéis, segundo informação da viúva e doadora, Maria Elisa Marques. Encontrei-o, aqui, por ser o dia mundial da poesia. «Se eu tivesse nascido no seio da província, era fatal, que o meu sonho maior era triunfar na capital». Nem tudo é grande na grandiosidade. Há na insignificância também a grandeza dos sentimentos.A Ucrânia
Compreende-se agora, quando se progride na leitura, porque se chama O Apocalipse dos Trabalhadores. Valter Hugo Mãe traz à nossa literatura Andriy e Sasha e a Ekaterine, de Korosten, perto de Chernobyl, na Ucrânia. Andriy emigrado para Portugal, o ser mecânico, robotizado, de quem o país emprega os robustos músculos e a rotina de não pensar, que não lhe querem o pensamento nem sentimentos mas, no trabalho braçal, só a mecânica dos gestos, de quem Quitéria se serve do ritual de cada um dos actos que no sexo se aplicam, essa satisfação necessária.
É uma história em que há também Maria da Graça e o senhor Ferreira e o seu pai, tetraplégico, «quadrúpede de tristeza», e a guarda de polícia Quental, a monotonia e o desejo, mais o emprego de carpideira e o trabalhar nas obras, tudo em Bragança, em Vinhais, em Portugal, que na história é o nome de um cão.
É um livro magnífico de gente «com vontade de não se ver existir».
Lia ontem, voltado ao livro, para chegar a «sete milhões de ucranianos morreram à fome nos anos trinta e dois e trinta e três do século vinte», mais «os sete milhões de mortos na segunda guerra mundial», e os mortos mais os afectados pela catástrofe de Chernobyl.
Foi então, com vergonha de ser humano e de ter vivido neste século que, comigo, «na cozinha dos Shevchenko sentavam-se mais de catorze milhões de mortos a olhar para os pratos de sopa». Com fome.
Ei-los enfim chegados à literatura e aos campos de trabalho: os ucranianos e a raiva de sobreviver. Obrigado pela memória e por escreveres tão bem.
sexta-feira, 20 de março de 2009
Rebelo da Silva
Luiz Augusto Rebelo da Silva viveu quarenta e nove anos [1822-1871] e escreveu quarenta e um livros. Estudou matemática e letras, foi jurisconsulto, deputado, romancista, historiador, em suma, uma intranquila criatura. Grande parte da sua obra perde-se por ter sido impressa em mau papel. As edições em oitavo tiradas no início do século vinte desfazem-se nas mãos, alguns tomos aparecem irmanados com um barbante e laçarote para não se desconjuntarem. De quando em vez lá surge um volume mais afortunado, encadernado. Apenas a sua História de Portugal (séculos XVII e XVIII) mereceu honras de edição cuidada, prefaciada e organizada pelo falecido professor Borges de Macedo.
Dele disse Ramalho Ortigão que tinha o diabo da arte no corpo o amor das letras na massa do sangue [As Farpas, Janeiro de 1884, edição Corazzi, tomo III, pág. 44 e ss., e Paladinos da Linguagem, 1.º vol., Aillaud e Bertrand, Lisboa, 1921]. Compreende-se bem porquê.
quinta-feira, 19 de março de 2009
A lei do descanso
Imagina-se no Franz Kafka depressão, melancolia, um universo concentracionário, os tectos baixos. Bem, os tectos baixos existem. Quando Josef K. entra na sala de interrogatório, um salão familiar adaptado a tribunal, instalado improvisadamente numa casa de habitação - onde é que eu já vi isto? - todos os da magna assembleia «eram forçados a inclinar-se para se manterem de pé e batiam com as costas e cabeças no tecto», pelo que «alguns tinham trazido almofadas que haviam colocado entre as suas cabeças e o tecto para não se esfolarem».
Ora, estando já a sorrir com esta pictórica descrição, não se espera é que se solte o riso quando se lê que a menina Elsa, que de noite trabalhava como criada numa taberna, «durante o dia recebia as suas visitas metida na cama». O que se compreende, pois há o direito ao descanso: o que puderes fazer deitado não o faças sentado, o que puderes fazer sentado não o faças de pé.
quarta-feira, 18 de março de 2009
O regulamento
«Ultrapasso a minha missão ao falar-lhe tão amistosamente», disse o polícia a Josef K., acrescentando, ao referir-se ao seu colega: «também ele o trata simpaticamente à revelia do regulamento». É assim em O Processo de Franz Kafka: a amabilidade é uma irregularidade, a denúncia uma calúnia que solta os mastins da lei.
segunda-feira, 9 de março de 2009
A redenção
Há no filme O Leitor tantos aspectos de magnificência humana que isolar um só é um atentado contra a suprema arte de ter sabido contar assim aquela pungente lição de humanidade. Mais do que uma história sobre a culpa alemã, ele é uma fábula sobre a inocência do Homem, sobre a redenção possível. Esta noite a lua enchia os céus e os corpos da abundância da renovação.
domingo, 8 de março de 2009
Era uma vez
Uma biblioteca desmorona-se, um homem morre. O arquivo continha manuscritos de Karl Marx. Há quem pense que a cultura é perigosa e que o marxismo mata. Ontem revi uma grande parte do filme Violência e Paixão do Visconti. Tudo começa em torno de uma biblioteca. Também ali o velho palácio ameaça ruir. Mas a história é bela. O professor vence a solidão e descobre a alegria de viver. A vida triunfava no momento em que, com sono e constipação, deixei o resto para depois. Como não me lembro da narrativa tudo pode acontecer quando retornar ao filme. Espero que acabe bem. Há um momento em que a esperança nasce em que ao menos uma vez as histórias acabem bem. Uma última vez.
sábado, 7 de março de 2009
Um engate
A boa escrita é um engate. Prende-nos como um anzol, vai-nos dilacerando a carne ao arrastar-nos. Retomei hoje a leitura. «Fazem-me mais triste, eu sei, mas estiveram sempre convencidos de que a obra que deixaram me haveria de fazer feliz», pensava Maria da Graça, a personagem de Walter Hugo Mãe, a mulher-a-dias, que entregava o corpo e o tempo ao senhor Ferreira «com o maldito categoricamente afirmando que lhe punha as mãos pela oportunidade», devolvendo-a, «assim conspurcada ao marido». Uma escrita poderosa, ágil, funda, a contar, toda em minúsculas, que «o amor criado assim, a partir de quem se odeia, é o pior, dizia-lhe a quitéria, é como lutar com a sombra». O livro chama-se O Apocalipse dos Trabalhadores. Não lhe conhecia outro livro. Agora, quando este se esgotar, irei a todos.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
A arte do ventriloquismo
Na sua biografia sobre Erasmo de Roterdão, Stefan Zweig surpreendeu-lhe, ao contemplá-lo na impressionante gravura de Dürer e no quadro de Holbein, a expressão de um corpo substancialmente inferior à dimensão da obra que o seu cérebro infatigável criou. A sua vida não residia no corpo mas no pensamento
Máquina de pensar, mestre no estilo irónico, escondendo-se atrás de um discurso em que o se e o no entanto eram defesas ante os poderosos, este homem viu o mundo através dos livros, escondido atrás do baluarte dos livros.
Máquina de pensar, mestre no estilo irónico, escondendo-se atrás de um discurso em que o se e o no entanto eram defesas ante os poderosos, este homem viu o mundo através dos livros, escondido atrás do baluarte dos livros.
Naquele tempo os que viviam entre espíritos irmanavam-se com a criadagem. Saber pedir era uma forma de sobrevivência. «Erasmo lisonjeia nas cartas, para ser mais sincero nas obras», escreve o seu biógrafo austríaco. O Elogio da Loucura é, como artifício de cinismo, um prodígio de inteligência defensiva. Nunca se sabe quem fala, se ele se Dona Estultícia. É a arte do ventriloquismo na sua melhor expressão.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
O acto de dar
Num mundo cheio de pressa e de eficácia há pequenos cosmos de excepção. Aqui na rua há uma pequena loja que, entre outras extravagâncias, vende embrulhos para prendas. Ou melhor, embrulha prendas. Papel diferente, vistoso e colorido, laços e florinhas, cartões e cordões, pequenos selos a lacre, tudo o que dá um ar de imponência e de importância a uma pequena lembrança.
Claro que o invólucro não dura um minuto, a ansiedade de quem recebe, por vezes, estraga logo o magnífico envelope, para que, desventrado, dê à luz o apetecido conteúdo.
O acto de dar é, porém, o aguardar pelo que embrulha o que se dá. Meia-hora está bem? Sim, meia-hora para que fique tudo como deve ser e o acto de oferecer seja uma longa paciência.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
O oco
Continuei com as aventuras do Kiá, desta feita envolvendo o Príncipe Rodolfo da Sérvia, o Conde de Castronovo, o encontro onde o Largo da Estefânia se cruza com a Pascoal de Melo e que a senha «o ninho da águia» proporcionou, o anão, o mealheiro quebrado, a mulher austríaca de farto seio e o agente secreto Cabral, a criança raptada e subsituída, o manicómio do Dr. Hernâni e, eis-me onde queria, o interior do Arco da Rua Augusta.
Há nas entranhas desse monumento triunfal um relógio e o mistério do seu vazio. A entrada faz-se por uma disfarçada portinhola. Por debaixo da praça o oco que a estacaria sustenta. Hoje ronda por ali a toupeira do metropolitano e um halo de insegurança.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Confusão
Em matéria de Lobo Antunes a confusão é possível porque todos escrevem ou quase. Em matéria de Lobo Antunes a confusão é impossível pois são todos diferentes de feitio e só vagamente semelhantes de cara. Pois num dos últimos posts chamei João ao António. Estava cheio de sono. Alertado já fui emendar. Vim aqui escrever sobre isso não com medo que me achem ignorante, só para me irmanar com os que dão erros, perdão fazem erros.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
O milagre da multiplicação dos peixes
Viver debaixo do mar só deve ser bom quando se vê o céu. Claro que para os peixes o céu é o tecto onde a água se lhes acaba. O reflexo que as nuvens ali projecta deve parecer-lhes uma imagem sem realidade, por isso sumamente bela. Se houver um arco-íris aquático, acredito na refracção da luz como se acredita nos milagres, do anil ao violeta.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Personagens
A universalidade da ideia de contar uma história possível chama-se ficção. A particularidade que faz ver na possibilidade dessa história uma realidade chama-se vida. No fundo é assim. Vivemos todos os dias uma vontade de que as coisas sucedam de modo imaginário. Quando, ante o sucedido, a alma nos sorri, chamamos a isso felicidade. Quando se nos esgota a imaginação, e já nada se recria, os outros julgam que morremos. Para tornar isso verdadeiro, fechamos os olhos e entramos em rigidez cadavérica. Nos registos oficiais abatem-nos ao efectivo. No círculo dos sentimentos privados vão ocupando o nosso lugar com outros frutos da invenção. Há os que deixam livros de memórias, forma de escaparem à menoridade através da grandiloquência. Outros ficam soterrados como personagens de histórias indecentes, forma de se rirem todos da moralidade e suas maçadorias. No meio disto há os que contam. Por eles, lágrimas de saudades imediatas, lembranças risonhas, a paz enfim de renascerem, inesperados, nos nossos corações.
sábado, 31 de janeiro de 2009
Em frenesi
Fui a uma feira do livro no átrio da estação de comboios da Expo. Ladeava-a uma feira de discos e de filmes. Falo de livros, embora tenha comprado uns filmes, para me reconciliar com o cinema em casa e tenha visto, sem comprar, uns discos que da próxima vou lá filar, como uns cantos japoneses acompanhados com o que, meio pitosga, me parecia um alaúde, entoados pelo que me parecia, e pus os óculos, uma geisha de fino requebro.
Uma feira é a oportunidade de encontrar livros inesperados, que o circuito de distribuição já não recebe. Porque hoje hoje o mercado livreiro gira na base da rotação de stocks. É gerido por gente que vem da banca, que sabe cálculo financeiro e de marketing editorial. Olham para a literatura na base de critérios de amortização de custos e de rentabilização de investimentos, frequentemente como forma de garantir o cash-flow quando a tesouraria aperta.
Mas uma feira é também uma caixa de surpresas. Ao lado da História das Orgias, de que o que menos interessa é o autor, vendem-se as 100 Maneiras de Cozinhar Bacalhau da prestimosa Rosa Maria. No meio, tímido lá estava, em amorosa edição da Frenesi, a narrativa dos sofrimentos dos padres, especialmente jesuítas, crúzios e capuchinhos, fidalgos, principalmente os Condes de Óbidos, da Ribeira Grande, de S. Lourenço, os Távoras e os Marqueses de Alorna nas prisões da Junqueira.
«A experiência tem mostrado que quanto maior é a miséria, maior o desamparo», diz-se numa folha que abri ao acaso agora que cheguei no meio de uma chuvada digna de Noé e sua barca. Grande frase, motivo sobejante para ler. Não digo já, porque tenho que trabalhar, preguiçoso embora, nem mais logo porque hoje é sábado.
O barómetro
O Finisterra do Carlos de Oliveira está a ser o meu barómetro quanto à capacidade de ler. O livro é pequeno mas progrido muito lentamente. Espanto-me sempre com aqueles leitores de alta velocidade, TGV's da literatura, os que estão sempre a reler clássicos em volumes de grande tomo e actualizadíssimos com o vient de paraître. Humano, dependente dos estados de alma e da meteorologia, leitor nos intervalos dos deveres e como fuga às obrigações, não consigo essas proezas na praça da maratona. Esta manhã, ainda por cima, doía-me a cabeça, «o sol agora mais lunar que as sete luas». Ainda só vou na página noventa e três. São cento e trinta e nove, na edição da Assírio & Alvim. Hei-de chegar ao fim. Leio-o linha a linha, cada palavra de sua vez, a irradiante luz da magnífica escrita a ofuscar-me o pensamento.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Malanje ao sábado
Lembrei-me agora, mas passou-se no sábado se não estou confuso com datas e tenho estado. Fui à Rua Anchieta, ao lado da Bertrand, a livraria que tem aquele cheiro doce logo na sala de entrada. Há lá, na pequena artéria que vai dar ao Governo Civil, uma venda de alfarrabistas. Normalmente começo pelo fundo da rua, venho até ao princípio, farejando banca a banca, deixando-me tentar, viciado. Por vezes faço duas voltas, como o pintor dá duas demãos, a engomadeira uma nova passagem para reforçar os vincos numas calças teimosas, a jovem que, não acreditando no Responso a Santo António, passa e repassa pelo bosque dos amores em busca da travessa para o cabelo que, distraída de namoro, por ali deixou ficar.
Ora neste sábado encontrei-o. Editado em 1954, era uma reportagem sobre a cidade de Malanje, em Angola. «Olha que fantástico», disse eu, ao bem-humorado livreiro, com aquele inesperado opúsculo nas mãos. E de facto era notável pelas recordações que me trazia: o senhor Pratt do Banco de Angola, o Santos Pinto, a Casa Americana, o jardim do Caminho de Ferro, a Robert Hudson. Tudo aquilo me dizia tanto.
«Nasci aqui», confessei-lhe, incapaz de reter mais tempo aquele segredo, prendendo-lhe com isso, inesperadamente a atenção, confidente e amigo.
Com ele em frente, bigode farto, sorriso aberto, era já impossível não o levar comigo. «Mas são vinte e cinco euros», cortei, timorato por tal banalidade, um pequeno esgar que parecia traduzir incerteza, tão automático que nem dele me apercebi, a envergonhar-me por estar a regatear um tesouro.
Só que de repente o destino jogou a sua cartada na mesa deste jogo de sorte. «Olha, o meu avô!». Ali estava ele, de facto, numa festa de Natal da Cotonang, a companhia belga de algodão, o velho Rebelo da Silva, pai da minha mãe.
Talvez uma aura de ternura, bálsamo de remorsos e perfume da bondade, me tenha envolto a figura, adoçado a pose. De livro ainda na mão, enternecido por haver ali um passado que era meu, ouvi-o, como num murmúrio segredar-me, meu querido livreiro: «faço-lhe vinte euros».
sábado, 24 de janeiro de 2009
O gérmen invasor
Há quem escreva sobre o que lê. Eu já escrevi sobre o que li. Hoje vou escrever sobre o que não consegui ler.
Tentei regressar ao Finisterra do Carlos Oliveira. O livro tinha ficado interrompido. Uma pequena marca, feita com o talão azulado de uma etiqueta, assinalava onde.
«A face dianólica de um facto esbarra na linha onde começa a outra face: celestial», diz o narrador. A duplicidade do real, a geometria submersa da realidade tornou-se-me hoje insuportável, como uma tendência mórbida para a indiferenciação.
A veia literária
Senta-se um homem devolvido aos seus livros entreabertos, não finalizados, aos livros que comprou e não leu, ao que não escreveu. Droga de substituição, na literatura estão quase todas as sensações já experimentadas, excepto uma: anular-se assim a vida totalmente substituída, escrita, sem vontade de a voltar a ler. Senta-se um homem entre a ideia de tantos livros. Meticulosamente, deixando bilhete de adeus, abre a veia da criação, esvaindo-se, derradeiro, jorrando a vida que se anula, linha a linha, no livro que lhe faltava finalizar. Carregados de expectativa, os leitores esperam ansiosos.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Um livro
À medida que os anos passam e fazem estragos na memória, à medida que os livros vão sendo muitos e por vezes confundimos o que temos com o que gostávamos de ter, fica sempre em dúvida sobre não estaremos a comprá-los pela segunda vez.
Há vezes em que isso não importa. Já comprei um livro de memórias em edição encadernada porque a de formato bolso, que eu já tinha, editava menos fotografias e eu queria aquela fotografia. Já comprei um livro de aventuras pela segunda vez porque a nova edição tinha capa diferente e eu queria a capa. Já comprei uma biografia repetida porque esta tinha uma dedicatória. Já reincidi na compra de um livro por julgar que o perdera.
Hoje não. Na verdade eu hesitava se me teria alguma vez cruzado portas adentro com o controverso Ana Paula do Joaquim Paço d'Arcos. Ao chegar a casa vi que, aleluia, não tinha. É que comprei-o esta manhã. Mas, repito, espero que se acredite, isso era o somenos. O somais, como diria o outro que acreditava na congruência morfológica desta língua irregular, é que trouxe o livro porque, sendo a primeira edição, editada em 1938, ostentava, para além das manchas de bolor, aquela encadernação a pano, tão tipicamente colonial como a farda de um chefe de posto, e no interior o carimbo da Livraria Magalhães, no Lobito.
Na lombada, além do nome do livro e da obra, tal como nos livros do meu pai, o nome daquele a quem pertencera: Alda Corte Real. Quem seria? Onde estaria? Porque estaria ali a obra? Tanta tristeza num só livro, tanta vida por se saber.
sábado, 10 de janeiro de 2009
A porcelana
Li umas folhas mais do Finisterra, só umas folhas porque o Carlos de Oliveira tem de ser lido assim, goticularmente.
É uma escrita despovoada, vivida em torno do vento, da areia, da mais esquisita botânica, uma escrita das ocorrências subtis, desconsideradas pelos atletas dos sentimentos, os maratonistas das sensações.
Detive-me ante a exaustão das gisandras depois do seu nocturno clímax floral, parei ante a voz da mãe que modela as palavras em tonalidades independentes de acentuação e «se a palavra tem só uma sílaba, a voz sobrepõe-na ao começo da palavra seguinte».
Isto sim, é escrever sobre a miniatura e a fragilidade, a quebradiça porcelana que os chineses inventaram e os alquimistas descobriram, etérea, perto da névoa.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Entre cobertores
Enroscado em cobertores, tossindo nos intervalos de espirrar, os olhos a lacrimar, purgando pegajosidades e outras repelências, sem ao menos a dignidade de uma febre, a ver as horas a escorrer na inutilidade da prostração, um homem sente-se, no auge de uma constipação a ler perpetuamente este excerto de Nietzsche, do seu livro A Gaia Ciência, com que hoje o dia findou, a frase a rodopiar-me a cabeça, eu num atchim potente de exclamação sentida: «Temo que os bichos considerem o homem como um semelhante que se privou da razão animal sadia, como um animal no delírio, que ri e que chora, como um animal infeliz».
Haverá lá coisa mais sem razão do que este delírio de gripes, que tornam o rei da criação uma insignificância expectorante, reduzido à vil domesticidade de uns cházinhos e outras tizanas meladas, galinha chocadeira da própria canja, aspirina sem metafísica, salta um conhaque que mal não faz mesmo quando não cura e ao menos sempre se esquece!
A branca madrugada
Nestes dias de frio polar o Homem apercebe-se de qualquer coisa profundamente errada estar a acontecer no mundo em que habita. Não que se não esteja em Janeiro, mas porque amanhã pode surgir, de um modo tão inesperado como este gelo, uma vaga de tórrido calor, chuvas de afogar ou uma seca sem fim.
Tudo parece condenado à única sorte fatal, inexorável e definitiva: a suprema lei do acaso gerar a inevitabilidade do caos.
Pó neste tumulto de elementos erráticos, o Homem apercebe-se, enfim medroso, de que pode ter pecado contra o equilíbrio do mundo, desorganizando as leis do Universo, arrostando a cólera da Natureza.
Ei-la agora a branca madrugada em que nas nossas metrópoles se descobre que há cada vez mais velhos, mais mulheres, cada vez menos famílias, um mundo de solidões, desencontros, de histórias de impossibilidades. Neste deserto humano de arranjos de ocasião, de vigílias noctívagas, faz agora tanto frio nas ruas como nas almas gélidas desses sem abrigo dos amores funestos.
Cumpre-se um ciclo, o homem e o seu habitat enfim indiferenciados, o mineral a assenhorar-se de tudo quanto ainda vive, o sol a empalidecer.
Tudo parece condenado à única sorte fatal, inexorável e definitiva: a suprema lei do acaso gerar a inevitabilidade do caos.
Pó neste tumulto de elementos erráticos, o Homem apercebe-se, enfim medroso, de que pode ter pecado contra o equilíbrio do mundo, desorganizando as leis do Universo, arrostando a cólera da Natureza.
Ei-la agora a branca madrugada em que nas nossas metrópoles se descobre que há cada vez mais velhos, mais mulheres, cada vez menos famílias, um mundo de solidões, desencontros, de histórias de impossibilidades. Neste deserto humano de arranjos de ocasião, de vigílias noctívagas, faz agora tanto frio nas ruas como nas almas gélidas desses sem abrigo dos amores funestos.
Cumpre-se um ciclo, o homem e o seu habitat enfim indiferenciados, o mineral a assenhorar-se de tudo quanto ainda vive, o sol a empalidecer.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
O sangrar por dentro
Foi ele quem me ensinou que é possível escrever-se de modo breve. Um dia visitei-o em casa, ali junto à Basílica da Estrela. Bebericando uísque, descemos ao inferno de uma história sobre a qual estou hoje a traduzir um livro e já atrasado, fantástico acaso, com ele no pensamento. Ao chegar à rua, nessa tarde fria de um tão sentido encontro, senti-me tão bêbado que nem sabia onde deixara o carro. A vida tem destes momentos de magnificência. Felizmente há memória para se viver cada momento do tempo para além do tempo do momento.
Ora encontrei-o hoje, através de um livro onde arquivou trezentas das mil e quinhentas crónicas que cinco vezes por semana nos deixava no Diário de Notícias. Editado pela Contexto e eu, retardatário na cultura, distraído no reparar, que só há pouco tempo soube, por uma menção confessional das que fazem nódoa negra na pele, que é uma forma de se sangrar por dentro, que a Contexto era do Manuel de Brito!
Vinha isto a propósito de uma das colunas em que anunciou, por doença, o fim dos seus escritos. Com o fim à vista, Vítor da Cunha Rego escrevia, naquela forma plural de falar de si: «Faremos o possível por tornar normais esses cinco dias».
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
As Janeiras
«Como é tradição desde os romanos, cantemos as janeiras para afastar os maus espíritos e desejar um bom ano». Cito da Livraria Pó dos Livros. Fica ao pé de casa. Passo por lá, por vezes a caminho do Pingo Doce. Não sorriem muito, mas são amáveis para com os livros. A vida é feita disto, de comezainas e não só de leiturzainas. Lembraram-me que se cantam as janeiras, para desejar bom ano. Cantei-as com eles.
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